Providência em tudo da vida

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Por John Frame


A maioria dos cristãos que conheço fala de providência quando algo bom e incomum lhes acontece. Alguém parece arrumar seu pneu, e você chega em seu encontro exatamente no horário marcado. Quando você teme que perderá o pagamento do seu aluguel, um cheque (com precisamente a quantia que você necessita) chega via correio. Você ora pela cura de alguém amado e um pouco depois você encontra um tratamento médico que tem sucesso, quando tudo o mais falhou. Estas coisas acontecem, e nestas ocasiões frequentemente a palavra “providência” aparece em nossas línguas.
  
Assim, providência se torna a alternativa cristã para “sorte”. Quando alguém diz “boa sorte”, alguns cristãos advertirão que não cremos em sorte, mas somente na providência de Deus. Sorte é algo impessoal, um tipo de destino ou acaso. A providência está nas mãos do nosso Deus amoroso.
  
Usar a palavra “providência” para descrever bênçãos divinas especiais e coincidentes é perfeitamente correto. Nós experimentamos tais bênçãos, e providência é tão boa quanto qualquer outra palavra para descrevê-las. Mas deveríamos estar cientes de que a definição teológica de providência é muito mais ampla do que isto. A definição de providência é, certamente, teológica. A palavra é raramente, se é que alguma vez, encontrada nas traduções portuguesas da Bíblia, de forma que o conceito de providência é, até certo ponto, a tarefa de teólogos. Estes teólogos agruparam várias idéias bíblicas sob o nome de providência, e será útil para nós olharmos para tais idéias.
  
O Catecismo Menor de Westminster define providência na resposta à pergunta 11: “As obras da providência de Deus são a sua maneira muito santa, sábia e ponderosa de preservar e governar todas as suas criaturas, e todas as ações delas”. Primeiro, note que a providência de Deus é universal. Ela se estende a todas as criaturas de Deus e a todas as ações delas. Assim, Efésios 1:11 fala do Deus que “faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade”. É correto vermos a mão de Deus nas bênçãos especiais da vida. Mas é importante vermos a mão de Deus em nossas provas, dores e sofrimentos; até mesmo em nossas próprias decisões. A mão amorosa de Deus opera em tudo que acontece comigo e em tudo que faço. Assim, Paulo nos chama a sermos gratos em tudo (1 Tessalonicenses 5:18).
  
Frequentemente ouvimos que deveríamos ser gratos pela misericórdia de Deus em meio aos problemas. Mas é duro ver a mão de Deus em nossas decisões pecaminosas e ignorantes. Reconheçamos, contudo, que a mão de Deus na providência está nestas decisões também. Lembra-se que os irmãos de José o venderam como escravo? Mais tarde ele lhes disse: “Agora, pois, não vos entristeçais, nem vos irriteis contra vós mesmos por me haverdes vendido para aqui; porque, para conservação da vida, Deus me enviou adiante de vós” (Gênesis 45:5) e “vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem” (Gênesis 50:20). Os irmãos fizeram uma decisão pecaminosa. Mas aquela decisão pecaminosa era parte da providência de Deus, para manter a família de Jacó viva. O relacionamento entre a providência de Deus e o pecado humano é de fato misterioso. Mas é sempre verdade que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Romanos 8:28). Não deveríamos agradecer a Deus pelo pecado, mas deveríamos agradecê-lo de todo coração por usar o pecado para promover seus bons propósitos.
  
O Catecismo também nos diz que na providência Deus “preserva” e “governa”. Governar aqui não é tanto uma metáfora política quanto é a ideia de um piloto dirigindo um navio a bombordo. Quando Hebreus 1:3 diz que Jesus “sustenta todas as coisas pela palavra do seu poder”, o retrato não é tanto aquele de Atlas sustentando o mundo sobre os seus ombros, mas de um corredor de revezamento levando um bastão até a linha de chegada. O governo de Deus é um conceito dinâmico, um que dá direção à natureza e história. O progresso do mundo está se dirigindo para um objetivo, para o cumprimento de todos os propósitos de Deus no retorno de Cristo. A história não é apenas uma coisa após a outra. Ela é uma narrativa maravilhosa, que levará a uma conclusão plenamente satisfatória (algumas vezes surpreendente).

“Preservação” é outro aspecto da providência mencionada no Catecismo. Ela significa várias coisas:
  
(1) Deus preserva a existência do mundo. Sem sua permissão (e especificamente aquela de Jesus Cristo), o mundo feneceria (Colossenses 1:17).
  
(2) Deus também preserva o mundo postergando o julgamento final até seus propósitos serem completados. Assim, ele prometeu a Noé que não destruiria o mundo através de outro dilúvio (Gênesis 8:21-22). Até então, os dias e estações sucederam um após o outro de uma maneira regular. Um dia, certamente, haverá outro desastre – desta vez com fogo (2Pedro 3:7) – como nos dias de Noé, quando Deus virá no julgamento final. Entre o dilúvio e o julgamento, contudo, Deus se detém. Por que? Para dar tempo à igreja, para que esta pregue o Evangelho a todo o mundo, e dê a oportunidade para pessoas se arrependerem de seus pecados e se voltarem para Cristo (2Pedro 3:9).
  
(3) Preservação também se refere ao modo como Deus nos protege do perigo durante todas as nossas vidas. Como Deus usou o pecado dos irmãos de José para providenciar alimento para eles no Egito, assim Deus regularmente “preserva o fiel” (Salmos 31:23). Outro Salmo diz “que [ele] preserva com vida a nossa alma e não permite que nos resvalem os pés” (Salmos 66:9). Isto é o que usualmente pensamos quando usamos o termo “providência”. Ela inclui todas as coincidências preciosas às quais me referi no começo deste artigo. Deus frequentemente intervém e nos resgata, quando mais precisamos de sua ajuda. Certamente, este tipo de providência tem um limite. A menos que vivamos até o retorno de Cristo, nós todos morreremos. Mas, certamente, até mesmo então a mão de Deus nos sustenta. Se você pertence a Cristo, nem mesmo a morte pode te arrebatar da mão de Deus (João 10:29). O Senhor cumpre sua promessa de vida longa (Efésios 6:3), ultimamente, na vida eterna. E esta vida eterna começa na vida presente. Todo mundo que confia em Cristo já possui a vida eterna (João 5:24).

Assim, a providência envolve muito mais do que algumas vezes pensamos. Sim, Deus nos dá pequenas surpresas durante a vida, e é uma bênção maravilhosa saber isso. Mas a providência também se estende a tudo o que acontece. Ela abarca todo o tempo e espaço. Ela nos conduz desde a criação até a eternidade futura. Tal providência merece nosso louvor extasiado: “Aleluia! Rendei graças ao SENHOR, porque ele é bom; porque a sua misericórdia dura para sempre” (Salmos 106:1).

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Fonte: Monergismo
Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto
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A eficácia do controle exercido por Deus

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Por John Frame


Dizer que o poder controlador de Deus é eficaz é simplesmente dizer que esse poder sempre realiza o seu propósito. Deus nunca deixa de cumprir o que se dispõe a fazer. É certo que as criaturas podem opor-se a ele, mas não podem prevalecer. Por seus próprios motivos, ele decidiu adiar o cumprimento das suas intenções para o fim da História, e conduzir essas intenções através de uma complicada sequência histórica de acontecimentos. Nessa sequência, às vezes os seus propósitos parecem sofrer derrota, e às vezes obtêm vitória. Mas, como veremos posteriormente na nossa discussão sobre o problema do mal, cada aparente derrota torna de fato a sua vitória final supremamente gloriosa. É evidente que a cruz de Jesus é o principal exemplo desse princípio. 

