O Calvinismo e o Conceito de Cultura - Uma Antítese ao Marxismo Cultural

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"Nossas críticas à cultura não terão poder de persuasão a menos que estejam baseadas em algo que possamos endossar nas crenças e nos valores dessa cultura". - Timothy Keller

Cultura é uma palavra bem gasta, com muitas conotações e nuances em cada contexto que é aplicada. Vemos um florescer benéfico do interesse de muitos cristãos brasileiros pela cultura, de como a igreja pode engajar-se nela e entende-la. Será que tudo na cultura é ruim? Ou a igreja deve enxergar a cultura como bênção de Deus e desfrutá-la sem medida? Ou será que deveríamos nos afastar definitivamente da cultura popular e termos realmente uma cultura evangélica? Quem nunca ouviu: “Devemos apenas evangelizar, nada de nos envolvermos com política ou com arte”; “um crente músico somente pode tocar seu instrumento na igreja ou com músicas cristãs, ele não deve envolver-se com coisas desse 'mundo', o mundo jaz no maligno”. Essas são afirmações que ainda ouvimos muito. Lembro na época em que fui para o seminário (que ainda era tolerável porque se ia estudar a Palavra de Deus), mas o jovem que queria ir a faculdade era imediatamente repreendido por alguns irmãos da igreja – cuidado para não se desviar! Quando comecei minha graduação em jornalismo, um irmão me exortou: cuidado para não virar ateu! E por aí vai...

O pastorado é um ofício

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O pastorado é um dos ofícios listados em Efésios 4.11-12: “E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo”.

A leitura reformada dessa passagem (Calvino, Owen, Hendriksen) considera os apóstolos, profetas e evangelistas como ofícios extraordinários e temporários, dados por Cristo à Igreja para o estabelecimento de seus fundamentos. Os pastores e mestres (ou pastores-mestres) são ofícios ordinários, concedidos à Igreja durante todo o tempo entre a primeira e segunda vindas do Senhor Jesus.

O termo ofício possui, no âmbito eclesiástico, um sentido especial: uma função relacionada ao governo e pastoreio da Igreja (daí os oficiais, presbíteros docentes, regentes e diáconos). Tal uso diferenciado é necessário mas pode gerar um mal-entendido. É possível sublimar tanto o significado desta palavra ao ponto de esquecer-se de seu sentido primordial.

Ofício é, essencial e primariamente, um lugar de atuação na sociedade, um serviço ou trabalho. Nesse sentido os antigos falavam do ofício de carpinteiro, de escrivão, de alferes ou de médico. Em suma, um ofício é aquilo que hoje denomina-se profissão.

A espiritualidade das profissões

O que é uma profissão? Um espaço para o cumprimento dos mandados da Criação. Uma profissão não aponta meramente para uma ocupação ou um emprego, mas para uma divina vocação. Assim sendo, todos os seres humanos — não apenas os ministros da Igreja — são vocacionados. No exercício dos diversos ofícios o Senhor é cultuado, o próximo é servido e a cultura é marcada pelo testemunho do Criador. Tais cogitações produzem, necessariamente, alguns desdobramentos.

Primeiro, o exercício de todas as profissões honestas é para a glória de Deus. Cada atividade na esfera dos trabalhos humanos pode ser empreendida como culto e evangelismo (1Co 10.31; Cl 3.22-24). Não são apenas os pastores, presbíteros e diáconos que prestarão contas pelo trabalho que realizaram no âmbito na Igreja. Todos os cristãos responderão pelo modo como desenvolveram suas atividades educacionais e profissionais, uma vez que, no sentido lato, todos possuem (ou pelo menos deveriam possuir) ofícios.

Segundo, o trabalho é, de fato, dádiva sublime e direito inalienável (Gn 2.15). Não possuir um ofício é uma aberração existencial. O desemprego é um pecado que afronta ao Criador. Governos agem de maneira ímpia quando, na condução de suas políticas econômicas, induzem juros altos, que sufocam novos empreendimentos, produzem recessão, aumentam o endividamento da população e empurram os trabalhadores para a informalidade. Deus é provocado à ira quando os habitantes de uma nação não têm acesso a educação de qualidade ou quando são promovidas políticas de crescimento desordenado das cidades, sem a necessária estrutura para absorção da nova massa de trabalhadores. Ao mesmo tempo, a iniciativa de ensinar ofícios é bíblica e nobre.

Terceiro, o pastorado é, na essência, um trabalho. O pastorado possui distinções transcendentes, altamente espirituais, mas, em suma, é um ofício, um serviço prestado a Deus que possui suas peculiaridades, assim como as outras profissões. Alguém poderá retrucar afirmando que o ministério pastoral se diferencia pelo fato de exaltar a doutrina divina e contribuir para a expansão do reino. Respondo dizendo que um juiz trabalhista, no desempenho honesto e destemido de sua vocação, também exalta ao Senhor, dá testemunho do poder do evangelho e confirma a presença do reino na cultura. A dignidade da função não é encontrada no ofício em si, mas no Senhor que concede os talentos e a vocação.

O trabalho não é o centro da vida

Há de considerar-se, nesse ponto, que todo ofício tem sua legitimidade e, ao mesmo tempo, suas limitações. Todo trabalho deve ser desenvolvido como parte do gracioso projeto de Deus para a vida humana, mas, simultaneamente, deve ser dito que ninguém encontra seu centro de satisfação no trabalho em si, mas em Deus que o concede. Essa é uma outra maneira de dizer que — mesmo nós pastores — devemos trabalhar para viver e não viver para trabalhar.

Deve ser lembrado que os ofícios são passageiros. Haverá o dia em que as forças faltarão, a própria Igreja exigirá — e com razão — um obreiro mais novo, os filhos sairão de casa e só restarão o pastor jubilado e sua esposa, ambos idosos, com uma parcela significativa de vida ainda pela frente. É a dificuldade em compreender isso que produz, nos profissionais das mais diversas áreas, a crise pós-aposentadoria ou, nos casais cujos filhos saíram recentemente de casa, a síndrome do “ninho vazio”.

Essa é a razão pela qual Deus estabeleceu um padrão de rotina vivencial demarcada por lacunas denominadas “descansos”. Um dia em cada sete foi separado para revigoramento da mente, corpo, emoções e fé (Gn 2.1-3; Êx 20.8-11). Isso indica que explodir a saúde, destruir os relacionamentos íntimos e familiares, isolar-se ao ponto de não desenvolver amizades profundas ou trabalhar exageradamente ao ponto de não ter tempo para a devoção, saudável diversão e oxigenação do corpo ou da alma — nada disso é prescrito por Deus nas Sagradas Escrituras. Tais coisas são valorizadas pela sociedade capitalista orientada para a produtividade ou pelo arremedo de Cristianismo centrado em mártires e heróis ascéticos, mas passam longe do padrão bíblico de vida com Deus.

O mito doentio do paladino da fé

Se isso é assim, não é errado o pastor trabalhar honesta, equilibrada, responsável, fervorosa e eficazmente, mas sem exageros ou heroísmos personalistas. O ideal do pastor que morre pelo trabalho eclesiástico é uma distorção da doutrina bíblica do ministério. Deus deseja que estejamos prontos a entregar nossas próprias vidas por ele e seu reino; não pelo trabalho.

Dentro do sistema de governo presbiteriano, pastores não são membros da igrejas locais, mas dos presbitérios. Nas igrejas locais, os pastores passam e os presbíteros permanecem. Se partirmos desse fato, o lógico seria pedir dos presbíteros que estivessem dispostos a anular-se a si mesmos e entregar-se fanaticamente aos trabalhos eclesiásticos, mas ninguém espera que um presbítero morra pelos trabalhos da igreja, mas espera-se — ainda que inconscientemente — isso do pastor. Um profissional de comunicação viciado em trabalho é submetido a um tratamento psicológico. Um pastor viciado em trabalho é celebrado como paladino da fé e ganha um prédio com o seu nome, após o seu falecimento (normalmente precoce). Isso não é bíblico nem saudável.

É claro que muitos dos apóstolos morreram martirizados. Mas não foram apenas os apóstolos; os cristãos de modo geral foram perseguidos nos primórdios da história da Igreja e também recentemente, nas experiências comunistas da antiga União Soviética e China, nos confrontos com os muçulmanos na Indonésia ou mesmo na evangelização de etnias animistas em campos missionários. O martírio é uma possibilidade a todo discípulo maduro de Jesus Cristo, mas isso não significa que a doença ou a morte prematura devam ser buscadas. Cristãos — e pastores estão incluídos aqui — devem ser bons mordomos de suas mentes, corpos, família e recursos, testemunhando sobre a libertação, transformação e santificação promovidas pela graça de Deus, demonstrando o que significa desfrutar da vida abundante prometida pelo Redentor.

