Você não precisa de religião para saber o que é certo e errado!

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Por Felipe Cruz


Muitas vezes quando evangelizamos, ouvimos a famosa frase: “Eu não preciso de religião para saber do que é certo e do que é errado”. O cético, ateu ou irreligioso nem imagina que a nossa resposta vai ser: "Exatamente!". Qualquer pessoa que crê na Bíblia pode verificar facilmente que Paulo, no capítulo 2 do livro de Romanos, vai falar que até mesmo os descrentes possuem uma lei moral escrita nos seus corações. Ele capacitou todos a conhecerem o que é certo e o que é errado. Ser um filantropo é correto; torturar bebês por diversão é errado. Preservar o meio ambiente é correto; estuprar uma mulher é sempre errado. A pergunta certa, então, seria: “De onde vem essa coisa chamada ‘moral objetiva’? Qual a base, o alicerce para essa moral? Qual a melhor explicação para a origem e a existência dela?”. 

Deus é a única explicação para os padrões morais objetivos. Para que existam enunciados morais universais conhecidos por todos os homens em todas as culturas, em todas as épocas, a única explicação plausível é a de que um Legislador universal tem imposto tais valores, do contrário, o estupro só seria errado se o próprio estuprador achasse que era errado. Ou então ele poderia apenas repetir a outra velha frase que a gente sempre ouve: “É errado para você, mas não é errado para mim”. O cristão, portanto, não é moral por medo ou por fraqueza. Apenas reconhecemos, em sóbrio diagnóstico, que o homem não é a medida de todas as coisas.

Assista o vídeo:



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Fonte: Dois dedos de Teologia - Racionalizando #2
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O Cristão pode ouvir música do mundo?

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Neste vídeo o Pr. Dorisvan é entrevistado pelo Missionário Paulo Ricardo e tenta responder uma das questões mais intrigantes no meio evangélico: é lícito ao cristão ouvir "música do mundo"?

Usando argumentos do Reformador João Calvino, o Pastor diz que mesmo os descrentes podem, pela graça comum de Deus, fazer poesias e cantar músicas que expressam a verdade. E visto que toda verdade procede de Deus, não devemos rejeitá-los, porquanto o mesmo procede de Deus.

Assista e tire suas conclusões.



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Fonte: Papo Reformado
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A Graça Comum e o Mandato Cultural levam ao mundanismo?

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Por 
Leonardo Verona


Muitos acusam Abraham Kuyper e o denominado “Neocalvinismo” de introduzirem o mundanismo no seio da igreja quando explicitam o conceito de Graça Comum e a doutrina do Mandato Cultural. Antes de entrar no mérito da questão é importante fazer algumas considerações conceituais e históricas, mesmo que introdutórias.

A alcunha “neo” adicionada ao termo calvinismo refere-se ao movimento iniciado por Abraham Kuyper na Holanda, no século XIX, ao contextualizar as doutrinas reformadas, mormente as calvinistas, à realidade do seu período. Kuyper evidenciou algumas doutrinas que estavam nas entrelinhas ou foram pouco comentadas por Calvino, como o conceito de Graça Comum e do Mandato Cultural. A Graça Comum é definida, de modo geral, como as bênçãos de Deus derramadas a todos os seres humanos, independentemente de suas crenças. O favor de Deus para com todos os seres humanos limita a atuação do pecado no mundo e distribuí diversos dons e talentos para a humanidade. Já a doutrina do Mandato Cultural é conceituada como o mandamento de Deus proferido ao homem, nos capítulos iniciais de Gênesis, para dominar e sujeitar a natureza, e cultivar e guardar o jardim. Este mandato está diretamente relacionado à ideia de produzir cultura, envolvendo todas as esferas sociais da humanidade.

Após estas considerações iniciais, adentremos ao questionamento aduzido pelos críticos do Neocalvinismo contra as doutrinas supracitadas. A crítica baseia-se, de modo geral, que a introdução destes conceitos leva a igreja ao mundanismo. A ideia é que ao aceitarmos que os ímpios podem realizar coisas boas e que os cristãos devem atuar na transformação das estruturas sociais, estaremos negando a antítese existente entre os filhos de Deus e os filhos da perdição, negando a doutrina da depravação total e levando a igreja a um ativismo social, tirando o foco do evangelismo e do segundo advento de Cristo.

Desculpe-me a expressão, mas estes argumentos são uma completa tolice. Primeiro, a doutrina da Graça Comum, tão evidente nas Institutas de Calvino, mesmo que não rotulada com este nome, não nega a antítese, já que apenas reconhece que toda verdade procede de Deus. A negação desta doutrina nos leva a muitos problemas, já que grandes feitos produzidos por ímpios como a cura de doenças, técnicas avançadas de agricultura, grandes obras literárias e etc, deverão ser, inevitavelmente, atribuídos à pecaminosidade humana ou ao diabo, o que é ridículo. Calvino nos adverte em suas Institutas que ao não reconhecermos a verdade aonde quer que ela esteja estaremos correndo o risco de sermos insultuosos para com o Espírito Santo de Deus. 

Segundo, dizer que a Graça Comum é contrária a doutrina da Depravação Total é na verdade assinar um atestado de superficialidade com relação às doutrinas Reformadas! A Depravação Total não afirma que tudo que é produzido pelo ímpio é necessariamente mau e que o ser humano é absolutamente depravado, mas que o pecado afetou todas as áreas da existência humana, tornando o ser humano cego para a realidade de Deus, já que após a queda morremos espiritualmente. O ímpio, pela graça de Deus, pode produzir coisas boas, mesmo que por motivações equivocadas e não reconhecendo que seus talentos provêm de Deus. 

