A Bíblia Apoia a Escravidão?

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Um argumento lançado contra a Bíblia é que ela apóia a escravidão.

Recebi uma carta de um leitor da nossa revista Biblical Worldview que discorda da minha afirmação que o tipo de escravidão praticado nos Estados Unidos era anti-bíblico pois “roubava homens”. Como você pode ver no parágrafo seguinte, ele defende suas crenças com paixão. Mas ele está correto?

A Bíblia não condena a escravidão. A Bíblia não condena o aborto. A legislação humana não pode tornar legal o que a lei de Deus condena, ou tornar ilegal o que a lei de Deus permite. Quando você condena o que a lei de Deus permite, você é um legalista e peca (Deuteronômio 4:3; Provérbios 30:6; Apocalipse 22:18–19). Quando você permite o que a lei de Deus condena, você é um transgressor e peca também (Êxodo 20:1–17). 

Quando você não pode dizer a diferença, então não pode pensar como um cristão.

Eu respondi brevemente que a escravidão praticada neste país antes de 1860 era “roubar homens” (seqüestro). Africanos ocidentais eram seqüestrados, postos em navios, trazidos para as costas da América, vendidos em leilões, e colocados em trabalhos forçados. Reconhece-se que muitos escravos eram tratados com decência em sua chegada e durante o seu cativeiro. Mas não é isso o que se está em questão. Eles ainda eram escravos, em cativeiro contra sua vontade.

Trabalho Forçado

Muitos dos primeiros colonos dessa nação pagaram sua passagem como trabalhadores compulsórios. Trabalho forçado não é anti-bíblico nem anti-constitucional. Um ladrão que fosse incapaz de restituir poderia ser vendido em servidão por seu roubo (Êxodo 22:3b). Mesmo após a abolição da escravatura, o trabalho forçado foi mantido pela Constituição como uma forma legítima de punição: “Não haverá, nos Estados Unidos ou em qualquer lugar sujeito à sua jurisdição, nem escravidão, nem trabalhos forçados, salvo como punição por um crime pelo qual o réu tenha sido devidamente condenado” (Emenda XIII, Seção 1). Deveríamos, portanto, distinguir entre escravo (roubo de homem) e servo (trabalho forçado). Devemos também manter em mente que a palavra “slave” [escravo] aparece somente uma vez na King James Bible (Jr. 2:14a), assim como a palavra “slaves” [escravos] (Ap. 18:13). A palavra escravidão não aparece em nenhum lugar na King James.[2]

Eu citei Êxodo 21:16 para apoiar minha afirmação que a escravidão, como praticada na América, não pode ser defendida mediante um apelo à Bíblia: “E quem raptar um homem, e o vender, ou for achado na sua mão, certamente será morto.” O escritor da carta defende sua posição alegando que Êxodo 21:16 aplica-se somente aos rapto de hebreus (compare Dt. 24:7).

Robert L. Dabney, o mais articulado defensor de Virgínia e do Sul, discorda: “Dificilmente é necessário dizer que odiamos a injustiça, crueldade e a culpa do comércio de escravos africanos. Ele foi condenado com justiça pela lei pública do Cristianismo… Foi condenado pela lei de Deus. Moisés colocou isso entre os estatutos judiciais dos judeus: ‘E quem raptar um homem, e o vender, ou for achado na sua mão, certamente será morto.’”[3] Não há nenhuma indicação que Êxodo 21:16 tinha somente os israelitas em mente. Se tinha, então o versículo 12 também se aplicaria somente aos israelitas, visto que a sua linguagem é similar à do versículo 16:

Quem ferir um homem, de modo que este morra, certamente será morto” (21:12). 
E quem raptar um homem, e o vender, ou for achado na sua mão, certamente será morto” (21:16).

James B. Jordan oferece um bom resumo dessas questões envolvidas:

“A Bíblia pune todos os que roubam pessoas com uma pena de morte obrigatória. Em Deuteronômio 24:7, o seqüestro de membros do pacto é particularmente proibido, mas em Êxodo 21:16, todo roubo de homem é proibido. Poderia ser mantido que se lermos o v. 16 no contexto do v. 2, é somente os hebreus que são protegidos e vingados por essa lei. Contudo, o texto diz simplesmente ‘homem’, e não há nenhuma indicação no contexto imediato (vv. 12, 14) que ‘homem’ esteja restrito aos membros do pacto.”[4]

Defensores da escravidão do Sul apelam a Levítico 25:44-46 para defender sua posição pró-escravidão, visto que ela descreve a escravidão de pagãos. Robert L. Dabney baseia seu argumento para a escravidão na passagem de Levítico sem considerar uma mudança em sua aplicação sob a Nova Aliança.[5] A escravidão de estrangeiros era legal em Israel. “Esses pagãos estavam sendo comprados de sua escravidão pactual à uma religião demoníaca. Eles estavam sendo redimidos (comprados de volta). Estavam recebendo uma oportunidade de ouvir o evangelho e vê-lo em operação em famílias que tinham um pacto com Deus. Eles estavam recebendo a oportunidade de renunciar o paganismo e mediante isso escapar da escravidão eterna no lago de fogo.”[6]

A escravidão de nações pagãs sob a Antiga Aliança estava ligada às leis de jubileu descritas no mesmo capítulo. O jubileu foi cumprido em princípio por Jesus (Lucas 4) e abolido historicamente quando Israel quando uma nação deixou de existir com a destruição do seu governo religioso e civil em 70 d.C. A escravidão de nações pagãs estava ligada ao caráter especial da terra de Israel, da mesma forma com que a distribuição da terra de famílias israelitas estava ligada ao caráter redentor especial da terra.

