Cristianismo e Aborto

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A demanda por aborto não é exclusividade de um único país, mas é comum hoje a todo o mundo ocidental. De um lado, certamente, havemos de reconhecer – e é muito importante que se entenda – que políticas a favor da legalização do aborto têm sido cada vez mais impostas verticalmente, a partir de governantes que seguem agendas políticas conscientemente dentro do processo de subversão cultural do Ocidente; de outro lado, devemos reconhecer que tal demanda é apenas a consequência de um longo processo de entropia cultural do mundo outrora cristão. Falha quem resume o problema apenas ao primeiro aspecto, julgando que tudo não passa apenas de uma militância revolucionária em favor de modelos socialistas; nesse sentido, a igreja muito comumente falha ao negar que exista tal militância, entendendo o problema como exclusivamente cultural. Mas é fato que a agenda revolucionária tem o único propósito de forçar, de impulsionar os resultados desse descarrilamento intelectual e espiritual do Ocidente. Os revolucionários, de certa forma, querem acelerar o processo que muitos deles creem ser a consumação dos tempos do humanismo. A demanda por aborto não surgiu por coincidência: ela é fruto de uma cosmovisão. 

A gnose no contexto eclesiástico brasileiro

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Estou certo de que muito já se comentou e analisou acerca da relação quase simbiótica entre o movimento pentecostal e sua cria teratológica denominada “neopentecostalismo”. Com efeito, há textos excelentes que versam magistralmente sobre essa temática, por exemplo, “O gnosticismo e os pentecostais”, de Michael Horton, e “O pentecostalismo e seus danos à Igreja”, do Pr. Marcos Granconato, de modo que quase se torna desnecessária nossa presente tarefa de radiografar a presença viral do gnosticismo no contexto eclesiástico brasileiro.

A busca cada vez mais ávida por experiências extáticas, transes, teofanias, arcanos e mistérios tornou-se efetivamente a chave hermenêutica para se compreender a caoticidade de alguns segmentos carismáticos – e, de fato, seríamos intelectualmente desonestos caso não afirmássemos que não poucas linhas dentro do pentecostalismo têm realizado um importante trabalho evangelístico, acompanhado de uma capacitação ministerial mais profunda e de uma liturgia mais ordenada. Todavia, o que ainda infelizmente impera é a exacerbação mística, a catarse emocional e a tentativa de ressignificar a “liberdade do Espírito” (Gl 5:1), transformando-a em desordem carnal. Conforme já disse John McArthur, em seu livro Caos carismático, é possível, por vezes, atribuir a certos grupos pentecostais a alcunha de “neo-montanistas” – gnósticos que dualizam os cristãos em duas categorias, espirituais (pneumáticos) e carnais (sárquicos), conforme era costume entre os coríntios, e que reivindicam uma suposta superioridade espiritual mediante um conhecimento (gnosis) exclusivo (na maioria das vezes o domínio da “língua dos anjos”).

No entanto, a gnose não é simplesmente uma heresia deslocada, facilmente erradicável e diagnosticável. Pelo contrário, já nos dizia Charles Hodge que a história da igreja é a constante luta entre a gnose e o que podemos chamar anacronicamente de “calvinismo”, ou dito de outro modo, o eterno embate entre a autonomia e autosoteria humana e heteronomia e heterosoteria provenientes de Deus. Desse modo, a gnose sempre ressurgiu ao longo da igreja, sempre reerguendo-se após ter sido mortalmente ferida; basta, pois, contemplar panoramicamente a história para se deparar com os já citados montanistas, os cátaros ou albigenses, a Cabala no século XII em Provença, e, mais hodiernamente, as modernas ideologias, especialmente o marxismo. Ora, a afirmação de que modernas ideologias e cosmovisões seculares que deliberadamente buscaram esvair os princípios religiosos são, na verdade, movimentos gnósticos chocam, num primeiro momento, a sensibilidade e a racionalidade do homem atual. Entretanto, como já vários cientistas políticos analisaram, as ideologias, em especial os movimentos revolucionários, nada mais são do que heresias gnósticas com um fundo religioso mascarado.

