Resposta ao Pr. Silas Daniel - Sobre arminianismo, calvinismo e o uso da história do pensamento cristão

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Por Franklin Ferreira


Silas Daniel respondeu à minha avaliação de seu texto “Em defesa do arminianismo” (publicado na revista Obreiro Aprovado Ano 36, nº 68) em três longos textos, publicados no site da CPAD. Tratarei de todos eles nesta postagem.

INTRODUÇÃO

Palavras têm significado. Portanto, há que se fazer uma diferença entre semipelagianismo e semiagostinianismo: o primeiro ensina que a graça de Deus e a vontade do homem trabalham juntas na salvação, e o homem deve tomar a iniciativa; a fé e o arrependimento são obras humanas, sendo consideradas pré-requisitos para se receber o Espírito. O segundo ensina que a graça de Deus se estende a todos, capacitando uma pessoa a escolher e a fazer o necessário para a salvação; a fé e o arrependimento são dons do Espírito. Esta diferença não pode ser subestimada. Ainda que o termo “semipelagianismo” tenha sido cunhado pelos luteranos no século XVI, e usado na Epítome da Fórmula de Concórdia, para, retrospectivamente, rotular a teologia associada à João Cassiano (conhecida como massilianismo, mas que também tem sido chamada pelos católicos de semipelagiana). 

Já “molinismo” é a noção ensinada pelo jesuíta Luis de Molina, no século XVI. Esta posição foi uma ruptura não só com os ensinos de Agostinho e Aquino sobre a predestinação, mas também com os de Armínio (na medida em que o molinismo defende que Deus sabe que, se certa pessoa for colocada em uma situação particular, ela não irá resistir à graça). O autor busca respaldo no molinista, ainda que se identifique como arminiano. Para tentar responder à questão “quem criou o que Deus previu?”, ele apela à ideia do “conhecimento divino do futuro contingente condicional” (a scientia media, ideia elaborada por de Molina), que supostamente teria respaldo bíblico (ele cita apenas um texto-prova em apoio a esta ideia). O molinismo tem sido popularizado atualmente por William Lane Craig e Alvin Plantinga. No site Bereianos há farto material refutando o molinismo (escritos por Joseph Nally, James Anderson, John Frame, Herman Bavinck, Matthew McMahon, Paul Helm e François Turretini). E na Teologia Sistemática que escrevi com Alan Myatt há seções tratando criticamente esta posição.

De toda forma, a teologia católica tem rejeitado o ensino associado com o semipelaginismo (ou massilianismo) como herético, desde o Sínodo de Orange, de 529 (Denzinger-Hünermann (ed.), Compêndio, 374):

“Cân. 4. Se alguém professa que, para sermos purificados do pecado, Deus aguardou a nossa vontade, não porém que também o querer ser purificados se dá em nós mediante a inspiração e a obra do Espírito Santo, este tal se opõe ao mesmo Espírito Santo, que diz por meio de Salomão: ‘A vontade é preparada pelo Senhor [Pv 8.35 septg.], e ao Apóstolo, que salutarmente anuncia: ‘É Deus que opera em vós tanto o querer como o realizar segundo seu beneplácito’ [cf. Fp 2.13]”.

Silas reconhece que errou em seu estudo da soteriologia dos teólogos medievais. Ele havia, confiantemente, escrito em seu artigo publicado na revista Obreiro Aprovado que “o que prevaleceu na Igreja, desde o século 6 em diante, foi uma soteriologia que aceitava a Depravação Total, mas negava o conceito de predestinação”. Agora, nas postagens mais recentes, escreve, corrigindo-se, que “houve um excesso (...) [de sua] parte ao desprezar 100% de todo e qualquer vestígio da compreensão agostiniana em relação à mecânica da Salvação durante a Idade Média”. Tratarei do uso da história por parte de Silas neste texto, mas me causa desconforto o uso recorrente da expressão “mecânica da salvação”, o que, me parece, remete o debate à posição católica popular (como conectada ao recebimento mecânico da graça pelos sacramentos, numa distorção daquilo que o catolicismo denomina de ex opere operato) ou evangélica popular (como relacionada à “aceitação” de Cristo diante do apelo, que assegura aquele que “se decidiu” a salvação, conforme sistema popularizado pelo pelagiano Charles Finney), o que empobrece a linguagem do debate. 

1. SOTERIOLOGIA AGOSTINIANA NA IDADE MÉDIA

Parece óbvio escrever isso, mas nenhum especialista em história do pensamento cristão afirmou que há plena concordância entre os teólogos medievais que citei e as formulações de Agostinho, o “Doutor da Graça”, como parece ter entendido o autor. Mas não há como notar que há sim algum tipo de continuidade entre as formulações de Agostinho e dos teólogos medievais que citei anteriormente: Próspero, Gottschalk, Anselmo, Bernardo, Bradwardine, Tomás de Kémpis e Tomás de Aquino, além de Jan Hus e John Wycliffe. Mesmo quanto ao conceito do livre-arbítrio há diferenças de definição entre estes autores (e não só entre eles, mas entre Martinho Lutero, João Calvino e Jonathan Edwards. cf. R. C. Sproul, Sola Gratia). No afã de provar que os autores antigos não eram “calvinistas” (ou, pelo menos, eram mais próximos do “arminianismo”), o autor perdeu de vista o que afirmei em meu primeiro texto, quando lembrei que há diferenças significativas entre os teólogos cristãos, uma constatação que deveria ser óbvia para qualquer um familiarizado com fontes primárias. “Um bom ponto de partida para tratar de temas teológicos controversos é começar com o que afirmam as confissões de fé que resumem as posições das tradições professadas, e não com as posições de teólogos, por mais importantes que estes sejam”. Em outras palavras, o que determina o que tal tradição crê (no caso, a tradição católica, reformada, luterana, batista, etc.) são seus documentos confessionais, não a posição de seus teólogos, mesmo dos mais representativos – pois este recurso, via de regra, se vale da falácia do argumento da autoridade (ad verecundiam) e também suscita a pergunta: por que recorrer a teólogo tal, quando se pode citar outro teólogo?

Usando a data da queda do Império Romano do Ocidente, que a historiografia tradicional emprega para marcar o fim da Antiguidade clássica, o autor rejeita Próspero de Aquitânia como um escritor medieval, desconsiderando o fato de que, intelectualmente, pode-se citar as origens do pensamento medieval cristão em Agostinho de Hipona, o “mestre do ocidente” (Philotheus Boehner e Etienne Gilson, História da filosofia cristã) – por exemplo, Jacques LeGoff situa Agostinho num primeiro período do medievo, que “balança da Antiguidade Tardia e a alta Idade Média” (cf. Homens e mulheres da Idade Média; cf. também A. S. McGrade (org.), Filosofia medieval; Josep-Ignasi Saranyana, La filosofía medieval: desde sus orígenes patrísticos hasta la escolástica barroca; Etienne Gilson, A filosofia na Idade Média; D. W. Hamlyn, História da filosofia ocidental, etc.). Ao tratar da rejeição da heresia pelagiana no Sínodo de Cartago, em 418, M. Pohlenz afirmou: “O fato de a Igreja ter-se pronunciado por tal doutrina [da necessidade da graça] assinalou o fim da ética pagã e de toda a filosofia helênica – e assim começou a Idade Média” (cf. Giovanni Reale & Dario Antiseri, História da filosofia. v. 2). 

De qualquer forma, há algumas afirmações questionáveis por parte do autor sobre os teólogos citados. Sobre Próspero, supondo haver ocorrido uma mudança em sua posição (várias citações deste autor podem ser encontradas em Jaroslav Pelikan, A tradição cristã, v. 1) – Próspero, após abandonar a Gália, onde contendia com os discípulos de Cassiano, se tornou secretário de Leão I, sendo influente na composição do Tomo a Flaviano, fundamental na preparação da Definição de Calcedônia (cf. Philip Jenkins, Guerras santas). E os cânones do Sínodo de Orange foram baseados em uma coletânea de textos de Agostinho (chamadas Sententiae) “recolhidas em Roma pela metade do século V por Próspero de Aquitânia” (cf. Denzinger-Hünermann (ed.), Compêndio, p. 139). Pode-se citar neste contexto, outro importante agostiniano, Isidoro de Sevilha, considerado o último grande Pai latino, que defendeu as posições agostinianas sobre predestinação e graça em sua obra Etymologie (livro VII) – e foi ele, mais do que Agostinho (que tratou mais da predestinação para a vida eterna, do que à condenação eterna), que formulou a doutrina da predestinação dupla (Jaroslav Pelikan, A tradição cristã, v. 3).

Sobre Anselmo e Bernardo, o autor reconhece que ambos seguiram a Agostinho, ainda que “foram menos consistentes que Gottschalk em sua fidelidade à visão agostiniana”, como ele mesmo escreve. Mas este não é o ponto em questão. O fato é que ambos eram monergistas, como aqueles que forem às suas obras poderão comprovar. Sobre Bradwardine, o autor afirma, categoricamente, sem apresentar fontes, que ele “não cria na depravação total, dizendo que o pecado original não teria causado consequências mais graves sobre a natureza humana”. Na verdade, este teólogo medieval não enfatizou tal doutrina por uma razão metodológica: “Bradwardine apoia sua teologia anti-pelagiana com uma doutrina metafísica da onipotência divina consideravelmente distinta das ideias de Agostinho, resultando em que a dependência soteriológica total da humanidade em Deus é considerada uma consequência do caráter do ser humano como criatura e não de sua pecaminosidade. A Queda não é, portanto, tida como um divisor de águas na economia da salvação”. Outro teólogo medieval pode ser citado como um firme agostiniano, Gregório de Rimini: “Enquanto o predestinarismo de Bradwardine é resultante de sua doutrina metafísica da onipotência divina, o de Gregório surge de seu conceito cristologicamente centrado na história da salvação” (cf. Alister McGrath, Origens intelectuais da Reforma). De qualquer forma, recomendo a obra de McGrath, que oferece uma boa discussão do impacto de Bradwardine e de Rimini na teologia posterior, e as diferenças entre as escolas filosóficas de ambos.