Em adição, os gentios receberam um novo status na Nova Aliança. A vinda de Cristo foi “uma luz de revelação aos gentios” (Lucas 2:32; veja Isaías 42:6; 49:6). Jesus começou Seu ministério público com a leitura de Isaías 61:1, proclamar liberdade aos cativos” (Lucas 4:18-19). Sabemos que essa liberdade incluiu os gentios: “E anunciará aos gentios a justiça… e no seu nome os gentios esperarão” (Mt. 12:18, 21). Atos mostra que muitos judeus cristãos não tinham aceitado o fato que os gentios estavam inclusos nas promessas do pacto, que eram inicialmente reservadas aos israelitas: “E os fiéis que eram da circuncisão, todos quantos tinham vindo com Pedro, maravilharam-se que o dom do Espírito Santo se derramasse sobre os gentios” (Atos 10:45).

Com o evangelho rompendo o velho odre nacional de Israel, um novo meio de evangelismo estrangeiro começou. Os evangelistas do Novo Testamento deveriam ir às nações estrangeiras, como servos, não como senhores de servos ou seus agentes econômicos, os comerciantes de escravos. Eles deveriam advertir homens e mulheres a se submeterem ao governo de Deus voluntariamente… os cristãos deveriam trazer a mensagem de libertação que Jesus anunciou em Lucas 4.[7]

A história da escravidão dos negros africanos tem sido um impedimento ao evangelho. Em vez de serem pescadores de homens, muitos na igreja apoiam a noção de serem os escravizadores de homens, em particular, homens e mulheres negros, e seus filhos. A Bíblia, incluindo Levítico 25, não apóia a escravização exclusivamente de negros africanos. O racismo parece ser o fator motivador. Gary North escreve: “Escravidão como um sistema chegou à América do Norte no começo do século dezoito, e estava baseada nos preconceitos racistas que cresceram a cada enchimento de navios com negros vitimados. O racismo parece ter sido o fundamento da escravidão, e não o contrário.”[8] Com a vinda de Cristo os cristãos devem pregar o evangelho e fazer discípulos das nações; fazendo delas “escravos de Cristo”, não escravos de outros homens.

O Novo Testamento e a Escravidão

Sabemos que no Novo Testamento Paulo condena os comerciantes de escravos (seqüestradores) em 1 Timóteo 1:10.[9] Apocalipse considera aqueles que fazem tráfico de “escravos e até almas humanas” como sendo imorais e destinados ao juízo (Ap. 18:13, ARA). Em nenhum lugar o Novo Testamento apóia o tráfico de escravos. A carta de Paulo a Filemon não defende a noção que o Novo Testamento tolerava a escravidão. Onésimo era provavelmente um servo que tinha uma dívida para com Filemon. Paulo encoraja o fugitivo Onésimo a retornar para Filemon e encoraja Filemon a soltar Onésimo quando ele, Paulo, chegasse. Paulo promete pagar a Filemon se Onésimo dever alguma coisa” (Filemon 18). A menção que Paulo faz de uma dívida parece indicar que Onésimo era um trabalhador forçado.

Defendendo o Indefensável 

O escritor da carta conclui seu argumento em defesa da escravidão citando Dabney. Robert Dabney, como vimos, odiava “a injustiça, crueldade e a culpa do comércio de escravos africanos.” Então, por que ele continuou a apoiar a posse de escravos? Dabney escreve: “Quando a propriedade foi adquirida pelo último detentor, justa e honestamente; quando, nas últimas transferências, um equivalente justo foi pago por ela, e o último proprietário é inocente de fraude em intenção e no modo real de sua aquisição da propriedade, mais errado seria destruir o seu título, do que deixar o original errado sem reparação. O senso comum diz que, seja qual possa ter sido o título original, um novo e válido surgiu das circunstâncias do caso.”[10]

Dabney apela para o “senso comum” e não à Bíblia, uma clara indicação que ele não tinha um argumento bíblico. Embora o comerciante de escravos possa ter adquirido os escravos por meios imorais, Dabney argumenta, a pessoa que recebe os homens, mulheres e crianças roubados não está ligada à ilegalidade original. Em essência, ele não pode ser considerado responsável pela fraude inicial, visto que comprou a “mercadoria” em boa fé. 

Dabney argumenta de forma circular. Como pode a compra de seres humanos, para o propósito de usá-los para o trabalho escravo, ser feita “justa e honestamente”, quando Dabney admite plenamente que quem “originalmente… capturou o africano era alguém excessivamente ímpio”?

O escritor da carta tenta reforçar o argumento de Dabney citando um caso de fraude perpetrado sobre ele. Escreve ele: “Em 1981, um impostor me deu um cheque sem fundo para comprar notas históricas no valor de 2000 dólares, e então vendeu tais notas a outro negociante. Quando pedi para recuperar os dólares desse negociante, o tribunal achou que, embora o criminoso tivesse adquiro-as por fraude, o título tinha sido passado para outro detentor que tinha comprado em boa fé e não poderia agora ser perturbado em sua posse.”

A chave é que o detentor comprou as notas “em boa fé”. Se soubesse que as notas tinham sido roubadas, ele teria sido citado por conspiração com fraude cometida. Aqueles que compravam escravos em leilões nos Estados Unidos sabiam que os escravos eram vítimas seqüestradas. Os donos dos escravos não estavam agindo “em boa fé”, visto que sabiam que quem “originalmente… capturou o africano era alguém excessivamente ímpio”. O negociante de notas não sabia que a primeira transação foi fraudulenta; os donos de escravos sim.

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Notas:
[1] Traduzido em outubro/2008. 
[2] Gary North, Tools of Dominion: The Case Laws of Exodus (Institute for Christian Economics, 1990), 121. 
[3] Robert L. Dabney, A Def ense of Virginia, [And Through Her, of the South] (New York: Negro University Press, [1867] 1969), 288. Reimpresso pela Sprinkle Publications, Harrisonburg, Virginia, 1977.
[4] James B. Jordan, The Law and the Covenant: An Exposition of Exodus 21–23 (Tyler, TX: Institute for Christian Economics, 1984), 104.
[5] Dabney, A Defense of Virginia, 117–121.
[6] North, Tools of Dominion, 145. 
[7] North, Tools of Dominion, 173.
[8] North, Tools of Dominion, 180.
[9] A ARC e ACF trazem “ roubadores de homens”, e a ARA traz “ raptores de homens”. (Nota do tradutor) 
[10] Dabney, A Defense of Virginia, 288–289. 

