Quão bíblico é o Molinismo? (Parte 2)

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Esse será o segundo post de uma série de n partes, onde n>1 e provavelmente n<10.

Nesta curta série, estou considerando a seguinte pergunta: “O quanto será que a Bíblia apoia o Molinismo?”. No primeiro post, eu resumi como eu pretendo abordar a questão, antes de olhar para dois ensinos bíblicos que o Molinismo procura acomodar: (1) a providência divina abrangente e (2) o conhecimento de Deus sobre os contra-factuais de liberdade da criatura. Cheguei à conclusão de que, apesar de a Bíblia, de fato, afirmar (1) e (2), e o Molinismo ser consistente com a Bíblia nesses pontos, o Agostinianismo também é. Logo, o Molinismo não detém vantagem alguma sobre o Agostinianismo com respeito a (1) e a (2). Eu, então, acrescentei:

Se queremos mostrar que o Molinismo possui melhor suporte bíblico do que o agostinianismo (ou vice-versa), então precisamos encontrar alguma proposição p que é afirmada pelo molinismo e negada pelo agostinianismo (ou vice-versa) de forma que p goza de apoio bíblico positivo (isto é, existem textos bíblicos que, segundo a interpretação mais natural e defensável, e sem implorar questões filosóficas, asseguram ou implicam p).

Nos próximos posts eu quero examinar três potenciais candidatos para a proposição p do lado molinista: (1) que o incompatibilismo é verdadeiro; (2) que Deus deseja que todos sejam salvos; e (3) que Deus não é o autor do pecado.



Incompatibilismo acerca do livre arbítrio

Como eu disse no primeiro post, os molinistas estão comprometidos com uma visão libertária do livre-arbítrio, e isso envolve duas reivindicações básicas:

Incompatibilismo: A verdadeira liberdade é incompatível com o determinismo.
Liberdade: Nós fazemos, pelo menos algumas, verdadeiras escolhas livres, i.e., escolhas pelas quais podemos ser considerados moralmente responsáveis.

Em conjunto, essas duas afirmações implicam que o determinismo é falso, mas, como os compatibilistas geralmente concordam que nós, de fato, fazemos escolhas verdadeiramente livres, a primeira reivindicação é o que realmente distingue os libertários dos compatibilistas.


Portanto, a questão que realmente importa aqui é saber se a Bíblia oferece algum suporte para o incompatibilismo. Antes de responder a essa pergunta, no entanto, gostaria de fazer duas observações preliminares. A primeira é esta: Eu argumentei antes que existem diferentes tipos de determinismo e que, em certos sentidos não-triviais, o Molinismo é determinista. O que o molinista realmente rejeita é o determinismo causal, ou seja, a tese de que todo evento é implicado por causas anteriores suficientes. Assim, quando considerarmos a reivindicação incompatibilista no que se segue, devemos entendê-la como a alegação de que a liberdade é incompatível com determinismo causal.

Em segundo lugar, apesar de não haver dúvidas de que os molinistas são comprometidos ao libertarianismo, existe um debate se os agostinianos são comprometidos ao compatibilismo ou não.

Felizmente, não precisamos resolver esse debate aqui. Ou o agostinianismo é consistente com uma visão libertária do livre arbítrio ou não é. Se ele for compatível com o libertarianismo, segue-se que qualquer apoio bíblico a favor do mesmo (se existir) não favoreceria o molinismo sobre o agostinianismo. Se não for, o molinismo teria vantagem somente se a Bíblia oferecesse algum suporte para o incompatibilismo. Mas, como irei argumentar agora, isso não é o que acontece.

Até onde tenho conhecimento, não há nada na Bíblia que chegue perto de, explicitamente ou diretamente, implicar no incompatibilismo sobre o livre arbítrio, ou seja, que implique que a verdadeira liberdade seja incompatível com o determinismo causal. Na verdade, é difícil até imaginar como seria tal afirmação. Certamente, não devemos esperar que a Bíblia afirme explicitamente que a liberdade (ou a responsabilidade moral) seja incompatível com o determinismo. E seria raciocínio circular argumentar algo como: “A Bíblia ensina que nós fazemos algumas livres escolhas; o determinismo é incompatível com a livre escolha; portanto, a Bíblia implica que nós possuímos um livre-arbítrio não-determinista”. Tal argumento meramente assume o incompatibilismo como uma de suas premissas. A questão é se a Bíblia oferece algum apoio independente a favor dela.

Quando os molinistas (juntamente com outros cristãos que defendem o libertarianismo) são chamados a defender seu ponto de vista sobre o livre-arbítrio, eles raramente apelam diretamente a textos bíblicos pela simples razão de que não existem textos bíblicos que servem para esse fim. Normalmente eles irão apelar para intuições de senso comum sobre o livre-arbítrio ou a um ou mais argumentos filosóficos a favor do incompatibilismo. Então, a defesa deles se torna algo do tipo: 1 – a Bíblia afirma que podemos fazer escolhas livres (ou seja, escolhas pelas quais somos moralmente responsáveis); 2 – as escolhas livres devem ser libertárias (apelando a intuições e/ou a argumentos filosóficos); portanto, a Bíblia dá suporte ao libertarianismo (ao menos indiretamente).

Esta linha de raciocínio pode ser criticada de diversas maneiras. Em primeiro lugar, a noção de que o libertarianismo é a visão de senso comum sobre livre-arbítrio é altamente questionável. Uma série de estudos têm sido feitos sobre a questão e não estamos nem perto de um consenso. Dependendo de quais perguntas são feitas (e como exatamente essas questões são enquadradas), parece que a intuição de algumas pessoas as inclina para o incompatibilismo e outras inclinam-se para o compatibilismo. Na verdade, parece que muitas pessoas têm intuições conflitantes quando se trata de livre arbítrio e responsabilidade moral.

Quanto aos argumentos filosóficos a favor do incompatibilismo, mais uma vez, o júri não se decidiu. Admito que existam alguns argumentos impressionantes a favor do incompatibilismo, mas também existem respostas, igualmente impressionantes, a esses argumentos. Além disso, existem argumentos filosóficos pesados contra as descrições libertárias (por exemplo, a objeção da sorte e a objeção do “o indeterminismo não ajuda em nada”). Na situação que o debate sobre o livre-arbítrio está atualmente, é justo dizer que o campo está dividido igualmente entre compatibilistas e incompatibilistas. Além do mais, os últimos nem sempre são libertários; entre os incompatibilistas, temos alguns que são céticos, e até mesmo negam, o livre arbítrio.

Em todo caso, tudo isso é (em grande parte) irrelevante. Lembre-se que a questão que estamos considerando aqui é se algum ensinamento bíblico favorece o molinismo quando deparado ao agostinianismo. Apelos a intuições extra-bíblicas ou a argumentos filosóficos, obviamente, não contam como ensinamentos bíblicos!

Há um versículo, no entanto, que muitos libertários têm apontado como dando apoio ao livre-arbítrio não-determinístico:

Não veio sobre vós tentação, senão humana; mas fiel é Deus, que não vos deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar. (1 Coríntios 10:13)

A sugestão é que o apóstolo Paulo está afirmando (ou, pelo menos, assumindo) alguma versão do Princípio das Possibilidades Alternativas (PPA):

PPA: Uma pessoa é moralmente responsável por uma ação apenas se essa pessoa pudesse ter agido de outra maneira (ou seja, capaz de fazer o contrário).