Diversão, vida pessoal e trabalho

Se isso é assim, não é errado o pastor divertir-se. Ele pode dar risadas, aliviar o estresse, viajar, dedicar-se a passatempos, praticar esportes, ouvir música, passear com a família e relaxar. Pastores são seres humanos que precisam de refrigério.

Se isso é assim, não é errado o pastor saber dividir entre sua vida pessoal, familiar e as tarefas da Igreja, considerando-as dessa forma mesmo, como tarefas e não como o centro de sua vida.

Assim como é legítimo que um funcionário público tenha projetos pessoais fora do âmbito de sua repartição, é legítimo que o pastor desenvolva, com sabedoria e equilíbrio, projetos que não tenham necessariamente a ver com os trabalhos da Igreja. Destarte, é descabido exigir, para contratação ou permanência de um pastor em um campo, que ele abra mão de qualquer projeto pessoal e assuma como centro do universo somente as atividades e exigências da Igreja. Isso é antibíblico, cruel e desumano.

O pastor é, como todo trabalhador, um profissional que precisa desenvolver-se de acordo com a semelhança de Cristo. Isso não significa, porém, anulação da individualidade. O pastor possui vida pessoal, sonhos pessoais, anseios humanos normais que não se relacionam com as tarefas eclesiásticas.

Pastores são guias crentes e humanos

A liderança espiritual inclui-se no bojo do ofício pastoral. Pastores são guias de suas comunidades de fé. Eles assumem responsabilidades únicas e mui solenes. Daí a importância de termos o ministério pastoral em alta estima e elevada consideração.

Pastores lideram mostrando aos irmãos o que significa ser crente. Eles exemplificam a vida pela fé. Mas fazem isso não como titãs da espiritualidade e sim como homens. Eles demonstram como caminhar com Deus como seres humanos regenerados e santificados. Fazem isso vivendo a vida comum dos homens, não caminhando como gurus desligados das experiências, sentimentos, anseios e lutas cotidianas da congregação.

Nesse contexto, pastores demonstram como viver com Deus e para a glória de Deus; como trabalhar e descansar, como equilibrar as diversas demandas da existência depositando tudo nas mãos misericordiosas do Altíssimo. Pastores demonstram como seguir a Cristo com fé fervorosa, autêntica e, essencialmente, bíblica, ensinando a sã doutrina e corrigindo quaisquer distorções da fé e prática, inclusive os paradigmas errôneos acerca do próprio ministério pastoral.

Pastores fiéis repudiam o profissionalismo, que é a tendência de relacionar-se com a Igreja de forma mercantilista e gananciosa, ao mesmo tempo em que reconhecem que o pastorado é uma vocação entre outras, um ofício e uma profissão que deve ser exercida para a glória do Criador. Deus, não o trabalho da Igreja é o centro da vida do pastoral. Penso que o que passar disso não provém do Senhor.

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Autor: Rev. Misael Nascimento
Fonte: Somente pela graça
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Deus ou Tirania

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Platão era um pagão. Ele não sabia nada sobre Moisés, nem, obviamente, sobre Cristo. Platão era também um grande filósofo - talvez o homem mais brilhante que jamais viveu. Seu extenso conhecimento incluía um entendimento claro do curso da história. De uma maneira não-cristã ele reconheceu uma tendência à deterioração - tanto em indivíduos como em governos, e os livros VII e IX da sua República mostram a inevitabilidade da tirania e da ditadura.

O cristão com a luz da revelação de Deus pode ver com mais clareza do que Platão. A Bíblia nos ensina que "o Senhor reina; tremam os povos" (v. Sl 99:1). Que "Deus é o Rei de toda a terra" (v. Sl 47:7). E que "Ele remove os reis e estabelece os reis" (v. Dn 2:21). Quando Deus é reconhecido no governo, então o povo tem certos direitos inalienáveis - direitos que o governo não conferiu e portanto, não pode tirar. Quando Deus é reconhecido no governo, os governantes são limitados por um poder superior, o Rei dos reis e Senhor dos senhores, e sua vontade arbitrária será restringida. Mas quando uma nação, seu povo e seus governantes, se esquecem de Deus, eles não reconhecem nenhum poder superior.

Os direitos humanos são vistos como privilégios concedidos pelo Estado, e portanto, o estado pode tirá-los. Quando Deus é destronado o Estado se torna supremo e o governo se torna totalitário. E isso é tirania. Mesmo que os governantes sejam selecionados pelo povo, ainda é tirania.

A garantia dos direitos humanos, a preservação da liberdade religiosa, a liberdade do totalitarismo só pode ser garantida com princípios cristãos de governo. Nós devemos reconhecer, acreditar e adorar a Deus. Não existe nenhuma outra forma de restringir o desejo pelo poder. Rogamos a você para que adore a Deus por meio de Jesus Cristo para a sua própria salvação do pecado e do inferno. Rogamos a você também que adore a Deus por meio de Jesus Cristo pelo bem da nossa nação.

Deve haver um governo. Alguém deve governar. Mas os homens devem ser governados por Deus, ou serão governados por tiranos¹.

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Notas:
[1] Este é um artigo dos textos não publicados do Dr. Gordon Clark, e não deve ser considerado como sua posição definitiva sobre o este tópico específico. Esses textos estão sendo disponibilizados com fins educativos. Para conhecer as posições oficiais do Dr. Clark consulte seus escritos publicados.

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Autor: Gordon Clark
Fonte: Gordon Clark Foundation
Tradução: Thiago McHertt
Via: Veritas
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A gnose no contexto eclesiástico brasileiro (Parte 2)

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A inversão axial da relação culto/cultura

Podemos afirmar ousadamente que aqueles que não cumprem o Princípio Regulador do Culto, ou que, no afã aparentemente louvável de diluir os elementos do culto na cultura local, alteram suas liturgias, são não apenas idólatras e insinceros, mas também solapam quaisquer tentativas de redenção cultural.

Ora, Kuyper já havia dito que uma cultura pode subsistir sem a arte (o que a empobrece, evidentemente), porém não sem a religião. Russel Kirk já atentara para o fato de que toda cultura (como a própria etimologia aponta) provém de um cultus. Dito de outro modo, a religião é o embrião de toda civilização, assim como o cimento que coere seus indivíduos organicamente. Não cabe aqui explorar todos as nuances e complexidades dessa questão – Christopher Dawson, o grande historiador católico, já estabeleceu e explorou tais princípios em seu livro Progresso e religião.

Destarte, se a cultura procede de um culto, aqueles que buscam moldar seu culto segundo a cultura estão efetivamente invertendo a ordem lógica e até mesmo antropológica da questão. Não estamos afirmando que a liturgia é um elemento abstrato e desencarnado que exige a supressão (impossível) de nossas tradições e costumes. Pelo contrário, o cristianismo é encarnacional: diferentemente do islamismo, ele não suprime a cultura “receptora”, antes, a redime. Isso é evidente ao longo de toda a história da Igreja – a Escola de Alexandria, dada a influência mística dos sábios que ali habitavam, praticavam uma exegese mais alegórica e espiritualizada, ao passo que a Escola de Antioquia, na Síria, também devido às influências, apresentava uma hermenêutica mais literalista. Até mesmo dentro de uma mesma tradição, há diferenças cruciais; basta compararmos as igrejas reformadas escocesas e as holandesas. Portanto, não reivindicamos a supressão de traços culturais dentro dos cultos, todavia, protestamos resolutamente contra a primazia da cultura sobre a liturgia.

