Objeções à doutrina da eleição soberana de Deus

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Esta edição de Sound of Grace lida com alguns dos argumentos usados por aqueles que discordam com a visão histórica de que a Bíblia fala sobre “eleição”. Uma das objeções mais comuns é algo parecido com isso:

“Eu concordo de coração que Deus ‘escolhe algumas pessoas para serem salvas’. Entretanto, Sua escolha é baseada inteiramente em Sua presciência. Como Deus vê o futuro e ‘prevê’ todas as coisas que acontecerão, Ele claramente pré-conhece aqueles que desejarão aceitar Jesus quando a oportunidade for apresentada. Deus, com base nessa ‘presciência’ (conhecimento prévio), escolhe aqueles que Ele ‘prevê’ que aceitarão a Cristo por seu próprio livre-arbítrio”.

Não é necessário pensar muito para ver que esta ideia nega completamente que Deus, no sentido que for, soberanamente escolhe homens para salvação. De forma simples, uma visão como esta, na verdade, diz o seguinte:

Porque todos os arminianos são calvinistas

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Quero apresentar um argumento contra o arminianismo baseado em uma falha interna dentro do esquema arminiano de predestinação.

Meu argumento, em poucas palavras:

“A posição arminiana sobre a predestinação é inescapavelmente calvinista (mais ou menos). Por causa disso, a única opção é aceitar o teísmo aberto ou o calvinismo”.

No século XVI, o teólogo católico romano e jesuíta Luis de Molina (1535–1600) propôs a ideia do conhecimento médio, mais tarde adotada (mas modificada) por Jacob Armínio (1560–1609).

Essa posição ficou conhecida como Molinismo. Pode ser que o “conhecimento médio” de Molina refere-se a liberdade de escolha, não predestinação. Mais tarde, os arminianos sequestraram o conhecimento médio de Molina para seus propósitos pessoais. Em outras palavras, Molina não é o vilão que presumimos, o que coloca os arminianos em uma posição precária de serem meio que inovadores.

Geralmente, os arminianos defendem que Deus poderia saber, antes de escolher indivíduos, o que um certo número de seres humanos, que são livres, fariam em certas circunstâncias. Em outras palavras, Deus sabe o que acontecerá e o que poderia acontecer sob certas condições.

Como resultado, para o arminiano, Deus elege baseado em seu “conhecimento médio” de que certos indivíduos responderão favoravelmente ao evangelho sob circunstâncias específicas. Deus não elege independente e incondicionalmente em Cristo, mas “reage” à escolha de um ser finito, a qual ele conheceu de antemão. Ele escolhe baseado em um condição futura (escolha).

Se a presciência de Deus depende de condicionais futuras, devemos perguntar se ela é ignorante em algum sentido (daí, o “teísmo aberto”). Mas, isso é um assunto pra outra hora.

No esquema arminiano, Deus “vê” o que aconteceria baseado em uma condicional futura e, então, escolhe com base no que ele “vê” acontecer em um mundo puramente condicional. Nesse esquema, Deus conhece condicionais condicionalmente.

Em resumo, o arminianismo introduz uma categoria separada, na qual a decisão humana se torna o fator causal que determina o evento. Essa é uma forma de semi-pelagianismo.

Entretanto, há uma falha para a qual eu gostaria de chamar atenção neste esquema, e uma que não vi ainda proposta antes. Pode ser que alguém tenha feito isso, mas não li ainda esse argumento em particular.

A Falha

Primeiro, certamente todos nós concordamos que Deus tem conhecimento de todos os mundos possíveis. Seu conhecimento não é limitado a um mundo, mas a todos os mundos possíveis no qual há um número infinito de possibilidades (por exemplo, não há cachorros em um certo mundo).

Por causa de sua liberdade absoluta, Deus não foi coagido a criar esse mundo particular em que vivemos. Teoricamente, ele poderia ter criado um mundo diferente em particular com base em seu conhecimento de um número infinito de outros mundos possíveis.

Ao eleger com base em uma condição futura, Deus está elegendo com base em um certo mundo possível que, então, ele escolhe trazer à existência. Daí, este mundo em que vivemos.

Neste mundo (i.e., um mundo possível A), ele escolhe a {pessoa x} com base na fé prevista.

Mas, neste mesmo mundo, ele não escolhe a {pessoa y} porque não houve fé prevista.

A pessoa x está predestinada à vida eternal, mas a pessoa y não está. Tudo porque a pessoa x creu (pela liberdade de sua vontade) com base em uma condicional futura.

Entretanto, em outro mundo possível (i.e., mundo possível B), a {pessoa y} crê, enquanto a {pessoa x} não.

Devemos nos perguntar o seguinte:

Por que Deus escolheu trazer à existência o mundo possível A, mas não o mundo possível B?

Ele escolheu assim, diz o calvinista, por causa de sua decisão livre e soberana de criar o mundo possível A, mas não o mundo possível B. Mas, o arminiano deve conceder que Deus, assim, elege um mundo no qual alguns creem e outros não, quando ele poderia ter eleito um mundo diferente no qual os resultados seriam diferentes. No final, a eleição ainda é, em última análise, escolha de Deus.

Deus poderia ter trazido à existência o mundo possível B? Claro. O fato de que ele não traz à existência o mundo possível B mostra que, portanto, ele está elegendo a {pessoa x} e não a {pessoa y} porque ele poderia ter criado um mundo possível diferente (mundo possível B) onde a {pessoa y} seria salva.

No fim, para o arminiano, Deus ainda elege. Ele elege um certo mundo no qual alguns têm a fé prevista e outros não, quando, de fato, ele poderia ter escolhido criar um mundo diferente em que pessoas diferentes seriam salvas. O arminiano não consegue escapar da eleição soberana. Em certo sentido, o arminiano ainda é um calvinista, ainda que um “calvinista anônimo”.

Claro, o conhecimento médio é uma bobagem. É semi-pelagiano. Ele se rende ao deus da liberdade humana e torna Deus um servo dos homens. Mas, mesmo quando isso é feito, o arminiano não pode escapar de uma forma de calvinismo onde, em última análise, Deus elege com base em sua escolha soberana. Não surpreende, então, que tantos arminianos tenham se tornado socinianos ou virado teístas abertos. Ou eles se voltam para Leibniz e argumentam que Deus escolheu este mundo porque é o melhor de todos os mundos possíveis.

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Autor: Mark Jones
Fonte: The Calvinist International
Tradução: Josaías Jr 
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Quão bíblico é o Molinismo? (Parte 4)

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[Este será o quarto post de uma série de n partes, onde n>1 e provavelmente n<10]

Nesta série embaraçosamente intermitente, eu tenho tratado da seguinte pergunta: Quão bem o Molinismo é apoiado pela Bíblia? No primeiro post, eu argumentei que o Agostinianismo e o Molinismo podem igualmente acomodar a providência divina abrangente e o conhecimento de Deus sobre os contrafactuais de liberdade das criaturas, ambos claramente afirmados pela Bíblia. Concluí observando que, para mostrar que o Molinismo é mais bíblico do que o Agostinianismo, precisaríamos identificar uma proposição p que (i) fosse afirmada pelo Molinismo, mas negada pelo agostinianismo, e (ii) que fosse afirmada ou que estivesse claramente implícita em algum ensinamento bíblico.

