Quão bíblico é o Molinismo? (Parte 1)

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O Molinismo é uma teoria que pretende conciliar uma robusta doutrina da providência e presciência divina com uma visão libertária do livre-arbítrio, apelando para a noção do conhecimento médio divino: o eterno conhecimento de Deus sobre os chamados contra-factuais da liberdade da criatura em questão, ou seja, as verdades contingentes acerca de quais seriam as possíveis criaturas que livremente escolheriam a Deus se elas fossem colocadas sob determinadas circunstâncias. (Para outros posts, em inglês, tratando do Molinismo, clique aqui)

O Molinismo é mais frequentemente criticado por razões teológicas ou filosóficas principalmente porque ele é justamente defendido com base em suas supostas virtudes teológicas e filosóficas. E não há nada de errado nisso. Eu mesmo já lancei objeções ao Molinismo por razões teológicas e filosóficas. (Então está tudo bem, certo?) No entanto, para o cristão que crê que a Bíblia é a Palavra de Deus e a autoridade final em questões teológicas, a pergunta preeminente deve ser: O quanto será que a Bíblia dá suporte ao Molinismo? (Não me proponho a defender neste momento o princípio metodológico subjacente, irei simplesmente admiti-lo.)

Existem pelo menos dois componentes na questão que estamos tratando. Em primeiro lugar, será que o Molinismo é consistente com a Bíblia? Em outras palavras, será que a Bíblia ensina coisas que são (ou parecem ser) incompatíveis com os princípios ou as implicações do Molinismo? Em segundo lugar, será que a Bíblia oferece algum suporte positivo para as alegações propriamente pertencentes ao Molinismo, ou seja, aqueles princípios que distinguem o Molinismo das principais alternativas concorrentes (como Agostinianismo e o Teísmo Aberto)? Nesta série de posts, proponho explorar essas questões tendo como referência alguns textos bíblicos chaves. Vou me concentrar especialmente em como o Molinismo se compara ao Agostinianismo (que é, sem dúvida, seu principal concorrente entre os teólogos cristãos ortodoxos). (Nota: Estou usando o termo Agostinianismo simplesmente como abreviação para o determinismo divino causal. Não assumimos aqui que o próprio Santo Agostinho tenha, de fato, crido no Agostinianismo nesse sentido! Mas, definindo o Agostinianismo dessa maneira, iremos incluir a maioria dos calvinistas confessionais e, penso eu, muitos dos tomistas conservadores.)

Antes de entrar no centro da questão, eu deveria tratar uma preocupação que alguns leitores podem apresentar. Eu não estou assumindo que a Bíblia responda a todas as questões filosóficas nem que possa resolver qualquer disputa filosófica. É evidente que existem algumas questões filosóficas (por exemplo, se é possível viajar no tempo ou não, se os números são entidades reais, e se o utilitarismo de regra colapsa no utilitarismo de ato) que a Bíblia sequer pretende abordar (e isso também é uma coisa boa!). Mas, ao mesmo tempo, eu considero que a Bíblia faz algumas afirmações filosóficas (de fato, a declaração de abertura da Bíblia é profundamente metafísica!) e ainda mais frequentemente expressa coisas (afirmações, promessas, comandos, etc.) que têm implicações ou pressuposições filosóficas razoavelmente claras.

Então, de uma forma mais crua, eu acredito que a Bíblia nos apresenta uma série de “pontos” que devem tanto informar quanto restringir a nossa maneira de filosofar. Algumas teorias filosóficas são consistentes com esses pontos, enquanto que outras não são. Algumas teorias filosóficas se adequam melhor a esses pontos que outras. Algumas perguntas filosóficas não são determinadas pela evidência bíblica, mas nem todas são assim. Então, as perguntas exploradas nesta série incluem: (1) Quais são os pontos bíblicos importantes (ou alguns deles) quando se trata de avaliar o Molinismo? e (2) O quanto será que o Molinismo se adéqua a esses pontos?

A providência divina abrangente

Um dos temas mais importantes da Bíblia é o controle providencial abrangente de Deus sobre sua criação (às vezes chamado de “providência divina meticulosa”). Tudo o que acontece na criação ocorre de acordo com o plano soberano de Deus; nada acontece a não ser por Sua vontade. Os teólogos têm feito várias distinções entre a vontade ativa e permissiva de Deus, a vontade decretadora (secreta) e preceptiva (revelada), a vontade antecedente e conseqüente (e assim por diante), mas o argumento central é o mesmo: Deus tem um decreto eterno que cobre todo evento na criação, e esse decreto infalivelmente irá acontecer.

Aqui estão alguns textos específicos que ilustram esta penetrante doutrina bíblica:

O Senhor dos Exércitos jurou, dizendo: Como pensei, assim sucederá, e como determinei, assim se efetuará. Porque o Senhor dos Exércitos o determinou; quem o invalidará? E a sua mão está estendida; quem pois a fará voltar atrás?” (Isaías 14:24, 27)

Lembrai-vos disto, e considerai; trazei-o à memória, ó prevaricadores.Lembrai-vos das coisas passadas desde a antiguidade; que eu sou Deus, e não há outro Deus, não há outro semelhante a mim.Que anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam; que digo: O meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade.Que chamo a ave de rapina desde o oriente, e de uma terra remota o homem do meu conselho; porque assim o disse, e assim o farei vir; eu o formei, e também o farei.” (Isaías 46:8-11)

Quem é aquele que diz, e assim acontece, quando o Senhor o não mande? Porventura da boca do Altíssimo não sai tanto o mal como o bem?” (Lamentações 3:37,38)

E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.” (Romanos 8:28)

Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade;” (Efésios 1:11)

Particularmente notáveis são as afirmações bíblicas do controle soberano de Deus sobre as ações pecaminosas de suas criaturas, de tal forma que até mesmo essas ações fazem parte de seu plano providencial (por exemplo, Gênesis 50:20,  Juízes 14:1-4, 1 Samuel 2:25, Isaías 10:5-19, Atos 4:27,28, Romanos 9:14-21).

