Como provar que a Bíblia é um livro inspirado por Deus?

.


Nesta edição do programa Em Poucas Palavras o Rev. Augustus Nicodemus Lopes explica como provar que a Bíblia é um livro inspirado por Deus. Escute:



***
Autor: Rev. Augustus Nicodemus Lopes
Fonte: Em Poucas Palavras
.

Quando os magos do oriente foram adorar a Cristo?

.

Por Frank Brito


E, tendo nascido Jesus em Belém de Judéia, no tempo do rei Herodes, eis que uns magos vieram do oriente a Jerusalém, Dizendo: Onde está aquele que é nascido rei dos judeus? Porque vimos a sua estrela no oriente, e viemos a adorá-lo”. (Mateus 2:1-2)

A maioria das pessoas acreditam que os magos do Oriente se encontraram com Cristo enquanto ele ainda estava na manjedoura, tendo acabado de nascer. Essa ideia é perpetuada por quadros e presépios que mostram os magos do Oriente diante da sagrada família, na manjedoura. Mas esse cenário não condiz com a narrativa bíblica. O Evangelho segundo S. Mateus é muito claro que os magos se encontraram com o bebê Jesus, não mais quando estavam na manjedoura, mas em uma “casa” (Mt 2:11), o que aconteceu, provavelmente, cerca de dois anos depois de Cristo ter nascido.

Harmonizando os Evangelhos

Os Evangelhos segundo Mateus e Lucas são os únicos que entram em detalhes sobre as circunstâncias do nascimento de Cristo. Marcos já começa narrando Seu ministério público e o de João Batista. E o Evangelho de João, logo depois de falar sobre a Divindade de Cristo e Sua encarnação também pula direto para Seu ministério público e o de João Batista. Somente Mateus e Lucas narram as circunstâncias de Seu nascimento. Todavia, eles dão detalhes diferentes. Isso levou alguns críticos no decorrer da história a criticar a veracidade das duas narrativas, alegando que elas se contradizem. Mas quando analisamos cuidadosamente a informação que recebemos dos dois Evangelhos, fica claro que não há qualquer contradição nos fatos narrados, as duas narrativas se harmonizam perfeitamente.

Lucas começa seu Evangelho falando do anúncio do nascimento de João Batista pelo anjo Gabriel ao seu pai, enquanto este ministrava como sacerdote no templo (Lc 1:5-23), passa para o anúncio do nascimento de Cristo a Maria, também pelo anjo Gabriel (Lc 1:26-35) e depois fala sobre o nascimento dos dois (Lc 1:57-80; 2:1-40). Nada disso é narrado pelo Evangelho de Mateus. Como será demonstrado a seguir, todos os eventos narrados em Lucas 2:1-40, sobre o nascimento de Cristo, devem ser entendidos como uma explicação detalhada do que aconteceu em Mateus 1:25, antes de Mateus 2:1: “deu à luz seu filho, o primogênito; e pôs-lhe por nome Jesus” (Mt 1:25). E tudo o que é narrado no segundo capítulo de Mateus, começando pela chegada dos magos do Oriente, deve ser entendido como tendo acontecendo depois de Lucas 2:39, no decorrer do período descrito pelo verso 40: “E o menino crescia, e se fortalecia em espírito, cheio de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre ele”.

A visita dos magos e a fuga para o Egito

Quando os magos do Oriente chegam para visitar Jesus, ele já tinha nascido. “E, tendo nascido Jesus em Belém de Judéia, no tempo do rei Herodes, eis que uns magos vieram do oriente a Jerusalém, Dizendo: Onde está aquele que é nascido rei dos judeus? porque vimos a sua estrela no oriente, e viemos a adorá-lo”. (Mt 2:1-2) Aqui é importante observar que o texto diz somente que Cristo já tinha nascido, mas não diz há quanto tempo ele tinha nascido. Em nenhum momento é dito que tinha acabado de nascer. Pelo contrário, no decorrer do diálogo entre os magos e o rei Herodes, temos evidência de que Ele já tinha cerca de dois anos:

E o rei Herodes, ouvindo isto, perturbou-se, e toda Jerusalém com ele. E, congregados todos os príncipes dos sacerdotes, e os escribas do povo, perguntou-lhes onde havia de nascer o Cristo. E eles lhe disseram: Em Belém de Judéia; porque assim está escrito pelo profeta: E tu, Belém, terra de Judá, De modo nenhum és a menor entre as capitais de Judá; Porque de ti sairá o Guia Que há de apascentar o meu povo de Israel. Então Herodes, chamando secretamente os magos, inquiriu exatamente deles acerca do tempo em que a estrela lhes aparecera. (Mateus 2:3-7)

Aqui é muito importante observar que o rei Herodes queria saber exatamente quando a estrela apareceu. Ou seja, os magos receberam a revelação do nascimento de Cristo por meio de uma estrela e o rei Herodes queria saber quando eles tinham visto essa estrela para, com base nisso, calcular há quanto tempo Cristo havia nascido. Foi com base nisso que ele mandou matar as crianças:

Então Herodes, vendo que tinha sido iludido pelos magos, irritou-se muito, e mandou matar todos os meninos que havia em Belém, e em todos os seus contornos, de dois anos para baixo, segundo o tempo que diligentemente inquirira dos magos. (Mateus 2:16)

Se ele mandou matar as crianças de dois anos para baixo, com base no testemunho dos magos, isso indica que Cristo teria nascido dois anos antes e esse havia sido o tempo que eles demoraram para sair do Oriente e chegarem em Jerusalém, desde quando receberam a revelação. Não é dito exatamente de que lugar eles vieram do Oriente, mas existem grandes possibilidades de que eles vieram do Império Arsácida, que existia ao oriente do Império Romano, o que, sem dúvidas, teria sido uma viagem longa e difícil. Ou possivelmente, eles teriam vindo da Índia, o que seria uma viagem ainda mais longa. Não temos como saber ao certo de onde eles vierem, mas o fato de virem do Oriente indica que a distância teria sido, no mínimo, um importante fator para que a viagem fosse demorada.