Conforme dito, Deus, com efeito, deu ao homem aquilo que os neocalvinistas chamaram de Mandato Cultural, ordenado desde a criação do homem: “E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra” (Gn 1:28). A criação está prenhe de possibilidades e potencialidades (At 14:17), que devem ser exploradas e descobertas pelo homem, desenvolvidas segundo os princípios normativos de Sua Lei e direcionados à glória de Deus (1 Co 10:31-33). Ora, estruturalmente toda a criação é boa, conforme assevera o relato de Gênesis, entretanto, nas palavras de Albert Wolters, o homem pode conduzi-la segundo uma direção transgressora da lei divina e corruptora de sua (da criação) bondade intrínseca. É interessante notar que logo após o relato da descoberta da música – “o nome de seu irmão era Jubal; este foi o pai de todos os que tocam harpa e flauta” (Gn 4:21) –, o livro de Gênesis nos apresenta de forma quase imediata os efeitos da depravação, que se estendem até mesmo a essas potencialidades que o SENHOR embutiu na Sua criação:

E disse Lameque às suas esposas: Ada e Zilá, ouvi-me; vós, mulheres de Lameque, escutai o que passo a dizer-vos: Matei um homem porque ele me feriu; e um rapaz porque me pisou. Sete vezes se tomará vingança de Caim, de Lameque, porém, setenta vezes sete” (Gn 4:23-24).

Lameque, com seu coração pervertido pelo pecado, conspurca a musicalidade, criando para si um cântico que exalta uma retaliação totalmente desproporcional à injúria sofrida.


A cultura, embora se fundamente, em última instância, na revelação, caso não seja direcionada segundo as diretrizes proposicionais da lei de Deus, certamente será deturpada pela pecaminosidade humana. Ora, nesse sentido, o Princípio Regulador do Culto se configura como um parâmetro objetivo, que nos resguarda das alterações e deformações do culto dedicado a Deus. Nas palavras de Michael Bushell, citado por Brian Schwartley, “de modo particular, o Princípio Regulador do Culto pode ser visto como uma inferência natural da doutrina da depravação total [...] Qualquer obra das mãos do próprio homem, que ele presume oferecer a Deus em adoração, é poluída pelo pecado e é, por essa razão, totalmente inaceitável” (SCHWARTLEY, Sola Scriptura e o Princípio Regulador do Culto, p. 42).

Em Êxodo 20:25, o SENHOR dá instruções tão precisas e concisas relativas à construção do altar dedicado ao Seu nome, que o simples desvio era, por si só, considerado profanação:

Se me levantares um altar de pedras, não o farás de pedras lavradas; pois, se sobre ele manejares a tua ferramenta, profaná-lo-ás (Êxodo 20:25, ARA).

Um dos possíveis motivos dessa prescrição (que também pode ser vista em Deuteronômio 27:5-6) é a diferenciação que se pretende traçar entre o altar israelitas e os altares pagãos. Os santuários das nações vizinhas estavam repletos de desenhos e entalhes minuciosos idólatras e não raro eróticos (Ezequiel 8:5-18). Dessa forma, a simplicidade e rusticidade do altar do SENHOR seriam um nítido contraponto com as demais religiões. Além disso, o fato de não poderem cortar as pedras com instrumentos de ferro demonstra que os israelitas (que naquela época não dominavam a técnica da metalurgia) não deveriam depender de nenhuma nação pagã circunvizinha (os cananeus, por exemplo, eram mestres na siderurgia) para auxiliá-los na adoração a Deus.


Ora, ademais, o altar bruto nos ensina que nossa cultura, por mais refinada que seja, não deve aparar, ornamentar, burilar ou remoldar o culto a Deus. Pelo contrário, a simplicidade do culto é a condição essencial para a restauração e evolução cultural. O meio reformado se encontra premido por dois posicionamentos – primeiramente, aquilo que já abordamos na primeira parte deste artigo, a saber, o gramscianismo que se quer passar por kuyperianismo, “valorizando” e acolhendo em suas comunidades todos os tipos de monstruosidades teológicas e estéticas que se querem fazer passar por música ou arte cristãs. Alguns chegam ao ponto de elencar o brilhante Schaeffer como seu mestre e orientador, como se esse grande pensador cristão, admirador da alta cultura e da cosmovisão bíblica, fosse admitir que a mentalidade reformada fosse conspurcada por elementos como DJ’s, cultos jovens, apresentações teatrais, motoclube, etc.

Em segundo lugar, o meio reformado enfrenta também o perigo do empobrecimento cultural e artístico, como no caso da ala neopuritana, a qual chega a proibir até mesmo as representações iconográficas de Jesus Cristo, com o argumento de que se constituem como transgressão do segundo mandamento. Creio que, ainda que essa mentalidade dominasse inteiramente nosso Ocidente, seus defensores teriam certa dificuldade em incinerar e arruinar a vasta quantidade de quadros, representações, mosaicos, afrescos, telas, etc., que estão presentes nos grandes museus da Europa e Américas, movidos por uma estranha espécie de futurismo puritanista, no afã de apagar a história, que passa a ser concebida como uma simples sequência de eventos idólatras, ao invés do locus da Providência. Tudo isso, podemos dizer, para que, ao fim de seu esforço iconoclasta, percebam aquilo que Nathaniel Hawthorne, brilhante escritor puritano, já havia entrevisto em seu conto Earth’s Holocaust [O Holocausto da Terra], no qual as pessoas se reúnem perante uma grande fogueira, uma espécie de conflagração cósmica, a fim de lançar ao fogo todos os livros, pinturas, objetos, etc. que os lembrassem do passado – a conclusão do conto:

“O Coração – o Coração – havia ainda essa pequena mas ilimitada esfera, na qual subsiste o erro primordial, do qual o crime e a miséria deste mundo visível são simplesmente tipos. Purifique essa esfera interna; e as várias formas de mal que assombram o exterior, e que presentemente aparentam ser a quase totalidade de nossas realidades, tornar-se-ão em meros espectros sombrios, desparecendo por contra própria” (Nathaniel Hawthorne, Tales & Sketches, p. 906, tradução nossa).

Ora, a religião, e em especial um de seus elementos, a liturgia, não devem castrar a arte – isso é confusão de esferas de soberania, e, portanto, transgressão das leis criacionais de Deus. Como já disse Rookmaaker, “a arte não precisa de justificativa”. Tal afirmação, no entanto, não implica na autonomia da arte ou seu desprezo pela cosmovisão bíblica; pelo contrário, toda e qualquer esfera somente realiza e concretiza suas potencialidades quando se encontra pautada nos pressupostos bíblicos, levando em consideração os pilares do macrodrama da história salvífica: Criação, Queda, Redenção e Consumação. Portanto, afirmarmos de fato que o Princípio Regulador do Culto deve exercer sua autoridade e vigilância de forma intransigente – mas na área que lhe cabe: o culto público e privado (no lar e na devoção particular). Jamais deve transgredir os limites de sua própria esfera, com o risco de se tornar pietismo ou iconoclastia gnóstica. Em suma, não se pode negar, todavia, o excelente trabalho litúrgico, incluindo a publicação de obras teológicas que enfatizam e explanam o Princípio Regulador do Culto, livros que se fazem extremamente necessários nesse nosso contexto eclesiástico sincrético e idolátrico, que efetivamente precisa ser purificado por uma nova reforma direcionada pelo Espírito de Deus.


Herman Bavinck, em uma de suas palestras sobre a relação entre Revelação e cultura, lança as bases de um pensamento que se apresenta como uma alternativa ao atual dilema do meio reformado. Para o teólogo holandês, a religião não é o cão de guarda da cultura, e esta, por sua vez, não é autônoma nem livre para conceber uma ética alheia à Lei de Deus. Nas palavras de Bavinck:

A ciência, arte e moralidade são cognatas em origem, essência e sentido à religião, pois todas se baseiam na crença num mundo ideal, cuja realidade é assegurada e garantida somente pela religião, isto é, da parte de Deus por meio da revelação. 
Indubitavelmente tem havido um empenho para tornar a cultura ética independente da religião. Todavia, tal tentativa é ainda nova e restrita a um pequeno círculo e provavelmente há de ter pouco êxito. É sem dúvida uma desonra para a religião servir como um agente policial ou como um cão de guarda da moralidade. Religião e moralidade não estão unidas nesse modo externo e mecânico, mas estão em aliança entre si de forma orgânica, por causa de suas naturezas íntimas. O amor a Deus inclui o amor ao nosso próximo, e este se reflete naquele, pois o bem se apresenta a todos nós, desde nossa tenra idade, na forma de um mandamento. Nem a ética autônoma nem a ética evolucionista podem mudar algo nisso. A criança não cria gradualmente leis morais por meio do instinto ou reflexão, antes, ela cresce num círculo que possuía anteriormente essas leis e que as impõe sobre ela com autoridade. À medida que olhamos para as nações e examinamos a história da humanidade, testemunhamos muita hesitação e variedade, no entanto, sempre encontramos, por toda parte, um fundo de leis morais. Todo homem reconhece que, na moralidade, existe uma lei que lhe é sobreposta, obrigando-o, em sua consciência, à obediência. Se de fato é assim, então, nesse surpreendente fenômeno, estamos lidando ou com uma ilusão, ou com um sonho, ou como uma fantasia da humanidade, ou, ainda, com uma realidade que se eleva bem acima do mundo empírico e nos preenche com a mais profunda reverência (BAVINCK, Philosophy of Revelation, p. 260-261, tradução nossa).