Acerca de Tomás de Kémpis, há uma carta que Susanna Wesley escreveu ao seu filho John, reclamando por aquele crer na predestinação (datada de 8 de junho de 1725; cf. Susanna Wesley: The Complete Writings). E a respeito de Tomás de Aquino, ele também reconhece que ele “cria na predestinação agostiniana só para os eleitos”. Portanto, a afirmação de seu primeiro artigo, de que não havia ninguém que ensinasse a doutrina da predestinação entre Agostinho e a Reforma Protestante, é falaciosa – ainda que ele reconheça, corretamente, em seu primeiro artigo, que, “do século 16 ao 18 a principal corrente no meio protestante mundial era o que se convencionou chamar de calvinismo”. Portanto, para deixar claro, o que era comum a todos os teólogos medievais citados acima era a crença na predestinação dos eleitos, ou aqueles que são salvos; mas eles (com a possível exceção de Isidoro e Gottschalk) negavam que Deus predestinaria ativamente pecadores ao inferno, desde a eternidade, sem levar em conta suas próprias escolhas. Tal posição está em harmonia com o que havia sido definido no Sínodo de Quierzy, em 850 (cf. Denzinger-Hünermann [ed.], Compêndio, 621-621):

“Cap. 1. Deus onipotente criou o homem sem pecado, reto e com livre-arbítrio e, querendo que permanecesse na santidade da justiça, colocou-o no paraíso. O homem, porém, usando mal o livre-arbítrio, pecou e caiu, e se tornou a ‘massa da perdição’ de todo o gênero humano. Deus bom e justo escolheu, porém, dessa massa de perdição, segundo sua presciência, os que por graça predestinou [Rm 8.29s; Ef 1.11] à vida, e predestinou-lhes a vida eterna; dos outros, porém, que segundo o juízo da justiça deixou na massa da perdição, ele sabia com antecedência que se perderiam, não porque os tivesse predestinado a se perderem, mas porque, sendo justo, lhes predestinou uma pena eterna. E por isso falamos, simplesmente, de uma só predestinação de Deus, que se refere quer ao dom da graça, quer à retribuição da justiça. 
Cap. 2. No primeiro homem perdemos o livre-arbítrio, e o recebemos mediante Cristo nosso Senhor; de uma parte, temos o livre-arbítrio para o bem, prevenido e ajudado pela graça, de outra temos o livre-arbítrio para o mal, abandonado pela graça. Temos, pois, o livre-arbítrio, porque foi libertado pela graça e pela graça foi sanado do arbítrio corrompido.”

2. A RESSURGÊNCIA DA SOTERIOLOGIA AGOSTINIANA

Silas se equivoca ao supor que dei “a entender que a posição agostiniana referente à (...) Salvação era, se não majoritária, pelo menos de grande influência na Idade Média, quando, na verdade, ela não foi nem majoritária, nem de grande influência na época de nenhum desses nomes, mas muito ao contrário”. Nenhum especialista em história do pensamento cristão fez tal afirmação. Também é evidente para qualquer estudioso do período medieval que o pelagianismo e o massilianismo (ou “semipelagianismo”) eram a posição dominante no catolicismo popular medieval, ainda que os principais teólogos do período seguissem em maior ou menor grau a soteriologia de Agostinho. E é justamente a prevalência do “semipelagianismo” na igreja medieval que fornece o contexto para que a Reforma Protestante seja chamada de “renascença agostiniana” (cf. Timothy George, Teologia dos reformadores) e o movimento puritano inglês e escocês dos séculos XVI e XVII seja chamado de “agostinianismo reformado” (cf. J. I. Packer, “Os puritanos”, Robin Keeley (org.), Fundamentos da teologia cristã).

Assim sendo, é necessário dizer que ainda que quase todos os teólogos reformados e luteranos no continente, assim como os teólogos puritanos na Inglaterra, fossem firmemente monergistas, há diferenças de método e ênfase entre eles, como qualquer leitor dos mesmos sabe (pode-se citar, somente a título de ilustração, Martinho Lutero, Martin Bucer, Ulrich Zwinglio, João Calvino, Teodoro de Beza, William Perkins e William Ames). Aliás, não deixa de ser irônica a tentativa do autor de usar o pensamento de João Calvino como uma espécie de gabarito para analisar os autores mais antigos – quando a obra de Ames, The Marrow of Theology foi imensamente mais influente no calvinismo na Inglaterra e nas treze colônias na América (que se tornariam os Estados Unidos) nos séculos XVII e XVIII que as Institutas da Religião Cristã

Portanto, mais uma vez: o que define uma tradição não são os escritos dos teólogos que pertencem à certa tradição, mas sim as confissões de fé que resumem esta tradição. Se o leitor, portanto, quer saber o que a tradição reformada ensina sobre predestinação, deve ir diretamente à Confissão de Fé de Westminster (III.1-8), à Confissão Belga (Artigo 16), à Segunda Confissão Helvética (X.1-9) e aos Cânones de Dort (I.6-18, II.8-9, e rejeições de erros).

3. A PROGRESSÃO DO DOGMA

Em nenhum de meus escritos afirmo algo como uma “forte linhagem histórica calvinista”, como o autor sugere. Nem mesmo fiz isso em minha avaliação do artigo dele. Na verdade, a meu ver, o maior erro presente na análise histórica de Silas Daniel é o anacronismo, que “consiste em utilizar os conceitos e ideias de uma época para analisar os fatos de outro tempo” – segundo Lucien Febvre, o pecado mortal do historiador. Com isso, as nuances e diferenças na soteriologia dos pais latinos e gregos que viveram antes de Agostinho, assim como dos teólogos medievais, são perdidas, justamente por, no caso, o autor não permitir aos Pais da Igreja e Medievais falarem, mas tentar impor a estes autores categorias interpretativas estranhas ao pensamento deles, tais como “cinco pontos do calvinismo” ou do “arminianismo”. Ele constantemente usa estas categorias de avaliação (ou lentes interpretativas), tentando achar “textos-prova”, a favor ou contra estes, nos diversos escritores citados. Portanto, o uso destes eixos interpretativos, de forma anacrônica, torna sua pesquisa histórica comprometida.

Os eixos interpretativos devem ser: monergismo e sinergismo, ou agostinianismo e pelagianismo (e suas gradações, semiagostinianismo e “semipelagianismo”). Neste sentido, todos os autores que citei afirmaram uma soteriologia monergística (ainda que com diferenças entre si e inconsistências), e todos os que citei, em maior ou menor grau, seguiram as formulações de Agostinho sobre a predestinação (cf. a tabela em Reginald Garrigou-Lagrange, Grace: Commentary on the Summa Theologica of St. Thomas, ch. 1). Deve-se ter em mente que o autor-chave que mitigou e reinterpretou os ensinos de Agostinho sobre a graça foi Gregório I, o Grande – e que, junto com Agostinho, é considerado um dos “fundadores da Idade Média” latina (cf. J. LeGoff, Homens e mulheres da Idade Média).

O autor cita Jack Cottrell em seu apoio, para afirmar o que deveria ser claro: que nenhum Pai da Igreja antes de Agostinho cria na predestinação graciosa e soberana, ainda que usem tal fraseologia ocasionalmente (cf. 1 Clemente, 1.1; 6.1; 29.1; 46.4; 50.6-7). Mas, ao mesmo tempo em que critica Michael Horton, Cottrell (e, parece, Silas) cai no mesmo erro que ele visa corrigir; ele, aparentemente, não faz o serviço completo, ou seja, demonstrar qual seja a doutrina da salvação dos Pais da Igreja antes de Agostinho.

Por exemplo, a noção de livre-arbítrio em vários dos Pais (Justino, Irene e Tertuliano) estava, na maioria das vezes, conectada à teodicéia, não à soteriologia. E isso se deu porque a apologética destes Pais era dirigida contra o determinismo cego presente na cultura greco-romana. Sobre a salvação, em linhas gerais, os Pais diziam que a antiga lei tinha sido abolida, e o evangelho seria a nova lei. Deste modo, os Pais ressaltaram a obediência à esta nova lei, bem como a imitação de Cristo, como sendo o caminho da salvação, e o conteúdo essencial da vida cristã. Mesmo em Agostinho não havia uma noção da imputação da justiça de Cristo aos pecadores, recebida pela fé somente (um tema-chave da Reforma protestante do século XVI). Também se enfatizava que o Espírito Santo era recebido por meio do sacramento do batismo. Em outras ocasiões, a salvação era apresentada em termos de imortalidade e indestrutibilidade, em vez de perdão dos pecados. E vários dos Pais orientais, inclusive João Cassiano, no ocidente, afirmaram a doutrina sinergística da theosis, ensinando que a salvação seria adquirida por meio da divinização do homem. Em linhas gerais, estas várias formulações confundiram os ensinos bíblicos sobre a justificação e a santificação. Por outro lado, a noção da eleição por meio da presciência divina estava conectada, muitas vezes, com a previsão de algum tipo de mérito. Justino, por exemplo, afirmou que Deus “prevê que alguns se salvarão pela penitência” (cf. 1 Apologia, 28.2). Ainda assim, a morte e a ressurreição de Cristo eram enfatizadas como constituindo o fundamento da salvação dos homens – mas Cottrell e Silas parecem ignorar estas nuanças, que tornam a teologia dos Pais bem diferente da posição arminiana clássica (para a soteriologia dos Pais da Igreja, cf. J. N. D. Kelly, Patrística, caps. 13-14; Jaroslav Pelikan, A tradição cristã, v. 1, cap. 6).

De qualquer forma, duvido que um arminiano genuíno endosse tais posições – e Silas cai na própria armadilha que visa refutar. Por causa da interpretação anacrônica que arminianos contemporâneos (e mesmo calvinistas, como Steven J. Lawson, no irregular Pilares da graça, v. 2) fazem dos escritores cristãos da Antiguidade e do Medievo, variações e diferenças entre os escritores antigos na soteriologia são ignoradas, justamente por não permitir que estes escritores falem, mas tentar impor categorias interpretativas estranhas ao pensamento deles. Mesmo a interpretação que Silas oferece de aspectos da soteriologia de Agostinho incorre no anacronismo, pois ele tenta interpretá-la pela lente dos “cinco pontos” do calvinismo. Uma interpretação da posição de Agostinho, sucinta, sóbria e muito mais perto da verdade, é sugerida por Colin Brown (cf. Filosofia e fé cristã):

“Frequentemente tem sido dito que tanto o catolicismo quanto o protestantismo têm sua origem em Agostinho. O primeiro obtém dele (mas não exclusivamente dele) seu alto conceito da igreja e dos sacramentos. O último segue Agostinho na sua visão da soberania de Deus, da perdição do homem no pecado e da graça de Deus que é o meio exclusivo para trazer a salvação ao homem. Assim como ocorre a todos os ditados fáceis, esta declaração acerca de Agostinho simplifica demais. Há, certamente, católicos hoje que compartilham do ponto de vista de Agostinho acerca da salvação e protestantes que não compartilham dele. Seja como for, porém, foi de Agostinho mais do que qualquer outro teólogo individualmente que o pensamento medieval recebeu seu arcabouço teológico de ideias. Mesmo quando pensadores posteriores alteraram a pintura dentro do quadro, o arcabouço com que começaram foi a teologia da igreja primitiva em geral e a de Agostinho em particular”.