Romanos 11:22-24 ensina que a salvação pode ser perdida?

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Romanos 11. 22-24 ensina que a salvação pode ser perdida? E que depois de perdida pode ser recuperada? Vejamos:

Porque, se Deus não poupou os ramos naturais, teme que não te poupe a ti também. Considera, pois, a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; mas para contigo, benignidade, se permaneceres na sua benignidade; de outra maneira também tu serás cortado. E também eles, se não permanecerem na incredulidade, serão enxertados; porque poderoso é Deus para os tornar a enxertar. Porque, se tu foste cortado do natural zambujeiro e, contra a natureza, enxertado na boa oliveira, quanto mais esses, que são naturais, serão enxertados na sua própria oliveira!” Romanos 11. 22-24 - ACF

Paulo, argumentando contra a soberba gentílica (que foi um efeito colateral do orgulho israelense, por ser a nação eleita, que causou uma soberba nos gentios agora alcançados pelo evangelho, uma vez que se sentiam superiores aos judeus – que o recusaram), usa a alegoria da videira para ilustrar seu ponto de vista. Os gentios deveriam ver no exemplo da severidade divina dada aos judeus motivos para temer ao Senhor e demonstrarem gratidão ao invés de orgulho. 

Comentário de João Capítulo 6

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Nota do tradutor:

Provavelmente você já ouviu alguém dizer que Romanos 9 é a kryptonita do Arminianismo. Se esse é o caso, então João 6 é certamente o golpe de misericórdia. Neste fascinante comentário elaborado pelo Dr. James White, temos a refutação de duas ideias errôneas — porém bastante distintas — que se propagaram no Cristianismo: a transubstanciação e a depravação parcial do homem. Assim como o autor, eu espero que este comentário seja útil para os crentes do Brasil e que ele ajude a Igreja brasileira a buscar um material teológico são. 

Erving Ximendes, agosto de 2016.


Provas Escriturísticas da Segurança Eterna

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As passagens seguintes proporcionam evidência em duas etapas de que os crentes não podem se perder de um modo irrevogável.

1. Os eleitos de Deus são conhecidos como tendo vida eterna no instante em que creem. Ver Mateus 18.12-14; João 3.16,36; 5.24,25; 6.35-40; 10.27-30; 17.11-15; Romanos 8.1,29,30,35-39.

2. Deus guardará o seu povo fiel. Ver Romanos 8.37-39; 1 Coríntios 1.7-9; Efésios 1.5,13,14; 4.30; 1 Tessalonicenses 5.23,24; Hebreus 9.12-15; 10.14; 1 Pedro 1.3-5; 1 João 5.4,11-13, 20; Judas 24,25.

Duas passagens-chave

Algumas dessas passagens acima mostram muito explicitamente que a vida eterna (não meramente a possibilidade dela) é uma possessão de cada crente a partir da regeneração. Outras claramente parecem basear a segurança do crente no próprio Deus, seja no seu poder ou nas suas promessas, sem qualquer referência a que o crente tenha a necessidade de se escorar no poder de sua própria resposta ao evangelho ou em sua permanência nele.

Em 2 Coríntios 1.22, Efésios 1.13,14 e 4.30, encontramos referências a um selo de propriedade pessoal sendo aplicado à nossa alma pelo próprio Espírito Santo que presumivelmente não pode ser apagado. Imaginar que um selo sobrenatural dentro da nossa alma possa ser apagado é como tentar imaginar que nós decidimos que nunca mais vamos ter sonhos durante a noite. Simplesmente não temos qualquer tipo de controle sobre a nossa própria natureza inferior.

Para um tratamento abrangente deste tópico, incluindo uma refutação cuidadosa de todos os argumentos imagináveis dos arminianos contra ele, ver o livro de John Owen, de cerca de seiscentas páginas, chamado The Perseverance of the Saints (1654), que foi completado às carreiras quando o Parlamento pediu-lhe para entrar num outro projeto sobre sonicianismo. (Não obstante, essa obra permanece como uma obra definitiva sobre o assunto e deveria ser estudada cuidadosamente.) Contudo, nós nos ocuparemos aqui de duas passagens decisivas que fornecem uma prova direta da segurança eterna dos regenerados: João 10 e Romanos 8.

João 10

Esta é a bem-conhecida passagem sobre o Bom Pastor e sua ovelhas. Ela inicia-se com a imagem de um aprisco e com advertências contra tentativas carnais de evadir-se da verdade e da graça. Jesus aponta para o cuidado individual que o Pastor tem por suas ovelhas e chama a atenção para o fato de que o Pastor conhece as suas ovelhas pelo nome (10.3). Então, ele acrescenta que essas ovelhas conhecem e reconhecem a voz de seu próprio Pastor (vs.4,5). Isso parece indicar que, para Jesus, os eleitos são sobrenaturalmente afetados pela Palavra pregada de tal modo que eles são especialmente iluminados para responder a ela. Em outras palavras, Deus faz com que os eleitos reconheçam o seu Salvador no evangelho.

Então, tendo se identificado como a porta do aprisco e como o próprio Bom Pastor, Jesus caminha para o supremo sacrifício de dar a sua vida pelas ovelhas. Nos versículos 14,15, ele coloca juntas as duas verdades de que ele conhece as suas ovelhas e que elas o conhecem. Ele, então, liga esse mútuo conhecimento ao conhecimento mútuo entre as duas primeiras pessoas da Trindade. Esse conhecimento dificilmente pode ser inexato ou um conhecimento meramente provável. 

Mais adiante, nessa passagem, Jesus confronta novamente seus inimigos na multidão (vs.22-30). Ele os adverte de que eles não haviam crido nele porque eles não estavam no grupo chamado de "minhas ovelhas", e que ele, portanto, não os conhecia como seus. Se eles fossem suas ovelhas, eles haveriam de reconhecer quem Jesus era. Ele identifica suas ovelhas com os eleitos santos, um conceito familiar aos judeus do século 1º, por causa dos escritos dos profetas: "Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão" (v.28). Esse versículo assinala três coisas a respeito das ovelhas. Primeira, elas possuem a vida eterna agora, não apenas uma possibilidade de uma vida futura eterna. Segunda, elas nunca poderão perecer ("jamais perecerão"); e, finalmente, ninguém pode arrancá-las das mãos seguras do Filho. A expressão "ninguém" deve presumivelmente incluir as pessoas salvas, Satanás e qualquer outro possível candidato que desafie o poder guardador do Bom Pastor. Essas três coisas sozinhas garantem a segurança eterna dessas ovelhas. Elas excluem especificamente o costumeiro comentário arminiano sobre esse versículo: "Ninguém mais pode arrancar-nos das mãos do Pai, mas nós podemos sair". "Ninguém" deve excluir o nós mesmos, também, a menos que Deus não tenha pretendido que nós levássemos a sério a totalidade dessa passagem.