Eric Voegelin dedicou grande parte de sua obra à análise dos elementos ordenadores da História e da sociedade, chegando, por fim, à conclusão de que a “ordem da história (nome inclusive de sua magnífica pentalogia) é a história da ordem”, isto é, a tentativa do homem de alcançar a harmonia entre quatro princípios: Deus, cosmos, homem e civilização. Nesse sentido, Voegelin afirma que a escatologia proposta pelos movimentos revolucionários nada mais é do que uma “imanentização do eschaton”, ou seja, uma tentativa de “terrestralizar” a consumação final cristã, uma busca por criar, aqui e agora, os novos céus e nova terra. Portanto, os movimentos revolucionários são apenas a versão atual da antiga torre de Babel, como já disse Dietrich von Hildebrand em sua obra The New Tower of Babel: modern man’s flight from God [A Nova Torre de Babel: o homem moderno fugindo de Deus]:

O emblema da presente crise é justamente a tentativa por parte do homem de se libertar de sua condição de criatura, de negar sua situação metafísica e de se desembaraçar de todos os laços que o ligam a algo que é maior do que ele. Ora, o homem moderno busca construir uma nova Torre de Babel [Tradução nossa]  

As ideologias revolucionárias negam, portanto, toda forma de transcendência, mutilando, assim, a natureza espiritual do homem. Entretanto, como já disse Herman Dooyweerd – seguindo o pensamento de Calvino, o homem é um ser congenitamente religioso; a Queda não eliminou o sensus divinitatis (o senso da divindade) e a semen religionis (a semente da religião), antes, a obscureceu, corrompendo-a a ponto de transformá-la num impulso idolátrico. Desse modo, as modernas ideologias não são antirreligiosas (embora a maioria seja anticristã), mas, sim, religiões distorcidas, idólatras e que, acima de tudo, depravam a Revelação.


Destarte, todas as ideologias invariavelmente usurpam símbolos transcendentais e escatológicos cristãos para, em seguida, imanentizá-los. Ora, a escatologia marxista, sob o governo de um proletariado abstrato, na qual todas as desigualdades econômicas e sociais desaparecerão – ao mesmo tempo em que todas as potencialidades humanas aflorarão plenamente (nos dizeres de Marx e Engels, um indivíduo pode caçar pela manhã, pescar pela tarde e fazer crítica literária à noite, sem no entanto ser pescador, caçador ou crítico); tal escatologia configura-se como uma versão imanentizada da nova terra. Ou podemos citar ainda a ideia sustentada por alguns vegetarianos radicais, segundo a qual a raça humana eventualmente deixará de consumir carne, adotando uma dieta essencialmente herbívora; tal concepção nada mais é do que uma secularização, um esvaziamento simbólico da descrição feita por Isaías a respeito do novo estado inaugurado pelo Messias: “O lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo se deitará junto ao cabrito; o bezerro, o leão novo e o animal cevado andarão juntos, e um pequenino os guiará” (Is 11:6).

Portanto, não há neutralidade neste ponto: é impossível ao homem escapar de sua condição inerentemente religiosa; as ideologias se sustentam sobre um fundo inegavelmente religioso; e tal constatação parte inclusive de ateus confessos, como John Gray – em seu livro Missa Negra: Religião Apocalíptica e o Fim das Utopias. Assim, a gnose é um elemento muito mais sutil do que primeiramente pode se pensar, até porque não se trata de um ponto isolado na mentalidade secular, mas, sim, uma cosmovisão integral, um modo de contemplar e interpretar a realidade. Nas palavras de David Koyzis, em seu livro Visões e ilusões políticas: uma análise & crítica cristã das ideologias contemporâneas: “[...] as diversas ideologias se baseiam numa visão gnóstica da realidade, atribuindo a origem do mal a algum elemento da criação de Deus e buscando a redenção num outro aspecto da criação” (p. 82).