Além disso, é importante observar um detalhe que é frequentemente apontado por críticos como uma contradição entre as duas narrativas. Segundo o Evangelho de Mateus, os magos encontraram com Cristo em uma “casa… com Maria sua mãe” (Mt 2:11) em Belém (v. 8). Depois disso, a família sagrada foi para o Egito, onde morou por um tempo: “E, levantando-se ele, tomou o menino e sua mãe, de noite, e foi para o Egito. E esteve lá, até à morte de Herodes”. (Mateus 2:13-15) Todavia, segundo o Evangelho de Lucas, depois do nascimento, circuncisão e apresentação de Cristo no templo, a família sagrada “voltou à Galiléia, para a sua cidade de Nazaré” (Lc 2:39). É dito que a família já morava lá (Lc 2:4), que eles somente foram até Belém por causa do alistamento (v. 2). Ou seja, eles moravam em Nazaré, foram até Belém, foram até Jerusalém para apresentar a criança e depois voltaram para Nazaré. Depois disso, não há maiores detalhes sobre outros lugares para onde eles teriam ido, mas, é dito que “todos os anos iam seus pais a Jerusalém à festa da páscoa” (Lc 2:41). Isso significa que, para os magos terem encontrado com Jesus em Belém, é preciso que, depois deles terem voltado para Nazaré, onde eles já moravam, eles teriam voltado novamente para Belém, cerca de dois anos depois. Dois anos é tempo suficiente para que, por algum motivo, eles tivessem ido a Belém de novo. Estando lá, eles se encontraram com os magos e, então, fugiram para o Egito. E o período em que permaneceram no Egito tem que necessariamente ter sido menos de um ano, para que houvesse tempo para que fosse possível que estivessem todos os anos em Jerusalém na festa da Páscoa. Sendo assim, eles teriam fugido para o Egito em algum momento logo depois da festa da Páscoa e teriam voltado em algum momento antes da festa da Páscoa do ano seguinte. Desta maneira, as duas narrativas se harmonizam perfeitamente, sem qualquer contradição. Então, para resumir:

1. O anjo visita Maria e ela concebe do Espírito Santo (Mateus 1:18; Lucas 1:27-28).

2. Maria imediatamente vai visitar Isabel, sua prima e fica por três meses (Lucas 1:39-56).

3. José, em algum momento destes três meses, enquanto Maria estava na casa de Isabel, decide abandonar Maria, sendo impedido pelo anjo (Mateus 1:19-24).

4. João Batista nasce e é circuncidado (Lucas 1:57-79).

5. José se casa com Maria em algum momento depois dela voltar da casa de Isabel (Mateus 1:24).

6. José e Maria saem de Nazaré e vão até Belém por conta do alistamento (Lucas 2:1-5).

7. Enquanto eles estavam em Belém, Jesus nasceu na manjedoura, por não haver lugar para eles na estalagem, provavelmente pela grande quantidade de pessoas que lá havia para o alistamento (Lucas 2:6-20).

8. Eles saem de Belém, depois que nasceu, e vão até Jerusalém para apresentar Jesus no templo (Lucas 2:22-38).

9. Eles voltam para Nazaré e continuam a morar lá (Lucas 2:39).

10. Em algum momento, até dois anos depois, eles voltam para Belém (Mateus 2:8-11).

11. Estando eles em Belém, os magos do Oriente chegam em Jerusalém e se encontram com o rei Herodes para perguntar sobre o Seu nascimento (Mateus 2:1-2).

12. O rei Herodes envia os magos até Belém (Mateus 2:8).

13. Os magos, guiados novamente pela estrela, chegam até uma casa onde estava Maria com o bebê Jesus, onde eles prestam culto a Cristo e o presenteiam com “tesouros” de “ouro, incenso e mirra”. (Mateus 2:9-11)

14. Os magos voltam para o Oriente, por conta de uma revelação de Deus (Mateus 2:12).

15. José recebe uma revelação em sonho, para que fugisse ao Egito, o que eles fazem imediatamente (Mateus 2:13-14).

16. O rei Herodes manda matar todas as crianças de dois anos para baixo que havia em Belém (Mateus 2:16).

17. A sagrada família permaneceu no Egito, por menos de um ano, até a morte do rei Herodes (Mateus 2:15,22).

18. A família voltou para Nazaré (Mateus 2:22,23).

***
Fonte: Resistir e Construir
.

Sola Scriptura - Somente as Escrituras

.

Por Morgana Mendonça dos Santos


O Quinque Solae é como tornou-se conhecido os cinco pilares da Reforma Protestante, ou seja, os cinco pontos fundamentais do pensamento da Reforma Protestante. São esses: Sola Fide, Sola Scriptura, Sola Gratia, Solo Christus e Soli Deo Glória. Nossa ênfase nesse texto é Sola Scriptura, somente as Escrituras. O grito latino para combater a situação desviada que vivia a igreja no século XVI. Poderia me ater a toda questão histórica, política, filosófica, social e religiosa do tempo, mas preferi nesse pequeno ensaio enfatizar a natureza das Escrituras Sagradas. Paulo na sua carta ao jovem Timóteo declara um dos pontos centrais da doutrina que tem como reflexo a Reforma Protestante. 

Toda Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça; para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente preparado para toda boa obra. - 2 Timóteo 3.16-17 

Paulo afirma a divindade, inspiração e suficiência das Escrituras. A Reforma Protestante não foi um movimento criado pelo homem, o próprio Deus em Sua soberania e providência, em um momento tão crítico por onde a igreja caminhava, levantou o monge agostiniano Martinho Lutero para no dia 31 de outubro de 1517 fixar nas portas do Castelo de Wittenberg, suas 95 teses, contra aquilo que a Igreja Católica Romana estava pregando. O papa Leão X querendo reconstruir a basílica de São Pedro, cria as indulgências como um meio para arrecadar fundos financeiros de forma ilegítima e antibíblica para a construção. Lutero, ao deparar com esse desvio, conclama o Somente as Escrituras, desejando não dividir a igreja nem desvia-la da verdade, pelo contrário, levar a igreja de volta ao antigo evangelho, ao verdadeiro evangelho, as Escrituras Sagradas, a doutrina dos apóstolos.

Em alguns momentos importantes, algumas citações do reformador que nos leva para mais próximo do sentimento que florescia cada dia mais em seu coração: 

Um simples leigo armado com as Escrituras é maior que o mais corajoso Papa sem elas. — Disputa teológica com João Maier, em 14 de julho de 1519.
A menos que possa ser refutado e convencido pelo testemunho da Escritura e por claros argumentos (visto que não creio no papa, nem nos concílios; é evidente que todos eles frequentemente erram e se contradizem); estou conquistado pela Santa Escritura citada por mim, minha consciência está cativa à Palavra de Deus. Não posso e não me retratarei, pois é inseguro e perigoso fazer algo contra a consciência... Que Deus me ajude. Amém! Discurso de Lutero na Dieta de Worms (1521). 