Uma das virtudes do Molinismo é que o mesmo procura acomodar este importante tema bíblico. De acordo com o Molinismo, Deus, de fato, tem um decreto eterno infalível; todos os eventos na criação foram ordenados por Deus. Citando um de seus defensores:

Essa visão não só dá espaço para a liberdade humana, mas dá a Deus um meio de escolher qual mundo de criaturas livres Ele deseja criar. Pois, sabendo como as pessoas iriam livremente escolher sob quaisquer circunstâncias que fossem, Deus pode, pelo Seu decreto, colocar apenas essas pessoas [que o escolheriam] sob essas circunstâncias, realizando assim Seus propósitos finais através das decisões livres das criaturas. Assim, empregando seu conhecimento hipotético, Deus pode planejar um mundo nos mínimos detalhes e ainda assim fazê-lo sem aniquilar a liberdade da criatura, uma vez que Deus já levava em conta nas equações quais pessoas livremente escolheriam sob várias circunstâncias. Como o conhecimento hipotético de Deus encontra-se logicamente entre o Seu conhecimento natural e Seu conhecimento livre, os molinistas o chamam de conhecimento médio de Deus. [2]

Logo, sobre este ponto, o Molinismo claramente apresenta vantagem sobre alternativas como o Teísmo Aberto (que rejeita a doutrina da providência divina abrangente). No entanto, como o Agostinianismo também afirma essa doutrina, nesse ponto o Molinismo não pode afirmar ser mais bíblico do que o Agostinianismo. Em outras palavras, o ensinamento da Bíblia sobre o controle providencial abrangente de Deus não favorece o Molinismo quando comparado ao Agostinianismo.

Contrafactuais da liberdade

O princípio que define o Molinismo é a afirmação de que Deus possui o chamado conhecimento médio e de que Ele baseia Seu eterno decreto nesse conhecimento prévio. O conhecimento médio é o conhecimento de Deus (precedente a Criação) acerca do quê as possíveis criaturas (ou seja, qualquer criatura que Deus possa trazer à existência) livremente escolheriam sob qualquer conjunto específico de circunstâncias. Por exemplo, de acordo com o Molinismo, Deus sabe desde a eternidade o que eu iria livremente escolher para comer no café da manhã se eu estivesse hospedado no Hilton Atlanta em 18 de Novembro de 2015 e me fosse apresentada uma determinada gama de opções enquanto eu sentia fome. Este conhecimento não implica por si só que eu irei fazer tal livre escolha, mas apenas que eu faria essa livre escolha se Deus decidisse me criar e organizar tudo, providencialmente, para que me fossem apresentadas as opções nessa data em particular, sob essas específicas circunstâncias.

Da mesma forma, de acordo com o Molinismo, Deus também sabe desde a eternidade o quê Schmames Anderson (meu irmão gêmeo do mal, uma possível criatura que Deus misericordiosamente optou por não criar no mundo real) livremente escolheria comer no café da manhã em circunstâncias semelhantes. (Suponho eu que seria “papas de milho” ou “pãozinho com salsa branca”.)

Portanto o Molinismo implica em: (i) realmente existirem tais verdades contrafactuais sobre as livres escolhas das possíveis criaturas; e (ii) no conhecimento de Deus, desde a Eternidade (ou seja, antes da Sua decisão de criar um mundo), sobre essas verdades contrafactuais. Tanto (i) quanto (ii) tem sido desafiados pelos críticos do Molinismo, mas essa não é a minha preocupação aqui. Em vez disso, quero considerar se há apoio bíblico para essas afirmações distintas do Molinismo.

Compreensivelmente, os molinistas têm colocado grande peso nas declarações das Escrituras que, em face disso, pressupõem o conhecimento hipotético de Deus de como as pessoas se comportariam se elas se encontrassem sob determinadas circunstâncias (especificamente como eles se comportariam se o mundo fosse diferente do que é, daí o termo “contrafactuais de liberdade”). Os textos bíblicos incluem: 1 Sm. 23:8-14; Ez. 3:6; Jr. 38:17-18; Mt. 11:21-24; Mt. 12:7; Lc. 22:67-68; Jo 18:36; 1 Co. 2:8.

Eu concordo que haja, de fato, um forte apoio bíblico a ideia de conhecimento contrafactual de Deus acerca das escolhas humanas. No entanto, devemos notar algo muito importante sobre estes textos: eles não afirmam explicitamente que as escolhas feitas (ou as que seriam feitas) são escolhas de natureza libertária.