Nada é difícil demais para Deus (Jr 32.27); nada lhe parece maravilhosos demais (Zc 8.6); nada lhe é impossível (Gn 18.14; Mt 19.26; Lc 1.37). Desse modo, os seus propósitos sempre prevalecerão. Contra a Assíria, ele diz:

"Jurou o SENHOR dos Exércitos, dizendo: Como pensei, assim sucederá, e, como determinei, assim se efetuará. Quebrantarei a Assíria na minha terra e nas minhas montanhas a pisarei, para que o seu jugo se aparte de Israel, e a sua carga se desvie dos ombros dele. Este é o desígnio que se formou concernente a toda a terra; e esta é a mão que está estendida sobre todas as nações. Porque o SENHOR dos Exércitos o determinou; que pois, o invalidará? A sua mão está estendida; quem, pois, a fará voltar atrás?" (Is 14.24-27; cf. Jó 42.2; Jr 23.20).

Quando Deus expressa com palavras os seus propósitos eternos, por intermédio dos seus profetas, essas profecias certamente acontecerão (Dt 18.21-22; Is 31.2).[1] Às vezes Deus apresenta a sua palavra como o seu agente ativo que inevitavelmente cumpre a sua determinação:

"...[assim como descem a chuva e a neve dos céus] assim será a palavra que sair da minha boca: não voltará para mim vazia, mas fará o que me apraz e prosperará naquilo que designei" (is 55.11; cf. Zc 1.6). 

E o sábio mestre nos lembra:

"Não há sabedoria, nem inteligência, nem mesmo conselho contra o SENHOR" (Pv 21.30; cf. 16.9; 19.21)

A Escritura fala muitas vezes sobre o propósito de Deus em termos "do que lhe agrada" ou do que "o que é da vontade". O que agrada a Deus certamente será realizado:

"... que digo: o meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade" (Is 46.10)

"Todos os moradores da terra são por ele reputados em nada; e, segundo a sua vontade, ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes?" (Dn 4.35)

"Por aquele tempo, exclamou Jesus: Graças te dou, ó Pai, SENHOR do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelastes aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado" (Mt 11.25-26). 

"... (e em amor) nos predestinou para ele, para adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade" (Ef 1.5; cf. 1.9).[2]

Para ilustrar a eficácia dos propósitos de Deus na nossa vida, a Escritura faz uso da figura do oleiro e do barro (Is 29.16; 45.9; 64.8; Jr 18.1-10; Rm 9.19-24). Com a mesma facilidade com que o oleiro molda seu barro, fazendo um vaso para um propósito e outro vaso para outro propósito, assim Deus age nas pessoas. Seu propósito prevalecerá, e o barro não tem nenhum direito de queixar-se com o oleiro a respeito disso.

A eficácia geral do propósito de Deus forma o pano de fundo para a doutrina reformada da graça irresistível. Como mencionamos anteriormente, os pecadores de fato resistem aos propósitos de Deus; esse é, na verdade, um tema significativo da Escritura (Is 65.12; Mt 23.37-39; Lc 7.30; At 7.51; Ef 4.30; 1Ts 5.19; Hb 4.2;12.25). Mas o ponto visado pela doutrina é que a resistência deles não prevalece contra o SENHOR. Quando Deus tenciona levar alguém para a fé em Cristo, ele não pode deixar de fazer isso, embora, pelos seus próprios motivos, ele decida lutar com a pessoa por longo tempo antes de atingir esse propósito.[3] Mais adiante, nesse precede a nossa resposta de fé, e é sempre origem desta. Também veremos que Deus chama eficazmente pecadores para entrarem em comunhão com ele. Teremos que discutir amplamente a natureza da resistência humana na nossa consideração posterior da responsabilidade e liberdade características da criatura.

Mas a Escritura ensina normalmente que, quando Deus elege, chama e regenera alguém em cristo, mediante o Espírito, essa obra realiza o seu propósito salvífico. Quando Deus dá àqueles que são seus um novo coração, é certo e seguro que eles "andem nos meus estatutos, e guardem os meus juízos, e os executem" (Ez 11.20; cf. 36.26-27). Quando Deus nos dá nova vida (Jo 5.21), não podemos devolvê-la a ele. Disse Jesus: "Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim" (Jo 6.37). Se Deus pré-conhece alguém (isto é, se é seu amigo, como veremos abaixo), ele certamente o predestinará para conformar-se à semelhança de Cristo, para ser chamado, justificado e glorificado no céu (Rm 8.29-30). "[Deus] tem ele misericórdia de quem quer e também endurece a quem lhe apraz" (Rm 9.18; cf. Êx 33.19). Os crentes podem dizer: Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a salvação mediante nosso Senhor Jesus Cristo (1Ts 5.9). O salmista acrescenta:

"Bem aventurado aquele a quem escolhes e aproximas de ti, para que assista nos teus átrios; ficamos satisfeitos com a bondade de sua casa - o teu santo templo" (Sl 65.4)

Portanto, como acontece com a sua palavra, a graça de Deus nunca voltará vazia a ele.

Podemos resumir o ensino bíblico acerca da eficácia do governo de Deus com as seguintes passagens, que falam por si mesmas:

"O conselho do SENHOR dura para sempre; os desígnios do seu coração, por todas as gerações" (Sl 33.11)

"No céu está o nosso deus e tudo faz como lhe agrada" (Sl 115.3)

"Tudo quanto aprouve o SENHOR, ele o faz, nos céus e na terra, no maus e em todos os abismos" (Sl 135.6)

"... nenhum já que possa livrar alguém das minhas mãos; agindo eu, que o impedirá?" (Is 43.13)

"Estas coisas diz o santo, o verdadeiro, aquele que tem a chave de Davi, que abre, e ninguém fechará. e que fecha, e ninguém abrirá" (Ap 3.7)

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Notas:
[1] Nas Escritura, nem toda profecia é expressão do propósito eterno de Deus. Algumas profecias indicam o que Deus fará em várias situações possíveis. Portanto, às vezes ele anuncia juízo, mas "se arrepende" quando as pessoas se arrependem: ver Jr 18.5-10. [...] Ver também Richard Pratt, "Prophecy and historical contingence", em www.thirmill.org.
[2] Certo é que há também na Escritura muitos exemplos de criaturas que desagradam a Deus por desobedecerem aos seus mandamentos, desse modo deixando de estar à altura dose seus padrões. Aqui é importante a distinção reformada tradicional entre a vontade decretiva e a vontade preceptiva (ou, nesse caso, o que agrada a Deus). Deus sempre realiza o que ele ordena que aconteça, mas nem sempre ordena que seus preceitos, seus padrões, sejam seguidos. Em outras palavras, às vezes lhe apraz ordenar seu próprio desprazer, como quando ele ordena as ações pecaminosas dos seres humanos.
[3] Há também situações nas quais pessoas que parecem eleitas abandonam Deus e, com isso, provam que não pertencem aos seu povo. Também há casos em que Deus escolhe alguém sem a intenção de lhe dar os benefícios completos da salvação. Judas é um exemplo (Jo 6.70), como também o é Israel, que, por sua incredulidade, perdeu sua posição especial como nação eleita de Deus.

