Os atributos do cristão - 2/2

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2. O relacionamento dos cristãos com os inimigos (12.14,17-21)  
  
Tendo aduzido as obrigações dos cristãos na esfera pessoal, sentimental, espiritual, social e relacional (12.9-16), Paulo, agora, tece uma série de imperativos sobre como os cristãos devem se portar com aqueles que os consideram inimigos.

Uma vez que Jesus, os apóstolos e os cristãos primitivos tiveram opositores, os cristãos hodiernos também terão. Os cristãos não fazem inimigos, porém muitos ímpios os veem como inimigos por conta da fé que professam. O apóstolo exibe alguns deveres negativos e positivos que precisamos observar em nosso relacionamento com os inimigos.   
    
Stott ressalta:

A ética cristã, porém, nunca é puramente negativa; assim, cada um dos quatro imperativos negativos de Paulo vem acompanhado de uma contrapartida positiva. Portanto, não devemos amaldiçoar, mas abençoar (vs.14); não devemos retaliar, mas fazer o que é direito e viver em paz (vs.17-18); não devemos procurar vingança, mas deixar isso com Deus e, entrementes, continuar servindo nossos inimigos (vs.19-20); e não devemos deixar-nos vencer pelo mal, mas vencer o mal com o bem (vs.21).[28] 

Vejamos, pois, os ditames negativos e positivos:

a) As Obrigações negativas (12.14b, 17a, 19)

Paulo traceja o que não devemos fazer no relacionamento com os nossos inimigos. Três atitudes passivas são elencadas.  
              
i. Não devemos amaldiçoar nossos inimigos (vs.14b)

O verbo amaldiçoar καταράουαι (kataraomai), significa “desejar o mal”; “rogar pela destruição de outrem”. Assim, o apóstolo recomenda-nos a não evocarmos maldição sobre os que nos perseguem. Lloyd Jones observa que, para o cristão, o perigo não é o uso de expressões fortes ou de linguagem grosseira ou maligna, e sim pedir que Deus amaldiçoe esses tais[29] (Mt 5.44; 1Pe 2.21-23).

Não suplicar pela desgraça de nossos opositores é um desafio extremamente fastidioso, pois nossa natureza pecaminosa batalha pelo contrário disso, ou seja, amaldiçoar. Por mais difícil que seja, devemos abençoar e orar pela conversão de nossos algozes (Lc 6.28). Calvino relata com nitidez este axioma:  

Eu disse que isso é mais difícil do que abster-se da vingança, ao ser alguém afrontado. Pode haver alguém que esconda suas mãos de fazer vingança e refreie seu desejo de injuriar com seus lábios, mas que em seu coração ainda gostaria de destruir seus inimigos, ou que fossem eles atingidos por algum dano provindo de alguma outra fonte. Ainda que tais pessoas sejam por demais pacíficas para que desejem algum mal a alguém, dificilmente um em cem desejará fazer o bem a alguém de quem só tenha recebido injúrias. O fato é que a maioria das pessoas começa a lançar suas maldições sem sentir por isso qualquer pejo. Não obstante, Deus, por meio de sua Palavra, não só impede nossas mãos de praticarem o mal, mas também domina os sentimentos de amargura que saturam nosso espírito.[30]    
   
ii. Não devemos retribuir o mal que recebemos da mesma forma (vs.17a)

Esta exortação negativa é um adendo da exortação positiva, descrita no versículo 14. O cerne desta admoestação consiste em não buscarmos a retaliação. Quando alguém nos maldiz, se recusa a nos ajudar, nos defrauda, ou até mesmo nos agrida fisicamente, logo surge o desejo de revidar todo o infortúnio que sofremos.

Desse modo, Paulo, aqui, combate o desejo de vingança (1Ts 5.15; 1Pe 3.9) e o direito de assumirmos a posição que pertence exclusivamente ao magistrado, a saber, a punição pelo crime.

David Stern define a vingança como ser vencido pelo inimigo, a quem você permite incitá-lo a pagar na mesma moeda pelos impulsos do mal de sua própria velha natureza, os quais você deveria subjugar.[31] Vingar a nós mesmos é apropriar-se de uma prerrogativa que não nos pertence. A vingança compete a Deus, somente. Gerir a vingança é urdir contra a autoridade do nosso Senhor (Hb 10.30).    
    
Hendriksen observa:

Mesmo no Antigo Testamento, o mandamento “olho por olho... dente por dente” (Êx 21.24,25; Lv 24.20 e Dt 19.21) se aplica à administração pública da lei criminal (veja Lv 24.14), e foi promulgada com o fim de desanimar a pratica de buscar a vingança pessoal. [...] O que Paulo (aqui em Rm 12.17) proíbe - o desejo de retaliação – é o mesmo pecado contra o qual Jesus advertiu (Mt 5.38-42; Lc 6.29, 35). Esse ensino de nosso Senhor pode ser considerado um desenvolvimento ulterior da instrução veterotestamentária que se encontra em Levítico 19.18, Deuteronômio 32.35 e Provérbios 20.22.[32]      

iii. Ao invés de sermos vingadores, devemos dar lugar à ira (vs.19)

Conforme vimos anteriormente, não devemos buscar a represália contra alguém que nos fez o mal. Em vez disso, Paulo orienta-nos a dar lugar à ira. Mas, o que significa dar lugar à ira? Existem quatro interpretações para essa expressão.

A primeira interpretação sugere que, ao invés de vingar a si mesmo, o cristão não deve agir impulsivamente, reagindo ao infortúnio que sofreu, retribuindo o mal com o mal. Antes, ele deve manter a calma e “esquecer” todo o revés ficando apenas irado, temporariamente. A segunda interpretação, por sua vez, assinala que dar lugar à ira é simplesmente o cristão deixar o seu inimigo descarregar toda a sua ira nele, através de agressão física ou verbal. 

A terceira interpretação refere-se à penalidade judicial executada pelos magistrados civis contra as más ações dos homens. Finalmente, a quarta interpretação alega que dar lugar à ira refere-se à ira santa de Deus. 

Certamente, a quarta interpretação é a mais plausível, uma vez que se harmoniza com o contexto do próprio versículo 19b, onde Paulo cita Deuteronômio 32.35 (veja a ira de Deus enfatizada em 1.18, 2.5; 5.9; 9.22; Ef 2.3; 1Ts 1.10; 2.16; 5.9).   

Quando buscamos por vingança, não estamos pecando apenas contra as pessoas, mas contra o próprio Deus. A vingança pertence ao Senhor. Ele sabe exatamente como e quando retribuir cada um segundo as suas obras. Calvino escreve:

O apóstolo, contudo, não cita esta passagem como que para conceder-nos o direito de inflamar-se de ira assim que formos injuriados, nem nos manda que oremos a Deus para que vingue nossas injúrias na proporção do excitamento de nossa carne. Ele nos ensina, primeiramente, que não é nossa tarefa exigir vingança, a menos que queiramos usurpar a responsabilidade [e competência] divina. E, em segundo lugar, ele afirma que não devemos temer que os ímpios se prorrompam com maior ferocidade ao ver-nos suportar nosso sofrimento com paciência, pois Deus não assume em vão o ofício de vingador.[33]  
                 
b) As Obrigações positivas (12.17b-18, 20-21)

Desta vez, Paulo vai listar o que devemos fazer no relacionamento com os nossos inimigos. Quatro atitudes ativas são mencionadas. 
                
i. Devemos abençoar nossos inimigos (vs.14a)

Em vez de retribuirmos o mal que sofremos da mesma forma (vs.17a), buscando vingança (vs.19), devemos, porém, abençoar aqueles que nos perseguem. Paulo reporta-se ao ensino de Jesus, descrito em Mateus 5.44 e Lucas 6.27-28. Abençoar, aqui, denota “solicitar a benção de Deus sobre outrem”.  
  
A perseguição tende a gerar em nós ressentimento e desejo de retaliação, por isso a dificuldade de anuirmos a este preceito. Mesmo que nos reprimimos da desforra, ainda assim estaremos interiormente eivados de ideias vingativas. Abençoar nossos inimigos demonstra uma conduta mais difícil de exercer, embora não seja impossível para aqueles que são regenerados e habitados pelo Espírito Santo, que os capacita para a obediência. 

Calvino acentua que não só não podemos invocar algum mal sobre nossos inimigos, mas é também preciso desejar que os mesmos sejam prósperos e orar para que Deus lhes faça o bem, mesmo quando nos aborreçam e nos tratem de forma hostil. Quanto mais difícil nos torna a prática de tais gentilezas, mais intensamente devemos esforçar-nos por atingi-las.[34] 
                   
ii. Devemos tentar viver em paz com todos (vs.18)

Paulo realça a necessidade de vivermos em harmonia com as pessoas. A expressão se possível é, por vezes, interpretada erroneamente. Alguns entendem que o apóstolo está exortando que, “se vocês puderem”, vivam pacificamente com todos. Entretanto, não é isso o que Paulo quer dizer.