O argumento é mais ou menos o seguinte: Paulo está dando aos Coríntios (e por extensão, a todos os cristãos) a garantia de que sempre que um crente é confrontado com uma tentação ao pecado, Deus irá garantir que o crente tenha a capacidade de resistir a essa tentação e não sucumbir a ela. Em outras palavras, quando um crente é tentado a cometer algum pecado, Deus irá garantir fielmente que o crente tem a capacidade de fazer o contrário, ou seja, de não cometer o tal pecado. O crente tem, assim, o poder de escolha contrária – ou seja, ele possui um livre arbítrio libertário. (Este argumento assume, razoavelmente o bastante, que o crente é moralmente responsável se ele resistir ou não à tentação).


Existem, no entanto, vários problemas neste apelo a 1 Coríntios 10:13:

1. Existe uma discussão (mesmo entre os libertários) sobre a veracidade do PPA (e, de fato, sobre qual versão do PPA é verdade, pois existem variações da versão básica mencionada acima). Alguns defensores do libertarianismo argumentam que a condição sine qua non do livre-arbítrio libertário não é o PPA, mas sim alguma outra condição, como a condição da “fonte final” (ou seja, uma pessoa faz uma livre escolha somente se ela é a “fonte final” dessa escolha). Assim, mesmo que 1 Coríntios 10:13 desse suporte ao PPA, não seria uma consequência lógica que o verse também desse suporte ao libertarianismo.

2. Não somente existem libertários que rejeitam o PPA, como também existem alguns compatibilistas contemporâneos que o endossam (ou, pelo menos, uma versão  compatibilista do PPA). Existem maneiras de entender as frases “poderia ter agido de outra maneira” e “capaz de fazer o contrário ” que são consistentes com o determinismo causal. Assim, ainda que 1 Coríntios 10:13 desse suporte ao PPA, isso não seria garantia de que desse suporte apenas à versão incompatibilista do PPA. Claramente, o que Paulo diz no texto não é detalhado o suficiente para distinguir a compreensão compatibilista da libertária do termo “capacidade” (crucial ao texto).

3. Observe duas coisas sobre as declarações de Paulo no verso: Em primeiro lugar, elas são dirigidas especificamente aos crentes, e não para todos os seres humanos (veja o 1 Cor. 10: 1). Em segundo lugar, eles indicam que Deus proverá, ativamente, algo para os crentes (algo que eles não teriam de alguma outra maneira no curso normal dos acontecimentos). Então, se essa garantia de Paulo realmente implica uma visão libertária do livre-arbítrio, implica também que a liberdade não-determinista é algo que Deus vai ativamente (de forma sobrenatural?) conceder aos cristãos quando esses enfrentarem as tentações. Mas isso não é suficiente para o molinista. Pois, de acordo com o mesmo, todos os seres humanos têm uma liberdade não-determinista durante o curso normal dos acontecimentos (já que a liberdade não-determinista é para eles uma condição necessária para a responsabilidade moral). Ao final das contas, uma leitura libertária de 1 Coríntios 10:13 vai contra os pressupostos básicos da Molinismo.

Então aqui está a conclusão. 1 Coríntios 10:13 não oferece apoio claro a uma visão incompatibilista do livre arbítrio. Há maneiras simples e consistentes com o compatibilismo de entender essa garantia paulina. Na realidade, a única maneira de sair com uma noção de livre-arbítrio não-determinista a partir desse texto é ao adicionar vários argumentos filosóficos a ele (de que o PPA é o princípio distintivo do libertarianismo, de que as versões compatibilistas do PPA são inadequadas, etc.) e, mesmo assim, o verso não vai levar ao libertarianismopara todos” como proposto pelo Molinismo.

Eu não estou ciente de qualquer outro texto ou ensinamento bíblico que ofereça algum apoio direto a favor do incompatibilismo sobre o livre arbítrio. Concluo, portanto, que não há tal apoio. No próximo post desta série, vou considerar se o ensino bíblico de que Deus deseja que todos sejam salvos favorece o molinismo sobre o agostinianismo.

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Nota: Para algumas críticas incisivas do apelo molinista/arminiano a 1 Cor. 10:13, veja os seguintes posts de Steve Hays:

Molinismo e 1 Cor 10:13 (Traduzido por Alison Aquino)

Rota de Escape (em inglês)
Escolha contrária (Traduzido por Alison Aquino)
Contrafactuais e escolhas contrárias (em inglês)
Eterna Insegurança (em inglês)

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Autor: James Anderson
Fonte: Analogical Thoughts
Tradução: Erving Ximendes
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Quão bíblico é o Molinismo? (Parte 1)

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O Molinismo é uma teoria que pretende conciliar uma robusta doutrina da providência e presciência divina com uma visão libertária do livre-arbítrio, apelando para a noção do conhecimento médio divino: o eterno conhecimento de Deus sobre os chamados contra-factuais da liberdade da criatura em questão, ou seja, as verdades contingentes acerca de quais seriam as possíveis criaturas que livremente escolheriam a Deus se elas fossem colocadas sob determinadas circunstâncias. (Para outros posts, em inglês, tratando do Molinismo, clique aqui)

O Molinismo é mais frequentemente criticado por razões teológicas ou filosóficas principalmente porque ele é justamente defendido com base em suas supostas virtudes teológicas e filosóficas. E não há nada de errado nisso. Eu mesmo já lancei objeções ao Molinismo por razões teológicas e filosóficas. (Então está tudo bem, certo?) No entanto, para o cristão que crê que a Bíblia é a Palavra de Deus e a autoridade final em questões teológicas, a pergunta preeminente deve ser: O quanto será que a Bíblia dá suporte ao Molinismo? (Não me proponho a defender neste momento o princípio metodológico subjacente, irei simplesmente admiti-lo.)

Existem pelo menos dois componentes na questão que estamos tratando. Em primeiro lugar, será que o Molinismo é consistente com a Bíblia? Em outras palavras, será que a Bíblia ensina coisas que são (ou parecem ser) incompatíveis com os princípios ou as implicações do Molinismo? Em segundo lugar, será que a Bíblia oferece algum suporte positivo para as alegações propriamente pertencentes ao Molinismo, ou seja, aqueles princípios que distinguem o Molinismo das principais alternativas concorrentes (como Agostinianismo e o Teísmo Aberto)? Nesta série de posts, proponho explorar essas questões tendo como referência alguns textos bíblicos chaves. Vou me concentrar especialmente em como o Molinismo se compara ao Agostinianismo (que é, sem dúvida, seu principal concorrente entre os teólogos cristãos ortodoxos). (Nota: Estou usando o termo Agostinianismo simplesmente como abreviação para o determinismo divino causal. Não assumimos aqui que o próprio Santo Agostinho tenha, de fato, crido no Agostinianismo nesse sentido! Mas, definindo o Agostinianismo dessa maneira, iremos incluir a maioria dos calvinistas confessionais e, penso eu, muitos dos tomistas conservadores.)

Antes de entrar no centro da questão, eu deveria tratar uma preocupação que alguns leitores podem apresentar. Eu não estou assumindo que a Bíblia responda a todas as questões filosóficas nem que possa resolver qualquer disputa filosófica. É evidente que existem algumas questões filosóficas (por exemplo, se é possível viajar no tempo ou não, se os números são entidades reais, e se o utilitarismo de regra colapsa no utilitarismo de ato) que a Bíblia sequer pretende abordar (e isso também é uma coisa boa!). Mas, ao mesmo tempo, eu considero que a Bíblia faz algumas afirmações filosóficas (de fato, a declaração de abertura da Bíblia é profundamente metafísica!) e ainda mais frequentemente expressa coisas (afirmações, promessas, comandos, etc.) que têm implicações ou pressuposições filosóficas razoavelmente claras.