Se queremos de fato
renovar a nossa cultura já degradada, será necessário primeiramente desistir de nossas pretensões idolátricas de renovação do culto. Um culto que não se sustenta sobre as firmes bases das Escrituras, deixando espaço para a autonomia humana, produzirá eventualmente uma cultura também autônoma, que se opõe a tudo que está relacionado à Lei de Deus.

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Autor: Fabrício Tavares
Fonte: Bereianos

Leia também: A gnose no contexto eclesiástico brasileiro (parte 1)
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Cosmovisão Reformada (3/3) - Redenção

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REDENÇÃO

A restauração da criação exigirá um trabalho inspirado pelo Espírito Santo de construção de instituições de cuidado e de hábitos revitalizantes.

Que amor é esse que assume tais riscos?

O Deus do pacto de Israel e Pai de Jesus Cristo é um Criador pródigo e inventivo, que – no que pode nos parecer quase loucura – confiou o cuidado e o desenvolvimento[1] da criação a nós, Suas criaturas, comissionadas como portadoras de Sua imagem.

Comissionados e dotados de forma a cumprir essa missão de cultivo da imagem de Deus, nós trabalhamos e descansamos, fazemos amor e arte, cultivamos a terra e transformamos seu fruto no pão nosso de cada dia ao mesmo tempo em que concretizamos nossos sonhos mais extravagantes em catedrais e arranha-céus. Essa criação da cultura de portador da imagem [de Deus] será mais frutífera quando tomar para si a responsabilidade do grão do universo – isto é, quando nosso trabalho e lazer forem semeados nos “sulcos” das normas vivificantes de Deus.

Portanto, a criação vem acompanhada de uma missão e uma vocação. Sermos portadores da imagem de Deus é uma tarefa e uma responsabilidade confiada às criaturas. Se Deus criou a partir do e para o amor, então Ele também nos criou com o convite para amar o mundo e, desse modo, promover o seu – e o nosso – florescimento.

Contudo…

Nós confessamos – e muito frequentemente experienciamos – uma ruptura nessa alegre visão do amor criativo. Embora o amor autossacrificial de Deus nos tenha confiado o cuidado e cultivo de Sua criação, a humanidade tomou posse disso como se fosse um direito seu, ao invés de recebê-lo como uma dádiva. Dessa forma, nossa missão de desenvolver o potencial latente na criação acabou assumindo a forma de um invencionismo irrestrito ao invés da co-criação normatizada. Embora esse impulso criacional pela poeisis[2] não poderia ser suprimido ou apagado, o bom impulso criacional de fazer foi distorcido e mau direcionado: ao invés de fazer amor, fizemos guerra (e mesmo agora quando fazemos amor, estamos propensos a fazê-lo de formas que vão contra aquilo que é, de fato, bom para nós). Longe de cultivarmos a terra, nós criamos sistemas inteiros que a espoliam avidamente. Longe da criação normatizada, a humanidade se encontra propensa à transgressão licenciosa. Falhamos em conduzir adiante a missão que fora confiada a nós como portadores da imagem de Deus.

Mas ainda assim…

Nosso bom Criador não nos abandonou aos nossos próprios planos. Apesar de termos rompido a plenitude do amor criativo, nosso Deus complacente também rompeu nosso céu de bronze, juntamente com nosso desejo de nos fecharmos na imanência, ao manifestar-Se na carne – a nossa carne – como a imagem do Deus invisível. Jesus de Nazaré apresentou-Se como o segundo Adão, sendo nosso modelo daquilo que significa cumprir a missão original de cultivo da imagem [de Deus]. A Palavra se fez carne, não para salvar nossas almas de um mundo caído, mas, sim, para nos restaurar como amantes deste mundo – para nos (re)habilitar a cumprir aquela comissão criativa. De fato, Deus nos salva para que – novamente, numa espécie de loucura divina[3] – possamos salvar o mundo, para que possamos (re)fazer o mundo corretamente. E o amor redentor de Deus transborda em seus efeitos cósmicos, dando esperança à essa criação que geme em angústias.

Portanto, nossa redenção não é uma espécie de suplementação ao ser humano; na verdade, a redenção é o que possibilita que alguém seja realmente humano, e assim cumprir a missão que nos caracteriza como portadores da imagem de Deus. Irineu de Lyon apreende essa questão de forma sucinta: “A glória de Deus é um ser humano vivendo em plenitude” [4]. A redenção não acrescenta descabidamente uma espécie de anexo espiritual, nem nos liberta da condição humana a fim de alcançarmos um estado angelical. Pelo contrário, a redenção é a restauração de nossa humanidade, e a nossa humanidade está inseparavelmente ligada à nossa missão de sermos os criadores de cultura, sendo co-criativos juntamente com Deus.

Embora a redenção de Deus seja cósmica, e não simplesmente antropocêntrica, não obstante, ela opera de acordo com aquele “escândalo” criacional original mediante o qual a humanidade é comissionada como embaixadora, e mesmo como co-criadora, para o bem do mundo. Agora, também por meio de um “escândalo”, nós somos comissionados como co-redentores.

Embora não seja uma questão semelhante a: “salve a líder de torcida, salve o mundo” [5], a controversa economia da redenção, contudo, também não sugere: “salve a humanidade, salve o mundo”.

Uma das palavras utilizadas no Novo Testamento para se referir à salvação (soteria) traz consigo tanto a ideia de livramento e liberação quanto de saúde e bem-estar. Portanto, a salvação é libertação de nossa desordem e também restauração para a saúde e florescimento. Não consigo imaginar uma imagem melhor a esse respeito do que os tipos de práticas salutares que Wendell Berry apresenta e celebra em sua recente coleção intitulada “Bringing It To The Table: On Farming and Food” [6]. Considere, por exemplo, o elogio que Berry faz aos agricultores Amish que vivem no nordeste do estado de Indiana, que estão “trabalhando para restaurar os solos que foram exauridos anteriormente por outras pessoas”. Esta é uma versão compacta de nosso chamado para redimirmos o mundo. Sistemas, instituições e práticas falharam crassamente em cuidar do solo (e dos animais que viviam dele), sugaram-no e espoliaram a terra sem restaurá-la. O erro – sim, o pecado – desses lucros ilícitos há de se revelar brevemente, pois tais sistemas e práticas vão contra o grão do universo. A própria criação nos diz que estamos fazendo as coisas de modo errado. Nesse caso, a redenção é tangível e concreta: a saber, na rotação de culturas, na fertilização do solo e na atenção àquilo que o solo “está querendo nos dizer”. O trabalho feito para se restaurar o solo exaurido está situado dentro de um estilo de vida – de fato, é um estilo de vida.

Graças sejam dadas a Deus, pois tal remissão, revitalização e labor cultural não estão apenas sob a responsabilidade dos cristãos. Embora a Igreja seja, de fato, o povo que foi regenerado e revestido de poder pelo Espírito Santo para as boas obras da criação da cultura, o antegosto da vinda do Reino não está confinado à Igreja. O Espírito Santo é pródigo em espalhar sementes de esperança[7]. Assim, nós experimentamos avidamente antegostos onde quer que encontremos essas sementes. O Deus criador e redentor apresentado nas Escrituras tem prazer na literatura judaica que alcança as profundezas do potencial da linguagem, no mercado muçulmano que coloca em ação o grão do universo, e nos casamentos estruturados de agnósticos e ateus. Nós também podemos ter essa iniciativa de Deus e celebrar essas mesmas coisas.

Mas com o que a redenção se assemelha? Na maior parte das vezes, você a reconhece quando a vê, uma vez que ela é semelhante ao florescimento. A redenção é semelhante a uma vida bem vivida. É semelhante ao modo como as coisas deveriam ser de fato; é semelhante a um pomar bem cultivado, carregado de frutos produzidos por antigas raízes; é semelhante ao trabalho que edifica a alma e traz deleite; é semelhante a um marido e sua esposa, já anciãos, rindo de maneira hilária com seus bisnetos. É semelhante a uma bailarina que alonga seu corpo até o limite, encarnando, assim, uma estonteante beleza nos músculos e tendões que se retesam com devoção. É semelhante ao aluno de graduação debruçado sobre um microscópio, explorando nichos e recantos naquela microcriação engendrada por Deus, e, desse modo, buscando maneiras de desfazer a maldição. É semelhante à abundância para todos.

