O Reino, a igreja, o casamento e Martinho Lutero!

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Por Josemar Bessa

É possível estar focado no Reino de Deus enquanto tenho uma atitude de desprezo para com a igreja? É comum ouvirmos em nossos tristes dias: "Minha paixão não é para construir a minha igreja. Minha paixão é o Reino de Deus. "

Isso pode parecer nobre, eu nem isso acho, mas é anti-bíblico e errado. Na verdade se mostra destrutivo.

Você tem como estar focado no casamento, como uma coisa geral... enquanto diz que não se importa com a edificação do seu próprio casamento numa relação real, com alguém real, enfrentando problemas reais... que exigem crescimento, negação, aplicação de tudo o que Deus diz sobre o casamento implementado na vida diária?

Suponha que eu dissesse: "Minha paixão não é construir o meu casamento. Minha paixão é pelo casamento com algo geral. Eu quero que a instituição do casamento seja  reverenciado novamente. Eu vou trabalhar para isso. Vou orar por isso. Eu vou me sacrificar por isso. Mas não espere que eu na realidade venha a me submeter as dificuldades para construir um grande casamento como Deus o determinou com Claudia, minha esposa. Meu objetivo é maior, é o casamento em si.”

Você diria – Caramba! Josemar é tão comprometido com o casamento que ele nem se importa em edificar na vida real o dele mesmo... Ou você diria que claramente eu tinha perdido todo o ponto do que Deus ensina sobre o casamento e o propósito dele?

Se um homem se preocupa com o Reino, ele será encontrado envolvido em sua igreja local. Junto com ela, orando por ela, contribuindo para sua maturidade, envolvido (como um homem em seu casamento) em uma paixão sincera.

Pense em Martinho Lutero – poucos homens foram tão usados para a edificação do Reino de Deus, mas como ele fez isso? Você poderia imaginar Lutero dizendo: "Minha paixão não é para construir a minha igreja. Minha paixão é o Reino de Deus. "

Em primeiro lugar, Lutero foi um pregador em sua igreja local – mais pregador que a maioria dos pregadores. Lutero conhecia o fardo e a pressão da pregação semanal na igreja local. Havia duas igrejas em Wittenberg, a igreja da cidade e a igreja do castelo. Lutero era um pregador regular na igreja da cidade. Ele afirmou: "Se hoje pudesse me tornar rei ou imperador, ainda assim não renunciaria ao meu ofício de pregador". Era compelido por uma paixão pela exaltação de Deus na Palavra. Em uma das suas orações, ele diz: "Querido Senhor Deus, quero pregar para que o Senhor seja glorificado. Quero falar do Senhor, louvar ao Senhor, louvar o teu nome. Mesmo que eu não possa fazer tudo isso, será que o Senhor não poderia fazer com que tudo isso desse certo"?

Para sentir a força desse compromisso, você precisa perceber que na igreja em Wittenberg não havia nenhuma programação de igreja, somente louvor e pregação. Aos domingos, havia o louvor das cinco horas com um sermão na Epístola, o culto das dez horas com um sermão do Evangelho e uma mensagem da tarde sobre o Antigo Testamento ou catecismo. Os sermões de segunda e terça-feira eram sobre o catecismo; o de quarta-feira sobre Mateus; às quintas e sextas sobre as cartas apostólicas; e aos sábados sobre João.

Ele pregou, por exemplo, 117 sermões em Wittenberg em 1522 e 137 sermões no ano seguinte. Em 1528, pregou quase 200 vezes e no ano de 1529, pregou 121 sermões. Portanto, nesses quatro anos, a média foi de um sermão a cada dois dias e meio. Como Fred Meuser disse no livro sobre a pregação de Lutero: "Ele nunca tirou um fim de semana de folga. Nem mesmo um dia por semana de folga. Nunca tirou férias do trabalho de pregação, ensino, estudo individual, produção e escrita. Esse é o grande reformador tão grandemente foi usado por Deus para a edificação do seu Reino aqui.

Nós fazemos na igreja da mesma forma como construímos grandes casamentos - compromisso real que faz uma diferença positiva de maneira prática. E, assim, e só dessa forma, o Reino de Deus é edificado aqui na terra.

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Carta de João Calvino a Lutero

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Por João Calvino - 21 de Janeiro de 1545

Ao mui excelente pastor da Igreja Cristã, Dr. M. Lutero, [1] meu tão respeitado pai. Quando disse que meus compatriotas franceses, [2] que muitos deles foram tirados da obscuridade do Papado para a autêntica fé, nada alteraram da sua pública profissão, [3] e que eles continuam a corromper-se com a sacrílega adoração dos Papistas, como se eles nunca tivessem experimentado o sabor da verdadeira doutrina, fui totalmente incapaz de conter-me de reprovar tão grande preguiça e negligência, no modo que pensei que ela merece. O que de fato está fazendo esta fé que mente sepultando no coração, senão romper com a confissão de fé? Que espécie de religião pode ser esta, que mente submergindo sob semelhante idolatria? Não me comprometo, todavia, de tratar o argumento aqui, pois já o tenho feito de modo mais extenso em dois pequenos tratados, em que, se não te for incomodo olha-los, perceberá o que penso com maior clareza que em ambos, e através da sua leitura encontrará as razões pelas quais tenho me forçado a formar tais opiniões; de fato, muitos de nosso povo, até aqui estavam em profundo sono numa falsa segurança, mas foram despertados, começando a considerar o que eles deveriam fazer. Mas, por isso que é difícil ignorar toda a consideração que eles têm por mim, para expor as suas vidas ao perigo, ou suscitar o desprazer da humanidade para encontrar a ira do mundo, ou abandonando as suas expectativas do lar em sua terra natal, ao entrar numa vida de exílio voluntário, eles são impedidos ou expulsos pelas dificuldades duma residência forçada. Eles têm outros motivos, entretanto, é algo razoável, pelo que se pode perceber que somente buscam encontrar algum tipo de justificativa. Nestas circunstâncias, eles se apegam na incerteza; por isso, eles estão desejosos em ouvir a sua opinião, a qual eles merecem defender com reverência, assim, ela servirá grandemente para confirmar-lhes. Eles têm me requisitado de enviar um mensageiro confiável até você, que pudesse registrar a sua resposta para nós sobre esta questão. Pois, penso que foi de grande conseqüência para eles ter o benefício de sua autoridade, para que não continuem vacilando; e eu mesmo estou convicto desta necessidade, estive relutante de recusar o que eles solicitaram. Agora, entretanto, mui respeitado pai, no Senhor, eu suplico a ti, por Cristo, que você não despreze receber a preocupação para sua causa e minha; primeiro, que você pudesse ler atentamente a epístola escrita em seu nome, e meus pequenos livros, calmamente e nas horas livres, ou que pudesse solicitar a alguém que se ocupasse em ler, e repassasse a substância deles a você. Por último, que você escrevesse e nos enviasse de volta a sua opinião em poucas palavras. De fato, estive indisposto em incomodar você em meio de tantos fardos e vários empreendimentos; mas tal é o seu senso de justiça, que você não poderia supor que eu faria isto a menos que compelido pela necessidade do caso; entretanto, confio que você me perdoará. Quão bom seria se eu pudesse voar até você, pudera eu em poucas horas desfrutar da alegria da sua companhia; pois, preferiria, e isto seria muito melhor, conversar pessoalmente com você não somente nesta questão, mas também sobre outras; mas, vejo que isto não é possível nesta terra, mas espero que em breve venha a ser no reino de Deus. Adeus, mui renomado senhor, mui distinto ministro de Cristo, e meu sempre honrado pai. O Senhor te governe até o fim, pelo seu próprio Espírito, que você possa perseverar continuamente até o fim, para o benefício e bem comum de sua própria Igreja.

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Notas:

[1] - Nota do tradutor: O especial interesse por esta carta, pelo que sabemos, é que ela é a única que Calvino escreveu a Lutero.
[2] - Nota do tradutor: Pelo que parece Calvino se refere aos huguenotes que embora haviam assumido o compromisso com uma confissão de fé reformada, mas na prática ainda preservavam os ídolos, toda a pompa e ritual da missa católica romana. Esta prática evidenciava uma incoerência entre o ato e a convicção de fé.
[3] - Nota do tradutor: Calvino se refere ao culto como uma confissão pública de fé.

Extraído de: Letters of John Calvin: Select from the Bonnet Edition with an introductory biographical sketch (Edinburgh, The Banner of Truth Trust, 1980), pp. 71-73.

Tradução livre: Rev. Ewerton B.Tokashiki, Pastor da Igreja Presbiteriana de Cerejeiras RO. Prof. de Teologia Sistemática no SPBC extensão Ji-Paraná.

Fonte: Monergismo
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As Indulgências: estopim da Reforma

.Por - Manoel Canuto
A base doutrinária para a existência de indulgência era o ensino da Igreja de que ela tinha a custódia (a guarda) dos Tesouros dos Méritos que foram adquiridos pelos grandes santos que haviam excedido as boas obras necessárias para a salvação. Esse excesso de méritos se tornava uma fonte que a Igreja poderia distribuir aos que estavam deficientes espiritualmente, os pecadores necessitados. Isso era feito através de um certificado assinado pelo Papa que era adquirido pelo povo e assim se obter os méritos que necessitavam desta “caixa de méritos”, deste tesouro de méritos.

Foi nos anos de 1460 a 1470 que o Papa Sixtus IV declarou os benefícios das indulgências para os que haviam ido para o purgatório. Como fruto da ignorância espiritual e da sede de riqueza e poder por parte da Igreja, surgiram as indulgências através dais quais a salvação era comprada por dinheiro. Esse dinheiro era dividido entre os banqueiros da época, o Papa, e uma parte ficava com o mais talentoso vendedor de indulgências: Tetzel. Na venda destas indulgências havia variedade de preços, pois Tetzel era hábil e criou um meio de atingir os ricos e pobres. Quem era rico dava mais e os pobres davam menos, mas todos davam.