A frase se possível indica que nem sempre viveremos em paz com todas as pessoas, mas que devemos tentar com afinco vivermos pacificamente. Em outras palavras, era como se o apóstolo dissesse: vivam em harmonia com todos, exceto se alguns tornarem isso algo impossível (Gn 3.18; Mt 5.9; Hb 12.14; Tg 3.17). 

Ao longo de nossas vidas, iremos nos deparar com pessoas hostis e rixosas. E, por vezes, manter uma convivência pacífica com essas pessoas não será possível. Logo, a tentativa de viver em paz com todos é um desafio.  

A expressão quanto depender de vós, ou, “no que depender de vós”, salienta que devemos batalhar para tentarmos viver em paz com todos. Existem situações que requerem de nós tenacidade [persistência] para mantermos a harmonia com as pessoas. John Murray atesta que a disposição e a conduta pacífica são virtudes a serem cultivadas em nosso relacionamento com todos os homens; não existe qualquer circunstância em que devemos suspender nossos esforços para conservar e promover a paz.[35]

Em contraposição, há circunstâncias em que não podemos abrir mão da verdade para manter uma paz consensual e adulterada. Geoffrey Wilson assegura que, quando a verdade deve ser sacrificada pela paz, então o preço da paz está alto demais. Nunca devemos procurar manter a paz com o mundo ou com cristãos pelo sacrifício de alguma parte da verdade divina. Um cristão deve estar disposto a ser impopular, para que possa ser útil e fiel. Contra qualquer dificuldade ou oposição, ele deve diligentemente lutar pela fé, que foi uma vez entregue aos santos.[36]

Hendriksen afirma com propriedade que, se a manutenção da paz subentende o sacrifício da verdade ou da honra, a paz deve ser abandonada (Lc 12.51-53).[37] Sendo assim, caso nossas tentativas de viver em harmonia sejam frustradas por alguns insolentes, não estaremos pecando, uma vez que Deus não irá nos responsabilizar pela ausência de paz. 

iii. Devemos fazer o bem aos nossos inimigos (vs.20)

O presente versículo é uma citação de Provérbios 25.21-22. Além de não fazermos o mal aos opositores da fé, é necessário também sermos bondosos para com eles. Não devemos apenas não revidar o mal que os nossos inimigos fazem contra nós, mas, sobretudo, ajudá-los em qualquer tipo de privação em que estiverem sofrendo.  
  
Todavia, é difícil saber o que Paulo quis dizer com a expressão amontarás brasas vivas sobre a sua cabeça. Existem duas interpretações principais para esta expressão.

A primeira interpretação sugere que o “amontoar brasas de fogo sobre a cabeça dos nossos inimigos” significa que devemos fazer o bem a eles, a fim de que o castigo divino imposto sobre nossos algozes seja deveras maior, sabendo que não irão reconhecer o que fizermos. Em outras palavras, o motivo de sermos bondosos para com nossos adversários é a severa punição que irão receber de Deus.

Essa interpretação deve ser rejeitada, pois, além de contradizer os versículos 17-19, que nos admoestam a não sermos vingadores, e que a vingança pertence a Deus, somente, transmite a ideia de que os nossos atos de bondade têm como objetivo o premente castigo dos inimigos da fé; ou seja, ministrar o bem seria um meio de nos vingarmos deles.

A segunda interpretação, por sua vez, possui algumas variações acerca do estado psicológico em que os nossos inimigos são induzidos. Em vez de revidarmos todo o mal que sofremos dos nossos adversários com o mal, manifestamos atos de bondade para com eles. Refutamos o mal com o bem. Com isso, geramos em nossos oponentes um intenso sentimento de vergonha e tristeza, onde reconhecem que suas atitudes perversas foram um erro.

Indubitavelmente, a segunda interpretação é a mais apropriada. O “amontoar brasas de fogo sobre a cabeça dos nossos inimigos” “refere-se a um costume antigo dos egípcios no qual uma pessoa que quisesse demonstrar público arrependimento carregava uma panela de brasas vivas sobre a cabeça. As brasas simbolizavam a dor ardente de sua vergonha e culpa”.[38]

Lloyd Jones corrobora:

Como resultado da sua bondade, o seu inimigo terá intenso sentimento de vergonha e remorso. Ele experimentará uma espécie de queimação, uma penetrante angústia em sua mente, em seu coração e em seu espírito, e a esperança que você tem é que ele sinta isso em tal medida que será levado a examinar-se e a arrepender-se. Você o abalará e ele se porá a reconsiderar o que lhe fez, e então verá quão terrível foi causar a você esse mal. [...] Não se pode garantir esse resultado. Seu inimigo pode não reagir favoravelmente, porém isso não é responsabilidade sua. A sua tarefa é fazer tudo o que puder para leva-lo a essa condição.[39]  

Não envergonhamos nossos adversários sendo hostis, mas demonstrando bondade. Não vencemos nossos inimigos pela violência, mas por nossa piedade (1Pe 2.15).  

iiii. Devemos vencer o mal que recebermos com o bem (vs.21)

Além de estar ligado ao versículo anterior, o versículo a lume resume toda a perícope, sendo também o ápice deste capítulo. Temos aqui um imperativo negativo e um positivo. Paulo enfatiza o que não devemos fazer e, finalmente, o que devemos fazer.

Em primeiro lugar, o apóstolo exorta que não devemos permitir que o mal triunfe sobre nós. O mal, neste contexto, significa a atitude de retribuir a perversidade que sofremos de nossos adversários da mesma forma (vs.19a). Em outras palavras, devemos lutar para não sermos vencidos pela retaliação, obstando ao seu impulso.

 Em segundo lugar, Paulo admoesta que vencemos o mal com a prática do bem. Devemos retribuir o mal que nossos oponentes nos infligem com expressões de bondade. É dessa maneira que triunfamos sobre a maldade.

John Murray salienta que, mediante a prática do bem, compete a nós sermos instrumentos que apagam a animosidade e a má vontade daqueles que nos perseguem e maltratam. A vingança fomenta a contenda e desperta as chamas do ressentimento. Quão sublime é o alvo de conduzir nossos adversários ao arrependimento ou à vergonha que restringirá e, talvez, removerá as ações malignas compelidas pela hostilidade.[40]

CONCLUSÃO

Só iremos cumprir os deveres pessoais, sentimentais, espirituais, sociais e relacionais se amarmos primeiramente a Deus (Dt 6.5). O amor ao Senhor é o alicerce dos relacionamentos fraternais. Se o amarmos, certamente iremos amar nossos irmãos (1Jo 4.7-8, 20-21).

Não devemos amar uns aos outros porque é simplesmente uma obrigação estabelecida na Escritura (Mt 22.34-40; Jo 13.34-35; Rm 13.8); e também pelos méritos dos nossos irmãos. Jamais! Pelo contrário, devemos amar uns aos outros da forma com que Deus nos ama em Cristo, a saber, incondicionalmente! 
       
De modo semelhante, somos orientados pelas Escrituras a amarmos os inimigos da fé. Quando amaldiçoamos nossos oponentes (vs.14), retribuímos o mal que nos fazem com o mal (vs.17), buscando vingança (vs.19), a maldade prevalece e somos derrotados. 

Contudo, se abençoarmos nossos adversários (vs.14), estaremos, de fato, praticando o bem (vs.17). Se batalharmos pela paz (vs.18), se deixarmos a vingança para Deus (vs.19), e amarmos os nossos inimigos (vs.20), venceremos o mal com o bem. Não obteremos a vitória sobre a maldade pelos nossos próprios esforços, porém mediante a fé. Através da justificação, recebemos poder do Espírito Santo para amar e sermos bondosos para com os nossos inimigos.   

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NOTAS:
28. John Stott. A mensagem de Romanos, pág 405.
29. D.M. Lloyd Jones. Romanos, volume 12, pág 524.
30. Calvino. Romanos, pág 451.
31. David Stern. Comentário Judaico do Novo Testamento, pág 465.
32. William Hendriksen. Romanos, pág 551.
33. Calvino. Romanos, pág 457.
34. Ibid, pág 450.
35. John Murray. Romanos, pág 503.
36. Geofrey Wilson. Romanos, pág 183-184.
37. William Hendriksen. Romanos, pág 553. 
38. Bíblia de Estudo MacArthur. Notas de Rodapé, pág 1517.
39. D.M. Lloyd Jones. Romanos, volume 12, pág 606-607.
40. John Murray. Romanos, pág 507.     

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Autor: Leonardo Dâmaso
Fonte: Bereianos

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Texto base: Romanos 12.9-21

Os cristãos são convocados pelo evangelho a manifestarem amor uns pelos outros, especialmente pelos inimigos. O amor é a base dos nossos relacionamentos. Nossas atitudes devem ser regidas pelo amor, conforme o apóstolo João [em sua primeira carta] e os demais escritores sacros admoestam. 