O que é preciso ter em mente é que os escritos dos Pais da Igreja, especialmente no que se refere ao ensino da graça antes da controvérsia pelagiana, não pretendiam ser apresentações doutrinárias sobre salvação no sentido estrito do termo. Como resultado, não podemos esperar deles um quadro completo destes artigos de fé. Até porque a soteriologia não foi um problema com o qual eles precisaram se defrontar, já que os principais debates estavam relacionados com a Trindade e a divindade de Cristo – e resulta daí as tensões e mesmo contradições presentes em seus escritos, quando tratam da soteriologia.

Também é importante destacar que o Sínodo de Orange rejeitou o pelagianismo e o “semipelagianismo” (massilianismo), e a noção de que Deus predestinaria pecadores à perdição. Mas não rejeitou a predestinação para a vida eterna, e afirmou que a fé seria resultado da ação prévia do Espírito Santo (Denzinger-Hünermann (ed.), Compêndio, 397):

“[Conclusão redigida pelo bispo Cesário de Arles] Segundo a fé católica cremos também que, depois de ter recebido a graça pelo batismo, todos os batizados, com o auxílio e a cooperação de Cristo, podem e devem cumprir quanto diz respeito à salvação da alma, se quiserem empenhar-se fielmente. Ao contrário, não só não acreditamos que pelo divino poder alguns tenham sido predestinados ao mal, mas, se há alguns que querem crer em tamanho mal, com toda a reprovação lhes dizemos: anátema!
Professamos e cremos também, para nossa salvação, que cada boa obra não somos nós a iniciar, sendo depois ajudados pela misericórdia de Deus, mas que ele, sem que preceda algum mérito bom, nos inspira antes de tudo a fé e o amor a ele, para que, de uma parte, procuremos com fé o sacramento do batismo e, de outra, depois do batismo, com seu auxílio possamos cumprir o que lhe agrada. Por isso, evidentissimamente, é preciso crer que tão admirável fé – seja a do ladrão que o Senhor chamou para a pátria do paraíso [Lc 23.43], seja a do centurião Cornélio [At 10.3], seja a de Zaqueu, que mereceu acolher o próprio Senhor [Lc 19.6] – não vem da natureza, mas foi doada pela generosidade da graça divina”.

O que se rejeitou no Sínodo de Orange, portanto, foi a ideia de que predestinação e reprovação seriam noções simétricas. A posição estabelecida neste sínodo foi reafirmada no Sínodo de Quierzy, em 853, que rejeitou o ensino da predestinação à perdição (atribuído a Gottschalk), reafirmando que Deus predestina pela graça e salva pela misericórdia, e a reprovação é um ato de perfeita justiça, que pronuncia a pena unicamente para punir a falta, e após a previsão dessa: “Cap. 3. (...) Que alguns sejam salvos é dom daquele que salva; que alguns ao contrário se percam é culpa dos que se perdem” (Denzinger-Hünermann [eds.], Compêndio, 623). O Sínodo de Valença, realizado em 855, afirmou: “Cân. 3. (...) Assim professamos com fé a predestinação dos eleitos à vida e a predestinação dos ímpios à morte; na eleição dos que devem ser salvos, a misericórdia de Deus precede o mérito, mas na condenação dos que perecerão, o desmérito precede o juízo de Deus” (Denzinger-Hünermann [eds.], Compêndio, 628).

CONCLUSÕES

Três observações finais: parece que Silas ficou espantado com a repercussão de seu texto, mesmo em círculos fora das Assembleias de Deus. Isso se deu, me parece, por ser um texto bem escrito e por, finalmente, haver uma boa defesa do arminianismo – não do velho pelaginismo, ainda tão presente em nosso meio, mesmo em denominações históricas. E deve-se ter em mente que o debate soteriológico não está circunscrito a uma denominação. Ao escrever sua defesa do arminianismo, o autor está dialogando com toda a igreja evangélica.

Não indiquei ao Silas comentários bíblicos para suplementar a falta de exegese em seu texto. Isso seria indelicadeza de minha parte. Os indiquei aos leitores de meu texto, como qualquer um pode conferir, indo à primeira postagem. De qualquer forma, o desafio feito ao fim daquele texto permanece – por mais valioso que seja o diálogo com a tradição cristã, no fim, o que decidirá todo debate entre irmãos será a “exegese, exegese e mais exegese”. Pois, como diz a Confissão Belga (Artigo 2), “Deus se fez conhecer, ainda mais clara e plenamente, por sua sagrada e divina Palavra, isto é, tanto quanto nos é necessário nesta vida, para sua glória e para a salvação dos que lhe pertencem”.

Por fim, muitos leitores elogiaram o tom cordial de parte a parte. Isso se dá porque Silas, diferente de escritores pelagianos, não trata o calvinismo como uma heresia. E, é necessário deixar claro, mesmo calvinistas não tratam o arminianismo como herético. Ou, pelo menos, não deveriam. Por exemplo: Agostinho, refutou os erros dos massilianos (“semipelagianos”) em duas obras (A predestinação dos santos e O dom da esperança), mas tratou-os como irmãos ou amigos errados, não como hereges. William Ames (que foi conselheiro do presidente do Sínodo de Dort, Johannes Bogerman), escreveu que o arminianismo “não é corretamente uma heresia, mas um erro perigoso na fé”.

John Wesley reconheceu, em 1745, que sua teologia estava “a um fio de cabelo” do pensamento de João Calvino: “Ao atribuir todo o bem à livre graça de Deus. Ao negar o livre-arbítrio natural e o poder antecedente à graça. E, ao excluir o mérito humano; mesmo para o que ele realizou ou pratica pela graça de Deus”. Isso é exemplificado numa conversa que Charles Simeon teve com Wesley, em 1784:

“Senhor, sei que o chamam de arminiano; e algumas vezes sou chamado de calvinista; portanto, deveríamos desembainhar as espadas. Porém, antes de consentir em iniciar o combate, permita-me fazer-lhe algumas perguntas (...). Diga-me: o senhor se sente uma criatura depravada, tão depravada que nunca teria pensado em voltar-se para Deus, se ele não tivesse colocado isso em seu coração?
Sim [replicou o veterano], sinto-o realmente.  
E não tem esperança alguma de tornar-se aceitável perante Deus por qualquer coisa que possa fazer por si; e espera na salvação exclusivamente através do sangue e da justiça de Cristo?  
Sim, unicamente por meio de Cristo. 
Mas, senhor, supondo-se que foi inicialmente salvo por Cristo, não poderia de alguma outra forma salvar-se depois, através de suas próprias obras? 
Não, mas terei de ser salvo por Cristo do princípio ao fim. 
Admitindo, portanto, que foi inicialmente convertido pela graça de Deus, o senhor, de um modo ou de outro não tem que se manter por suas próprias forças? 
Não. 
Nesse caso, então, o senhor tem que ser mantido, cada hora e momento, por Deus, tal como uma criança nos braços de sua mãe? 
Sim, inteiramente. 
E toda sua esperança está firmada na graça e misericórdia de Deus, para ser preservado até o seu reino celeste?
Sim, não tenho esperanças senão nele. 
Então, senhor, com sua permissão embainharei novamente a minha espada; pois este é todo o meu calvinismo; esta é a minha eleição, minha justificação pela fé, minha perseverança final; em suma, é tudo quanto sustento, e como o sustento; portanto, se lhe parecer bem, em lugar de buscarmos termos e frases que serviriam de base para luta entre nós, unamo-nos cordialmente naquelas coisas sobre as quais concordamos.”

O grande desejo de John Wesley, ao qual ele devotou sua vida, foi pregar “as três grandes doutrinas bíblicas: o pecado original, a justificação pela fé e a consequente santidade”. Que Deus nos dê de seu Espírito Santo para não apenas confessar tais doutrinas, mas pregá-las com zelo e paixão nesta época em que a igreja cristã é desafiada e confrontada com um ambiente cultural e político cada vez mais hostil à fé evangélica.

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Divulgação: Bereianos
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Resposta a Zwinglio Rodrigues: Sobre exegese, arminianismo e o Sínodo de Dort

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Por Franklin Ferreira


Zwinglio Rodrigues escreveu uma réplica à minha avaliação do texto “Em defesa do arminianismo” (publicado na revista Obreiro Aprovado Ano 36, nº 68). Comento algumas questões desta resposta:

1. O autor não define o que é o semipelagianismo e o semiagostinianismo. Em linhas gerais, o primeiro ensina que a graça de Deus e a vontade do homem trabalham juntas na salvação, e o homem deve tomar a iniciativa; a fé e o arrependimento são obras humanas, sendo consideradas pré-requisitos para se receber o Espírito. O segundo ensina que a graça de Deus se estende a todos, capacitando uma pessoa a escolher e a fazer o necessário para a salvação; a fé e o arrependimento são dons do Espírito. Os irmãos Wesley e a tradição arminiana evangélica são, em linhas gerais, semiagostinianos; mas o semipelagianismo (e o pelagianismo) permanece, tristemente, bem presente na igreja brasileira.

2. O autor se propõe fazer exegese de duas passagens bíblicas, 1Timóteo 2.4 e 1João 2.2. A exegese pode ser definida como “um estudo analítico completo de uma passagem bíblica [em seu contexto], feito de tal forma que se chega à sua interpretação útil. (...) [É a] investigação histórica do significado de um texto bíblico” (Stuart & Fee, Manual de exegese bíblica, p. 23, 25). À luz desta definição, o autor não oferece uma exegese das passagens bíblicas que ele propõe tratar.