Era outono de 1517 quando começaram as vendas destas indulgências. O anúncio era de que os compradores poderiam obter remissão dos pecados das pessoas queridas que já houvessem morrido e ido para o purgatório. Consequentemente pessoas faziam esforços tremendos para libertarem seus queridos dos tormentos do purgatório (lugar de punição temporal pelos pecados) e tivessem a entrada no céu assegurada. Para isso bastava comprar os certificados assinados pelo Papa. Tetzel repetia sempre o “jingle”: “Assim que a moeda no cofre tilintar, alma do purgatório saltará”.

Informações destas atividades de Tetzel chegaram ao conhecimento de um professor de Teologia da Universidade de Wittemberg que as recebeu completamente consternado, mas, provocando sua ira. Seu nome era Martinho Lutero. Ele já havia refletido muito sobre sua condição de pecador e sua incapacidade para ser salvo através de obras meritórias e havia chegado à conclusão, pelas Escrituras, que a salvação é pela graça de Deus somente.

No dia 31 de outubro de 1517, Martinho Lutero, inflamado, desafiou a Igreja protestando de uma forma que ficaria marcada na história da Igreja perpetuamente. Foi à frente da porta da igreja do castelo de Wittenberg com um documento na mão e um martelo na outra, e afixou na porta uma lista com 95 protestos escritos em latim contra a venda das condenáveis e antibíblicas indulgências. Lutero anunciava ao povo que eles estavam sendo cruelmente enganados. A imprensa escrita que havia sido inventada por Gutemberg foi de muita importância para a divulgação das teses de Lutero em toda Europa, sendo traduzido para vários idiomas. Com isso, a venda de indulgências caiu muito e fez “doer” muito o bolso da Igreja. Isso provocaria a Dieta de Worms onde Lutero mais tarde seria julgado pelos seus escritos e convicções.

Naquela época a Igreja ensinava que o perdão dos pecados poderia ser conseguido através do sacramento da penitência, quando o padre, representando Jesus, absolvia o pecador que confessava seus pecados e dava uma contribuição à Igreja como penitência. Lutero queria uma reforma na Igreja; queria trazê-la de volta às Escrituras para restaurar a pureza da fé. Não queria se tornar fundador de uma igreja separada. Lutero soube depois que a corrupção já havia atingido a cúpula de Roma e que o Papa Leão X e Albrecht, o arcebispo de Mainz haviam organizado a venda das indulgências.

Autor: Manoel Canuto
Fonte: A fé protestante
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A Necessidade do Novo Nascimento (sermão pregado por Martinho Lutero)


Sermão pregado pelo Reformador Martinho Lutero, para o Domingo da Santíssima Trindade de 11 de junho de 1536:

"Havia um homem dos fariseus que se chamava Nicodemos, um principal entre os judeus. Este veio a Jesus de noite e lhe disse: “Rabi, sabemos que és mestre vindo de Deus, porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes se Deus não estiver com ele. Respondeu-lhe Jesus: “Em verdade, em verdade te digo se o homem não nascer de novo, não poderá ver o reino de Deus”. Nicodemos lhe disse: “Como pode um homem nascer de novo sendo velho? Pode por acaso entrar uma segunda vez no ventre de sua mãe e nascer?”Respondeu-lhe Jesus: “Em verdade, em verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito não poderá entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne; o que é nascido do Espírito é Espírito. Não te maravilhes do que eu te disse: é necessário nascer de novo. O vento sopra onde quer e se ouve o seu som; mas ninguém sabe de onde vem e nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito”. Perguntou-lhe Nicodemos: “ Como pode acontecer isso?” Respondeu-lhe Jesus: “Tu és mestre de Israel  e não sabe disso? Em verdade, em verdade te digo que aquilo sabemos falamos, e aquilo que temos visto testificamos, mas vós não recebeis o nosso testemunho. Se eu vos tenho dito coisas terrenas e não acreditastes, como acreditareis se eu vos falar das celestiais? Ninguém subiu ao céu, senão aquele que de lá desceu, o Filho do Homem, que está no céu. E assim como Moisés levantou a serpente do deserto, é necessário que o filho do homem seja levantado para que todo aquele que Nele crer, não se perda, mas tenha vida eterna. Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu filho unigênito para que todo aquele que Nele crer não se perda, mas tenha vida eterna”. João 3:1-16

COMO ALCANÇAR A SALVAÇÃO, a pergunta principal da humanidade

Hoje ainda não lhes foi explicado o Evangelho. Escreve o evangelista São João que certo fariseu de nome Nicodemos veio ao Senhor de noite e teve com ele uma conversa, e Cristo, de sua parte, lhe pregou um sermão para aquele homem piedoso que realmente ele não sabia que fazer com ele: quanto mais o ouvia, menos o entendia.

Sobre essa historia se prega todo ano. Mas como hoje o momento novamente é propício, falaremos mais uma vez sobre ela. Desde que o mundo existe, os sábios que existem nele se perguntam: “De que modo se pode alcançar a justiça e a bem-aventurança?” Essa questão se discute desde quando há homens na terra, e continuará sendo discutida até que o mundo chegue a seu fim. Ainda nos nossos dias atuais pode-se ver com quanto ardor debatemos esse assunto. Todos crêem estar em condições de emitir um juízo, porém, com seu juízo, revelam sua ignorância. Esta mesma questão, como nos informa o Evangelho para o dia de hoje, Cristo a tratou com um homem que, falando nos términos da lei judaica, era uma pessoa corretíssima e muito instruída.

Aquele homem quer discutir sobre aquilo que devemos fazer e como devemos viver para sermos salvos, e espera que Cristo lhe dê uma resposta. “Porque tu” ele diz, “és mestre vindo de Deus, pois os sinais que tu fazes vão além da capacidade de qualquer ser humano. Nós os fariseus ensinamos, no campo do espiritual, a lei de Moisés. Opinas tu que há algo melhor que possa nos recomendar?” Surge assim na discussão entre ambos a pergunta sobre as obras, ou seja, a vida perfeita – a pergunta que inquieta aos homens de todas as gerações.

I. O que tenta alcançar a salvação pelos caminhos das obras, não a alcançará

Já os antigos romanos meditavam com muita seriedade sobre qual era o caminho reto a seguir, acerca de como, por exemplo, se devia lidar corretamente com a casa e a família. Seus interesses se dirigiam diante de toda a exata determinação do que exige a “justiça”. Mas com isso se meteram em um problema que não tem solução, como eles mesmos tiveram que admitir: “excesso de justiça, excesso de injustiça.” Por qual motivo? Porque a “justiça” no sentido estrito da palavra está fora de nosso alcance. Por isso que se tem que buscar o caminho do meio e adaptar-se às circunstâncias. Nesse sentido também se costuma dizer: “acertou como os atiradores quando acertam o alvo”, quer dizer, não graças a sua pontaria, senão graças a um impacto fortuito. Pois um bom atirador e até um eventual ganhador é também aquele que chegou mais próximo do alvo. Assim o reconhecem até os juristas. Tem que se dar por satisfeitos se com seu governo e administração da coisa pública conseguem que ninguém inflija a outro injustiças muito grosseiras, ainda quando seja impossível acertar e aplicar rigidamente a justiça em sua forma pura. Porém quando chega ao poder um desses desorientados, só causa alvoroço, distúrbios e dissensões.

Assim toda autoridade secular tem que se ater ao que é possível. Não obstante, a razão gostaria de elevar a salvação ou a uma ordem política perfeita pela via da injustiça. Porém tal coisa é impossível. Que fazer então? Quase se diria que acontece como com aquele que queria subir uma alta montanha e por não poder fazer, exclamou: “Pois bem, ficarei aqui”. No entanto, Cristo nos diz: “Se vossa justiça não for maior que a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos céus” (Mateus 5:20). Ali no sermão do monte o Senhor explica qual o verdadeiro cumprimento da lei, e o que significa acertar o alvo: não se irar, nem mesmo no recôndito do coração; não cobiçar nem mesmo em pensamentos a mulher ou os bens do nosso próximo. Ali se coloca diante dos nossos olhos a justiça mais perfeita. E, apesar de tudo os homens acreditam poder alcançá-la mediante o cumprimento da lei. “Não queremos nem pretendemos”, dizem, “acertar exatamente o alvo”; se o conseguem com certa aproximação, se têm por desculpados. Nós, porém, atentamos para o que nos ensina Cristo: “Ninguém pode ver o reino de Deus ao menos que tenha acertado o alvo”. E no Apocalipse lemos: “Neste tabernáculo não entrará nenhum imundo”. Que devemos fazer pois? Também exclamaremos: “Temos que ficar aqui embaixo, não podemos subir a montanha”?

Tampouco Nicodemos sabe outra coisa que esta: “Eu sou uma pessoa correta, vivo piedosamente conforme a lei e transito pelo caminho que conduz ao céu”. E agora ele quer que esse Mestre lhe expresse sua aprovação ou desaprovação – ainda que não gostaria de pensar nesta última opção, senão espera que o Senhor lhe responda: “Sim, Nicodemos, és perfeito, e ainda: Já és bem-aventurado e os demais entrariam no reino dos céus se fizessem como tu”. Porém, ocorre justamente o contrário: Cristo o bota a correr do reino dos céus: “Por certo, és um homem bom. Porém se não nasces de novo, tua justiça não te servirá de nada.” O “nascer de novo”: esta é a justiça na qual insistimos tanto em nossa pregação. Ou seja: Cristo não tem a intenção de rechaçar a lei, antes quer que ela seja cumprida. “Porém”, diz “a forma como  vós a cumpríeis não tem validade. Cumpríeis a lei só em vossa imaginação, mas não na realidade. Os Dez Mandamentos são perfeitos, e quero que os cumpra. Quem quiser entrar no céu tem que cumpri-los. Porém, com o vosso conceito do ‘direito’ e com a vossa justiça, não os estais cumprindo”. Não temos outra justiça melhor do que a que resultaria do meu cumprimento de tudo o que se manda nas duas tábuas da lei de Moisés. Então seríamos “justos” – porém só justos conforme a justiça dos fariseus, e não conforme a justiça exigida pela lei.