Visto que o amor tem decrescido não somente da sociedade, mas especialmente na igreja, Paulo, em Romanos 12.9-21, enumera uma lista de virtudes baseadas no amor, as quais não devem ser apenas almejadas, mas, sobretudo, alcançadas pelos cristãos através da oração e do agir soberano do Espírito Santo na concessão delas.

INTRODUÇÃO 


No trecho anterior (vs.3-8), Paulo utilizou a analogia do corpo humano e suas partes, a fim de ilustrar a unidade e a diversidade dos dons espirituais na igreja (vs.5-6). O apóstolo também focalizou a necessidade de cada cristão reconhecer os seus dons e a importância de usá-los de forma apropriada para a edificação coletiva (vs.6-8).  

O presente trecho (vs.9-21), por sua vez, expressa similaridades com os ensinamentos de Jesus no Sermão do Monte (compare os vs.14, 17,21 com Mateus 5.43-45). Não obstante, a linha de pensamento que Paulo descreve em Romanos 12 é praticamente a mesma de 1 Coríntios 12-13 (sobre a analogia do corpo humano, compare os vs.4-5 com 1Co 12.12-27; acerca da diversidade dos dons espirituais, compare os vs.6-8 com 1Co 12.28-30; e a respeito do amor como o dom supremo, compare os vs.9-31 com 1Co 13).

Segundo muitos estudiosos, não há uma ordem sistemática neste trecho de Romanos 12. Eles afirmam que a estrutura do raciocínio de Paulo é digressiva, isto é, confusa e desorganizada, como se o apóstolo não tivesse um foco. Pessoalmente, reconheço que este trecho, no que se refere a divisões e subdivisões é, com efeito, o mais abstruso da carta aos Romanos. Entretanto, mesmo que não seja um paradigma a ser observado, há várias formas de metodizá-lo.  
                
Paulo elenca uma lista de imperativos que os cristãos devem obedecer. John Murray realça que o capítulo inteiro ocupa-se com os aspectos práticos da santificação; e, por esse motivo, as exortações têm de abranger diversas situações da vida.[1] À partir deste trecho, Paulo inicia uma longa série de imperativos baseados no amor, o qual se estende até o capítulo 15.    
      
O esboço analítico desta seção pode ser dividido em apenas duas seções. Primeiro, o apóstolo discorre sobre a relação dos cristãos uns com os outros (vs.9-13, 15-16); Segundo, ele disserta acerca da relação dos cristãos com aqueles que os consideram inimigos (12.14,17-21).
    
EXPLANAÇÃO

1. O relacionamento dos cristãos uns com os outros (12.9-13,15-16) 

A palavra “amor” αγάπη (ágape) aparece em Romanos 12 vezes (veja as ocorrências em 5.5, 9; 8.35-36, 39; 9.3; 12.9-10; 13.8, 10; 14.15; 15.30). Nos capítulos antecedentes, essa palavra salienta o amor de Deus pelos seus eleitos. No capítulo em voga, todavia, Paulo enfatiza o amor como uma marca preponderante do cristão. Este novo trecho, diferentemente do anterior (vs.3-8), onde o apóstolo tratou sobre os dons espirituais, sublinha o fruto do Espírito, descrito em Gálatas 5.22 [amor, alegria, paz, longanimidade]. Portanto, qual é o motivo dessa distinção?  

Os dons espirituais são outorgados aos cristãos de “maneira diversa”, onde cada um é admoestado a exercer seus dons adequadamente para a edificação da igreja (vs.6-8). Por outro lado, é determinante que todos os cristãos apresentem os frutos do Espírito, conforme indicam os cinco deveres subsequentes. Senão vejamos:  
          
a) As obrigações pessoais (12.9)

Paulo descreve dois imperativos que assinalam a responsabilidade dos cristãos como indivíduos.  
    
i. Devemos amar de forma sincera (vs.9a)

O amor é a base de todos os mandamentos (Mt 22.34-40). Diferente do amor fraternal (vs.10), que é “restritivo”, pois faz parte do relacionamento entre irmãos na fé, o amor que Paulo realça aqui é “inclusivo”. O apóstolo exorta que o amor dos cristãos por Deus, pelos irmãos na fé, pelo próximo e até pelos inimigos, deve ser verdadeiro. 
    
O adjetivo sincero é a tradução do substantivo hipocrisia ανυπόκριτος (anypókritos), que, no grego, significa “fingimento”, “dissimulação”. Essa palavra caracteriza os “atores” que utilizavam “máscaras” nas peças de teatro, no mundo antigo; traz a ideia de “representar um papel”, “fingir ser alguém que não é diante das pessoas.” O hipócrita é um enganador! Stott ressalta que a igreja não pode transforma-se num palco. Afinal, o amor não é teatro; ele faz parte da vida real.[2] 

Nenhum pecado é mais digno de repreensão e mais destrutivo para a integridade do que a hipocrisia, porquanto é a contradição da verdade (veja Lc 22.48). Se o amor é o resumo da virtude, e a hipocrisia é a síntese do pecado, que contradição está envolvida na junção dessas duas coisas! Afeição dissimuladora![3]

Sendo assim, Paulo declara que a expressão de amor dos cristãos não deve ser encenada, como se estivessem representando um papel ou usando uma máscara. Nosso amor pelos outros deve ser genuíno, sem fingimento (Lv 19.18; Mt 22.34-40; Gl 5.14; Tg 2.8).  
              
ii. Devemos execrar o mal e afeiçoarmo-nos ao bem (vs.9b,c)

As palavras mal e bem retratam uma antítese. O Mal πονηρόν (ponirón) refere-se “aquilo que é prejudicial”, enquanto o bem αγαθός (agathos) designa “aquilo que é benéfico”. Paulo, então, recomenda negativamente a detestarmos, abominarmos αποστυγέω (apostygéo̱) todas as classes de maldade; em seguida, ordena positivamente a nos afixarmos κολλάω (kolláo̱) [“como cola”, que é a ideia no grego] em todas as manifestações de bondade. Fomos chamados não apenas para sermos diligentes na prática do bem, mas, sobretudo, a persistirmos ativamente nesta conduta. Apesar de sermos regenerados pelo Espírito Santo, ainda temos uma natureza pecaminosa que ama fazer o mal e, portanto, necessita ser subjugada todos os dias através do revestimento do novo homem (Ef 4.17-32; Cl 3.5-17). Destarte, precisamos “odiar” o amor ao mal e “agarrarmo-nos” ao bem!(Sl 97.10a; 1Pe 3.10-11).

b) As obrigações sentimentais (12.10)

Paulo desloca-se, agora, para a responsabilidade dos cristãos para com o aspecto emocional dos irmãos na fé. Ele tece dois imperativos. Vejamos, pois:
  
i. Devemos amar os irmãos na fé assim como amamos nossa família (vs.10a)

O apóstolo utiliza duas palavras incomuns para associar o “amor fraternal” ao “amor de viés afetivo”. Amai-vos cordialmente φιλόστοργοι (filostorgos), destaca o amor natural que sentimos por nossos familiares, como o amor dos pais pelos filhos e o amor entre irmãos. O amor fraternal φιλαδελφία (filadelfia), por sua vez, acentua o amor entre os irmãos na fé. As duas palavras eram empregadas para frisar os relacionamentos familiares. Paulo, no entanto, atribui uma nova conotação a essas palavras, referindo-se ao amor que uni os cristãos uns com os outros como membros da família de Deus em Cristo.

Hendriksen escreve: 
         
Os vínculos que unem os membros dessa família espiritual são muito mais seguros e duráveis do que os que ligam os membros de uma família puramente física (Lc 14.26). O que o apóstolo está dizendo, pois, é que os membros dessa família espiritual precisam fazer tudo que estiver em seu poder para dedicar-se uns aos outros, e permanecer assim, com terna afeição.[4]

William Barclay alega que a igreja cristã não é uma coleção de conhecidos, nem mesmo uma reunião de amigos; é uma família em Deus.[5] Precisamos oferecer todo o nosso amor aos demais cristãos. Fazemos parte de uma família. Somos irmãos na fé (veja 1Ts 4.9; 1Pe 1.22; 1Jo 2 7-11; 3.11-12, 17-18).   
  
ii. Devemos engrandecer uns aos outros (vs.10b)

Este segundo imperativo mútuo complementa o anterior. Não devemos somente amar os nossos irmãos, mas, também, prestar honra a eles. No grego, a palavra preferindo-vos προηγέομαι (proegeomai), traz a ideia de “abrir e mostrar o caminho para os outros”; significa “demonstrar respeito, apreço, considerar os outros como melhores que nós”. Paulo solicita que devemos considerar nossos irmãos na fé como dignos de maior honra do que nós; que os estimemos mais do que a nós mesmos. Isso, porém, não denota que você e eu temos que considerar uns aos outros mais competentes do que nós. Cada um é eficiente naquilo que foi dotado por Deus. Antes, o apóstolo quer dizer que humildemente devemos “considerar” nossos irmãos melhores do que nós (veja Fp 2.3).