A redenção soa como as surpreendentes cadências de um concerto de Bach, cujo ritmo parece fazer a alma se expandir. A redenção é semelhante a um escritório onde todos cantarolam com um senso de harmonia naquela missão, por vezes pontuado por risadas colaborativas. É semelhante aos grunhidos e gritos de um jogador de tênis, cujas técnicas “blistering serve” e “liquid forehand” são decretos[8] de coisas que não poderíamos jamais sonhar. A redenção soa como as questões de uma aluna da terceira série, cujo professor se interessa suficientemente pelo seu bem-estar de modo a instigar sua curiosidade, dando espaço para uma curiosidade santificada a respeito deste mundo bom criado por Deus. E soa até mesmo como o debate espirituoso de um jovem casal que está discernindo quais as implicações do fato de que seu casamento é uma amizade que representa a comunidade que Deus deseja (e que Ele é).

A redenção cheira como o tom de carvalho de um vinho Chardonnay produzido no vale de Napa que nos dá anseios nas papilas gustativas. Cheira como a terra debaixo de nossas unhas após plantarmos peônias e gérberas. Cheira a uma cozinha de inverno, repleta de vapor, onde uma família reunida está se preparando para a ceia. Cheira à sabedoria ancestral de um livro herdado de um avô, ou àquele “cheiro de rua” que o cachorro da família rescende nos meados de Novembro. Cheira ao ato de ir de bicicleta ao trabalho numa manhã nevoenta de primavera. Cheira até mesmo à salgada pungência do trabalho duro e àquele singular leque de odores que banha o nascimento de uma criança.

A redenção tem o gosto de uma colheita de outono que deu frutos, não obstante o labor afetuoso e o cuidado atencioso para com o solo e a plantas. Tem o gosto de um peru do Dia de Ações de Graças, cuja “natureza própria de peru” ganha vida a partir de seu próprio deleite animal ao ar livre. A redenção tem gosto da deliciosa amargura do lúpulo de uma bebida compartilhada com os amigos de um pub da vizinhança. Tem até mesmo o gosto de comer seus brócolis porque sua mãe te ama o suficiente para querer que você se alimente bem.

Portanto, a redenção se assemelha à poesia corporal de Rafael Nadal e o sorriso de menino de Brett Favre numa noite agradável; soa como as amáveis risadas de Paul e Julia Child, e cheira à cozinha desta; a redenção reverbera como as profundas performances de Yo-Yo Ma em seu violoncelo; parece com o verso frenético da poesia de Auden ou o deleite vivo dos versos leves de Updike; é semelhante ao cuidado compassivo de Paul Farmer ou Madre Teresa. A redenção pode se manifestar de forma espetacular, fabulosa e (quase) triunfante.

Mas na maior parte do tempo, a redenção delegada pelo Espírito Santo é semelhante àquilo que Raymond Carver chama “um coisinha boa” [9]. É semelhante ao nosso trabalho cotidiano bem-feito por amor, em ressonância com o desejo de Deus para Sua criação – contanto que nosso “trabalho pé-no-chão” esteja instalado como parte de uma contribuição para os sistemas e estruturas de desenvolvimento. A redenção é semelhante à realização de nosso dever de casa, ao preparar as merendeiras das crianças, à construção feita com qualidade e com a devoção de um artesão, e é também semelhante à elaboração de um orçamento municipal que discirna o que realmente importa e que, assim, contribui para o bem comum. Certamente que a redenção é o fim do apartheid, mas também as amizades, antes impossíveis, que foram forjadas nas circunstâncias que se seguiram. É um assento vago no ônibus para quem quer que seja[10], mas é também travar relações com meus vizinhos que são diferentes de mim. É nada menos do que tentar mudar o mundo, todavia isso começa em nossas casas, em nossas igrejas, em nossos bairros e escolas.

Não deveríamos ficar surpresos pelo fato de que a redenção nem sempre manifestar-se-á de modo triunfante. Se Jesus vem como o segundo Adão que molda o desenvolvimento da cultura redentiva, então, neste nosso mundo devastado, esse labor cultural apresentará uma forma cruciforme. Todavia, também assemelhar-se-á à esperança que tem fome da alegria e deleite [Jeremias 15:16].

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NOTAS:
[1] Deus nos confiou o desenvolvimento da criação para que pudéssemos explorar as potências latentes, enterradas pelo próprio Deus no seu mundo criado. É o que os neocalvinistas chamam de “Mandato Cultural”, baseado em Gênesis 1:28 e 2:17, e que se baseia na tarefa de trabalhar e desenvolver a cultura, visando a glória de Deus. Isso envolve a redenção da cultura, ciência, arte e intelecto, para que o Reino de Deus, que já está inaugurado mas não plenamente estabelecido, venha progressivamente se instaurar. Nas palavras de Von Gronigen: “O primeiro mandato que foi dado tem sido corretamente citado como sendo o mandato cultural. Era para o homem e a mulher exercitarem suas prerrogativas reais governando sobre o cosmos, desenvolvendo-o e simultaneamente mantendo-o. Todas as formas de vida na terra foram, de forma específica, colocadas sob a supervisão dos vice-gerentes humanos. Com esta responsabilidade, veio o privilégio de usar as plantas, seus frutos e sua semente para manter a vida e a energia para realizar as tarefas reais. A humanidade poderia responder obedientemente ao mandato cultural para a glória de Deus por causa da sua criação à imagem e semelhança de Deus. Deus, através da exposição deste mandato, colocou a humanidade em um relacionamento singular com o cosmos. Na realidade, foi um relacionamento de governador sobre o domínio cósmico. Mas este governo envolvia trabalho. O trabalho é, consequentemente, tanto um privilégio real como também uma responsabilidade.” (Gerard Van Groningen. In: Criação e Consumação, v. 1).
[2] Poiesis (no original grego: ποιεσις), segundo o Dicionário Heidegger, de Michael Inwood, significa: “o fazer, fabricação, produção, poesia, poema’, que, por sua vez, vem de poiein, "fazer". Aristóteles distingue poiesis, "o fazer" – que essencialmente possui um produto final, um poeima – de praxis, "ação" – que não possui. (p. 144). Sendo assim, a poesis é a capacidade criativa inerente ao homem, que trabalha a partir de um material preexistente, seja físico ou não (como no caso do poema que trabalha com a linguagem), dando-lhe uma forma final que pode ser apreendida pelo intelecto, abstração ou tato humanos. Deus deu ao homem essa capacidade de co-criar juntamente com Ele, a partir dos materiais que Ele disponibilizou ao homem.
[3] O termo “loucura” aqui utilizado trata-se, evidentemente, não de uma falta de reverência aos pensamentos e atitudes de Deus, mas, sim, de uma contraposição entre a Mente Divina e o bom senso humano, como o Apóstolo Paulo já havia dito: “Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1 Coríntios 1:25).
[4] Essa afirmação (gloria Dei homo vivens) de um dos mais proeminentes Pais da Igreja pode, num primeiro momento, chocar os neófitos ou aqueles que não se aprofundaram ainda no estudo teológico. Contudo, o contexto e o sentido mais profundo nos leva a compreender a beleza e ortodoxia da frase: combatendo os gnósticos, que depreciavam a parte física da Criação, incluindo o corpo humano, Irineu se levanta para dizer que o homem coroa a Criação de Deus, já que foi criado à Sua imagem e semelhança. E não apenas isso, o próprio Deus assumiu a condição humana, fazendo-se carne e habitando entre nós. Portanto, a afirmação de que Cristo, o Filho, é a glória de Deus (O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, Hebreus 1:3) não contradiz a afirmação de Irineu; antes, a complementa, pois Cristo, o homem perfeito, reflete a imagem e semelhança de Deus também perfeitamente. Segue-se daí que por ter cumprido plenamente a vontade de Deus, e por ter expressado claramente o caráter de Deus, Jesus Cristo é o homem que viveu e vive em plenitude, sendo tudo aquilo que Deus planejou e pretendeu para o homem. Portanto, Cristo, o homem que vive plenamente (pois dEle procede a própria Vida), é a glória de Deus.
[5] Referência ao seriado “Heroes”, no qual o personagem Hiro é avisado por seu “eu” do futuro de que a chave para a vitória dos heróis é “salvar a líder de torcida”. A frase “salve a líder de torcida, salve o mundo” torna-se, consequentemente o lema da série. A líder de torcida em questão é uma personagem que aparece posteriormente na narrativa, que também possui superpoderes. No texto em questão, o autor quer dizer que a economia da salvação, embora não seja limitada a apenas um indivíduo, também não se estende a toda humanidade, como postula o Arminianismo.
[6] A expressão “bring something to the table” (literalmente, trazer algo à mesa) significa fornecer algo que há de trazer um benefício. O título do livro faz um jogo de palavras com a questão de uma alimentação e cultivo saudáveis e os benefícios decorrentes desses hábitos.
[7] O autor faz menção à ideia de “sementes do Verbo” (logos spermatikoi), postulada por Justino, o Mártir, um dos pais apologistas. Esse grande filósofo cristão discorre em suas obras 1 e 2 Apologia e Diálogo com o Judeu Trifão que há sementes da Verdade em várias culturas e povos, mesmo naqueles que não foram iluminados com a revelação plena manifesta em Jesus Cristo. Joseph Ratzinger, em seu livro Padres da Igreja, observa a respeito do pensamento de Justino: “o projeto divino da criação e da salvação [...] se realiza em Jesus Cristo, o Logos, isto é o Verbo eterno, a Razão eterna, a Razão criadora. Cada homem, como criatura racional, é partícipe do Logos, leva em si uma "semente", e pode colher os indícios da verdade. Assim o mesmo Logos, que se revelou como figura profética aos Judeus na Lei antiga, manifestou-se parcialmente, como que em "sementes de verdade", também na filosofia grega. Mas, conclui Justino, dado que o cristianismo é a manifestação histórica e pessoal do Logos na sua totalidade, origina-se que "tudo o que foi expresso de positivo por quem quer que seja, pertence a nós cristãos" (2 Apologia 13, 4).
[8] Decretos são as normas estruturais moldadas e configuradas por Deus e que são a base mesma da existência dos entes. Sendo assim, cada ente possui uma lógica e estrutura interna criada e determinada por Deus – daí a sua harmonia e substancialidade. Deus plasmou o universo com Sua Lei, de modo que ela não apenas governa sobre os entes, mas também nestes entes. A vocação do indivíduo humano é a norma gravada em seu ser pelo poder de Deus. Se cumprirmos nossa vocação, não apenas nos tornamos quem Deus planejou que fossemos, mas também estamos em total harmonia com a normatização da criação original.
[9] Nome de um conto de Raymond Carver.
[10] Referência a Rosa Parks, uma costureira norte-americana que se tornou símbolo do movimento dos direitos civis dos negros dos Estados Unidos ao se recusar a ceder seu lugar no banco de um ônibus a um homem branco (que, naquela época segregacionista, tinham preferência sobre as pessoas negras), dando início, portanto, ao que ficou conhecido como “Boicote aos Ônibus de Montgomery”. Nessa parte do texto, o autor diz que a Redenção suprime essas barreiras (segregação étnica, social, política e cultural) criadas pelos efeitos do pecado na mente humana, pois o ensino bíblico é que “de um só sangue fez toda a geração dos homens” (Atos 17:26), e que todos, independentemente da cor de sua pele, condição social ou nacionalidade, foram criados à imagem e semelhança de Deus (Genêsis 1:27). Além disso, em Cristo, todos são reunidos em um só corpo chamado Igreja, na qual exercem funções primordiais e inseparáveis como membros, de forma que neste corpo místico “não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3:28).