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Fonte: FRAME, John. A Doutrina de Deus; São Paulo: Cultura Cristã, 2013. 53-55
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Por que eu deveria votar? Cristianismo e Política



Por John Frame 

Então, retirando-se os fariseus, consultaram entre si como o surpreenderiam em alguma palavra. E enviaram-lhe discípulos, juntamente com os herodianos, para dizer-lhe: Mestre, sabemos que és verdadeiro e que ensinas o caminho de Deus, de acordo com a verdade, sem te importares com quem quer que seja, porque não olhas a aparência dos homens. Dize-nos, pois: que te parece? É lícito pagar tributo a César ou não? Jesus, porém, conhecendo-lhes a malícia, respondeu: Por que me experimentais, hipócritas? Mostrai-me a moeda do tributo. Trouxeram-lhe um denário. E ele lhes perguntou: De quem é esta efígie e inscrição? Responderam: De César. Então, lhes disse: Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Ouvindo isto, se admiraram e, deixando-o, foram-se. (Mateus 22:15-22)

O que o cristianismo tem a dizer sobre política? Bem, um monte de coisas. Tantas coisas que é difícil saber por onde começar. Talvez a coisa mais fundamental, porém, é que o cristianismo coloca a política em perspectiva. A Bíblia faz isso, é claro, com cada aspecto da vida humana. Em todas as áreas da vida, somos tentados ou a idolatrar a criação ou a desonrá-la. Algumas pessoas fazem do dinheiro o seu deus; outras dizem “dinheiro não tem importância nenhuma”, e então elas ignoram o dinheiro, desperdiçam-no e ficam pobres. Para algumas pessoas, o prazer é Deus – elas vivem e morrem por ele; Outras pessoas parecem se ressentir quando elas veem que alguém está se divertindo, então elas se tornam rabugentas e tristes. É parecido com a política. Como todos sabemos, é fácil se tornar um fanático a respeito da política, pensar que a vida e a morte dependem de os Republicanos ou os Democratas ou algum outro vencer em novembro. Por outro lado, também é fácil ficar frustrado com o processo político. Tantas idéias anti-cristãs, tanto comportamento torto – nos tenta a dizer que o cristão deve se afastar da política. Além disso, nós sabemos que a política não salva ninguém; então por que se importar com quem é eleito? O mundo vai ser queimado, e nenhum programa político pode salvá-lo.

Bem, o cristianismo nos salva de ambos os extremos, da mesma forma que em tantas outras áreas da vida. Política, como dinheiro, prazer, música, educação, ciência, esportes ou o que quer que seja – é importante, mas não é a coisa mais importante. Deus deu a todas essas coisas criadas uma importância real, uma dignidade real. Mas ele também as limitou, ele não nos permite adorá-las, colocá-las em primeiro lugar. Somente ele é merecedor de nossa total devoção. “Busquem primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas.” Todas essas outras coisas – comida, roupas, moradia, política – não são sem importância. Mas elas estão em segundo lugar para o Reino de Deus. E apenas buscando o Reino primeiro é que nós teremos a perspectiva correta nas outras coisas.


Na passagem da Escritura de hoje, nós vemos este equilíbrio no ensino de Jesus. De uma forma bem impressionante, porque sob pressão nós tendemos a tomar uma posição extremada ou desequilibrada. E Jesus estava certamente sob terrível pressão aqui. Se eu estivesse escrevendo um romance baseado nesta passagem, eu teria que arrumar um título romântico – vejamos, que tal “Armadilha assassina”? Porque esta é a situação de nossa passagem. Lembre-se, isso acontece durante a Semana Santa. O capítulo anterior nos fala sobre Jesus entrando em Jerusalém; mais tarde naquela semana, sabemos que Jesus vai para a cruz para morrer. Então as coisas estão esquentando. Os inimigos de Jesus estão levando a sério a busca por uma oportunidade para matá-lo. Eles são muito covardes, porém, para pegar uma faca e enfiar nas costas de Jesus. Eles querem arrumar algum outro pra fazer o serviço sujo. Portanto, “armadilha assassina”.

Nós sabemos que “armadilha” foi o caso de John DeLorean que esteve nas notícias recentemente. John DeLorean era um executivo do setor automobilístico que teve dificuldades financeiras e se envolveu no tráfico de drogas. No julgamento, o júri decidiu que ele era inocente porque ele “caiu em uma armadilha”. Ou seja, os agentes do governo o enganaram para que ele fizesse algo que de outra forma ele jamais teria feito. Agora os fariseus e herodianos em nossa passagem estão tentando pegar Jesus – fazer com que ele faça algo que o torne criminoso. Especificamente, eles estão tentando fazer ele dizer algo que faça com que ele seja preso. Agora em nosso país isso normalmente não acontece, por causa de nossa tradição da liberdade de expressão. Graças a Deus por isso. Tiago nos diz como é difícil guardar a língua, e nós sabemos por experiência própria como é fácil escorregar e dizer algo ofensivo. Mas na maior parte do mundo hoje não há liberdade de expressão, e não existia isso na Palestina da época de Jesus. Então era muito fácil pegar alguém numa armadilha dessas – bastava fazer com que a pessoa criticasse o governo. Quase qualquer pessoa pode ser provocada a dizer algo ruim a respeito do governo.

Mas Jesus não caiu na armadilha deles. A língua dele não escorregou; pois sua palavra é a poderosa Palavra de Deus, que nunca falha. Homens maus poderiam atar o corpo humano de Jesus e pregá-lo numa cruz, mas eles não poderiam atar sua Palavra.

Veja o que acontece. Primeiro, eles lisonjeiam Jesus: “Mestre, sabemos que és verdadeiro e que ensinas o caminho de Deus, de acordo com a verdade, sem te importares com quem quer que seja, porque não olhas a aparência dos homens.” Bem, isso é que é um elogio de verdade! Tudo verdadeiro, mas é claro que eles não acreditavam mesmo nisso; eles estavam tentando pegar Jesus com a guarda baixa. Lisonja faz isso, certo? Ela nos coloca pra pensar em quão maravilhosos nós somos, sempre um assunto terrivelmente interessante pra se pensar, e então não prestamos muita atenção ao resto do que acontece. Esta é uma boa lição: se você quer colocar alguém em perigo, sempre ajuda se você lisonjear a pessoa primeiro – uma espécie de “engordá-lo antes de matar”. Encha a pessoa de orgulho, porque o orgulho precede a ruína.

Mas Jesus não caiu na armadilha. Jesus não ficou distraído pensando sobre quão maravilhoso ele é – de fato, ele É maravilhoso. (A lisonja era toda verdade!) Mas Jesus viu além do elogio e os chamou do que eles eram, hipócritas.

Mas agora olhe para a pergunta deles: “É lícito pagar tributo a César ou não?” Uma pergunta política muito esperta. Por um motivo, era uma questão muito interessante para as pessoas na época. Todo mundo estaria prestando muita atenção à resposta de Jesus. Os judeus tinham sido conquistados pelos romanos, e muitos deles odiavam o domínio romano. De fato, havia revolucionários chamados zelotes que estavam tentando derrubar o governo romano. Eles não acreditavam que o povo escolhido de Deus deveria se curvar diante de um rei estrangeiro e pagão. Por outro lado, haviam outros, como os herodianos, que ajudavam os romanos, e ainda outros, como os fariseus, que não gostavam dos romanos mas aceitavam os impostos romanos. Então era uma questão interessante. Jesus não poderia responder “sem ser gravado”. As pessoas iriam escutar e espalhar a notícia. Assim, parecia que a pergunta iria certamente colocar Jesus em problemas. Há algumas perguntas onde você se incrimina quer diga sim, quer diga não, como a famosa “Você já parou de bater na sua esposa?” O mesmo acontece aqui. Se Jesus dissesse “Sim, pague impostos para Cesar” muitas das pessoas ficariam zangadas, na verdade, algum zelote poderia ter assassinado Jesus. Por outro lado, se ele dissesse “Não, não pague os impostos”, então ele teria problemas com os romanos. E os romanos eram os únicos por ali que poderiam matar legalmente. Portanto, “Armadilha assassina”.