No caso de 1Timóteo 2.4, ele incorre na falácia do argumento da autoridade (argumentum ad verecundiam) ao apelar a C. H. Spurgeon (sem citar a fonte), para atacar certa interpretação da frase “todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade”. Mas o autor retira a citação do contexto polêmico onde foi proferida, aplicando-a a outro assunto. A fonte que o autor cita é um trecho de um sermão citado em Spurgeon versus hipercalvinismo (p. 170-176), de Iain Murray. Quando lido em contexto, isto é, como uma crítica ao hipercalvinismo, vê-se que o pregador inglês reconheceu que não saberia como harmonizar a explicação oferecida com suas crenças: “E igualmente sei que Ele tem um povo que vai salvar, um povo que Ele escolheu por Seu amor eterno, e que por Seu poder eterno Ele vai libertar. Não sei como aquilo se enquadra nisso; essa é outra das coisas que não sei” (alguns calvinistas têm seguido a Spurgeon, e tem falado de duas vontades ou maneiras de querer de Deus, para explicar tal paradoxo – noção admitida, inclusive, por exegetas arminianos, como I. Howard Marshall. Cf., por exemplo, John Piper, Deus deseja que todos sejam salvos?). De qualquer forma, fico pensando se o autor endossaria com tanto fervor o que Spurgeon afirmou em seus sermões, como “Eleição” ou “Verdades chamadas calvinistas: uma defesa”, sobre a expiação limitada ou sobre o arminianismo. A respeito do significado de “todos os homens” nesta passagem, o contexto já o esclarece, em 1Tm 2.3: “Exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os homens, em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade”. “Todos os homens”, portanto, deve ser interpretado como “todo tipo de homem”, inclusive “dos reis” e dos que “se acham investidos de autoridade”.

Em 1João 2.2, o autor concentra-se apenas no significado da palavra “mundo”, cometendo o erro hermenêutico conhecido como “transferência de totalidade”. Por outro lado, ele não trata da palavra mais importante da passagem, “propiciação”. Se ele interpretar esta palavra com seriedade, ele só poderá chegar a duas conclusões: (1) que os pecados de todos já foram propiciados por Cristo, logo todos os homens que existiram, existem e existirão já estão perdoados e salvos por Cristo; (2) que Cristo propiciou apenas o pecado original de todos os homens que existiram, existem e existirão, mas não os pecados atuais. Outra possibilidade é reinterpretar o significado do vocábulo “propiciação” – o que muitos arminianos têm feito durante a história da igreja, abandonando, com isso, a doutrina da substituição penal e afirmando a teoria governamental da expiação (defendida por Hugo Grotius, em Defensio fidei catholicae de satisfactione Christi, publicada em 1617).

Para aqueles interessados na exegese que fiz dessas passagens, recomendo consultar as seções apropriadas da Teologia Sistemática que escrevi com Alan Myatt.

3. No campo da história da teologia há uma série de citações sem fontes documentadas, o que torna difícil conferi-las. Isso se torna um problema quando o autor trata do Sínodo de Dort – e, nesta, parece que o autor usou a falácia do argumento contra a pessoa (argumentum ad hominem), para desqualificar o calvinismo. Algumas questões gerais:

(i) como dito, não há citação das fontes que embasam várias das afirmações do autor. Isso acontece tanto quando ele cita autores que criam na predestinação, mas não criam na expiação limitada (como se isso fosse realmente surpreendente ou novo), quanto ao tratar do Sínodo de Dort;

(ii) seria interessante que o autor referenciasse sua posição especialmente com fontes primárias (por exemplo, foi lançado recentemente o primeiro volume das Acta et Documenta Synodi Nationalis Dordrechtanae [1618–1619], editado por Donald Sinnema, Christian Moser e Herman Selderhuis [2014]) e que colocasse a controvérsia em contexto. Ainda que ele reconheça as questões políticas e sociais que fornecem o pano de fundo do debate teológico (os arminianos estavam conectados à burguesia e às classes mais ricas; os calvinistas estavam ligados aos pobres e aos estrangeiros exilados), essa questão importantíssima não é desenvolvida;

(iii) o estudo da história é importante, mas não pode ser utilizado para “provar algo”. Tal uso torna a citação da história mera ferramenta política. E o risco é que aquele que assim proceda cite dados e fatos históricos adaptando-os para seus próprios fins (cf. Tony Judt, Pensando o Século XX, p. 267-301);

(iv) talvez, por esta razão, o autor não informa aos seus leitores que, diferente do que ele afirma, isto é, que “a disposição raivosa (...) que o Sínodo de Dort dispensou ao ancião arminiano Van Oldenbarneveldt (sic), crente, irmão de fé, que foi decapitado e teve seus bens confiscados”, foi uma ação do Estado – não do Sínodo. O jurista Johan van Oldenbarnevelt não foi executado por ser arminiano, muito menos por ordem do Sínodo. Ele, que havia sido preso em agosto de 1618 (três meses antes do início do Sínodo), foi executado em maio de 1619 (quatro dias após o encerramento do Sínodo). Tudo isso aconteceu sob o mando dos Estados-Gerais (o parlamento), por ele ter se envolvido numa tentativa de dividir o país que há pouco havia alcançado a independência da Espanha, incitando rebelião na província da Holanda, a região mais rica e poderosa dos Países Baixos (Grotius, que fugiu espetacularmente para Paris em 1621, foi preso pela mesma razão).

Um adendo: em 1623, os dois filhos de van Oldenbarnevelt se envolveram, junto com o pastor arminiano Hendrick Danielsz Slatius, numa conspiração para assassinar Maurício de Nassau. Mas a conjuração foi descoberta, e, como resultado, um deles (Reinier) foi executado e o outro (Willem) conseguiu fugir para a Espanha, onde se tornou católico. Slatius também foi executado – ele renegou suas convicções arminianas para evitar a pena de morte, mas depois voltou atrás, quando viu que sua abjuração não mudaria a decisão dos Estados-Gerais.

Um detalhe importante é que, enquanto os reformados entendiam que era a igreja que deveria decidir em matéria doutrinal, os arminianos achavam que o Estado deveria ter a última palavra na esfera eclesiástica. Em outras palavras, os calvinistas queriam uma igreja independente do controle do Estado, e os arminianos almejavam uma igreja inclusiva, controlada pelo Estado. E, para tornar a situação mais complicada, havia boatos de que os arminianos estavam conspirando com os espanhóis, que queriam reconquistar as províncias (a guerra entre as duas nações, que estava interrompida desde 1609, recomeçou, efetivamente, em 1621).

De qualquer forma, o problema maior não era o calvinismo, mas o erastianismo, que está por trás da ideia de igrejas nacionais. Em outro contexto, na Inglaterra, William Laud, quando bispo de Londres e, depois, arcebispo da Cantuária, perseguiu severamente os puritanos, pois ele queria “arminianizar” a Igreja da Inglaterra, ao mesmo tempo que reforçava o absolutismo de Charles I. Terminou executado por traição, por decisão do Parlamento, em 1645. Em 1662, dois anos após o rei Charles II ser entronizado, dois mil pastores puritanos foram expulsos da Igreja da Inglaterra por não aceitarem vários dos ritos prescritos no Livro de Oração Comum. Muitos, inclusive, foram presos nos anos seguintes por insistirem em pregar. Somente em 1689, com a Revolução Gloriosa, assegurou-se tolerância religiosa aos puritanos ingleses (conhecidos então como não-conformistas). Nos dois casos, o problema foi o arminianismo? Não, foi o erastianismo, a noção de que o Estado tem a prerrogativa de dirigir a igreja nacional;

(V) O autor parece não entender que o contexto do Sínodo é o fato de que a Igreja Cristã Reformada era uma igreja estatal e sinodal; sobre a relação entre igreja e Estado, a questão está esboçada acima; sobre o segundo, todos os pastores da Igreja Cristã Reformada (inclusive J. Arminius) juraram lealdade à Confissão Belga e ao Catecismo de Heidelberg; portanto, os pastores que aderiram ao arminianismo incorreram em perjúrio ao ensinar de forma diversa e tentar modificar os documentos confessionais, daí os desdobramentos disciplinares do Sínodo: ao fim do mesmo, os pastores arminianos foram excluídos da igreja (os números variam de acordo com as fontes, entre 100 e 200). Mas, pouco tempo depois, em 1630, o Estado holandês concedeu-lhes liberdade religiosa e de expressão, e eles puderam fundar igrejas e escolas na Holanda.

4. Por fim, o autor se mostra desconcertado porque destaquei algumas conexões entre o arminianismo e o arianismo. É fato que alguns teólogos arminianos se afastaram das decisões conciliares antigas sobre a Trindade e a encarnação do Verbo. Isso ocorreu na Holanda, no século 17, por influência de Philipp van Limborch (e foi reconhecido por Roger Olson, que os chama de “arminianos racionalistas e liberais” ou “arminianos de cabeça”, em seu irregular Arminianismo, p. 192, 271, etc.); Na Inglaterra, no século 18, muitas das igrejas batistas gerais (arminianas) se tornaram unitarianas; nos Estados Unidos, na região de Boston, as igrejas congregacionais que se tornaram arminianas, aderiram ao unitarianismo e ao universalismo, no século 19 – e algumas destas igrejas existem até hoje. Na atualidade, os arminianos holandeses (conhecidos como Irmandade Remonstrante) são ligados à European Liberal Protestant Network, uma associação que congrega igrejas europeias de confissão liberal – inclusive comunidades unitarianas da Inglaterra, Hungria e Transilvânia.

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OUTRAS FONTES:

• Earle E. Cairns, O cristianismo através dos séculos: uma história da igreja cristã.
• Frans Leonard Schalkwijk, Igreja e Estado no Brasil Holandês 1630-1654.
• Henk van Nierop, Treason in the Northern Quarter: war, terror, and the rule of law in the Dutch revolt.
• Jan-Paul Heering, Hugo Grotius as Apologist for the Christian Religion.
• Joel Beeke e Sinclair Ferguson, Harmonia das confissões reformadas.
• John H. Leith, Tradição reformada.
• Justo L. Gonzalez, História ilustrada do cristianismo, v. 2.
• Justo L. Gonzalez, Uma história do pensamento cristão, v. 3.
• Margo Todd (org.), Reformation to Revolution: politics and religion in early modern England.
• Martin van Gelderen, The Political Thought of the Dutch Revolt 1555-1590.
• Sinclair B. Ferguson e David F. Wright, Novo dicionário de teologia.
• James Tracy, The Founding of the Dutch Republic.

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Fonte: Perfil do autor no Facebook
- Publicado no blog Bereianos com permissão do autor.
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Uma avaliação do artigo “Em defesa do arminianismo”

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Por Franklin Ferreira


Em linhas gerais, o texto “Em defesa do arminianismo” (publicado na revista Obreiro Aprovado Ano 36, nº 68) é bom. O autor, o pastor assembleiano Silas Daniel, acerta ao distinguir entre o calvinismo (denominado no texto de “compatibilista”) e o hipercalvinismo (que, suponho, seja o que o autor chama de “calvinismo fatalista”). E ele também acerta ao tratar o primeiro como uma interpretação cristã legítima, e o segundo como um erro sério que precisa ser rejeitado. E sugere algumas boas razões para o ressurgimento da fé reformada no Brasil (prevalência do pelagianismo em muitos púlpitos, críticas caricaturais ao calvinismo e a superficialidade neopentecostal). Ao fim do artigo, o autor fala em tons fortes e vigorosos da graça salvífica oferecida pela fé em Cristo, de forma bíblica. Então, o tom irênico do autor é bom e saudável. 