Em suma, a gnose é uma espécie de inversão da ordem da criação, é a rejeição absoluta da estrutura da realidade tal como criada por Deus. Semelhantemente ao grito de Mefistófeles, no Fausto de Goethe, o gnóstico cria para si mesmo uma espécie de realidade postiça, com uma estrutura engendrada segundo suas próprias preferências, e não segundo as leis eternas de Deus:


       O Gênio sou que sempre nega!
       E com razão; tudo o que vem a ser
       É digno só de perecer;
       Seria, pois, melhor, nada vir a ser mais.
       Por isso, tudo a que chamais
       De destruição, pecado, o mal,
       Meu elemento é integral (GOETHE, Fausto, 2010, p.139, Editora 34).


Porém, alguém pode presentemente indagar-se acerca da relação entre ideologia, pentecostalismo e gnose, bem como a razão desse périplo acima nas várias teorias religiosas e políticas. Ora, nesse momento adentramos num domínio já vislumbrado por alguns, comentado por poucos e raramente criticado, a saber, a presença de  ideologias marxistas dentro de igrejas históricas e formalmente reformadas. Todos são prestos em criticar a gnose descarada nos cultos e práticas pentecostais, mas muito ciosos em apontar os famosos “cristãos esquerdistas” e pastores marxistas dentro das Presbiterianas, Batistas e igrejas reformadas independentes.

Com efeito, ao passo que Roma tem sido assolada pela chamada Teologia da Libertação, nós, protestantes, dado que Deus é hábil para desenvolver cruzes para seus seguidores (A.W. Tozer), somos açoitados pela Teologia da Missão Integral. No entanto, esta corrente é deveras popular somente nos meios teológicos acadêmicos, de forma que, na sua vida prática, nossa eclesiologia se vê afligida por outro flagelo, dissimulado sobre uma máscara de neocalvinismo de Kuyper, a saber, a execrável “liturgia aberta” (assim denominada pelos seus “teóricos”) organicamente unida ao não menos nefando “louvor contemporâneo” (epíteto para canções de teor massivamente sentimentalista emolduradas por melodias homogêneas e simplórias).

Em outras palavras, já é habitual participarmos de cultos presbiterianos e batistas que são regidos não mais por um princípio regulador, mas pela supremacia do sentimentalismo barato; mas não apenas isso – argumentando estarem pondo em prática os princípios de redenção da cultura e graça comum propostos por Kuyper, Bavinck e mais recentemente Richard Mouw, alguns pastores inserem em seus cultos e comunidades versões “samba” ou “reggae” de hinos tradicionais, afirmando que, mediante a redenção realizada por Cristo, até mesmo esses ritmos populares se tornam pertinentes ao culto. Ora, não é nossa intenção presentemente discutir sobre a neutralidade ou não dos ritmos musicais (Michael Horton já tratou disso no seu artigo “Is style neutral?” [O estilo musical é neutro?]), mas sim, analisar se esse era efetivamente o pensamento dos neocalvinistas.

Na verdade, basta uma análise superficial para notar que a aceitação indiscriminada de toda sorte de ritmos sob o pretexto de cumprimento do mandato cultural soa mais como Gramsci do que Kuyper. O receio de postular um parâmetro objetivo do belo e consequentemente uma hierarquia estética tem levado não somente os acadêmicos incrédulos a aceitarem como arte todo tipo de experimentalismo e obras disformes, mas também aos pastores e líderes cristãos a admitirem em suas congregações o relativismo estético marxista, que, como tudo o mais, repudia quaisquer padrões objetivos e imutáveis que possam determinar ou avaliar nosso comportamento ou feitos. E nesse sentido, portanto, são gnósticos ou, no mínimo, intelectualmente desonestos.