Como Jesus saiu desta armadilha? Pode ser que eu deva deixar você no suspense e terminar na próxima semana! Mas isso não vai acontecer. Vamos dar uma olhada na resposta de Jesus. Ele pediu, “Mostrai-me a moeda do tributo. Trouxeram-lhe um denário. E ele lhes perguntou: De quem é esta efígie e inscrição? Responderam: De César. Então, lhes disse: Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Ouvindo isto, se admiraram e, deixando-o, foram-se.

O que Jesus está dizendo aqui? Bem, ele está jogando aquele equilíbrio bíblico, aquela perspectiva apropriada que eu mencionei antes. Ele está dizendo que política é importante, mas não é a coisa mais importante. Ele está dizendo que César, governo, merece nosso respeito, mas que somente Deus merece nossa reverência absoluta. Vamos olhar estes dois pontos um de cada vez.

Primeiro, diz ele, dê a César o que é de César. Isso sempre costumava me incomodar. Como é que Jesus pode colocar Deus e César lado a lado e dizer “estas coisas pertencem a Deus” e “estas coisas pertencem a César”. Não era pra tudo pertencer a Deus? Os rebanhos sobre milhares de montanhas são dele. Mas temos que lembrar o que a Bíblia diz sobre mordomia. Sim, Deus é dono de tudo, mas delega a responsabilidade para os seres humanos como seus mordomos. Deus é Rei sobre toda a terra, mas ele nos fez reis vassalos, os reis assistentes, reis mordomos, para povoar a terra e dominá-la sob a sua autoridade. Assim, Deus nos chama para honrar os nossos pais, para honrar os governantes, os anciãos da igreja, professores, todos os que têm autoridade sobre nós. E eles têm o direito de serem pagos pelo trabalho que fazem. A própria palavra “honra” às vezes tem uma conotação financeira, por isso Paulo escreve a Timóteo: “vem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, evidentemente referindo-se ao pagamento (1 Timóteo 5:17). Pais idosos merecem o apoio financeiro de seus filhos, de acordo com 1 Timóteo 5:8. Até aqui, em nossa passagem, Jesus diz a seu povo que eles deveriam pagar impostos, que deveriam apoiar o governo. Jesus repreende aqui os rebeldes fiscais dos nossos dias que sonegam imposto de renda.

O povo de Deus, então, deveria ser de bons cidadãos. Eles deveriam pagar impostos, deveriam votar, deveriam cumprir todas as funções cívicas. A política não é tão importante, como veremos, mas é importante. Precisamos do governo para conter o pecado neste mundo e para defender o justo. O governo não vai salvar ninguém, mas este não é o trabalho do governo. Suportamos o governo, não porque é salvador, mas porque Deus, nosso salvador, ordenou isso para o nosso bem.

Isso inclui os governos incrédulos? Certamente que sim. O governo romano era incrédulo. Além disso, esteve envolvido em muita maldade, incluindo o culto ao imperador. Esse foi o ponto que os judeus achavam tão difícil de aceitar. Como, segundo eles, podemos servir a um governo que se opõe ao nosso Deus e a todos os nossos valores? Mas Deus tinha respondido a esta questão, mesmo no Antigo Testamento. Naquela época, Deus disse a Israel que se eles não o obedecessem ele os colocaria sob o domínio de reis estrangeiros – Filisteus, Assírios, Babilônios – para levá-los ao arrependimento. Deus os disse que não resistissem a estes governos, mas que colocassem o pescoço debaixo do jugo deles (Jeremias 27:12) e aceitassem a disciplina de Deus. Então, hoje, Deus nos chama para sermos bons cidadãos, mesmo quando o governo se opõe aos nossos valores. Nós não devemos sonegar impostos nem sonegar oração ou obediência, a fim de protestar contra suas políticas.

Mas agora surge a pergunta, não era exatamente isso o que os fariseus queriam? Eles queriam que Jesus tomasse uma posição e assim as pessoas ficassem com raiva dele. Jesus não fez exatamente isso dizendo-os para pagarem impostos aos romanos? Sim, mas com uma diferença notável. Não se esqueça do pedaço que fala sobre a moeda. Jesus pediu que lhe dessem uma moeda. E eis que naquela moeda havia um retrato do imperador. À primeira vista, isso pode não parecer muito importante pra você, mas na verdade era. Naquela época, as pessoas não usavam somente um sistema monetário, como nós fazemos; haviam diversos sistemas disponíveis. Você poderia escolher que moedas você gostaria de usar. Agora, se você escolhe usar as moedas romanas, na verdade você estava declarando sua fidelidade a Roma. A moeda romana é um serviço romano. Se você usa serviços de Roma, você aceitou a autoridade romana. E se você aceita os serviços romanos, você tem que pagar por eles. Assim, as moedas eram pensadas de uma forma que pertencessem à pessoa que as fez. As moedas do imperador pertencem ao imperador. Então Jesus fez uma coisa muito inteligente, ou melhor, muito sábia. Ele devolveu a pergunta aos seus acusadores. Jesus disse a eles, “Vocês,  fariseus e herodianos, vocês respeitam os romanos. Vocês usam as moedas deles para comprar pão, para pagar dívidas, para pagar seus trabalhadores. Claro que vocês devem dar algo de volta aos romanos por estes privilégios.” Então, se alguém tivesse que morrer por apoiar Roma, seriam os acusadores de Jesus. Por outro lado, se os fariseus e herodianos merecem viver, então Jesus também merece.

Mas nós olhamos somente metade da resposta de Jesus. Ele diz “Dai a César o que é de César”, mas também manda “dar a Deus o que é de Deus.” Aqui é o ponto fundamental: a política é importante mas não tão importante. Governo tem autoridade, mas não a autoridade absoluta. César tem alguns direitos, mas ele não tem nenhum direito além do que Deus permite. Quando o governo nos manda curvar-se diante de ídolos, como o rei da Babilônia mandou Daniel, nós podemos, nós devemos desobedecer o governo. Quando o governo nos diz que não podemos pregar o evangelho, nós temos que dizer como Pedro e os apóstolos, “Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens” (Atos 5:29). O governo não tem o direito de quebrar as leis de Deus, ou de exigir que qualquer um de nós faça isso. Sejamos claros sobre esta distinção: devemos suportar o governo mesmo que ele quebre as leis de Deus; este foi o primeiro ponto. O segundo ponto, porém, é que nós jamais devemos quebrar as leis de Deus nós mesmos, seguindo ordens do governo.