Na tradição batista onde fui criado (fundamentalista e pietista, com alguma abertura à teologia liberal), o calvinismo ainda é tolamente tratado por alguns como uma “heresia perniciosa” (para usar as palavras do autor), muitas vezes assim rotulado ao lado de G12, “guerra espiritual” e outras esquisitices presentes no cenário evangélico brasileiro. Então, o tom adotado pelo pastor Silas em seu ensaio é um avanço importante no debate. E deve-se afirmar claramente, junto com o autor: o arminianismo não é pelagianismo, apesar desta posição ter prevalecido e ainda ser a visão religiosa de muitos pregadores e mestres evangélicos no Brasil, que têm como modelo Charles Finney; mas, dependendo de que autor se lê (já que uma das poucas confissões de fé arminianas representativas são os “Artigos da religião”, revisados por John Wesley), esta tradição pode ser considerada semipelagiana ou semiagostiniana (mencionados, mas não definidos no texto). 

Posto isso, o texto tem vários e sérios problemas, no campo da teologia e da história do pensamento cristão. Sobre o uso da Escritura, os versículos bíblicos são tratados como textos-prova. Não há sugestão de exegese ou de estudo léxico das palavras-chave, ou mesmo referências ao lugar das passagens na teologia bíblica. Isso fica evidente, por exemplo, na interpretação do autor da expressão “aos que dantes conheceu” (Rm 8.29), reduzida a mera previsão geral divina (ao interpretar 1Pe 1.2). Também não são indicados comentários bíblicos para suplementar as pressuposições do autor. Simplesmente presume-se que os ensinos arminianos são auto-evidentes nos versículos bíblicos citados. Há muito tempo atrás fui arminiano, e usei muitos daqueles versículos que o autor citou para “provar” o arminianismo e atacar o calvinismo. Mas, para cada texto bíblico citado há uma interpretação, por assim dizer, “calvinista”, que é muito mais coerente e consistente com o texto bíblico em si, o livro onde este está inserido e o contexto global da Escritura – e o leitor pode ir aos comentários de Agostinho, Martinho Lutero e João Calvino, ou aos de D. A. Carson, Douglas Moo, Donald Guthrie, F. F. Bruce e John Murray, para conferir a exegese das passagens-chave desta controvérsia. 

Pelo menos, o autor reconhece as várias tensões (e, por que não, as contradições) presentes na teologia arminiana, como ao tratar da presciência divina e do alcance da expiação: em outras palavras, o problema posto é: se Deus já sabia quem receberia a Cristo, por que este precisaria morrer por todos? Ou quando trata do significado da palavra “mundo”, sem levar em conta o significado da propiciação realizada por Cristo (ao citar 1Jo 2.2 como texto-prova da expiação geral). E quando admite algum tipo de predestinação (“sim, ele predetermina muitas coisas, mas não tudo”) ao mesmo tempo que, ao pressupor que Deus previu antes de predestinar, não trata de uma pergunta crucial, isto é, quem criou o que Deus previu? 

Também há vários problemas no campo da teologia histórica. Trato apenas dos principais. Diferente do que o autor afirma, quase todos os grandes teólogos medievais criam na predestinação, seguindo em maior ou menor grau o que Agostinho ensinou no século V: Próspero, Gottschalk, Anselmo, Bernardo, Bradwardine, Tomás de Kémpis e Tomás de Aquino (cf. S. Th: I, q. 23, a. 1, a. 2, a. 4, a. 7, a. 8; I-IIae, q. 117, a. 5; II-IIae, q. 174; III, q. 24, a. 1, a. 3). Os pré-reformadores Jan Hus e John Wycliffe também afirmaram o ensino da predestinação em moldes agostinianos. Um detalhe que chama a atenção é que ainda que Agostinho seja citado, sua compreensão sobre a predestinação e a graça não é oferecida no texto. 

O mais surpreendente é quando o autor afirma que Lutero abrandou a posição afirmada em seu tratado “Da vontade cativa”, e que passou a crer na possibilidade de se cair da graça (lendo erroneamente os Artigos de Esmacalde III.42-45, que, na verdade, refutava distorções anabatistas). Ao tratar de uma mudança de ênfase na teologia de Lutero, ele cita Herman Bavinck como fonte, mas não mencionou que este autor também afirmou que Lutero “nunca reverteu sua posição sobre predestinação”, e que os “verdadeiros luteranos” rejeitaram o sinergismo de Filipe Melanchthon (“Teologia Sistemática”, v. 2, p. 364).

Obviamente, há diferenças significativas entre os teólogos cristãos, e mesmo entre teólogos da tradição reformada. Por isso, um bom ponto de partida para tratar de temas teológicos controversos é começar com o que afirmam as confissões de fé que resumem as posições das tradições professadas, e não com as posições de teólogos, por mais importantes que estes sejam (por exemplo, nem todos os teólogos reformados ficam satisfeitos com a afirmação da CFW VI.1, de que Deus determinou permitir o primeiro pecado, mas esta confissão, e não a opinião dos teólogos, representa a posição reformada/puritana). 

Sobre a participação dos arminianos no Sínodo de Dort – que talvez seja o mais importante concílio protestante já ocorrido – é necessário deixar claro que estes não foram vítimas inocentes do poder do Estado ou dos calvinistas, como o autor parece opinar. Como John de Witt afirmou: “Os arminianos (...) utilizaram de toda engenhosidade para evitarem qualquer declaração [clara de seus ensinamentos] (...), exigiram que fosse seguida sua própria pauta de assuntos em lugar da do Sínodo, praticaram evasivas táticas de retardamento e obstruções (...) e rejeitaram a autoridade do Sínodo em julgá-los; isto a despeito do fato de ser legalmente um Sínodo da Igreja em que ocupavam cargos, à qual confessavam pertencer, e a cuja disciplina estavam obrigados a se submeter em virtude de suas ordenanças e votos!” (cf. O Sínodo de Dort, em Jornal Os Puritanos [Ano 3 nº 2, Março/Abril 1995], p. 27-30) E, como o pastor Silas reconhece, “os seguidores de Arminius na Holanda acabaram, com o passar do tempo, se afastando progressivamente do pensamento original de seu mentor”, rejeitando doutrinas como o pecado original, a expiação substitutiva e penal e até mesmo a divindade de Cristo, tornando-se, como nota o autor corretamente, “liberais em teologia”. 

Quando trata da controvérsia arminiana do século XVIII, o autor (apoiando-se em uma única fonte secundária) poderia ter colocado toda a polêmica em contexto, o que seria muito instrutivo para nós, hoje. Em meados de 1740, houve um confronto entre Wesley e George Whitefield; o primeiro supunha, erroneamente, que a doutrina da predestinação poderia conduzir ao antinominianismo. Mas a leitura dos escritos puritanos, por parte de Wesley, conduziu-o a uma reavaliação desta posição e, com isso, alcançou-se um acordo entre ambos os lados, o que permitiu uma cooperação na pregação do evangelho, já que nos temas centrais (pecado original, justificação pela fé e santificação) havia acordo. Mas a contenda reiniciou-se em meados de 1770, por causa não da doutrina da predestinação, mas do ensino da justificação – o suíço John Fletcher (Jean de la Fléchère), colega de John Wesley, começou a negar a doutrina da imputação da justiça de Cristo ao fiel. Em síntese, ele afirmou que a justificação requereria santificação pessoal e não a fé somente (cf. “Fourth Check to Antinomianism”). Nesta altura, Wesley vacilou na defesa desta doutrina importantíssima para a fé evangélica. O contundente texto de Augustus Toplady, “Arminianismo: o caminho para Roma”, foi escrito nesta época – e em resposta a uma distorção da doutrina bíblica da justificação pela graça, recebida mediante a fé somente, com todas as implicações doutrinais e devocionais daí decorrentes. Richard Watson, talvez o mais habilidoso teólogo metodista, escreveu no século XIX, sobre Fletcher: “Embora muito admirado entre os wesleyanos, suas doutrinas não são admitidas como norma” (cf. Iain H. Murray, “Wesley and Men Who Followed”). E, diferente da perspectiva do autor, de que “o arminianismo ergueu-se vitorioso” da controvérsia, os metodistas arminianos saíram da igreja episcopal, que, na época, ainda era majoritariamente calvinista, para fundar um dos ramos do metodismo, e do qual se originou os movimentos de santidade (o outro ramo, seguidor do calvinismo, era o metodismo galês, e se tornou presbiteriano, e não congregacional, como afirmou o autor). 

O estudo da história do pensamento cristão é muito importante. Mas, no fim, o que irá decidir toda discussão no âmbito da fé é a Escritura, que é “o juiz supremo, pelo qual todas as controvérsias religiosas têm de ser determinadas, e por quem serão examinados todos os decretos de concílios, todas as opiniões dos antigos escritores, todas as doutrinas de homens e opiniões particulares, o juiz supremo, em cuja sentença nos devemos firmar, não pode ser outro senão o Espírito Santo falando na Escritura” (CFW I.10). Portanto, o que conta é o que a Escritura ensina. Que ela seja estudada por meio de “exegese, exegese e mais exegese”, sempre em dependência do Espírito Santo. Pois devemos nos apegar somente e fielmente à Palavra de Deus, revelada nas Escrituras somente.

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Fonte: Perfil do autor no Facebook
- Publicado no blog Bereianos com permissão do autor.
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Uma agenda para o voto consciente

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Por Franklin Ferreira


Eu tenho ouvido: ‘Não traga a religião para a política’. É precisamente para este lugar que ela deveria ser trazida e colocada ali na frente de todos os homens como um candelabro” (C. H. Spurgeon).

Como se costuma dizer, “a política é o espaço do bem comum”, frase que pode ser entendida como uma forma de praticar o amor cristão. Afinal, é pela ação política que muitas pessoas no país podem ser beneficiadas pelo bem e pela justiça. Mas para que isso aconteça, é necessário que a prática política esteja fundamentada em valores éticos. Além disso, a transformação da conjuntura social de acordo com a cosmovisão cristã é, também, uma forma de evangelizar. Portanto, com o objetivo de propor o voto consciente e responsável aos cristãos evangélicos, sugerimos alguns elementos que deverão ser considerados na hora da sua escolha eleitoral:

1. Conheça bem o candidato que receberá o seu voto. Pesquise seu histórico pessoal, seus feitos, seus valores e suas propostas. Pesquise também suas promessas durante a campanha eleitoral, analisando se são plausíveis. Acompanhe as entrevistas que os candidatos concederem na mídia e compare o que cada um diz. Veja também se o candidato se porta com decência e se sua escala de valores é voltada para o interesse público. Se ele se identifica como cristão, é importante saber a que igreja ou comunidade ele está filiado e se ele a frequenta regularmente, buscando conselho e prestando-lhe contas. Enfim, não desperdice o seu voto com alguém de quem você nunca ouviu falar, sem saber as suas propostas e sua postura ética durante a campanha eleitoral.