Devemos honrar nossos irmãos em vez de menosprezá-los por suas debilidades. Calvino disse que não há veneno mais letal para arrefecer [esfriar] os relacionamentos do que alguém imaginar-se depreciado.[6] Ao invés de contendermos por superioridade, que estejamos dispostos a conceder aos outros a preeminência.[7]
                                  
c) As obrigações espirituais (12.11-12)

Paulo convoca a atenção dos cristãos para a responsabilidade nos deveres espirituais. Tendo em vista o perigo da letargia espiritual concernente ao fato de honrarmos nossos irmãos na fé, o apóstolo aduz três imperativos que estão intimamente conectados. Senão vejamos: 

i. Não devemos ser indolentes na vida cristã (vs.11a)

Temos aqui uma admoestação negativa, a qual é direcionada contra o ato de cansar-se de fazer o bem (Gl 6.9). A expressão no zelo, não sejais remissos, implica que não devemos ser “preguiçosos”, “apáticos” na vida cristã, na doutrina, no trabalho para Deus; antes, precisamos ser diligentes.

Lloyd Jones expande:

Quando Paulo diz para os cristãos se animarem, não está pedindo que eles se transformem em algo que não são por natureza. Não podemos mudar nossa natureza ou temperamento. Sendo assim, Paulo não está tentando conseguir que alguém que talvez seja um pouco apático por natureza coloque uma máscara e desempenhe um papel. Não é isso. Contudo, ele está dizendo que nos animemos a nós mesmos.[8]  

Calvino frisa que, se esquecermos de nós mesmos na execução de muitos de nossos deveres, jamais estaremos adequadamente preparados para a obediência a Cristo, a menos que instemos conosco mesmos, esforçando-nos diligentemente por desprendermo-nos de toda nossa indolência.[9]   
          
ii. Devemos ser aplicados na vida cristã (vs.11b)

Este segundo preceito, de cunho positivo, acresce o anterior, demonstrando a importância de nos sustermos nele. Paulo recomenda que sejamos fervorosos no espírito. Pessoalmente, acredito que essa expressão refere-se não ao “espírito humano”, conforme muitos estudiosos atestam, mas ao “Espírito Santo”. Descarto a ideia de que, baseado em Atos 18.24-25, Paulo esteja fazendo alusão ao “espírito humano”. 
   
Lloyd Jones explica:

Você não pode mudar seu temperamento. Se você nasceu fervoroso no “espírito”, é o que você é; porém, se nasceu com uma espécie fleumática de temperamento, não será fervoroso no espírito, no sentido natural. Contudo, o texto nos diz que devemos ser “fervorosos no espírito”. Portanto, eu digo que essas palavras só podem referir-se ao “Espírito Santo”, que está em nós, cristãos, seja o que for que sejamos por temperamento. Não devemos nos esquecer de que isso é uma ordem, e, portanto, é algo que podemos ser.[10] 

A expressão sede fervorosos ζέοντες (zéontes), literalmente “mantendo o fervor”, significa “ferver ao ponto de ebulição, estar muito quente, inflamado”; traz a ideia de “estimulação”. Paulo está dizendo que devemos estar fervendo no “Espírito”, isto é, sempre entusiasmados com a vida cristã e suas nuances, como a oração, o estudo da Palavra, a assiduidade nos cultos e o serviço cristão. 

Hendriksen corrobora nosso entendimento da expressão “fervoroso no Espírito”, dizendo: 

Naturalmente, a fonte do entusiasmo não está no homem. Se uma pessoa está para ser “lançada ao fogo”, é o Espírito Santo quem deve fazer isso. Assim diz Paulo: “Nunca evitem demonstrar entusiasmo.” E acrescenta imediatamente: “Que ardam com o Espírito.” Os santos não só devem tomar cuidado de não apagar o Espírito, de não resistir ao Espírito e nem mesmo de entristecer o Espírito; devem rogar ardentemente que o Espírito Santo as encham de zelo, do entusiasmo necessário para apropriadamente levar a bom termo seus deveres cristãos e atingir seu alvo.[11]   
     
Calvino enuncia que nossa carne, à semelhança dos asnos, é perenemente indolente, e por isso carecemos de ser esporeados. Não há outro corretivo mais eficaz para a nossa indolência do que o fervor do espírito. Portanto, a diligência em fazer o bem requer aquele zelo que o Espírito de Deus acendeu em nossos corações.[12]  
      
A terceira exortação, por conseguinte, assinala que os cristãos devem ser fervorosos servindo ao Senhor τω κυρίω δουλεύοντες (to̱ kyrío̱ doulév̱ontes) [tradução literal]. O grego transmite a ideia de “estarmos continuamente trabalhando para o Senhor como escravos dele”. Essa frase completiva mostra que o “fervor no Espírito” não é algo isolado, não obstante está ligado ao “servir a Deus”, e tem “o duplo propósito de despertar-nos da ociosidade e regular o zelo”.[13]  

Logo, ser “fervoroso no Espírito” não implica em ter um comportamento extravagante e sem domínio próprio, conforme muitos pentecostais e neopentecostais apresentam. Pelo contrário, o “fervor no Espírito” é caracterizado pela diligência. Em outras palavras, da piedade e do serviço cristão sucede uma vida fervorosa.

James Dunn ratifica:

A frase adicional sirvam ao Senhor pode muito bem servir como "um controle ou uma pausa para aquilo que, de outra forma, poderia ser interpretado como um convite ao entusiasmo desenfreado". 

Stott, por sua vez, afirma que o comprometimento prático com o Senhor Jesus, tal como o de um escravo com o seu mestre, mantém o zelo firmemente enraizado na realidade.[14] 

Não devemos permitir que a morosidade espiritual adentre-se em nossa vida e apague o “fogo do Espírito” (1Ts 5.19). Que sejamos constantemente aplicados nas disciplinas espirituais, servindo ao Senhor orando, conhecendo-o cada vez mais através do estudo das Escrituras, congregando e usando nossos dons para a edificação dos irmãos. Servir a Deus é “o antídoto supremo contra toda e qualquer tendência para a preguiça na vida cristã”.[15]  
  
iii. Devemos nos alegrar na esperança, sermos pacientes na adversidade e diligentes na oração (vs.12)  

Assim como a tríade anterior, os três imperativos em voga também estão interligados. Em primeiro lugar, temos que nos regozijar na esperança, que se refere à consumação da nossa salvação, que se dará no futuro, por ocasião da segunda vinda de Cristo (5.2, 4-5; 8.24-25; 15.4, 13; 1Pe 1.3-5). Todavia, é importante frisarmos que a esperança não é o “objeto” da alegria que devemos ter. Antes, o “foco” da nossa esperança é Cristo! Desse modo, a esperança que temos no estabelecimento do reino de Deus nesta terra sobre a égide do Senhor Jesus é a “causa” da nossa alegria. Portanto, o conselho instaurado é que devemos nos alegrar “em virtude” da esperança da regeneração de todas as coisas. 
    
Em segundo lugar, só iremos ter paciência na tribulação se nos alegrarmos através da esperança. Paulo não ensina que devemos “suportar” as pressões da vida, mas sim, “perseverarmos” em meio às intempéries (8.35-39; Jo 16.33; Atos 14.22; 2Co 1.4-5, 4.17; 8.2; 1Ts 1.6-7; 3.3; 2Ts 1.4; 2Tm 3.11-12). O propósito do Senhor no decreto dos infortúnios para os cristãos é pedagógico. As calamidades têm o poder de santificar, aperfeiçoar e amadurecer os cristãos para, assim, torná-los cada vez mais semelhantes à Cristo Jesus (2Co 4.17-18). 

Em terceiro lugar, se não houver afinco na oração, será impossível nos alegramos na esperança do retorno de Cristo e sermos persistentes na fé nas adversidades. A oração faz parte de uma vida cristã normal, saudável. Precisamos orar constantemente! (At 2.42; Cl 4.2; 1Ts 5.17; 1Tm 2.8). A inércia na oração gera tepidez espiritual! John Murray pontua: 
      
A perseverança em meios às tribulações é medida por nossa diligência na oração. A oração é o instrumento determinado por Deus para o suprimento da graça suficiente para toda circunstância e, particularmente, contra o desencorajamento de coração a que somos tentados pelas aflições. Quão assustadoras seriam as tribulações, se não possuíssemos esperança (1Co 15.19); quão derrotistas seriámos na perseguição, se não tivéssemos os recursos da esperança e da perseverança fornecidos a nós através da oração.[16] 
           
A oração é o mecanismo mais eficaz para não sermos sucumbidos pelo desânimo espiritual que as tribulações geralmente produzem em nosso coração. Lloyd Jones conclui, expandindo:

São esses os antídotos contra a preguiça, a moleza, o desalento, o pessimismo, ou o medo dos incrédulos modernos e seus escritos. Leiam as Escrituras, considerem o plano de Deus, Contemplem Jesus, fixem seus olhos nele (Hb 12.2). Vejam o que Ele fez, vejam o que Ele está fazendo, vejam o que Ele ainda vai fazer. Assim não haverá preguiça.[17]    
                           
d) As obrigações sociais (12.13)

Desta vez, Paulo apresenta aos cristãos os deveres sociais. O apóstolo ressalta dois imperativos.  
  
i. Devemos ser generosos para com os irmãos em necessidade (vs.13a)

No grego, o verbo compartilhar κοινωνέω (koino̱néo̱), literalmente “compartilhando”, denota “comunhão”, “parceria”. Traz a ideia de “participar nas diversas necessidades e sofrimentos dos irmãos, repartindo os nossos recursos com eles sempre que precisarem”. 

