Espectro político, mentes cativas e idolatria

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Por Franklin Ferreira


Aquele nosso inimigo era leão quando se enfurecia abertamente; agora é dragão quando ocultamente arma ciladas. (...) Como a nossos pais era necessária a paciência no combate contra o leão, assim precisamos da vigilância contra o dragão. No entanto, a perseguição, seja do leão, seja do dragão nunca cessa para a Igreja; e é mais temível quando engana do que quando se enfurece. 

Naquele tempo queria forçar os cristãos a negarem a Cristo; agora ensina os cristãos a negarem a Cristo; então coagia, agora ensina. Então introduzia violências; agora, insídias. Aparecia então furioso, agora mostra-se insinuante e dificilmente aparenta erro.[1]

I. Esquerda e direita

Diante do debate político ora em curso, é necessário se definir o que vem a ser “direita” e “esquerda”. A esquerda pode ser definida como aquele modelo do espectro político em que há pouca ou nenhuma liberdade pessoal e econômica, em que o Estado ou partido ganha uma dimensão transcendente, agindo para estender seu domínio sobre todas as esferas da sociedade. Por outro lado, a direita privilegia a liberdade pessoal e econômica, e a garantia dos direitos individuais, sendo os limites o respeito à vida, à propriedade e à liberdade dos demais.[2] Tais termos ganharam este significado após o começo da Guerra Fria.

No Brasil, convencionou-se tratar como “direita” o regime militar, que tomou o poder no Brasil entre 1964-1985, e como “esquerda” os grupos que se opuseram às forças armadas e almejavam um regime socialista. Curiosamente, tanto os militares como a esquerda compartilhavam o autoritarismo e o desenvolvimentismo intervencionista. Mas, se a direita assume como absoluta a valorização do indivíduo, como este sistema pode se degenerar em autoritarismo ou totalitarismo? Há exemplos históricos de regimes autoritários ou totalitários que afirmaram a liberdade individual? Na verdade, não. Antes, foram regimes esquerdistas que almejaram controlar (Gleichschaltung) firmemente todas as esferas da sociedade (família, artes, esportes, igreja, economia e imprensa), a partir da noção da transcendência do Estado/Partido.[3] 

Paul e Raphael Freston, no artigo “De esquerda ou de direita, sejamos inteligentes e cristãos”,[4]  citando Norberto Bobbio, definem a direita como o espectro político que “enfatiza o ideal da liberdade individual”. Todavia, antes, eles escreveram que se ignora “os exemplos – muito mais numerosos – de autoritarismo de direita”. Porém, a sugestão ou afirmação de que o nazismo, o fascismo e as ditaduras militares da América Latina das décadas de 1960-1980 representam a “direita” é baseada numa contradição entre definição conceitual e realidade histórica.[5] O fato é que os ditadores mais cruéis da história do século XX foram esquerdistas: Lênin e Stalin (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), Adolf Hitler (Alemanha) e Walter Ulbricht (Alemanha Oriental), Nicolae Ceauşescu (Romênia), Pol-Pot (Cambodja), Hồ Chí Minh (Vietnã). Cuba, Coreia do Norte e Venezuela são hoje estados-modelos de esquerdismo.[6] 

Nestes debates, a esquerda nunca é comparada à direita. A armadilha do discurso da esquerda é comparar uma ideia “perfeita” com a realidade, como se isso fosse prova da superioridade esquerdista. Porém, a honestidade intelectual exige que se compare o socialismo real com o capitalismo real. Nesse caso, fica escancarada a inferioridade da esquerda. Pois, como escreve Denis Rosenfield, a comparação “deveria ser entre a Alemanha [Ocidental] capitalista e a [Alemanha Oriental] socialista, ou ainda, entre a Coreia [do Sul] capitalista e a [Coreia do Norte] socialista”, mas a comparação é filtrada por uma “mentalidade religiosa”, “teológico-política”, onde se compara a direita real “com a ideia do socialismo, forjada por aqueles que lhe atribuem todas as perfeições”.