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Autor: James K.A. Smith
Fonte: CARDUS
Tradução: Fabrício Tavares
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A gnose no contexto eclesiástico brasileiro

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Estou certo de que muito já se comentou e analisou acerca da relação quase simbiótica entre o movimento pentecostal e sua cria teratológica denominada “neopentecostalismo”. Com efeito, há textos excelentes que versam magistralmente sobre essa temática, por exemplo, “O gnosticismo e os pentecostais”, de Michael Horton, e “O pentecostalismo e seus danos à Igreja”, do Pr. Marcos Granconato, de modo que quase se torna desnecessária nossa presente tarefa de radiografar a presença viral do gnosticismo no contexto eclesiástico brasileiro.

A busca cada vez mais ávida por experiências extáticas, transes, teofanias, arcanos e mistérios tornou-se efetivamente a chave hermenêutica para se compreender a caoticidade de alguns segmentos carismáticos – e, de fato, seríamos intelectualmente desonestos caso não afirmássemos que não poucas linhas dentro do pentecostalismo têm realizado um importante trabalho evangelístico, acompanhado de uma capacitação ministerial mais profunda e de uma liturgia mais ordenada. Todavia, o que ainda infelizmente impera é a exacerbação mística, a catarse emocional e a tentativa de ressignificar a “liberdade do Espírito” (Gl 5:1), transformando-a em desordem carnal. Conforme já disse John McArthur, em seu livro Caos carismático, é possível, por vezes, atribuir a certos grupos pentecostais a alcunha de “neo-montanistas” – gnósticos que dualizam os cristãos em duas categorias, espirituais (pneumáticos) e carnais (sárquicos), conforme era costume entre os coríntios, e que reivindicam uma suposta superioridade espiritual mediante um conhecimento (gnosis) exclusivo (na maioria das vezes o domínio da “língua dos anjos”).

No entanto, a gnose não é simplesmente uma heresia deslocada, facilmente erradicável e diagnosticável. Pelo contrário, já nos dizia Charles Hodge que a história da igreja é a constante luta entre a gnose e o que podemos chamar anacronicamente de “calvinismo”, ou dito de outro modo, o eterno embate entre a autonomia e autosoteria humana e heteronomia e heterosoteria provenientes de Deus. Desse modo, a gnose sempre ressurgiu ao longo da igreja, sempre reerguendo-se após ter sido mortalmente ferida; basta, pois, contemplar panoramicamente a história para se deparar com os já citados montanistas, os cátaros ou albigenses, a Cabala no século XII em Provença, e, mais hodiernamente, as modernas ideologias, especialmente o marxismo. Ora, a afirmação de que modernas ideologias e cosmovisões seculares que deliberadamente buscaram esvair os princípios religiosos são, na verdade, movimentos gnósticos chocam, num primeiro momento, a sensibilidade e a racionalidade do homem atual. Entretanto, como já vários cientistas políticos analisaram, as ideologias, em especial os movimentos revolucionários, nada mais são do que heresias gnósticas com um fundo religioso mascarado.

Eric Voegelin dedicou grande parte de sua obra à análise dos elementos ordenadores da História e da sociedade, chegando, por fim, à conclusão de que a “ordem da história (nome inclusive de sua magnífica pentalogia) é a história da ordem”, isto é, a tentativa do homem de alcançar a harmonia entre quatro princípios: Deus, cosmos, homem e civilização. Nesse sentido, Voegelin afirma que a escatologia proposta pelos movimentos revolucionários nada mais é do que uma “imanentização do eschaton”, ou seja, uma tentativa de “terrestralizar” a consumação final cristã, uma busca por criar, aqui e agora, os novos céus e nova terra. Portanto, os movimentos revolucionários são apenas a versão atual da antiga torre de Babel, como já disse Dietrich von Hildebrand em sua obra The New Tower of Babel: modern man’s flight from God [A Nova Torre de Babel: o homem moderno fugindo de Deus]:

O emblema da presente crise é justamente a tentativa por parte do homem de se libertar de sua condição de criatura, de negar sua situação metafísica e de se desembaraçar de todos os laços que o ligam a algo que é maior do que ele. Ora, o homem moderno busca construir uma nova Torre de Babel [Tradução nossa]  

As ideologias revolucionárias negam, portanto, toda forma de transcendência, mutilando, assim, a natureza espiritual do homem. Entretanto, como já disse Herman Dooyweerd – seguindo o pensamento de Calvino, o homem é um ser congenitamente religioso; a Queda não eliminou o sensus divinitatis (o senso da divindade) e a semen religionis (a semente da religião), antes, a obscureceu, corrompendo-a a ponto de transformá-la num impulso idolátrico. Desse modo, as modernas ideologias não são antirreligiosas (embora a maioria seja anticristã), mas, sim, religiões distorcidas, idólatras e que, acima de tudo, depravam a Revelação.