Adolph Pohl observa:

Às vezes, o membro que passava a pertencer a uma igreja domiciliar perdia facilmente seu respaldo social anterior. Era possível que as viúvas fossem excluídas da assistência pública aos pobres por causa de sua fé. Com isso, elas eram depositadas aos pés da igreja como uma tarefa (Tg 1.27). Os mestres da igreja também careciam de auxílio em seus primórdios, uma vez que o serviço dedicado à igreja comprometia sua subsistência (Gl 6.6; 1Co 9.14).[18]

Numa sociedade em que impera o individualismo e a indiferença, devemos, como cristãos, assumir os problemas dos irmãos como se fossem os nossos próprios problemas, sofrendo e lutando com eles. Devemos ser parceiros dos irmãos que se encontram atribulados.   

A generosidade em compartilhar nossos bens com os irmãos em necessidade é uma prova cabal do amor fraternal ordenado na Escritura (Gl 6.2; 1Jo 3.18). Calvino acentua que somente quando aliviamos as necessidades de nossos irmãos, por nenhuma outra razão senão para exercer nossa benevolência em prol deles, é que verdadeiramente comprovamos nosso amor.[19] Os cristãos da igreja primitiva, por exemplo, eram extremamente liberais e solidários (At 2.44-45). Acerca disso, MacArthur escreve: 

Os cristãos primitivos não viviam em comunidade ou associação e redistribuíam tudo em igualdade, antes, mantinham suas posses sem estarem presos às mesmas, estando dispostos a usá-las a qualquer momento em favor de alguém, à medida que as necessidades surgissem.[20]

ii. Devemos ser receptivos (vs.13b)

A palavra hospitalidade φιλοξενία (filoxenia), no grego, significa “amor aos estranhos” (Hb 13.2). O verbo διώκοντες (dió̱kontes), literalmente “buscando”, foi traduzido por praticar. Comunica a ideia de sermos “ativos na busca pela hospitalidade”.

Na época do Novo Testamento, viajar era perigoso e as hospedarias eram ruins, escassas e caras. Assim, os primeiros cristãos, com frequência, abriam suas casas para os viajantes, especialmente para os companheiros cristãos (veja 2Tm 1.16-18; 3Jo 5-8).[21]

John Murray complementa:

Na época dos apóstolos, existia a urgente necessidade da prática dessa virtude. Havia as perseguições pelas quais os cristãos eram compelidos a migrar e outras razões que os forçavam a mudar de um lugar para o outro. Os mensageiros do evangelho eram itinerantes no cumprimento de sua missão. O mundo não se mostrava hospitaleiro. Portanto, era um exemplo fundamental da maneira pela qual os crentes deveriam ser participantes das necessidades dos santos.[22]

A hospitalidade é uma ordem (1Pe 4.9), faz parte das boas obras (1Tm 5.10), é um privilégio (Hb 13.2) e, por isso, devemos praticá-la. Não somente os cristãos devem ser hospitaleiros para com os irmãos, mas especialmente os pastores. Eles devem ser os primeiros a exercerem a hospitalidade (Tt 1.8). 

e) As obrigações relacionais (12.15-16)

O apóstolo expõe a responsabilidade dos cristãos no vínculo afetivo. Paulo arrola três exortações. Vejamos, pois: 

i. Devemos nos identificar uns com os outros (vs.15)

No versículo 13, vimos que os cristãos devem manifestar empatia para com os irmãos na fé. Aqui, no presente versículo, temos outro exemplo de empatia. O corpo de Cristo [a igreja] é uma unidade composta de pessoas individuais. Sendo assim, temos que expressar nosso amor pelos irmãos na fé nos momentos de alegria e tristeza (1Co 12.26). Esse amor é confirmado por simples gestos que significam muito! MacArthur elenca-os:  

Ficar feliz com as bênçãos, as honras e o bem-estar dos outros – não importa qual seja a sua própria situação (2Co 2.3), e ser sensível e compassivo com relação às adversidades e aflições dos outros (Cl 3.12; Tg 5.11; Lc 19.41-44; Jo 11.35).23

A empatia, segundo John Murray, não se encontra em nós por natureza. Ciúmes e inveja, ódio e malícia são nossas inclinações naturais (Gl 5.20; Tt 3.3). Essa exortação, tanto quanto qualquer outra na lista de virtudes demonstra a transformação (vs.2) que deve ser realizada naqueles que são um só corpo em Cristo (vs.5).[24] Conforme disse Calvino, deixar de dar as boas vindas à felicidade de um irmão, com genuína alegria, é um sinal de inveja; e deixar de demonstrar real tristeza em seu infortúnio, é sinal de desumanidade. Portanto, sintamos compaixão uns pelos outros, de forma que nos identifiquemos mutuamente, demonstrando o mesmo estado mental.[25] 

ii. Devemos viver em conformidade uns com os outros (vs.16a)

A expressão tende o mesmo sentimento uns para com os outros sublinha a ideia de “termos uma mesma mentalidade uns para com os outros.” Em outras palavras, Paulo exorta os cristãos a “a terem o mesmo pensamento”, a “viverem em harmonia uns com os outros”. Com isso, o apóstolo exige que os cristãos pensem da mesma forma em todas as coisas? Não! A igreja é uma unidade constituída de indivíduos que pensam diferente uns dos outros em muitas coisas. Cada homem e mulher têm estilos e predileções que diferem uns dos outros. Isso faz parte da essência de cada ser humano. Desse modo, Paulo está dizendo que os cristãos precisam ser unânimes com relação à verdade, com as doutrinas primordiais da fé (1Co 1.10; 11.17-19; Fp 1.27; 3.15-16; Cl 2.1-3). 

Todos nós devemos pensar as mesmas coisas. As nossas mentes devem estar operando da mesma forma e seguindo os mesmos canais, para que não haja nenhuma divisão, nenhum cisma, mas sim, unidade como povo cristão.[26]  
   
iii. Devemos ser humildes (vs.16b) 

As duas proposições seguintes opõem-se ao orgulho, ao desejo por status e ao reconhecimento dos homens. Paulo traça uma antítese entre a mentalidade ufana [soberba] e a mentalidade humilde. A palavra condescendei συναπαγόμενοι (synapagómenoi), significa “deixar ser conduzido”, “indicando que nossos sentimentos e atitudes devem estar de tal maneira harmonizados com as coisas humildes, que nos sintamos perfeitamente à vontade com essas circunstâncias”.[27] O apóstolo recomenda que, ao invés de pensarmos que somos melhores do que os outros, sendo sábios aos nossos próprios olhos (Pv 3.7-8), de ambicionarmos coisas e posições sociais grandiosas, e de anelarmos a glorificação dos homens, devemos ser humildes, contentando-nos com o nosso status e com a vida que foi decretada para nós (veja Fp 4.11; 1Tm 6.8-9; Hb 13.5).

Continua nos próximos dias...


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NOTAS:
1. John Murray. Romanos, pág 491.
2. John Stott. A mensagem de Romanos, pág 399.
3. John Murray. Romanos, pág 491.
4. William Hendriksen. Romanos, pág 544.
5. William Barclay. Romanos, pág 175.
6. Calvino. Romanos, pág 447.
7. Matthew Henry. Comentário Bíblico do Novo Testamento – Atos a Apocalipse, Pág 390.
8. D.M. Lloyd Jones. Romanos, volume 12, pág 443.
9. Calvino. Romanos, pág 447.
10. D.M. Lloyd Jones. Romanos, volume 12, pág 447.
11. William Hendriksen. Romanos, pág 545.
12. Calvino. Romanos, pág 447.
13. John Murray. Romanos, pág 494.
14. John Stott citando James Dunn, em A Mensagem de Romanos, pág 401.
15. D.M. Lloyd Jones. Romanos, volume 12, pág 456.
16. John Murray. Romanos, pág 495-496.
17. D.M. Lloyd Jones. Romanos, volume 12, pág 474-475.
18. Adolph Pohl. Romanos, pág 125.
19. Calvino. Romanos, pág 449.
20. Bíblia de Estudo MacArthur. Notas de Rodapé, pág 1440.
21. Ibid, pág 1517.
22. John Murray. Romanos, pág 497.
23. Bíblia de Estudo MacArthur. Notas de Rodapé, pág 1517.
24. John Murray. Romanos, pág 498.
25. Calvino. Romanos, pág 452.
26. D.M. Lloyd Jones. Romanos, volume 12, pág 543.  
27. John Murray. Romanos, pág 500.  