É completamente razoável inferir que as escolhas em questão sejam escolhas livres, uma vez que as criaturas são (ou seriam) consideradas moralmente responsáveis por essas escolhas. Mas existe um debate muito grande entre os filósofos sobre qual seria o tipo necessário de liberdade para que se possa haver uma cobrança de responsabilidade moral sobre as criaturas. De um lado estão os libertários, que argumentam que a liberdade genuína requer o indeterminismo causal (isto é, as livres escolhas não podem ser causalmente determinadas por eventos ou estados anteriores). E do outro lado estão os compatibilistas, que argumentam que a liberdade genuína seja compatível com o determinismo causal.

Os molinistas, por definição, sustentam uma visão libertária (incompatibilista) da liberdade. A principal virtude do Molinismo, de acordo com seus defensores, é que ela concilia a liberdade (libertária) humana com a providência divina abrangente. Mas, os textos bíblicos citados acima não abordam a questão do tipo de liberdade que os seres humanos possuem. Eles não favorecem uma visão libertária sobre uma visão compatibilista. Se os molinistas os usam como suporte para a ideia de que existe o conhecimento contrafactual de Deus acerca da liberdade incompatibilista, é porque eles estão admitindo que esse tipo de liberdade seja necessário para que haja responsabilidade moral. Mas essa é uma afirmação filosófica discutível; não é algo que pode ser diretamente inferido a partir dos textos.

Os agostinianos tipicamente sustentam uma visão compatibilista da liberdade. Nesse ponto de vista, não há nenhum problema em afirmar que Deus tem o conhecimento contrafactual da liberdade humana. Este conhecimento não é um conhecimento médio (que por definição é o conhecimento contrafactual de uma liberdade incompatibilista). Ao invés disso, ele cai sob o conhecimento natural de Deus ou sob o Seu conhecimento livre. (Agostinianos podem assumir diferentes pontos de vista aqui, mas esse debate interno não vem ao caso. Todos os Agostinianos irão afirmar que Deus tem um conhecimento contrafactual abrangente).

O resultado, então, é que os textos bíblicos citados em apoio ao Molinismo (os textos que implicam (1) que existem verdades contrafactuais sobre as livres escolhas dos seres humanos; e (2) que Deus conhece essas verdades) são igualmente consistentes com o Agostinianismo se não formos levantar a questão da natureza das escolhas dos seres humanos (libertária versus compatibilista). Logo, esses textos favorecem o Molinismo apenas diante de alternativas concorrentes que negam (1) ou (2) (como o Teísmo Aberto ou a visão da Presciência Simples). Mas eles não favorecem o Molinismo diante do Agostinianismo pelo simples fato de o último também afirmar (1) e (2).

Podemos ser tentados a ir mais longe e argumentar que, à luz das objeções filosóficas à ideia de que não se pode haver verdadeiros contrafactuais de liberdade incompatibilista (por exemplo, a chamada objeção base), esses textos bíblicos na verdade apoiariam o Agostinianismo e não o Molinismo. Eu suspeito que o molinista aqui irá retrucar que existem objeções filosóficas ao compatibilismo (isto é, argumentos a favor do incompatibilismo) que pesam tanto quanto os argumentos contra a existência de verdadeiros contrafactuais de liberdade incompatibilista. O que essa resposta não leva em conta (penso eu) é que o molinista tem que lidar com dois conjuntos de problemas: objeções ao conhecimento médio e objeções à liberdade indeterminística (por exemplo, a famosa objeção da sorte). De toda maneira, está claro que neste momento o debate mudou, saiu das implicações superficiais dos textos bíblicos citados acima para disputas metafísicas mais profundas.

E agora? Para onde vamos?

Vimos que em relação a duas afirmações bíblicas significativas (a providência divina abrangente e o conhecimento de Deus de contrafactuais) não dá ao Molinismo vantagem alguma sobre o Agostinianismo, uma vez que ambas as posições são consistentes com esses ensinamentos bíblicos (pelo menos de cara). Se queremos mostrar que o Molinismo possui melhor suporte bíblico do que o Agostinianismo (ou vice-versa), então precisamos encontrar alguma proposição p que é afirmada pelo Molinismo e negada pelo Agostinianismo (ou vice-versa) de forma que p goza de apoio bíblico positivo (isto é, existem textos bíblicos que, segundo a interpretação mais natural e defensável, e sem implorar questões filosóficas, asseguram ou implicam p).

Na próxima parte desta série, irei considerar algumas proposições candidatas a p.

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Notas:
[1] Para uma discussão mais detalhada sobre o ensinamento bíblico da providência divina, leia os capítulos  8-9 do livro Systematic Theology por John Frame , ou os capítulos 3-5  de The Reformed Doctrine of Predestination por of Loraine Boettner.
[2] William Lane Craig, “God Directs All Things,” em Four Views on Divine Providence, ed. Dennis W. Jowers (Zondervan, 2011), p. 82, enfâse adicionada. O “conhecimento natural” de Deus é o Seu conhecimento acerca de todas as possibilidades e necessidades, que é fundamentado na natureza essencial de Deus. O “conhecimento livre” de Deus é Seu conhecimento acerca de todas as verdades contingentes sobre o mundo real, esse conhecimento está fundamentado no eterno e livre decreto de Deus.