Isto é equivalente a comparar uma sociedade perfeita a uma imperfeita, ou ainda, a comparar o homem a Deus. É claro que o homem, com suas imperfeições, sairá sempre perdendo quando comparado a Deus. O mesmo destino teria a comparação entre uma sociedade perfeita (ideal) e uma imperfeita (real). (...) Ou seja, atribui-se ao socialismo todas as perfeições e, de posse destes atributos, passa-se a verificar se eles ‘existem’ no capitalismo.[7] 

Wolfhart Pannenberg lembra que devemos ter em mente que o “anticristo se manifesta (...) particularmente em doutrinas intramundanas [utópicas] de redenção e salvação, às quais as pessoas das sociedades modernas estão expostas”. Na escatologia das utopias intramundanas “explicitaram-se, pois, as consequências do aproveitamento funcionalista dos indivíduos (...), particularmente no caso do marxismo pelo fato de a felicidade dos agora vivos ser sacrificada sem escrúpulos em nome do pretenso alvo da humanidade”, em que “apenas os indivíduos da geração então vivente poderiam participar” deste “milênio secularizado”. E o contraste entre esta utopia e a esperança ensinada pela fé cristã é claramente estabelecido:

Em toda escatologia intramundana [como o marxismo] a consumação (supostamente) geral tem de ser buscada e afirmada à custa dos indivíduos [em que ‘os indivíduos de gerações passadas’ não ‘participarão da concretização futura de sua destinação’]. Essa é a estrutura anticristã da escatologia intramundana. Em contrapartida, a escatologia cristã preserva o vínculo indissolúvel de destinação individual e geral da humanidade. Através da glorificação dos indivíduos de mãos dadas com a glorificação do Pai e do Filho por eles, se concretizará o reino de Deus e será não apenas consumada, mas também aceita em geral a justificação de Deus perante os sofrimentos do mundo.[8] 

Então, diferente do que se apregoa, partidos de esquerda e extrema-esquerda não são de orientação democrática. Suas propostas são inspiradas na ideia do Estado coercitivo, julgador e punidor. Não reconhecem a dinâmica de equilíbrio dos segmentos da sociedade e das instituições republicanas. Por pensarem desse modo, facilmente são corrompidos pela ideia de que são os “donos da verdade” e únicos porta-vozes da justiça.[9]

Aliás, a degeneração institucional, a perseguição a jornalistas e o uso de violência e prisões arbitrárias para tentar sufocar os protestos por democracia na Venezuela torna o silêncio de setores da imprensa e do governo esquerdista brasileiro indigno e cúmplice.[10] O incrível é que só na América Latina esta devoção ao esquerdismo sobrevive. As nações latino-americanas tornaram-se, de fato, a vanguarda do atraso.

II. Liberalismo e democracia

Ainda que a divisão entre direita e esquerda tenha se tornado lugar comum no debate político no Pós-Guerra e Guerra Fria, só sobrevivem hoje na cultura norte-americana com mais ou menos consistência ideológica. E deve-se lembrar de que o sistema bipartidário dos Estados Unidos foi uma criação dos Pais Fundadores, para que o sistema bloqueasse qualquer radicalismo político. Hoje o sistema entrou “em curto” nos Estados Unidos, especialmente porque Deus, que era importante no pensamento político dos Pais Fundadores, foi melancolicamente afastado para a esfera privada por dirigentes dos partidos Republicano e Democrata.[11]

Parece que na cultura europeia e brasileira talvez faça mais sentido falar em termos de “liberal” e “antiliberal”.[12] A partir de tal paradigma, pode-se perceber que há incrustada no país uma mentalidade antiliberal, entre as elites (coronéis, famílias, conglomerados) e governo (qualquer que seja), que se caracteriza por protecionismo, economia dirigida e centralizada, ódio feroz às privatizações e ao mercado, alta taxa de impostos, pacto a favor do estado e contra as liberdades fundamentais do povo/indivíduos – conceitos associados, tradicionalmente, à esquerda. É importante notar que todos os governos a partir da proclamação da república no Brasil foram antiliberais e populistas – uma marca da política de toda a América Latina. Isso se aplica especialmente a Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto, Getúlio Vargas, o regime militar, Fernando Collor, Lula e Dilma Rousseff.[13] 