Romanos 8.28-39

Essa passagem inclui uma prova extensa da segurança dos crentes em Cristo. Ela afirma primeiro que os crentes podem estar confiantes de que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que "amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito" (v.28). Então, segue-se o que os puritanos chamaram de "Corrente Dourada" dos atos divinos para assegurar a salvação dos eleitos (vs.29-33). Esse grupo é rotulado como "aos que [Deus] de antemão conheceu" (v.29).

Nesse ponto o arminiano diz: "É isso! Aqueles a quem Deus predestinou são aqueles que Deus sabia antecipadamente que haveriam de crer. A eleição é baseada nesse pré-conhecimento de Deus. A mesma coisa é afirmada em 1 Pedro 1.2: 'eleitos, segundo a presciência de Deus'. O que poderia ser mais claro do que isso?".

Bem, o calvinista pensa que a exegese arminiana poderia ser mais clara. Os versículos citados aqui não afirmam que a eleição é baseada na presciência. A passagem de Romanos diz que o grupo daqueles rotulados como os chamados e "aos que de antemão conheceu" é da mesma natureza do grupo rotulado como os predestinados, e o segundo diz que a eleição é de acordo com o pré-conhecimento. isso não diz nada além de que a eleição está em harmonia com o pré-conhecimento e tem os mesmos sujeitos, mas não que a presciência deve preceder a eleição, como a teoria arminiana requer. Pode ser fato que o ensino calvinista da presciência de Deus seja simplesmente o pré-conhecimento de seu próprio plano escolhido, no caso de cada indivíduo em particular. Afinal de contas, a passagem diz que "os que de antemão conheceu, também os predestinou" (v.29). Ele fala claramente de pessoas, não meramente acontecimentos ou generalidades, que Deus conhece de antemão.

A questão das classes coextensivas é muito mais interessante à medida que Paulo continua com a ideia no versículo 30: "Todos aqueles na categoria dos predestinados, estes e somente estes, e todos eles, foram os sujeitos da chamada mencionada há pouco. E aqueles no grupo dos chamados, estes e somente estes, são aqueles a quem ele declara justos e justificados, no exercício da fé salvadora. Então, aqueles, neste grupo dos chamados, são aqueles que ele conduz para a glória; estes, e todos estes, e ninguém mais, apenas estes" (paráfrase minha). Assim, as classes dos chamados, dos predestinados, dos justificados e dos glorificados correspondem às mesmas pessoas. Para Paulo, é simplesmente uma questão de definir claramente o conteúdo e os limites desses grupos.

Essa corrente de raciocínio é totalmente devastadora para a posição arminiana. Ainda que a Bíblia realmente possuísse versículos que ensinassem o livre-arbítrio, eles não fariam nenhuma diferença para a exegese desses versículos de Romanos 8. A "Corrente Dourada", como os puritanos a chamaram, é completa na abrangência dos grupos descritos, não apenas na menção dos elos individuais mencionados. (Iluminação, santificação e ressurreição são os outros elos dessa corrente, mas são omitidos aqui.) "Aos que de antemão conheceu, também os predestinou" - cada elo da corrente por chamar os glorificados do versículo 30 de "os eleitos", no versículo 33.

O destino preciso dos predestinados é serem "conformados à imagem do seu Filho" (v.29). Incidentalmente, essa é uma descrição do processo de santificação, que esperaríamos que tivesse sido mencionado entre a justificação e a glorificação, no versículo 30. O destino dos eleitos, então, está predestinado. Todos os elos estão no lugar, juntando os que são efetivamente chamados com a sua glorificação final. Sem a santificação, "ninguém verá o Senhor", diz Hebreus 12.14.

Mas Paulo não terminou o seu argumento aqui. Ele convida os seus leitores a registrarem as conclusões apropriadas. "Que diremos, pois, à vista destas coisas?", ele pergunta no versículo 31. A primeira coisa que devemos dizer é que, embora sejam de fato pecadores, os eleitos não terão nenhuma objeção levantada contra a sua salvação no juízo final, porque o próprio Deus é quem os justificou, tendo ouvido o testemunho do seu Filho, o advogado deles (v.34). Então, ele lista algumas coisas que deveriam concebivelmente induzir os eleitos a serem separados do amor eletivo de Deus. Após uma lista previsível (vs.35-37), ele diz que está convencido de que nem a morte, nem a vida, nem os poderes angelicais, nem as entidades demoníacas, nada do que existe, nada do que poderá existir no futuro, nos domínios superiores ou inferiores que pertencem à grande cadeia do ser dos filósofos, ou outra coisa qualquer criada, pode separar os eleitos do amor eletivo e predestinador de Deus. 

Essa é uma lista totalmente abrangente - e incluiria também o livre-arbítrio humano, se nós o concedêssemos aos arminianos em benefício da discussão. Nenhuma prova adicional da segurança eterna poderia ser pedida, embora muito mais pudesse ser oferecido. A lista de leituras sugeridas, no final deste capítulo indica que John Gill trata de cerca de vinte versículos mais do que eu o fiz aqui, e a maioria deles torna o arminianismo impossível.


Conclusões

1. Segue-se irresistivelmente dos outros quatro pontos de Dort que os que são verdadeiramente regenerados estão eternamente seguros no amor eletivo de Deus.

2. Nada na criação pode separar os eleitos do seu destino em glória. 

3. "Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênçãos espirituais nas regiões celestiais em Cristo" (Ef 1.3). A expressão "toda" com relação às bênçãos espirituais deve incluir a bênção da perseverança, caso contrário todas as outras são neutralizadas e não seriam bênçãos, afinal de contas. Sem a graça da perseverança, nenhuma das outras poderia ser completamente efetiva. O plano de um ser racional não pode ser incoerente. Seus meios devem estar de acordo com os fins pretendidos.

4. Deus, sendo tanto racional como onipotente, não pode falhar em nenhum dos seus propósitos (Is 43.13). "Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação", diz Paulo em 1 Tessalonicenses 4.3; assim, essa vontade de Deus deve necessariamente ser cumprida na conformação das ovelhas de Deus à imagem do Bom Pastor. Os meios de um Deus soberano devem necessariamente cumprir os fins que ele planeja.

5. os remonstrantes posteriores, pressupondo o livre-arbítrio, estavam totalmente certos em desistir da ideia da perseverança dos santos. Ela não pode ser sustentada de modo consistente sem os outros quatro pontos de Dort, e nem pode ser racionalmente mantida na suposição do livre-arbítrio. Os evangélicos modernos que declaram ser calvinistas pela crença no "uma vez salvos, salvos para sempre", não possuem nenhum direito lógico à sua crença na segurança eterna e são simplesmente arminianos inconsistentes.

Leitura Adicional

Para maior exposição e defesa da perseverança dos santos, ver The Saint's Perseverance Explained and Confirmed, de John Owen, vol. 11, publicado pela Banner of Truth Trust (Londres, 1966. Essa é a obra mais extensa (mais de seiscentas páginas), mas que deveria ser consultada. O capítulo 3, intitulado "The Immutability of the Purposes of God", seria um bom início, porque ele tem somente vinte páginas. A maior parte do livro é uma resposta aos argumentos arminianos de John Goodwin, um dos poucos arminianos puritanos.