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Autor: James N. Anderson
Fonte: Analogical Thoughts
Tradução: Erving Ximendes
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Uma breve resposta de James Anderson a William Lane Craig sobre Molinismo

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Poucos meses atrás eu escrevi uma postagem intitulada “O Deus Falível do Molinismo” motivado pelo bate-papo entre William Lane Craig e Paul Helm. Algumas pessoas alertaram-me para o fato de que o Dr. Craig resumidamente respondeu meu argumento em um recente podcast. Isto é o que ele disse:

Eu penso que ele pisou em falso em seu argumento aqui. Certamente é verdadeiro que em qualquer circunstância particular de liberdade-permitida, um agente é livre para fazer outra coisa que Deus sabe que ele fará. Mas, naquele mundo em que o agente faz algo diferente, o plano de Deus não seria o mesmo. O que o colega parece não lembrar é que naquele mundo Deus teria diferentes planos. Deus saberia naquele mundo que S faria alguma coisa diferente em C e, então, naquele mundo ele teria planos para que isto aconteça. Então, o que ele está tentando fazer é manter os planos de Deus firmes e fixados de um mundo a outro, mas em seguida variar o valor dos contrafactuais, e você não pode fazer isso. Se você alternar para um mundo no qual S não faz A em C, então você não pode dizer: “bem, neste mundo os planos de Deus são que S faria A em C”. Não, não, naquele mundo Deus teria planos diferentes.
Então, quando você alternar o valor-verdade dos contrafactuais, você também tem de alternar os planos providenciais, porque os planos providenciais são baseados em contrafactuais que são verdadeiros naqueles mundos. Então, dado que os planos de Deus são baseados no que ele conhece que os agentes livres fariam, os planos mudarão de mundo para mundo junto com as decisões dos agentes. Assim, não existe qualquer problema aqui. Os planos de Deus nunca falham, e ele não é falível.

Primeiro, deixe-me dizer que estou honrado em o Dr. Craig considerar meu comentário digno de nota. Mas tenho umas poucas coisas a dizer em resposta.

Craig está correto ao dizer que cometi um equívoco no argumento original, como eu reconheci em réplica ao comentário do Greg Welty. Eu disse no início [do artigo] que não é relevante se o decreto de Deus (ou “plano providencial”, para usar a terminologia de Craig) está incluído em C, isto é, as circunstâncias nas quais Deus coloca o agente livre S, sabendo que S fará A em C. Mas isso é um equívoco, porque os Molinistas dirão que C não inclui o decreto de Deus, de tal modo que nesses mundos possíveis em que S não faz A em C, enquanto C é o mesmo, o decreto de Deus é diferente. (Como Craig coloca a questão, o plano providencial de Deus não é “firme e fixado” através dos mundos nos quais S escolhe C, embora C seja fixado). Os contrafactuais são diferentes naqueles mundos alternativos e, portanto, o decreto de Deus também será diferente naqueles mundos, desde que ele é baseado naqueles contrafactuais.

Bastante justo, mas como argumentei nos comentários da postagem original, eu penso que a observação deixada pelo molinista não supera as dificuldades. Em primeiro lugar, me parece uma alegação especial excluir o decreto de Deus – que é uma decisão ativa com consequências causais, não um simples conhecimento passivo – das circunstâncias em que S faz sua escolha livre. O Molinista tem que dizer, de fato, “Não se preocupe, é possível para S não fazer A em C desde que não incluamos o decreto de Deus em C, pois, então, seria possível para S fazer outra coisa contrária ao que Deus decretou”. Em outras palavras, o molinista tem que restringir C às circunstâncias intramundanas. 

Mas, por que deveria ser permitido ao molinista fazer esse movimento? Afinal, as circunstâncias são casualmente vinculadas ao Decreto de Deus (necessariamente assim no sistema molinista). As circunstâncias se obtêm apenas porque Deus decidiu que elas deveriam ser obtidas e as causou serem obtidas. Se você pode traçar a linha limite de C de modo a excluir o decreto de Deus e suas ações para implementar esse decreto (ou seja, sua manipulação de circunstâncias intramundanas), por que não traçar limite ainda mais restritiva, de modo a excluir, digamos, todas as circunstâncias de mais de cinco anos antes da escolha de S, ou todas as circunstâncias de mais de cinquenta milhas da região de S? Existe algum princípio racional para traçar a linha limite de C onde o molinista quer traça-la, além de salvar o sistema? Por que pensar que está quente e ensolarado em Charlotte hoje é um elemento relevante de minhas circunstâncias, mas Deus fazer [um dia] quente e ensolarado em Charlotte (parcialmente, a fim de direcionar as escolhas dos habitantes da cidade)  não é um elemento relevante?

Acerca do ponto relacionado, eu penso que o molinista preserva a infalibilidade divina apenas por seu compromisso com o livre-arbítrio libertariano (LAL). Um entendimento central por trás do LAL é que as escolhas de S são livres apenas se elas não forem determinadas pelos fatores (especialmente as ações de outros agentes) além do controle de S. Como eu demonstrei em minha postagem original e nos comentários subsequentes, existe um sentido claro no qual, do ponto de vista Molinista, Deus determina as escolhas de S. Isso não é um determinismo causal, mas ainda é determinismo no sentido que o decreto de Deus é que S fará A (que é fixado antes de quaisquer das escolhas de S) assegurando que S fará A. Dado que Deus tem decretado que S fará A, S não pode fazer outra coisa senão A.