Portanto, no que se refere a natureza das Escrituras, de forma bem objetiva temos cinco pontos:

1. As Escrituras são INSPIRADAS: A palavra grega para "inspirado" significa literalmente "respirado por Deus para fora".

sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação. Porque a profecia nunca foi produzida por vontade dos homens, mas os homens da parte de Deus falaram movidos pelo Espírito Santo.” - 2 Pedro 1.20-21

Em seu livro Sola Scriptura, Paulo Anglada afirma: "As Escrituras tem natureza divino-humana - elas são a Palavra de Deus escrita em linguagem humana, por pessoas em pleno uso de suas faculdades. Contudo, tais pessoas foram de tal modo dirigidas pelo Espírito Santo que tudo o que registraram nas Escrituras é livre de erro, constituindo-se em revelação infalível e inerrante de Deus ao homem.[1]

Na Confissão de Fé de Westminster lemos sobre o conceito de inspiração das Escrituras: "O Antigo Testamento em hebraico (língua original do antigo povo de Deus) e o Novo Testamento em grego (a língua mais geralmente conhecida entre as nações no tempo em que ele foi escrito), sendo inspirados imediatamente por Deus, e pelo seu singular cuidado e providência conservados puros em todos os séculos, são, por isso, autênticos, e assim em todas as controvérsias religiosas a Igreja deve apelar para eles como para um supremo tribunal; mas, não sendo essas línguas conhecidas por todo o povo de Deus, que tem direito e interesse nas Escrituras, e que deve, no temor de Deus, lê-las e estudá-las, esses livros têm de ser traduzidos nas línguas vulgares de todas as nações aonde chegarem, a fim de que a Palavra de Deus, permanecendo nelas abundantemente, adorem a Deus de modo aceitável e possuam a esperança pela paciência e conforto das Escrituras." [2] 

2. As Escrituras são INERRANTES: "Inerrante" significa simplesmente "sem erros" ou "verdadeiro".

Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará da lei um só jota ou um só til, até que tudo seja cumprido.” - Mateus 5.17-18

A tua palavra é fiel a toda prova, por isso o teu servo a ama.” - Salmos 119.140

Santifica-os na verdade, a tua palavra é a verdade.” - João 17.17

"Inerrância" trata-se de um conceito estreitamente relacionado, mas é um termo mais recente e menos largamente, aceito. Traz a conotação de que a Bíblia não contém nenhum erro de ação (erros materiais), nem contradições internas (erros formais). No entanto, devemos compreender que tratamos aqui com referência aos originais e não as cópias. Na baixa crítica, isto é, na manuscritologia bíblica, entendemos a questão sobre erros voluntários ou involuntários dos copistas, ou seja, na cópia dos manuscritos por diversos fatores. Os conceitos de inerrância e infalibilidade sur­giram em discussões teológicas concernentes à inspiração das Escrituras. Outros reformadores também declararam:

"As Escrituras nunca erram…. onde as Sagradas Escrituras estabelecem algo que deve ser crido, ali não devemos desviar-nos de suas palavras." - Martinho Lutero
"O registro seguro e infalível". "A regra certa e inerrante". "A Palavra infalível de Deus". "Isenta de toda mancha ou defeito". - João Calvino

Provavelmente, os dois acontecimentos mais significativos no tocante à doutrina da infalibilidade e da inerrância foram a declaração sobre as Escrituras na Aliança de Lausanne (1974) e a Declaração de Chicago (1978) do Concílio Internacional da Inerrância Bíblica.

3. As Escrituras são INFALÍVEIS: "Infalibilidade" pode ser chamada de conseqüência sub­jetiva da inspiração divina, isto é, define a Escritura como confiável e fidedigna para aqueles que se voltam para ela em busca da verdade de Deus. Como fonte da verdade, a Bíblia é "indefectível" (ou seja, não pode falhar ou insurgir-se contra o padrão da verdade). Conseqüentemente, nunca falhará ou decepcionará qualquer um que confie nela.

Ora, tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que fora dito da parte do Senhor pelo profeta.” - Mateus 1.22

Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão.” - Marcos 13.31

4. As Escrituras são AUTORITATIVAS: É divina, logo, não pode ser igualada a tradição, nem muito menos ao magistério. Nem aos pronunciamentos "ex cathedra" do sumo pontífice. As Escrituras tem origem e caráter divino, ou seja, está acima irrevogavelmente.

Por isso nós também, sem cessar, damos graças a Deus, porquanto vós, havendo recebido a palavra de Deus que de nós ouvistes, a recebestes, não como palavra de homens, mas (segundo ela é na verdade) como palavra de Deus, a qual também opera em vós que credes. - 1 Tessalonicenses 2.13 

Em alguns dos seus artigos, Alderi Souza escreve:

"A autoridade da Escritura é superior à da Igreja e da tradição. Contra a afirmação católica: 'a Igreja ensina' ou 'a tradição ensina', os reformadores afirmavam: 'a Escritura ensina'." [3] 

Paulo Anglada, no seu livro Sola Scriptura, nos traz uma boa definição: "A autoridade da Bíblia decorre da sua origem divina. Ela é reconhecida pelo crente plenamente pelo testemunho interno do Espírito Santo, e não pode ser limitada de forma alguma. (...) Devemos ter cuidado com os grandes usurpadores da autoridade das Escrituras: o tradicionalismo, o emocionalismo e o racionalismo. (...) A fé reformada repudia a teologia liberal racionalista, que nega a autoridade das Escrituras; rejeita a neo-ortodoxia existencialista, que torna subjetiva a autoridade da Bíblia; e se recusa a aceitar a posição neo-evangélica, que limita a autoridade da Palavra de Deus ao seu conteúdo salvífico". [4]

E juntos com a Confissão de Fé de Westminster, declaramos: "A autoridade da Escritura Sagrada, razão pela qual deve ser crida e obedecida, não depende do testemunho de qualquer homem ou igreja, mas depende somente de Deus (a mesma verdade) que é o seu Autor; tem, portanto, de ser recebida, porque é a Palavra de Deus". [5]  

5. As Escrituras são SUFICIENTES: O próprio Apóstolo Paulo, falando a Timóteo, enfatizou a suficiência das Escrituras. Apontando para o seu proveito no ensino, na repreensão, na correção, na instrução em justiça, dessa forma o cristão esta preparado para toda boa obra. 