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Autor: Gary DeMar 
Fonte: American Vision
Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto
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Acaso Apenas Provas Explícitas na Escritura são Válidas?

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Um Tratado sobre Múltiplas Questões, cap. 20.

Estas deduções imprescindíveis da Palavra escrita de Deus provam, de forma sólida e forte, um parecer ou uma conclusão jure divino [do direito Divino]. Se esta for teórica, será uma verdade Divina infalível, devendo ser crida. E, se for prática, será um dever necessário, ao qual somos obrigados a cumprir.

Essa afirmação não deve ser tão ampla, a ponto de envolver raciocínios errados e deduções da Escritura que algum homem, ou alguma igreja, esteja convicto e acredite ser forte e imprescindível. Falo do que é, e não do que se pensa ser uma dedução imprescindível. Também não deve ser reduzida e estreitada; como fazem os arminianos, que não admitem outras provas da Escritura, além de textos simples e explícitos, de consequências nulli non obviae [não contestadas por ninguém] ou que possam que ser contestado por qualquer homem rationis compos [dotado de razão]. Por este princípio, caso seja abraçado, devemos renunciar muitas verdades necessárias que as Igrejas Reformadas mantêm contra os arianos, anti-Trinitários, socinianos e papistas; pois as deduções e os argumentos da Escritura que trazemos para prová-los não são admitidos, como bons, pelos adversários. 

Em segundo lugar, também devo ressaltar que essa afirmação não quer dizer que uma dedução da Escritura que é criada pela mente humana possa servir como fundamento de nossa crença ou consciência. Pois, embora a dedução ou argumentação seja feita por mentes humanas; ainda assim, uma dedução ou conclusão não é crida, nem abraçada pela força da razão, mas porque é verdade e vontade de Deus.

Em terceiro lugar, vejamos com Gerhard, uma distinção entre a mente corrupta e a mente renovada ou restaurada. Ou entre a mente natural, que argumenta sobre as coisas Divinas em princípios naturais e carnais (sensações, experiências e coisas semelhantes), e a mente cativa e subjugada à obediência a Cristo (2 Coríntios 10:4-5), que julga as coisas Divinas não pelo homem, mas pelas regras Divinas, e de acordo com princípios das Escrituras, visto o quão opostos são à sabedoria da carne. É a última, não a primeira, mente que será convencida e ficará satisfeita com as deduções e conclusões extraídas da Escritura, nas coisas que dizem respeito à glória de Deus, bem como de questões Espirituais ou Divinas.

Em quarto lugar, existem dois tipos de deduções que Aquino distingue:

a. A evidência sólida e forte, ou imprescindível e certa. Como por exemplo (diz ele), quando a lógica é extraída da ciência natural para provar que o movimento do céu tem sempre uma velocidade constante, não sendo mais lento ou mais rápido de acordo com o momento. 
b. A que é feita por ser agradável ou por conveniência. Como na astrologia (diz ele), esta lógica é extraída dos excêntricos ou epiciclos. Em que os movimentos celetiais são (supostamente) entendidos por phenomena ou apparentia sensibila (experiências sensíveis): O que se pensa que não é uma prova necessária, porque os phenomena podem ser entendidos de outra maneira, por outra suposição.

Portanto, também há dois tipos de deduções da Escritura. Algumas são imprescindíveis, fortes e confiáveis; é destas que falo nesta afirmação. Outros que são deduções boas para provar uma adequação ou conveniência de algo ou de parte da Escritura, mesmo que outra coisa também possa ser provada ser aceitável para a Escritura naquele ou em outro lugar. Este último tipo, em diversos assuntos, é de grande utilidade; Mas, no momento, me refiro às deduções imprescindíveis.

Agora que expliquei a afirmação, vou prova-la pelos seguintes argumentos:

I. O Exemplo de Cristo e Seus Apóstolos

Cristo, contra os saduceus, provou a ressurreição dos mortos no Pentateuco (a única Escritura reconhecida por eles, como muitos pensam, embora outros defendam que não há garantia para afirmar isso).

"Agora sobre a ressurreição dos mortos, até mesmo Moisés mostrou isso no arbusto, quando diz que O Senhor é O Deus de Abraão, O Deus de Isaque e O Deus de Jacó. Ele não é um Deus de mortos, mas de vivos; portanto todos vivem" (Lucas 20:37-38, Mateus 22:31-32).

Mais uma vez, Cristo usou uma dedução boa e necessária em João 10:34-36: "Acaso não está escrito na Lei de vocês, Eu disse: ‘Vocês são deuses’? Se Ele chama de deuses, aqueles a quem veio a Palavra de Deus, e a Escritura não pode ser anulada. Então por que chamam Àquele a quem O Pai santificou e enviou ao mundo de ‘blasfemo’; por ter dito, ‘Sou O Filho de Deus’?".

O apóstolo Paulo provou a ressurreição de Cristo, por dedução da Escritura em Atos 13:33-34: "Ele ressuscitou Jesus; como está escrito no Segundo Salmo, ‘Você és meu Filho, hoje a você gerei’. Assim, Ele O ressuscitou dentre os mortos, para não mais retornar à corrupção; Ele disse, ‘Eu darei as bênçãos seguras de Davi a Você’.”.

A Divindade Dele é provada por estas palavras: "Que todos os anjos de Deus O adorem" (Hebreus 1:6). O culto Divino não pode ser nulo, e não deve ser dado a nenhum que não seja Deus. 

II. O Antigo Testamento

Embora Hooker em sua Política Eclesiástica, e outros escritores episcopais, tenham sustentado a diferença entre o Antigo e o Novo Testamento; que Cristo e Seus apóstolos não se prenderam a tantos detalhes conosco, como fez Moisés com os judeus. Mas, após um exame, descobre-se que todas as ordenanças e coisas Sagradas para a Igreja Cristã não estão menos claras e contidas no Novo Testamento, do que as ordenanças para a Igreja Judaica determinadas no Antigo, e que há algumas coisas essenciais a serem extraídas por dedução imprescindível da Lei de Moisés, bem como agora do Novo Testamento.