Kuyper, em seu livro Wisdom and Wonder: common grace in Science & Art, repudia qualquer forma de relativismo estético; e a redenção da cultura e da arte diz respeito, antes de tudo, à alta cultura (termo cada vez mais raro). Com isso não se pretende dizer que se descarta de antemão qualquer participação ou produção popular, afinal, era notório o cuidado e o empenho de Kuyper em trazer as camadas populares (kleine luyden, a "gente pequena") a uma maior participação política e social. Na verdade, como o próprio teólogo afirmou, para Deus devemos dedicar os melhores frutos de nosso trabalho, incluindo, pois, as mais sublimes produções estéticas. Ora, comparar Hillsong United ou "corinhos de fogo" com os Salmos metrificados de Goudimel ou as composições de Isaac Watts é, no mínimo, sinal de uma completa obnubilação do senso estético – isto para não dizer que se trata de uma depravação do gosto. A liturgia de igrejas que se dizem reformadas deve necessariamente seguir a linha histórica, pois qualquer tentativa de rompê-la, refazendo-a inteiramente, constitui-se antes como ato revolucionário (e, portanto, gnóstico) do que inovador. Nas palavras do teólogo holandês:

Na igreja de Cristo, Ele é o Rei, e é necessário que tudo O sirva. Um organista tocando seu instrumento apenas para si mesmo não compreende, por conta disso, seu chamado; e o cantor que não compõe suas letras segundo a linha histórica da tradição cultual não se santifica, mas peca, caso o som de sua voz sirva apenas para estimulá-lo, e caso, ao conduzir o canto, não se entregue completamente à adoração de seu Senhor e Rei.
Nada é mais irrisório do que coristas cantando como se fossem pássaros, e não pessoas; ou músicos que não sentem absolutamente nada daquilo que estão cantando, os quais estão simplesmente perdidos nas notas musicais. Mas, contanto que essa espécie de performance artística seja evitada, a arte da música e da canção permanecem indispensáveis para nossa adoração. Em Genebra, Calvino convergiu todo empenho para que o canto congregacional soasse cerimonioso, natural, animado e belo.
Todos que são suficientemente humildes hão de admitir com franqueza que ninguém, ao se assentar no santuário, possui o fervor apropriado para a adoração. Nesse momento, a arte da música e do canto devem ser os meios para içar a alma do adorador para fora do ordinário e do mecânico em direção à paixão e atividade. Canto e melodia devem falar ao coração humano na plenitude do culto de uma forma que o estimule à adoração. Tal objetivo não será atingindo caso falte ao canto o ardor santo, e à música, uma vivacidade mais imponente [Tradução nossa]

Naturalmente, alguns argumentarão que há necessidade de adaptarmos a liturgia à cultura ou que é imperativo atualizá-la, a fim de não nos transformamos em adoradores anacrônicos. Se Deus assim o permitir, trataremos futuramente dessas e outras argumentações.


Que Deus nos livre, pois, da gnose em suas mais diversas formas.

Soli Deo Gloria

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Autor: Fabrício Tavares
Fonte: Bereianos
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O gnosticismo e os pentecostais



Por Michael Horton


O pentecostalismo representa uma dependência ainda maior em relação às tendências gnósticas. "Assim como a fé que cura teve um lugar proeminente entre os gnósticos medievais do sul da França", observa Lee, "também tem sido um elemento significativo nas seitas mais extremas do Protestantismo... O Deus Salvador rivaliza com o Deus natural e, perante milhões de telespectadores o Deus Salvador prevalece". O livro do estudioso católico romano Ronald Knox, Enthusiasm [Entusiasmo] (Oxford, 1950), permanece como sendo um estudo clássico sobre esta matéria e ele cita esses reavivamentos do Gnosticismo em sua própria igreja como nas seitas protestantes.

Em seu recente trabalho, Fire From Heaven [Fogo do Céu], o teólogo de Harvard, Harvey Cox, que simpatiza com muitos dos grupos pentecostais que ele investigou para o seu livro, observa: "Há um ditado favorito entre os pentecostais: 'O homem com uma experiência nunca está à mercê do homem com uma doutrina". Fazendo uma crônica do enorme sucesso do Reavivamento da Rua Azuza em 1907, Cox encontra um grande número de afinidades entre os cultos pentecostais, a mitologia hindu, e a religião popular católica romana - "o realismo mágico", ele o chama. O reavivamento inclui transes, levitação e experiências de êxtase assim como as visões de uns e outros sendo consumidos por bolas de fogo. Assim como Bloom e Lee, Cox nota as afinidades entre a indiferença pentecostal pelos credos e doutrinas e os liberais, o que torna ambos os grupos um solo fértil para tipos distintos de espiritualidade gnóstica.