2. Também considere se os projetos do candidato estão de acordo com os do partido ao qual ele está filiado, pois ao votar em um candidato você ao mesmo tempo vota num partido, ajudando a eleger candidatos do mesmo partido. Por isso, é preciso conhecer os programas e a filosofia do partido. No caso de candidatos evangélicos, é bom averiguar se estes e seus partidos não somente afirmam, mas estão comprometidos com a separação entre a Igreja e o Estado, lembrando que toda autoridade procede de Deus.

3. Lute contra todas as formas de corrupção, apoiando mecanismos de controle do uso do dinheiro público e das prioridades do governo; colaborando para que projetos tais como o Ficha Limpa, que tratem sobre a ética nas eleições, sejam conhecidos e aplicados; denunciando o uso da máquina administrativa federal, estadual ou municipal para favorecer determinados candidatos; em conformidade com a lei N.º 9.840/99, denunciando a compra de votos através de dinheiro, programas assistenciais ou promessas de vantagens pessoais, assim como quem obrigue os eleitores a votar em determinados candidatos, seja por meio de ameaças, seja através de pressão religiosa.

4. Apoie propostas que defendam a vida e a dignidade do ser humano em qualquer circunstância. Para a fé cristã, a vida humana é dom de Deus, desde a concepção no ventre materno até ao dia de sua morte. Portanto, proteger a vida inclui combater o aborto e a eutanásia; reprimir a violência por meio de políticas de segurança pública realistas; promover uma ética do trabalho que enfatize virtudes bíblicas, tais como honestidade, pontualidade, diligência, obediência ao quarto mandamento (“seis dias trabalharás”), obediência ao oitavo mandamento (“não furtarás”) e obediência ao décimo mandamento (“não cobiçarás”); defender o direito à propriedade privada como direito fundamental (cf. Êx 20.15, 17; 1Rs 21.1-29).

5. Verifique qual a proposta educacional do candidato, analisando se ele defende a qualidade e a liberdade do ensino, inclusive no âmbito religioso, promovendo uma escola digna e de qualidade. Confira também se ele promove as liberdades individuais, por meio do estabelecimento de normas gerais de conduta que redundem em liberdade de expressão, associação e de imprensa.

6. Rejeite candidatos e partidos com ênfases estatizantes e intervencionistas nas esferas familiar, eclesiástica, artística, trabalhista e escolar, que concebam um ambiente onde se tem pouca ou nenhuma liberdade pessoal e econômica. Para a fé cristã, a família, a igreja, o trabalho e a escola são esferas independentes do Estado, pois existem sem este, derivando sua autoridade somente de Deus. Logo, o papel do Estado é mediador, intervindo quando as diferentes esferas entram em conflito entre si ou para defender os fracos contra o abuso dos demais. Portanto, os cristãos devem não somente não apoiar, mas também resistir a um sistema político autoritário ou totalitário (cf. At 5.29; Ap 13.1-18).

7. Repudie ministros, igrejas ou denominações que tentem identificar determinada ideologia com o reino de Deus ou com a mensagem bíblica. Pois, como afirma a Declaração de Barmen [8.18], “rejeitamos a falsa doutrina de que à Igreja seria permitido substituir a forma da sua mensagem e organização, a seu bel-prazer ou de acordo com as respectivas convicções ideológicas e políticas reinantes”. A igreja, ao proclamar com fidelidade a Palavra de Deus, influencia o Estado, de modo que suas leis se conformem com a vontade de Deus, decorrendo daí consequências políticas de tal fidelidade ao chamado primário da comunidade cristã.

8. Apoie candidatos comprometidos com propostas e leis que sejam derivadas da lei de Deus, como revelada nas Escrituras, pois esta é a fonte absoluta e final da ética pessoal, eclesiástica e social. Há que se ter compromisso por parte do candidato com o contrato social, que é um acordo entre os membros de uma sociedade pelo qual reconhecem a autoridade sobre todos de um conjunto de regras, a Constituição, que limita o poder, organiza o Estado e define direitos e garantias fundamentais. 

9. Valorize candidatos e partidos comprometidos com o modelo republicano de governo, no qual a nação é governada pela lei constitucional e administrada por representantes eleitos pelo povo, assim como a divisão e a separação dos poderes executivo, legislativo e judiciário, de modo que nenhum governo ou ramo do governo monopolize o poder. Assim também valorize aqueles que respeitem a alternância do poder civil, que impede que um partido ou autoridade se perpetue no poder, assim como a defesa do pluralismo político e partidário. Portanto, devem-se rejeitar candidatos que apoiem o Decreto N.º 8.243, conhecido como Política Nacional de Participação Social (PNPS). Tal decreto fere a cláusula pétrea constitucional da autonomia e independência dos Poderes, e praticamente desmonta a democracia representativa, substituindo-a pela participação popular direta, indicada, nomeada e controlada por órgãos do Estado.

10. Apoie candidatos que enfatizem as funções primordiais do Estado, onde os governantes têm a obrigação de zelar pela segurança do povo, pela qual pagamos tributos (cf. Rm 13.1-7), assim como ressaltem a limitação do poder do Estado, pois a partir das Escrituras, entende-se que o governo civil não tem autoridade para cobrar impostos exorbitantes, redistribuir propriedades ou renda, criar zonas francas ou confiscar depósitos bancários.

Pedimos que o Cristo Rei, o único e absoluto soberano Senhor, nos sustente e nos conduza sempre em nossas opções políticas. Façamos destas eleições um gesto de amor a este país e a nossos irmãos e irmãs, para maior glória de Deus.

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Bibliografia:
• “A Declaração Teológica de Barmen”, em A Constituição da Igreja Presbiteriana Unida dos Estados Unidos da América, Parte 1: Livro de Confissões (São Paulo: Missão Presbiteriana do Brasil Central, 1969), 8.01-8.28.
• Johannes Althusius, Política (Rio de Janeiro: Top Books, 2003).
• João Calvino, As Institutas ou Tratado da Religião Cristã. ed. latina de 1559 (São Paulo: Cultura Cristã, 2006), IV.20.1-32.
• Wayne Grudem, Política segundo a Bíblia (São Paulo: Vida Nova, 2014).
• Abraham Kuyper, Calvinismo (São Paulo: Cultura Cristã, 2002).
• Augustus Nicodemus Lopes, Ética na política e a universidade: Carta de princípios 2006 (São Paulo: Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2006).
• Ives Gandra da Silva Martins, “Por um congresso inexpressivo”, Folha de São Paulo (10/06/2014). http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2014/06/1467665-ives-gandra-da-silva-martins-por-um-congresso-inexpressivo.shtml.
• Merval Pereira, “Desconstruindo a representação”, O Globo (08/06/2014). http://oglobo.globo.com/pais/noblat/post.asp?blogadmin=true&cod_post=538649&ch=n.
• Francis Schaeffer, A igreja no século 21 (São Paulo: Cultura Cristã, 2010).
• C. H. Spurgeon, The Candle (Delivered on Lord’s-Day Morning, April 24, 1881, at The Metropolitan Tabernacle, Newington). http://www.spurgeongems.org/vols25-27/chs1594.pdf.
Voto consciente: dever do cristão (Rio de Janeiro: Arquidiocese do Rio de Janeiro, s/d).

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Fonte: Teologia Brasileira
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Espectro político, mentes cativas e idolatria

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Por Franklin Ferreira


Aquele nosso inimigo era leão quando se enfurecia abertamente; agora é dragão quando ocultamente arma ciladas. (...) Como a nossos pais era necessária a paciência no combate contra o leão, assim precisamos da vigilância contra o dragão. No entanto, a perseguição, seja do leão, seja do dragão nunca cessa para a Igreja; e é mais temível quando engana do que quando se enfurece. 

Naquele tempo queria forçar os cristãos a negarem a Cristo; agora ensina os cristãos a negarem a Cristo; então coagia, agora ensina. Então introduzia violências; agora, insídias. Aparecia então furioso, agora mostra-se insinuante e dificilmente aparenta erro.[1]

I. Esquerda e direita

Diante do debate político ora em curso, é necessário se definir o que vem a ser “direita” e “esquerda”. A esquerda pode ser definida como aquele modelo do espectro político em que há pouca ou nenhuma liberdade pessoal e econômica, em que o Estado ou partido ganha uma dimensão transcendente, agindo para estender seu domínio sobre todas as esferas da sociedade. Por outro lado, a direita privilegia a liberdade pessoal e econômica, e a garantia dos direitos individuais, sendo os limites o respeito à vida, à propriedade e à liberdade dos demais.[2] Tais termos ganharam este significado após o começo da Guerra Fria.

No Brasil, convencionou-se tratar como “direita” o regime militar, que tomou o poder no Brasil entre 1964-1985, e como “esquerda” os grupos que se opuseram às forças armadas e almejavam um regime socialista. Curiosamente, tanto os militares como a esquerda compartilhavam o autoritarismo e o desenvolvimentismo intervencionista. Mas, se a direita assume como absoluta a valorização do indivíduo, como este sistema pode se degenerar em autoritarismo ou totalitarismo? Há exemplos históricos de regimes autoritários ou totalitários que afirmaram a liberdade individual? Na verdade, não. Antes, foram regimes esquerdistas que almejaram controlar (Gleichschaltung) firmemente todas as esferas da sociedade (família, artes, esportes, igreja, economia e imprensa), a partir da noção da transcendência do Estado/Partido.[3] 

Paul e Raphael Freston, no artigo “De esquerda ou de direita, sejamos inteligentes e cristãos”,[4]  citando Norberto Bobbio, definem a direita como o espectro político que “enfatiza o ideal da liberdade individual”. Todavia, antes, eles escreveram que se ignora “os exemplos – muito mais numerosos – de autoritarismo de direita”. Porém, a sugestão ou afirmação de que o nazismo, o fascismo e as ditaduras militares da América Latina das décadas de 1960-1980 representam a “direita” é baseada numa contradição entre definição conceitual e realidade histórica.[5] O fato é que os ditadores mais cruéis da história do século XX foram esquerdistas: Lênin e Stalin (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), Adolf Hitler (Alemanha) e Walter Ulbricht (Alemanha Oriental), Nicolae Ceauşescu (Romênia), Pol-Pot (Cambodja), Hồ Chí Minh (Vietnã). Cuba, Coreia do Norte e Venezuela são hoje estados-modelos de esquerdismo.[6] 

Nestes debates, a esquerda nunca é comparada à direita. A armadilha do discurso da esquerda é comparar uma ideia “perfeita” com a realidade, como se isso fosse prova da superioridade esquerdista. Porém, a honestidade intelectual exige que se compare o socialismo real com o capitalismo real. Nesse caso, fica escancarada a inferioridade da esquerda. Pois, como escreve Denis Rosenfield, a comparação “deveria ser entre a Alemanha [Ocidental] capitalista e a [Alemanha Oriental] socialista, ou ainda, entre a Coreia [do Sul] capitalista e a [Coreia do Norte] socialista”, mas a comparação é filtrada por uma “mentalidade religiosa”, “teológico-política”, onde se compara a direita real “com a ideia do socialismo, forjada por aqueles que lhe atribuem todas as perfeições”.