Se consultarmos o Talmud, veremos que a lei relativa às almas a serem eliminadas por desprezarem a Palavra Do Senhor (Números 15:31) é aplicada aos que negaram as deduções imprescindíveis da Lei. Diz o Talmud: "Se um homem reconhece toda a Lei como sendo do Céu, praeter istam collectionem a majori aut minori, istamve, a pari, is notatur illâ sententiâ, quia verbum Domini aspernatus est" ["exceto alguma explicação, seja uma conclusão fortiori, seja uma expressão análoga, pode-se considerar que este despreza a Palavra Do Senhor"]. 

Assim, há dois tipos de deduções imprescindíveis da Lei, uma é a majori aut minori [da maior para a menor] ou fortiori [da mais forte] se você preferir; a outro é a pari [de paridade ou igualdade]. Se qualquer uma destas for rejeirada, a própria Lei é desprezada. É preciso observar com o Sr. Selden que até os Karaei ou Judaei Scripturarii, que rejeitam as adições ou tradições dos mestres do Talmud e professam aderir à interpretação literal e simples da Lei, sem acrescentar ou diminuí -la, não exigem palavras expressas da Escritura para toda instituição Divina; o que eles tomam como ordem ou proibição pela lei de Deus, eles extraem da Lei três maneiras: Pelas próprias palavras da Escritura, pela argumentação da Escritura e pela transmissão hereditária das interpretações, quanto às interpretações da Escritura anteriormente recebidas, as seguintes gerações foram autorizadas a corrigir e alterar estas após descobertas ou raciocínios melhores.

Um segundo caminho, dado por argumentação, era pelo princípio dos próprios Karaei sobre os dois grupos, pari ou fortiori. Que concorda com a passagem do Talmud citada anteriormente. Aqui, nossos escritores concordam com os Karaei , que todos os tipos de casamentos ilegais e proibidos não estão expressamente mencionados na lei, mas diversos deles serão coletados por dedução, ou seja, por paridade de razão [pari], ou por maior força de razão [fortiori]; Por exemplo, Levítico 18:10: "Seja a nudez da filha de seu filho, ou da filha de sua filha, a nudez deles você não descobrirá; porque é a nudez deles é sua própria nudez". Daí a dedução frita por pari [igualdade]. Portanto, um homem não pode descobrir a nudez de sua bisavó, ou daquela filha da filha de seu filho. Pois aquela também é sua própria nudez, sendo uma descendência in linea recta [direta] de si mesmo. O mesmo texto visto por fortiori, muito menos um homem pode descobrir a nudez de sua própria filha, ainda não esteja expressamente proibido na Lei, mas é deixado assim para compreensão por dedução imprescindível do mesmo texto. É também uma dedução imprescindível que um homem não descubra a nudez daquela que é filha do filho de sua esposa ou da filha de sua esposa. Pois a mesma lógica é válida: É sua própria nudez, a esposa dele e ele sendo uma só carne, o que dá lugar a essa regra geral revelada, para que um homem não se case com um sangue mais próximo de sua esposa do que o dele, tampouco que uma esposa se case com um sangue mais próximo de seu marido do que dela [CFW XXIV.IV]. Mais uma vez, Levítico 18:14: "Não descubra a nudez do irmão de seu pai, nem se aproxime da sua mulher: Ela é a sua tia". Dito isso, segue-se o pari que um homem não pode descobrir a nudez do irmão de sua mãe, e pela igualdade de lógica (que essa lei foi feita), também é ilegal que uma mulher case com aquele que foi marido da irmã de seu pai ou da irmã de sua mãe, visto à proximidade por sangue semelhante entre tio e sobrinha, bem como entre tia e sobrinho.

Podem ser dadas outras situações, mas estas devem bastar para comprovar que o que, por dedução imprescindível , decorre da Lei, deve ser entendido como sendo ordenado ou proibido por Deus, assim como o que é expressamente ordenado ou proibido no texto da Escritura.

III. A Sabedoria Infinita de Deus

Se dissermos que as deduções imprescindíveis das Escrituras não são jus divinum [direito Divino], dizemos algo que é inconsistente com a infinita sabedoria de Deus. Pois, embora as deduções imprescindíveis possam ser extraídas da palavra de um homem que não concorda com mente e intenção Dele, sendo os homens muitas vezes iludidos por tais palavras; todavia (como Camero observou bem), com Deus sendo infinitamente sábio, esta seria uma opinião blasfema, por sustentar que qualquer coisa que não seja Sua vontade possa ser classificada como uma dedução confiável e imprescindível de Sua Santa Palavra. Isso tornaria O único Deus tão sábio quanto um homem tolo, que não pode prever todas as coisas que seguirão de suas palavras. Portan to, devemos ter certeza de que é a mente de Deus que está por trás da Palavra de
Deus.

IV. Os Absurdos 

Diversos outros grandes absurdos devem seguir se esta verdade não for admitida. Como pode se provar que as mulheres podem participar do Sacramento da Ceia do Senhor, a menos que provemos isto por dedução imprescindível da Escritura? Como provar que esta ou aquela igreja é uma igreja verdadeira, se seu ministério é um ministério verdadeiro, se batismo ministrado nela é o verdadeiro batismo? Claro que nenhuma Escritura irá provar isso expressamente, mas a dedução imprescindível provará. Como algum indivíduo pode, sequer, compreender a partir da Escritura que a Aliança de Graça e suas promessas pertencem a ele?

Acaso a Escritura irá provar isso de outra maneira que não seja por uma dedução imprecindível? Como será provado pelas Escrituras que a última guerra contra o partido papista e episcopal, em def esa de nossa Religião e nossa liberdade, era lícita; que a Liga e Aliança Solene foi algo aceitável a Deus? A dedução imprescindível das Escrituras prova tudo isso, mas as Escrituras de forma explícita não o farão. Assim como quando eu falo de jejum e ação de graças por ocosião, se é nesse ou naquele momento que Deus nos chama a esses deveres, e se é da vontade Dele que os realizamos; isso não pode ser provado pelas Escrituras, exceto por deduções imprescindíveis destas.