E assim vemos que nossa esperança está somente em Deus, não no governo ou em qualquer movimento político. Mesmo quando fala sobre política, veja você, Jesus prega o evangelho. Deus colocou a nação de Israel sob a escravidão a Roma para que ela confessasse seus pecados, voltasse para Deus. Os líderes judeus pensaram que eles estavam sendo leais a Deus, contra os romanos. Mas em vez de voltar pra Deus, os líderes judeus estavam procurando uma forma de usar a política, a política romana, para matar Jesus, o rei de Deus, o messias de Deus. Feliz é a nação cujo Deus é o Senhor; mas Deus não vai honrar uma nação que volta as costas para ele. Estas pessoas eram pecadores. Eles estavam em uma necessidade desesperada de um coração novo. As perguntas sobre impostos eram de pouquíssima importância comparadas à questão de onde eles iriam passar a eternidade. Então Jesus indica o caminho: dar a César o que é de César, mas para Deus as coisas que são de Deus. Quais coisas são de Deus? Primeiro de tudo, nós somos. Como aquela moeda que trazia a imagem de César, eu e você carregamos a imagem de Deus. Nós somos dele; nós pertencemos a ele. E como os judeus, nós usamos a política para evitar as demandas de Deus sobre nossas vidas. Nós pecamos, como as Escrituras dizem. Mas a Bíblia oferece esperança. Dê a Deus as coisas que pertencem a Deus: a salvação pertence a Deus. Deus mandou seu filho Jesus para nos salvar dos nossos pecados. Os fariseus, herodianos e romanos finalmente conseguiram matar Jesus. Podemos dizer a partir de nossa passagem que eles não poderiam ter feito isso sozinhos. Eles não tinham o poder ou a sabedoria para matar Jesus Cristo! Jesus escapou da armadilha nesta passagem e claramente poderia ter escapado de qualquer outra emboscada. Mas era seu propósito derramar sua própria vida. E ele a entregou como sacrifício por todos os pecados de seu povo. Se você confiar nele para a sua salvação e honrá-lo como Senhor, você experimentará aquela liberdade do pecado que vai além de qualquer liberdade política. Os fariseus ficaram admirados com as palavras de Jesus, mas eles estavam tão cheios de ódio que não conseguiram ouvir a maravilhosa promessa de salvação para eles: Dê a Deus o que é de Deus. Dê seu coração a Jesus Cristo, e encontre o perdão e uma nova vida.

É assim que o cristianismo coloca a política em perspectiva. Buscai primeiro o reino de Deus, e então as bênçãos políticas, entre todas as outras bênçãos de Deus, nos serão acrescentadas. Não nos atrevemos a colocar nossa fé na política ou no governo. Mas, quando colocamos nossa fé em Deus, em Jesus Cristo, então podemos ver que o governo tem um papel importante. Cristo nos deu liberdade da tirania de um governo arrogante, mas também a liberdade para nos envolvermos na política, a fim de buscar uma sociedade melhor. E acima de tudo, ele nos dá liberdade do pecado, para que Deus ouça nossas orações por justiça. Nossa fé em Deus nos ajuda a ver a política como ela realmente é – não idolatrando-a, não descartando como algo sem importância, mas valorizando-a como um presente de Deus. Não há espaço aqui para fanatismo político ou desespero político. Deus está no trono.

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Tradutor: Daniel TC
Via: Reforma 21

Nota do tradutor: Alguns termos e datas se referem ao modelo de eleições dos Estados Unidos. Votar não é obrigatório por lá.
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Heroísmo moral



Por John Frame


Em meu artigo, “Graus de Avaliação Ética”, eu comentei a respeito do ato heroico dos três poderosos guerreiros de Davi, que levaram para ele uma porção de água do poço de Belém (2 Samuel 23:13-17). Naquele artigo eu julguei que, embora Deus tenha aprovado o ato deles, os três não teriam pecado se eles tivessem escolhido não fazer aquilo, nem seria pecado se a viúva de Mateus 12:44 tivesse dado uma moeda em vez de duas. Eu poderia apoiar ainda mais esse julgamento ao lembrar as palavras de Pedro para Ananias e Safira (Atos 5:1-11) quando eles mentiram a respeito da propriedade: “Ela não lhe pertencia? E, depois de vendida, o dinheiro não estava em seu poder?” Pedro certamente parece dizer aqui que Ananias e Safira não tinham a obrigação de vender a propriedade e dar todo o valor à igreja como Barnabé fez (Atos 4:37). Então nem eles nem Barnabé teriam pecado se eles não tivessem vendido suas propriedades. Vender propriedades para o benefício da igreja naquela situação não era uma obrigação, parece, mas, como os atos da viúva pobre e dos poderosos de Davi, era heroísmo moral.

Mas eu nunca estive inteiramente satisfeito com o julgamento de que tais atos não eram obrigatórios. Eles são opcionais, então? Algo que você pode realizar ou não, ao seu bel prazer? Em I Coríntios 9, Paulo descreve todos os seus esforços a favor do Evangelho, com todos os “direitos” que ele abriu mão para que o Evangelho pudesse ser disponibilizado sem custos adicionais. Se ele tinha o direito de ser pago pela igreja, somos inclinados a dizer, certamente ele não era obrigado a pregar sem receber por isso. Mas há um senso de obrigação nesta passagem:

Contudo, quando prego o evangelho, não posso me orgulhar, pois me é imposta a necessidade de pregar. Ai de mim se não pregar o evangelho! Porque, se prego de livre vontade, tenho recompensa; contudo, como prego por obrigação, estou simplesmente cumprindo uma incumbência a mim confiada. (versos 16-17)

Se Paulo tinha um certo “direito” de não pregar sem pagamento, ele tem uma compulsão de algum tipo que o leva a renunciar esse pagamento. Além disso, sua decisão cumpre uma “incumbência confiada” a ele. E se ele se recusasse a cumprir essa incumbência? Ele teria pecado?

Antes de responder, veja o que Paulo diz depois, “Faço tudo por causa do Evangelho, para ser co-participante dele.” (verso 23) e então ele descreve sua compulsão como a de um atleta com seus olhos na chegada, concluindo, “esmurro o meu corpo e faço dele o meu escravo, para que, depois de ter pregado aos outros, eu mesmo não venha a ser reprovado.” De certa forma, vencer o prêmio depende do heroísmo moral de Paulo.

Isso quase soa como salvação pelas obras. É claro, nós sabemos de outras partes da Escritura que não é assim. Então o que é isso? Bem, em última instância, o prêmio é Jesus. É Seu Reino; é a bênção completa de conhecê-Lo. Compare com o que ele diz aqui em outra passagem refletindo seu heroísmo moral, em Filipenses 3:7-11,14:

Mas o que para mim era lucro, isso passei a considerar como perda, por causa de Cristo. Mais do que isso, considero tudo como perda, comparado com a suprema grandeza do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por quem perdi todas as coisas. Eu as considero como esterco para poder ganhar Cristo e ser encontrado nele, não tendo a minha própria justiça que procede da Lei, mas a que vem mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus e se baseia na fé Quero conhecer Cristo, o poder da sua ressurreição e a participação em seus sofrimentos, tornando-me como ele em sua morte para, de alguma forma, alcançar a ressurreição dentre os mortos. […] prossigo para o alvo, a fim de ganhar o prêmio do chamado celestial em Cristo Jesus.

Paulo é tão apaixonado por Jesus que ele quer experimentar todas as bênçãos que vêm pra aqueles que vão com tudo pra Cristo. Não é que de outra forma ele fosse pro inferno, não é que exista alguma proporção exata entre o mérito das obras realizadas aqui e a recompensa no céu. É apenas que Paulo quer conhecer Jesus o melhor que ele puder. Conforme 2 Coríntios 1:5-6 e o perplexo verso em Colossenses 1:24.


Mas, não somos obrigados, de certa forma, a conhecer Jesus o melhor que nós pudermos? A própria Vida Eterna é conhecer Jesus (João 17:3). Deus disse a Israel por meio de Moisés que eles deveriam conhecê-Lo (Deuteronômio 7:9). Ele fez seus milagres “para que eles conheçam que eu sou o SENHOR.” Nós não somos apenas obrigados a conhecê-Lo, mas a amá-Lo, com todo o nosso coração, alma, força e entendimento (Mateus 22:37).