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Autor: Leonardo Dâmaso
Fonte: Bereianos

Leia também:
Os atributos do cristão - 2/2
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A existência eterna do homem - imortalidade

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Introdução

O conceito de “imortalidade da alma” surgiu nas religiões de mistério na Grécia antiga, sendo desenvolvido e recebendo grande expressão nos escritos de Platão (427-347 a.C), que foi um dos maiores filósofos da história. No século XVIII, todavia, a ideia de imortalidade da alma foi rigorosamente defendida pela elite intelectual que compunha o iluminismo europeu. Apesar de não ser uma doutrina distintivamente cristã, a imortalidade da alma foi considerada uma doutrina superior e distinta do Cristianismo, na época. Contudo, mesmo assim, ela se adentrou tenazmente nos recônditos da fé cristã e influenciou, de certa forma, o pensamento de muitos teólogos que trataram deste tema em seus epítomes teológicos. 

PLATÃO E A IMORTALIDADE DA ALMA


Segundo o filósofo, a alma e o corpo são substâncias que diferem entre si. A alma é a parte imortal do homem. Sua origem é divina e desceu do céus onde desfrutava, em sua pré existência, de uma alegria indizível para vir habitar no corpo, especificamente na “cabeça”. O corpo, por sua vez, é constituído de matéria e, sendo assim, é uma substância inferior e de valor pífio em relação à alma. Na morte, o corpo se desintegra, mas a alma, que é a parte racional do homem, retorna ao céu, caso suas ações, enquanto esteve presente na terra vivendo num corpo tenham sido honoráveis. Do contrário, com a morte do corpo na qual habitava, a alma, que é indestrutível, retorna para habitar em outro homem ou em um animal.  

Para Platão, a imortalidade da alma está ligada à metafísica  racionalista que enfatiza aquilo que é racional como algo verdadeiro e superior, e o que não é racional é reputado como algo inferior. Desse modo, a alma é considerada como uma substância superior, indestrutível e, portanto, imortal, enquanto o corpo é uma substância inferior, mortal e passível de ser destruído. Platão considerava o corpo como um túmulo para a alma que, indubitavelmente, é mais feliz sem ele.

Portanto, de acordo com esse conceito, a ressurreição e a glorificação do corpo, que acontecerão no último dia, na segunda vinda de Cristo, não são necessários, uma vez que o próprio Platão não acreditava neste evento final. 

Explanação


Não obstante, será que vemos nas Escrituras o conceito de "imortalidade da alma"? As Escrituras utilizam a expressão “imortalidade da alma”? Vejamos, pois:

1) As distinções de significado do termo imortalidade

Nas Escrituras, o termo imortalidade aparece somente no Novo Testamento por três vezes. Esse termo é usado exclusivamente por Paulo, e aparece duas vezes em 1 Coríntios 15.53-54 e uma vez em 1 Timóteo 6.16. Todavia, devemos observar que o termo imortalidade não tem o mesmo sentido em cada uma dessas duas passagens em que aparece. Em cada uma delas há um sentido diferente. 

No grego, existem duas palavras que são traduzidas pela maioria das versões Bíblicas por imortalidade, que são αθανασια (athanasia) e αφθαρσια (aphtharsia). Athanasia é a palavra grega utilizada  em 1Coríntios 15.53-54. Dese modo, vejamos, então, o significado do termo imortalidade baseado no contexto de cada uma das passagens supramencionadas.

a) A IMORTALIDADE EM RELAÇÃO AO HOMEM

Análise do texto 

1 Coríntios 15.53-54 - Pois é necessário que aquilo que é corruptível se revista de incorruptibilidade, e aquilo que é mortal, se revista de αθανασια (athanasia) imortalidade. Quando, porém, o que é corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal, de αθανασια (athanasia) imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: A morte foi destruída pela vitória! (NVI)

Paulo ressalta o que vai acontecer não com todos os homens, mas especificamente com os cristãos que estiverem vivos bem como os cristãos que já haviam morrido por ocasião da segunda vinda de Cristo (vs.52), que é um evento designado para o futuro. O apóstolo se refere necessariamente ao efeito da transformação que ocorrerá não somente nos corpos dos cristãos [vivos e mortos] em virtude da glorificação, mas na natureza constitucional deles num todo; tanto a parte material [corpo] bem como a imaterial [espírito] serão transformadas e revestidas da imortalidade pelo poder Deus.

Embora o foco da passagem esteja na ressurreição do corpo, ainda assim, não há qualquer alusão sobre a imortalidade da alma. Paulo não descreve a imortalidade aqui como uma característica isolada, restrita a alma do cristão; antes, ele enfatiza a imortalidade da pessoa completa do cristão.  

Se Adão não tivesse pecado contra Deus, viveria para sempre. Não que ele possuísse em sua natureza a imortalidade, mas que Deus o conservaria pelo seu poder no estado de imortalidade (Gn 2.16-17). Nessa linha de pensamento, Berkhof escreve:

O termo “imortalidade” é empregado na teologia para destacar o estado do homem no qual ele está inteiramente livre das sementes da decadência e da morte. Nesse sentido, o homem era imortal [conservado por Deus nesse estado - minha ênfase] antes da Queda. Esse estado evidentemente não excluía a possibilidade do homem se tornar sujeito à morte. Embora o homem, no estado de retidão não estivesse sujeito à morte, todavia, estava propenso a ela. Era inteiramente possível que, mediante o pecado, ele se tornasse sujeito à lei da morte; e o fato é que ele caiu vítima dela.[1]

É importante ressaltarmos que o homem é uma totalidade, isto é, uma unidade psicossomática, um ser unipessoal, e não um ser dividido em duas ou três partes, conforme a dicotomia e a tricotomia atestam. 

Não obstante, a outra palavra grega que geralmente é traduzida por imortalidade é aphtharsia, que denota “ausência de morte, e se refere a plenitude de vida”.[2] Traz a ideia de algo que é imperecível. Essa palavra aparece sete vezes em todo o Novo Testamento. Em Romanos 2.7, aphtharsia é usada para indicar o alvo e o motivo da perseverança dos cristãos em buscar viver uma vida piedosa que glorifica a Deus.

Em 2 Timóteo 1.10, essa mesma palavra mostra que a obra da redenção dos pecadores eleitos já estava planejada antes da criação, na eternidade (vs.9), e que em sua primeira vinda, Cristo a executou trazendo a salvação e a imortalidade ou αφθαρσια (aphtharsia) “imperecibilidade” a todos quanto o Pai escolheu nele. Em 1 Coríntios 15, aphtharsia aparece quatro vezes nos versículos 42, 50, 53-54.  Porém, em nenhuma dessas passagens, essa palavra é usada como se referindo a parte imaterial do homem, alma.     

O adjetivo grego derivado da palavra aphtharsia αφθαρτος (aphthartos), é também usado sete vezes no Novo Testamento. Aphthartos é usado na maioria dos casos por Paulo. Em Romanos 1.23 e 1 Timóteo 1.17, essa palavra é usada para descrever Deus; em 1 Coríntios 15.52 para descrever a ressurreição do corpo e a sua glorificação, que o tornará incorruptível ou, numa tradução mais exata, αφθαρτος (aphthartos) – “impericível ou indestrutível”. Em 1 Coríntios 9.25, a mesma palavra grega é usada para descrever a coroa incorruptível, a saber, a vida.

Nas três ocasiões restantes, αφθαρτος (aphthartos) aparece em 1 Pedro 1.4, onde se refere a herança incorruptível ou  “imperecível” da salvação, que é sem mácula, imarcescível e está guardada nos céus para os eleitos. Em 1.23, esse adjetivo realça a semente incorruptível ou “imperecível”, da qual os eleitos nasceram de novo. Em 3.4, aphthartos salienta a beleza interior “imperecível” de um espírito manso e tranquilo, que é de grande valor perante Deus. Portanto, concluímos, então, que as Escrituras não utilizam o termo “imortalidade da alma”.

Em contraposição, alguns teólogos reformados do passado, como Calvino, Charles Hodge, A.A. Hodge, William G.T. Shedd e Berkhof, utilizaram e defenderam a expressão “imortalidade da alma”. Em suma, esses teólogos afirmaram em seus compêndios teológicos a “imortalidade da alma” como um tipo de conceito que não prejudicava em nada o que as Escrituras ensinavam sobre o assunto, mesmo que tal expressão não exista nas mesmas. 