Então, de uma forma mais crua, eu acredito que a Bíblia nos apresenta uma série de “pontos” que devem tanto informar quanto restringir a nossa maneira de filosofar. Algumas teorias filosóficas são consistentes com esses pontos, enquanto que outras não são. Algumas teorias filosóficas se adequam melhor a esses pontos que outras. Algumas perguntas filosóficas não são determinadas pela evidência bíblica, mas nem todas são assim. Então, as perguntas exploradas nesta série incluem: (1) Quais são os pontos bíblicos importantes (ou alguns deles) quando se trata de avaliar o Molinismo? e (2) O quanto será que o Molinismo se adéqua a esses pontos?

A providência divina abrangente

Um dos temas mais importantes da Bíblia é o controle providencial abrangente de Deus sobre sua criação (às vezes chamado de “providência divina meticulosa”). Tudo o que acontece na criação ocorre de acordo com o plano soberano de Deus; nada acontece a não ser por Sua vontade. Os teólogos têm feito várias distinções entre a vontade ativa e permissiva de Deus, a vontade decretadora (secreta) e preceptiva (revelada), a vontade antecedente e conseqüente (e assim por diante), mas o argumento central é o mesmo: Deus tem um decreto eterno que cobre todo evento na criação, e esse decreto infalivelmente irá acontecer.

Aqui estão alguns textos específicos que ilustram esta penetrante doutrina bíblica:

O Senhor dos Exércitos jurou, dizendo: Como pensei, assim sucederá, e como determinei, assim se efetuará. Porque o Senhor dos Exércitos o determinou; quem o invalidará? E a sua mão está estendida; quem pois a fará voltar atrás?” (Isaías 14:24, 27)

Lembrai-vos disto, e considerai; trazei-o à memória, ó prevaricadores.Lembrai-vos das coisas passadas desde a antiguidade; que eu sou Deus, e não há outro Deus, não há outro semelhante a mim.Que anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam; que digo: O meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade.Que chamo a ave de rapina desde o oriente, e de uma terra remota o homem do meu conselho; porque assim o disse, e assim o farei vir; eu o formei, e também o farei.” (Isaías 46:8-11)

Quem é aquele que diz, e assim acontece, quando o Senhor o não mande? Porventura da boca do Altíssimo não sai tanto o mal como o bem?” (Lamentações 3:37,38)

E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.” (Romanos 8:28)

Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade;” (Efésios 1:11)

Particularmente notáveis são as afirmações bíblicas do controle soberano de Deus sobre as ações pecaminosas de suas criaturas, de tal forma que até mesmo essas ações fazem parte de seu plano providencial (por exemplo, Gênesis 50:20,  Juízes 14:1-4, 1 Samuel 2:25, Isaías 10:5-19, Atos 4:27,28, Romanos 9:14-21).

Uma das virtudes do Molinismo é que o mesmo procura acomodar este importante tema bíblico. De acordo com o Molinismo, Deus, de fato, tem um decreto eterno infalível; todos os eventos na criação foram ordenados por Deus. Citando um de seus defensores:

Essa visão não só dá espaço para a liberdade humana, mas dá a Deus um meio de escolher qual mundo de criaturas livres Ele deseja criar. Pois, sabendo como as pessoas iriam livremente escolher sob quaisquer circunstâncias que fossem, Deus pode, pelo Seu decreto, colocar apenas essas pessoas [que o escolheriam] sob essas circunstâncias, realizando assim Seus propósitos finais através das decisões livres das criaturas. Assim, empregando seu conhecimento hipotético, Deus pode planejar um mundo nos mínimos detalhes e ainda assim fazê-lo sem aniquilar a liberdade da criatura, uma vez que Deus já levava em conta nas equações quais pessoas livremente escolheriam sob várias circunstâncias. Como o conhecimento hipotético de Deus encontra-se logicamente entre o Seu conhecimento natural e Seu conhecimento livre, os molinistas o chamam de conhecimento médio de Deus. [2]

Logo, sobre este ponto, o Molinismo claramente apresenta vantagem sobre alternativas como o Teísmo Aberto (que rejeita a doutrina da providência divina abrangente). No entanto, como o Agostinianismo também afirma essa doutrina, nesse ponto o Molinismo não pode afirmar ser mais bíblico do que o Agostinianismo. Em outras palavras, o ensinamento da Bíblia sobre o controle providencial abrangente de Deus não favorece o Molinismo quando comparado ao Agostinianismo.

Contrafactuais da liberdade

O princípio que define o Molinismo é a afirmação de que Deus possui o chamado conhecimento médio e de que Ele baseia Seu eterno decreto nesse conhecimento prévio. O conhecimento médio é o conhecimento de Deus (precedente a Criação) acerca do quê as possíveis criaturas (ou seja, qualquer criatura que Deus possa trazer à existência) livremente escolheriam sob qualquer conjunto específico de circunstâncias. Por exemplo, de acordo com o Molinismo, Deus sabe desde a eternidade o que eu iria livremente escolher para comer no café da manhã se eu estivesse hospedado no Hilton Atlanta em 18 de Novembro de 2015 e me fosse apresentada uma determinada gama de opções enquanto eu sentia fome. Este conhecimento não implica por si só que eu irei fazer tal livre escolha, mas apenas que eu faria essa livre escolha se Deus decidisse me criar e organizar tudo, providencialmente, para que me fossem apresentadas as opções nessa data em particular, sob essas específicas circunstâncias.

Da mesma forma, de acordo com o Molinismo, Deus também sabe desde a eternidade o quê Schmames Anderson (meu irmão gêmeo do mal, uma possível criatura que Deus misericordiosamente optou por não criar no mundo real) livremente escolheria comer no café da manhã em circunstâncias semelhantes. (Suponho eu que seria “papas de milho” ou “pãozinho com salsa branca”.)

Portanto o Molinismo implica em: (i) realmente existirem tais verdades contrafactuais sobre as livres escolhas das possíveis criaturas; e (ii) no conhecimento de Deus, desde a Eternidade (ou seja, antes da Sua decisão de criar um mundo), sobre essas verdades contrafactuais. Tanto (i) quanto (ii) tem sido desafiados pelos críticos do Molinismo, mas essa não é a minha preocupação aqui. Em vez disso, quero considerar se há apoio bíblico para essas afirmações distintas do Molinismo.

Compreensivelmente, os molinistas têm colocado grande peso nas declarações das Escrituras que, em face disso, pressupõem o conhecimento hipotético de Deus de como as pessoas se comportariam se elas se encontrassem sob determinadas circunstâncias (especificamente como eles se comportariam se o mundo fosse diferente do que é, daí o termo “contrafactuais de liberdade”). Os textos bíblicos incluem: 1 Sm. 23:8-14; Ez. 3:6; Jr. 38:17-18; Mt. 11:21-24; Mt. 12:7; Lc. 22:67-68; Jo 18:36; 1 Co. 2:8.

Eu concordo que haja, de fato, um forte apoio bíblico a ideia de conhecimento contrafactual de Deus acerca das escolhas humanas. No entanto, devemos notar algo muito importante sobre estes textos: eles não afirmam explicitamente que as escolhas feitas (ou as que seriam feitas) são escolhas de natureza libertária.

É completamente razoável inferir que as escolhas em questão sejam escolhas livres, uma vez que as criaturas são (ou seriam) consideradas moralmente responsáveis por essas escolhas. Mas existe um debate muito grande entre os filósofos sobre qual seria o tipo necessário de liberdade para que se possa haver uma cobrança de responsabilidade moral sobre as criaturas. De um lado estão os libertários, que argumentam que a liberdade genuína requer o indeterminismo causal (isto é, as livres escolhas não podem ser causalmente determinadas por eventos ou estados anteriores). E do outro lado estão os compatibilistas, que argumentam que a liberdade genuína seja compatível com o determinismo causal.