A aversão gnóstica a mediadores entre o Espírito puro do ser e o Espírito de Deus pode ser visto no pentecostalismo, que frequentemente enfatiza o Espírito Santo ao invés de Cristo como a figura central. "Tem havido persistência, eu creio, porque representa o âmago de toda a convicção pentecostal: que o Espírito de Deus não necessita de mediadores, mas está à disposição de qualquer um, de um modo intenso, imediato e, mesmo, interior". Cox até mesmo chega a notar (e comemorar) uma feminilização inerente da doutrina de Deus no pentecostalismo.

As fases extremas do pentecostalismo são bastante expressivas em suas ênfases gnósticas, como um número de estudos tem mostrado, incluindo The Agony of Deceit [A Agonia do Engano]. Salvação é conhecimento - "Conhecimento da Revelação" (Kenneth Copeland, Kenneth Hagin, Paul Crouch, e outros "professores da fé" usam uma letra maiúscula para distinguir esta da mera revelação escrita). O Verbo que verdadeiramente salva não é o texto escrito das Escrituras, que proclama a Cristo como Redentor, mas o Verbo "Rhema" que é falado diretamente ao espírito humano pelo espírito de Deus.

É difícil encontrar uma forma mais explícita de Gnosticismo nos movimentos religiosos atuais do que no círculo neopentecostal "Palavra da Fé". Não é de se admirar que Bloom escreva: "Paulo estava combatendo os entusiastas ou gnósticos coríntios e, ainda assim, eu tento entender por que suas censuras não têm desencorajado os pentecostais americanos mais do que parece ter acontecido... O pentecostalismo é o shamanismo americano". O autor mesmo, é bom que seja dito, aplaude a tendência gnóstica.

Neste ínterim, os princípios do Gnosticismo da "mente acima da matéria", naturalmente encontrados na Ciência Cristã e em grupos semelhantes, são evidentes em um programa popular da televisão cristã acerca de "segredos" da personalidade do "mundo invisível". Ele afirma que "o visível não se aproxima em poder ao que o invisível possui". A fé "pode colocar o visível sob controle, porque o invisível é infinitamente mais poderoso do que o visível".

Fé na Fé Somente

Deus, ao que parece, não é o soberano e pessoal, "Criador de todas as coisas, visível e invisível" como o Credo diz. De fato, Deus não parece tão necessário nesse esquema, conquanto o principiante conheça os segredos. Um fundador do movimento da fé ilustra a questão descrevendo o que ele afirma ter sido uma visão. Satanás interrompia periodicamente o diálogo dele com Deus. Ao pedir a Deus que silenciasse o diabo, Deus disse que não poderia, assim o "visionário" ordenou a Satanás que se calasse. "Jesus olhou para mim", escreveu ele, "e disse, 'Se você não tivesse feito nada acerca disso, eu não poderia".

Esse livreto do professor é intitulado adequadamente: How to Have Faith in Your Faith [Como Ter Fé em Sua Fé], pois Deus não é o objeto da fé nessa perspectiva gnóstica. Pode-se alcançar a salvação, não tanto pela revelação de Cristo como redentor pelo Seu sangue, mas pela revelação de segredos para o aproveitamento do reino espiritual. Até mesmo a oração não é tanto um meio de comunicar-se com a Divindade que pode mudar as coisas, mas um meio de empregar técnicas que, em si mesmas, asseguram os resultados. Ou, de forma mais sutil, a oração tornou-se mais uma terapia, um diálogo consigo mesmo, do que com um Deus que é distinto daquele que intercede.