Essa mentalidade antiliberal também se revela na estrutura estatal. O estado brasileiro interfere e intervém em todas as esferas da sociedade (família, artes, esportes, igreja, economia e imprensa). Porém, tudo o que o estado faz é tradicionalmente marcado por ineficiência, incompetência e corrupção. E, num caso de deslocamento da realidade, “ongueiros” profissionais, políticos e “ativistas” ligados a partidos de esquerda e extrema-esquerda como PT, PSOL e PSTU dizem que o país precisa de mais Estado! 

Por outro lado, o liberalismo preconiza que se precisa de menos Estado, e que este seja enxuto e eficaz; a redução da interferência do Estado na economia ao mínimo necessário; a defesa da propriedade privada; a privatização das empresas estatais e de serviços públicos que possam ser oferecidos pela iniciativa privada; o livre mercado; e a redução das despesas do governo com a consequente redução da carga tributária. Assim como afirma o respeito ao Império da Lei e às liberdades individuais; à iniciativa privada; às diversas esferas que compõem a sociedade; e o fomento às estruturas mediadoras (intermediate bodies). Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, Austrália, Nova Zelândia, Japão e Coreia do Sul, entre outros, são guiados por ideais liberais em maior ou menor grau – e o resultado está à vista de todos.[14]

III. “Geração Coca-Cola”

Diante dessas considerações, é interessante identificar quais os motivos da tendência esquerdista entre os jovens. Estes parecem pertencer à classe alta ou média alta, estudam em universidades estaduais ou federais e recebem bolsas governamentais para (não raro) estudar no exterior. Para eles, os proletários, por viverem para o trabalho, não têm consciência de seu estado de escravidão. E são os membros desta nova classe de “homens novos” que poderão não somente iluminar, mas guiar as massas na luta contra a opressão. 

O mundo passa a ser interpretado a partir de uma “nova moral”, que opõe estes que almejam um mundo melhor contra a mentalidade rígida da sociedade. Portanto, o mundo é dividido em opressores e oprimidos, onde todos os bons são oprimidos, todos os que discordam são opressores, e estes devem ser cooptados, silenciados ou eliminados.[15] A complexidade social é reduzida a uma luta entre o bem e o mal, uma luta entre o povo e as elites. Não raro, os trabalhadores são tratados como “massa alienada” por não os apoiar, rotulados como gente que “não quer mudar” e que não enxerga “a luta por mudança”. Curiosamente, durante a Guerra Fria, na Polônia e na Alemanha Oriental, estes idealistas eram chamados pelo proletariado, com cinismo, de “burgueses vermelhos”. A mesma repulsa já se evidencia aqui no Brasil, especialmente por parte das camadas mais baixas da sociedade.[16] 

Urge estudar as conexões de Black Blocs (mascarados vestidos de preto e armados com bombas, coquetéis molotov, pedras e paus) com partidos da esquerda e extrema-esquerda, como o PSOL.[17] Quem financia e orienta os Black Blocs? Quem lhes presta assessoria jurídica? O modus operandi desta milícia é velho, antiquado, nada diferente das forças de choque fascistas (Itália, 1920), nazistas (Alemanha, 1930) e esquerdistas (Alemanha, 1970-1998) presentes na história da Europa no século XX.[18] Também há similaridades com o procedimento de vários grupos de guerrilha no Brasil durante a ditadura, tais como a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares).[19] Os Black Blocs fazem ressurgir a violência em manifestações nas ruas justamente em um momento de ascensão de um discurso de intolerância e ódio em relação às principais instituições que dão sentido a uma democracia, vista por estes como um sistema burguês tirânico.[20] 