II.  Só a regeneração nos torna participantes da salvação eterna

É-nos dito, pois: “lhe é necessário nascer pela segunda vez”. Para Nicodemos isso é chocante. Ele pensa em outras leis, alem do ponto das leis mosaicas, tais como as que achamos no papado e no judaísmo farisaico; espera que Cristo estabeleça artigos novos, leis novas, todo um código novo. Porém, nada disso: Cristo não diz uma palavra quanto a leis e estatutos novos. “Pois o que possuis em matéria de leis já é mais do que podeis cumprir. Eu, em troca, os prego assim: Vós, vós mesmos precisam chegar ser outras pessoas. Eu não falo de fazer ou não fazer, senão de chegar a ser. Tu tens que chegar a ser outro homem, tens que nascer de novo. Isso será então a justiça que acerta o alvo, a justiça sem mancha nem ruga, a justiça que conseguirá entrar no céu”. Para Nicodemos, ao ouvir Jesus falar dessa maneira, lhe vem certas duvidas. Essas são palavras novas para ele. “Entrar eu pela segunda vez no ventre de minha mãe? Tolice!” Porém a essas tolices Cristo acrescenta outras piores: “não te digo que tenhas de nascer de novo de pai e mãe humanos, senão da água e do Espírito Santo”. Agora, Nicodemos fica totalmente confundido. “Que homem e mulher são esses: água e Espírito?” E como se ainda não fosse suficiente, Cristo lhe pergunta: “Tu és mestre de Israel e não sabes disso?”, o que soa como zombaria manifesta. E sem dúvida, Cristo tem que falar assim porque o assunto é totalmente novo para Nicodemos. Para explicá-lo Cristo recorre a uma ilustração como se quisesse dizer a Nicodemos: “queres que eu desenhe para que tu entendas? Digo-te porém: se não podes captar com a razão, capta-a com a fé. Pois se não acreditaste quando te falei coisas terrenas, como crerás se eu te falasse das coisas espirituais? Nós falamos o que sabemos, e o que sabemos é a verdade e vós não acreditais Pois bem: se alguém não quer crer, deixe-se!”

A nossa pregação, iniciada naquelas condições por Cristo, se apoia exclusivamente na fé. Só com a fé se pode compreender da “regeneração pela água e pelo Espírito”. O Espírito é o homem e a água a mulher. O que isso implica, não o podes medir com a tua razão. Daí o tema que pregamos seja artigo de boas obras ou de fé. E já os papistas aprenderam algo de nós ao dizer que com a fé e a graça começa a vida verdadeiramente cristã. Antes só se falava da missa privada e da invocação dos santos; agora, em troca, dizem que a fé, efetivamente, salva, porém não só a fé, senão a fé em cooperação com nossas obras. E essa cooperação, apóiam, é imprescindível. E a nós criticam duramente afirmando que proibimos as  obras e induzimos os homens à preguiça. Todavia lhes falta bastante para serem tão piedosos e estarem tão próximos da verdade como Nicodemos. Nós nunca proibimos as boas obras; mais ainda: se dizemos algo a respeito das boas obras, nossa própria gente fica logo com raiva, o qual é um claro sinal de que realmente pregamos sobre esse tema.

E apesar disso os papistas seguem blasfemando de nós. Eles ensinam: “as boas obras têm quer vir com a ajuda da fé – vãs palavras que demonstram que esses mestres não têm noção do que é fé, boas obras, nascer do Espírito, nascer de Deus. É por isso que é necessário que estudemos com cuidado o nosso presente texto (João 3:5) e outros iguais. Aqui se fala de “nascer de novo”, não de “fazer algo novo”. Primeiro deves plantar uma arvore, e logo terás também os frutos. Segundo seja boa ou mal a arvore, serão também bons ou maus os frutos. O mesmo ocorre aqui. Nós chamamos um novo nascimento, quer dizer, uma nova maneira de ser, uma nova pessoa, não somente um novo vestido ou novas obras. Quando eu era monge, minha vestimenta era distinta e também minhas obras eram; as sete horas para as orações, a missa, o crisma, o celibato – todas essas eram outras obras, muito dessemelhantes de minhas obras anteriores. Porém a simples mudança das obras não é o que vale; que mude a pessoa, que mudem os pensamentos e o ânimo: esse é o novo nascimento. Portanto não se pode sobrepor as obras à fé. Em que uma criança contribui para que seja concebida e venha à luz? Isso é obra dos pais; a criança não faz nada para que suas perninhas e todos os seus membros cresçam; não é  parte ativa nesse processo de crescimento, senão parte meramente passiva. Qual foi, nesse sentido, a nossa contribuição? Onde estão as obras cooperantes? Queria saber então de onde vem essa insistência de que se deve agregar também obras , e logo obras próprias nossas!

É verdade: a mãe leva a criatura em suas entranhas e lhe dá o calor materno; no entanto, não é obra dela que essa criatura se origine. De igual maneira quem pregamos e batizamos somos nós, no entanto, a palavra e o batismo não são nossos; somente pomos à disposição nossa boca e nossas mãos. Na realidade a palavra e o batismo são de Deus, no entanto somos chamados colaboradores de Deus (1 Coríntios 3:9). É, por certo, uma colaboração bastante modesta a nossa. Não que contribuamos com obra ou a palavra; o único com que contribuo ao batizar e pregar é com a voz, os dedos, a boca. Assim, na geração de uma criança, o pai e a mãe só contribuem com a carne e o sangue como fatores seus; a criatura concebida não contribui absolutamente em nada, senão que “se deixa criar” por Deus todos os seus membros, e a mãe a leva em seu seio. Há alguma razão então para que eu retire a honra de Deus e diga que eu mesmo me gerei e que minha própria atuação contribuiu para que eu nascesse? Isso não significaria um agravo a Deus? Por acaso não somos chamados seus filhos, obras de suas mãos? Se é verdade que as obras colaboram na regeneração, vejo-me obrigado também a achar que eu colaborei com Deus – e isso é uma blasfêmia contra Ele. Mas se é verdade que eu sou nascido de novo, como diz Cristo, não tenho que colaborar com nada, senão que tenho que permanecer quieto e passivo para aquele que é meu Pai e Criador me faça nascer de novo como filho seu. Nesse sentido o apostolo Paulo declara que “nós somos uma nova criação, criados em Cristo para boas obras”. Como se vê, Paulo não se esquece das boas obras, mas as menciona não por que tenham contribuído em algo, não por que sejam elas que produzem a nova criação, mas “para que andássemos nelas”. Se é certo que minhas próprias obras contribuem para que eu seja uma nova criação, bem posso me gloriar de ser meu próprio Deus; porque o criar é obra exclusiva de Deus. Se eu colaboro, então Deus não é meu único Deus, senão que eu também o sou. Por outro lado, se Ele é o único, não o posso ser eu também, como se afirma muito claramente no Salmo: “Ele nos fez e não nós a nós mesmos; somos seu povo e ovelhas de seu pasto”. E não obstante, certa gente incorre em tremenda tolice de sustentar que a fé cria homens novos, mas com a ajuda das obras. Mas precisa de toda lógica dizer que eu me crio a mim mesmo e sou Deus junto com Deus, de modo que Ele me tem a seu lado como um Deus adjunto. Assim como eu não me formei a mim mesmo no corpo de minha mãe, senão que foi Deus quem me formou, valendo-se dos meus membros e do calor de minha mãe, assim tampouco na regeneração somos convencidos mediante nossas próprias forças e obras, senão unicamente pelas mãos e o Espírito de Deus. Em consequência, é ilícito acrescentar obras à fé; do contrário, não é Deus só o que me cria, senão que eu sou simultaneamente com ele meu próprio criador. Ao fogo do inferno com um criador que se cria a si mesmo! A Escritura me chama de uma nova criação de Deus e, não obstante, eu haveria de atribuir a nova criação a mim mesmo? De esse modo eu seria criação e criador, obra e obrador em uma mesma pessoa. A toda luz, esses são pensamentos diabólicos e ensinos de homens cegos. Devemos observar estritamente ao que aqui nos ensina o evangelista São João. Também Paulo nos chama “novas criaturas”. Da mesma maneira, pois, como não contribuo para meu nascimento corporal e pela minha concepção, senão que sou parte meramente passiva e ‘me faço’ gerar e criar, da mesma maneira tampouco as obras contribuem em nada para que o homem seja regenerado. Se não for assim, Deus já não será apenas Deus, senão que nós seremos Deus junto com Ele e seremos nossos próprios progenitores. Mas quando a criatura já está gerada, e quando a criancinha já está formada no seio materno com todos seus membros, a mãe diz: “Sinto que o nenezinho faz as obras que em seu estado pode fazer”. Porem, só o já criado dá esses sinais de sua existência, e só quando foi dado à luz move seus membros, e fica com vida, aprende a caminhar e a cantar. Mas se não tivesse sido criada previamente, agora não se moveria.