Num sistema gnóstico, a fé é um talismã mágico ou uma senha secreta para assegurar a saúde, a riqueza e a felicidade. Em um ditado carismático popular, é a "habilidade de alcançar aquele mundo... além da linha divisória entre o visível e o invisível e trazer à luz milagres do mundo invisível". Um renomado pregador coreano chama este reino invisível de "A Quarta Dimensão", e seu contraparte americano sugere que "Deus quer que vivamos nesse mundo, que focalizemos nossa atenção sobre ele, que possamos entendê-lo".

Não é de se admirar que, após estudar a Igreja do Evangelho Pleno, do pastor coreano em Seul, na Coréia, Cox tenha concluído que havia ali semelhanças marcantes entre o pentecostalismo coreano e o shamanismo asiático. Embora ele mesmo não seja evangélico, e não seja um inimigo do misticismo, Cox adverte o pentecostalismo acerca de "um vazio 'culto da experiência', que excede em manter a celebração contemporânea dos 'sentimentos', e a busca incessante por novas fontes de estímulos e exultação", expressando a preocupação de que "o pentecostalismo venha a desaparecer absorvido pelo crescimento da Nova Era. A popularidade da teologia da prosperidade mostra com que rapidez isso pode acontecer". Seu "culto extático" equivale a "um tipo de misticismo popular".

Enquanto muitos pentecostais preferem a experiência em detrimento da teologia, eles desenvolveram um sistema teológico que compartilha muitas características básicas com o Gnosticismo. De fato, segundo um dos seus autores mais respeitados, na verdade não existe tal coisa chamada matéria. Tudo é espírito, ou o que ele chama de "energia". Seguimos a Jesus porque "ele transbordava fé sobrenatural". Em outras palavras, ele nos mostra, nos ensina os segredos do mundo invisível, bem como nos inicia neles.

Nem mesmo a oração é suficientemente espiritual, visto que ela parece descansar sobre a providência de um Deus pessoal ao invés de na convicção da própria autoridade decretatória. "A maior parte das pessoas pede a Deus por um milagre", diz o mesmo autor, "mas muitos omitem uma exigência-chave - a palavra falada. Deus tem nos dado autoridade sobre o mal, sobre os demônios, sobre as doenças, sobre as tempestades, sobre as finanças. Deve nos declarar essa autoridade em nome de Jesus... Devemos ordenar que o dinheiro venha a nós".

Geddes MacGregor, um profundo conhecedor do Gnosticismo antigo, observa que os gnósticos da Igreja primitiva "afirmavam possuir um tipo especial de conhecimento (gnosis) da química espiritual do universo e uma intuição esotérica em relação às obras da natureza divina. Esses sectários expunham suas perspectivas imensamente especulativas, repletas de fantasias e, algumas vezes, de interpretações grotescas das Escrituras. Alguns chegaram, até mesmo, a combinar fórmulas mágicas com seus ensinamentos". A esse respeito, existe um paralelo com os defensores do "evangelho da prosperidade", sua obsessão com respeito a um conhecimento secreto, que dita o modo como às leis espirituais operam no reino invisível, e sua visão da fé como uma forma de magia.

Um colunista de religião muito conhecido explica que o pentecostalismo "está rapidamente se dirigindo para dentro das sensibilidades religiosas da América assim como o fogo perpassa rapidamente por um arbusto seco... e pela mesma razão. O pentecostalismo é agressivo, extático, humilde, quebrantado, despretensioso, celebrante, ruidoso, alegre, triunfante, multiracial, uma proposição puramente espiritual de Deus como Espírito Santo ativo sobre pessoas físicas e as almas cognitivas dos seus amados...". Nosso eu real - "a porção motivadora do nosso ser" - é Espírito, o colunista assevera. "Até mesmo a mente se confunde diante da grandeza maior do espírito e da esperança que a sua presença evoca".