Não apareceu nas páginas destes grupos ou partidos uma “nota de condolências” ou uma referência à morte do cinegrafista Santiago Andrade, da TV Bandeirantes.[21] Os que escreveram nas páginas do grupo sugeriam que a tragédia foi um erro “das empresas de comunicação” ou culpa do Estado. Ou rebateram com a lembrança de “tudo que a Polícia Militar já fez”, como um exemplo de “contraviolência”. Nisso também lembram os antigos guerrilheiros, que justificavam suas ações violentas com o termo “represália”.[22] Assim sendo, os partidos que apoiam os Black Blocs não têm lastro moral para criticar os “justiceiros” do bairro do Flamengo-RJ.[23] Ora, em um país sob uma carta constitucional, a lei não vale para todos, igualmente? [24]

Deste modo, parece que a violência dos Black Blocs só serve ao governo federal do PT, pois, além de jamais ostentar cartazes ou gritar palavras de ordem contra a falência da saúde e da educação, esvazia as manifestações legítimas com sua violência. Do “milhão”, as passeatas recuaram para os milhares e, finalmente, as centenas, como nas últimas ocasiões. 

Espantam-me cada vez mais os rumos da esquerda brasileira. Em vez de aproveitar a oportunidade de sua passagem pelo poder e pôr em prática os ideais de educação, conscientização e espírito de coletividade e trabalho (marcas registradas das promessas socialistas), eles preferem disseminar entre os jovens um espírito de revolta, ignorância e demagogia. Como nota Demétrio Magnoli, “há algo de profundamente errado com um país incapaz de enxergar a face do mal, quando ela se esconde atrás da máscara de uma ideologia”.[25] 

Alguns destes jovens associados à esquerda se identificam como cristãos, mas possuem mais conexão com grupos paraeclesiásticos do que com igrejas locais. Estes cristãos que militam em partidos e grupos de esquerda e extrema-esquerda se autodenominam no Brasil de “cristãos progressistas”. Curiosa – e reveladoramente – os católicos poloneses que apoiavam os nazistas, antes da II Guerra, e os comunistas, no Pós-Guerra, também se chamavam de “cristãos progressistas”. 

O que parece é que a ausência do “totalmente outro” (totaliter aliter) leva pessoas a adotar uma ideologia que almeja transcendência, e que supostamente as auxilia a superar as contradições de uma sociedade existencialmente opressiva, satisfazendo a “preocupação suprema” de suas vidas, o sonho de um “outro mundo possível”.[26] Portanto, uma pergunta se impõe aos pregadores e às comunidades cristãs: como responder a este anseio por algo além e acima da criação, que todas as pessoas almejam? Como satisfazer tal desejo, levando pessoas da idolatria à “transcendência desviada”, isto é, ao ente estatal e a ideologia (de direita ou de esquerda), para o culto ao Deus todo-poderoso, o “totalmente outro”, que se revela apenas nas Escrituras Sagradas? Será que na atualidade o evangelho, as boas novas de Deus em Cristo – morto por nossos pecados e ressuscitado para nossa redenção –, tem sido oferecido com paixão e dependência do Espírito Santo? O Deus-Trindade é oferecido como o único que pode satisfazer a “preocupação suprema” que todas as pessoas experimentam?

IV. “Não terás outros deuses diante de mim” 

A mentalidade esquerdista antiliberal é binária: “nós” e “eles”, os “bons” e os “maus”, os revolucionários e os reacionários, a esquerda e a direita. Esquerdistas não conseguem pensar em termos de gradações.[27] Então, se alguém os critica, este deve ser, forçosamente, de “direita”. E acaba-se o debate, pois o esquerdista, para equalizar o confronto, começará a falar dos problemas da suposta direita no Brasil – como se houvesse de fato uma direita organizada e partidos políticos liberais no país. E, de forma típica, em vez de colocar argumento contra argumento, o esquerdista usará o discurso da vitimização ou do constrangimento moral/espiritual para se evadir das profundas contradições de seu sistema. Ou apelará para a difamação pura e simples.

Só que “o marxismo”, como escreveu Richard Sturz, “não passa de uma heresia ao cristianismo. Em vez de abolir a religião, o marxismo tornou-se uma religião secular. Seus ensinos são apresentados como substitutos para as doutrinas cristãs”.[28] Esta elevação transcendental da ideologia e a incapacidade de autocrítica revela na esquerda uma lealdade idolátrica.