Em terceiro lugar, o Mandato Cultural não leva ao mundanismo, ao contrário, leva a “desmundanização” do mundo, perdoem-me o neologismo. Este mandato não tem como objetivo transformar o mundo para acelerar a volta de Cristo, como asseveram alguns, já que este foi proferido bem antes do primeiro advento. O fulcro do Mandato Cultural é a reconciliação de todas as esferas da vida, possibilitada pela obra vicária de Cristo, com a vontade original de Deus para a sua criação. Logo, a busca do cumprimento deste mandato não leva a um ativismo mundano da igreja, mas sim a verdadeira missão da fé cristã, que é a glória de Deus! Esta missão envolve todas as esferas da vida humana, inclusive o evangelismo. Devemos salientar que a busca por transformação não nos leva a crença de conseguirmos um mundo perfeito aqui e agora, já que esta perfeição só será alcançada na segunda vinda de Cristo. Entretanto, sabemos que o Reino de Deus já é chegado e nós cristãos somos seus cidadãos e embaixadores, logo não podemos nos conformar com as injustiças deste mundo, mas atuarmos, como base em Cristo, para que todas as coisas glorifiquem a Deus. Não podemos fechar os olhos para todo o mal existente e apenas esperarmos o segundo advento. Isto é uma crueldade, já que as necessidades e os problemas são prementes.

Logo, estas doutrinas, ao contrário do que seus críticos afirmam, não levam ao mundanismo, mas o evita, já que temos uma compreensão de mundo integral, fundada no logos que é Jesus Cristo.

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Calvino e a semente da religião

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Por Thiago Oliveira

Introdução

João Calvino, foi o mais proeminente teólogo do século XVI. Lutero, embora muito respeitado pelo reformador de Genebra, e também sendo um exímio doutor no campo da teologia, não foi capaz de superá-lo em produção e em profundidade. Se Lutero foi um instrumento de Deus para levantar a sua voz contra os abusos da Sé Romana, Calvino foi o grande sistematizador da teologia reformada. Foi um exímio compilador e sistematizador das doutrinas defendidas pelo protestantismo, fortemente influenciado pelo monergismo agostiniano. 

Com apenas 26 anos de idade, Calvino publicou a sua obra mais importante, As Institutas da Religião Cristã, ou simplesmente, As Institutas. A importância deste livro para a Cristandade é imensurável, pois se trata de um apuradíssimo tratado teológico e sistemático (aqui sistemático não se refere ao sentido moderno do termo). Todavia, a literatura calvinista não se resume as Institutas. Ele produziu catecismos, uma breve confissão de fé e diversos comentários bíblicos.

O primeiro capítulo das Institutas fala sobre o conhecimento de Deus e a forma com que os homens chegam a este conhecimento. Obviamente, Calvino parte da premissa revelacional para afirmar que os homens só podem achegar-se a Deus a medida que Ele se revela aos homens. Para a Teologia, existem dois tipos de revelação: A Específica e a Geral.

A Revelação Específica é aquela que tem por base a revelação por meio da Escritura, que é a Sua Palavra e de Cristo, que é a própria Palavra. Já a Revelação Geral é aquela que está manifesta nas obras da criação, da Providência e no coração dos próprios homens. 

O objetivo deste texto é explorar o entendimento calvinista acerca deste segundo tipo de revelação, que é a geral. Calvino dá um nome específico para ela, chamando-a de “semente da religião” ou o “sentido da divindade”.

A semente da religião

Quando inicia as Institutas com a temática do conhecimento de Deus, João Calvino nos dá uma mostra de que a centralidade da relevação domina o seu pensamento. E a primeira frase deste primeiro capítulo é a seguinte: “A soma total da nossa sabedoria, a que merece o nome de sabedoria verdadeira e certa, abrange estas duas partes: o conhecimento que se pode ter de Deus, e o de nós mesmos.” (CALVINO, 2006 p. 55).

A pergunta que muitas vezes pode surgir é a de qual conhecimento ocorre primeiro, se o acerca Deus ou o acerca de nós mesmos. Todavia, o que Calvino enfatiza é que ambos são verdadeiros. Não há como conhecer a Deus sem o autoconhecimento. Mas também ninguém poderá se conhecer sem considerar a face de Deus. Não são dois níveis de conhecimento, onde primeiro eu conheço um e depois alço o degrau para o próximo. Os dois são duplamente desassociados, por isso são chamados de conhecimento duplo de Deus (duplex cognitio dei). 

Este conhecimento duplo está presente em cada ser humano. Nenhum homem está isento de fazer “negócios com Deus” (negotium cum Deo). Calvino acreditava e ensinava que dentro de cada indivíduo Deus plantou uma percepção dEle. Esta “semente” não estava limitada ao coração humano, ela também foi “plantada” nas obras da criação. Deus é visto como sendo um trabalhador (Opifex) que fixou diversas evidências de Sua Glória em todo o Universo por Ele criado e regido.

A natureza que revela a divindade exige do homem uma resposta dentre duas possíveis: piedade e idolatria. Daí o homem não fica neutro, ou ele adora ao Deus verdadeiro, em amor e reverência, ou forja ídolos e se curva a deuses criados. Daqui concluímos que Calvino expõe uma teologia puramente natural, mas ela só serve para tornar os homens indesculpáveis diante do quadro da idolatria.

Porém, nada é mais evidente dessa “semente da religião” do que a própria idolatria. O sentido religioso existente na humanidade seria uma prova cabal de que existe em nós um senso de divindade. Tal percepção foi dotada aos homens afim de refutar a alegação daqueles que se disserem ignorantes e por isso não glorificaram ao Senhor da Criação, Deus único e verdadeiro.

Calvino (2006, p. 58) escreve o seguinte: “Portanto, visto que desde o princípio do mundo não há região, nem cidade, nem mesmo casa alguma que não tenha nada de religião, nesse fato nós temos uma confissão tácita de que há um senso de Divindade gravado no coração de todos os seres humanos”.

Aqueles que negam o Divino, na verdade O negam por temor. Os homens até tentam se esconder de Deus, tentam apaga-lo de suas mentes, mas na percepção calvinista, o próprio Deus, com zelo pela Sua Glória, os aflige a medida em que tais homem tentam negá-lo.

Conclusão

Todo o segmento reformado irá concordar com a ideia da “semente da religião”. Mas visto que ela não é capaz de gerar nada além de condenação para os idólatras, faz-se necessária a revelação presente na pessoa de Cristo. Jesus Cristo é aquele que revela o Deus-Redentor, e não apenas o Deus-Criador. Ele nos apresenta a salvação, daí a necessidade de nos conhecermos e vermos o quão carentes somos dessa salvação que nos é ofertada graciosamente.