Tudo o que eu te ordeno, observarás; nada lhe acrescentarás nem diminuirás. - Deuteronômio 12.32

Não acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do Senhor vosso Deus, que eu vos mando.” - Deuteronômio 4.2

Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos pregasse outro evangelho além do que já vos pregamos, seja anátema.” - Gálatas 1.8

Anglada, mais uma vez, corrobora com a veracidade da suficiência: "Embora as Escrituras não sejam exaustivas, elas são suficientes em matéria de fé e prática. Nelas o homem encontra tudo o que deve crer e tudo o que Deus requer dele para que seja salvo, sirva-o, adore-o e viva de modo que lhe seja agradável. Damo-nos por satisfeitos com as Escrituras e repudiamos as tradições humanas e supostas novas revelações do Espírito". [6] 

Na Confissão Belga, de forma uníssona concordamos e afirmamos: "Cremos que a sagrada Escritura contém perfeitamente a vontade de Deus e que ensina suficientemente tudo aquilo que o homem precisa saber para ser salvo. Nela está detalhado e escrito cabalmente o modo de adoração que Deus requer de nós. Por isso, não é lícito a ninguém, nem mesmo a apóstolos, nada ensinar que seja diferente daquilo que agora nos ensina a Sagrada Escritura.; sim, nem que seja 'um anjo vindo do céu', como afirma o apóstolo Paulo (Gl 1.8). A proibição de acrescentar ou retirar qualquer coisa da Palavra de Deus (Dt 12.32), é evidência que a doutrina nela contida é perfeitíssima e completíssima em todos os sentidos. Não nos é permitido considerar quaisquer escritos de homens, por mais santos que tenham sido, como de igual valor ao das Escrituras Divinas; nem devemos considerar que costumes, maiorias, antigüidade, sucessão de tempos e de pessoas, concílios, decretos ou estatutos tenham o mesmo valor de verdade de Deus, porque a verdade está acima de tudo." [7]

E, diante desse contexto, onde a igreja já não valorizava as Escrituras, que os reformadores bradaram o Sola Escriptura e Tota Scriptura, lutaram e viveram com esse ardor, essa chama que não apagava dia após dia. Martirizados, ou levados às últimas instâncias, marcaram seu tempo e sua época com a sua vida. A piedade acompanhava a práxis. Para nós, um grade exemplo de fé e prática, sejamos desafiados a restaurar as antigas verdades, um dever de cada geração. 

E sede cumpridores da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos. Pois se alguém é ouvinte da palavra e não cumpridor, é semelhante a um homem que contempla no espelho o seu rosto natural; porque se contempla a si mesmo e vai-se, e logo se esquece de como era. Entretanto aquele que atenta bem para a lei perfeita, a da liberdade, e nela persevera, não sendo ouvinte esquecido, mas executor da obra, este será bem-aventurado no que fizer.” - Tiago 1.22-25

Seguindo um lema dos reformadores: “Ecclesia reformata, semper reformanda”.

__________
Notas:
[1] ANGLADA, Paulo. Sola Scriptura. p.188.
[2] Confissão de Fé de Westminster, capítulo I-VIII.
[3] Artigos sobre Reforma Protestante, site: www.mackenzie.com.br 
[4] ANGLADA, Paulo. Sola Scriptura. p. 188-189.
[5] Confissão de Fé de Westminster, capítulo I-IV.
[6] ANGLADA, Paulo. Sola Scriptura. p.189.
[7] As Três Formas de Unidades das Igrejas Reformadas. Confissão Belga artigo 7. p.16.

***
Divulgação: Bereianos
.

Por que podemos acreditar na Bíblia?

.

Neste vídeo, o Rev. Augustus Nicodemus Lopes expõe Lucas 1:1-4, mostrando algumas razões pelas quais podemos confiar na Bíblia. Assista:



Caio Fábio: Parece, mas não é

.

Por Thiago Oliveira


Hoje foi ao ar uma entrevista com o Caio Fábio, realizada por Danilo Gentili em seu programa, o The Noite (veja aqui). O Caio foi apresentado como um dos mais polêmicos pastores, até mesmo para os evangélicos. Entenda-se polêmico por herege, e o entrevistado até assumiu isso dizendo que a acusação de heresia é resultante a sua declaração de que o Antigo Testamento caducou. Foi um papo (digamos) interessante, que girou em torno de meia-hora. A entrevista, gravada semanas antes causou um frenesi entre os seguidores do Caio, que divulgaram bastante a entrevista. Afinal, havia muito tempo que ele não tinha espaço na televisão.

Para quem não sabe ou não conheceu, o auge do ministério do Caio Fábio se deu quando ele era um ministro presbiteriano. Viajando por todo o país, lotando igrejas e auditórios, e tendo inúmeros VHS’s e CD’s com seus sermões vendidos, ele havia se tornado uma referência entre os cristãos evangélicos, sobretudo os protestantes históricos. Era uma unanimidade. Mas o Caio de outros tempos caiu, como é passível de acontecer com qualquer um de nós. A questão não foi o seu pecado, mas a forma orgulhosa de não querer ser tratado. O seu orgulho causou a sua ruína ministerial. Ferido, todavia inchado, juntou-se a outros também machucados e criou o Caminho da Graça, para acolher aqueles que se denominam desigrejados. 

Quem não sabe quem ele é fica impressionado, pois sua oratória é das melhores. Outro fator que atrai a simpatia do público são as suas denúncias aos mercadores da fé. Caio começou muitíssimo bem a entrevista. Disse algo que concordo: A igreja brasileira, no geral, é manobrada por pastores mal intencionados e despreza o ensino. Isso é notório, vide as heresias que são denunciadas aqui nesse blog. Ele bateu forte no segmento Neopentecostal, mas bater nos neopentecostais é fácil, pois quem tem um pingo de consciência sabe que suas práticas são antibíblicas. O negócio é defender e preservar a sã doutrina em meio aos heréticos e mercadológicos desvios do neopentecostalismo. E é aqui que o Caio Fábio pisa na bola, e feio.

Durante o programa, algumas bobagens foram ditas (não perderei tempo com a questão dos extraterrestres). Uma delas é que o Antigo Testamento está totalmente invalidado. Isto é uma falácia muito fácil de se resolver. Os 10 mandamentos são uma amostra de que a Lei tem uma parte observada, mesmo nós estando agora sobre a benção da nova aliança. John Piper fala muito bem acerca disto:

1- Os sacrifícios de sangue cessaram, pois Cristo cumpriu tudo para o que eles estavam apontando. Ele foi o sacrifício final, irrepetível, pelos pecados. Hebreus 9:12: “Nem por sangue de bodes e bezerros, mas por seu próprio sangue, entrou uma vez no santuário, havendo efetuado uma eterna redenção”.