Os cristãos, que buscam confessar sua fé em submissão às Escrituras, creem que há um só Senhor e Rei, o único Deus todo-poderoso. Os cristãos são súditos do “bendito e único Soberano, o Rei dos reis e Senhor dos senhores” (1Tm 6.15). E esperam a “pátria [que] está nos céus”, de onde aguardam “o Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Fp 3.20), o único que traz o juízo e a salvação para toda a sociedade. 

Os cristãos não dividem sua lealdade com um Estado/partido/governo que requer fidelidade religiosa, pois os cristãos sabem que tal lealdade é idolatria, uma quebra do primeiro mandamento.[29] Portanto, os cristãos têm a liberdade – que mesmo os melhores entre os incrédulos não têm – de criticar qualquer sistema político, qualquer ideologia, pois eles o fazem a partir da crença de que somente o Senhor Deus tem o direito de comandar todas as esferas da sociedade. Nenhum governo ou partido recebeu este direito. E os cristãos também creem que governos e partidos que anseiam ser totais deixam de ser a “autoridade ordenada por Deus” (Rm 13.1-7),[30] para se tornar “uma besta” que recebeu “seu trono e grande autoridade” do dragão (Ap 13.1-18). E diante desta, a resposta cristã é: “Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens” (At 5.29).

Portanto, o autoritarismo e o totalitarismo precisam ser resistidos pelos cristãos, por todos os meios legítimos. E, para tanto, precisamos perguntar: “Se o cristão crê que Deus é o único rei e senhor absoluto, ele pode entregar sua lealdade ao partido ou ao Estado autoritário ou totalitário?”. A resposta é: “Não”! É incompatível alguém declarar que adora a Deus como o Senhor que fala apenas por meio de sua Palavra e tornar-se servil a um Estado iníquo. Isso implica que um cristão que se submete a tal Estado coloca-se numa posição contrária à Escritura, tornando-se meramente “o lacaio sagrado do governo”.[31] 

Geralmente – mas não exclusivamente – são teólogos liberais que apoiam o esquerdismo. E estes são os que descartam as Escrituras Sagradas como a única Palavra de Deus que se deve ouvir, e também diminuem a glória e majestade de Deus, como ocorre no teísmo aberto e nas teologias da libertação. Para estes, “a alternativa é crer em um deus que tem o nome, mas não as qualidades do Deus revelado nas Escrituras, e não passa de uma simples capitulação ao marxismo”.[32] Mesmo o ser humano é estranho à esquerda – não há interesse no destino da pessoa real e concreta, mas apenas na emancipação da classe proletária, oprimida e alienada.[33] 

Há um esforço consciente de cooptar o que for necessário para dar respeitabilidade a esta tentativa de fundir o esquerdismo com uma revisão da fé cristã. O legado de Dietrich Bonhoeffer é um exemplo desta associação a serviço do marxismo. Cita-se como apoio a uma interpretação esquerdista de Bonhoeffer seu exemplo de resistência ao nazismo e algumas frases de sua correspondência, Resistência e submissão. Mas não há preocupação de colocar o mártir alemão em contexto.[34] Como um teólogo alistado no serviço de inteligência militar (Abwehr), amigo de militares nacionalistas que ansiavam por uma paz em separado com a Inglaterra e os Estados Unidos para, aliados a estes, atacarem a União Soviética, pode ser usado como inspiração para uma aproximação entre cristãos e esquerdistas, ou como precursor da teologia da libertação?

Em um apêndice de sua tese de doutorado, escrita em 1927, Bonhoeffer tratou da questão da igreja e do proletariado.[35] Ele afirmou a necessidade da igreja evangélica alemã pregar o evangelho ao proletariado, que vivia em miséria e isolamento. E isso se daria quando a igreja parasse de se dirigir apenas à burguesia, que usufruía segurança, relações familiares ordenadas e relativa cultura; se a igreja não anunciasse o evangelho ao proletariado, este seria seduzido pelos socialistas. Para o teólogo alemão, o que estava em jogo era a exclusividade do evangelho, Deus em juízo e graça. Como ele conclui, o evangelho não pode ser confundido com o socialismo, e não será por meio desta ideologia que o Reino de Deus virá à terra. Este será consumado somente por meio do evangelho.