Os escritos de Calvino não têm a intenção de nos deixar em completo desespero. Ele aponta para a nossa miserabilidade para depois anunciar a redenção em Cristo. Assim prepara a mensagem da salvação, pois para receber as bênçãos do Senhor, faz-se necessário ter a noção de nossa incapacidade e pobreza espiritual. Por isso há a associação entre o autoconhecimento e conhecimento sobre Deus. Porque o desejo do Senhor é que os que são seus sejam salvos e livres do pecado, para assim poder estar em Sua presença e gozá-lO para sempre.

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Referências:
- CALVINO, João. As Institutas. São Paulo: Volume 1, Editora Cultura Cristã,2006.
- GEORGE, Timothy. Teologia dos Reformadores. São Paulo: Edições Vida Nova, 1994.

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Divulgação: Bereianos

Dica: Para um estudo complementar, sugerimos um ótimo artigo acadêmico sobre o tema, publicado na revista Fides Reformata em 2009: Apontamentos Introdutórios sobre a Epistemologia Religiosa de joão Calvino nas Institutas.
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A Cultura Artística sob uma Perspectiva Reformada

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Por Thomas Magnum
               

Ao discorrermos sobre arte no campo da cosmovisão cristã reformada, devemos inicialmente compreender a importância de um correto posicionamento teológico sobre o assunto. Segundo o conhecido historiador da arte Hans Rookmaaker, a arte deve ser feita não por amor a arte, nem por amor a entronização do artista, mas, para glória de Deus [1]. Partindo desse principio, que é sem sombra de dúvida evidente desde a era dos reformadores, onde podemos ler nos antigos escritos, tanto de Lutero como de Calvino, o entendimento correto sobre a arte como dom de Deus é que deve ser devolvida a ele. No entanto, ao voltarmos nosso olhar, tanto para o período renascentista quanto o iluminista, a concepção dada à arte desde suas escolas mais famosas como o Impressionismo, Pontilhismo, Art Nouveaux, Simbolismo, Primitivismo, Expressionismo, Cubismo, Abstracionismo e Construtivismo, todas estas decorrentes dos séculos IXX e XX e também o Dadaísmo, Surrealismo e Expressionismo Abstrato só para citar algumas, são as bases para o atual desenvolvimento artístico. Trabalhando nesse período da historia contemporânea, após a revolução francesa, observamos que tais insigths são resultado de um clamor da alma do homem em se encontrar, e se achar, em se realizar. No entanto, essa procura nas artes não pode ser o ponto final dessa busca, porque a busca pelo belo em si não promove o devido resultado de satisfação, por isso o artista sempre continua fazendo arte, essa satisfação plena não existe. Tomando como exemplo o surrealismo que, inspirado nos escritos de Freud, materializou através da arte o mundo surreal residente no homem, trouxe as ânsias humanas certas doses de desespero, também que, diametralmente, o conduziu a uma inválida jornada por resultados insatisfatórios e inconclusos no que se refere a nobreza de sua capacidade e a satisfação plena em si mesmo, essa satisfação plena só pode ser alcançada em Deus, a arte conduz o homem ao supremo criador, no entanto, fora da esfera da glória ela é condenatória ao homem.

Nas Institutas da Religião Cristã do reformador João Calvino, observamos:

... E assim na consciência da nossa ignorância, fatuidade, penúria, fraqueza, enfim, de nossa própria depravação e corrupção, reconhecemos que em nenhuma outra parte, senão no Senhor, se situam a verdadeira luz e sabedoria, a sólida virtude a plena abundância de tudo que é bom, a pureza da justiça, e daí somos por nossos próprios males instigados à consideração das excelências de Deus. Nem podemos aspirar a ele com seriedade antes que tenhamos começado a descontentarmos de nós mesmos. [2]

Calvino versa no livro I sobre a semente da religião, que só é possível o homem conhecer a si mesmo se conhecer a Deus:

... O Verdadeiro e sólido conhecimento consta de duas partes: o conhecimento de Deus e o conhecimento de nós mesmos...

Essa compreensão é muito importante para que estabeleçamos uma sólida teologia sobre a arte. A expressão artística deve ser voltada para glorificação do soberano Deus e não a arte pela arte ou por amor a arte [3]. 

Ao chegarmos no período cibercultural, que é nossa pauta, percebemos como a arte popularizou-se com mais força, inclusive, mais do que a revolução industrial que levou a arte a um contexto mercantil e a popularizou. A internet nos deu a possibilidade de irmos ao museu do louvre sem sairmos de casa, temos a possibilidade de assistirmos congressos sobre conjunturas artísticas em Madri ou Viena da sala de nossa casa. O mundo artístico está em nossa sala, em nossa tela. Verdade é que os protestantes são desconhecedores das grandes contribuições que cristãos deram ao mundo das artes, como Johann Sebastian Bach assinava ao fim das partituras – S.D.G – Soli Deo Gloria [4].

Como o pensamento artístico no mundo teve imensa contribuição de Cristãos e muitos deles protestantes, essa revolução artística que experimentamos hoje pela internet deve nos levar a dois pontos de reflexão: O que tem promovido o atual movimento gospel e qual é a finalidade da atual arte cristã.

O Que tem Promovido o atual movimento gospel?

Youtube, Faceboock, Myspace, Twitter e tantas outras redes que tem surgido, tem sido uma útil plataforma de propaganda do trabalho artístico, essa base leva a uma congratulação artística convergente e emergente para um cenário segmentado no meio fonográfico. Embora atualmente o mercado gospel seja de interesse dos grandes conglomerados empresariais, os cristãos devem sim apoiar o desenvolvimento artístico em nosso meio, as crianças devem ser estimuladas as artes e as Igrejas devem apoiar esse crescente interesse de jovens e crianças em relação à prática artística. Lemos no livro do Êxodo: 

"Eis que eu tenho chamado por nome a Bezalel, o filho de Uri, filho de Hur, da tribo de Judá, e o enchi do Espírito de Deus, de sabedoria, e de entendimento, e de ciência, em todo o lavor, para elaborar projetos, e trabalhar em ouro, em prata, e em cobre, e em lapidar pedras para engastar, e em entalhes de madeira, para trabalhar em todo o lavor." Êxodo 31:2-5 

Notamos que o próprio Deus dotou Bezalel com a capacidade artística, para Seu louvor, para Sua glorificação. Infelizmente não é o que observamos no atual movimento gospel, ou melhor, na indústria gospel, que tem feito arte pela arte por amor a arte e não para glória de Deus. Shows que promovem a idolatria, onde honram o Senhor com lábios, mas, o coração está distante de Deus. 