2- O sacerdócio que ficava entre o adorador e Deus não existe mais. Hebreus 7:23-24: “E, na verdade, aqueles foram feitos sacerdotes em grande número, porque pela morte foram impedidos de permanecer. Mas este, porque permanece eternamente, tem um sacerdócio perpétuo”.

3- O templo físico cessou de ser o centro geográfico da adoração. Agora, o próprio Cristo é o centro da adoração. Ele é o “lugar”, a “tenda” e o “templo” onde encontramos Deus. Portanto, o Cristianismo não tem centro geográfico, nem em Meca, nem em Jerusalém. João 4:21-23: “Disse-lhe Jesus: Mulher, crê-me que a hora vem, em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai...Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem”. João 2:19-21: “Derribai este templo, e em três dias o levantarei...Mas ele falava do templo do seu corpo”. Mateus 18:20: “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles”.

4- As leis alimentícias, que colocavam Israel aparte das nações, foram cumpridas e acabadas em Cristo. Marcos 7:18-19: “E ele [Jesus] disse-lhes: Assim também vós estais sem entendimento? Não compreendeis que tudo o que de fora entra no homem não o pode contaminar, porque não entra no seu coração, mas no ventre, e é lançado fora?... (Assim declarou puros todos os alimentos)”.

5- O estabelecimento da lei civil sobre a base de um povo etnicamente fixado, que foi diretamente ordenada por Deus, cessou. O povo de Deus não é mais um corpo político unificado ou um grupo étnico ou um estado-nação, mas são peregrinos e forasteiros entre todos os grupos étnicos e Estados. Portanto, a vontade de Deus para os Estados não deve ser tomada diretamente da ordem teocrática do Antigo Testamento, mas deve ser agora restabelecida de lugar para lugar e de tempo para tempo, pelos meios que correspondam ao governo soberano de Deus sobre todos os povos, e que correspondam ao fato de que a genuína obediência, enraizada como ela é na fé em Cristo, não pode ser coagida pela lei. O Estado é, portanto, fundamentado em Deus, mas não expressivo da regra imediata de Deus. Romanos 13:1: “Toda a alma esteja sujeita às potestades superiores; porque não há potestade que não venha de Deus; e as potestades que há foram ordenadas por Deus”. João 18:36: “Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos”. [1]

Estes são os pontos da Lei que não vogam, pois Cristo os cumpriu. Também não estamos mais debaixo de sua condenação. Todavia, sua moralidade não está caduca. É tanto que os apóstolos se valem dos princípios veterotestamentários para trazer ensinamento a igreja do primeiro século. Desprezar todo o Antigo Testamento é ir além do que Jesus e os seus apóstolos fizeram ou ensinaram. Em Mateus 22:37-40, os dois grandes mandamentos ensinados pelo Salvador são do Pentateuco: Levítico 19:18 e Deuteronômio 6:5. Portanto, se nós amarmos a Deus e amarmos ao nosso próximo, estamos cumprindo uma Lei do Antigo Testamento. Prova suficiente para atestar que ele não caducou, como disse o Caio Fábio.

A outra bobagem foi a de relatar uma possível contradição bíblica. Respondendo a uma questão levantada por Gentili sobre os nefilins, Caio Fábio falou sobre Ogue, rei de Basã, e disse que ele era um sobrevivente do dilúvio. O próprio Danilo ficou espantado com isso, pois disse ter aprendido que só Noé e sua família sobreviveram. E o apresentador está correto. A Bíblia é categórica: 

E toda a carne que se movia sobre a terra, tanto de aves e de gado, e de animais, e de todo réptil que se arrasta sobre a terra, e  cada homem: Tudo estava em suas narinas o fôlego da vida, tudo o que havia na terra seca, morreu.  E cada substância viva foi destruído o que havia sobre a face da terra, o homem e o gado, e os répteis e as aves do céu; e eles foram exterminados da terra, e ficou somente Noé, e os que estavam com ele na arca”. - Gênesis 7:21-23

A lenda de Ogue ter sobrevivido ao dilúvio é folclórica e não histórica. Não há bases bíblicas e arqueológicas que sustentem esta afirmação. Ademais, o Caio Fábio é conhecido por afirmar de maneira axiomática coisas que a Bíblia sequer deixa claro. A regra hermenêutica clássica é a de que a Escritura se auto interpreta. Obviamente, utilizamos recursos como documentos históricos e achados arqueológicos para fazermos uma boa exegese, no entanto estas ferramentas apenas nos servem de apoio aquilo que está biblicamente claro, sendo extremamente perigoso usar de tais recursos para tentar revelar o que Deus soberanamente quis deixar encoberto aos olhos humanos.

No fim da entrevista, vemos um Caio bonachão, falando de suas experiências sexuais de uma maneira vulgar, típico de quem quer se mostrar um cara livre das amarras da religião e parecer descolado. Para atestar sua postura fala que Cristo era alguém tão boa praça que não ligava para o fato de uma pessoa ser gay ou de uma mulher ser p*t*. Este Jesus indulgente também está longe de ser o Cristo da Escritura. É bem verdade que pecadores conviveram com ele, porém todos foram transformados pela Palavra e abandonaram as práticas pecaminosas. 

É absurdamente temerário o discurso liberal do Caio Fábio. Fere a ortodoxia e estimula pessoas a abandonarem a prática de congregar como igreja. Sabemos da imperfeição da natureza humana presente na igreja visível. Só que devemos nos lembrar que a natureza divina da igreja nos levará em triunfo para a glória. E para isso deve haver perseverança no Corpo dos Santos até o fim. Sinceramente, fico triste por ver alguém com o carisma e o intelecto do Caio prestando um desserviço ao Evangelho. Ainda mais quando recordo de que ele já foi um cooperador do mesmo. Para alguns ele continua pastor. Em certo sentido até parece com um, mas não é. Eu, como um jovem aspirante ao Ministério, devo tomá-lo como exemplo de que o importante não é começar bem, mas sim, terminar bem. Tal como Paulo, antes perseguidor da Igreja, tornou-se o principal divulgador do cristianismo e disse convincentemente: 

Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé”. - 2 Timóteo 4:7

__________
Nota:

[1] - John Piper - Como Cristo Cumpriu e Acabou com o Regime do Antigo Testamento

***
Fonte: Bereianos
.

A Bíblia é inspirada, confiável e inerrante

.