O heroísmo moral particular de Paulo não é obrigatório para todos nós. Pregar sem receber era a forma que Paulo levava adiante sua paixão por conhecer e amar Jesus. Outros, como Apolo e Pedro, aceitavam pagamento pelos seus ministérios, como era o direito deles. Mas eles mostraram sua paixão por Cristo de outras formas. É esta paixão que nos é obrigatória, não uma forma específica de vivê-la. É o princípio, e não a aplicação particular de Paulo.

Mas Deus espera algum grau de heroísmo de cada um de nós. O Grande Mandamento, de amar a Deus com tudo o que temos, é uma demanda extrema. Deus pode nunca chamá-lo a um ato de heroísmo militar como os poderosos guerreiros de Davi, ou para dar todas as suas posses, como a viúva pobre, ou para vender sua propriedade, como Barnabé. Mas ele vai lhe pedir para fazer algum tipo de sacrifício realmente difícil, da mesma forma que ele pediu ao Jovem Rico para vender todos os seus bens pra alimentar os pobres.

Heroísmo moral é uma obrigação, porque nossa obrigação geral é ser como Jesus: amar como ele fez (João 13:34, I João 4:9-12) no mais extremo sacrifício, servir aos outros como ele nos serviu (Marcos 10:45).

Quando nós entendemos esta obrigação, podemos ver muito mais claramente porque boas obras jamais podem alcançar os padrões de Deus. Comparando com o heroísmo de Cristo, e até comparando com alguns dos seus melhores discípulos, nós estamos muito abaixo. Então nós confiamos completamente na graça de Deus em Jesus para a nossa salvação. Mas à medida que renunciamos nossa justiça-própria pela de Cristo (Filipenses 3 de novo), nós podemos ver a glória de Jesus comparando-a com nosso lixo, e Deus planta em nós aquela paixão para corrermos a corrida com Paulo: para conhecer a plenitude das bênçãos de Cristo e, acima de tudo, conhecer o próprio Cristo.

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Fonte: Frame & Poythress
Tradução: Daniel TC
Via: Reforma 21 
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A Bíblia é inerrante?



por John Frame


Algumas pessoas têm sugerido que “inerrante” não é uma boa palavra para usar quando se descreve a Escritura. Este artigo procura responder a essa objeção. Antes de nós passarmos ao termo específico “inerrante”, entretanto, será bom lembrarmos, em termos mais gerais, o que a fé reformada e a própria Bíblia ensinam-nos sobre a Escritura.

Primeiro, a Escritura é a constituição pactual do povo de Deus.[1] A primeira Palavra escrita de Deus, a primeira Bíblia, foram os Dez Mandamentos, escritos pelo próprio dedo de Deus em tábuas de pedra (Ex 24.12, 31.18, 32.15s, 34.1). Lá, Deus fala como o autor do documento: “Eu sou o Senhor teu Deus”. Aquela Palavra escrita foi posta no lugar mais santo de Israel, ao lado da Arca da Aliança, onde estaria firmada como testemunha de Deus contra Israel (Dt 31.26).[2] Assim, a Palavra escrita deveria governar todos os aspectos da vida do povo de Deus (Dt 4.1-14, 5.32-6.25).[3] Quase todo capítulo de Deuteronômio exorta o povo a obedecer todas as leis, testemunhos, estatutos, mandamentos e palavras (que redundância eloquente!) da Palavra escrita de Deus. Quase todo verso do Salmo 119 chama o povo de Deus de volta a esses estatutos; reavivamento em Israel é sempre um reavivamento da obediência à (e algumas vezes a redescoberta da) Lei.

Além do Decálogo, Deus deu outras Palavras a seu povo. O cântico de Moisés em Dt 32 (veja 31.19) é uma Palavra destas. Palavras de Josué foram mais tarde adicionadas (Js 24.25s). E Deus enviou profetas; a própria definição de um profeta era aquele proclamava a Palavra de Deus, não as palavras de sua própria vontade (Dt 18.18-20). Muitas dessas profecias foram escritas. Jesus considerou o Antigo Testamento inteiro como a Palavra escrita de Deus (Mt 5.17-19, Jo 5.45, 10.33-36), como também fizeram os apóstolos (Rm 15.4, 2Tm 3.16, 2Pe 1.21, Tg 4.5,11).

O Novo Testamento é uma Nova Aliança e, portanto, envolve a entrega de Palavras divinas (Mt 7.24-27, Mc 8.38, Jo 6.68s, 12.47ss, 14.15, 21, 23s, 15.7, 10, 14, 17.6, 17, 1J 2.3-5, 3.22, 5.2f, 2Jo 6, 1Tm 6.3, Ap 12.17, 14.12). Pelo testemunho do Espírito Santo e conteúdo dos próprios livros, os cristãos reconhecem o Novo Testamento, como eles fazem com o Antigo, como o Livro de Deus.

Portanto, a igreja tem confessado historicamente que a Escritura é a Palavra de Deus. É Deus falando a nós. Existem também autores humanos na Escritura, e o conteúdo da Escritura reflete suas personalidades, estilos e experiências. Mas a humanidade da Escritura não significa que ela tenha menos autoridade que, digamos, a voz divina no Monte Sinai. A autoridade da Escritura é nada menos que a autoridade do próprio Deus, como as passagens citadas acima claramente demonstram.

Não temos, assim, nenhum direito de levantar críticas negativas contra a Bíblia. Como a Confissão Belga afirma, os livros canônicos “não podem ser contraditos de forma alguma” (Artigo 4), “acreditamos, sem dúvida nenhuma, em tudo que eles contêm” (Artigo 5), e “sua doutrina é perfeitíssima e, em todos os sentidos, completa” (Artigo 7). Quando Deus fala conosco, nós não ousamos criticar o que ele diz. Nosso único recurso é crer e obedecer.

E então, o que dizer sobre inerrância? Bem, a inerrância da Escritura está certamente implícita no que já dissemos, se pudermos usar “inerrância” em seu sentido normal, do dicionário. “Inerrante” significa simplesmente “sem erros” ou “verdadeiro”, no sentido que nós normalmente falamos de frases verdadeiras, doutrinas verdadeiras, relatos verdadeiros e princípios verdadeiros. Se Deus estivesse falando conosco em pessoa, “diretamente”, nenhum de nós ousaria acusá-lo de erro. Erros surgem de ignorância ou engano; e nosso Deus não é nem ignorante, nem enganador. De maneira semelhante, nós não ousamos acusar sua Palavra escrita de erro.

Esta não é uma posição meramente “moderna”. Como vimos, é a posição da própria Escritura. Agostinho no século V declarou: “Nenhum desses autores (da Escritura) errou, em algum aspecto, ao escrever”. A infalibilidade[4] é afirmada na Confissão de Fé de Westminster, capítulo 1, e na Confissão Belga, artigo 7.

Devemos falar hoje de “inerrância” bíblica? O termo com certeza gera confusão em alguns círculos. Alguns teólogos têm ido bem além do significado normal de “inerrante”. James Orr, por exemplo, define “inerrante” como “uma literalidade estrita em assuntos mínimos nos detalhes históricos, geográficos e científicos".[5] Bem, se “inerrância” demanda literalidade, então devemos renunciar à inerrância; porque a Bíblia nem sempre deve ser interpretada literalmente. Certamente existem questões importantes na interpretação bíblica que alguém perde se ele aceita a inerrância bíblica neste sentido.