Isto é equivalente a comparar uma sociedade perfeita a uma imperfeita, ou ainda, a comparar o homem a Deus. É claro que o homem, com suas imperfeições, sairá sempre perdendo quando comparado a Deus. O mesmo destino teria a comparação entre uma sociedade perfeita (ideal) e uma imperfeita (real). (...) Ou seja, atribui-se ao socialismo todas as perfeições e, de posse destes atributos, passa-se a verificar se eles ‘existem’ no capitalismo.[7] 

Wolfhart Pannenberg lembra que devemos ter em mente que o “anticristo se manifesta (...) particularmente em doutrinas intramundanas [utópicas] de redenção e salvação, às quais as pessoas das sociedades modernas estão expostas”. Na escatologia das utopias intramundanas “explicitaram-se, pois, as consequências do aproveitamento funcionalista dos indivíduos (...), particularmente no caso do marxismo pelo fato de a felicidade dos agora vivos ser sacrificada sem escrúpulos em nome do pretenso alvo da humanidade”, em que “apenas os indivíduos da geração então vivente poderiam participar” deste “milênio secularizado”. E o contraste entre esta utopia e a esperança ensinada pela fé cristã é claramente estabelecido:

Em toda escatologia intramundana [como o marxismo] a consumação (supostamente) geral tem de ser buscada e afirmada à custa dos indivíduos [em que ‘os indivíduos de gerações passadas’ não ‘participarão da concretização futura de sua destinação’]. Essa é a estrutura anticristã da escatologia intramundana. Em contrapartida, a escatologia cristã preserva o vínculo indissolúvel de destinação individual e geral da humanidade. Através da glorificação dos indivíduos de mãos dadas com a glorificação do Pai e do Filho por eles, se concretizará o reino de Deus e será não apenas consumada, mas também aceita em geral a justificação de Deus perante os sofrimentos do mundo.[8] 

Então, diferente do que se apregoa, partidos de esquerda e extrema-esquerda não são de orientação democrática. Suas propostas são inspiradas na ideia do Estado coercitivo, julgador e punidor. Não reconhecem a dinâmica de equilíbrio dos segmentos da sociedade e das instituições republicanas. Por pensarem desse modo, facilmente são corrompidos pela ideia de que são os “donos da verdade” e únicos porta-vozes da justiça.[9]

Aliás, a degeneração institucional, a perseguição a jornalistas e o uso de violência e prisões arbitrárias para tentar sufocar os protestos por democracia na Venezuela torna o silêncio de setores da imprensa e do governo esquerdista brasileiro indigno e cúmplice.[10] O incrível é que só na América Latina esta devoção ao esquerdismo sobrevive. As nações latino-americanas tornaram-se, de fato, a vanguarda do atraso.

II. Liberalismo e democracia

Ainda que a divisão entre direita e esquerda tenha se tornado lugar comum no debate político no Pós-Guerra e Guerra Fria, só sobrevivem hoje na cultura norte-americana com mais ou menos consistência ideológica. E deve-se lembrar de que o sistema bipartidário dos Estados Unidos foi uma criação dos Pais Fundadores, para que o sistema bloqueasse qualquer radicalismo político. Hoje o sistema entrou “em curto” nos Estados Unidos, especialmente porque Deus, que era importante no pensamento político dos Pais Fundadores, foi melancolicamente afastado para a esfera privada por dirigentes dos partidos Republicano e Democrata.[11]

Parece que na cultura europeia e brasileira talvez faça mais sentido falar em termos de “liberal” e “antiliberal”.[12] A partir de tal paradigma, pode-se perceber que há incrustada no país uma mentalidade antiliberal, entre as elites (coronéis, famílias, conglomerados) e governo (qualquer que seja), que se caracteriza por protecionismo, economia dirigida e centralizada, ódio feroz às privatizações e ao mercado, alta taxa de impostos, pacto a favor do estado e contra as liberdades fundamentais do povo/indivíduos – conceitos associados, tradicionalmente, à esquerda. É importante notar que todos os governos a partir da proclamação da república no Brasil foram antiliberais e populistas – uma marca da política de toda a América Latina. Isso se aplica especialmente a Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto, Getúlio Vargas, o regime militar, Fernando Collor, Lula e Dilma Rousseff.[13] 

Essa mentalidade antiliberal também se revela na estrutura estatal. O estado brasileiro interfere e intervém em todas as esferas da sociedade (família, artes, esportes, igreja, economia e imprensa). Porém, tudo o que o estado faz é tradicionalmente marcado por ineficiência, incompetência e corrupção. E, num caso de deslocamento da realidade, “ongueiros” profissionais, políticos e “ativistas” ligados a partidos de esquerda e extrema-esquerda como PT, PSOL e PSTU dizem que o país precisa de mais Estado! 

Por outro lado, o liberalismo preconiza que se precisa de menos Estado, e que este seja enxuto e eficaz; a redução da interferência do Estado na economia ao mínimo necessário; a defesa da propriedade privada; a privatização das empresas estatais e de serviços públicos que possam ser oferecidos pela iniciativa privada; o livre mercado; e a redução das despesas do governo com a consequente redução da carga tributária. Assim como afirma o respeito ao Império da Lei e às liberdades individuais; à iniciativa privada; às diversas esferas que compõem a sociedade; e o fomento às estruturas mediadoras (intermediate bodies). Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, Austrália, Nova Zelândia, Japão e Coreia do Sul, entre outros, são guiados por ideais liberais em maior ou menor grau – e o resultado está à vista de todos.[14]

III. “Geração Coca-Cola”

Diante dessas considerações, é interessante identificar quais os motivos da tendência esquerdista entre os jovens. Estes parecem pertencer à classe alta ou média alta, estudam em universidades estaduais ou federais e recebem bolsas governamentais para (não raro) estudar no exterior. Para eles, os proletários, por viverem para o trabalho, não têm consciência de seu estado de escravidão. E são os membros desta nova classe de “homens novos” que poderão não somente iluminar, mas guiar as massas na luta contra a opressão. 

O mundo passa a ser interpretado a partir de uma “nova moral”, que opõe estes que almejam um mundo melhor contra a mentalidade rígida da sociedade. Portanto, o mundo é dividido em opressores e oprimidos, onde todos os bons são oprimidos, todos os que discordam são opressores, e estes devem ser cooptados, silenciados ou eliminados.[15] A complexidade social é reduzida a uma luta entre o bem e o mal, uma luta entre o povo e as elites. Não raro, os trabalhadores são tratados como “massa alienada” por não os apoiar, rotulados como gente que “não quer mudar” e que não enxerga “a luta por mudança”. Curiosamente, durante a Guerra Fria, na Polônia e na Alemanha Oriental, estes idealistas eram chamados pelo proletariado, com cinismo, de “burgueses vermelhos”. A mesma repulsa já se evidencia aqui no Brasil, especialmente por parte das camadas mais baixas da sociedade.[16] 

Urge estudar as conexões de Black Blocs (mascarados vestidos de preto e armados com bombas, coquetéis molotov, pedras e paus) com partidos da esquerda e extrema-esquerda, como o PSOL.[17] Quem financia e orienta os Black Blocs? Quem lhes presta assessoria jurídica? O modus operandi desta milícia é velho, antiquado, nada diferente das forças de choque fascistas (Itália, 1920), nazistas (Alemanha, 1930) e esquerdistas (Alemanha, 1970-1998) presentes na história da Europa no século XX.[18] Também há similaridades com o procedimento de vários grupos de guerrilha no Brasil durante a ditadura, tais como a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares).[19] Os Black Blocs fazem ressurgir a violência em manifestações nas ruas justamente em um momento de ascensão de um discurso de intolerância e ódio em relação às principais instituições que dão sentido a uma democracia, vista por estes como um sistema burguês tirânico.[20] 

Não apareceu nas páginas destes grupos ou partidos uma “nota de condolências” ou uma referência à morte do cinegrafista Santiago Andrade, da TV Bandeirantes.[21] Os que escreveram nas páginas do grupo sugeriam que a tragédia foi um erro “das empresas de comunicação” ou culpa do Estado. Ou rebateram com a lembrança de “tudo que a Polícia Militar já fez”, como um exemplo de “contraviolência”. Nisso também lembram os antigos guerrilheiros, que justificavam suas ações violentas com o termo “represália”.[22] Assim sendo, os partidos que apoiam os Black Blocs não têm lastro moral para criticar os “justiceiros” do bairro do Flamengo-RJ.[23] Ora, em um país sob uma carta constitucional, a lei não vale para todos, igualmente? [24]

Deste modo, parece que a violência dos Black Blocs só serve ao governo federal do PT, pois, além de jamais ostentar cartazes ou gritar palavras de ordem contra a falência da saúde e da educação, esvazia as manifestações legítimas com sua violência. Do “milhão”, as passeatas recuaram para os milhares e, finalmente, as centenas, como nas últimas ocasiões. 

Espantam-me cada vez mais os rumos da esquerda brasileira. Em vez de aproveitar a oportunidade de sua passagem pelo poder e pôr em prática os ideais de educação, conscientização e espírito de coletividade e trabalho (marcas registradas das promessas socialistas), eles preferem disseminar entre os jovens um espírito de revolta, ignorância e demagogia. Como nota Demétrio Magnoli, “há algo de profundamente errado com um país incapaz de enxergar a face do mal, quando ela se esconde atrás da máscara de uma ideologia”.[25] 

Alguns destes jovens associados à esquerda se identificam como cristãos, mas possuem mais conexão com grupos paraeclesiásticos do que com igrejas locais. Estes cristãos que militam em partidos e grupos de esquerda e extrema-esquerda se autodenominam no Brasil de “cristãos progressistas”. Curiosa – e reveladoramente – os católicos poloneses que apoiavam os nazistas, antes da II Guerra, e os comunistas, no Pós-Guerra, também se chamavam de “cristãos progressistas”. 