Destarte, todas as ideologias invariavelmente usurpam símbolos transcendentais e escatológicos cristãos para, em seguida, imanentizá-los. Ora, a escatologia marxista, sob o governo de um proletariado abstrato, na qual todas as desigualdades econômicas e sociais desaparecerão – ao mesmo tempo em que todas as potencialidades humanas aflorarão plenamente (nos dizeres de Marx e Engels, um indivíduo pode caçar pela manhã, pescar pela tarde e fazer crítica literária à noite, sem no entanto ser pescador, caçador ou crítico); tal escatologia configura-se como uma versão imanentizada da nova terra. Ou podemos citar ainda a ideia sustentada por alguns vegetarianos radicais, segundo a qual a raça humana eventualmente deixará de consumir carne, adotando uma dieta essencialmente herbívora; tal concepção nada mais é do que uma secularização, um esvaziamento simbólico da descrição feita por Isaías a respeito do novo estado inaugurado pelo Messias: “O lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo se deitará junto ao cabrito; o bezerro, o leão novo e o animal cevado andarão juntos, e um pequenino os guiará” (Is 11:6).

Portanto, não há neutralidade neste ponto: é impossível ao homem escapar de sua condição inerentemente religiosa; as ideologias se sustentam sobre um fundo inegavelmente religioso; e tal constatação parte inclusive de ateus confessos, como John Gray – em seu livro Missa Negra: Religião Apocalíptica e o Fim das Utopias. Assim, a gnose é um elemento muito mais sutil do que primeiramente pode se pensar, até porque não se trata de um ponto isolado na mentalidade secular, mas, sim, uma cosmovisão integral, um modo de contemplar e interpretar a realidade. Nas palavras de David Koyzis, em seu livro Visões e ilusões políticas: uma análise & crítica cristã das ideologias contemporâneas: “[...] as diversas ideologias se baseiam numa visão gnóstica da realidade, atribuindo a origem do mal a algum elemento da criação de Deus e buscando a redenção num outro aspecto da criação” (p. 82).

Em suma, a gnose é uma espécie de inversão da ordem da criação, é a rejeição absoluta da estrutura da realidade tal como criada por Deus. Semelhantemente ao grito de Mefistófeles, no Fausto de Goethe, o gnóstico cria para si mesmo uma espécie de realidade postiça, com uma estrutura engendrada segundo suas próprias preferências, e não segundo as leis eternas de Deus:


       O Gênio sou que sempre nega!
       E com razão; tudo o que vem a ser
       É digno só de perecer;
       Seria, pois, melhor, nada vir a ser mais.
       Por isso, tudo a que chamais
       De destruição, pecado, o mal,
       Meu elemento é integral (GOETHE, Fausto, 2010, p.139, Editora 34).


Porém, alguém pode presentemente indagar-se acerca da relação entre ideologia, pentecostalismo e gnose, bem como a razão desse périplo acima nas várias teorias religiosas e políticas. Ora, nesse momento adentramos num domínio já vislumbrado por alguns, comentado por poucos e raramente criticado, a saber, a presença de  ideologias marxistas dentro de igrejas históricas e formalmente reformadas. Todos são prestos em criticar a gnose descarada nos cultos e práticas pentecostais, mas muito ciosos em apontar os famosos “cristãos esquerdistas” e pastores marxistas dentro das Presbiterianas, Batistas e igrejas reformadas independentes.

Com efeito, ao passo que Roma tem sido assolada pela chamada Teologia da Libertação, nós, protestantes, dado que Deus é hábil para desenvolver cruzes para seus seguidores (A.W. Tozer), somos açoitados pela Teologia da Missão Integral. No entanto, esta corrente é deveras popular somente nos meios teológicos acadêmicos, de forma que, na sua vida prática, nossa eclesiologia se vê afligida por outro flagelo, dissimulado sobre uma máscara de neocalvinismo de Kuyper, a saber, a execrável “liturgia aberta” (assim denominada pelos seus “teóricos”) organicamente unida ao não menos nefando “louvor contemporâneo” (epíteto para canções de teor massivamente sentimentalista emolduradas por melodias homogêneas e simplórias).

Em outras palavras, já é habitual participarmos de cultos presbiterianos e batistas que são regidos não mais por um princípio regulador, mas pela supremacia do sentimentalismo barato; mas não apenas isso – argumentando estarem pondo em prática os princípios de redenção da cultura e graça comum propostos por Kuyper, Bavinck e mais recentemente Richard Mouw, alguns pastores inserem em seus cultos e comunidades versões “samba” ou “reggae” de hinos tradicionais, afirmando que, mediante a redenção realizada por Cristo, até mesmo esses ritmos populares se tornam pertinentes ao culto. Ora, não é nossa intenção presentemente discutir sobre a neutralidade ou não dos ritmos musicais (Michael Horton já tratou disso no seu artigo “Is style neutral?” [O estilo musical é neutro?]), mas sim, analisar se esse era efetivamente o pensamento dos neocalvinistas.

Na verdade, basta uma análise superficial para notar que a aceitação indiscriminada de toda sorte de ritmos sob o pretexto de cumprimento do mandato cultural soa mais como Gramsci do que Kuyper. O receio de postular um parâmetro objetivo do belo e consequentemente uma hierarquia estética tem levado não somente os acadêmicos incrédulos a aceitarem como arte todo tipo de experimentalismo e obras disformes, mas também aos pastores e líderes cristãos a admitirem em suas congregações o relativismo estético marxista, que, como tudo o mais, repudia quaisquer padrões objetivos e imutáveis que possam determinar ou avaliar nosso comportamento ou feitos. E nesse sentido, portanto, são gnósticos ou, no mínimo, intelectualmente desonestos.

Kuyper, em seu livro Wisdom and Wonder: common grace in Science & Art, repudia qualquer forma de relativismo estético; e a redenção da cultura e da arte diz respeito, antes de tudo, à alta cultura (termo cada vez mais raro). Com isso não se pretende dizer que se descarta de antemão qualquer participação ou produção popular, afinal, era notório o cuidado e o empenho de Kuyper em trazer as camadas populares (kleine luyden, a "gente pequena") a uma maior participação política e social. Na verdade, como o próprio teólogo afirmou, para Deus devemos dedicar os melhores frutos de nosso trabalho, incluindo, pois, as mais sublimes produções estéticas. Ora, comparar Hillsong United ou "corinhos de fogo" com os Salmos metrificados de Goudimel ou as composições de Isaac Watts é, no mínimo, sinal de uma completa obnubilação do senso estético – isto para não dizer que se trata de uma depravação do gosto. A liturgia de igrejas que se dizem reformadas deve necessariamente seguir a linha histórica, pois qualquer tentativa de rompê-la, refazendo-a inteiramente, constitui-se antes como ato revolucionário (e, portanto, gnóstico) do que inovador. Nas palavras do teólogo holandês:

Na igreja de Cristo, Ele é o Rei, e é necessário que tudo O sirva. Um organista tocando seu instrumento apenas para si mesmo não compreende, por conta disso, seu chamado; e o cantor que não compõe suas letras segundo a linha histórica da tradição cultual não se santifica, mas peca, caso o som de sua voz sirva apenas para estimulá-lo, e caso, ao conduzir o canto, não se entregue completamente à adoração de seu Senhor e Rei.
Nada é mais irrisório do que coristas cantando como se fossem pássaros, e não pessoas; ou músicos que não sentem absolutamente nada daquilo que estão cantando, os quais estão simplesmente perdidos nas notas musicais. Mas, contanto que essa espécie de performance artística seja evitada, a arte da música e da canção permanecem indispensáveis para nossa adoração. Em Genebra, Calvino convergiu todo empenho para que o canto congregacional soasse cerimonioso, natural, animado e belo.
Todos que são suficientemente humildes hão de admitir com franqueza que ninguém, ao se assentar no santuário, possui o fervor apropriado para a adoração. Nesse momento, a arte da música e do canto devem ser os meios para içar a alma do adorador para fora do ordinário e do mecânico em direção à paixão e atividade. Canto e melodia devem falar ao coração humano na plenitude do culto de uma forma que o estimule à adoração. Tal objetivo não será atingindo caso falte ao canto o ardor santo, e à música, uma vivacidade mais imponente [Tradução nossa]

Naturalmente, alguns argumentarão que há necessidade de adaptarmos a liturgia à cultura ou que é imperativo atualizá-la, a fim de não nos transformamos em adoradores anacrônicos. Se Deus assim o permitir, trataremos futuramente dessas e outras argumentações.


Que Deus nos livre, pois, da gnose em suas mais diversas formas.