Qual é a finalidade da atual arte cristã?

Em seu livro sobre a cosmovisão cristã do calvinismo, o renomado teólogo Abrahan Kuyper [5] nos mostrará com clareza que a arte cristã deve ter um propósito teleológico, deve ter um propósito final, a arte promovida por cristãos deve ter como finalidade a gloria de Deus. Tanto na música, nas artes plásticas, em artes visuais nas suas várias vertentes e as demais manifestações do estético devem regar um coração compungido e contrito em agradar o criador de todas as coisas.

Por isso, se a arte cristã não estiver regada por esse sentimento de temor e adoração, não podemos chama-la de cristã. Além do fator interior e da função teleológica da arte, não podemos deixar de sublinhar a precisão doutrinária da arte cristã. Ao observarmos, por exemplo, a questão do estético, podemos destacar algumas coisas interessantes tomando o livro do Apocalipse como base.

O livro do Apocalipse foi escrito em um estilo literário, o estilo apocalíptico, como os livros poéticos de Jó, Salmos e Cantares. O estilo literário é uma forma artística e uma manifestação do belo. O belo é a manifestação, ainda que limitada, da glória de Deus. No exemplo que tomamos, sabemos pelos conhecimentos históricos que João não inventou o estilo apocalíptico, na verdade, temos fontes antigas do estilo. No Antigo Testamento temos o livro de Ezequiel, Daniel e Zacarias que esboçam um estilo apocalíptico. Aonde chegamos com isso? Que a arte é uma manifestação da graça comum e deve ser devotada a Deus para sua glória. 

O desenvolvimento cultural pela web tem sido de grande valor para os homens e também para a igreja, mas, a cultura cristã deve ser para a glória de Deus, e não dos homens ou instituições. Se isso for feito não há nada de dessemelhante a arte desse século, que entroniza a arte e o amor a arte, que coloca o homem sendo superior a manifestação artística e não Deus como o doador e o sustentador de tais capacidades.

Soli Deo Gloria

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Bibliografia:
[1] A Arte não precisa ser justificada, Ed. Ultimato
[2] Institutas da Religião Cristã, Ed. Unesp
[3] O Conceito Calvinista de Cultura, Henry R. Van Til, Cultura Cristã
[4] Se Jesus não tivesse nascido, D. James Kennedy, Ed. Vida
[5] Calvinismo, Abrahan Kuyper, Ed. Cultura Cristã

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Fonte: Bereianos
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O país da Copa: um país que vive de aparência

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Por Thiago Azevedo

Você sabe o que é viver de aparência? A resposta que vem à mente não pode ser outra – É o Brasil sediar uma copa. Um país com tanto déficit na educação, saúde, moradia... Um país que ainda detém altos índices de pessoas sem acesso à alimentação, saneamento básico etc. Este país teria condições de sediar uma copa, ou seria isso, viver de aparência? Pernambuco é um dos estados que receberá jogos do evento mundial na cidade de Camaragibe na Arena Pernambuco. Dizem os economistas, que o investimento direcionado ao evento mor, não resolveria a situação precária do país por completo, mas amenizaria e muito, algumas das carências nacionais mencionadas alhures.

A região metropolitana do Recife, desde ontem, passa por uma situação calamitosa provocada pelo movimento grevista dos policiais militares – estes almejam um reajuste salarial. Vários vândalos saíram às ruas – aproveitando a situação – e espalharam um verdadeiro clima de guerra na cidade, cenas dignas de um filme de terror – diversos arrastões, saques, roubos, tiros, desespero... A cidade de Abreu e lima foi a mais afetada – mais de 20 lojas foram arrombadas e saqueadas, diversos caminhões de carga foram interceptados nos engarrafamentos e saqueados. Os donos de algumas lojas tiveram que sair à guerra e defender a punho seus patrimônios – clima de guerra literalmente. Algo que chama atenção é que os roubos, furtos e arrombamentos dos estabelecimentos, eram cometidos por pessoas que aparentavam ser pessoas distintas – muitas destas bem vestidas, apresentáveis, uns com fardas de colégio, outros enchendo seus respectivos carros com os produtos saqueados... Estas pessoas corriam com o produto do roubo nas mãos e alguns ainda acenavam para as câmeras das emissoras que corajosamente registravam os fatos. Os produtos dos roubos eram os mais diversos – geralmente eletros-domésticos, televisão (talvez para assistir a copa numa TV maior), computadores, fogões, geladeiras etc. Boa parte do comércio amanheceu de portas fechadas por conta da situação calamitosa. Atitude semelhante tomou alguns bancos, bem como, alguns comerciantes informais. O governador em atividade João Lira solicitou ao executivo o auxílio da força nacional e o aporte do exercito brasileiro nas ruas da capital pernambucana. Os policiais do grupo de ações especiais da caatinga e um reforço policial provindo do estado de Maceió também foram acionados. 

Mas, o que chama atenção nisso tudo, é o comportamento humano. Certa pessoa que reside em Abreu e lima – cidade mais afetada na confusão – contou-me que ouvia claramente seu vizinho, homem honesto e pai de família, chamar seus filhos para juntos praticarem furtos na cidade. Alegava o homem que se todos estavam fazendo eles também poderiam fazer. Lembrei-me de um dito diabólico – a situação faz o ladrão. Como explicar este comportamento? Esta atitude não é viver de aparência também? Particularmente falando, acredito que sim. O ser humano demonstra com esta atitude que não conhece a si mesmo e que há algo dentro dele que pende para o erro – como um carro desalinhado. Isso se dá pela natureza caída que há neste homem, e aliado a isso, um afastamento da pessoa divina – fósforo, gasolina e palha, uma hora ou outra a explosão ocorre. O homem em sua grande maioria, e em qualquer lugar do mundo, necessita de outro homem que o contenha de agir de forma errada, pois há uma tendência no interior do ser humano que leva ao erro. O homem necessita de fiscais que o acompanhe a fim de manter a harmonia ética na cidade. Mas basta estes fiscais se ausentarem para se conhecer quem de fato este homem é – caído e degenerado pelo pecado. Nunca vi os ensinos de Santo Agostinho fazer tanto jus na cidade do Recife – cidade que tanto amo – como nos últimos acontecimentos. Agostinho alega que se não fosse o pecado original não seria necessária a presença destes fiscais, guardiões... Ou seja, a polícia só existe por conta do próprio homem, para fiscalizar o próprio homem cujo pecado original degenerou.