Então, o molinista tem de dizer que “dado apenas que S está em C (que exclui o decreto de Deus), S pode fazer outra coisa além de A, mas dado que Deus tem arranjado C precisamente a fim de que S faça A, S não pode fazer outra coisa senão A”. Agora, por que não deveríamos considerar uma noção desvirtuada do LAL? Por que alguém que está comprometido com a ideia de LAL se contentaria com a visão de que suas escolhas são apenas livres com respeito à circunstâncias intramundanas, e não livre com respeito à circunstâncias extramundanas (isto é, o decreto de Deus e a ação ativa das circunstâncias intramundanas?). Se você pode viver com tal forma diluída de LAL, por que insistir nisso tudo?

Eu penso que isso é uma das razões porque muitos arminianos (esqueça os teístas abertos) não querem entrar na linha molinista. Eles sentem que o Molinismo ainda é uma forma de determinismo que não está completamente comprometido com o LAL. Em resumo, ainda dá a Deus controle de mais (embora eu pense, da perspectiva calvinista, que o Molinismo não dê a Deus controle suficiente).

Assim, continuo com as observações que fiz no final de minha postagem original, que eu reproduzo aqui:

Como se percebe, essa tensão no centro do Molinismo surge porque ele ambiciona ser deterministicamente indeterminista. “Indeterminismo” por causa de seu compromisso com o livre-arbítrio libertário. “Determinista” porque o decreto de Deus, de alguma forma (não sabemos como) determina de antemão que suas criaturas farão certas escolhas. Isso pode não ser um determinismo causal, mas, apesar de tudo, é determinismo (como muitos arminianos não-molinistas, tais como Roger Olson, podem ver claramente). Se preordenar que S escolhe A não significa predeterminar que S escolha A, então o que significa?

Para mais discussão, verifique os diálogos nos comentários da
postagem original.

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Autor: James Anderson
Fonte: Analogical Thoughts
Tradução: Rev. Gaspar de Souza
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O Deus Falível do Molinismo

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Por James N. Anderson


Recentemente ouvi o bate-papo sobre Molinismo e Calvinismo entre William Lane Craig e Paul Helm no programa de rádio Unbelievable? de Justin Brierley. Foi mais uma conversa que um debate, mas ainda assim vale a pena ouvir. Nesta postagem eu quero expandir um ponto levantado por Helm, mas não desenvolvido por ele. Primeiro eu resumirei os principais dogmas do Molinismo antes de discutir o que eu considero ser uma séria objeção a ele (seja paciente – a primeira metade desta postagem é apenas a armadilha).

Molinismo é uma teoria filosófica planejada para reconciliar uma forte visão da providência divina (segundo a qual Deus preordena todas as coisas) com uma visão libertária do livre-arbítrio e uma visão sinergista da salvação (segundo a qual não é causada por Deus para qualquer arrependimento e crença; ao invés, os pecadores cooperaram livremente com a graça resistível de Deus a fim de serem salvos). De acordo com o Molinismo, Deus é capaz de, providencialmente, dirigir eventos por meio de seu conhecimento médio, isto é, seu conhecimento do que qualquer criatura libertariana-livre escolheria em qualquer circunstância específica. Por exemplo, Deus sabia de antemão antes do tempo de sua decisão de criar este mundo que eu livremente escolheria um Boston Kreme se eu fosse ao Dukin’ Donuts na noite de 19 de fevereiro de 2014 em tais e tais circunstâncias exatas. Deus, então, é capaz de planejar eventos do primeiro ao último em muitos detalhes por pré-arranjar as circunstâncias precisas nas quais suas criaturas se encontrariam e fariam suas escolhas livres. Deus não causou as escolhas, ele apenas garantiu-lhes em algum forte sentido por orquestrar as circunstâncias à luz de seu conhecimento médio.

Molinistas estão, portanto, comprometidos com três afirmações principais. Primeiro, Deus preordenou todas as coisas, incluindo as livres escolhas de suas criaturas. Craig foi bastante enfático sobre isso durante a conversa com Helm. Ele declarou que Deus ‘preordenou’ todas as coisas e ironizou que ele poderia afirmar quase tudo que a Confissão de Fé de Westminster diz sobre o Decreto eterno de Deus e a Providência de Deus – à parte da rejeição deliberada confissão do Molinismo (no a cláusula final em CFW 3.2)

A razão de Molinistas tais como o Craig quererem afirmar isto é porque eles reconhecem que a Bíblia tem uma forte visão da providência (e.g Gen. 50:20; Matt. 10:29-30; Acts 4:27-28; Rom. 8:28; Eph. 1:11). E eles devem ser elogiados por reconhecerem isso (embora, como explicarei em breve, a visão bíblica é mesmo mais forte do que eles pensam).

Em segundo lugar, por afirmar uma visão libertária do livre-arbítrio, os Molinistas estão comprometidos com ideia de que se uma pessoa S escolhe livremente A em uma circunstância específica C, então deve ser possível para S não ter escolhido A. Pode ser mais provável (talvez até esmagadoramente assim) que S escolherá A sobre não-A, mas não deve ser possível para S ter escolhido de outra forma. (Aqui estou sem levar em conta a distinção que alguns libertários fazem entre escolhas derivativas e não-derivativamente livres. No que se segue, para simplificar, vou ignorar as escolhas derivativamente livres. Não penso que a distinção afete meu argumento).

Molinistas, então, estão comprometidos com o seguinte:

(1) Se S escolhe livremente A em C, então é possível para S não escolher A em C.

Ou, colocando a questão em termos de mundos possíveis:

(1’) Se S escolhe livremente A em C, então existe ao menos um mundo possível no qual S não escolhe A.