Este quarto argumento servirá para a extensão da presente afirmação (que agora comprovo) ao seu alcance correto; isto é, que os argumentos da Escritura por deduções imprescindíveis não só ajudam a provar e fortalecer as coisas que de outra forma seriam provadas das Escrituras de forma clara e simples, mas que é são bons e suficientes para prova coisas pela vontade e pelo desígnio de Deus (jure divino, como costumamos dizer) o que não pode ser provado como qualquer texto explícito na Escritura.

V. Os Oponentes das Deduções Imprescindíveis as Usam

Vou agora destacar a concessão de Theophilus Nicolaides, o sociniano. Embora ele tenha professado sua dissidência, até agora tanto das igrejas reformadas quanto das igrejas romanas, ele não acredita que as coisas retiradas da Escritura sejam igualmente necessárias para a salvação como as coisas que estão explicitamente contidas na Escritura, contudo ele cede às coisas retiradas por dedução como sendo tão certas quanto as outras. Ele diz: Quantumuis aeque certa sint quae ex sacris literis de ducuntur atque ea quae in illis expresse et ρητώς habentur [Quanto às coisas claramente confiáveis que estão fora dos Escritos Sagrados, sendo extraídos destes com alguma lógica, elas são igualmente confiáveis quanto as coisas explícitas e contidas neles].

Em geral, pode-se observar que mesmo aqueles que mais reclamam de deduções da Escritura e exigem as Escrituras de forma explícita as usam quando tentam a provar seus princípios particulares pelas Escrituras, não obstante não trazem nada além de provas circunstanciais. Agora esta sabedoria é justificada, não só por seus filhos, mas também por seus inimigos. Não é possível que qualquer sociniano, erastiano, etc... Consiga debater as Escrituras contra um Cristão, que reconhece e acredita que a Escritura é a Palavra de Deus, mas deve ele levar a provas circunstanciais: Nenhum Cristão negará o que é Ρητώς [explicitamente] literalmente e claro na Escritura; Mas todas as controvérsias de fé ou religião no mundo Cristão foram, e são, relativas à lógica da Escritura, e ás deduções retiradas da Escritura.

VI. A Justiça Humana

Se não admitimos deduções imprescindíveis da Escritura para provar o que é jus divinum, negaremos Ao Grande Deus que favorece pequenos deuses, ou magistrados. Não precisa ver mais de uma situação contemporânea: Quando o Earle de Strafford foi acusado de alta traição, uma de suas defesas era que nenhuma lei da terra determinava que qualquer uma das particularidades provadas contra eles deveria ser considerada alta traição. Em defesa deles não havia violação de nenhuma lei, de modo que as muitas particularidades do caso fossem considerados uma alta traição literal e clara. Mas, comparando várias leis e fatos, observando-se deduções imprescindíveis de uma coisa em relação a outra, constituiu-se uma traição construtiva contra eles. Se houve um jus humanum construtivo ou dedutivo, antes deve haver um jus divinum construtivo ou dedutivo (pelas considerações anteriormente mencionadas).

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Autor: Rev. George Gillespie (1613-1648)
Fonte: Purely Presbyterian
Tradução: Caio Leite
Divulgação: Bereianos

Leia também:
A Definição Bíblica de Heresia
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Parabéns, ignorante! Uma resposta a Gregório Duvivier

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Parabéns, ignorante!

Gregório Duvivier, quero lhe agradecer por deixar tantas coisas claras, tanto sobre o comunismo, quanto sobre sua pessoa e sobre nosso país. Obrigado por mostrar que o comunismo gera pobreza, gosta de drogas e se alegra em livrar a cara de bandidos. Obrigado por mostrar que só no Brasil um jornal de grande circulação dá espaço para alguém que não tem ideia do que fala escrever um artigo banalizando a fé dos outros. Obrigado por mostrar que órgãos públicos como a Defensoria Pública de São Paulo e o Ministério Público do Trabalho de São Paulo, nada mais são do que aparelhos de promoção da agenda esquerdista e LGBT, pois nada fazem contra atitudes como a sua, mas fazem contra um empresário, que manifesta sua opinião com um livreto simples, que reflete a fé cristã milenar.

Mas vamos a sua analogia tola...

Você fala que Jesus não gosta de riqueza, porque disse a um rapaz cheio de si dar tudo o que tem. Ficou concentrado na discussão da tradução e não atentou para o contexto. Não é só para o rico que é difícil entrar no Reino dos céus, para todo homem é impossível – bastava você ter continuado a leitura e perceber que o problema não é a riqueza, mas como aquele jovem lidava com ela. Se lesse mais a Bíblia, descobriria que Jesus não fez o mesmo tipo de exigência a Zaqueu, cobrador de impostos rico, que convertido, simplesmente devolveu o que pegou a mais. Ele não fez voto de pobreza, apenas reparou o dano causado.

Se lesse mais a Bíblia, também saberia que Jesus não andou descalço. Sim, ele era simples e não se dedicava à riqueza, terras, exércitos e tudo mais, pois seu Reino não é deste mundo. Isso significa que, seu reino não se fundamenta nas coisas que este mundo vê como necessárias para que se haja um reino. O Reino de Deus não é de pobreza, mas de uma riqueza que não se estabelece na matéria. Para tanto, dinheiro não é um problema, ou algo a ser evitado, mas a ser dedicado corretamente a serviço de Deus. A tensão não é ter dinheiro ou não, mas ter Deus como fundamento de sua segurança e satisfação. Ou sua satisfação está em Deus, ou é um idólatra. Ou você ama a Deus, ou às riquezas. Comunas amam tanto as riquezas, que não suportam ver aqueles que a têm, sempre entendendo que roubaram dos outros – talvez porque seja assim que comunas ficam ricos (não comunas também fazem, mas comunas ricos são puro estelionato): enganando, desviando, roubando e etc.