Os molinistas, por definição, sustentam uma visão libertária (incompatibilista) da liberdade. A principal virtude do Molinismo, de acordo com seus defensores, é que ela concilia a liberdade (libertária) humana com a providência divina abrangente. Mas, os textos bíblicos citados acima não abordam a questão do tipo de liberdade que os seres humanos possuem. Eles não favorecem uma visão libertária sobre uma visão compatibilista. Se os molinistas os usam como suporte para a ideia de que existe o conhecimento contrafactual de Deus acerca da liberdade incompatibilista, é porque eles estão admitindo que esse tipo de liberdade seja necessário para que haja responsabilidade moral. Mas essa é uma afirmação filosófica discutível; não é algo que pode ser diretamente inferido a partir dos textos.

Os agostinianos tipicamente sustentam uma visão compatibilista da liberdade. Nesse ponto de vista, não há nenhum problema em afirmar que Deus tem o conhecimento contrafactual da liberdade humana. Este conhecimento não é um conhecimento médio (que por definição é o conhecimento contrafactual de uma liberdade incompatibilista). Ao invés disso, ele cai sob o conhecimento natural de Deus ou sob o Seu conhecimento livre. (Agostinianos podem assumir diferentes pontos de vista aqui, mas esse debate interno não vem ao caso. Todos os Agostinianos irão afirmar que Deus tem um conhecimento contrafactual abrangente).

O resultado, então, é que os textos bíblicos citados em apoio ao Molinismo (os textos que implicam (1) que existem verdades contrafactuais sobre as livres escolhas dos seres humanos; e (2) que Deus conhece essas verdades) são igualmente consistentes com o Agostinianismo se não formos levantar a questão da natureza das escolhas dos seres humanos (libertária versus compatibilista). Logo, esses textos favorecem o Molinismo apenas diante de alternativas concorrentes que negam (1) ou (2) (como o Teísmo Aberto ou a visão da Presciência Simples). Mas eles não favorecem o Molinismo diante do Agostinianismo pelo simples fato de o último também afirmar (1) e (2).

Podemos ser tentados a ir mais longe e argumentar que, à luz das objeções filosóficas à ideia de que não se pode haver verdadeiros contrafactuais de liberdade incompatibilista (por exemplo, a chamada objeção base), esses textos bíblicos na verdade apoiariam o Agostinianismo e não o Molinismo. Eu suspeito que o molinista aqui irá retrucar que existem objeções filosóficas ao compatibilismo (isto é, argumentos a favor do incompatibilismo) que pesam tanto quanto os argumentos contra a existência de verdadeiros contrafactuais de liberdade incompatibilista. O que essa resposta não leva em conta (penso eu) é que o molinista tem que lidar com dois conjuntos de problemas: objeções ao conhecimento médio e objeções à liberdade indeterminística (por exemplo, a famosa objeção da sorte). De toda maneira, está claro que neste momento o debate mudou, saiu das implicações superficiais dos textos bíblicos citados acima para disputas metafísicas mais profundas.

E agora? Para onde vamos?

Vimos que em relação a duas afirmações bíblicas significativas (a providência divina abrangente e o conhecimento de Deus de contrafactuais) não dá ao Molinismo vantagem alguma sobre o Agostinianismo, uma vez que ambas as posições são consistentes com esses ensinamentos bíblicos (pelo menos de cara). Se queremos mostrar que o Molinismo possui melhor suporte bíblico do que o Agostinianismo (ou vice-versa), então precisamos encontrar alguma proposição p que é afirmada pelo Molinismo e negada pelo Agostinianismo (ou vice-versa) de forma que p goza de apoio bíblico positivo (isto é, existem textos bíblicos que, segundo a interpretação mais natural e defensável, e sem implorar questões filosóficas, asseguram ou implicam p).

Na próxima parte desta série, irei considerar algumas proposições candidatas a p.

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Notas:
[1] Para uma discussão mais detalhada sobre o ensinamento bíblico da providência divina, leia os capítulos  8-9 do livro Systematic Theology por John Frame , ou os capítulos 3-5  de The Reformed Doctrine of Predestination por of Loraine Boettner.
[2] William Lane Craig, “God Directs All Things,” em Four Views on Divine Providence, ed. Dennis W. Jowers (Zondervan, 2011), p. 82, enfâse adicionada. O “conhecimento natural” de Deus é o Seu conhecimento acerca de todas as possibilidades e necessidades, que é fundamentado na natureza essencial de Deus. O “conhecimento livre” de Deus é Seu conhecimento acerca de todas as verdades contingentes sobre o mundo real, esse conhecimento está fundamentado no eterno e livre decreto de Deus.

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Autor: James N. Anderson
Fonte: Analogical Thoughts
Tradução: Erving Ximendes
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Mateus 11:20-24 ensina o Molinismo (Conhecimento Médio)?

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Por Dr. Joseph R. Nally


Ao teólogo Jesuíta Luis de Molina é, geralmente, atribuído a posição e origem do Molinismo, embora Fonseca e Lessius compartilhem das mesmas ideias. Eles usam textos tais como Mateus 11 para mostrar que Deus tem “Conhecimento Médio”. Em nossos dias, William Lane Craig afirma o mesmo, e a [denominação] The Baptist Faith and Message parece resumir o Molinismo: “O perfeito conhecimento [de Deus] se estende a todas as coisas, passadas, presentes e futuras, incluindo as decisões futuras de suas criaturas livres” (Artigo 2).

O Molinismo, em poucas palavras, declara que Deus tem três tipos de conhecimento: natural, médio e livre.

1) Conhecimento Natural é o conhecimento de Deus de todos os mundos possíveis (tudo que diz respeito ao que é necessário e possível no entendimento de Deus).

2) Conhecimento Livre é o conhecimento de Deus deste mundo atual. Por um “ato livre”, ele é capaz de conhecer o que ele conhece absolutamente (Até agora estamos bem, mas Molina diz que esse conhecimento (livre) não é alguma coisa que seja essencial em Deus).

3) O Conhecimento Médio declara que Deus não pode conhecer os atos livres futuros dos homens da mesma maneira que ele conhece outras coisas absolutamente.

Assim, de acordo com Molina, este Conhecimento Médio é dependente dos atos livres que os homens farão. Portanto Deus, em sua onisciência, espera pelo atos dos homens e, então, escolhe salvá-los com base em suas escolhas de serem salvos.

Agora, voltemos ao texto da questão (que está entre outros textos-provas de Êxodo 13.17; 1 Samuel 23.8-14; Jeremias 23.21, 22; 1 Coríntios 2.8).

Mateus 11.20-24: Então começou ele a lançar em rosto às cidades onde se operou a maior parte dos seus prodígios o não se haverem arrependido, dizendo: Ai de ti, Corazim! ai de ti, Betsaida! porque, se em Tiro e em Sidom fossem feitos os prodígios que em vós se fizeram, há muito que se teriam arrependido, com saco e com cinza. Por isso eu vos digo que haverá menos rigor para Tiro e Sidom, no dia do juízo, do que para vós. E tu, Cafarnaum, que te ergues até aos céus, serás abatida até aos infernos; porque, se em Sodoma tivessem sido feitos os prodígios que em ti se operaram, teria ela permanecido até hoje. Eu vos digo, porém, que haverá menos rigor para os de Sodoma, no dia do juízo, do que para ti.

Primeiro, o Conhecimento Médio é uma não-realidade. O conhecimento de Cristo é simplesmente natural (conhecimento de Deus de todos os mundos possíveis), não médio.