III. O regenerado se manifesta como crente mediante a prática de boas obras.

Nossa pregação quanto à nova criação é, pois, uma vez que fomos regenerados, devemos andar em boas obras. Nesse sentido fazemos algo: pregamos; aqueles, todavia, que são convertidos não fazem nada para chegar a sê-lo, já que somos criação e obra de Deus, “criados para que andássemos em boas obras” (Efésios 2:10). Essas palavras nos falam com inteira claridade. A semelhança com uma criatura humana é evidente. A criatura deve se separar do corpo materno; antes de estar completamente formada, não contribui em nada para esse fato. Por que Deus a beneficiou de membros? Para se mover; uma vez nascida deve caminhar, ficar de pé, comer, beber, trabalhar, mandar, pois para isso nasceu. Se não fizesse nada, seria um tronco ou uma pedra. Porém deve fazer algo, para isso foi criada. A isso se refere Cristo quando disse ao fariseu Nicodemos: “Todos vós quereis ser vossos próprios criadores. Possuíeis a lei de Moisés e esforçai-vos para cumpri-la. Porem não obtereis êxito, uma vez que ainda não nascestes de novo; não possuíeis o Espírito Santo. Por conseguinte todas as vossas obras são obras do velho homem. Podeis, por exemplo, construir uma casa ou fabricar um sapato, porém tais obras não têm nada haver com o céu. Não são obras que conferem justiça a quem as faz. Também os gentios são capazes de fazê-las. Ademais trazeis oferendas, circuncidais a vossos filhos, usais as vestiduras sagradas – também isso está ao alcance de qualquer pagão.  Por isso digo que são obras do homem velho, nascido uma só vez, a saber, do seio de sua mãe. Mas se quereis fazer obras que sejam de valor diante de Deus e que tragam proveito ao próximo, precisais nascer de novo. Vós por sua vez acreditam que o fazer obras que exteriormente parecem ser boas já está assegurada a vossa entrada no céu, ainda mesmo o coração não se achando no estado devido. Porem não façais as coisas ao contrário, não comeceis pelas obras!”

Também os papistas são da opinião de que se pode merecer o céu com suas obras que acompanham a graça. É um engano. As boas obras não podem ajudar de nenhuma forma, nem como obras que precedem a graça, nem como obras que lhe correm paralelas, nem tampouco como obras que seguem a graça, senão que tudo tem que proceder do Espírito Santo e da água. “No lugar de pai e mãe vos darei água e o Espírito Santo”, reza a pregação de Cristo. Onde isso é assim, posso dizer: “minhas próprias obras não me criaram, nem me geraram como nova criação, nem tampouco poderão fazê-lo, posto que fui criado e gerado da água e do Espírito”. Também resulta agora fácil provar e julgar os espíritos fanáticos. Pois o que nasceu, o que já foi feito e criado, não tem necessidade de ser feito e criado. Como podem dizer então que as obras subsequentes à graça me geram e me criam? Fazer boas obras é necessário; correto – porém não para chegar a ser por meio delas uma nova criação. Portanto há de se diferenciar entre fé e obras; assim, aqui o Senhor nos ensina. As obras feitas antes da fé são condenadas como pecado. Em contrapartida, as obras feitas por quem já tem fé são obras preciosas e boas. Todavia, tampouco essas servem para nos converter em homens justos, senão para louvar e glorificar a nosso Pai que está nos céus (Mateus 5:16) e para causar alegria aos anjos. Pois quem por meio de boas obras e de uma pregação frutífera honra ao Pai, receberá também dele a recompensa correspondente. Se não andas em boas obras, tampouco nasceu ainda para elas (Efésios 2:10).

Onde se ensina e se vive dessa maneira, a verdade aqui ensinada por Cristo permanece vigente em toda a pureza. Cristo diz que temos que nascer, Paulo reforça que temos que ser criados por Deus. Falando em termos de comparação com uma criatura: a criatura não se gera nem se faz nascer a si mesma, senão que depois de ser criada pode fazer obras. Analogamente, a árvore frutífera depois de plantada dá frutos. Não se diz: “Se não tiver peras na árvore, essa não é uma árvore”, senão o inverso. Por isso cresce a pereira, para que dê peras, para glória e louvor de Deus o Criador, e para que nós as comamos. Assim, a obra de Deus é a que precede, e a nossa obra é a que segue. Igualmente: se não existisse ferreiro, não existiria machado, pois para que machado corte, previamente precisa ser fabricado. Só um perfeito idiota poderia dizer: “Faz-me um machado que colabore na sua fabricação, de maneira que mediante seu despedaçar e cortar se transforme em machado”. Primeiro se fabrica o machado, e só então se pode empregá-lo nos trabalhos aos quais a ele se destinam.

Sobre esse tema se discute de modo por demais obstinado desde os primórdios da humanidade. E esse é o nosso ensino no qual insistimos com toda energia, afim de que conserve o lugar correspondente na igreja e para evitar que penetrem nela pessoas que atribuem um efeito também às obras precedentes ou concomitantes. Primeiro deve estar a criação, o nascimento: logo pode seguir a obra. Nicodemos não pode compreender isso porque ele vive na crença equivocada de que obterá êxito para entrar no céu graças as suas obras precedentes. Cristo se opõe a ele com um sonoro NÃO: “o que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus”. Todos aqueles que ensinam algo que contrarie esse artigo são falsos mestres. Nós, todavia, cremos e damos graças a Deus pelo fato de que ao fim foi trago a luz e posto ao conhecimento de todos qual é o verdadeiro caminho da vida: “Faz com que eu seja regenerado sem a colaboração de nenhuma obra minha, mas apenas pela palavra e pela fé”. Se tal é o caso, sou filho de Deus, tenho livre acesso a casa de meu Pai, e tudo quanto faço é bom e aceito diante de seus olhos. Se meu pé escorrega, Ele me castiga.  Se eu sou uma arvore boa, levo frutos bons. Se a árvore é tomada por vermes nocivos, o Pai os extermina. Se eu sou um bom machado, sirvo para cortar; se no machado se produz uma falha, também esse mal poderá ser sanado pelo Pai. Por isso vós os fariseus estais muito distantes do alvo com vossas obras precedentes; porque dessas resulta não mais que uma justiça válida diante dos olhos do mundo e para ela vale o que acabo de dizer quanto ao atirador. A justiça proveniente da fé acerta o alvo: aponta ao centro mesmo e penetra até a vida eterna – não por nossos próprios meios, senão em união com aquele que é o Mediador, do qual se fala na parte final do evangelho (João 3:14 e similares). Fomos criados por Ele e somos recriados por Ele; por meio Dele somos uma criação perfeita, apesar de ainda não estarmos livres de faltas e debilidades.

Isso se chama falar de forma cristã sobre a regeneração, da qual os papistas, os turcos e os judeus não têm o menor conhecimento. Estou seguro, portanto, que no Concílio[1] dos papistas rejeitarão esse artigo, já que a norma deles é julgar a obra de Deus segundo eles mesmos a entendem. Cristo, porém, sustenta invariavelmente: “O que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus”. É preciso, pois, deixar de lado os pensamentos próprios, a sabedoria própria, as opiniões próprias e ouvir somente a palavra por meio da qual é criado em ti um coração novo sem a tua contribuição, como o novo ser no corpo da mãe. Este texto soluciona a questão que se vem debatendo no mundo inteiro sobre como é possível uma vida bem-aventurada e feliz. Não há outro meio que a justiça efetuada pela regeneração não atinja o alvo.

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Original em espanhol: Nos Es Necesario Nacer De Nuevo.
Convertido para o formato digital por Andrés San Martín Arrizaga, 27 de Fevereiro de 2007
Tradução: Luciano de Oliveira
Revisão: Armando Marcos Pinto
18 de outubro de 2012
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Reforma Protestante e a Igreja de Hoje

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Por Kenneth Wieske

Em 31 de outubro de 1517 o monge Martinho Lutero que era Doutor e Professor na Universidade de Witemberg, na Alemanha, afixou uma lista de 95 teses na porta da Igreja com o propósito de serem analisadas e discutidas. Isso trouxe uma grande reação no mundo eclesiástico da época e deflagrou a Reforma Protestante do século XVI.

O que foi a Reforma Protestante? O que ela significa? Até os não religiosos têm conhecimento do fato, visto que trouxe grande influência não só na Europa, mas em todo mundo. A Reforma significa que a Igreja passou por uma restauração onde o clímax foi o retorno à Palavra de Deus. Podemos dizer que o ponto alto da Reforma foi o retroceder de uma igreja desviada da Palavra de Deus para os caminhos da verdade. Não foi algo semelhante a uma simples reforma de uma casa. Não foi também uma simples mudança estética ou a introdução de algumas novidades porque a Igreja precisava de coisas mais atuais. Muitos entendem “Igreja reformada, sempre reformando” como a introdução de novidades, inovações, na vida da Igreja. A Reforma foi uma volta à Palavra de Deus. Na essência não somos Luteranos, não temos oficialmente um nome de um homem – Calvinista – apesar da grandeza de Calvino, mas somos Reformados. Por quê? Porque somos a igreja de Cristo, a noiva de Cristo, a Igreja que sempre existiu e existirá. Somos uma Igreja que experimentou o processo de voltar à Palavra de Deus.

Somos a Igreja Católica que significa universal, a Igreja de Cristo em todo mundo. É uma Igreja que se livrou das doutrinas e acréscimos dos homens e voltou para a Palavra de Deus. Temos vários nomes: Igrejas Presbiterianas, Igrejas Reformadas... As igrejas Presbiterianas vieram da Escócia e Inglaterra, enquanto que as Reformadas vieram da Europa Continental como Holanda, Suíça, etc. As Igrejas Presbiterianas não têm um nome de um homem, como dissemos acima (por exemplo, “calvinistas”), mas este nome foi tirado do seu sistema de governo e isso é até uma confissão de fé. É Presbiteriana porque não é uma Igreja hierárquica, episcopal, papal, onde existe um papa que manda em tudo. A Igreja Presbiteriana é uma Igreja que voltou para a Palavra de Deus; tem a doutrina Reformada, sua Confissão é Reformada e seu sistema de governo é bíblico. As autoridades locais são os presbíteros que governam e não há forte distinção entre pastores e presbíteros, pois todos são presbíteros: os docentes e os regentes. Esta Igreja enfatiza o governo exercido por presbíteros e não por um “papa”. Mas é vergonhoso existirem Igrejas Presbiterianas que não estão praticando o que o nome diz (Presbiterianismo) e estão colocando novamente um tipo de “papa” (um homem só) que está mandando em toda a Igreja.