Soli Deo Gloria

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Autor: Fabrício Tavares
Fonte: Bereianos
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Pode existir uma estética ... CRISTÃ?!

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Hoje estava conversando com uma garota cristã muito legal. Ela está terminando a sua faculdade de design de moda e resolveu me perguntar sobre a possibilidade de Deus estar realmente interessado na maneira como alguém se veste. "Há uma forma cristã de alguém se vestir?", creio ter sido o enunciado do problema levantado por ela. E como achei a indagação muito pertinente, aproveito a deixa para transformar minha resposta em um breve artigo.


Talvez esta garota não soubesse disso, mas a questão subjacente ao problema exposto tem a ver com a existência de absolutos. Seja lá qual for o jargão recrutado, o que importa é ter em mente o Deus bíblico e sua vontade revelada como justificativa para a afirmação de quaisquer padrões.

É muito fácil falarmos em uma ética cristã ou universal. Também não soa dissonante falarmos em uma epistemologia cristã ou uma metafísica cristã. Estes temas estão em voga no ambiente acadêmico cristão e, de certa maneira, alcançam todo o público mediante a literatura disponível. Todavia, quando falamos em uma ESTÉTICA cristã, não deixo de notar espanto e desconfiança no interlocutor. Uma estética cristã pressupõe valores estéticos universais, o que, por si só, já desperta animosidade nas mentes pluralistas e anti-intelectuais de nosso tempo. Porém, a situação se agrava ainda mais quando não apenas afirmamos os valores estéticos universais que subjazem à uma possível estética cristã, mas também a qualidade revelada de tais premissas.

Por que é tão difícil falarmos a respeito de uma estética cristã? Por que o terreno da estética é tão arenoso quando comparado aos outros temas da preocupação filosófica? Não temos problemas em admitir uma metafísica ou ética cristãs, como dissemos, mas por que, quando o assunto é orientado para a estética, adquire contornos tão delicados?

Embora eu possa arriscar algumas respostas [1], elas não são minha maior preocupação, que permanece sendo o problema entrevisto e enunciado previamente: pode existir, de fato, uma estética cristã? E a resposta é: sim, pode ... e existe!

Em primeiro lugar, não faz sentido supormos que todas as áreas da filosofia sejam objeto de interesse na mente de Deus, conforme sua revelação cristaliza, mas, ao delimitarmos a estética, nenhuma preocupação divina seja evidenciada, ainda que remotamente. Por que Deus não estaria preocupado com a estética?! A Escritura nos ensina, por meio do que chamamos de "mandato cultural", que Deus está interessado em TODAS as áreas da vida e pensamento humanos. É uma distorção medieval neoplatônica pensarmos que existe uma esfera de interesse divino - a esfera religiosa - e outra esfera com a qual Deus não interage ou não se interessa em interagir - a esfera de assuntos seculares ou não-religiosos. Tal dicotomia é falsa, herética e perniciosa, e Deus está profundamente interessado na TOTALIDADE da vida humana, que vive e existe sempre diante de Deus (coram Deo). Portanto, é mais do que razoável admitirmos que a estética, como um sítio do pensamento humano, é alvo do interesse divino. Logo, esta área da filosofia encontra terreno na mente e revelação divina, e, por consequência, a atividade filosófica cristã deve ecoar tal interesse.

Em segundo, a estética trata do que é belo. Pergunto: que outro parâmetro final pode existir para justificar a beleza, senão Deus? Se os ateístas tivessem razão e a realidade fosse resumida à matéria, então a noção de "belo" seria um absurdo filosófico. Aliás, não existiria filosofia. De que maneira uma cosmovisão materialista poderia dar suporte à noção de belo? Se tudo é material (materialismo), não há nada extra-material que imprima qualidades estéticas a um ou outro objeto de análise. As coisas não seriam bonitas ou feias, elas seriam apenas coisas, sem predicados estéticos. Contudo, a Bíblia diz que existe o material e o imaterial, e que a natureza bela de Deus e seus atributos (Sl 29.2; Is 9.6) não só justifica a beleza mas permite reconhecê-la nas obras de criação e redenção como extensões ou impressões desta perfeição divina. O Salmo 75.1 diz: "A TI, ó Deus, glorificamos, [...] as tuas maravilhas o declaram"; e o Salmo 139.14 diz: "[...] maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem".

Em terceiro lugar, como se não bastasse o fato de Deus ser belo em suas perfeições, tal beleza ser amplamente reconhecida na criação e viabilizar a reflexão estética, o próprio Deus, em sua Palavra, nos encoraja a refletir e falar sobre ela. Isto é muito sério, pois significa que o labor filosófico sobre a estética não apenas encontra terreno no pensamento cristão como NÃO DEVE ser relegado ao ostracismo nas discussões filosóficas. Em outras palavras, nós devemos pensar sobre o assunto, redimí-lo à luz das Escrituras levando cativo TODO o entendimento (inclusive a estética) à obediência de Cristo (2Co 10.5). Abraham Kuyper (1837-1920), em uma de suas palestras, disse uma frase que se tornou famosa:

“[...] não há um único centímetro quadrado em todos os domínios da existência humana sobre o qual Cristo, que é o Soberano sobre tudo, não clame: 'é Meu!'”

Portanto, a estética deve ocupar as preocupações filosóficas dos homens e, sobretudo, dos filhos de Deus.

Em quarto, e talvez este seja o ponto principal, todas as referências bíblicas ou considerações teológicas mostradas até aqui implicam, necessariamente, na afirmação de padrões absolutos de estética, sem os quais seria impossível aos salmistas declararem, inerrantemente, que as obras de Deus são belas e DIGNAS de serem contempladas. Algo que é digno de ser contemplado não pode ter sua qualidade estética fundamentada em parâmetros subjetivos pois, assim fosse, algumas pessoas seriam capazes de cumprir esta contemplação enquanto outras não. Mas o apelo estético da revelação geral (bem como seu apelo metafísico) é dirigido a todos os homens. Assim, todos os homens deveriam ser capazes de reconhecer a beleza na criação, ainda que não atribuam tal beleza ao Deus Criador, de modo que, podemos inferir, a beleza é um valor objetivo ou, ao menos, não é tão subjetivo quanto costumamos supor.

Deste modo, podemos concluir que há, sim, uma estética cristã. Assim como as outras esferas da discussão filosófica, ela é caracterizada por valores absolutos e objetivos [2]. Ademais, ela é tão absoluta que, conforme nos mostra a Palavra de Deus, é passível de ser estruturada e discutida.

O ponto aqui é: todas as áreas da vida e pensamento humanos existem diante da face e dos interesses de Deus. Não há uma esfera sequer sobre a qual Deus não reivindique autoridade. Sendo assim, todas as áreas da vida e do pensamento humanos ... todas! ... devem ser resgatadas das elocubrações fúteis e carnais, e devem ser submetidas e reorientadas ao senhorio de Cristo (Cl 2.8) segundo a revelação especial de nosso Senhor, que está plena e infalivelmente expressa na Escritura Sagrada. Em outras palavras, não apenas há uma estética a ser pensada, mas há, de fato, uma estética cristã revelada.

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Notas:
1. Creio que um dos motivos pelos quais a afirmação de uma estética cristã seja tão indigesta na mentalidade comum resida na aversão a absolutos cultivada e disseminada sistematicamente pelo marxismo cultural. Outro motivo - este mais concentrado no próprio cenário cristão - pelo qual uma estética cristã seja tão impopular jaz na escassez de informações bíblicas diretas sobre o assunto. A Escritura fornece princípios de estética, mas não fórmulas prontas. Entretanto, creio que a maior razão seja o fato de que, por muito tempo, os valores estéticos têm tido qualquer fração de sua objetividade subtraída em função de uma exagerada parcela de subjetividade. As pessoas simplesmente imaginam que, quando se trata de "belo" e "feio", não existe objetividade alguma, mas somente opiniões subjetivas.
2. É claro que não ignoro a dificuldade latente em delinearmos todos os parâmetros para uma estética biblicamente orientada. A Escritura, como disse, não nos apresenta fórmulas prontas, padrões de cores, formas e sons cujas combinações resultem na construção do belo. Todavia, a Escritura nos fornece princípios que podem nos orientar neste sentido. Neste ponto, que excede minha expertise, prefiro confiar na graça de Deus atuando sobre os verdadeiros artistas para que produzam o belo e Deus seja glorificado.

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Autor: Paulo Ribeiro
Fonte: Teologia Expressa
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