Para uma cuidadosa exposição dos versículos-chave que dão apoio à perseverança, ver também as porções relevantes de John Gill em The Cause of God and Truth (publicado em quatro partes, de 1735 a 1738; reeditado em Londres: W. H. Collingridge, 1855). Gill tem sido avaliado por críticos reformados criteriosos como tendo elementos *hipercalvinistas, mas isso não faz muita diferença para o tratamento que ele faz dos "versículos arminianos". Na primeira parte, mais de cinquenta passagens são examinadas.

Para uma fonte moderna sobre a perseverança, ver Grace and Perseverance, de G. C. Berkouwver (Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1958).

Para a relação entre a verdadeira doutrina e a vida devocional, ver o clássico do bispo E. H. Bickersteth, The Trinity (reedição Grand Rapids, Michigan: Kregel, 1957). Esse talvez seja o livro de maior ajuda a respeito da Trindade publicado nos anos 1800.

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Autor: R. K. McGregor Wright
Fonte: A Soberania Banida, Redenção para a cultura pós-moderna. Cultura Cristã, págs. 143-148.
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Eleitos enganados?

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Uma investigação exegética de Mateus 24.24, em resposta a interpretação arminiana.

Introdução

Este breve artigo é uma resposta ao artigo “Mateus 24.24: É possível enganar os escolhidos?” (publicado em cacp.org.br). Irei não apenas mostrar os erros da interpretação desse artigo, mas pretendo construir exegeticamente uma compreensão correta do significado do texto.

1. O erro interpretativo


A interpretação arminiana usa textos como At 20.16 e Rm 12.18 para fundamentar a compreensão de que os eleitos podem ser “enganados” se desviando da verdade para seguir os falsos mestres. Entretanto, não vejo como tal interpretação não comete a falácia exegética chamada “paralelismo verbal”. Paralelismo verbal é a enumeração de paralelismos verbais de obras literárias como se esses meros fenômenos demonstrassem elos conceituais ou mesmo dependência.[1] Ou seja, tanto o texto de Atos como o texto de Romanos estão tratando de coisas diferentes em contextos diferentes. Além dessa, o artigo comete outras falácias como: A falácia da sinonímia, a falácia do uso seletivo e preconceituoso das evidências, a falácia das disjunções e restrições semânticas injustificadas, etc.

Portanto, toda a interpretação não somente falha em sua análise exegética (não há discussão quanto a gramática, contexto, etc) como foi completamente erguido sobre o fundamento de areia das falácias.

2. Contexto da passagem

Sem sombra de dúvidas, Mateus 24 é uma crux interpretum. No contexto mais amplo, Jesus está na Judéia (19.1-25.46). Em 24.1-24.46 temos o sermão da oliveira, o último grande discurso de Jesus nesse evangelho, mas como nosso interesse se limita ao v.24, não irei entrar em maiores detalhes contextuais.

Principalmente com a destruição do templo judaico em 70 d.C., iriam surgir vários falsos mestres, dizendo que são messias, e é nesse contexto que temos a expressão “...para enganar, se possível, os próprios eleitos”.

3. Análise exegética

O “se possível” não questiona a segurança do eleito, mais do que questiona a inevitabilidade do cálice de Jesus (26.39).[2] O verbo aoristo ativo “enganar” (πλανῆσαι) é um infinitivo propositivo (ou seja, para enganar, expressando o propósito), o “se possível” refere-se a intenção dos impostores, como Carson notou: “eles pretendem, se possível, enganar até mesmo os eleitos – sem nenhum comentário sobre o quanto, no final, esses ataques serão bem sucedidos.[3] 

O termo eleito é repetido no v. 22 e depois no v. 33. Esses são aqueles a quem Deus elegeu soberanamente, os quais, entretanto, serão finalmente identificados somente na revelação escatológica. No entanto, é evidente que há aqueles que são patentemente relacionados com os propósitos de Deus nesta terra e aqueles que não são. 

Certamente existe a inter-relação entre a soberania eletiva de Deus e a responsabilidade humana. Na perspectiva do evangelho, alguém se protege dos erros (pelo menos em parte) ao tomar as precauções apropriadas, contra o erro, e isso não contraria o imutável fiat Divino. A tentação sempre é uma realidade e precisa ser fortemente resistida.

Se tomarmos a linguagem de “eleito” no seu sentido mais forte, então nenhum desvio para a perdição ocorrerá. Não por causa de algo invencível e intrínseco ao eleito, mas por causa da “esfera conceitual” (do termo eleito), a questão nem deve ser levantada.[4] 

O próximo verso sustenta nossa interpretação. O verso 25 contém no original, três palavras gregas, onde Jesus acentua sua predição. Os discípulos não terão desculpas quando a feroz tribulação chegar, pois foram avisados. Por causa desse aviso eles não serão perturbados, antes sua fé em Jesus será confirmada.[5] Jesus estava dizendo que, se fosse possível tais falsos mestres enganarem os eleitos, eles o fariam. No entanto, ao saberem coisas que iriam passar, isso deveria fortalecê-los, e quando a tribulação chegasse, eles iriam lembrar-se da profecia, e isso os ajudaria a não ficarem impressionados.[6]

4. O uso do Antigo Testamento

Os ecos veterotestamentários são evidências cumulativas para nossa interpretação. Podemos perceber ecos de Deuteronômio 13.1-3:1

Quando profeta ou sonhador se levantar no meio de ti e te anunciar um sinal ou prodígio, suceder o tal sinal ou prodígio de que te houver falado, e disser: Vamos após outros deuses, que não conheceste, e sirvamo-los, não ouvirás as palavras desse profeta ou sonhador; porquanto o SENHOR, vosso Deus, vos prova, para saber se amais o SENHOR, vosso Deus, de todo o vosso coração e de toda a vossa alma.

Os falsos profetas dessa perícope não eram pra desviar os eleitos, mas eram uma “prova” para ver quem realmente amava a Deus. O texto também pode ecoar Zacarias 9.14, com a figura do Senhor e suas flechas que reluzem como relâmpagos.[7]  


Conclusão

Concluímos que os eleitos não podem ser enganados, no sentido de seguirem os falsos mestres para a perdição. Nossa interpretação discorda da interpretação arminiana, por não considerar não somente o contexto imediato, mas também o restante da teologia do Novo Testamento, que claramente ensina que Deus guarda e preserva seus amados filhos.

Excurso: Esboço clausal do texto grego

  • Explanação - ἐγερθήσονται γὰρ ψευδόχριστοι καὶ ψευδοπροφῆται
  • Verbo - καὶ δώσουσι σημεῖα μεγάλα καὶ τέρατα
  • Infinitivo - ὥστε πλανῆσαι
  • Questão indireta - εἰ δυνατόν
  • Objeto direto / Cláusula resultante - καὶ τοὺς ἐκλεκτούς

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Notas:
[1] D. A. Carson, Perigos da interpretação bíblica, p. 41. 
[2] D. A. Carson, O comentário de Mateus, p.584.
[3] Ibid
[4] Nolland John. (2005). Preface. In The Gospel of Matthew: a commentary on the Greek text (p. 979). Grand Rapids, MI; Carlisle: W.B. Eerdmans; Paternoster Press.
[5] William Hendriksen, Mateus,  p. 505.
[6] Morris, L. (1992). The Gospel according to Matthew (p. 607). Grand Rapids, MI; Leicester, England: W.B. Eerdmans; Inter-Varsity Press..
[7] Craig L. Blomberg, Mateus, em O comentário do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento,  eds, D. A. Carson e G. K. Beale, p. 107.