Observe que nessa demonstração, C aqui deveria ser entendido como, de fato, a história inteira do universo até o momento da escolha de S. O ponto é que a escolha de S não é determinada (ou, pelo menos causadamente determinada) por qualquer evento anterior ou estados do universo (incluindo o caráter de S, experiências passadas, memórias, crenças, desejos etc)

Em terceiro lugar, o Molinista afirma que Deus tem conhecimento médio, isto é, conhecimento dos contrafactuais da liberdade (por falta de um nome melhor). Deus, então, sabe, antes de sua decisão de criar um mundo particular, verdades condicionais subjuntivas como a que se segue:

 (2) Se S estivesse em C, S livremente escolheria A.

Este é o conhecimento, afirma o Molinista, que permite a Deus preordenar os eventos. Desde que Deus conhece o que cada possível criatura escolheria livremente em cada possível circunstância, consequentemente ele pode planejar. Ele pode saber de antemão como as coisas iriam se ele fosse para criar determinadas pessoas e arranjá-las para fazerem suas escolhas em circunstâncias particulares.

Isso significa que Deus não pode atualizar qualquer mundo possível. Molinistas como Craig farão distinção entre mundos possíveis e mundos factíveis.[2] Todos os mundos factíveis são mundos possíveis, mas nem todos os mundos possíveis são mundos factíveis. Um mundo factível é um mundo possível que Deus pode atualizar com base em seu conhecimento médio: seu conhecimento de verdades como (2). Ele pode “atualizar fracamente” qualquer desses mundos factíveis por “atualizar fortemente” aqueles elementos do mundo sob seu controle causal, a saber, cujas criaturas existem e em cujas circunstâncias elas se encontram. Por seu conhecimento médio, Deus conhece quais mundos possíveis são mundos factíveis, e ele decide (com base em certos critérios) quais dos mundos factíveis (fracamente) atualizar. E esta é a visão Molinista da divina preordenação.

Deveria ser observado que o Molinista não é sempre claro sobre o que conta como circunstâncias em verdades como (2). As circunstâncias incluem o decreto de Deus ou a presciência de Deus, por exemplo? Felizmente, nós não precisamos resolver essa questão aqui, tão logo reconheçamos isso, o que quer que esteja incluído em C em (2) também deve ser incluído em C em (1) e (1’)

[Addendum: Greg Welty assinalou o que eu coloquei acima. Vejam abaixo seus comentários e minhas respostas. Em suma, não importa como as circunstâncias são definidas, mas eu penso que o Molinista enfrenta sérios problemas de qualquer maneira]

Bem, tanto para o contexto, a questão que eu quero colocar é simplesmente esta:

Deus é infalível na visão Molinista?

Eu suspeito que muitos seriam inclinados a responder sim. Face a essa situação, esperaríamos Deus ser infalível. “Deus falível” dificilmente soa bem! Mais significantemente, a Bíblia ensina explicitamente que os planos de Deus não podem falhar. Os propósitos de Deus sempre serão cumpridos.

Então Jó respondeu ao Senhor, dizendo: ‘Eu sei que tu podes fazer todas as coisas, e que nenhum dos teus propósitos pode ser frustrado.” (Jó 42.1, 2)

Muitos são os planos na mente de um homem, mas é o propósito do Senhor que prevalecerá.” (Prov. 19.21)

O SENHOR dos Exércitos jurou: Como pensei, assim se cumprirá; como determinei, assim acontecerá[...]O SENHOR dos Exércitos determinou isso! Quem o invalidará? A sua mão está estendida! Quem a fará recuar?.” (Is. 14.24, 27)

Lembrai-vos disso e considerai; trazei-o à memória, ó transgressores. Lembrai-vos das coisas passadas desde a antiguidade: Que eu sou Deus, e não há outro; eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim.  Sou eu que anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade, as coisas que ainda não sucederam; sou eu que digo: O meu conselho subsistirá, e realizarei toda a minha vontade,  chamando do oriente uma ave de rapina, e de uma nação distante, o homem do meu conselho; sim, eu disse e cumprirei essas coisas. Estabeleci esse propósito e também o executarei. (Is 46.8 – 11)

Porque, assim como a chuva e a neve descem dos céus e não voltam para lá, mas regam a terra e a fazem produzir e brotar, para que dê semente ao semeador e pão ao que come, assim será a palavra que sair da minha boca; não voltará para mim vazia, mas fará o que me agrada e cumprirá com êxito o propósito da sua missão.” (Is 55.10, 11)

Claro, o Molinista está familiarizado com esses textos. A forte visão da providência divina expressa na Escritura é uma das razões que favorece o Molinismo sobre outras posições que compartilham um compromisso com o livre-arbítrio libertário.

Todavia, deveria estar claro a partir o exposto acima que, de acordo com a posição Molinista existem mundos possíveis nos quais os planos de Deus falham. Porque o Molinista está comprometido em afirmar que, embora Deus conheça que S escolheria A em C, e ele não atualiza C porque ele planeja para S escolher A, não deixa de ser possível para S não escolher A em C (Craig claramente afirma este ponto várias vezes em sua conversa com Helm). Em outras palavras, existem mundos possíveis nos quais Deus atualiza C de modo que S escolherá A, mas S não escolhe A. Existem mundos possíveis nos quais o decreto eterno de Deus não acontecerá, porque agentes livre-libertários farão outra coisa do que ele tinha planejado.