Hoje existem muitas Igrejas Presbiterianas liberais, que têm se voltado para uma hierarquia episcopal, papal. Não estão respeitando suas raízes. É claro que existem também Confederações de Igrejas Reformadas que estão desviadas da verdade e são liberais.

Como era a situação há 500 anos? Era uma situação terrível e triste porque o homem vivia sob o medo; só conseguia ver um Deus irado, enraivecido, que ditava castigos e julgamentos sobre a terra. Já no século XIV houve a peste bubônica que matou dezenas de milhares de pessoas e até o século XVI, milhares de pessoas passaram por muitos sofrimentos, aflições, catástrofes. A igreja se aproveitou disso para ensinar sobre um Deus carrasco que, irado, bradava com o povo exigindo arrependimento. Mas o povo não tinha a Bíblia para entender quem é Deus e como Ele se revela na Sua Palavra. O povo só tinha o que o padre dizia em latim, na missa (um ritual apenas). Isso levou as pessoas a ficarem ignorantes da Palavra e a consequência foi um povo extremamente supersticioso, vivendo numa atmosfera de medo, onde havia muitas referências de ameaças sobre o inferno, purgatório, pecado e a ira grotesca de Deus. As pessoas ficavam tremendo com a visão de um Deus iracundo. Muitas coisas eram vistas como algo demoníaco; viam-se bruxas e vultos em todo lugar. Foi um período de muita superstição e não havia a luz da Palavra de Deus. O Salmo 119 se refere à Palavra como uma luz, e essa luz faltava nessa época. Por isso o povo andava nas trevas, obscurecido, confuso, perdido e triste. Sem essa luz, as pessoas não tinham uma regra de fé e prática; não sabiam como fiscalizar o que os padres nas igrejas estavam dizendo. Os padres, bispos, cardeais e o papa podiam inventar qualquer coisa e afirmar que aquilo era o que Deus dizia. Na época, não era só a Palavra de Deus que era autoridade, mas especialmente a tradição da Igreja (Deus falava através da Igreja). Portanto, qualquer coisa que o Papa imaginasse isso era colocada como doutrina.

A igreja se aproveitou da situação para roubar o povo. Aproveitou-se do medo para roubar o povo usando como pretexto ensinos como purgatório, inferno, um Deus enraivecido, e, então, os clérigos conclamavam que dessem dinheiro para a Igreja, para Deus, e Ele receberia estas pessoas caridosas. Dessa forma a Igreja conseguiu construir grandes catedrais e os bispos e cardeais ficavam cada vez mais ricos e o povo mais pobre. Foi nesta época que o padre João Tetzel teve uma missão especial. Ele ia por todos os lugares falado “em nome de Deus e do Papa” dizendo: “Venham comprar este pedaço de papel, um documento que garante perdão a todos os seus pecados e, assim, terão acesso ao céu. Além disso, poderão comprá-lo para toda família e para pessoas que até já morreram. Se você gostava muito de seu avô que já morreu, isso poderá livrá-lo do purgatório”. Primeiro ele pregava sobre o purgatório, o inferno e do irmão de alguém que poderia estar sofrendo muito no fogo. Depois ele oferecia este documento chamado de indulgência e num momento, quando a moeda caísse dentro da caixa, a alma dos mortos pularia do purgatório para o céu. Todos queriam comprar este papel de João Tetzel para ter a garantia de que seus pecados e de seus familiares estavam perdoados, inclusive os que já haviam morrido. Assim, depois de receberem o perdão, poderiam viver de qualquer forma, fazendo o que desejavam, porque já haviam comprado o perdão e a salvação.

Lutero, vendo isso ficou irado, pois tudo era completamente contrário à Palavra de Deus. A Igreja estava tratando o arrependimento com um ato e não como um estilo de vida. Essa diferença é importante. A Bíblia na época era escrita em latim e o povo não tinha acesso a ela. É verdade que os pastores e pregadores sempre precisaram saber as línguas originais. Por isso os pastores reformados, em todo mundo, estudam as línguas originais para evitar basearem seus estudos apenas numa tradução. Em Mateus 4:17, lemos: “Daí por diante passou Jesus a pregar e a dizer: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus”. A expressão “arrependei-vos”, na versão latina (latim), é: “fazei penitência”. Então, a Igreja, sem olhar com cuidado o que isso significava, entendia que os filhos de Deus deveriam fazer alguma coisa (penitência) para cobrir seus pecados. Assim, o arrependimento tornava-se um ato. Você peca e depois faz penitência. Ora o Pai Nosso, reza a Ave Maria, dá algum dinheiro, faz caridade ou outras coisas semelhantes. Mas, Lutero tomou a Bíblia no grego, uma obra do erudito Erasmus de Roterdã, e viu que não era “fazei penitência” e sim “arrependei-vos ou convertei-vos”. O verbo não significa um ato de fazer alguma coisa, mas “humildemente tenha uma mudança de mente e de coração”. Por isso, em suas 95 teses, Lutero colocou como a primeira tese: “Nosso Senhor e mestre Jesus Cristo, em dizendo, arrependei-vos, afirmava que toda a vida dos fiéis deve ser um ato de arrependimento”. Então, essa mudança de mente e de coração deve se manifestar numa vida de santificação. Isso tinha consequências importantes e práticas.

Vejamos o que Lutero estava denunciando no ponto 45 e 46 das suas teses.
“Deve ensinar-se aos cristãos: um homem que vê um irmão em necessidade e passa de lado para dar o seu dinheiro para compra dos perdões, merece não a indulgência do Papa, mas a indignação de Deus” (45).

As pessoas pensavam que para tirar o pecado e a culpa tinham de fazer alguma coisa para Deus. Diziam: “Se for assim, eu vou dar dinheiro para Deus e receber um documento que me absolve, uma indulgência. Dessa forma posso adquirir perdão e ser santo.” Mas isso não tem sentido! Não podemos ver irmãos necessitados, famintos, em sofrimento, e fazer vista grossa não assistindo o carente, mas em lugar disso, vamos comprar nosso perdão. Ao invés de fazer o que a Bíblia diz, praticar a verdadeira religião que é cuidar dos necessitados, viúvas, órfãos, vamos “comprar” a graça de Deus. Esta é uma falsa doutrina.

“Deve-se ensinar aos cristãos que, a não ser que haja grande abundância de bens, são obrigados a guardar o que é necessário para os seus próprios lares e de modo algum gastar seus bens na compra de perdões” (46).

Lutero estava condenando aquele pai que, em lugar de suprir seu lar, esposa e filhos, usava o dinheiro para comprar o perdão como se fosse a vontade de Deus ver seus queridos sofrendo, tirando-lhes o pão e comprar da igreja o seu perdão. Isso era terrível. Era uma falsa doutrina. Não era alguma coisa de pouca importância como se apenas fosse um pequeno ensino diferente da Bíblia sem maiores consequências . Ao contrário, devemos dizer que falsa doutrina é um perigo para a Igreja, pois destrói a vida das pessoas. A falsa doutrina é uma força destrutiva.

Lutero vendo tudo isso e comparando com a Palavra de Deus concluiu que não deveria ser assim. Ele leu Romanos 1:16-17, e finalmente entendeu sobre a justiça de Deus que nós precisamos para entrar na Sua presença, para termos comunhão com Ele. O Salmo 15 diz: “Quem pode entrar na presença de Deus?”. “Quem, Senhor, habitará no teu tabernáculo? Quem há de morar no teu santo monte?”. A resposta é: Ninguém —se não for completamente santo e limpo.

Então, só o homem justo pode ter comunhão com Deus. Mas como adquirir esta justiça que Deus requer? Como conseguir um nível de santidade e perfeição que permite entrar na presença de Deus e viver com Ele para sempre? Lutero, como a maioria da Igreja da época, pensava que era através de fazer coisas; de fazer boas obras, de fazer por onde merecer o favor de Deus e se esforçar para chegar a este nível. Mas ele chegou a terrível conclusão de que era impossível conseguir a perfeição diante de um Deus santíssimo. Cada vez que tentava, via o quanto era um terrível pecador aos olhos deste Deus Santo. Ao ler Romanos 1:16 e 17, Deus abriu seus olhos para que visse claramente que a justiça de Deus é revelada: “...visto que a justiça de Deus se revela no Evangelho” (Rm1:17) - “é revelada”. Ou seja, que Ele está revelando na Sua Palavra e dizendo: “Minha justiça, que é meu Filho Jesus Cristo, eu a estou revelando”. Este é o dom de Deus que nos é dado como um presente para termos comunhão com Ele; para todos aqueles que, pela fé, vão a Cristo.

Lutero, nesta época entendeu estas coisas e afixou suas noventa e cinco teses na porta do Castelo de Witemberg e provocou uma “explosão” no mundo de então. Numa época em que a Igreja e Estado estavam juntos as coisas que aconteciam na Igreja repercutiam em toda sociedade. Este é mais ou menos um resumo do que estava acontecendo naqueles dias.

Semelhança com nossos dias.

Dr. Sinclair Ferguson, um Doutor e pastor Reformado da Escócia e Estados Unidos, certa vez advertiu à igreja evangélica de hoje de que uma nova escuridão estava caindo sobre nós, uma escuridão semelhante a da Idade Média, sem a luz da Palavra de Deus. Estas trevas estão caindo novamente sobre a Igreja. Ele cita cinco pontos onde os evangélicos de hoje estão caindo no mesmo “buraco negro” da Idade Média. Devemos ver como a chamada igreja evangélica dos nossos dias é semelhante àquela igreja escravizada na escuridão da Idade Média.

1) O arrependimento era visto como um ato desligado da vida de santidade.