Assim, pois, a humanidade toda seria tão feliz como eram os primeiros homens, quando nem as perturbações anímicas os inquietavam, nem os incômodos corporais lhes causavam mal, que transmitiram a seus descendentes, nem seus descendentes a iniqüidade merecedora de condenação.¹ 

Lembro-me das palavras do professor Marcos Roberto Nunes Costa²  – “Quer saber quem é o homem e conhecê-lo de fato? Tire a polícia das ruas ou do campo de futebol”. Estamos vendo em Recife quem de fato é este monstro chamado HOMEM. Ora, se com polícia já é difícil – o monstro quer nos atormentar – avalie na ausência desta?


Mas, há uma grande contradição nisso tudo. Há pouco, era este mesmo “cidadão” que saia às ruas para protestar, para reivindicar seus direitos, para protestar contra injustiças, contra os políticos corruptos de Brasília e contra os roubos destes. Falavam mal da corrupção que há no nosso país e criticavam o sistema. Logo vem à mente algumas perguntas: quem é você para protestar contra injustiças se você é injusto? Quem é você para protestar contra corrupção se você é corrupto? Quem é você para falar de ladrões quando você é tanto quanto? Desculpem-me todos vocês que participaram desta vergonha na capital de nosso estado, mas acredito que quando vocês saem às ruas para protestar e fazer manifestações, isso não passa de viver de aparência!!

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Notas:
[1] De civ. Dei., XIV, 13, 1 – Cidade de Deus
[2] Ex presidente da Sociedade Brasileira de Filosofia (2003-2011). Doutor em Filosofia pela PUCRS com área de pesquisa em Filosofia medieval com especialização no pensamento de Santo Agostinho. Atualmente é professor do departamento de Filosofia da UFPE.

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Sobre o autor: Thiago Azevedo além de ser pecador e não merecedor da graça divina, mora em Recife-PE. Crê nas Sagradas Escrituras como sendo sua única regra de fé e prática, adere os princípios da reforma protestante. Casado com Mercia Litian há 7 anos, formado em teologia pelo STPN, graduando em teologia pala Universidade Metodista de São Paulo (EAD), graduando em Filosofia pela UNICAP Congrega na Igreja Evangélica Livre de Olinda-PE.

Divulgação: Bereianos
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Os efeitos colaterais da obra expiatória de Jesus Cristo 4/4

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Por Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima


4 - Dos desígnios de Deus na concessão dessas bênçãos aos réprobos

Fica evidente que, de fato, existem efeitos colaterais advindos da obra expiatória de Jesus Cristo que são desfrutados pelos inimigos da sua cruz. Faz-se necessário, portanto, elucidar qual o desígnio ou quais os desígnios de Deus na manifestação da graça comum e de bênçãos temporais aos réprobos.

Especificamente, dois desígnios podem aqui ser apontados: 1) o benefício dos eleitos; e 2) a indesculpabilidade dos réprobos.

4.1. O benefício dos eleitos

Em primeiro lugar, Deus, ao manifestar a sua graça comum para com os incrédulos através dos efeitos colaterais da cruz de Cristo, tinha em vista o bem dos seus eleitos, aqueles que seriam os beneficiários da salvação. Todas as bênçãos dispensadas sobre os réprobos contribuem para que a Igreja seja mantida segura na sua missão de testemunhar acerca de Cristo. Como foi observado anteriormente, é a partir da manifestação da graça comum que a graça especial pode ser dispensada aos eleitos e erguer a sua estrutura. Como John Murray expressou: “a graça comum provê a esfera de operação da graça especial”.[57] Isso quer dizer que, Deus, em sua soberania, ao abençoar os ímpios age de tal maneira que tais bênçãos concorram para a salvação e preservação do seu povo amado. Considere, por exemplo, a colocação de Wayne Grudem:

De fato, essa razão [apontada em 2Pedro 3.9-10] é verdadeira desde o começo da história humana, porque se Deus quisesse salvar qualquer pessoa fora de toda massa da humanidade pecaminosa, ele não poderia destruir todos os pecadores imediatamente (porque nesse caso não haveria raça humana restante). Ele fez o melhor, escolheu permitir que os seres humanos pecaminosos vivessem por algum tempo, para que tivessem a oportunidade de se arrepender e também porque eles produziriam filhos, o que possibilitaria que as gerações posteriores vivessem, e então ouvissem o evangelho, e assim pudessem se arrepender também.[58] 

Ao comentar o capítulo da Confissão de Fé de Westminster sobre a doutrina da Providência, A. A. Hodge afirma:

Assim também o governo providencial de Deus sobre o gênero humano, em geral, está subordinado como um meio a um fim quanto à sua graciosa providência para com sua Igreja, por meio da qual ele a congrega de cada povo e nação, e faz que todas as coisas contribuam para o bem daqueles que são chamados segundo seu propósito (Rm 8.28), e naturalmente para o mais elevado desenvolvimento e glória de todo o corpo. A história da redenção, através de todas as dispensações – patriarcal, abraâmica, mosaica e cristã –, é a chave para a filosofia da história humana em geral. A raça é preservada, os continentes e ilhas são estabelecidos com habitantes, as nações são elevadas a impérios, a filosofia e as artes práticas, a civilização e a liberdade progridem para que a Igreja, a esposa do Cordeiro, seja aperfeiçoada em todos os seus membros e adornada para seu Esposo.[59] 

É necessário ter em mente que a Igreja está inserida num mundo que “jaz no maligno” (1João 5.19). Assim sendo, para que Deus cumpra o seu propósito estabelecido em Cristo para com o seu povo, é imprescindível que ele refreie o pecado, conceda dons e talentos aos ímpios, adorne a consciência e os corações dos réprobos com chispas da sua lei, a fim de que haja alguma medida de justiça. Todos esses benefícios concedidos aos ímpios têm o objetivo de contribuir com a salvação dos eleitos de Deus e com a progressiva santificação da noiva do Cordeiro. É em virtude disso, que tais bênçãos são corretamente vistas como efeitos colaterais da obra expiatória de Jesus Cristo.