A conclusão é esta: com base na posição Molinista existem alguns mundos possíveis nos quais Deus é falível. De fato, existem muitos, mas muitos de tais mundos. Qualquer mundo em que o plano de Deus falhe é um mundo no qual Deus é falível. Parece-me que esta conclusão é construída sobre o sistema molinista.

Então, o que um Molinista poderia dizer em sua resposta? Uma resposta seria a de dizer que Deus não é necessariamente infalível: ele não é infalível em todo mundo possível, mas ele é infalível neste mundo (pelo menos). Deus é contingentemente infalível.

Mas eu penso que existem diversos problemas sérios com esta resposta. Em primeiro lugar, a própria noção de “infalibilidade contingente” é logicamente suspeita. Diante disso, infalibilidade seria um conceito modal. Ela diz respeito à falha possível, não simplesmente a falha real. Infalível não significa não falível, e falível significa capaz de falhar. Se uma pessoa é falível, não o é porque ele tem falhado ou porque ele falhará mas porque ele poderia falhar. Afinal, não há nada logicamente inconsistente em dizer que S é falível, mas S não falhou (ou falharia) realmente. O que seria inconsistente de maneira direta seria dizer que S é falível, mas S não pode falhar.

Portanto, não poderíamos descrever alguém como infalível simplesmente porque ele realmente tem sucesso em todos os casos, mesmo que ele possa ter falhado em algum ponto. Infalibilidade, certamente, exige que alguém não pode falhar, mesmo em princípio. Então, não é claro que a noção de “infalibilidade contingente” é mesmo coerente.

Se eu estou certo sobre isso, então o Molinista não deveria dizer que Deus é infalível. Pois, se Deus não é infalível em todo mundo possível, então ele não é infalível em qualquer mundo possível, incluindo o mundo atual. (Eu observo, para registro, que este argumento pressupõe alguns princípios modais amplamente-controlados que eu não estou a defender aqui, precisamente porque eles são amplamente controlados!).

Em Segundo lugar, esses mundos com falhas-divinas apresentam um problema para o Molinista que está comprometido com o ser perfeito da teologia (que é maioria, penso). Se Deus é apenas contingentemente infalível, segue-se que Deus não possui máxima grandeza: pois um ser que é necessariamente infalível é maior que um ser que é contingentemente infalível. Um ser que é infalível em todos os mundos possíveis é maior que um ser que é infalível em apenas alguns mundos possíveis. (É digno de nota que Alvin Plantinga, que introduziu a noção de grandeza máxima em sua defesa do Argumento Ontológico, é um dos mais proeminentes advogados do Molinismo).

A única saída desta situação para o Molinista, tanto quanto eu posso ver, é tomar a rota que eu sugeri acima: abandonar a tese de que Deus é infalível (neste mundo ou em qualquer outro mundo possível).

Parece-me que de tudo isso expõe uma tensão não resolvida no coração do Molinismo. Quando fazemos a pergunta “Os humanos podem frustrar os planos de Deus?”, o Molinista é colocado em duas direções. Por um lado, ele desejará responder não. Afinal, Deus preordenou todas as coisas! Deus tem um decreto eterno. É inconcebível para o Molinista que o decreto de Deus fracassasse.

Mas, ao mesmo tempo, o Molinista também deve responder sim, por causa de seu comprometimento com o liver-arbítrio libertário. Ele quer afirmar (como Craig explicitamente o faz) que, embora S escolheria A em C (e, de fato, irá escolher A se Deus o decretou), e, no entanto, é possível para S não escolher A em C – e, assim, realmente é possível para S agir contrário aos planos de Deus.

Em suma, o Molinista quer ter o melhor de dois mundos.

Outro modo de ver o problema é perguntar se os mundos não-factíveis realmente são possíveis. Suponha que, de todos os mundos factíveis que ele considerou, Deus opte pelo mundo X. Não parece coerente imaginar Deus pensando: “Eu vou atualizar X um pouco (fracamente) – este é o meu decreto – mas eu sei que há uma possibilidade real de que vou terminar com outro mundo, por causa da possibilidade real que agentes livres-libertários agirão de outro modo que eu tenho planejado”. Mas, se isso não é coerente, em que sentido esses mundos são mundos realmente possíveis?

Como se percebe, essa tensão no centro do Molinismo surge porque ele ambiciona ser deterministicamente indeterminista. “Indeterminismo” por causa de seu compromisso com o livre-arbítrio libertário. “Determinista” porque o decreto de Deus, de alguma forma (não sabemos como) determina de antemão que suas criaturas farão certas escolhas. Isso pode não ser um determinismo causal, mas, apesar de tudo, é determinismo (como muitos Arminianos não-Molinistas, tais como Roger Olson, podem ver claramente). Se preordenar que S escolhe A não significa predeterminar que S escolha A, então o que significa?

O Molinismo é, certamente, uma teoria impressionante. Mas, é apenas impressionante na medida em que um truque de “jogo de copinhos e bolinha” é impressionante. É, par excellence, um truque de mão filosófico. Os Molinistas têm que ser hábeis na arte da desorientação. Agora você vê o determinismo.... e agora não vê mais!