O crescimento do pentecostalismo como uma força, de acordo com esse escritor, é um indicador-chave para mostrar a direção para a qual a religião está voltada: "Esse lugar está no extático. Esse lugar está no estado elevado e celebrador de percepção em que o ser escapa de seus próprios limites na adoração e une-se a outros como a si mesmo em uma glória universal e inominável". Conquanto o pentecostalismo possa expressar as tendências gnósticas mais explicitamente, estaríamos errados se concluíssemos que este é um caso de "nós contra eles", típico de muitos críticos dos excessos dos carismáticos ou pentecostais. Estamos todos juntos nisso e teremos de nos ajudar mutuamente a nos desembaraçar dos tentáculos das perspectivas não-bíblicas acerca do mundo.
  
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Fonte: Michael Horton. A Face de Deus, Editora Cultura Cristã, páginas 32-35. 
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O Misticismo

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Por John MacArthur


Misticismo é a crença de que a realidade espiritual é perceptível fora da esfera do intelecto humano e dos sentidos naturais. Ele busca a verdade internamente, valorizando os sentimentos, a intuição, e outras sensações interiores, mais do que os dados externos, objetivos e observáveis.

O misticismo, em última análise, fundamenta sua autoridade em uma luz auto autenticada e auto efetivada, vinda do interior da pessoa. Sua fonte de verdade é o sentimento espontâneo e não o fato objetivo. As formas mais complexas e extremas de misticismo são encontradas no hinduísmo e em seu reflexo ocidental, a filosofia da Nova Era. 

Assim, um misticismo irracional e anti-intelectual, que é a antítese da teologia cristã, tem se infiltrado na igreja. Em muitos casos, os sentimentos individuais e a experiência pessoal têm tomado o lugar da sã interpretação Bíblica. A questão “o que a Bíblia significa para mim?” Tem se tornado mais importante do que “o que a Bíblia significa?” 

Trata-se de uma abordagem das Escrituras que é terrivelmente imprudente. Ela mina a integridade e a autoridade bíblicas, sugerindo que a experiência pessoal deve ser buscada mais do que uma compreensão das Escrituras. Com frequência, ela considera a "revelação" particular e as opiniões pessoais iguais à verdade eterna da inspirada Palavra de Deus. Portanto, deixa de honrar a Deus e, em lugar disso, exalta o homem. E, o pior de tudo, pode — e geralmente o faz — levar à horrenda ilusão de que o erro é a verdade. Exageradas formas de misticismo têm florescido em décadas recentes, oferecidas por fornecedores que fazem da mídia religiosa a sua plataforma. Os shows televisados, apresentando bate-papos, têm sido vitrines de quase todas as extravagantes interpretações teológicas que podemos imaginar, feitas por pessoas descuidadas e sem instrução — indo desde os que reivindicam terem viajado para o céu, e voltado, até os que enganam seus telespectadores com novas verdades, supostamente reveladas por Deus a eles, em secreto. 

Esse tipo de misticismo tem produzido várias aberrações, incluindo o movimento de sinais e maravilhas e um falso evangelho, que promete saúde, riqueza e prosperidade. Trata-se de mais uma evidência de que o avivamento gnóstico está assolando a igreja e minando a fé na suficiência de Cristo. 

Diante do tamanho da igreja contemporânea, o neo-gnosticismo de hoje constitui uma ameaça de muito maior alcance que seu predecessor do primeiro século. Além do mais, os líderes da igreja primitiva estavam unidos em oposição à heresia gnóstica. Infelizmente, isto não acontece em nossos dias. 

O que pode ser feito? Ao apontar a suficiência de Cristo Paulo confrontou o gnosticismo (Cl 2.10). Ainda hoje, essa continua sendo a resposta.

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Fonte: Nossa Suficiência em Cristo, John MacArthur. Editora Fiel. 
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O Novo Gnosticismo

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"Heresia” é uma palavra forte, e que tem empesteado o mundo cristão desde o tempo dos apóstolos. A heresia continua a ser o resultado da ignorância presente entre o povo de Deus. Poucas pessoas parecem discernir a verdade do erro na cultura atual. Talvez esta seja a razão porque Jesus perguntou: “Contudo, quando vier o Filho do Homem, achará, porventura, fé na terra?”(Lc 18.8). O apóstolo Paulo também advertiu a Timóteo: “nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis, pois os homens serão egoístas”(2Tm 3.1,2). Nesses dias, uma preocupação narcisista corromperá todas as áreas da vida. Não é que nossa época seja a única nesse sentido, mas o mundo cristão moderno certamente é caracterizado por uma orientação centralizada no homem e um esquecimento da sã doutrina.