Quando ele entra no templo, ele não age como um black block. Estes destroem o que não lhes pertence e desvirtuam manifestações legítimas e pacíficas. Jesus estava em sua casa e expulsava aqueles que a destruíam, ou seja, ele queria preservar e não destruir. E mais, para sua informação, já que seu desconhecimento de algo que tanto fala é assombroso, o templo era de Herodes e não o templo de Salomão. Este fora destruído séculos antes, na ocupação babilônica. Isso afasta Jesus da figura nefasta e criminosa de Maringhella.

Entenda: Jesus andava cercado de gente necessitada. Não eram pobres, mas necessitados de toda forma. Ele curava, aconselhava e falava a verdade, mas não era conivente com seus pecados. Além de abençoá-las com cura e perdão, deixava claro que não deveriam pecar mais. Ele tanto odiava o que essas pessoas faziam, que entregou sua vida para pagar por essas coisas. Você está me dizendo que comunista quer ir pra cadeia no lugar do ladrão? Você está me dizendo que comunista quer tomar o lugar do necessitado? Com certeza não. Comunista não toma o lugar de ninguém, toma o que a pessoa construiu e finge distribuir, deixando todos na miséria e uns poucos muito bem. 

Sua graça em atender as pessoas sem nada cobrar vem de sua posição. Como Deus que é, Jesus não tem nada a receber dos necessitados. Não há nada que leprosos, cobradores de impostos e prostitutas poderiam dar a Jesus – nem mesmo reis e imperadores. Ele, em um conceito que comunista conhece pouco, deu de graça. Comunista não dá nada de graça, toma de todos e dá a quem bem entende. Não há mais médicos nisso, pois todos morrem de fome no comunismo. Jesus não encaminhou ninguém a outros além de si mesmo. Comunista, encaminha todos para longe de si, pois gostam apenas de alardear igualitarismos, mas só o fazem com o que pertence aos outros. 

Ao transformar água em vinho, fez o que o Salmo 104.15 já reconhecia. Neste salmo, Deus é louvado como o provedor de todas as coisas, desde as mais necessárias, até as que dão prazer ao homem. Deus não é contra festas, pelo contrário, as ordenou no pentateuco. Jesus entregou algo para dar prazer àqueles convidados, não para lhes tirar o juízo e fazê-los entregarem-se a viagens – é só ler a história toda, para notar que eles perceberam a diferença entre os vinhos, coisa que bêbado algum conseguiria distinguir. Já comunas, não distinguem a mão direita da esquerda. Vivem numa viagem utópica, que não são capazes de aplicar em suas próprias vidas – a não ser no discurso.

O resumo de seu desconhecimento é a prova de que o Brasil deve rejeitar novamente a esquerda: gostam de causar problemas, drogas, quebrar coisas, bandidagem, distorções e preconceitos. 

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Autor: Rev. Ricardo Moura Lopes Coelho
Divulgação: Bereianos
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A Parábola da Cordeirinha e os Padrinhos dos “Pais de Pets”

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Introdução

Há exatamente uma semana publiquei um pequeno artigo a respeito da atual prática de dispensar aos animais de estimação o mesmo tipo de tratamento e afeto destinados aos nossos filhos.[i] Homens e mulheres que se denominam “pais e mães de pets” e que, com base nisso, praticam as coisas mais absurdas, desde aniversário do bichinho de estimação até a concessão do sobrenome da família ao animal.

Meu argumento contra essa prática se baseou nas doutrinas da Trindade e da criação. O relacionamento entre as pessoas do Pai e do Filho, bem como a igualdade de essência define quem o homem deve considerar como seus filhos. De igual modo, o fato de o homem ser criado à imagem de Deus, conforme a sua semelhança, faz com que exista um abismo ontológico entre o ser humano e os animais. À parte da classificação biológica dos reinos vegetal, mineral e animal, a Escritura não classifica o homem como “animal”, mas como “alma vivente”, um ser que porta a imagem de Deus. Assim, é completamente inapropriado que animais de estimação sejam chamados e tratados como filhos. Inclusive, é bom que se diga que a Bíblia faz distinção entre o ser humano e os animais: “Disse o SENHOR: Farei desaparecer da face da terra o homem que criei, o homem e o animal, os répteis e as aves dos céus; porque me arrependo de os haver feito” (Gênesis 6.7; conferir 7.23 e Jeremias 51.62).

Contudo, não tardou para que defensores da prática e relativistas bíblicos começassem a tergiversar na busca por alguma brecha que justificasse o seu modo de agir. Um argumento apresentado se baseia numa passagem das Escrituras, e é tal argumento que me impele a escrever este breve artigo. É necessário afirmar que a tentativa de encontrar na Escritura uma abertura para a prática poderia me levar a elogiar o intento, uma vez que tais pessoas estariam desejando agir com base na Escritura. Não obstante, o contrário é que é verdade. Elas continuam desejando seguir as inclinações dos seus corações. Estão apenas usando a Bíblia como pretexto.

Sem mais delongas, vamos à passagem.

2 Samuel 12.4

A passagem diz o seguinte: “O SENHOR enviou Natã a Davi. Chegando Natã a Davi, disse-lhe: Havia na cidade dois homens, um rico e outro pobre. Tinha o rico ovelhas e gado em grande número; mas o pobre não tinha coisa nenhuma, senão uma cordeirinha que comprara e criara, e que em sua casa crescera, junto com seus filhos; comia do seu bocado e do seu copo bebia; dormia nos seus braços, e a tinha como filha. Vindo um viajante ao homem rico, não quis este tomar das suas ovelhas e do gado para dar de comer ao viajante que viera a ele; mas tomou a cordeirinha do homem pobre e a preparou para o homem que lhe havia chegado”.