Segundo, Mateus 11 apenas prova o conhecimento de Deus de contrafactuais, não conhecimento médio. Como Travis Campbell, em Conhecimento Médio: Uma Crítica Reformada, declara:

Na melhor das hipóteses, as passagens frequentemente usadas pelos defensores do conhecimento médio provam, se provam alguma coisa, apenas “que Deus, conhecendo todas as causas, tanto as livres como as necessárias, sabe o que qualquer criatura fará em quaisquer condições. Mesmo nós sabemos que se pusermos fogo à pólvora, seguir-se-á uma explosão.” (A.A. Hodge, Outlines of Theology [Carlisle, Pa.: Banner of Truth, 1972], 148). Em outras palavras, essas passagens bíblicas nos mostram apenas que Deus conhece a natureza dos agentes livres tão bem que, fossem os agentes colocados em outras circunstâncias, Deus sabia exatamente que eles fariam. E isso não reconcilia conhecimento médio com libertarianismo, mas com compatibilismo. Mais importante ainda, é certamente possível que Deus conhece esta informação logicamente apenas posterior ao decreto divino, eliminando assim a necessidade do conhecimento médio. Portanto, há pouca, se há alguma, garantia bíblica para scientia media.

Bastante interessante, Craig admite este ponto, dizendo:

Desde que a Escritura não reflete sobre esse assunto, quase nenhum texto-prova pode provar que o conhecimento de Deus de contrafactuais é obtido logicamente antes de seu decreto divino. Isto é assunto para reflexão da teologia filosófica, não para exegese bíblica. Então, embora seja claramente anti-bíblico negar que Deus tenha conhecimento simples e mesmo conhecimento de contrafactuais, aqueles que negam o conhecimento médio não pode ser acusado de ser anti-bíblico (Craig, "Middle Knowledge View," 125.)

Terceiro, os defensores do Conhecimento Médio não podem deixar de fora, como Paul Harvey diria, “o resto da história”.

Mateus 11.25-27: Naquele tempo, respondendo Jesus, disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim te aprouve. Todas as coisas me foram entregues por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar.

O Conhecimento Médio aqui é condenado. Quando Jesus diz, “Pai, Senhor do céu e da terra”, ele está dizendo que Deus em sua soberania tinha, em seu agrado, ocultado conhecimento de alguns e revelado esse mesmo conhecimento a outros. Mateus 11 não fala sobre Deus não conhecendo qualquer coisa até que o homem fizesse alguma coisa. Pelo contrário, já as conhece e apenas não quer revelá-las até/se ele desejar. Mateus capítulo 11 está ensinando sobre o justo julgamento porvir (Mt 11.15-19). Observe que isso não aconteceu ainda, mas  Cristo sabe que irá acontecer. Isto não é conhecimento médio, mas conhecimento natural e conhecimento livre para justamente agir como Deus vê e prepara segundo sua vontade.

Deus é soberano sobre todas as coisas (Prov. 16:33; Mat. 10:29; Rom. 11:36; Ef. 1:11 etc.), até mesmo sobre as decisões humanas (Prov. 20:24; 21:1). Embora Deus não tente ninguém ao pecado (Tiago 1:13), Ele ainda está agindo em todas as coisas, de indivíduos à nações, para o fim que Ele tem desejado (Is. 46:10-11). O propósito de Deus não depende do homem (At 17:24-26), nem Deus descobre ou aprende (1 Jo 3:20; Jó 34:21-22; Sal. 50:11; Prov. 15:3). Todas as coisas são decretadas pelo conselho infinitamente sábio de Deus (Rom. 11:33-36).

A Confissão de Fé de Westminster substancia a posição ortodoxa no Capítulo III. 1 – 3, Dos Decretos de Deus:

I. Desde toda a eternidade, Deus, pelo muito sábio e santo conselho da sua própria vontade, ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, porém de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou contingência das causas secundárias, antes estabelecidas.
Isa. 45:6-7; Rom. 11:33; Heb. 6:17; Sal.5:4; Tiago 1:13-17; I João 1:5; Mat. 17:2; João 19:11; At.2:23; At. 4:27-28 e 27:23, 24, 34.
II. Ainda que Deus sabe tudo quanto pode ou há de acontecer em todas as circunstâncias imagináveis, ele não decreta coisa alguma por havê-la previsto como futura, ou como coisa que havia de acontecer em tais e tais condições.
At. 15:18; Prov.16:33; I Sam. 23:11-12; Mat. 11:21-23; Rom. 9:11-18.
III. Pelo decreto de Deus e para manifestação da sua glória, alguns homens e alguns anjos são predestinados para a vida eterna e outros preordenados para a morte eterna.
I Tim.5:21; Mar. 5:38; Jud. 6; Mat. 25:31, 41; Prov. 16:4; Rom. 9:22-23; Ef. 1:5-6.

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Sobre o autor: Dr. Joseph R. Nally, D.D., M.Div. é editor teológico no Third Millennium Ministries (IIIM).

Fonte: Third Millennium Ministries
Tradução: Rev. Gaspar de Souza
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O conhecimento que Deus tem das contingências: Conhecimento Médio

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Por John Frame


Entre o conhecimento necessário e o livre, alguns teólogos definem uma terceira categoria do conhecimento divino a que chamam conhecimento "médio". William Lane Craig distingue as três formas de conhecimento divino como segue:

1. Conhecimento natural: o conhecimento que Deus tem de todos os mundo possíveis. O conteúdo desse conhecimento é essencial para Deus.
2. Conhecimento médio: o conhecimento que Deus tem do que toda possível criatura livre faria em qualquer possível conjunto de circunstâncias e, daí, o conhecimento dos possíveis mundos possíveis que Deus pode tornar reais. O conteúdo desse conhecimento não é essencial para Deus...
3. Conhecimento livre: o conhecimento que Deus tem do mundo real. O conteúdo desse conhecimento não é essencial para Deus. [69]

Essas distinções foram criadas primeiramente pelo jesuíta espanhol Luis Molina (1535-1600), e foram adotadas por outros jesuítas, pelos socianos, pelos arminianos, por alguns luteranos e pelos calvinistas de Saumur, seguidores de Amiraldo. Os tomistas e a corrente principal dos reformados em geral têm rejeitado essa ideia. Em anos recentes, vários filósofos cristãos, entre eles Craig e Alvin Plantinga adotaram esse conceito. [70]

Dada a definição de Craig, é difícil ver, de início, por que os teólogos reformados fazem objeção a esse conceito. É certo que Deus sabe o que toda criatura livre fará ou faria em todas as circunstâncias possíveis.[71] Os exemplos bíblicos mais frequentemente citados são apropriados. Em 1 Samuel 23.7-13, Davi estava numa cidade chamada Queila, quando Saul chegou querendo mata-lo, Davi perguntou ao Senhor se, caso ele ficasse em Queila, os habitantes dali o entregariam a Saul. Deus respondeu que sim (v.12), e então Davi retirou-se daquela cidade. Nesse caso, Deus expressou seu conhecimento, não do que realmente aconteceria (pois os moradores de Queila nunca tiveram oportunidade de trair Davi), mas do que aconteceria em outras circunstâncias. Portanto, Deus sabia o que os habitantes daquela cidade fariam se as circunstâncias fossem diferente das que prevaleceram. Como os filósofos às vezes expressam, ele conhecia a verdade de um fato contrário condicional: Se Davi permanecesse ali, os habitantes de Queila o traíram.

A outra passagem frequentemente citada quanto a isso é Mateus 11.2-24. Nessa passagem, Jesus declara que, se os habitantes de Tiro, Sidom e Sodoma tivessem visto os milagres de Jesus, ter-se-iam arrependido.[72] De fato, eles não viram os milagres, e portanto, não tiveram oportunidade de arrepender-se. Mas Jesus sabia que eles teriam feito em outras circunstâncias. Vê-se, pois, que Jesus, nesse caso, expressou conhecimento de um fato contrário condicional.