Charles Hodge, por exemplo, ressalta que a doutrina protestante acerca do estado da alma depois da morte inclui, sobretudo, a existência contínua da alma depois da dissolução do corpo. Isso se opõe não só a doutrina de que a alma é meramente uma função do corpo e com ele perece, mas também à doutrina do sono da alma durante o intervalo entre a morte e a ressurreição.[3]

Calvino, por sua vez, mencionou nas Instituas a imortalidade da alma como um tipo de doutrina[4], porém, ele também admite que o estado de imortalidade não provém da própria natureza da alma em si; antes, é Deus quem conserva a alma imortal pelo seu poder.[5] Também, em seu Comentário Bíblico expositivo de 1 Coríntios, Calvino afirma na interpretação dos versículos 45 e 47 do capítulo 15, que o homem [Adão] tem uma alma imortal.[6]
        
Por outro lado, Berkouwer rejeita a imortalidade da alma como um tipo de doutrina cristã defendida por esses teólogos citados. Ele escreve:

As Escrituras nunca se ocupam de um interesse independente na imortalidade como tal, não mencionando a imortalidade de uma parte do homem que despreza e sobrevive à morte sob todas as circunstâncias e sobre a qual podemos refletir bem à parte da relação do homem com o Deus vivo.[7]

Embora não haja certa unanimidade entre os  teólogos reformados do passado acerca da imortalidade da alma, como, então, entender essa questão? A imortalidade da alma é um tipo de doutrina mesmo que tal expressão não apareça nas Escrituras? A ideia de imortalidade da alma está em harmonia com o que as Escrituras ensinam sobre o homem? Em que sentido o homem, no caso o cristão, é imortal? Vejamos a resposta para essas perguntas de forma mais ampla, a seguir:   

b) A IMORTALIDADE EM RELAÇÃO A DEUS

Análise do texto

1 Timóteo 6.16 - O único que possui αθανασια (athanasia) imortalidade, que habita em luz inacessível, a quem homem algum jamais viu, nem é capaz de ver. A ele honra e poder eterno. Amém!” (ARA)

Essa é a segunda passagem em que o termo “imortalidade” aparece em todo o Novo Testamento. Paulo diz que Deus é o único que possui a imortalidade em sua natureza, ou seja, essencialmente, Ele é o único ser imortal que habita em luz inacessível e que nenhum homem o viu e jamais poderá vê-lo. Acerca disso, Hendriksen escreve:

A ideia de vida, implícita na imortalidade, naturalmente leva a ideia de luz. Nele [em Jesus] estava a vida, e a vida era a luz dos homens (Jo 1.4). Esta luz é como o sol. Necessitamos dele para ver, porém, não podemos fitá-lo, porque seu brilho é por demais intenso. Nesse sentido, Deus habita na luz inacessível. A metáfora é ainda mais forte que aquela empregada no Salmo 104.2 (“coberto de luz como de um manto”). Como uma casa que protege os seus moradores e os esconde ainda mais quando a luz é inacessível, assim é a própria essência de Deus em virtude do que ela é, o protege. Daí, o termo luz, como aqui usado, reenfatiza sua incomparável grandeza.[8]  

John Stott ratifica, mas acrescentando que Deus, por ser invisível, está fora da capacidade de visão humana e totalmente além da compreensão dos homens, pois Ele é aquele que ninguém viu nem pode ver. O máximo que seus olhos humanos tiveram a permissão de contemplar foi a sua glória (Ex 24.9-11; Is 6.1-5; Ez 1.28), suas costas, mas não a sua face (Ex 33.18-23), e suas aparições em teofanias (Gn 16.7-14) ou a sua imagem em seu Filho encarnado (Jo 1.18; 14.6, 8-9; Cl 1.15).[9]

Mesmo na eternidade, com os corpos glorificados e livres da presença do pecado, ainda assim os cristãos não verão a Deus (Jo 1.18). No entanto, veremos Deus por meio de Cristo (Ap 22.4; 1Jo 3.2). Quando a terra for restaurada, não haverá templo para cultuarmos, antes, o templo será o próprio Deus (Ap 21.22). Chegará o dia em que não seremos mais habitados pelo Espírito Santo e que o papel de Cristo como o nosso mediador entre Deus cessará, pois abitaremos em Deus. A nova Jerusalém é tanto uma cidade que desce do céu bem como a igreja que habitará dentro do próprio Deus!

Contudo, o fato de que habitaremos em Deus na eternidade, não significa que iremos penetrar ou compartilhar dos seus atributos incomunicáveis que fazem parte da sua natureza singular e que são restritos a Ele. Não teremos a nossa natureza finita transformada em infinita. Mesmo na eternidade e com os corpos transformados pela glorificação, não teremos em nós mesmos a capacidade de nos mantermos neste estado para sempre. Pelo contrário, seremos mantidos ou preservados pelo Espírito Santo [veja Ap 22.1-2] nesse estado de glorificação habitando em Deus. Portanto, habitaremos em Deus no sentido de que Ele irá residir com o seu povo na nova Jerusalém [a terra restaurada] que será um "templo" (Ap 21.22-24).

Simon Kistemaker corrobora que a presença de Deus e de Cristo serve como o templo da nova Jerusalém. Deus será o soberano e Senhor, o todo poderoso, o qual habita com os eleitos na nova Jerusalém. O templo e a cidade são um e o mesmo.[10] Habitaremos em Deus e o veremos mediante a face de Cristo, que é a imagem exata do seu ser (Cl 1.14-15; Hb 1.3).

Retomando ao assunto da imortalidade, todos os seres que Deus criou [homens e anjos] não possuem em sua natureza a imortalidade; antes, são mortais e passíveis de serem separados de Deus, como no caso dos anjos que se rebelaram. No entanto, há um sentido em que o homem é imortal, porém, não no sentido essencial como Deus.

A imortalidade faz parte da natureza de Deus. Logo, a questão da imortalidade deve ser entendida no sentido de que o homem vai existir para sempre. Ele nunca deixará de existir mesmo depois da morte, pois viverá eternamente com Deus, salvo, ou viverá eternamente perdido em condenação. Dessa perspectiva, o homem é imortal.  

Seria um equívoco entendermos a questão da imortalidade no sentido de que o homem não morre literalmente e possui uma natureza imortal, uma vez que o homem morre literalmente devido ao pecado (Rm 6.23). Em vista disso, os homens não são mortais somente porque são separados de Deus por causa de seus pecados, mas são separados de si mesmos, quando o corpo [que é o homem] se separa do espírito [que também é o homem] na morte.

Conforme vimos anteriormente, o homem não é um ser constitucional dividido em duas ou três partes; ele é um ser unipessoal composto de duas partes [material e imaterial] que formam a sua constituição psicossomática. Existem casos de homens mortos espiritualmente que não foram vivificados ou regenerados e morreram fisicamente. Esses, depois da ressurreição [uma vez que os ímpios também ressuscitarão para serem julgados], continuarão mortos espiritualmente para sempre, quando serão lançados no lago de fogo vivos e conscientes para sofrerem a condenação (Ap 20.11-15).

Finalmente, os homens morrem porque recebem vida e a vida lhes é tirada. A imortalidade não faz parte da essência humana. Por outro lado, a vida é essencial em Deus. Se Deus pode morrer, Ele perde a sua própria essência. Por isso Ele é o único que é imortal. A imortalidade de Deus consiste no fato de Ele também ser infinito, espiritual, independente, soberano, etc. 

2) A revelação geral denota a existência eterna do homem

A revelação geral é o meio no qual Deus se revela aos homens através da criação, consciência e história, além de Jesus Cristo pelas Escrituras. Existem várias passagens na Escritura que falam acerca da revelação geral (veja Sl 19.1-4; 1Co 1.21; Hb 1.1-2 dentre outras). Bavinck escreve:

A revelação geral, apesar de estar contida na natureza, é, contudo, extraída da Sagrada Escritura, pois, sem ela, nós, seres humanos, por causa da escuridão de nosso entendimento, nunca teríamos sido capazes de encontrá-la na natureza. Sendo assim, a Escritura lança luz sobre nosso caminho através do mundo, e coloca em nossas mãos a verdadeira compreensão da natureza e da história. Ela nos faz ver Deus onde nós, de outra forma, não o veríamos. Iluminados por ela nós contemplamos as excelências de Deus em toda a expansão das obras de Suas mãos.[11]

A revelação geral não tem o poder de salvar ou gerar a fé salvadora numa pessoa. Por outro lado, alguns teólogos entendem a revelação geral como uma espécie de “graça comum” sobre os ímpios. Contudo, em Romanos 1.18-20, Paulo declara que a revelação geral é meramente uma revelação da ira de Deus sobre o ímpio, cuja função é deixá-lo sem desculpa perante Jesus no dia do julgamento final. 

Ronald Hanko diz:

A manifestação de Deus nas coisas que foram criadas é a razão pela qual ninguém será capaz de se queixar no dia do juízo que não conhecia a Deus. Se considerarmos Romanos 1, não existe nenhum ateu. [...] O único resultado dessa manifestação de Deus, no que diz respeito ao ímpio, é que eles recusam glorificar a Deus, continuam a serem ingratos, e transformam a glória de Deus, manifesta a eles e neles, em imagens de coisas corruptíveis (vs. 21-25). [...] Eles, de acordo com Romanos 1, não estão procurando a verdade, mas suprimindo-a (v. 25). A sua filosofia e religião não representam um pequeno princípio da verdade ou um amor pela verdade, mas a verdade recusada e abandonada. [...] A revelação geral, portanto, serve somente para aumentar a culpa daqueles que não ouvem ou não creem no evangelho.[12]  

Por meio desses aspectos que formam o pilar da revelação geral (criação, consciência, história), Deus não somente revela-se ao homem como um ser superior incriado, supremo, eterno, infinito, mas, sobretudo, que a vida não cessa após a morte; antes, que existe vida após a morte.