Mas devemos nos lembrar que o uso do termo por Orr, e os usos semelhantes de teólogos contemporâneos, são distorções de seu significado. Talvez essas distorções tenham se tornado tão frequentes hoje que diminuem a utilidade do termo. Por enquanto, porém, eu gostaria de manter o termo, e explicar às pessoas que me questionam que não estou usando ele no sentido de Orr, mas de maneira semelhante ao confessado pela fé histórica da igreja.

Nós temos um problema aqui: se fosse possível, eu preferiria  abandonar os termos extrabíblicos, incluindo “infalível” e “inerrante”, e simplesmente falar, como a Escritura faz, da Palavra de Deus como verdadeira. Isto é o que todos nós queremos dizer, afinal, quando falamos que a Escritura é inerrante. Mas os teólogos modernos não me deixam fazer isso. Eles redefinem “verdade” como se referisse a uma grande ideia teológica[6], e não permitem que use com o sentido de “precisão”, “confiabilidade” ou “veracidade”. Então, tento usar a palavra “infalível”, uma expressão histórica que, como indiquei em uma nota de rodapé abaixo, é realmente um termo mais forte que “inerrância”. Mas, novamente, os teólogos modernos[7] insistem em redefinir a palavra também, de forma que realmente diz menos que “inerrância”.

Então, qual é nossa alternativa? Mesmo “precisão” ou “veracidade” foram distorcidas por princípios teológicos. “Confiabilidade” parece muito trivial para expressar o que queremos dizer. Então, embora seja um termo que é altamente técnico, e sujeito a mal-entendidos, pretendo manter a palavra “inerrante” como uma descrição da Palavra de Deus, e espero que meus leitores façam o mesmo. A ideia, claro, é mais importante que a palavra. Se conseguir encontrar uma palavra melhor que expresse a doutrina bíblica aos leitores modernos, estarei feliz de usá-la, e abandonarei “inerrância”. Mas, atualmente, “inerrância”, não tem um substituto adequado. Abandonar o termo na situação atual, então, pode comprometer a doutrina, e isto não ousamos fazer. Deus não aceitará ou tolerará juízos humanos e negativos sobre sua santa Palavra. Então, eu concluo: sim, a Bíblia é inerrante.

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Notas:
[1] Alguns ficarão felizes em ver que não estou argumentando como um “fundamentalista” estilo movimento fundamentalista do início do século XX, mas de maneira semelhante à tradição reformada, expondo as implicações da Aliança de Deus conosco. Outros não ficarão.
[2] Não é o testemunho dos homens a Deus, como os teólogos frequentemente sugerem, mas a testemunha de Deus contra os homens.
[3] Para mais sobre o conceito da Escritura como constituição da Aliança, veja M. G. Kline, The Structure of Biblical Authority (Grand Rapids: Eerdmans, 1972). Esse é um estudo muito importante, embora muito negligenciado.
[4] Se for possível, usemos o dicionário – e por que os teólogos não usam o dicionário?! – “infalível” é um termo mais forte que “inerrante”. “Inerrante” significa que não há erros; “infalível” significa que não pode haver erros.
[5] Orr, “Revelation and Inspiration,” em: Millard Erickson, ed., The Living God (Grand Rapids: Baker, 1973), p. 245.
[6] Emil Brunner,”Truth as Encounter.”
[7] Por exemplo, J. Rogers and D. McKim, em The Authority and Interpretation of the Bible (San Francisco: Harper and Row, 1979).

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Fonte: Frame & Poythress
Traduzido por: Josaías Jr
Via: Reforma 21

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O conhecimento exaustivo de Deus sobre o futuro



por John Frame


[...] A responsividade divina observada nas Escrituras não nos refuta a crença no decreto eterno e na presciência exaustiva de Deus. Mas a Escritura dá testemunho da presciência eterna de Deus?

A Escritura tipicamente nos mostra o conhecimento de Deus sobre o futuro através do fenômeno da profecia. Um aspecto da profecia é a predição de eventos futuros. Além disso, uma evidência que revela um verdadeiro profeta é que suas predições sobre eventos futuros deve ser verdadeira (Dt 18.22). Em Isaías, Deus desafia os deuses das outras nações a predizerem o futuro, sabendo que somente ele é capaz de fazer isso (Is 41.21-23; 42.9; 43.9-12; 44.7; 46.10; 48:3-7).

Os teístas relacionais concordam que há um elemento preditivo na profecia, mas insistem em que esse elemento preditivo não implica que Deus tenha presciência exaustiva. Para mostrar isso, eles enumeram três tipos de profecia:

Uma profecia pode expressar a intenção de Deus em fazer alguma coisa no futuro, independente da decisão da criatura. Se a vontade de Deus é a única condição exigida para que alguma coisa aconteça, se a cooperação humana não está envolvida, então Deus pode garantir seu cumprimento de forma unilateral e pode anunciar esse cumprimento com antecedência... Uma profecia também pode expressar o conhecimento que Deus tem de que alguma coisa acontecerá porque as condições necessárias para isso foram cumpridas e nada pode evitá-la. Na época em que Deus predisse a Moisés o comportamento de Faraó, o caráter desse governante era tão rígido que seu comportamento era totalmente previsível... Uma profecia também pode expressar o que Deus quer fazer se certas condições forem cumpridas. 

Eu concordo que na Escritura há profecias de todos esses tipos. Eu discuti acima as profecias condicionais, e é claro que eu admito que Deus pode anunciar suas próprias ações independentemente da decisão das criaturas. O segundo tipo de profecia que Rice menciona deve ser problemático para os teístas relacionais, porque (como foi mencionado anteriormente com relação à interpretação de Boyd sobre Judas) ela sugere que algumas decisões humanas (a decisão de Faraó, na citação de Rice) são moralmente responsáveis, muito embora elas claramente não sejam livres no sentido libertarista. É estranho ver os teístas relacionais falando em “condições necessárias” para o comportamento de uma pessoa e usando termos como “rígido” e “totalmente previsível” – linguagem determinista em apoio à posição libertarista! É claro que, para os teístas relacionais, Faraó e Judas se endureceram antes de seu endurecimento se tornar irreversível, isto é, uma vez que o endurecimento surgiu, Deus fez com que essas pessoas fossem responsáveis por ações que não podiam ser evitadas.

Eu creio, contudo, que, além das profecias desse tipo, há outros tipos que (1) não afirmam simplesmente as intenções divinas, mas dependem, para seu cumprimento, das escolhas humanas; (2) implicam em que as decisões de Deus determinam as escolhas humanas; e (3) não são meramente condicionais.

Considere, como exemplos, as antigas profecias da história do povo de Deus, dadas por Deus a Noé (Gn 9.26, 27), Abraão (Gn 15.13-16), Isaque (Gn 27.27-  29, 39, 40), Jacó (Gn 49.1-28), Balaão (Nm 23 – 24) e Moisés (Dt 32.1-43; 33.1-29). Aqui Deus anuncia (de forma categórica, e não condicional), com muitos séculos de antecedência, o caráter e a história dos patriarcas e de seus descendentes. Essas profecias antecipam incontáveis decisões livres de seres humanos, muito tempo antes que qualquer um dos envolvidos tivesse tempo de formar seu caráter.

Em 1Samuel 10.1-7, o profeta Samuel diz a Saul que, depois que deixa Samuel, encontrará três homens, e mais adiante um grupo de profetas. Samuel lhe diz precisamente o que os três homens levarão e quais serão os acontecimentos da jornada. Através de Samuel, Deus claramente antecipa em detalhes as decisões livres dos homens e profetas sem nome, tanto quanto os eventos da jornada. Compare um registro semelhantemente detalhado dos movimentos de um inimigo de guerra em Jeremias 37.6-11.