Por Thiago Oliveira


A Bíblia gera muitos questionamentos e controvérsias. Muitos sempre perguntam se ela é mesmo a Palavra de Deus e argumentam que por ter sido escrita por homens, pode ter sido alterada ao longo da História. Mas então, a Bíblia é de fato a Palavra de Deus? Podemos confiar nela? Não seria ela uma obra possuidora de muitos erros? Para chegarmos a uma resposta satisfatória, devemos analisar três correntes teológicas: Liberalismo, Neo-Ortodoxia e Teologia Reformada.

O Liberalismo Teológico tem ligação com o método histórico-crítico de interpretação bíblica. Este método nega a inspiração divina e reduz as Escrituras a um compêndio da fé israelita e dos primeiros cristãos, recheado de erros e contradições. Influenciado pelo Iluminismo, o Liberalismo adquiriu um caráter antropocêntrico e relativizou questões-chaves da dogmática. Schleiermacher foi o grande expoente dessa corrente que se afastou a passos largos do ensino ortodoxo e fez com que a Igreja europeia abraçasse o mundanismo e declinasse para o Cristianismo secularizado que até hoje é uma de suas marcas.

Todavia, com o advento da Primeira Guerra Mundial, todo o ideal progressista-iluminista foi por água abaixo. As correntes de pensamento entram em crise e a Teologia não foge à regra. É justamente neste cenário que surge Karl Barth com o que chamamos de Neo-Ortodoxia ou Barthianismo. A Neo-Ortodoxia lutou contra a secularização da Igreja e defendeu que a Bíblia é a palavra de Deus revelada aos homens. 

O grande problema da corrente Neo-Ortodoxa é que ela conservou a crítica bíblia do Liberalismo, a mesma que reduziu as Escrituras a um livro de fé comum. A diferença é que os barthianos afirmam que mesmo contendo erros, a Bíblia é a Voz de Deus para a humanidade. Para sustentar essa posição, argumentam que a parte histórica é irrelevante para a fé salvífica, sendo assim, pouco importa a veracidade dos relatos bíblicos sobre a Queda, o Dilúvio, o Cativeiro Egípcio e etc.

Para a Teologia Reformada (evangélica/protestante) a Bíblia é a Palavra de Deus em sua totalidade e está isenta de erros. Desde o século XVI, de Lutero até os dias de hoje, cristãos de confissão reformada adotam o Sola Scriptura como ponto crucial da fé. Calvino (2006, p.72), o grande sistematizador da doutrina reformada fala o seguinte quanto ao questionamento da procedência divina das Escrituras:

Se, pois, quisermos firmar a nossa consciência de modo que não permaneça agitada e em perpétua dúvida, é preciso que coloquemos a autoridade da Escritura muito acima das razões ou das circunstâncias ou das conjecturas humanas; quer dizer, é preciso que a estabeleçamos como base no testemunho do Espírito Santo. Porque, ainda que, por sua própria majestade, a Escritura nos leve a respeitá-la, não obstante só começa a tocar-nos quando é selada em nosso coração pelo Espírito Santo. [...] É graças à certeza dada por uma autoridade superior que concluímos, que, sem dúvida nenhuma, a Escritura nos foi outorgada diretamente por Deus.

Com isso, Calvino defende que por ser um livro de revelação, a Bíblia precisa ser revelada a nós através de uma ação soberana do próprio Deus, na pessoa do Espírito. O mesmo processo revelacional ocorreu com os autores bíblicos que passaram por um processo de inspiração para deixar registrada a Palavra de Deus como uma fonte revelacional permanente e completa, ao ponto de não mais haver a necessidade de uma outra (i.é. nova) revelação. Tudo o que precisamos saber sobre Deus está registrado nos escritos do Antigo e do Novo Testamento. Assim, o primeiro questionamento (a Bíblia é de Fato a Palavra de Deus?) está respondido.

Dizer que a Bíblia é um livro inspirado é estar de acordo com que a mesma diz acerca de si própria (2Tm 3:16). No entanto, a inspiração não foi um ditado divino. Deus usou as características humanas de cada autor para dizer aquilo que deveria ser dito. Muitos fazem confusão com esta informação e dizem que se existe este viés de humanidade no processo de escrituração e o erro é inerente da condição humana, logo, existe a possibilidade de ter erros na Bíblia. Barth é um exímio defensor do errare humanum est. Embora isto seja verdade, não quer dizer que os homens erram sempre em tudo que fazem, muito menos concluir que o erro é necessário ao homem.

O homem é limitado por ser finito, porém a finitude não o torna falível sempre. Há de se separar onisciência de infalibilidade. Estas duas coisas estão conjuntas em Deus, não nos homens. Como afirma Sproul (2012, p. 49): “Finitude significa uma necessária limitação de conhecimento, mas não significa obrigatoriamente uma distorção do conhecimento. A confiabilidade do texto bíblico não deve ser negada com base na finitude do homem”.

Respondendo ao questionamento sobre a confiabilidade bíblica, sobretudo do Novo Testamento, o mais questionado, apelamos para dois argumentos bastante convincentes:

• Argumento Bibliográfico: Corresponde a lacuna do tempo histórico em que o livro foi escrito e o manuscrito mais antigos que temos dele. Por exemplo: O manuscrito da obra de Platão mais antigo que temos data de 1200 anos após o filósofo grego ter escrito o original. Aristóteles também escreveu 1400 anos antes da cópia mais antiga que possuímos dele. Já o intervalo do original para a cópia de um livro do NT é de apenas 100 anos, e temos esta certeza graças a descoberta arqueológica do papiro de John Rylands.
Argumento Manuscritológico: Corresponde a quantidade de cópias de um presumível texto original. Quanto maior a quantidade de cópias, maiores são as chances de identificar as imprecisões. Por exemplo: Temos sete cópias manuscritas de Platão em todo o mundo. De Aristóteles temos apenas cinco cópias. Em contrapartida, contando apenas as cópias gregas, o texto do Novo Testamento é preservado em aproximadamente 5.686 porções manuscritas parciais e completas que foram copiadas a mão a partir do século I até o século XV.

Além dos manuscritos gregos, há várias traduções partindo do grego. Contando com as principais traduções antigas em aramaico, copta, árabe, latim e outras línguas, há 9 mil cópias do Novo Testamento. Isso dá um total de mais de 14 mil cópias do Novo Testamento. Além disso, se compilarmos milhares de citações dos pais da igreja primitiva dos séculos II a IV pode-se reconstruir todo o Novo Testamento com exceção de onze versículos. De modo que se não for possível confiar na Bíblia, também deve ser posto em xeque a autenticidade de toda e qualquer obra literária da Antiguidade. 