Quero analisar cinco argumentos concernentes à revelação geral baseados na criação, consciência e história [com exceção de Jesus Cristo, pelas Escrituras] não apenas acerca da existência de Deus, mas também sobre a existência eterna do homem.    

a) O argumento ontológico

Alguns estudiosos têm argumentado que não existe no mundo pessoas que são céticas ou descrentes. Eles dizem que a noção absoluta da religião é universal. Por mais depravados que sejam diante de Deus, todos os homens , sem exceção, possuem o conhecimento da existência de Deus e da vida após a morte pela consciência, ainda que este conhecimento esteja obscurecido pelo pecado. Para os que não acreditam nisso, existem duas opções: Ou a humanidade está mergulhada numa superstição tola e absurda da existência de Deus e da vida após a morte ou o conhecimento da existência de Deus e da vida após a morte, ainda que distorcido pelo pecado, é presente na consciência de todos homens. A segunda opção parece ser a mais coerente de acordo com a fé Crista.

Bavinck corrobora que há na consciência de todos os homens alguma noção de um ser supremo sobre o qual não se pode conceber algo que seja mais elevado, e que é auto existente. Se tal ser não existe, a maior, mais perfeita e mais inevitável ideia seria uma ilusão, e o homem perderia sua confiança na validade de sua consciência.[13]    

b) O argumento cosmológico

Este argumento parte do pressuposto de que, se algo existe, com base nesse algo concluímos que há uma causa primária e suficiente que causou a existência desse algo. Sendo assim, tudo que tem um começo ou veio a existir tem uma causa primária por detrás. Thomás de Aquino disse que o nada não pode causar a si mesmo, caso contrário teria de conferir existência a si mesmo [isto é, causar a sua própria existência], o que é impossível. Tudo o que é causado, portanto, é causado por alguma outra coisa.[14] 

Sendo assim, o mundo não veio a existir do nada nem tampouco se auto causou. Com base na lógica racional da fé, entendemos e cremos que o mundo foi criado por Deus.   

c) O argumento histórico

Ao longo dos anos, sempre houveram pessoas, eruditos e filósofos descrentes que negavam a existência de Deus e da vida após a morte. Contudo, de forma geral, a crença na existência disso é estabelecida em várias religiões e entre pessoas do mundo todo. Esta “crença comum” na existência de Deus e da vida após a morte é baseada em argumentos históricos que foram passados de geração para geração através de pessoas e da literatura.

d) O argumento teológico

Este argumento acentua que Deus, pela sua providência, poder e sabedoria, governa com equidade toda a sua criação, onde nada acontece fora da sua vontade e sem que Ele tenha predeterminado todas as coisas pela sua Soberania Absoluta. Bavinck enfatiza:

O mundo, em suas leis e ordenanças, em sua unidade e harmonia e na organização de todas as suas criaturas, exibe um propósito cuja explicação seria ridícula na base da casualidade, e que, portanto, aponta para um ser todo abrangente e todo poderoso que com mente infinita estabeleceu esse propósito, e por seu poder infinito e onipresente age para alcançá-lo.[15]

e) O argumento moral

Este argumento é uma conseqüência do argumento ontológico, e trata do homem como um ser racional e moralmente responsável pelos seus atos. O homem “sente em sua consciência que é limitado por uma lei que está acima de si mesmo e que requer obediência incondicional de sua parte. Tal lei pressupõe um Santo e Justo legislador que pode preservar e destruir”;[16] ou seja, fazer o que quiser (Sl 115.3).

Hoekema, em seu livro A Bíblia e o futuro, aduz quatro argumentos acerca do termo “imortalidade da alma”. Senão vejamos:   

1) As Escrituras não utilizam a expressão “imortalidade da alma”. A palavra imortalidade é aplicada a Deus, à existência total do homem na hora da ressurreição, e a coisas tais como a coroa e a semente incorruptível da Palavra, mas nunca para a alma do homem.

2) As Escrituras não ensinam a existência continuada da alma devido a sua indestrutibilidade inerente. Este argumento está relacionado com a visão metafísica do homem. Na filosofia de Platão, por exemplo, a alma é considerada indestrutível porque ela faz parte de uma realidade metafísica superior à do corpo. A alma é considerada como uma substância não criada, eterna e, por causa disso, divina. Mas as Escrituras não ensinam esse tipo de conceito da alma. De acordo com as Escrituras, o homem foi criado por Deus e continua a ser dependente de Deus para sua existência, não podemos indicar no homem nenhuma qualidade ou qualquer aspecto do homem que o faça indestrutível.

3) As Escrituras não ensinam que uma simples existência contínua após a morte seja supremamente desejável, porém, insistem que uma vida em comunhão com Deus é o maior bem do homem. O conceito de imortalidade da alma, como tal, não diz nada acerca da qualidade de vida após a morte; ele simplesmente afirma que a alma continua a existir. Mas isto não é o que as Escrituras enfatizam.

O que a Bíblia salienta, é que viver separado de Deus é morte, e que relação e comunhão com Deus é vida verdadeira. Esta vida verdadeira já é desfrutada por aqueles que creem em Cristo (Jo 3.36; 5.24; 17.3). A vida em comunhão com Deus continuará a ser desfrutada pelos crentes após a morte, conforme Paulo ensina em Filipenses (1.21-23) e em 2 Coríntios (5.8). É esse tipo de existência após a morte que as Escrituras nos apresentam como um estado a ser anelado. Elas ensinam que mesmo aqueles que não têm esta vida verdadeiramente espiritual, continuarão a existir após a morte; sua existência continuada, entretanto, não será uma existência feliz, mas de tormento e angústia (2Pe 2.9; Lc 16.23,25).

4) A mensagem das Escrituras acerca do futuro do homem é a ressurreição do corpo. (...) De acordo com as Escrituras, o corpo não é menos real do que a alma; Deus criou o homem em sua totalidade, corpo e alma. Nem o corpo é inferior à alma, nem é não-essencial à verdadeira existência do homem; se fosse assim, Jesus nunca poderia ter assumido uma natureza humana genuína, com um corpo humano genuíno.

No ensino bíblico, o corpo não é um túmulo para a alma [conforme acreditava Platão e outros], mas um templo do Espírito Santo; o homem não é completo sem o corpo. Por causa disso, o futuro estado da bênção do crente não é simplesmente a existência continuada de sua alma, mas inclui, como seu aspecto mais rico, a ressurreição de seu corpo. Esta ressurreição será, para os crentes, uma transição para a glória, na qual nossos corpos deverão tornar-se semelhantes ao corpo glorioso de Cristo (Fp 3.21).[17]

Conclusão

Diante de tudo, entendemos que o conceito de imortalidade da alma não pode ser considerada uma doutrina legitimamente cristã. Pelo contrário, o ponto central que rege a escatologia bíblica correta é o conceito da ressurreição do corpo. A imortalidade, portanto, deve ser aplicada não a alma de forma isolada, mas ao homem num todo [especificamente ao cristão]. Visto que o ímpio também existirá para sempre condenado ao lago de fogo, os cristãos é que são considerados imortais porque somente eles possuem a vida eterna em Jesus Cristo.

Os corpos dos cristãos ainda serão transformados pela glorificação para o desfrute pleno da imortalidade com Deus na terra restaurada em toda a sua constituição. 

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Notas:

1 Berkhof. Teologia Sistemática, pág 668.
2 William Hendriksen. 1, 2 Timóteo e Tito, pág 260.
3 Charles Hodge. Teologia Sistemática, pág 1547.
4 Calvino. As Institutas I, capítulo XV, 2, pág 186.
5 Ibid. III, capítulo XXV, 6, pág 454-455.
6 Calvino. 1 Coríntios, pág 496-499.
7 Antony Hoekema citando Berkouwer em A Bíblia e o Futuro, capítulo 8.
8 William Hendriksen. 1, 2 Timóteo e Tito, pág 261.
9 John Stott. A mensagem de 1 Timóteo e Tito, pág 163.
10 Simon Kistemaker. Apocalipse, pág 719-720.
11 Herman Bavinck. Teologia Sistemática (Socep), pág 40.  
12 Ronald Hanko. Doctrine according to Godliness. Reformed Free Publishing Association, pág. 8-9.
13 Herman Bavinck. Teologia Sistemática (Socep), pág 42. 
14 William Lane Craig citando Tomás de Aquino em Apologética Contemporânea, pág 93.
15 Herman Bavinck. Teologia Sistemática (Socep), pág 42.
16 Herman Bavinck. Teologia Sistemática (Socep), pág 43.
17 Antony Hoekema. A Bíblia e o futuro, capítulo 8.

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Autor: Leonardo Dâmaso
Fonte: Bereianos
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