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Autor: Willian Orlandi
Divulgação: Bereianos
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Quão bíblico é o Molinismo? (Parte 3)

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Nesta série involuntariamente e lamentavelmente esporádica, eu estive considerando a pergunta: O quanto será que a Bíblia apoia o Molinismo? No primeiro post eu argumentei que a Bíblia afirma (1) a providência divina abrangente e (2) o conhecimento de Deus acerca dos contrafactuais de liberdade da criatura (isto é, o conhecimento acerca do que qualquer agente criado irá livremente fazer se colocado em determinadas circunstâncias), mas o Molinismo não possui nenhuma vantagem sobre o Agostinianismo no que diz respeito a (1) e (2). Eu concluí com a seguinte afirmação:

“Se queremos mostrar que o Molinismo possui melhor suporte bíblico que o Agostinianismo (ou vice-versa), então precisamos encontrar alguma proposição p que é afirmada pelo Molinismo e negada pelo Agostinianismo (ou vice-versa) de forma que p goza de apoio bíblico positivo (isto é, existem textos bíblicos que, segundo a interpretação mais natural e defensável, e sem implorar questões filosóficas, asseguram ou implicam p).

No segundo post eu examinei um candidato para a proposição p: a proposição de que a liberdade moral é incompatível com o determinismo (uma coisa que os molinistas invariavelmente afirmam, mas que os agostinianos normalmente negam). Cheguei à conclusão de que a Bíblia não oferece suporte para o incompatibilismo. Neste post eu vou considerar um segundo candidato a proposição p: a proposição de que Deus deseja que todos sejam salvos.


A BÍBLIA E A VONTADE SALVÍFICA DE DEUS

Alguns molinistas tem argumentado que a Bíblia ensina que Deus deseja a salvação de todos e que o Molinismo faz melhor justiça a este ensino do que seu principal rival, o Agostinianismo. Kenneth Keathley, por exemplo, em seu livro Salvation and Sovereignty, aponta três textos bíblicos em particular – João 3:16, 1 Timóteo 2:3-4 e 2 Pedro 3:9 – como exemplos de passagens que ensinariam a vontade salvífica e universal de Deus. Keathley então começa a argumentar que o Molinismo faz mais justiça a este ensinamento bíblico na medida em que afirma tal desejo divino e ao mesmo tempo dá uma melhor explicação sobre o porquê esse desejo não se realiza. (Keathley assume, como faço aqui, que o universalismo é falso).

Vamos começar examinando se o desejo de Deus para a salvação universal é realmente um ponto afirmado de forma clara e explícita nas Escrituras. João 3:16 deve ser o versículo mais conhecido na Bíblia:

Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” [ACF]

Observe cuidadosamente o que o texto diz e o que ele não diz. O texto fala que o amor de Deus para “o mundo” era tal que Deus enviou o seu Filho unigênito, com o objetivo de que todo aquele que nele crê (no Filho) tenha a vida eterna. O texto não diz que Deus deseja que cada pessoa creia e que, assim, tenha a vida eterna. Alguém poderia pensar que essa é uma implicação do texto, mas ela não é indicada explicitamente. Ela se torna uma implicação apenas se existem determinados pressupostos como, por exemplo, o pressuposto de que “o mundo” refira-se a todas as pessoas, e que o amor de Deus para X implica que Deus deseja que X tenha a vida eterna. Meu propósito aqui não é questionar essas suposições (embora eu vá, pelo menos, destacar que João em nenhum lugar de seu evangelho ou de suas epístolas usa
kosmos de uma maneira que implica “todas as pessoas”). Pelo contrário, meu objetivo é simplesmente observar que a ideia de que Deus deseja a salvação universal, mesmo que seja verdade, não pode ser extraída diretamente de João 3:16.

Considere agora 1 Timóteo 2:3,4

Porque isto é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador, que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade.” [ACF]

Este parece um pouco mais claro até você aprender que a palavra grega para ‘todos’ às vezes pode levar o sentido de todos sem distinção (em português: “todos os tipos”) ao invés de todos sem exceção. Qual o sentido que melhor se ajusta nesse caso? Bem, isso é uma questão de debate entre os comentaristas. Dado o contexto imediato (considerando como Paulo usa ‘todos’ nos versos 1-2), é razoável pensar que o objetivo de Paulo aqui não é dizer que Deus deseja que cada pessoa seja salva, mas sim que Deus deseja que as pessoas de todas as faixas – tanto aquelas de alto status como as da plebe como nós – sejam salvas. De acordo com o evangelho da graça, Deus não privilegia uma classe de pessoas em detrimento de outra quando se trata de salvação. Como Calvino afirmou: “Com isso, realmente outra não é sua intenção, senão dizer que Deus não fechou o caminho da salvação a nenhuma ordem de homens, senão que, antes, de tal modo derramou sua misericórdia, que não quer que algum dentre eles seja dela carente” (Institutas, 3.24.16) . Ainda que alguém não esteja completamente convencido dessa leitura do texto, se deve, pelo menos, admitir que é linguisticamente plausível e que faz sentido no contexto imediato.

Finalmente, vamos considerar 2 Pedro 3:9:

O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; porém é longânimo para convosco, não querendo que ninguém se perca, senão que todos venham a arrepender-se.” [AR]

Mais uma vez, em uma leitura superficial isto parece ser um gol olímpico dos molinistas: Deus deseja que todos se arrependam de modo que ninguém venha a perecer. No entanto, assim como o texto de 1 Timóteo 2, a declaração de Pedro deve ser interpretada no seu contexto. A abrangência de “ninguém” e de “todos” é qualificada pelo público a quem Pedro está escrevendo: o “convosco” no início do versículo. A segunda metade deve ser entendida assim: “não querendo que nenhum de vocês se perca, senão que todos vocês venham a arrepender-se”.

Agora, novamente, pode muito bem ser possível inferir uma reivindicação mais ampla sobre o desejo de Deus para a salvação universal, ao trazer consigo suposições teológicas complementares derivadas de outros textos e ensinamentos bíblicos. Meu objetivo aqui é apenas enfatizar que não há nenhuma afirmação clara e explícita de um desejo salvífico universal em 2 Pedro 3:9.

Para ser mais claro: eu não quero argumentar contra a ideia de que Deus deseja que todos sejam salvos. Acredito firmemente que Ele queira, mas num sentido devidamente qualificado. Estou simplesmente observando que não existem textos bíblicos que afirmam explicitamente essa ideia ou que diretamente a implicam. É uma inferência (e eu acho que garantida) a partir de uma série de diferentes textos interpretados em termos da abrangente linha de história bíblica .