Na Idade Média o arrependimento era um ato que alguém fazia para conseguir, por merecimento, o perdão de Deus. O ato de fazer alguma coisa e conseguir perdão era algo separado de uma mudança de coração e mente. Naquela época eu podia entrar no lugar onde Tetzel estava “pregando”, estando o meu coração cheio de pecado, mas com meu dinheiro comprar meu perdão e sair interiormente do mesmo modo como entrei: cheio de pecado, porém, agora, com o perdão. Não tinha nada do arrependimento descrito nas Escrituras. Era um simples ato. Podia-se pecar e simplesmente ir ao padre que recomendava algumas práticas, como rezar várias vezes o Pai Nosso e várias Ave Marias, algumas penitências e tudo estava resolvido. Mas, no coração não havia mudança. Hoje, em nossos dias, vemos a mesma coisa, não somente na Igreja Católica Romana, mas nas igrejas chamadas evangélicas. O grande ato de arrependimento, hoje, não é fazer penitências, ou rezar vários Pai Nossos e Ave Marias, ou comprar alguma indulgência como na Idade Média, mas o grande ato é o “aceitar Jesus” quando algum pregador arminiano faz aquele apelo após alguns minutos de pregação. Porque, se alguém aceita a Jesus está fazendo algo semelhante. Sai da igreja como se tivesse conseguido mérito diante de Deus, mesmo estando em pecado, pois esta pessoa, por seu livre arbítrio, “abriu” seu coração e deixou “Jesus entrar”. É algo meritório, pois “eu deixei” o Deus do Universo entrar em meu coração. Ele estava querendo entrar, mas não podia! Este ato torna a pessoa um “crente” e tira dele sua condição de pecado, mas quando ele cai, novamente fica em problemas. Isso era verdadeiro arrependimento? Não. Mas esse pensamento leva muitas pessoas que caíram, dizerem que um dia voltarão e “aceitarão a Jesus” outra vez fazendo um mesmo “ato de penitência” e quando o pecado sair novamente eles se acharão justos diante de Deus. Isso é exatamente a mesma coisa do que acontecia na Idade Média com a compra de indulgências que era vendida pela Igreja Católica.

Devemos fazer uma diferença entre a chamada Igreja Católica Romana, que é uma igreja que tem sua sede numa cidade da Itália (Roma), uma igreja Papal, Igreja Romanista, e a Igreja Católica da qual fazemos parte e que significa Universal, a igreja de Cristo espalhada por todo o mundo.

Enfatizamos que não há muita diferença entre aquele ato da Idade Média, onde se fazia alguma coisa para se conseguir perdão e o que vemos na igreja de hoje quando é aceito como um ato de arrependimento o “aceitar a Cristo” num apelo feito pelo pregador que escraviza as consciências dos ouvintes com suas ameaças e promessas.

Não é por acaso que hoje em dia a mesma coisa que acontecia na Igreja Católica Romana esteja acontecendo nas chamadas igrejas evangélicas. Pois, a igreja de hoje está roubando os pobres fazendo com que as pessoas deixem suas ofertas na igreja em troca de perdão. Muitos perguntam: “Você não quer deixar Deus entrar em sua vida? Você não tem fé? Abra sua carteira e dê do seu dinheiro como um ato de fé”. Então o pai de família toma seu salário de um mês e dá tudo, com a promessa de que receberá a bênção de Deus porque foi ensinado que fez alguma coisa por Deus, um ato merecedor de “bênçãos”. Isso é a mesma coisa da Idade Média. E mesmo que não seja tão evidente, o ato do apelo por decisão nos conduz de volta à ideia indulgente de arrependimento.

Assim, o arrependimento não é um ato de mudança de mente e coração realizado por Deus, mas um ato realizado por mim mesmo, com meu esforço, totalmente desvinculado de uma obra regeneradora do Espírito Santo.

2) A voz do Espírito Santo não só é ouvida quando Deus fala através das Escrituras.

As igrejas de hoje estão buscando novas revelações do Espírito. Toda vez que falamos que há uma possibilidade do Espírito de Deus falar além das Escrituras, a Bíblia “perde” todo seu valor. Isso aconteceu também na Idade Média. A Bíblia só tinha um valor supersticioso, pois se era usada, não era para levar instrução sobre a obra de Cristo e Sua salvação. Mas apenas se usava um texto de uma forma mágica para tirar “mau olhado”. Hoje se faz a mesma coisa quando vemos nos carros a figura de uma Bíblia aberta para que Deus evite algum acidente ou de alguma ação demoníaca. O mesmo que acontecia na Idade Média está acontecendo nas igrejas ditas evangélicas de hoje, porque a Bíblia não mais é a voz do Espírito Santo, mas Deus pode falar ao homem à parte das Escrituras através de revelações e através da voz direta de Deus.

A igreja de hoje não está usando a Bíblia como a única regra de fé e prática, mas está perdida, confusa, nas trevas.

Outra consequência deste ponto é que as pessoas não estão dando o valor nem a atenção devidos ao ensino da Palavra de Deus. Na Idade Média não se dava nenhum valor ao ensino da Palavra, mas procurava-se por milagres. Hoje, quando alguém recebe uma revelação extraordinária, todo mundo quer ouvir. Isso é estar no mesmo “buraco negro” da Idade Média.

3) A presença de Deus está nas mãos de um líder, de alguém que tem “poder”. O poder de Deus está nas mãos de um líder, alguém especial, uma pessoa “ungida” que pode comunicar o poder do Espírito através de meios físicos. Na Idade Média essa pessoa era o padre com seu poder místico que podia controlar os mistérios de Deus. Quando ele dava a hóstia, ele estava dando Jesus Cristo e o povo não entendia nada, pois o clérigo falava em latim. Mas o povo pensava que ele podia dar um pouco de Cristo quando colocava a hóstia na boca dos “fiéis” e tirar seus pecados e colocar graça. Hoje vemos o mesmo nas igrejas, na TV, nos cultos de igrejas chamadas evangélicas, onde há um grande líder da igreja que Diz: “Espírito de Deus, vem!”. Vemos isso nos movimentos neo pentecostais e carismáticos, onde até se controla o Espírito. Não há muita diferença da Igreja Católica Romana.

4) A adoração a Deus se tornou um evento para expectadores. A congregação está assistindo a um show, a um espetáculo e não é o corpo de Cristo adorando o Seu cabeça, não é o povo de Deus cultuando ao Senhor com reverência em Espírito e em verdade, mas é um grupo de pessoas que chegam para assistir a um espetáculo. Na Idade Média era o padre com todos os seus rituais mágicos em latim, os grandes corais e orquestras e o povo como expectadores admirando e esperando para receber o poder de Deus. Não é diferente hoje. Vemos tantas pessoas juntas que não têm comunhão e nem unidade entre elas. É como em um teatro ou restaurante onde não se têm laços fraternais entre os espectadores e os clientes. É como se fosse um “self service” onde se vai para tirar algo. Todos estão assistindo ao show, assistindo aos corais e peças teatrais. O povo só faz assistir e aplaudir.

5) O sucesso é aferido por grandes multidões e grandes edifícios. Na concepção de hoje, uma igreja bem sucedida é aquela que se reúne em um grande prédio com vários pastores e repleto de pessoas. Por isso surgiram as mega igrejas com milhares de membros, onde você chega com sua criança e recebe um ticket para colocar o bebê no berçário. São mega igrejas onde a cada mês pessoas entram e saem (desistem). Uma membresia que não é fixa; irmãos que não se incorporaram de fato à igreja. A visão de hoje é de uma grande multidão que lota uma igreja. Isso é sinal de sucesso e o oposto é sinal de decadência. O pastor está falando o que agrada ao povo. Isso não é uma coisa nova e diferente da Idade Média. Naquela época os cardeais estavam preocupados em construir grandes catedrais e para eles isso era a igreja; cheia de riquezas, edifícios e shows espetaculares. As pequenas e humildes comunidades não tinham valor. Hoje as pequenas igrejas não são valorizadas e muitos afirmam que o Espírito Santo não está agindo porque se Ele estivesse no meio delas estas igrejas “explodiriam” e muitas pessoas viriam. Eles afirmam: “Não foram três mil pessoas que se converteram no dia de Pentecostes? Mas se as igrejas ficam pequenas e pobres, obviamente o Espírito não está presente.”

Nestes cinco pontos podemos ver a similaridade da igreja desviada de hoje, a falsa igreja, com a Igreja Romana da Idade Média. O que muitas pessoas não entendem é que a Reforma não foi uma divisão entre Catolicismo Romano e Protestantismo. Se perguntarmos a alguém: qual foi a divisão na época da Reforma ou quais os dois grupos que surgiram com a reforma? Todos vão dizer que foram os Católicos Romanos e os Protestantes. Mas não é assim. Na Reforma nós tivemos uma tríade: Igreja Universal (Católica) de Cristo; Igreja Católica Romana e Igreja Anabatista. Temos a Igreja Católica (Universal) que é de todos os tempos e lugares, pois Cristo só tem um corpo, só há uma comunhão, uma unidade num só Espírito, uma só fé, um só Pai de todos nós. Esta igreja reformou-se. Antes desta reforma a igreja estava andando mais e mais no caminho das trevas sem conhecer a luz da Palavra de Deus. Mas na Reforma, a Igreja, pela graça de Deus, voltou para o caminho da Escritura e assim continuava como corpo de Cristo. Não era pensamento dos reformadores sair da Igreja Católica Romana e começar uma nova igreja e chamá-la de Igreja Reformada. Não, eles pensavam na Igreja de Cristo! Mas quando realizaram a Reforma, a Igreja Romana e Papal continuou no seu erro, na falsa doutrina e se manteve fora da Igreja de Cristo.