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Notas: 
[1] Dr. James Anderson é um ministro ordenado na Associate Reformed Presbyterian Church. Dr. Anderson é professor no Reformed Theological Seminary. Especialista em Teologia Filosófica, Epistemologia da Religião e Apologética Cristã. Sua tese de doutorado, na Universidade de Edinburgh, explorou a natureza paradoxal de certas doutrinas cristãs e suas implicações para a racionalidade da fé cristã. Suas pesquisas e escritos concentram-se no pressuposicionalismo de Cornelius Van Til, particularmente sua defesa do Argumento Transcendental. Dr. Anderson tem uma antiga contribuição ao trazer a tradição Reformada em um maior diálogo com a filosofia analítica contemporânea. Ele é membro da Society of Christian Philosophers, da British Society for the Philosophy of Religion, e da Evangelical Philosophical Society.
[2] “possible world” e “feasible world”

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Fonte: Analogical Thoughts
Tradução: Por Rev. Gaspar de Souza
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Uma breve resposta a uma rápida pergunta

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Por James Anderson


O teólogo arminiano Roger Olson postou uma rápida questão para seus interlocutores calvinistas (seja quem for estes):

Aos meus interlocutores calvinistas eu pergunto: se o livre arbítrio como escolha não causada é logicamente incoerente, o que dizer sobre a decisão de Deus de criar o mundo?

O Dr. Olson aparentemente acha que isto levanta um problema para os calvinistas, mas eu realmente não tenho certeza por quê. A ideia, presumivelmente, é que a decisão de Deus em criar foi não causada e, portanto a ideia de uma escolha não causada deve ser logicamente coerente. Mas a questão tem várias suposições problemáticas por trás dela.

Em primeiro lugar, poucos defensores contemporâneos do livre arbítrio libertariano (LFW) admitiriam que isto envolva escolhas não causadas. Eu suspeito que a maioria dos filósofos cristãos hoje que sustentam o livre arbítrio libertariano aceitam alguma versão do agente causal. Mas nesta visão, as escolhas livres não são não-causadas; elas são causadas pelo agente (sem causa suficiente antes). Se o Dr. Olson pensa que o livre arbítrio libertariano (LFW) envolve escolhas não causadas (como ele parece crer, dada a forma como ele coloca a questão) então eu diria que ele está em uma minoria até mesmo entre seus companheiros libertários.

Mas deixemos essa questão de lado. O principal problema aqui é que os calvinistas não precisam estar comprometidos com a ideia de que o livre arbítrio libertariano é logicamente incoerente. Sim, há alguns calvinistas que têm esta visão. Mas ela não é implicada pelo calvinismo propriamente dito. Um calvinista pode consistentemente sustentar que o livre arbítrio libertariano é uma ideia coerente, mas que ela na verdade não é esclarecida (isto é, criaturas poderiam ter tido livre arbítrio libertariano, mas na verdade não têm).

Na verdade, um calvinista pode ir mais longe e dizer que enquanto o livre arbítrio libertariano propriamente dito pode ser coerente (isto é, não há nada incoerente com a ideia de livre arbítrio libertariano) é necessariamente falso que quaisquer criaturas têm livre arbítrio libertariano. Ele pode sustentar (como muitos calvinistas fazem) que o livre arbítrio libertariano humano é incompatível com a onisciência divina ou providência divina meticulosa. E se Deus possui seus atributos de onisciência e soberania essencialmente (isto é, ele não poderia falhar em possuir aqueles atributos) então o livre arbítrio libertariano deve ser impossível no sentido lógico amplo: não há mundo possível no qual as criaturas tem livre arbítrio libertariano. (Isto não quer dizer, é claro, que as criaturas não poderiam ter livre arbítrio em algum outro sentido significante). Mas isto não se segue a partir da afirmação de que o livre arbítrio libertariano humano é logicamente impossível que o livre arbítrio libertariano propriamente dito é logicamente incoerente. O calvinista poderia consistentemente sustentar uma das seguintes visões:

1. O livre arbítrio libertariano é logicamente coerente, e Deus tem livre arbítrio libertariano, e necessariamente nenhuma criatura tem.

2. O livre arbítrio libertariano é logicamente coerente, mas Deus não tem livre arbítrio libertariano, e necessariamente nenhuma criatura tem.

Então, é difícil ver por que os calvinistas deveriam estar abalados pela pergunta de Olson. Ele relata uma troca de E-mail com John Frame na qual (como ele recorda) ele extraiu uma concessão do Dr. Frame no sentido de que o livre arbítrio libertariano deve ser coerente se nós admitimos que Deus faz escolhas livres. Mas por que nós deveríamos considerar tal concessão significante? Isto não levanta nenhum problema para o calvinismo.

Uma observação final. A pergunta de Dr. Olson também é pressuposta na hipótese de que nós devemos conceder que Deus tem livre arbítrio libertariano se nós afirmamos que Deus escolheu livremente criar. Mas esta hipótese não está além da questão também. Steve Cowan, por exemplo, argumentou que há alguns problemas com construir a liberdade divina nos termos libertários padrão. Portanto esta hipótese não pode simplesmente ser presumida e passar despercebida. Mas ainda que ela produza a ideia de que Deus tem livre arbítrio libertariano, isto não deveria fazer nenhum calvinista se envergonhar. Os calvinistas têm muitas outras boas razões para negar que as criaturas tem livre arbítrio libertariano sem ter que argumentar que o livre arbítrio libertariano propriamente dito é logicamente incoerente.

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Fonte: Analogical Thoughts
Tradução: Francisco Alison Silva Aquino
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