É evidente que essas passagens não têm o propósito de defender pontos teológicos técnicos acerca do conhecimento eterno de Deus. Talvez não devamos insistir em interpretações precisamente literais. Mas, dando por aceitos os argumentos anteriores presentes neste livro, fica claro que Deus, governando todas as coisas pelo seu decreto eterno, sabe do que cada coisa é capaz e qual seria o resultado de qualquer alteração que se fizesse em seu plano.

Na verdade, na Escritura Deus fala muitas vezes do que aconteceria em condições diferentes das que realmente ocorrem. Deus diz repetidas vezes, de diferentes maneiras, que, se Israel fosse fiel, receberia todas as bênçãos de Deus na terra da promessa. Essa declaração é verdadeira; mas é fato contrário condicional. O certo é que Israel nunca demostrou essa fidelidade (exceto, é claro, na pessoa do remanescente, Jesus Cristo). Também é certo que, digamos, se Paulo não se arrependesse e não cresse, ele se perderia. Frequentemente a Escritura descreve a possibilidade contrária aos fatos a fim de manifestar a graça e a justiça de Deus. [73]

De um ponto de vista reformado, porém, é difícil ver por que esse tipo de conhecimento divino deva ser isolado como um terceiro tipo de conhecimento, ao lado do conhecimento necessário e livre. Observem que, na definição de Craig, o conhecimento necessário é um "conhecimento de todos os mundos possíveis que Deus pode vir a tornar reais". Qual a diferença entre esses tipos? Haverá mundos que são genuinamente possíveis, mas que Deus não pode tornar reais? Que é um "mundo possível", se não um mundo que Deus pode tornar real?

E por que não deveríamos incluir os possíveis atos de criaturas livres (na definição 2) como ingredientes dos possíveis mundos da definição 1? Quando Deus conhece mundos possíveis, não conhece ele também, em virtude desse conhecimento, todas as possíveis criaturas livres e seus possíveis atos? Assim, de um ponto de vista reformado, não há razão pela qual devamos considerar o conhecimento que Deus tem das contingências sob a categoria do conhecimento necessário.

Devemos, pois, rejeitar a afirmação de Craig de que esse conhecimento "não é essencial para Deus". Claro está que esse conhecimento trata de criaturas, e as criaturas não são necessárias para Deus. Mas trata com criaturas possíveis, não reais, e de seus atos em possíveis circunstâncias, não ato reais. Portanto, esse conhecimento não depende do decreto divino de criar um mundo real. Deus sabe quais criaturas e quais atos próprios da criatura são possíveis, simplesmente porque ele conhece a si mesmo. Ele sabe o que ele pode fazer. Deus conhece essas possibilidades simplesmente por conhecer a sua natureza. E o seu conhecimento de sua própria natureza é necessário.

Mas essa abordagem do conhecimento que Deus tem das contingências não foi satisfatória para Molina e para outros expoentes do conhecimento médio. Para entender a razão disso, devemos observar que o termo livre na definição 2 de Craig refere-se à liberdade libertária. E, na verdade, a maioria dos defensores do conhecimento médio como uma categoria teológica distinta tem sustentado ideias libertárias. A verdade é que muitos do entusiasmo deles pelo conhecimento médio deve-se ao fato de que ele fornece um vocabulário para falar do conhecimento que Deus tem dos atos próprios da criatura que são livres no sentido libertário.

Assim, se o libertarismo é verdadeiro, seguir-se-ia que o conhecimento médio seria de fato distinto do conhecimento necessário de Deus. Isso porque, segundo essa visão, Deus não conhece os possíveis atos livres das criaturas por meramente conhecer a si próprio. Desde que ele não causa os livres atos delas, não pode conhecer seus atos livres, ou seus possíveis atos livres, sem conhecer as cristuras propriamente ditas.

No capitulo 8, argumentei que o libertarismo é falso -  e até mesmo incoerente. Aqui devo acrescentar que o libertarismo introduz incoerência nessa discussão também. Para vermos isso, sigamos mais um pouco a argumentação de Craig:

Pelo seu conhecimento médio, Deus conhece todos os mundos possíveis que ele poderia criar e o que cada criatura livre faria em todas as várias circunstâncias desses mundos possíveis. Por exemplo, Deus sabe que Pedro, se ele existisse e fosse colocado em certa circunstância, negaria a Cristo três vezes. Por uma livre decisão de sua vontade, Deus então escolheu criar um desses mundos possíveis... Assim, Deus consegue saber os atos futuros livres com base no seu conhecimento médio e a sua vontade criativa. [74]

De acordo com a visão de Craig, Deus considera todos os mundos possíveis pelo seu conhecimento médio e, então, ele escolhe criar um deles. No mundo que ele escolhe criar, alguém chamado Pedro existe, e este, nessas circunstâncias criadas, negará Cristo três vezes. Observem que eu disse "negará", não "poderia negar" ou "talvez negasse". Uma vez que Deus cria um mundo (incluindo uma história do mundo), isso inclui a negação de Pedro, e essa negação é inevitável.


Sendo assim, que lugar há nesse cenário para a liberdade libertária? Uma vez que Pedro foi criado, sua negação é inevitável - é determinada, pode-se dizer. Craig, empregou o conceito do conhecimento médio a fim de sustentar a liberdade libertária junto com o conhecimento divino. Mas no momento da terrível decisão de Pedro, como se pode dizer que ele teve liberdade libertária? Antes, ele só pôde negar Jesus porque vivia num mundo no qual essa negação é um ingrediente. Deus determinou, antes de Pedro nascer, que ele trairia Jesus.

Craig não vê isso desse modo. Ele acredita que Deus decidiu criar este mundo baseado no seu conhecimento do que o criável Pedro escolheria livremente (no sentido libertário), e em seu conhecimento de outras criaturas criáveis neste mundo criável. Mas, como pode Pedro fazer uma livre escolha libertária quando faz parte de um mundo no qual os acontecimentos de sua vida, inclusive a sua negação de Jesus, foram decididos antes do seu nascimento?

Na verdade, quando Deus "escolheu criar um daqueles mundos possíveis", não estava preordenando tudo o que viria a suceder nesse mundo? Craig pode dizer que a escolha de Deus foi motivada pelo conhecimento que ele tinha das livres escolhas libertárias de Pedro, mas que a escolha de Deus propriamente dita limitou necessariamente as livres escolhas libertárias de Pedro, de modo que ele não tinha mais esse tipo de livre-arbítrio.

As livres escolhas libertárias, como vimos no capítulo 8, são escolhas com absolutamente nenhum empecilho. Os defensores do libertarismo frequentemente mostram que não entendem a diversidade que existe entre os tipos de liberdade, dependendo dos diferentes tipos de objetivos, habilidades e empecilhos. Eles tendem a pensar que as únicas alternativas são "algum empecilho" e "nenhum empecilho". Vê-se que Craig, aqui, não compreende que a criação de Deus de um mundo possível é de fato um empecilho às livres escolhas libertárias das criaturas. Se Deus escolheu criar um mundo de certa maneira, nenhuma criatura pode, depois, escolher fazer um mundo diferente. Pode haver outros empecilhos não presentes na situação de Pedro, mas a preordenação divina de um mundo em particular o impede de tomar quaisquer outras decisões que não as que ele toma.

Craig gostaria de acreditar que o conhecimento médio concilia a soberania divina com a liberdade libertária.[75] A verdade é que isso não acontece. Se a criação divina com base no conhecimento médio significa alguma coisa, significa que o libertarismo está excluído. Craig é incoerente ao afirmar tanto o libertarismo como o ato divino de concretizar um completo mundo possível, incluindo todas as escolhas feitas pelas criaturas.