Em 1Reis 13.1-4, Deus, através do profeta, diz ao ímpio rei Jeroboão que levantará um rei fiel, chamado Josias. Essa profecia foi feita três séculos antes do nascimento real do rei Josias. Compare referências em Isaías 44.28 – 45.13 ao rei persa Ciro aproximadamente um século antes de seu nascimento. Muitos casamentos, muitas combinações de esperma e óvulo, muitas decisões humanas foram necessárias para que esses indivíduos fossem concebidos, nascessem, assumissem o trono e cumprissem essas profecias. Esses textos pressupõem que Deus sabe como todas essas contingências serão cumpridas. O mesmo é verdade com relação a Jeremias 1.5, onde se diz que Deus conhecia Jeremias antes que ele estivesse no ventre materno e o designou para ser um profeta. Compare também a conversa entre Elias e Hazael da Síria, em 2Reis 8.12, e a detalhada cronologia futura em Daniel 9.20-27 sobre a vida dos impérios e a vinda do Messias. 

A Escritura não é duvidosa ao mostrar como Deus consegue esse conhecimento extraordinário. Deus conhece, como eu disse anteriormente, porque ele controla todos os eventos da natureza e da história por seu próprio plano sábio. Deus faz tudo de acordo com sua sabedoria (Sl 104.24) e realiza tudo de conformidade com o propósito de sua vontade (Ef 1.11). Portanto, Deus sabe tudo sobre as estrelas celestiais (Gn 1.15; Sl 147.4; Is 40.26; Jr 33.22) e sobre os menores detalhes do mundo natural (Sl 50.10, 11; 56.8; Mt 10.30). “Deus o sabe” é uma forma de expressão semelhante a um juramento (2Co 11.11; 12.2, 3) que garante a verdade das palavras humanas sobre o pressuposto de que o conhecimento de Deus é exaustivo, universal e infalível. O conhecimento de Deus é conhecimento absoluto, uma perfeição pela qual ele deve ser louvado (Sl 139.17, 18; Is 40.28; Rm 11.33-36).  

Dessa forma, “Deus conhece todas as coisas” (1Jo 3.20) e  

Não há criatura que não seja manifesta na sua presença; pelo contrário, todas as coisas estão descobertas e patentes aos olhos daquele a quem temos de prestar contas” (Hb 4.13).  

Esse conhecimento inclui o conhecimento exaustivo do futuro? Considerando a inadequação dos argumentos dos teístas relacionais, a forte ênfase da Escritura sobre o conhecimento exaustivo de Deus sobre o futuro e o ensino bíblico de que o plano de Deus abrange toda a história, nós devemos dizer que sim.

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Fonte: Eu não sei mais em quem eu tenho crido - Douglas Wilson (org.) - São Paulo: Cultura Cristã, 2006. Págs. 79-81
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Coração rebelde



Por John Frame



Pergunta: (a) O que você pode fazer, se é que algo pode ser feito, com a “rebelião do coração”? (b) Você é tentado, testado e experimentado — você quer se arrepender, mas seu coração não quer.

A pessoa descrita na pergunta, evidentemente, não apenas foi “tentada, testada e experimentada”, mas também cometeu pecado. Ou seja, ele ou ela não apenas foi tentado, mas rendeu-se à tentação. De outra forma, não haveria nada de que se “arrepender”. Então a pergunta básica é: o que você faz quando você pecou e você quer se arrepender, mas seu coração não quer? (Enquanto discutimos essa questão, lembre o que “arrependimento” significa. Não é apenas sentir-se mal por seu pecado, mas realmente abandoná-lo e achegar-se a Cristo, assim parando de cometer o pecado.)

Bem, todos nós já tivemos essa sensação às vezes: nós gostaríamos de mudar, mas algo em nós, parece, não quer mudar junto conosco. Nós pensamos nisso como se fosse um carro com problemas: o carro quer andar, mas algo dentro dele, digamos, o carburador, não está funcionando direito, então ele não se mexe. Ou uma pessoa com dificuldades: Alice adoraria jogar tênis, mas as costas dela não deixam ela fazer isso. É assim que se parece, frequentemente, quando nós cometemos pecado. Nós gostaríamos de parar, mas algo em nós (a pessoa que faz a pergunta chama isso de “coração”) não nos deixa parar.

Mas veja só: O “coração”, nas escrituras, não é como um carburador defeituoso dentro de um carro, nem como dor nas costas tornando o corpo de alguém mais lento. O coração (no sentido religioso, é claro, não o órgão físico) é a pessoa no nível mais profundo – o que ele ou ela realmente é. Meu coração sou eu. Seu coração é você. “Rebelião do coração”, então, é rebelião da pessoa. É a minha rebelião e a sua.

Então o coração não é algo dentro de nós que, contrariando nossas melhores intenções, não quer funcionar direito. Um coração rebelde significa que nossas intenções não são boas. Ter um coração rebelde significa nada mais nada menos que isso: nós queremos pecar. A figura de uma “parte” quebrada dentro de nós é uma figura ruim e perigosa, porque é uma forma de dar uma desculpa pelo pecado: “Não sou eu o culpado”, nós pensamos; “esta parte quebrada é que é culpada”. Mas nós é que devemos ser culpados, nós somos responsáveis.

Mas há momentos em que nos sentimos como a pessoa descrita na pergunta: como se nós quiséssemos arrepender, mas não conseguíssemos. Nesses momentos, entretanto, acredito que o verdadeiro problema é mais assim: nós queremos o arrependimento, mas não queremos o suficiente. Nós queremos arrependimento, mas também gostamos do pecado. Nós queremos parar mas, inconsistentemente, nós também queremos continuar pecando. Esta é uma forma mais bíblica de colocar a questão: não um “eu não consigo” mas um “eu não vou”. Desse jeito, aceitamos a responsabilidade em vez de colocá-la em algum “carburador”.


E então, depois de aceitarmos a responsabilidade, o que nós fazemos a respeito? Arrependemo-nos, é claro! Pare de dizer “não consigo”. Isso vem do diabo. Se você é um cristão, você consegue. Peça a ajuda de Deus e peça a ajuda de líderes e outros cristãos se você estiver achando difícil. Mas não desista da batalha. Lembre-se de I Coríntios 10:13: “Não vos sobreveio tentação que não fosse humana; mas Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças; pelo contrário, juntamente com a tentação, vos proverá livramento, de sorte que a possais suportar.” Ouviu isso? “Você pode suportar!” Isso é uma excelente notícia! Não chame Deus de mentiroso. Confie nele e obedeça.


Se você precisa de mais motivação, pense de novo no terrível preço que Jesus pagou para salvar você do pecado. Pense no amor imensurável mostrado por Cristo quando ele morreu por você. Então peça ajuda a Jesus para viver a vida agradando a ele.


Há um sentido no qual uma pessoa não-regenerada não pode mudar. Assim, falamos de “Incapacidade Total”. No entanto, (a) Cristãos não estão nesta posição. Pelo Espírito de Deus, eles podem mudar. E (b) até um incrédulo é responsável por sua incapacidade. Ele “não consegue” porque ele “não vai”, e porque seu “não vou” não pode ser superado, exceto pela graça. Desta forma, até para um incrédulo, o “não consigo” na verdade é um tipo de “não vou”.

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Fonte: Frame & Poythress
Tradução: Daniel TC 
Via: Reforma 21