Entre as heresias que se tornaram verdadeira praga para a comunidade cristã batalhadora dos primeiros séculos, nada foi mais devastador do que o Gnosticismo. De fato, o Gnosticismo é tão antigo quanto a mentira de Satanás: “Vós sereis como deuses”. A religião americana contemporânea, quer liberal ou conservadora, evangélica ou nova era, mórmon ou pentecostal, representa um reavivamento de pelo menos alguns aspectos dessa heresia antiga. A igreja primitiva lutou para agarrar-se às crenças e práticas cristãs básicas (incluindo a espiritualidade) em tempo quando as abordagens, que apelavam para os sentimentos daqueles que procuravam por “espiritualidade” de seus dias, insistiam para que ela se tornasse mais sensível às necessidades de uma audiência que achava a doutrina cristã algo estranho.

Algumas coisas não mudam. Em um artigo da revista Los Angeles Magazine intitulado, “Deus à venda”, Kathleen Neumeyer escreveu: “Não é de surpreender que, quando os jovens profissionais bem-sucedidos retornam à igreja, eles querem fazê-lo somente em seus próprios termos – o que é mais impressionante é até que ponto as igrejas estão cedendo”.

Muitos crentes hoje vivem como os israelitas no Livro de Juízes: “Naqueles dias, não havia rei em Israel; cada um fazia o que achava mais reto.”(Jz 21.25). De fato, um defensor do uso do marketing para o crescimento da igreja escreve: “Isso é tudo o que significa o marketing para a igreja: oferecer o nosso produto {que ele descreve como ‘relacionamentos’} como uma solução para as necessidades do povo”(G. Barna, Marketing the Church). “É crítico”, ele diz, “que mantenhamos em mente um princípio fundamental da comunicação cristã: a audiência, e não a mensagem, é soberana”.

Um artigo da revista Newsweek descreve desta forma as igrejas hoje: “Eles desenvolveram um cristianismo ‘escolha e pague’ no qual indivíduos pagam o que querem... e passam adiante o que não se encaixa em seus alvos espirituais. O que muitos têm abandonado é um senso de abrangência do pecado”( Newsweek, setembro de 1984, p.26). Em lugar da ênfase escriturística de pecado e graça, uma variedade de métodos de auto-ajuda tentam tornar o cristianismo uma espiritualidade que atrairá aqueles que procuram por uma religião. Mas quando a busca pela “espiritualidade” suplanta a verdade do Cristianismo, indaga-se se o sal não perdeu o seu sabor.

O apóstolo Paulo chamou os profetas gnósticos de “superapóstolos” que aparentemente sabiam mais do que o próprio Deus. Eles eram capazes de “enxergar”, até mesmo dentro dos segredos celestiais e oferecer técnicas para escapar da exigência terrena: “E tu, ó Timóteo”, advertiu Paulo, “guarda o que te foi confiado, evitando os falatórios inúteis e profanos e as contradições do saber, como falsamente lhe chamam, pois alguns, professando-o, se desviaram da fé.”(1Tm 6.20-21).

Os “superapóstolos” pregavam um evangelho diferente e um espírito diferente: “Porque os tais são falsos apóstolos, obreiros fraudulentos, transformando-se em apóstolos de Cristo.”(2Co 11.13). Essa referência particular refere-se especificamente à ênfase gnóstica sobre o anjo de luz contra o anjo das trevas.

Por Michael Horton, livro: “A Face de Deus” Ed. Cultura Cristã, resumo e adaptação para o blog: rev. Ronaldo P Mendes. 
Fonte: Solus Christus  
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