Quanto a questão dos erros, o segmento reformado é categórico: Toda a Bíblia é inerrante. Lopes (2006) diz:

Ao dizer que a Bíblia é inerrante, não estou negando que erros de copistas se introduziram no longo processo de transmissão da mesma. A inerrância é um atributo somente dos autógrafos, ou seja, do texto como originalmente produzido pelos autores inspirados por Deus. Muito embora hoje não tenhamos mais os autógrafos, pela providência divina podemos recuperar seu conteúdo, preservado nas cópias, quase que totalmente, através da ajuda de ferramentas como a baixa crítica ou a manuscritologia bíblica. A ausência dos autógrafos não torna a inerrância bíblica irrelevante, como dizem alguns. Senão temos os autógrafos para provar que eles não contêm erros, eles também não os têm para provar que contêm. Lembro que o ônus da prova é deles.

Alguns objetam com passagens bíblicas que falam sobre o movimento do sol em Josué e de catalogar morcego como ave, segundo Levítico, como se tais exemplos fossem equívocos de cunho científico. Recomemos mais uma vez as palavras de Lopes (2006):

Ao afirmar a inerrância da Bíblia não estou ignorando que, com freqüência, as teorias científicas sobre a história da terra têm sido usadas para desacreditar o relato bíblico da criação, do dilúvio e sua cosmovisão geocêntrica. Entendo, contudo, que não é correto avaliar a veracidade da Bíblia mediante padrões de verdade que são distintos do seu propósito e que se baseiam em conclusões provisórias, efêmeras e freqüentemente desmentidas a posteriori por outros estudiosos e cientistas. A Bíblia não é um livro científico, nos padrões modernos, e frequentemente se refere aos fenômenos naturais usando a linguagem descritiva do observador, como já mencionei, a qual não é cientificamente analítica.

Como observadores dos fenômenos naturais, é totalmente aceitável que haja esse tipo de informação na Bíblia. Em qualquer registro do mundo antigo teremos pessoas falando sobre o movimento do sol e catalogando animais voadores como sendo aves. Até mesmo nos filósofos gregos encontramos estas afirmações, que hoje nos soam absurdas. Todavia, inaceitável seria se naquela época eles tivessem as informações científicas que hoje temos.

Mediante a tudo o que já foi exposto, a Bíblia taxativamente provém de Deus, sendo a Sua Palavra digna de confiança e inerrante. Mesmo utilizando-se de um processo humano, ela é inspirada em sua totalidade. Assim rechaçamos o posicionamento liberal e o barthiano. Esta é a posição ortodoxa, abraçada pelas igrejas de credo reformado. Como está registrado na Confissão de Fé de Westminster Capítulo 1, artigo V:

Pelo testemunho da Igreja podemos ser movidos e incitados a um alto e reverente apreço da Escritura Sagrada; a suprema excelência do seu conteúdo, e eficácia da sua doutrina, a majestade do seu estilo, a harmonia de todas as suas partes, o escopo do seu todo (que é dar a Deus toda a glória), a plena revelação que faz do único meio de salvar-se o homem, as suas muitas outras excelências incomparáveis e completa perfeição, são argumentos pelos quais abundantemente se evidencia ser ela a palavra de Deus; contudo, a nossa plena persuasão e certeza da sua infalível verdade e divina autoridade provém da operação interna do Espírito Santo, que pela palavra e com a palavra testifica em nossos corações. I Tim. 3:15; I João 2:20,27; João 16:13-14; I Cor. 2:10-12.
____________
Referências:
BEEKE, Joel R. Harmonia das Confissões Reformadas. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2006.
CALVINO, João. As Institutas. São Paulo: Volume 1, Editora Cultura Cristã,2006.
LOPES, Augustus Nicodemus. Sobre a Inerrância da Bíblia. Acesso em 20/06/2014.
LOPES, Augustus Nicodemus. Porque o Barthianismo foi Chamado de Neo-Ortodoxia. Acesso em 20/06/2014.
SPROUL, R.C. Posso Crer na Bíblia? São José dos Campos: Editora Fiel, 2012.

***
Divulgação: Bereianos
.

A Bíblia é inerrante?



por John Frame


Algumas pessoas têm sugerido que “inerrante” não é uma boa palavra para usar quando se descreve a Escritura. Este artigo procura responder a essa objeção. Antes de nós passarmos ao termo específico “inerrante”, entretanto, será bom lembrarmos, em termos mais gerais, o que a fé reformada e a própria Bíblia ensinam-nos sobre a Escritura.

Primeiro, a Escritura é a constituição pactual do povo de Deus.[1] A primeira Palavra escrita de Deus, a primeira Bíblia, foram os Dez Mandamentos, escritos pelo próprio dedo de Deus em tábuas de pedra (Ex 24.12, 31.18, 32.15s, 34.1). Lá, Deus fala como o autor do documento: “Eu sou o Senhor teu Deus”. Aquela Palavra escrita foi posta no lugar mais santo de Israel, ao lado da Arca da Aliança, onde estaria firmada como testemunha de Deus contra Israel (Dt 31.26).[2] Assim, a Palavra escrita deveria governar todos os aspectos da vida do povo de Deus (Dt 4.1-14, 5.32-6.25).[3] Quase todo capítulo de Deuteronômio exorta o povo a obedecer todas as leis, testemunhos, estatutos, mandamentos e palavras (que redundância eloquente!) da Palavra escrita de Deus. Quase todo verso do Salmo 119 chama o povo de Deus de volta a esses estatutos; reavivamento em Israel é sempre um reavivamento da obediência à (e algumas vezes a redescoberta da) Lei.

Além do Decálogo, Deus deu outras Palavras a seu povo. O cântico de Moisés em Dt 32 (veja 31.19) é uma Palavra destas. Palavras de Josué foram mais tarde adicionadas (Js 24.25s). E Deus enviou profetas; a própria definição de um profeta era aquele proclamava a Palavra de Deus, não as palavras de sua própria vontade (Dt 18.18-20). Muitas dessas profecias foram escritas. Jesus considerou o Antigo Testamento inteiro como a Palavra escrita de Deus (Mt 5.17-19, Jo 5.45, 10.33-36), como também fizeram os apóstolos (Rm 15.4, 2Tm 3.16, 2Pe 1.21, Tg 4.5,11).