4.2. A indesculpabilidade dos réprobos

Além de ter como objetivo beneficiar os seus eleitos através das bênçãos que, indiretamente fluem da cruz de Cristo, Deus visa aumentar a indesculpabilidade dos réprobos por meio de tais bênçãos. Deus objetiva proporcionar uma demonstração mais vívida da sua justiça através da condenação dos não-eleitos. “Quando Deus repetidamente convida os pecadores a que se acheguem à fé, e quando eles repetidamente recusam seu convite, a justiça de Deus ao condená-los é percebida muito mais claramente”.[60] Isso fica claro quando, em Romanos 2.5, o apóstolo Paulo afirma que aqueles que perseveram na sua impiedade estão acumulando para si mesmos “ira para o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus”.

Na leitura do Salmo 73 isso fica muito claro. Depois de quase resvalarem os seus pés por causa da prosperidade desfrutada pelos ímpios, o salmista Asafe finalmente percebeu o propósito de Deus ao conceder bênçãos aos incrédulos: “até que entrei no santuário de Deus e atinei com o fim deles. Tu certamente os pões em lugares escorregadios e os fazes cair na destruição” (v. 18). Calvino, comentando esta passagem, diz o seguinte: “Agora vejo, diz ele, como procedes em tua providência; pois, embora os ímpios continuem estáveis por um breve tempo, contudo, estão, por assim dizer, empoleirados em lugares escorregadios”.[61] 

Por essa razão, a afirmação exagerada de David Engelsma expressa uma faceta dessa verdade:

Se os pregadores querem estar livres do sangue de tais incrédulos, eles devem antes proclamar: “Se pensa que é abençoado por Deus, você é um tolo! A ira de Deus está te destruindo com cada dólar que você investe, cada lagosta que come, e cada fôlego que toma! Não existe bênção na incredulidade e impiedade! Nenhuma! Não existe nenhum shalom para o ímpio, nem na eternidade que é vindoura, nem nessa vida! Arrependa-se!”.[62] 

João Calvino também afirma:

Donde sucede, pois, que Deus não só “faz nascer seu sol sobre bons e maus” [Mt 5.45], mas também, quanto respeita às coisas indispensáveis da presente vida, em farta abundância produz assiduamente sua inestimável liberalidade? Daqui certamente reconhecemos que as coisas que são próprias de Cristo e se desdobram de seus membros também para os ímpios, não que lhes seja posse legítima, mas para que mais indesculpáveis se tornem. Certamente, Deus se mostra muitas vezes tão liberal para com os ímpios, que as bênçãos que dele recebem os fiéis ficam obscurecidas; mas tudo isso se lhes converte em fel; tudo se reverterá para sua maior condenação.[63] 

Cada bênção mal utilizada, cada talento usado para outro fim que não a glória de Deus será utilizado como prova da rebeldia e da pecaminosidade dos ímpios. Vê-se, pois, de que forma Deus, na concessão de benefícios espirituais e materiais aos ímpios visa tanto o bem-estar do seu povo quanto a indesculpabilidade dos inimigos da cruz de Cristo.

Considerações finais

O presente trabalho abordou um tema por demais controvertido. Não obstante, em face de todo o arrazoado, algumas questões ficaram bastante claras no que concerne aos benefícios de que os incrédulos e réprobos fazem uso na presente vida.

Diferentemente do que alguns reformados afirmam, tais bênçãos existem. Os incrédulos, de fato, recebem de Deus inúmeros benefícios, os quais são referidos tanto nas Escrituras quanto atestados pela experiência cotidiana. Além disso, tais bênçãos não estão relacionadas a Deus apenas na qualidade de Criador e Sustentador de todas as coisas. Visto que a graça comum promove a esfera de ação da graça especial, tais bênçãos fluem indiretamente da obra expiatória de Cristo.

Depois de tudo, a grande questão é compreender quais as razões que levam Deus a abençoar, muitas vezes de forma tão efusiva, pessoas inimigas da cruz de seu Filho. Como foi observado, ao agir assim, Deus age com um duplo propósito: abençoar os seus eleitos de forma direta e tornar os réprobos mais indesculpáveis. Em sua vontade soberana Deus, através da cruz e de forma indireta, determinou conceder bênçãos aos ímpios, de maneira que o seu propósito salvífico fosse cumprido nos seus eleitos.

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Notas:
[57] Apud in Robert L. Reymond. A New Systematic Theology of the Christian Faith. p. 403.
[58] Wayne Grudem. Teologia Sistemática. p. 555.
[59] A. A. Hodge. Confissão de Fé Westminster Comentada por A. A. Hodge. São Paulo: Os Puritanos, 1999. p. 144.
[60] Wayne Grudem. Teologia Sistemática. p. 556.
[61] João Calvino. O Livro dos Salmos. Vol. 3. São Paulo: Parakletos, 2002. p. 111.
[62] David Engeslma. O Ímpio Aparentemente Abençoado. p. 3. Acessado em 25/08/2011.
[63] João Calvino. As Institutas: Edição Clássica. Vol. 3. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. p. 460. Ênfase acrescentada.

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Fonte: Os efeitos colaterais da obra expiatória de Jesus Cristo, por Alan Rennê Alexandrino Lima, São Paulo 2011. Trabalho apresentado ao Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, em cumprimento dos requisitos do módulo A Obra do Redentor, ministrado pelo professor Dr. Heber Carlos de Campos.

Os efeitos colaterais da obra expiatória de Jesus Cristo 3/4

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Por Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima


3 - Das bênçãos desfrutadas pelos réprobos segundo às Escrituras


Existem algumas passagens nas Sagradas Escrituras que fundamentam o que foi dito até aqui. Algumas, como por exemplo, Salmo 145.9,15-16; Mateus 5.45 e Atos dos Apóstolos 14.14-17 e 17.25-28 podem ser usadas por aqueles que defendem que a graça comum e os benefícios desfrutados pelos ímpios estão fundamentados na criação, não na redenção. Levando isso em consideração, é necessário encontrar passagens que mostrem que os ímpios recebem certas bênçãos, ainda que de forma indireta, por causa da cruz de Cristo. Nesse sentido, destacam-se 1Coríntios 7.14 e Hebreus 6.4-8.