Se abandonarmos o libertarismo, abandonaremos o sentido tradicional do conhecimento médio, e então, como eu disse anteriormente, não haverá razão para distinguir o conhecimento de Deus das contingências do seu necessário conhecimento de si mesmo. Contudo, continua sendo importante afirmarmos o conhecimento de Deus dos possíveis atos das criaturas possíveis e reais, e do que elas farão ou fariam em todas as circunstâncias. No capitulo 8, sugeri que esse conhecimento é, na verdade, parte da base racional da criação. Deus cria o mundo de acordo com seu plano eterno, mas esse plano pressupõe o seu conhecimento de mundo criáveis e possíveis e, realmente, o seu pré-conhecimento do mundo real. Deus preordena tudo o que vem a acontecer, mas ele não preordena na ignorância. Ele sabe e entende o que preordena e o que escolhe não preordenar. Portanto, a integridade das criaturas (cap.8) é parte integrante do plano de Deus desde o princípio.

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Notas:
[69] William Lane Craig. The only wise God (Grand Rapids: Baker, 1987), 131.
[70] Plantinga, The nature os necessity (Oxford: Clarendon Press, 1974), 169-80
[71]Heppe registra Gomarus, Walaeus, Crocius e Alsted como teólogos reformados que sustentavam o conhecimento médio nesse sentido. Ver RD [Reformed dogmatics] Ver também DG [The doctrine of God - Herman Bavinck], 192.
[72]Eles estão sendo comparados com os habitantes das cidades de Corazim, Betsaida e Cafarnaum, que viram as obras realizadas por Jesus, e, todavia, não creram.
[73]Talvez seja possível inferir da Escritura o que teria acontecido com a humanidade, se Adão e Eva não tivessem caído em pecado; em decorrência disso, tem havido muitas discussões teológicas sobre esse fato condicional.
[74]Craig, The only wise God, 133
[75]Ibid., 133-138.

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Fonte: FRAME, John. A doutrina de Deus; São Paulo; Cultura Cristã, 2013. Págs. 381-384.
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O Problema do Conhecimento Médio [ou do Molinismo]

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Por Herman Bavinck


Mas os jesuítas, entrando na discussão [sobre o pré-conhecimento de Deus], fizeram mudança. Com o intuito de articular a onisciência de Deus com a liberdade humana, seguindo a linha semi-pelagiana, eles introduziram o chamado conhecimento médio (media scientia) entre o conhecimento “necessário” e o conhecimento “livre” de Deus. Com esse conhecimento médio eles se referem a um conhecimento divino de eventos contingentes que é logicamente antecedente aos seus decretos. O objeto desse conhecimento é o meramente possível que nunca será realizado, nem aquilo que, em virtude de um decreto divino, é certo de acontecer, mas as possibilidades de que dependam, para sua realização, de uma ou outra condição. Ao governar o mundo, Deus faz que muitos resultados possíveis dependam de condições e sabe, com antecedência, o que fará, caso essas condições sejam ou não cumpridas pelos seres humanos. Em todos os casos, portanto, Deus está pronto. Ele antevê e conhece todas as possibilidades e toma suas decisões e providências levando em conta todas essas possibilidades. Ele soube, com antecedência, o que faria se Adão caísse e também se ele não caísse; se Davi fosse ou não até Queila; se Tiro e Sidom se arrependessem ou não. Portanto, o conhecimento que Deus tem de eventos contingentes precede seu decreto a respeito de eventos futuros “absolutos”. Embora os seres humanos, a cada momento, tomem suas decisões livres e independentes, nunca poderão surpreender Deus com as decisões que tomam ou desfazer seus planos, pois, em seu pré-conhecimento, Deus levou em conta todas as possibilidades. Essa teoria do conhecimento mediado foi apoiada por numerosos textos da Escritura que atribuem a Deus conhecimento daquilo que aconteceria em um dado caso se alguma condição fosse ou não fosse cumprida (e.g.,  Gn 11.6; Êx. 3.19; 34.16; Dt. 7.3, 4; 1Sm 23.10 – 13; 25.29ss; 2Sm 12.8; 1Rs 11.2; 2Rs 2.10; 13.19; Sl 81.14 – 16; Jr. 26.2, 3; 38.17 – 20; Ez 2.5 – 7; 3.4 – 6; Mt. 11.21, 23; 24.22; 26.53; Lc. 22.66 – 68; Jo. 4.10; 6.15; At. 22.18; Rm. 9.29; 1Co 2.8).

Embora, de fato, tenha recebido oposição dos tomistas e agostinianos (e.g., Bannez, os salmanticenses [carmelitas de Salamanca, Espanha] e Billuart), essa teoria do conhecimento médio também foi fervorosamente defendida pelos molinistas e congruístas (Suárez, Belarmino, Lessius, etc). O temor do Calvinismo e do jansenismo favoreceu essa teoria na Igreja Católica e, de maneira mais ou menos pronunciada, ganhou aceitação expressa por parte de quase todos os teólogos católicos. Desse modo, a linha de pensamento expressa por Agostinho foi abandonada e a de Orígenes foi recuperada. Ainda que a teologia grega tenha tomado essa posição desde o princípio, a teologia católica romana agora a seguiu. Os luteranos e os remonstrantes também não se mostraram indispostos com essa teoria. Em tempos modernos, muitos teólogos afirmaram, aproximadamente da mesma forma, que, para Deus, também, o mundo é um conhecimento médio. Ele, de fato, pré-conhece os eventos contingentes futuros como possíveis, mas descobre, com o mundo, se eles serão realizados ou não. Para todos os casos, porém, ele conhece “uma ação que se encaixará precisamente na ação da criatura, seja o que for que possa acontecer”. Ele estabeleceu o esboço do plano do mundo, mas deixa o enchimento desse esboço por conta das criaturas”. Em contraste com essa linha de pensamento, seguindo o exemplo de Agostinho, os reformados rejeitaram a teoria de um “pré-conhecimento nu” (nuda praescientia) e o “conhecimento médio” (media scientia).

Ora, com respeito a esse conhecimento médio, a pergunta não é se as coisas [ou eventos] não estão frequentemente relacionadas umas às outras por um tipo de conexão condicional, que é conhecida e desejada pelo próprio Deus. se isso fosso tudo o que ele quer dizer, ele seria aceito sem qualquer dificuldade, assim como Gomarus e Walaeus o entenderam e reconheceram nesse sentido. Entretanto, a teoria do conhecimento tem um objetivo diferente: se propósito é harmonizar a noção pelagiana da liberdade da vontade com a onisciência de Deus. Nessa interpretação, a vontade humana é, por sua natureza, indiferente. Ela tanto pode fazer uma coisa quanto outra. ela não é determinada nem por sua própria natureza nem pelas várias circunstâncias nas quais é colocada. Embora as circunstâncias  possam influenciar a vontade, no fim das contas ela permanece livre e escolhe conforme desejar. É claro que a liberdade da vontade assim concebida não pode se harmonizar com um decreto de Deus, aliás, ela consiste essencialmente em independência do decreto de Deus. Em vez de determinar essa vontade, Deus a deixou livre. Ele não podia determinar a vontade sem destruí-la. Com relação a essa vontade de suas criaturas racionais, deus tem de adotar uma postura de espera vigilante. Ele observa para ver o que elas farão. Ele, porém, é onisciente. Por isso ele conhece todas as possibilidades, todas as contingências e também pré-conhece todos os eventos futuros reais. Nesse contexto e conservando-o, Deus tomou todas as suas decisões e criou seus decretos. Se uma pessoa, em certas circunstâncias, aceitará a graça de Deus, ele escolheu essa pessoa para a vida eterna; se essa pessoa não crer, ela foi rejeitada.