Em todo caso, pode-se verificar que essa questão é em grande parte irrelevante quando se trata de avaliar o Molinismo. Porque, como irei argumentar agora, mesmo que venhamos a admitir que a Bíblia de fato ensina um desejo salvífico universal da parte de Deus, está longe de ser claro que o Molinismo faça mais justiça a esse ensino que o Agostinianismo.

SERÁ QUE O MOLINISMO TEM VANTAGEM SOBRE O AGOSTINIANISMO?

Vamos supor, então, que a Bíblia ensine que Deus deseja que todos sejam salvos. Será que o Molinismo acomoda melhor esse ensino que o Agostinianismo? Os molinistas também acreditam que, ao contrário do que Deus deseja, nem todos serão salvos. Logo, os molinistas devem conciliar estas duas reivindicações:

A: Deus quer que todo o mundo seja salvo.
B: Nem todo mundo será salvo.

Existem basicamente duas opções aqui para o molinista. A primeira é dizer que nem todo mundo é salvo porque a garantia de salvação universal não estava dentro do poder de Deus. Precisamos lembrar, porém, que os molinistas desejam afirmar a providência divina abrangente, segundo a qual tudo no mundo ocorre de acordo com um eterno decreto divino. Assim, a partir de uma perspectiva molinista, dizer que Deus não poderia garantir que todos fossem salvos é equivalente a dizer que Deus não poderia ter eternamente decretado a salvação de todos, o que significa (em termos molinistas) que Deus não poderia tornar real um possível mundo possível onde todos fossem salvos (ou, sendo mais preciso, que Deus não poderia tornar real um mundo onde todas as pessoas que existem naquele mundo fossem também salvas nele).


Lembre-se que no esquema molinista, Deus não pode tornar real qualquer mundo possível. A escolha de qual mundo irá se tornar real é limitada pelos contrafactuais de liberdade da criatura (uma liberdade não-determinista). Há um subconjunto de mundos possíveis (às vezes chamados de mundos “viáveis”) em que Deus é capaz de tornar real com base no seu conhecimento médio. Assim, de acordo com esta primeira opção, o molinista estaria dizendo que apesar de existirem possíveis mundos onde todos são salvos, não há mundos factualizáveis onde todos são salvos (presumivelmente, Deus queria que houvessem alguns desses mundos, mas isso estava além de Seu controle. Deus só podia jogar com as cartas que tinha, e a mão que deram a Ele não foi a melhor possível).

Logo, nesta primeira forma de conciliar A e B, Deus não poderia satisfazer seu desejo de salvação universal simplesmente porque não havia mundos factualizáveis onde a salvação universal de fato ocorresse. A dificuldade para o molinista, no entanto, é que não existe apoio bíblico positivo para tal afirmação. Além disso, não há boas razões teológicas ou filosóficas para crer em tal afirmação, a menos que você já esteja comprometido com o Molinismo. O melhor que o molinista pode fazer aqui é insistir que “pelo que sabemos” não existem mundos factualizáveis onde todos são salvos; em outras palavras, que nada do que conhecemos tem o poder de descartar isso. Mas, claramente, isso não é bom o suficiente para estabelecer os credenciais bíblicos do Molinismo. O que precisamos aqui é de alguma razão para achar que o Molinismo se ajusta melhor aos dados bíblicos que seus concorrentes.

A segunda maneira do molinista conciliar A e B é propor que Deus poderia ter tornado real um mundo onde todos são salvos, mas que ele tinha uma razão primordial para não fazê-lo. Os molinistas podem oferecer (e têm oferecido) várias sugestões quanto a qual seria esse motivo:

  • Talvez os mundos factualizáveis onde a salvação universal ocorresse fossem mundos muito escassamente povoados e, portanto, apenas um número relativamente pequeno de pessoas iria desfrutar das bênçãos da salvação.
  • Na verdade, talvez a maior preocupação de Deus não é concretizar um mundo onde todos são salvos, mas sim concretizar um mundo onde existe um equilíbrio global otimizado entre salvos e não salvos (como o William Lane Craig propõe aqui).
  • Uma sugestão intimamente relacionada: talvez a maior preocupação de Deus seja concretizar um mundo onde a felicidade humana líquida (o que levaria em conta tanto a felicidade total dos salvos e a infelicidade total dos perdidos) é maximizada.
  • Como alternativa, talvez os mundos factualizáveis onde a salvação universal ocorre também viriam a ser mundos onde há terríveis males morais que ultrapassam o bem da salvação universal (ou, mais precisamente, superam o bem da salvação de todos os seres humanos caídos nesse mundo).

No final, realmente não importa o motivo específico que o molinista ofereça aqui, porque a lógica subjacente é a mesmo: sendo tudo igual, Deus iria tornar real um mundo onde todos são salvos, mas todo o resto já não seria igual.

Uma vez que o molinista faz essa jogada, no entanto, o jogo para, pois o agostiniano pode e, de fato, faz a mesma jogada. Os agostinianos irão afirmar que Deus poderia ter decretado um mundo onde todos são salvos, mas Deus tinha uma boa razão primordial para não fazê-lo. Ele pode até mesmo concordar que com todo o resto sendo igual, Deus teria decretado a salvação universal, mas tudo não continuaria a mesma coisa: Deus tinha outras considerações (mais elevadas). Em toda a probabilidade o agostiniano irá apontar para o desejo de Deus de expressar sua liberdade soberana na eleição e glorificar a si mesmo através da exibição tanto de sua misericórdia (na salvação imerecida de alguns seres humanos caídos) e da sua justiça (na justa condenação de outros seres humanos caídos). Na verdade, o agostiniano pode citar Romanos 9:14-24 como apoio bíblico positivo para a sua posição, que é muito mais do que o molinista pode fazer em relação às especulações sobre as razões de Deus (voltarei a esse ponto depois).

Mais uma vez vemos que o Molinismo está, na melhor das hipóteses, empatado com o Agostinianismo em relação aos dados bíblicos. Mesmo admitindo que a Bíblia ensine o desejo de salvação universal da parte de Deus, o Molinismo não faz mais justiça que o Agostinianismo em relação a esse ensino (isto é, não é melhor em conciliar esse ensino com o ensino bíblico adicional  de que alguns não serão salvos).

Na próxima parte desta série, irei considerar um outro candidato para a proposição p, sendo mais específico, a proposição de que Deus não é “o autor do pecado”.

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Autor: James N. Anderson
Fonte: Analogical Thoughts
Tradução/adaptação: Erving Ximendes
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Expiação: universal ou limitada?

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Cristo não veio ao mundo e morreu na cruz para possibilitar a salvação dos homens e sim salvar os homens de seus pecados, sendo estes pecados o motivo de nossa destituição do Reino de Deus (Rm 3.10-12,23).


Não é difícil notar, no entanto, que as doutrinas humanistas não enxergam isso por pura dureza, porque nenhum ser humano consegue admitir que a sua "salvação depende exclusivamente da volição divina [de Deus] e não com suas próprias forças humanas". Se a salvação possui nossa participação, voltamos então para as heresias pelagianas e semi-pelagianas do Catolicismo Romano, isto é, da graça merecida, sendo que o dom de crer se torna uma "boa obra".