3.1. 1CORÍNTIOS 7.14

A passagem em questão diz o seguinte: “Porque o marido incrédulo é santificado no convívio da esposa, e a esposa incrédula é santificada no convívio do marido crente. Doutra sorte, os vossos filhos seriam impuros; porém, agora, são santos”.

O capítulo 7 da primeira epístola do apóstolo Paulo aos coríntios versa a respeito de várias questões relacionadas ao casamento. No trecho que se estende a partir do versículo 12 o apóstolo orienta aqueles que já são casados. De forma bem específica, ele tem em mente pessoas recentemente convertidas à fé cristã que possuíam cônjuges incrédulos: “Nesses versos Paulo trata de um problema causado pela intrusão do evangelho”.[41] O argumento apostólico é que a parte convertida à fé cristã e salva por Cristo não deveria abandonar o seu cônjuge descrente caso este consentisse em permanecer casado. No versículo 14 Paulo consubstancia o seu argumento apontando para benefícios desfrutados pela parte incrédula em razão da fé do cônjuge crente.

Literalmente, o marido descrente é “santificado” na esposa crente, e a esposa descrente é “santificada” no marido crente. Por “santificar” o apóstolo Paulo não quer dizer que “o cônjuge gentílico tem um relacionamento pessoal com Cristo, pois nesse caso ele não seria mais chamado de incrédulo”.[42] O termo grego não “expressa qualquer mudança interior ou subjetiva”.[43] Charles Hodge afirma que o sentido da afirmação apostólica

Não é que eles [o marido ou a esposa incrédula] se tornam interiormente santos, nem que eles são trazidos sob uma influência santificadora, mas que são santificados por sua íntima união com um crente, da mesma forma como o templo santificava o ouro ligado a ele, ou da maneira como o altar santificava a dádiva colocada sobre ele [...] Então, o marido pagão, em virtude da sua união com uma esposa cristã, embora permanecesse pagão, era santificado; ele assumia uma nova relação; ele era separado para o serviço de Deus, como o guardião dos seus escolhidos, e como o pai de crianças que, em virtude da sua mãe crente, eram filhos da aliança.[44]

Percebe-se, então, que o marido incrédulo desfrutava da bênção de possuir uma esposa crente que, através da sua comunhão com Deus, santificava-o, separava-o para servir ao propósito soberano de Deus, de zelar pelo bem-estar dos membros do povo de Deus que faziam parte da sua família. É preciso salientar que, o marido ou a esposa descrente permaneciam ímpios, incrédulos. A graça comum usufruída por eles não operava a sua salvação.

A conexão com a obra redentora de Cristo se dá exatamente pelo fato de a parte crente ter sido alvo da operação da graça especial de Deus. Somente porque Deus manifestou a sua graça especial a uma das partes é que a outra é beneficiária de alguns dos efeitos colaterais da cruz de Cristo, sendo que a consagração é uma delas.

Ademais, em razão de a mãe ou o pai ser salvo, os próprios filhos desfrutam do benefício dessa santificação. Paulo, ao chamar os filhos de “santos” também não tem em mente que eles são moralmente santos. “Filhos nascidos dentro da teocracia e, portanto, santos, não eram menos concebidos em pecado, e concebidos em iniqüidade. Eles eram por natureza filhos da ira, como os outros (Ef 2.3)”.[45] Contudo, por sua ligação com um pai ou uma mãe crente eles eram abençoados por pertencerem à aliança.

3.2. HEBREUS 6.4-8

O texto em foco diz:

É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro, e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia. Porque a terra que absorve a chuva que freqüentemente cai sobre ela e produz erva útil para aqueles por quem é também cultivada recebe bênção da parte de Deus; mas, se produz espinhos e abrolhos, é rejeitada e perto está da maldição; e o seu fim é ser queimada. 

A primeira observação que deve ser feita a respeito de Hebreus 6.4-8, é que, trata-se, nos dizeres de Geerhardus Vos, de uma “difícil e importante passagem” sobre a aliança de Deus com o seu povo.[46] A razão dessa dificuldade está no fato de o autor da epístola mencionar especificamente o aspecto fenomenológico da religião nessa perícope.[47]

Os “iluminados” de Hebreus 6.4-8 eram pessoas que “abandonaram esta assembleia dos santos”. Eram pessoas não-regeneradas, não-eleitas, incrédulas que durante algum tempo fizeram parte de uma igreja visível, mas que apostataram. Muito se questiona acerca de como pessoas ímpias puderam “provar” de vários benefícios, como por exemplo: 1) do dom celestial; 2) da participação comum do Espírito Santo; 3) da boa palavra de Deus; e 4) dos poderes do mundo vindouro. Como tais pessoas puderam desfrutar, em alguma medida, de bênçãos destinadas àqueles que foram os beneficiários diretos do sacrifício substitutivo de Cristo?

D. Mathewson, no seu artigo intitulado Reading Heb 6:4-6 in Light of the Old Testament, lança luz sobre esse questionamento, ao afirmar que, “a linguagem do autor em 6.4-6 é colorida por referências do AT que aludem e ecoam como citação direta”.[49] De forma específica, Mathewson sugere que a referência àqueles que foram “iluminados” lembra a coluna de fogo que alumiou os israelitas através do deserto.[50] Algumas passagens veterotestamentárias podem demonstrar o ponto. Neemias 9.12,19 diz o seguinte:

Guiaste-os, de dia, por uma coluna de nuvem e, de noite, por uma coluna de fogo, para lhes alumiar o caminho por onde haviam de ir [...] Todavia, tu, pela multidão das tuas misericórdias, não os deixaste no deserto. A coluna de nuvem nunca se apartou deles de dia, para os guiar pelo caminho, nem a coluna de fogo de noite, para lhes alumiar o caminho por onde haviam de ir.