O argumento utilizado é que esta passagem bíblica ensina que animais de estimação podem ser tratados e considerados como filhos, afinal de contas, o homem pobre da passagem havia comprado uma cordeirinha e a tratava como filha. Ela vivia com os seus filhos, denotando igualdade. Ela comia do seu prato e bebia do seu copo. Ela dormia nos braços do homem e era tratada como filha. O argumento pode ser esboçado em forma de um silogismo:

PREMISSA MAIOR: Se a Bíblia contivesse ao menos um exemplo de um animal sendo tratado como filho, seria lícito fazer o mesmo com os nossos animais.

PREMISSA MENOR: A Bíblia apresenta o exemplo de um homem que tinha uma cordeirinha e a tratava como filha.

CONCLUSÃO: Logo, animais de estimação podem ser tratados como filhos.

Trata-se de um argumento lógico bem construído. Não obstante, é um argumento falacioso, pois se fundamenta numa péssima hermenêutica. O argumento desconsidera, por completo contexto histórico, bem como o gênero literário da passagem em questão. Assim, é preciso interpretar devidamente a passagem, a fim de ficar evidenciado que a mesma não tem como propósito fornecer o fundamento para a atual prática dos “pais e mães de pets”.

A primeira verdade que precisa ser afirmada a respeito da passagem de 2Samuel 12.1–4, é que ela é uma parábola.[ii] Esta informação é crucial para entendermos a passagem.

Uma parábola nada mais é do que “uma narrativa breve que exige uma reação do ouvinte. No que diz respeito ao gênero, as parábolas são histórias realistas que abordam situações cotidianas”.[iii] Herbert Lockyer, um erudito estudioso das parábolas da Bíblia afirma que existem duas ideias presentes na raiz do termo grego παραβολή: “‘representar ou significar algo’; ‘semelhança ou aparência’. Esse termo grego significa ‘ao lado de’ ou ‘lançar ou atirar’, transmitindo a ideia de proximidade, num cotejamento que visa a verificar o grau de semelhança ou de diferença. Uma ‘semelhança’ ou ‘pôr uma coisa ao lado da outra’”.[iv] Assim, ao contar a parábola, Natã fará uma comparação entre a história e a realidade.

É preciso compreender que, apesar de ser uma história realista, uma parábola não é uma história real. Apesar de fazer uso de elementos do cotidiano das pessoas, as parábolas não eram histórias reais. O Dr. Paulo Anglada afirma o seguinte sobre as parábolas: “Elas são histórias empregando elementos do cotidiano. Não são fatos reais, mas histórias imaginárias concebidas a partir de aspectos da vida comum, familiares aos ouvintes e relacionados ao trabalho, religião e vida social e doméstica”.[v] Dessa maneira, como coloca, Köstenberger e Patterson: “Provavelmente nunca houve, por exemplo, nenhum estalajadeiro ou ‘bom samaritano’ históricos”.[vi]

Se as parábolas não apresentam fatos, então, qual o seu propósito? Qual o seu objetivo? Em primeiro lugar, as parábolas possuem um propósito didático. Elas são concebidas para ensinar determinada lição espiritual ou moral a um grupo de pessoas. Caso a lição fosse apresentada de maneira proposicional, em forma de proposições teológicas ou morais, dificilmente conseguiria captar a atenção do seu público. Lockyer diz: “Se Natã tivesse entrado no palácio real e, de forma direta e imediata, censurasse a culpa do rei decretando a sentença devida ao seu pecado, é pouco provável que Davi desse ouvidos. O tratamento direto e franco da questão talvez fizesse o rei se irar e o impedisse de se arrepender”.[vii] Assim, as parábolas se prestam a esse propósito. Os ouvintes rapidamente se identificavam com o conteúdo da história e permaneciam atentos até o fim. O erudito Moisés Silva diz que, além disso, “as parábolas têm a vantagem de desarmar aqueles que possam ofender-se com sua mensagem, visto que o ouvinte frequentemente tem que esperar até o último momento da história para descobrir seu significado”.[viii]

Qual a importância disso para o assunto dos “pais e mães de pets”? Simples. A passagem não está narrando um fato. Ela não está contando a história real de um homem que colocou em prática aquilo que a sociedade e até mesmo muitos crentes dos nossos dias têm praticado. As pessoas não conseguem perceber que estão fazendo uso de uma parábola, uma história apenas e extraindo dela um princípio para fundamentar um comportamento que é diametralmente oposto a doutrinas claras da Escritura, como as doutrinas da Trindade e da criação do ser humano à imagem de Deus. Numa ânsia por continuarem alimentando práticas antibíblicas, elas acabam por trocar aquilo que é certo por algo errado, e tudo isso firmadas numa péssima interpretação textual.

Mas há outro problema em se utilizar a passagem de 2Samuel 12.1–4 para apadrinhar o comportamento dos “pais e mães de pets”.

Ao se interpretar uma parábola é necessário ter o devido cuidado para não se extrair dela mais do que aquilo que, verdadeiramente, é o seu propósito. Anglada nos ajuda com este aspecto da interpretação das parábolas (a citação é longa, mas também é bastante elucidativa):

3. Identifique o foco ou focos centrais da parábola. A diferença principal entre parábolas e alegorias consiste em que as primeiras se propõem a ilustrar apenas uma ou algumas verdades ou lições centrais, enquanto que nas alegorias, cada detalhe é concebido com o propósito de significar alguma coisa, ensino ou pessoa, como ocorre por exemplo em O Peregrino, de João Bunyan. De modo geral, Jesus ilustra apenas uma lição com as suas parábolas (ver Lc 15.7; 18.7; 20.16). Algumas parábolas, entretanto, tais como a parábola do semeador (Mt 13.18–23) e a do joio (em Mt 13.36–43), são tão adequadas para ilustrar as lições que Cristo queria ensinar, que vários detalhes ilustram aspectos dessas verdades. Em geral, entretanto, o intérprete deve ter cuidado para não alegorizar os detalhes de uma parábola, encontrando significados em detalhes da história que não se propõem a ensinar nenhuma verdade em particular. Zuck chama a atenção para o fato de que geralmente Jesus não atribui significado aos detalhes das suas parábolas. Como exemplo, ele cita a parábola da ovelha perdida (Lv 15.3–7). Apesar de obviamente apontar para Jesus (o pastor), para pecadores perdidos (a ovelha perdida) e para os crentes (as 99 ovelhas), nada indica que detalhes, tais como o deserto, o ombro do pastor, sua casa, seus amigos e vizinhos, tenham qualquer significado.
4. Observe indicações explícitas e implícitas do propósito da parábola. Às vezes, a própria parábola indica explicitamente o seu propósito — geralmente no início ou no final — como ocorre na parábola do juiz iníquo (Lc 18.1–8). Logo no primeiro versículo, é dito que o propósito da parábola é demonstrar “o dever de orar sempre e nunca esmorecer” (cf. também o propósito da parábola das bodas, em Mateus 22.14). Quando não há indicação explícita do significado ou propósito da parábola, o intérprete deve observar o seu contexto-histórico literário. Frequentemente, a circunstância em que a parábola é proferida, uma pergunta, comentário ou explicação, logo antes ou depois da parábola, ajudam o leitor a compreender o seu propósito ou significado.[ix]