Ora, é claro que essa teoria diverge, em princípio, do ensino de Agostinho e de Tomás de Aquino. Certamente, em sua mente, o pré-conhecimento de Deus precede os eventos e nada pode acontecer se não for pela vontade de Deus. “Nada, portanto, acontece, a não ser pela vontade do Onipotente”. Não o mundo, mas os decretos são o meio pelo qual Deus conhece todas as coisas. Portanto, os eventos contingentes e as ações livres podem ser conhecidos infalivelmente em seu contexto e ordem. O escolasticismo, reconhecidamente, às vezes já expressava, nesse ponto, de um modo que diferia de Agostinho. Anselmo, por exemplo, afirmou que o pré-conhecimento não implicava uma “necessidade interna e antecedente”, mas apenas uma “necessidade externa e consequente”. E Tomás de Aquino, de fato, acreditava que Deus eterna e certamente conhece os eventos futuros contingentes de acordo com o estado no qual eles realmente estão, isto é, de acordo com sua própria imediação, mas que, em suas “causas  imediatas”, eles são contingentes e indeterminados. Isso, porém, não altera o fato de que, com relação à sua “causa primária”, esses eventos futuros contingentes são absolutamente certos e, portanto, não podem ser chamados de contingentes. E, em outro ponto, ele novamente afirma que “tudo que existe foi destinado a existir antes que viesse à existência, porque existia por sua própria causa para que pudesse vir à existência”.

A doutrina do conhecimento médio, porém, representa os eventos futuros contingentes como contingentes e livres também em relação a Deus. Isso é feito não somente com relação à predestinação de Deus, mas também com relação ao seu pré-conhecimento, como em Orígenes, em que as coisas não acontecem porque Deus as conhece, mas Deus as conhece porque elas acontecerão. Portanto, a sequência não é conhecimento necessário, conhecimento de visão, o decreto de criar (etc), mas, em vez disso, é conhecimento necessário, conhecimento médio, decreto de criar (etc), e o conhecimento de visão deus não deriva seu conhecimento dos livres atos dos seres humanos de seu próprio ser, de seus decretos, mas da vontade das criaturas.

Deus, portanto, torna-se dependente do mundo, extrai do mundo conhecimento que ele não tinha e não pode obter por si mesmo e, portanto, em seu conhecimento, deixa de ser um, simples, independente – isto é, deixa de ser Deus. Inversamente, a criatura, em grande parte, torna-se independente diante de Deus. Ela, de fato, em um momento, recebe o “ser”(esse) e o “ser capaz”(posse) de Deus, mas, agora, tem a “volição”(velle) completamente em suas próprias mãos. Ela soberanamente toma suas próprias decisões, realiza ou não realiza alguma coisa de forma totalmente independente de um decreto divino anterior. Uma coisa pode, portanto, vir à existência totalmente à parte da vontade de Deus. A criatura é, agora, criadora, autônoma, soberana: toda a história do mundo é tirada das mãos de Deus e colocada em suas mãos. Primeiro os seres humanos decidem, depois Deus responde com um plano que corresponde a essa decisão. Ora, se essa decisão ocorreu – como no caso de Adão – somos capazes de concebê-la. Mas decisões de maior ou menor importância ocorrem milhares de vezes em toda vida humana. O que podemos pensar, então de um Deus que sempre espera todas essas decisões e mantém à mão um estoque de todos os planos possíveis para todas as possibilidades? O que, então, resta até mesmo de um esboço de um plano mundial quando sua execução é deixada nas mãos dos seres humanos? E de que vale um governo cujo executivo é o escravo de seus próprios subordinados?

Na teoria do conhecimento médio, é exatamente isso o que acontece com Deus. Deus é um mero espectador, enquanto os seres humanos decidem. Não é Deus que faz distinção entre as pessoas, mas as pessoas é que se distinguem. A graça é concedida de acordo com o mérito e a predestinação depende das boas obras. As ideias às quais a Escritura, em toda parte, opõe-se e que Agostinho rejeitou em sua polêmica contra Pelágio são transformadas na doutrina católica romana padrão pelo ensino dos jesuítas. Os proponentes do conhecimento médio, de fato, recorrem a muitos textos da Escritura, mas totalmente sem fundamento. Não há dúvida de que a Escritura reconhece o fato de que Deus inseriu as coisas (eventos, etc) em uma rede variada de conexões umas com as outras, e que essas conexões são, frequentemente, de natureza condicional, de modo que uma coisa não pode acontecer se outra coisa não acontecer primeiro. [Por exemplo], sem a fé não há salvação, sem o trabalho não há sustento, etc.

No entanto, os textos citados pelos jesuítas para fundamentar a teoria do conhecimento médio não provam o que precisa ser provado. Reconhecidamente, eles falam sobre condição e cumprimento, obediência e promessa, aceitação e consequência daquilo que acontecerá se um ou outro caminho for escolhido. No entanto, nenhum desses textos nega que, em todos os casos, Deus – embora fale aos seres humanos e lide com eles em termos humanos – conhecia e determinou aquilo que será realizado – presente em Deus somente como uma ideia – e aquilo que é certo e foi decretado por Deus não há uma área que possa ser controlada pela vontade dos seres humanos. Uma coisa sempre pertence a uma área ou a outra. se ela é somente uma possibilidade e nunca será realizada, ela é objeto do conhecimento “necessário” de Deus e se, um dia, ela realmente será realizada, ela é conteúdo de seu conhecimento “livre”. Não há um terreno médio entre os dois, não há conhecimento “médio”.

As teorias do conhecimento médio, além disso, não alcançam seu objetivo. Elas têm o objetivo de colocar a liberdade da vontade humana – no sentido de indiferença – em harmonia com o pré-conhecimento divino. Ora, elas alegam que esse pré-conhecimento concebido como conhecimento médio deixa a conduta humana totalmente livre, não-necessária. De fato, isso está correto, a não ser que, nesse caso, ele deixe de ser pré-conhecimento. Se Deus conhece infalivelmente com antecedência o que uma pessoa fará em determinado caso, ele só pode pré-conhecer isso se os motivos da pessoa determinarem sua vontade em uma direção específica, e isso, portanto, não consistiria indiferença. Inversamente, se essa vontade fosse indiferente, o pré-conhecimento seria impossível, e só existiria um conhecimento post-factum. O pré-conhecimento de Deus a vontade concebida como arbitrariedade são mutuamente excludentes. Pois, como Cícero já dizia, “se ele conhece, isso certamente acontecerá, mas, se isso obrigatoriamente deve acontecer, não existe algo como o acaso”. Portanto, juntamente com Agostinho, devemos procurar a solução do problema em outra direção. A liberdade da vontade não consiste, como descobriremos adiante, em indiferença, arbitrariedade ou acaso, mas em “prazer racional”. Esse prazer racional, em vez de estar em conflito com o pré-conhecimento de Deusa, é implicado e sustentado por ele. A vontade humana – juntamente com sua natureza, antecedentes e motivos, suas decisões e consequências – está integrada à “ordem de causas que é certa para Deus e abrangida por seu pré-conhecimento”. No conhecimento de Deus, as coisas estão relacionadas na mesma rede de conexões nas quais ocorrem na realidade. Não é pré-conhecimento nem predestinação aquilo que intervém, vindo de cima, com força de imposição. Toda decisão humana, todo ato humano é motivado, em vez disso, por aquilo que o precede, e, nessa rede de conexões, está incluído no conhecimento de Deus. conservando sua própria natureza conhecida e ordenada por Deus, os eventos contingentes e as ações livres estão ligados na ordem de causas que, pouco a pouco, nos é revelada na história do mundo.

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Sobre Herman Bavinck: Herman Bavinck (1854-1921) tornou-se sucessor de Abraham Kuyper na cadeira de Teologia Sistemática da Universidade Livre da Holanda, em 1902.

Fonte: BAVINCK, Herman. Dogmática Reformada. Vol. 2. São Paulo: Cultura Cristã, 2012, p. 204 - 209.
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