O “dom celestial” lembra o dom celestial do maná, que foi dado por Deus ao seu povo quando este se encontrava no deserto (Êxodo 16.15). Em Neemias 9.15 é dito que o pão celestial foi dado aos israelitas “na sua fome”. Por sua vez, a referência àqueles que “se tornaram participantes do Espírito Santo” ecoa a experiência dos peregrinos do deserto, que “tinham extensiva interação com o Espírito de Deus” [51], como é testemunhado em Neemias 9.20: “E lhes concedeste o teu bom Espírito, para os ensinar; não lhes negaste para a boca o teu maná; e água lhes deste na sua sede”.

Após considerar os elementos descritos em Hebreus 6.4-6, Mathewson conclui: “O autor não está apenas aludindo a textos fragmentados e a vocabulário isolado para apresentar uma retórica colorida, mas por aludir a textos que pertencem a uma enorme matriz de idéias ele está evocando o contexto inteiro e história da experiência de Israel no deserto”.[52] Quando se leva em consideração que os destinatários dessa epístola eram cristãos judeus, essa interpretação se mostra bastante plausível. O autor de Hebreus utiliza a linguagem do Antigo Testamento para descrever um abandono doloroso de uma congregação por parte de algumas pessoas.

Dessa forma, a iluminação recebida, o dom celestial provado e o Espírito compartilhado se mostram bênçãos da graça comum de Deus destinada a pessoas ímpias ou, nas palavras de Charles Hodge, “influências do Espírito concedidas a todos os homens”.[53] Tais pessoas, “tiveram um claro entendimento do juízo de Deus sobre o mundo, das promessas de Deus, o desvendar do mundo futuro; tiveram uma clara distinção do juízo, bem como provaram dos milagres da era apostólica”, afirma o teólogo genebrino Matthew Poole.[54] 

No seu comentário a respeito do versículo 4, João Calvino endossa a opinião de que mesmo os réprobos recebem algumas chispas da luz divina:

Mas aqui surge uma nova questão, como pode que aqueles que fizeram tal progresso venham a apostatar depois de tudo? Pois Deus, isso pode ser dito, não chama ninguém eficazmente a não ser os seus eleitos, e Paulo testifica que eles realmente são seus filhos e que são guiados por seu Espírito (Romanos 8.14) e ele nos ensina que, é um seguro penhor de adoção quando Cristo nos faz participantes do seu Espírito. O eleito também está além do perigo da apostasia final; pois o Pai que o elegeu para ser preservado em Cristo é maior do que tudo, e Cristo promete vigiar por eles de maneira que nenhum pereça. A tudo isso, eu respondo que Deus, de fato, favorece apenas os seus eleitos com o Espírito de regeneração e que, por isso eles são distinguidos dos réprobos; pois eles são renovados segundo a sua imagem e recebem a seriedade do Espírito na esperança da herança futura, e pelo mesmo Espírito o Evangelho é selado em seus corações. Mas eu não posso admitir que tudo isso seja alguma razão pela qual Ele não conceda também aos réprobos algum sabor da sua graça, que Ele não irradie suas mentes com algumas chispas da sua luz, ou não lhes dê alguma percepção da sua bondade, e de alguma maneira grave sua palavra em seus corações. De outra forma, o que viria a ser a fé temporal mencionada em Marcos 4.17? Portanto, existe algum conhecimento mesmo nos réprobos, o qual posteriormente vem a desvanecer, porque não possui raízes suficientemente profundas, ou porque elas murcham ao serem sufocadas.[55] 

O que pode ser apreendido a partir desse comentário é que, de acordo com Calvino, bênçãos fluidas da obra expiatória de Cristo e destinadas diretamente aos eleitos e salvos como, por exemplo, a iluminação, o dom celestial da Palavra e a comunhão no Espírito, podem ser destinadas, ainda que de forma indireta a pessoas ímpias e incrédulas. Como Grudem acertadamente frisa, “a graça especial, que Deus dá aos salvos, leva a maior parte das bênçãos da graça comum aos incrédulos que vivem no campo de influência da igreja”.[56] 

Não perca a última parte nos próximos dias...
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Notas:
[41] G. K. Beale e D. A. Carson (Eds.). Commentary on the New Testament Use of the Old Testament. Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2008. p. 715.
[42] Simon Kistemaker. Comentário do Novo Testamento: 1 Coríntios. São Paulo: Cultura Cristã, 2004. p. 318.
[43] Charles Hodge. 1&2 Corinthians. Edinburgh: The Banner of Truth Trust, 2000. p. 115.
[44] Ibid. p. 116. Ênfase acrescentada
[45] Ibid. p. 115.
[46] Geerhardus Vos. The Teaching of the Epistle to the Hebrews. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1956. p. 28.
[47] Ibid.
[48] Moisés Bezerril. A Queda dos Iluminados de Hebreus 6.4-6. p. 16.Acessado em 18/08/2011.
[49] D. Mathewson. “Reading Heb 6:4-6 in Light of the Old Testament”, In: Westminster Theological Journal. Ed. 61. 1999. p. 214.
[50] Ibid. p. 216.
[51] Ibid. p. 217.
[52] Ibid. p. 223.
[53] Charles Hodge. Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, 2001. p. 981
[54] Matthew Poole. A Commentary on the Whole Bible: Matthew – Revelation. Vol. 3. Edinburgh: The Banner of Truth Trust, 2003. p. 737.
[55] John Calvin. Commentary on Hebrews. Grand Rapids, MI: Christian Classics Ethereal Library, 2000. p. 94. Acessado em 25/Ago/2011.
[56] Wayne Grudem. Teologia Sistemática. p. 554.

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Fonte: Os efeitos colaterais da obra expiatória de Jesus Cristo, por Alan Rennê Alexandrino Lima, São Paulo 2011. Trabalho apresentado ao Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, em cumprimento dos requisitos do módulo A Obra do Redentor, ministrado pelo professor Dr. Heber Carlos de Campos.

Artigo gentilmente cedido pelo autor ao blog Bereianos.

Leia também:
Os efeitos colaterais da obra expiatória de Jesus Cristo 1/4
Os efeitos colaterais da obra expiatória de Jesus Cristo 2/4
Os efeitos colaterais da obra expiatória de Jesus Cristo 4/4 (em breve)
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