O Novo Testamento é uma Nova Aliança e, portanto, envolve a entrega de Palavras divinas (Mt 7.24-27, Mc 8.38, Jo 6.68s, 12.47ss, 14.15, 21, 23s, 15.7, 10, 14, 17.6, 17, 1J 2.3-5, 3.22, 5.2f, 2Jo 6, 1Tm 6.3, Ap 12.17, 14.12). Pelo testemunho do Espírito Santo e conteúdo dos próprios livros, os cristãos reconhecem o Novo Testamento, como eles fazem com o Antigo, como o Livro de Deus.

Portanto, a igreja tem confessado historicamente que a Escritura é a Palavra de Deus. É Deus falando a nós. Existem também autores humanos na Escritura, e o conteúdo da Escritura reflete suas personalidades, estilos e experiências. Mas a humanidade da Escritura não significa que ela tenha menos autoridade que, digamos, a voz divina no Monte Sinai. A autoridade da Escritura é nada menos que a autoridade do próprio Deus, como as passagens citadas acima claramente demonstram.

Não temos, assim, nenhum direito de levantar críticas negativas contra a Bíblia. Como a Confissão Belga afirma, os livros canônicos “não podem ser contraditos de forma alguma” (Artigo 4), “acreditamos, sem dúvida nenhuma, em tudo que eles contêm” (Artigo 5), e “sua doutrina é perfeitíssima e, em todos os sentidos, completa” (Artigo 7). Quando Deus fala conosco, nós não ousamos criticar o que ele diz. Nosso único recurso é crer e obedecer.

E então, o que dizer sobre inerrância? Bem, a inerrância da Escritura está certamente implícita no que já dissemos, se pudermos usar “inerrância” em seu sentido normal, do dicionário. “Inerrante” significa simplesmente “sem erros” ou “verdadeiro”, no sentido que nós normalmente falamos de frases verdadeiras, doutrinas verdadeiras, relatos verdadeiros e princípios verdadeiros. Se Deus estivesse falando conosco em pessoa, “diretamente”, nenhum de nós ousaria acusá-lo de erro. Erros surgem de ignorância ou engano; e nosso Deus não é nem ignorante, nem enganador. De maneira semelhante, nós não ousamos acusar sua Palavra escrita de erro.

Esta não é uma posição meramente “moderna”. Como vimos, é a posição da própria Escritura. Agostinho no século V declarou: “Nenhum desses autores (da Escritura) errou, em algum aspecto, ao escrever”. A infalibilidade[4] é afirmada na Confissão de Fé de Westminster, capítulo 1, e na Confissão Belga, artigo 7.

Devemos falar hoje de “inerrância” bíblica? O termo com certeza gera confusão em alguns círculos. Alguns teólogos têm ido bem além do significado normal de “inerrante”. James Orr, por exemplo, define “inerrante” como “uma literalidade estrita em assuntos mínimos nos detalhes históricos, geográficos e científicos".[5] Bem, se “inerrância” demanda literalidade, então devemos renunciar à inerrância; porque a Bíblia nem sempre deve ser interpretada literalmente. Certamente existem questões importantes na interpretação bíblica que alguém perde se ele aceita a inerrância bíblica neste sentido.

Mas devemos nos lembrar que o uso do termo por Orr, e os usos semelhantes de teólogos contemporâneos, são distorções de seu significado. Talvez essas distorções tenham se tornado tão frequentes hoje que diminuem a utilidade do termo. Por enquanto, porém, eu gostaria de manter o termo, e explicar às pessoas que me questionam que não estou usando ele no sentido de Orr, mas de maneira semelhante ao confessado pela fé histórica da igreja.

Nós temos um problema aqui: se fosse possível, eu preferiria  abandonar os termos extrabíblicos, incluindo “infalível” e “inerrante”, e simplesmente falar, como a Escritura faz, da Palavra de Deus como verdadeira. Isto é o que todos nós queremos dizer, afinal, quando falamos que a Escritura é inerrante. Mas os teólogos modernos não me deixam fazer isso. Eles redefinem “verdade” como se referisse a uma grande ideia teológica[6], e não permitem que use com o sentido de “precisão”, “confiabilidade” ou “veracidade”. Então, tento usar a palavra “infalível”, uma expressão histórica que, como indiquei em uma nota de rodapé abaixo, é realmente um termo mais forte que “inerrância”. Mas, novamente, os teólogos modernos[7] insistem em redefinir a palavra também, de forma que realmente diz menos que “inerrância”.

Então, qual é nossa alternativa? Mesmo “precisão” ou “veracidade” foram distorcidas por princípios teológicos. “Confiabilidade” parece muito trivial para expressar o que queremos dizer. Então, embora seja um termo que é altamente técnico, e sujeito a mal-entendidos, pretendo manter a palavra “inerrante” como uma descrição da Palavra de Deus, e espero que meus leitores façam o mesmo. A ideia, claro, é mais importante que a palavra. Se conseguir encontrar uma palavra melhor que expresse a doutrina bíblica aos leitores modernos, estarei feliz de usá-la, e abandonarei “inerrância”. Mas, atualmente, “inerrância”, não tem um substituto adequado. Abandonar o termo na situação atual, então, pode comprometer a doutrina, e isto não ousamos fazer. Deus não aceitará ou tolerará juízos humanos e negativos sobre sua santa Palavra. Então, eu concluo: sim, a Bíblia é inerrante.

__________
Notas:
[1] Alguns ficarão felizes em ver que não estou argumentando como um “fundamentalista” estilo movimento fundamentalista do início do século XX, mas de maneira semelhante à tradição reformada, expondo as implicações da Aliança de Deus conosco. Outros não ficarão.
[2] Não é o testemunho dos homens a Deus, como os teólogos frequentemente sugerem, mas a testemunha de Deus contra os homens.
[3] Para mais sobre o conceito da Escritura como constituição da Aliança, veja M. G. Kline, The Structure of Biblical Authority (Grand Rapids: Eerdmans, 1972). Esse é um estudo muito importante, embora muito negligenciado.
[4] Se for possível, usemos o dicionário – e por que os teólogos não usam o dicionário?! – “infalível” é um termo mais forte que “inerrante”. “Inerrante” significa que não há erros; “infalível” significa que não pode haver erros.
[5] Orr, “Revelation and Inspiration,” em: Millard Erickson, ed., The Living God (Grand Rapids: Baker, 1973), p. 245.
[6] Emil Brunner,”Truth as Encounter.”
[7] Por exemplo, J. Rogers and D. McKim, em The Authority and Interpretation of the Bible (San Francisco: Harper and Row, 1979).

***
Fonte: Frame & Poythress
Traduzido por: Josaías Jr
Via: Reforma 21

.