Há três caminhos na Reforma e muitas pessoas confundem as igrejas anabatistas como incluídas na Reforma e com as igrejas Protestantes. No entanto os anabatistas rejeitavam a Igreja Católica Romana. Foi um grupo de pessoas que rejeitou qualquer coisa da Igreja Romana; foi uma hiper-reação contra a Igreja Romana. Não foi uma volta para a Palavra de Deus, enquanto a Reforma Protestante de fato foi. Por isso as Igrejas Reformadas não deixaram de respeitar o valor da Santa Ceia como algo importante, não apenas para lembrar Jesus Cristo e Sua obra, mas porque Ele estava presente espiritualmente nesta ordenança. As Igrejas Reformadas não deixaram de batizar as crianças porque isso é bíblico – elas estão na aliança de Deus. Para as Igrejas Reformadas a circuncisão é agora o batismo. Mas os anabatistas fizeram tudo que puderam contra a Igreja Romana e terminaram negando tudo isso.

Hoje, infelizmente, muitas pessoas pensam que anabatistas e reformados não são muito diferentes. Mas espero que depois destes cinco pontos possamos ver que as igrejas anabatistas estão muitas vezes mostrando os mesmos erros manifestados na Igreja Romana da Idade Média. Há, portanto, uma divisão tremenda entre Reformados e Anabatistas e entre Reformados e Católicos Romanos. Não há semelhança entre Anabatistas e Reformados quando se considera a Igreja Romana.

Infelizmente, no Brasil, o ensino reformado nunca chegou de forma completa. Durante a ocupação Holandesa e Francesa, sim, mas os portugueses, ao expulsarem os invasores, expulsaram os reformados também, apesar de alguns índios terem se tornando reformados e fugiram para o interior, onde ensinaram o catecismo aos índios e seus filhos, as antigas doutrinas da graça. Os padres católicos chegavam e ensinavam que tudo aquilo era errado e que eles deveriam voltar para a Igreja Romana. Os índios diziam: não! Os padres católicos vendo a fé daqueles índios afirmavam que aqui, no interior do Brasil, estava uma verdadeira Genebra. Mas, há muito que o Brasil não está com o testemunho da Reforma. Não quero generalizar, mas hoje são poucas as igrejas Reformadas neste país. O Brasil precisa de uma reforma, à semelhança da Idade Média onde as pessoas eram completamente ignorantes da graça de Deus. Assim, as pessoas nas igrejas que se dizem evangélicas, estão sofrendo por não conhecer a graça de Deus em Cristo Jesus; não conhecem o nível de certeza do perdão nem a remissão dos seus pecados. Pastores estão dizendo que pessoas que pecam perdem sua salvação, perdem a remissão dos seus pecados e provocam assim o medo, a confusão, asuperstição, e levam as pessoas a fazerem “coisas” para comprar de Deus a Sua graça. Mas a graça é algo dado pelo Senhor e não vendido. Nosso querido Brasil precisa de reforma, de uma volta à Palavra de Deus, às doutrinas da graça.

Relembrando estes cinco pontos que abordamos podemos ver que as Igrejas Reformadas são diferentes da Igreja da Idade Média.

Verdadeiro arrependimento não é fazer alguma coisa para ganhar o perdão de Deus, mas a Palavra de Deus ensina que o verdadeiro arrependimento é concedido por Deus e manifestado numa vida de santificação. Com o verdadeiro arrependimento vem uma mudança de mente e coração, um desejo forte de viver uma vida que cresce no conhecimento do Senhor e na santificação. Por isso, nas igrejas Reformadas as pessoas não se tornam membros da noite para o dia. Isso não é porque somos cruéis e queremos deixar as pessoas de fora da verdade, mas porque os presbíteros, a liderança, não podem ver o que se passa no coração e por isso precisam de: (1) Que a pessoa confesse a sua fé, que saiba o que a Bíblia diz sobre a redenção realizada por Cristo na cruz e que isto é real na sua vida. Que a pessoa creia que já tem o perdão e vida eterna em Cristo Jesus. (2) Que a pessoa deve estar vivendo de forma consequente e aplicando esta fé em sua vida. Como os presbíteros da igreja podem saber disto? Só após um período de ensino a estas pessoas e uma observação acurada da sua vida prática; elas devem dar mostras de viver o que confessam. Às vezes um congregado poderá passar até mais de um ano sendo instruído e tendo oportunidade de mostrar através de seu testemunho de vida que sua fé não é só de palavras, mas é uma fé consequente que revela uma vida de arrependimento e santificação.

Somente as Escrituras são a única regra de fé e prática. Se na igreja, o pastor prega alguma coisa errada, um simples membro pode adverti-lo com amor e dizer que ele está ensinando algo errado. Nesse caso, o pastor deverá reconhecer seu erro e mudar. Não são os presbíteros que mandam, não são os pastores que mandam, não é o Presidente do Supremo Concílio que manda, não é o Papa, nem bispo ou cardeal, mas é a Palavra de Deus; é Jesus falando e o Espírito Santo nos lembrando de Suas palavras. Cristo fala à Sua Igreja pela Palavra (única regra de fé e prática) e não é o pastor que vai criar alguma coisa como mandar as pessoas tomarem um copo de água abençoado por ele, ou que um crente não ande de bicicleta ou de bermuda. Temos muitas igrejas que estão sofrendo porque os pastores estão impondo na cabeça das pessoas várias regras. Tudo isso porque a Palavra não é a única regra de fé e prática. Graças a Deus porque onde existir uma verdadeira igreja de Cristo não é o homem que manda, mas sim, a Palavra de Deus.

No culto Reformado a pregação da Palavra é o ponto central. Cantamos, oramos e logo abrimos a Palavra e o ensino se torna o ponto central. A Palavra é aberta e pregada porque o Espírito trabalha pela Palavra como uma espada de dois gumes para cortar o coração do pecador e para endurecer o rebelde e lhe deixar mais merecedor do inferno por rejeitá-la; mas também para cortar o coração do pecador a quem Deus derrama misericórdia para mudá-lo, trocando seu coração de pedra por um coração de carne; dá-lhe verdadeiro arrependimento e frutos da fé. A Palavra é o instrumento que Deus usa para tudo isso.

Em Romanos 10 vemos Paulo dizendo algo que vivenciamos hoje. No início deste capítulo Paulo diz que Israel estava buscando sua própria justiça: “Porquanto, desconhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria, não se sujeitaram à que vem de Deus” (Romanos 10:3). Diz mais que eles tinham muito “zelo por Deus, porém não com entendimento” (v.2). É o que a Igreja Católica faz ainda hoje. São zelosos, fazem muitas coisas, mas sem entendimento. São operosos, mas sem entender nada. Eles não têm lido Romanos 1:16-17, pois ali Paulo diz que Deus tem uma justiça que Ele próprio nos dá. Continuam ignorantes disso e correm a todo lugar tentando comprar esta justiça, enquanto que Deus está dizendo: “Vem, toma”. Mas eles dizem: “Eu quero comprar”. Isto é zelo sem entendimento, pois a justificação não é possível através da prática da Lei. Paulo diz no v. 8: “Porém que se diz? A palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração; isto é, a palavra da fé que pregamos”. Paulo fala do que é necessário para recebermos todos os benefícios de Cristo: Confessar Jesus como Senhor (v.9), ter a verdadeira fé (v.10) e como podemos adquirir esta fé salvadora: “Porque: Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (Rm10:13). Apenas isso e teremos a plena remissão dos nossos pecados. Paulo ainda diz: “Como, porém, invocarão aquele em quem não creram?”. Temos de crer. É impossível invocar o nome de Deus se não cremos. “E como crerão naquele de quem nada ouviram?”. Como posso crer se nunca ouvi nada a respeito dele? “E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: Quão formosos são os pés dos que anunciam coisas boas! (Rm 10:14-15). Paulo está dizendo aqui que, a pregação é algo muito importante no processo da salvação. Na pregação, Deus se revela aos pecadores e através dela surge a fé que salva o pecador.

Mas, a Igreja de hoje não valoriza a pregação da Palavra de Deus e quer dar mais valor ao emocional, ao coral de crianças, às peças teatrais, aos testemunhos, às cantatas, etc, do que à pregação da Palavra. Esta é uma igreja que não merece o nome de igreja. É apenas um grupo religioso, um clube onde pessoas gostam de falar de religião, mas não é a Igreja de Cristo. A verdadeira Igreja prega Cristo sabendo que Sua palavra é eficaz para salvação de pecadores.

A verdadeira igreja de Deus ensina que o arrependimento não é apenas um ato, mas uma vida de santificação e só a Palavra faz isso e não a imaginação do homem (João 17:17).

A Igreja verdadeira é aquela onde se ensina que a Bíblia é a única regra de fé e prática.

A Igreja verdadeira é aquela onde o culto é reverente e dedicado à glória de Deus. Não é um show; o homem não está no centro, mas Deus. Nesta igreja os crentes se preocupam com a honra de Deus e é onde o povo de Deus tem um encontro com Ele. Mas, o culto de hoje é um conjunto de pessoas assistindo outras fazerem apresentações; é alguma coisa horizontal entre pessoas que não têm reverência, que entram e saem porque já ouviram certos testemunhos pessoais por várias vezes. O povo não está na presença de Deus; estão apenas buscando manifestações e sinais. A verdadeira igreja de Cristo adora a Deus em espírito e em verdade e em reverência.

O tamanho da igreja não é medido fisicamente, mas espiritualmente. Não medimos o sucesso da igreja pelo seu edifício ou quantas pessoas estão dentro dele. Poderemos prometer muitas coisas ao povo para fazer encher o edifício ou até prometer riquezas. O tamanho do edifício ou do número de membros não é uma manifestação do sucesso da igreja, mas o tamanho espiritual de um povo que vive a Palavra de Deus.