O que parece é que a ausência do “totalmente outro” (totaliter aliter) leva pessoas a adotar uma ideologia que almeja transcendência, e que supostamente as auxilia a superar as contradições de uma sociedade existencialmente opressiva, satisfazendo a “preocupação suprema” de suas vidas, o sonho de um “outro mundo possível”.[26] Portanto, uma pergunta se impõe aos pregadores e às comunidades cristãs: como responder a este anseio por algo além e acima da criação, que todas as pessoas almejam? Como satisfazer tal desejo, levando pessoas da idolatria à “transcendência desviada”, isto é, ao ente estatal e a ideologia (de direita ou de esquerda), para o culto ao Deus todo-poderoso, o “totalmente outro”, que se revela apenas nas Escrituras Sagradas? Será que na atualidade o evangelho, as boas novas de Deus em Cristo – morto por nossos pecados e ressuscitado para nossa redenção –, tem sido oferecido com paixão e dependência do Espírito Santo? O Deus-Trindade é oferecido como o único que pode satisfazer a “preocupação suprema” que todas as pessoas experimentam?

IV. “Não terás outros deuses diante de mim” 

A mentalidade esquerdista antiliberal é binária: “nós” e “eles”, os “bons” e os “maus”, os revolucionários e os reacionários, a esquerda e a direita. Esquerdistas não conseguem pensar em termos de gradações.[27] Então, se alguém os critica, este deve ser, forçosamente, de “direita”. E acaba-se o debate, pois o esquerdista, para equalizar o confronto, começará a falar dos problemas da suposta direita no Brasil – como se houvesse de fato uma direita organizada e partidos políticos liberais no país. E, de forma típica, em vez de colocar argumento contra argumento, o esquerdista usará o discurso da vitimização ou do constrangimento moral/espiritual para se evadir das profundas contradições de seu sistema. Ou apelará para a difamação pura e simples.

Só que “o marxismo”, como escreveu Richard Sturz, “não passa de uma heresia ao cristianismo. Em vez de abolir a religião, o marxismo tornou-se uma religião secular. Seus ensinos são apresentados como substitutos para as doutrinas cristãs”.[28] Esta elevação transcendental da ideologia e a incapacidade de autocrítica revela na esquerda uma lealdade idolátrica.

Os cristãos, que buscam confessar sua fé em submissão às Escrituras, creem que há um só Senhor e Rei, o único Deus todo-poderoso. Os cristãos são súditos do “bendito e único Soberano, o Rei dos reis e Senhor dos senhores” (1Tm 6.15). E esperam a “pátria [que] está nos céus”, de onde aguardam “o Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Fp 3.20), o único que traz o juízo e a salvação para toda a sociedade. 

Os cristãos não dividem sua lealdade com um Estado/partido/governo que requer fidelidade religiosa, pois os cristãos sabem que tal lealdade é idolatria, uma quebra do primeiro mandamento.[29] Portanto, os cristãos têm a liberdade – que mesmo os melhores entre os incrédulos não têm – de criticar qualquer sistema político, qualquer ideologia, pois eles o fazem a partir da crença de que somente o Senhor Deus tem o direito de comandar todas as esferas da sociedade. Nenhum governo ou partido recebeu este direito. E os cristãos também creem que governos e partidos que anseiam ser totais deixam de ser a “autoridade ordenada por Deus” (Rm 13.1-7),[30] para se tornar “uma besta” que recebeu “seu trono e grande autoridade” do dragão (Ap 13.1-18). E diante desta, a resposta cristã é: “Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens” (At 5.29).

Portanto, o autoritarismo e o totalitarismo precisam ser resistidos pelos cristãos, por todos os meios legítimos. E, para tanto, precisamos perguntar: “Se o cristão crê que Deus é o único rei e senhor absoluto, ele pode entregar sua lealdade ao partido ou ao Estado autoritário ou totalitário?”. A resposta é: “Não”! É incompatível alguém declarar que adora a Deus como o Senhor que fala apenas por meio de sua Palavra e tornar-se servil a um Estado iníquo. Isso implica que um cristão que se submete a tal Estado coloca-se numa posição contrária à Escritura, tornando-se meramente “o lacaio sagrado do governo”.[31] 

Geralmente – mas não exclusivamente – são teólogos liberais que apoiam o esquerdismo. E estes são os que descartam as Escrituras Sagradas como a única Palavra de Deus que se deve ouvir, e também diminuem a glória e majestade de Deus, como ocorre no teísmo aberto e nas teologias da libertação. Para estes, “a alternativa é crer em um deus que tem o nome, mas não as qualidades do Deus revelado nas Escrituras, e não passa de uma simples capitulação ao marxismo”.[32] Mesmo o ser humano é estranho à esquerda – não há interesse no destino da pessoa real e concreta, mas apenas na emancipação da classe proletária, oprimida e alienada.[33] 

Há um esforço consciente de cooptar o que for necessário para dar respeitabilidade a esta tentativa de fundir o esquerdismo com uma revisão da fé cristã. O legado de Dietrich Bonhoeffer é um exemplo desta associação a serviço do marxismo. Cita-se como apoio a uma interpretação esquerdista de Bonhoeffer seu exemplo de resistência ao nazismo e algumas frases de sua correspondência, Resistência e submissão. Mas não há preocupação de colocar o mártir alemão em contexto.[34] Como um teólogo alistado no serviço de inteligência militar (Abwehr), amigo de militares nacionalistas que ansiavam por uma paz em separado com a Inglaterra e os Estados Unidos para, aliados a estes, atacarem a União Soviética, pode ser usado como inspiração para uma aproximação entre cristãos e esquerdistas, ou como precursor da teologia da libertação?

Em um apêndice de sua tese de doutorado, escrita em 1927, Bonhoeffer tratou da questão da igreja e do proletariado.[35] Ele afirmou a necessidade da igreja evangélica alemã pregar o evangelho ao proletariado, que vivia em miséria e isolamento. E isso se daria quando a igreja parasse de se dirigir apenas à burguesia, que usufruía segurança, relações familiares ordenadas e relativa cultura; se a igreja não anunciasse o evangelho ao proletariado, este seria seduzido pelos socialistas. Para o teólogo alemão, o que estava em jogo era a exclusividade do evangelho, Deus em juízo e graça. Como ele conclui, o evangelho não pode ser confundido com o socialismo, e não será por meio desta ideologia que o Reino de Deus virá à terra. Este será consumado somente por meio do evangelho.

Portanto, o objetivo dos esquerdistas é adequar uma revisão da fé cristã a uma ideologia que lhe é completamente oposta. Por isso o ódio teológico (odium theologicum) que os teólogos liberais têm pela fé reformada. Pois, na verdade, as doutrinas da autoridade da Escritura, da predestinação e da aliança são as verdadeiras motivações de revoluções políticas de longo alcance, como as revoluções inglesa e americana, nos séculos XVII e XVIII.

Diante dos fatos, há os que apelam para o argumento emocional de que uma postura antiesquerdista é “insensível”, “descaridosa” e “alienada”. Não custa lembrar: cristãos fazem “o bem a todos”, e “principalmente aos domésticos da fé” (Gl 6.7-10), constrangidos por amor e lealdade a Jesus Cristo; não terceirizam seu amor, entregando-o ao arbítrio do Estado. Em Atos 2.41-47, passagem tão ao gosto desta mentalidade, os primeiros cristãos repartem o que possuem não constrangidos pelo Estado ou pelo imperador – mas o fazem livremente por amor ao Senhor Deus e ao próximo.

V. “Não abandoneis, portanto, a vossa confiança”

Helmuth James Graf von Moltke foi preso em janeiro de 1944 por fazer parte da resistência alemã contra o Partido Nacional Socialista. Levado ao tribunal, ele travou o seguinte diálogo com o juiz-algoz, pouco antes de sua morte, em 23 de janeiro de 1945:

No decorrer de seus discursos, [o juiz Roland] Freisler me disse: ‘O Nacional Socialismo assemelha-se ao cristianismo em apenas um aspecto: nós exigimos a totalidade do homem’. Não sei se os outros que estavam sentados ali puderam compreender o que foi dito, pois esse foi o tipo de diálogo travado entre Freisler e eu – um diálogo subentendido, visto que não tive a chance de dizer muita coisa – um diálogo por meio do qual passamos a conhecer um ao outro totalmente. Freisler era o único do grupo que me entendia completamente, e o único que percebia por que deveria me matar... No meu caso, tudo era determinado da forma mais severa. ‘De quem você recebe ordens, do outro mundo ou de Adolf Hitler? Onde você deposita sua lealdade e sua fé’?
Tal pergunta também não está ligada à luta entre a lealdade à esquerda (assim como a qualquer outra posição do espectro político) e a exclusiva adoração ao Deus-Trindade, o único e verdadeiro soberano e rei?
A frase decisiva no processo foi: ‘Herr Conde, o cristianismo e nós, nacional socialistas, temos apenas uma coisa em comum; uma única coisa: nós reivindicamos a totalidade do homem’. Eu gostaria de saber se ele realmente compreendia o que havia dito ali. (...)
Mantive minha posição (...) não como um protestante, não como um proprietário de terras, não como um nobre, não como um prussiano, nem mesmo como um alemão... Nada disso, mantive minha posição como um cristão e nada mais... [36]

Que Deus nos ajude a alcançar tal firmeza, ao custo da própria vida, se necessário. Pois Deus não tolera culto a outros seres ou entes. Somente Deus, o senhor todo-poderoso, cujos sinais de seu reino já se fazem presentes por meio do ressurreto Jesus Cristo, é digno de todo culto, devoção e glória.

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Notas: Para lê-las, acesse o artigo original aqui.

Sobre o autor: Franklin Ferreira é Bacharel em Teologia pela Escola Superior de Teologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie e Mestre em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil. É diretor e professor de teologia sistemática e história da igreja no Seminário Martin Bucer, em São José dos Campos, São Paulo, e consultor acadêmico de Edições Vida Nova. Autor dos livros Teologia Cristã e Teologia Sistemática (este em coautoria com Alan Myatt), publicados por Edições Vida Nova, e Gigantes da Fé e Agostinho de A a Z.

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