Cristo veio para salvar somente o seu povo, não encontro no texto de Mateus 1.21 a ideia de "possibilidade de salvação", o texto está "afirmando" um desígnio. E em Efésios 5.25,26, afirma que o próprio Cristo se entregou por sua noiva e verteu o seu sangue na cruz para salvá-la e redimi-la de seus pecados, para apresentá-la pura e imaculada. Portanto, o povo que Cristo veio salvar, este também que é conhecido como A noiva do Cordeiro, o Corpo de Cristo e Igreja, estes que compõem o "corpo", nada mais são do que aquelas pessoas que foram agraciadas com o dom da Fé para que possam crer, e isso não vem de nós mesmos, mas vem de Deus (Ef 2.8-10, cf At 13.48).

"Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome; Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus." (João 1:12,13)

Torno novamente a dizer que "Cristo não morreu para possibilitar a salvação para o mundo," e sim, para salvar pecadores ímpios dignos de condenação, para que tenhamos agora paz com Deus e que passemos a estar firmes na graça. Não é difícil entender isso, está na Bíblia, basta ter acesso a ela (Romanos 5.1,2,7-11).

Cristo não veio para aplacar os pecados do mundo, mas para aplacar os pecados dos eleitos (pessoas de várias etnias, raças, tribos e nações) para que, em tempo oportuno, viessem a crer; o oposto da fé é a incredulidade, e se o sangue de Cristo serve para aplacar a ira de Deus contra o ímpio, por que ainda se prega o Evangelho, sendo que Cristo morreu por todo o mundo e, muitos não creem? Se Cristo levou sobre si os nossos pecados, e segundo os sinergistas "os pecados do mundo", sendo que também a incredulidade é um pecado, por que ninguém é salvo? 

Não consigo ver consistência nas doutrinas humanistas do "Livre-Arbítrio" sinérgico quando comparo tal declaração de "possibilidade salvífica ao mundo" a um pecado chamado incredulidade. Analisando Isaías 53.4-7, não consigo cogitar uma doutrina que faz caso do "Livre-arbítrio" humano, mas não toleram a liberdade de Deus quando quer escolher pecadores para serem salvos. Mas espere: ao tratar de salvação, o homem possui Livre-arbítrio e Deus “não”? E se o homem e Deus possuem o atributo de Livre-arbítrio (um juízo de escolha 100% livre de qualquer ação, influência e inclinação de outro agente externo) por que há a diferença de Deus, anjos e homens, criaturas, Reino Celestial e inferno? O Livre-arbítrio não deve ser respeitado quando homens não querem ser salvos e, quando os mesmos, mesmo na incredulidade, não querem ir ao inferno? Se há Livre-arbítrio, ele deve ser considerado em seu todo, se não seria prática de barganhas e infidelidades, uma dualidade divina inescrupulosa!

Portanto, fico com esta afirmativa; que Deus em seu amor e misericórdia, de seu bel prazer e soberana vontade, resolveu salvar pecadores e justifica-los em seu filho Cristo Jesus, e pecadores foram preteridos para o Juízo. Esse ato é a realização da misericórdia de Deus em seu infinito amor e, a execução do ato da justiça e a merecida punição do culpado. Não vejo acepção quando o mesmo Deus salva e condena "pecadores iníquos de mesma proporção".

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Autor: Klarystone P. Leal
Divulgação: Bereianos
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A Irracionalidade do Conceito de Livre Arbítrio ou da Autonomia da Vontade

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O conceito de livre-arbítrio tem sido sustentado ao longo da história como algo absolutamente óbvio nos círculos de compreensão teológica e sociológica da vida. É como se esta premissa fosse tão autoevidente, que não precisasse ser provada filosófica e logicamente. Contudo, alguém que crê na existência do livre-arbítrio quando desafiado a prová-lo filosófico, teológico e logicamente, geralmente se vê em grandes apuros, devido a inconsistência e até mesmo a irracionalidade da ideia.

Primeiro, se faz necessário definir o conceito de livre-arbítrio. A premissa básica nada mais é que afirmar a autonomia da vontade do ser humano, como se esta fosse livre de qualquer causação, ou seja, não existe nada que limite ou domine a liberdade do homem, ele escolhe o que bem entender, do modo que bem entender, livre de qualquer influência definitiva nas escolhas que faz. 

Compreender a irracionalidade do conceito de livre-arbítrio é fundamental para uma avaliação mais assertiva da realidade que se vive. Para os cristãos esta compreensão é ainda mais importante, pois, tira o homem do centro da vida, como se ele fosse o motivo último da existência do universo, local em que a renascença e o iluminismo colocaram-no nos últimos séculos, conceito que tem sido tristemente absorvido e avalizado por grande parte da cristandade desde então. Compreender que não somos tão poderosos assim, traz o Deus das Escrituras de volta ao lugar de governador do universo e restabelece a ordem da criação: Deus como criador e sustentador de todas as coisas e os homens como suas criaturas, submissos a seu governo soberano.

Pretendo analisar brevemente o conceito sob dois aspectos: o cotidiano, que em primeira instância não envolve nosso relacionamento com Deus, e, o espiritual, que, aí sim, diz respeito a Deus, a religião, a espiritualidade e afins. Podemos facilitar a compreensão como sendo a primeira abordagem, sociológica, e a segunda, teológica. 

Vamos a análise sociológica: 

A vontade está atrelada a mente. A mente é o mecanismo que julga o que é melhor para ser feito, esta decisão causa a nossa vontade, que por sua vez, causa a nossa ação. E sobre quais bases está fundamentada a nossa mente? Sobre as bases do nosso caráter. Nosso caráter é uma composição complexa de inúmeros fatores como, educação familiar, formação acadêmica, influências culturais, espiritualidade, influências psicossociais, influências químicas, físicas, geográficas e uma imensa gama de outros fatores. 

Diante disso, uma pergunta deve ser respondida: o que faz com que a mente de uma pessoa escolha a alternativa ou atitude A em detrimento da alternativa ou atitude B, ou vice-versa? Se entende-se que esta escolha é autônoma, não foi causada e não está baseada em nenhum elemento influenciador, teremos de descartar da lógica do raciocínio, toda esta gama de elementos reais descritos acima, inerentes a vida de todo ser humano. Se a escolha é autônoma e livre de causação, o que fez com que a mente desta pessoa escolhesse A ou B? O que tirou a escolha do ponto neutro? Se não é nenhum dos elementos vinculados ao caráter que influencia a mente, que por sua vez influencia a vontade, que por sua vez influencia a ação, é impossível não concluir que o que rege a decisão de alguém que tem ‘livre-arbítrio’ é o acaso. Pois, se meu caráter não causa minhas ações, porque minhas ações são livres de causação, minhas ações estão sendo regidas por impulsos autoimpostos da minha vontade completamente aleatórios. O que é completamente irracional. Em suma, se minha escolha é baseada na autonomia da vontade, ela está irremediavelmente vinculada ao acaso. Se ela é vinculada ao meu caráter, ela é causada, portanto, já não é mais livre.