As igrejas sempre estão falando do Espírito Santo, mas pouco se fala do fruto do Espírito (Gl 5). Como isso é raro! O fruto do Espírito não são coisas espetaculares, impressionantes, mas é uma vida simples de serviço. Você não pode pular e gritar: “Eu tenho paciência!!”. Mas paciência se manifesta através de uma vida paciente, serena. Você não pode gritar: “Eu tenho amor!!”. Mas amor é algo que se demonstra ao irmão, ao marido, à esposa, aos filhos, aos colegas, aos vizinhos. Isso é difícil de ser visto, de ser manifestado, porém, é mais fácil buscar sinais e maravilhas, os dons extraordinários. Jesus disse que “uma geração perversa é má, busca sinais”. A igreja de Cristo não busca sinais, nem coisas que impressionem, ou prédios cheios de pessoas, mas busca crescimento no Senhor Jesus Cristo; crescimento espiritual e amadurecimento em Cristo. Como podemos crescer assim? Como podemos manifestar o amor de Cristo em nossas vidas? Como podemos testemunhar cada vez mais da obra de Jesus Cristo em nossos corações? Temos uma fonte: A Palavra de Deus. Devemos sempre voltar à Palavra de Deus – Reformado, sempre reformando. Nesta fonte somos fortalecidos na nova vida em Cristo. Nesta fonte somos cada vez mais ensinados pela graça de Deus que nos liberta do pecado; ela nos aperfeiçoa, nos faz mais maduros até que o dia da Sua vinda chegue. Tudo isso é possível se estivermos bebendo desta fonte.

Começamos vendo a questão do arrependimento que está na primeira tese de Lutero: “Nosso Senhor e mestre Jesus Cristo, em dizendo, arrependei-vos, afirmava que toda a vida dos fiéis deve ser um ato de arrependimento”. Lutero chamou a Igreja para voltar ao ensino da Palavra de Deus. A vida cristã é uma vida de santificação onde a Palavra de Deus está agindo cada dia mais nos filhos de Deus

Isso é verdade em nossas vidas? Isso está sendo ensinado nas igrejas ditas evangélicas? Creio que não. Vamos trabalhar e orar para que Deus possa agir em nosso país e produzir a reforma que precisamos.
Amém.

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Mensagem proferida pelo Pr. Kenneth Wieske, das Igrejas Reformada do Brasil (na Congregação Reformada do Ibura – Recife/outubro/2001.

Fonte: Projeto Os Puritanos 

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Comemorando a Reforma

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Há 489 [Nota do Blog dos Eleitos: em 2011 comemoramos 494 anos] anos atrás um padre colocava um cartaz, contendo 95 teses, na porta da Catedral de Wittenberg. No dia 31 de Outubro, Martinho Lutero resolveu expor publicamente o que ele descobrira acerca da salvação nos seus estudos da Escritura Sagrada.

Eventos antecedentes à Reforma

A Reforma iniciou num ambiente favorecido pela crise que a Europa sofria durante a Idade Média. Seis eventos podem esclarecer a origem deste movimento:

1. A origem e desenvolvimento da burguesia. Durante a Idade Média uma nova classe social surgiu no sistema feudal. Uma "classe média" interpôs-se entre os senhores feudais e os seus miseráveis vassalos. Artesãos enriqueciam, e começaram a enviar os seus filhos para os monastérios, não com o intuito de tornarem-se monges, mas para aprenderem o uso das letras, para adquirir a cultura necessária para aplicá-la nas transações comerciais emergentes.

2. A origem das universidades. Os monges eram os detentores da cultura, por isso, criaram escolas anexas aos seus monastérios. Os senhores feudais e os burgueses com recurso financeiro enviavam os seus filhos para serem educados por eles. A partir do século XI a Europa passa a ter seis centros culturais nas cidades de Salerno, Bolonha, Salamanca, Coimbra, Orfoxd, e Paris. Este movimento educacional conhecido como Escolasticismo limitava-se ao estudo de quatro áreas especiíficas como a medicina, direito, artes e a teologia, que era o centro unificador destes cursos recebendo o título de rainha das ciências.

3. O enfraquecimento do poder político da Igreja Católica Romana. O evento conhecido como Cativeiro Babilônico, em que o Papa Bonifácio VIII, ficou prisioneiro do rei francês Felipe, causou uma mudança no eixo do controle da Europa medieval. O Papa que então entronizava, ou efetiva maldições sobre reis e reinos, tornava-se detento de sua própria estratégia de centralizar o poder. Em reação, o clero romano propõe anular o seu papado, sob domínio francês, e anunciar um substituto; então, surgem simultaneamente três papas na Europa: Urbano VI, em Roma, Bento XIII, em Avinhão e Clemente VIII, em Anagni. Esta controvérsia ficou conhecida como o Grande Cisma (1378-1423).

4. O grande número de mortes por causa da Peste [bubônica], em 1347. Com a desestruturada migração para as cidades, a falta de recursos básicos em higiene e moradia, bem como a proliferação de animais peçonhentos, propiciou para um ambiente em que uma pandemia como a peste bubônica se alastrasse de uma forma nunca vista antes na Europa medieval. A religião não forneceu respostas, nem garantias para a presente vida. As pessoas procuravam assegurar a sua vida eterna através das exigências da Igreja Romana. Este ambiente religioso gerou um sentimento apocaliptíco na Europa, de modo que a Igreja reconquistou o controle sobre a população européia.

5. A crise moral e doutrinária da Igreja Católica. Apesar dos conflitos internos e externos a Igreja tentava centralizar o poder em Roma, convergindo a atenção da Cristandade na construção da suntuosa Basílica de São Pedro. A simonia tornou-se a prática dominante entre os arrecadores de dinheiro para tamanho empreendimento arquitetônico. Vendia-se de tudo o que era identificado como "sacro", desde unhas, ossos, roupas, objetos de santos, dos apóstolos, e do próprio Cristo. Mas, a indulgência era o produto mais procurado para aquisição, pois, segundo o ensino católico, garantia o perdão dos pecados passados e futuros, bem como o alívio das almas presentes no purgatório. A imoralidade havia se alastrado em todas as áreas da Igreja e da sociedade.

6. O desenvolvimento do movimento Humanista nas universidades. Apesar da maioria da população ser controlada pela Igreja Romana, um grupo pensante questionava as incoerências doutrinárias e morais ensinadas pela Igreja Romana. O espírito pesquisador levou os humanistas a procurarem esclarecimento, não apenas nas respostas prontas da tradição católica, mas a retornarem ad fontes. O estudo dos textos clássicos impulsionaram estes pesquisadores a redescobrirem os antigos filósofos, os Pais da Igreja, mas principalmente, o estudo das Escrituras a partir dos originais hebraico e grego. Assim, descobriram que algumas das doutrinas centrais da fé católica derivaram a sua origem de uma má interpretação e tradução da Vulgata Latina, e de uma tradição distorcida.

O início da Reforma

Dentro deste contexto ocorre uma mudança na vida de Martinho Lutero. A conversão de Lutero aconteceu entre 1516-17, sobre a qual ele descreveu o seguinte: “embora eu vivesse irrepreensível como um monge, percebi que era um pecador diante de Deus, com uma consciência extremamente perturbada. Não conseguia crer que Ele estava satisfeito com a minha dedicação. Eu não o amava; sim, eu odiava o Deus justo que punia pecadores, e secretamente, se não de maneira blasfematória, certamente murmurando, estava com ódio de Deus... Finalmente, pela misericórdia de Deus, meditando dia e noite, dei ouvidos ao contexto das palavras: ‘A justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito, 'O justo viverá por fé'’ (Rm 1:17). Então, comecei a compreender que a justiça de Deus é aquela mediante a qual o justo vive por uma dádiva de Deus, ou seja, pela fé. E, é este o significado: a justiça de Deus é revelada pelo evangelho, a saber, a justiça passiva com a qual o Deus misericordioso nos justifica pela fé, segundo está escrito: ‘O justo viverá por fé’. Aqui, senti como se renascesse totalmente e entrasse no paraíso pelos portões abertos" (Preface to Writings on Latim, Luther's Works, vol. 34, pp. 336-37).

Houve muita controvérsia dentro da Igreja, por causa dos escritos de Martinho Lutero, porque muitos desejavam uma reforma moral, educacional, social, mas principalmente teológica. Com a excomunhão de Lutero, em 15 de Junho de 1520, ficou consumado a divisão entre reformadores e católicos. Com o reformador alemão outros adotaram o programa de reformar a Igreja e a sociedade, usando o princípio da sola Scriptura [somente a Escritura é fonte e autoridade final], como Ulrich Zuínglio, Felipe Melanchton, Martin Bucer e João Calvino. A Reforma expandiu-se da Alemanha e Suiça para todo o continente europeu.

Breve cronologia biográfica de Lutero
1483 - Nascimento de Lutero em Eisleben
1490 - Foi para a escola de Mansfeld
1497 - Mudou-se para a escola de Magdeburg
1498 - Mudou-se para a escola de São Jorge em Eisenach
1501 - Iniciou na Universidade de Erfurt
1505 - Tornou-se noviço agostiniano
1507 - É ordenado monge
1507 - Enviado para Universidade de Wittemberg por Johann von Staupitz
1510 - Ida à Roma
31/10/1517 - Escreve as 95 teses
1519 - Debate de Leipzig com Johann Eck
1520 - Recebe a bula papal Exsurge Domini decretando a sua exclusão
1521 - Dieta de Worms
1522 - Controvérsia com "os entusiastas" [profetas de Zwickau]
1524-1525 - Ocorre a revolta dos camponeses
1525 - Lutero rompe com os Humanistas [Erasmo de Rotterdam]
1529 - Debate com Zwinglio sobre a Ceia do Senhor
1530 - Escrita a Confissão de Augusburg por Felipe Melanchthon
1531 - União Esmalcada - defesa contra os princípes católicos
18/02/1546 - Lutero falece em Eisleben

Rev. Ewerton B. Tokashiki
Extraído de: [ Blog dos Eleitos ]
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