Por exemplo, na parábola do credor incompassivo muitas pessoas acabam afirmando que ela ensina que é possível perder a salvação depois de a termos recebido, pois a parábola fala do rei concedendo perdão ao homem que lhe devia dez mil talentos, porém, anulando esse perdão posteriormente. O que as pessoas deixam de considerar é que o propósito da parábola não é ensinar isso. A parábola tem o objetivo de nos ensinar a respeito de perdoarmos nossos irmãos ilimitadamente, uma vez que nossa dívida em relação a Deus é infinitamente maior do que a dívida que qualquer pessoa tenha conosco (Mateus 18.23–35). Muitas pessoas erram na interpretação das parábolas porque as desassociam do seu contexto histórico, e isso jamais deve ser feito. No caso da parábola do credor incompassivo, o contexto histórico pode ser aferido nos versículos 21–22: “Então, Pedro, aproximando-se, lhe perguntou: Senhor, até quantas vezes meu irmão pecará contra mim, que eu lhe perdoe? Até sete vezes? Respondeu-lhe Jesus: Não te digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete”.

De igual modo, dizer que 2Samuel 12.1–4 fornece o fundamento para tratarmos nossos animais de estimação como filhos é violentar o propósito da parábola. Devemos perguntar: Qual o propósito de Natã ao contar essa parábola ao rei Davi? Por acaso, Natã desejava ensinar Davi a dormir com seus animais de estimação, deixar que eles comessem do seu prato e bebessem do seu copo, além de fazê-los irmãos dos seus verdadeiros filhos? É absurda e desonesta qualquer sugestão nesse sentido. O contexto histórico da parábola da cordeirinha é claro: os pecados cometidos por Davi, seu adultério com Bate-Seba e o assassinato de Urias (2Samuel 11). O capítulo 11 termina com a afirmação de que, “isto que Davi fizera foi mal aos olhos do SENHOR” (v. 27).

A parábola, então, foi contada por Natã para levar Davi a reconhecer a sua culpa diante de Deus. Ao contar a história do homem e sua cordeirinha, o único objetivo de Natã era extrair a confissão: “Pequei!”, de Davi. Natã não tinha a menor ideia de que, um dia a história que contou seria usada para defender uma tolice. Novamente citando Moisés Silva: “O ponto aqui é que as parábolas devem ser entendidas historicamente, isto é, identificando-se as situações específicas em que elas foram usadas”.[x]

Sinceramente, causa-me espécie o caráter pueril de se usar a passagem de 2Samuel 12.1–4 para defender tamanha insensatez. Insisto em dizer que as pessoas desconsideram o que passagens e doutrinas claramente ensinadas nas Escrituras ensinam, a fim de agarrarem a deturpações de passagens que nada têm a ver com aquilo que corações pecaminosos concebem. Paulo Anglada dá o alerta: “Finalmente, é importante verificar se outras passagens bíblicas ensinam a verdade que o intérprete pensa que a parábola ilustra. Como regra, parábolas não devem ser usadas como base doutrinária, mas como ilustrações de verdades ensinadas em outras passagens bíblicas”.[xi]

Consideração Final

Depois de todo o arrazoado acima, só resta dizer uma coisa em relação a quem procura usar a parábola da cordeirinha para ensinar que animais de estimação podem ser tratados como filhos. Como afirmou o reformador João Calvino: “É lícito concluir que a imaginação do homem é, por assim dizer, uma perpétua fábrica de ídolos”.[xii]

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Notas:
[i] O artigo pode ser lido aqui e aqui.
[ii] Herbert Lockyer. Todas as Parábolas da Bíblia. São Paulo: Vida, 2006. p. 39.
[iii] Andreas J. Köstenberger e Richard D. Patterson. Convite à Interpretação Bíblica: A Tríade Hermenêutica. São Paulo: Vida Nova, 2015. p. 396.
[iv] Herbert Lockyer. Todas as Parábolas da Bíblia. p. 9.
[v] Paulo Anglada. Introdução à Hermenêutica Reformada: Correntes Históricas, Pressuposições, Princípios e Métodos Linguísticos. Ananindeua, PA: Knox Publicações, 2006. p. 210.
[vi] Andreas J. Köstenberger e Richard D. Patterson. Convite à Interpretação Bíblica. p. 396.
[vii] Herbert Lockyer. Todas as Parábolas da Bíblia. p. 40.
[viii] Walter C. Kaiser Jr., e Moisés Silva. Introdução à Hermenêutica Bíblica. São Paulo: Cultura Cristã, 2002. p. 104.
[ix] Paulo Anglada. Introdução à Hermenêutica Reformada. pp. 212–213.
[x] Walter C. Kaiser Jr., e Moisés Silva. Introdução à Hermenêutica Bíblica. p. 106.
[xi] Paulo Anglada. Introdução à Hermenêutica Reformada. p. 213.
[xii] João Calvino. As Institutas da Religião Cristã. 1.11.8. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. p. 107.

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Autor: Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima
Fonte: Medium
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