Muitas vezes o conceito de livre-arbítrio é considerado como necessário para a existência da responsabilidade humana. Entretanto, ao analisarmos cautelosamente a questão, perceberemos que ao invés de subscrever a responsabilidade humana, ele na verdade a invalida. Pois, como alguém que tem suas ações desvinculadas de qualquer tipo de causação (caráter) e atreladas a instabilidade do acaso autônomo pode ter suas ações como sendo responsáveis e julgáveis? Responsabilidade é um conceito atrelado ao conhecimento e não a autonomia da vontade. Existe liberdade da vontade, sim! Mas esta está circunscrita a um sem número de fatores causativos e não ao conceito irracional de livre-arbítrio tal como se nos é apresentado corriqueiramente. 

Analisemos agora, a partir da premissa teológica:

Seguindo a mesma linha de raciocínio, a vontade está atrelada a mente, a mente é o mecanismo que decide o que é melhor para ser feito, esta decisão causa a nossa vontade, que por sua vez causa a nossa ação. E sobre quais bases está fundamentada a nossa mente? Sobre as bases do nosso caráter. Analisando o caráter da raça humana à luz das Escrituras Sagradas, encontraremos inúmeras sentenças tanto no antigo como no novo testamento que apontam para uma grande e irremediável problemática no cerne daquilo que o constitui: somos pecadores, escravos do pecado e odiamos a Deus! (Rm 1.28-31, Jo 8.34) Dentre o sem número de textos bíblicos que apontam nossa depravação, escolhi o que julgo ser mais contundente quanto a questão, que se encontra nos versos 10, 11 e 12 do capítulo 3 da carta do apóstolo Paulo aos Romanos, que diz: “Como está escrito: Não há nenhum justo, nem um sequer; não há ninguém que entenda, ninguém que busque a Deus. Todos se desviaram, tornaram-se juntamente inúteis; não há ninguém que faça o bem, não há nem um sequer. Como pode haver autonomia da vontade se nosso coração, apresentado nas Sagradas Escrituras como o âmago da nossa existência, está corrompido pelo efeito devastador do pecado?

Como descrito pelo apóstolo, nosso caráter está absolutamente comprometido com a maldade e com a inimizade contra Deus, o próprio Paulo em outra oportunidade diz que, na verdade, estamos mortos em delitos e pecados (Ef 2.1) e não apenas mortos, mas trabalhamos contra Deus, odiamos a luz e amamos as trevas. O homem na Escritura Sagrada, mais particularmente na carta aos Romanos, no capítulo 1, é apresentado como conhecedor de Deus, que preferiu suprimir a verdade em detrimento da justiça, e por isso é considerado indesculpável. Notem que o conceito de responsabilidade está atrelado ao conhecimento e não a um suposto livre-arbítrio. 

Também em Romanos, no verso 23 do capítulo 14, o apóstolo diz que tudo que não provem de fé é pecado. Se todas as ações dos homens, incluindo seus pensamentos e expressões, que não vem de fé são pecado, onde está a neutralidade na escolha do homem? Como pode o homem não regenerado (que não recebeu fé de Deus) fazer algo que seja de fé? Toda a ação humana é permeada pelo pecado, não existe zona neutra. Um teste simples que comprovaria a inexistência do livre-arbítrio é o seguinte: comprometa-se consigo mesmo que pelos próximos 12 meses você não vai mais pecar. Você conseguiria? Quem conseguiria? Se temos autonomia e domínio exaustivo de nossa vontade por que não somos capazes de parar de pecar?

O que faz o ser humano diante da pregação do evangelho optar por receber ou negar a Cristo? A vontade autônoma ou o caráter humano? A hipótese da autonomia da vontade invalidaria todo o argumento bíblico que apresenta a raça humana como não livre, mas decaída, escrava do pecado e incapaz de buscar a Deus como atesta categoricamente o capítulo 3 da carta aos Romanos. Se a hipótese correta é que o que causa a escolha do homem é seu caráter, como poderia o homem optar por buscar a Deus se sua natureza foi completamente corrompida pelo pecado a ponto do apóstolo sustentar que não há quem busque a Deus? Se a despeito de toda a argumentação acima, ainda seja sustentada a ideia de que o homem rompe todas estas barreiras e escolhe a Deus fundamentado em sua própria capacidade, então já não há mais espaço para a graça, que não vem de nós, antes, é dom de Deus.

Somos seres livres, que fazem escolhas reais a todo o momento, a Escritura jamais negou isso. Contudo, nossas escolhas foram cabalmente afetadas pela queda, estão circunscritas a natureza humana caída que será regenerada por completo, apenas no dia da vinda de nosso Senhor. Nossa liberdade de escolha não pode ser confundida com o conceito de livre-arbítrio ou da autonomia da vontade, como se em algum lugar da natureza humana existisse neutralidade. Quando a Escritura nos impele a fazer escolhas, ela não está afirmando a existência do livre-arbítrio. A lei nos foi dada para que compreendêssemos nossa miserabilidade e assim corrêssemos para o único Salvador que pode nos ajudar a cumpri-la. Aquele que vive para Deus, já não vive mais por si mesmo, mas é Cristo quem vive nele, e uma vez distante de Jesus, absolutamente nenhum ser humano seria capaz de cumprir qualquer requisito exigido por Deus.

O conceito de liberdade na Escritura Sagrada nunca esteve atrelado ao conceito de livre-arbítrio e sim ao novo nascimento. Lembremo-nos das palavras de Jesus: “e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará!” Jesus não disse: e tereis livre-arbítrio e o livre-arbítrio vos libertará. Só existe verdadeira liberdade de escolha em Cristo Jesus, pois, ele irrompe nossa desgraça espiritual e regenera nosso caráter, fazendo com que tenhamos condições para servir a Deus. Foi ele mesmo quem disse: “ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer” (Jo 6.44). Se ninguém pode ir a Jesus sem que o Pai o leve, onde fica o livre-arbítrio humano? É Deus quem nos vivifica da nossa morte em delitos e pecados. É Ele que nos atrai com cordas de amor. É Ele quem chama, justifica, santifica e glorifica (Rm 8.30). Compreender a irracionalidade do conceito de livre-arbítrio é compreender que se algum dia algum homem amou a Deus, foi porque Deus amou este homem primeiro, e que se algum dia algum homem escolheu a Deus, foi porque Deus escolheu este homem primeiro, de graça, nunca partiu de nós, para que não viéssemos a nos gloriar. Jamais teríamos capacidade de buscar a Deus, mortos em nossos pecados. Jamais escolheríamos a Deus, se ele não nos escolhesse para si, em Cristo, para sua própria glória. A salvação pertence a Deus e não depende de quem quer ou de quem corre, mas de Deus demonstrar sua misericórdia (Jn 2.9, Rm 9.16). 

Que Deus nos alcance!

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Sobre o autor: Lucas Freitas serve a Igreja Presbiteriana do Brasil, é formado no SEDEC - Seminário de Desenvolvimento Comunitário pelo CADI Brasil e na Escola Compacta pela Missão Steiger Brasil. Atualmente cursa o terceiro ano de teologia pela FUNVIC - Fundação Universitária Vida Cristã em Pindamonhangaba/SP.
Divulgação: Bereianos
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