Portanto, o objetivo dos esquerdistas é adequar uma revisão da fé cristã a uma ideologia que lhe é completamente oposta. Por isso o ódio teológico (odium theologicum) que os teólogos liberais têm pela fé reformada. Pois, na verdade, as doutrinas da autoridade da Escritura, da predestinação e da aliança são as verdadeiras motivações de revoluções políticas de longo alcance, como as revoluções inglesa e americana, nos séculos XVII e XVIII.

Diante dos fatos, há os que apelam para o argumento emocional de que uma postura antiesquerdista é “insensível”, “descaridosa” e “alienada”. Não custa lembrar: cristãos fazem “o bem a todos”, e “principalmente aos domésticos da fé” (Gl 6.7-10), constrangidos por amor e lealdade a Jesus Cristo; não terceirizam seu amor, entregando-o ao arbítrio do Estado. Em Atos 2.41-47, passagem tão ao gosto desta mentalidade, os primeiros cristãos repartem o que possuem não constrangidos pelo Estado ou pelo imperador – mas o fazem livremente por amor ao Senhor Deus e ao próximo.

V. “Não abandoneis, portanto, a vossa confiança”

Helmuth James Graf von Moltke foi preso em janeiro de 1944 por fazer parte da resistência alemã contra o Partido Nacional Socialista. Levado ao tribunal, ele travou o seguinte diálogo com o juiz-algoz, pouco antes de sua morte, em 23 de janeiro de 1945:

No decorrer de seus discursos, [o juiz Roland] Freisler me disse: ‘O Nacional Socialismo assemelha-se ao cristianismo em apenas um aspecto: nós exigimos a totalidade do homem’. Não sei se os outros que estavam sentados ali puderam compreender o que foi dito, pois esse foi o tipo de diálogo travado entre Freisler e eu – um diálogo subentendido, visto que não tive a chance de dizer muita coisa – um diálogo por meio do qual passamos a conhecer um ao outro totalmente. Freisler era o único do grupo que me entendia completamente, e o único que percebia por que deveria me matar... No meu caso, tudo era determinado da forma mais severa. ‘De quem você recebe ordens, do outro mundo ou de Adolf Hitler? Onde você deposita sua lealdade e sua fé’?
Tal pergunta também não está ligada à luta entre a lealdade à esquerda (assim como a qualquer outra posição do espectro político) e a exclusiva adoração ao Deus-Trindade, o único e verdadeiro soberano e rei?
A frase decisiva no processo foi: ‘Herr Conde, o cristianismo e nós, nacional socialistas, temos apenas uma coisa em comum; uma única coisa: nós reivindicamos a totalidade do homem’. Eu gostaria de saber se ele realmente compreendia o que havia dito ali. (...)
Mantive minha posição (...) não como um protestante, não como um proprietário de terras, não como um nobre, não como um prussiano, nem mesmo como um alemão... Nada disso, mantive minha posição como um cristão e nada mais... [36]

Que Deus nos ajude a alcançar tal firmeza, ao custo da própria vida, se necessário. Pois Deus não tolera culto a outros seres ou entes. Somente Deus, o senhor todo-poderoso, cujos sinais de seu reino já se fazem presentes por meio do ressurreto Jesus Cristo, é digno de todo culto, devoção e glória.

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Notas: Para lê-las, acesse o artigo original aqui.

Sobre o autor: Franklin Ferreira é Bacharel em Teologia pela Escola Superior de Teologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie e Mestre em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil. É diretor e professor de teologia sistemática e história da igreja no Seminário Martin Bucer, em São José dos Campos, São Paulo, e consultor acadêmico de Edições Vida Nova. Autor dos livros Teologia Cristã e Teologia Sistemática (este em coautoria com Alan Myatt), publicados por Edições Vida Nova, e Gigantes da Fé e Agostinho de A a Z.

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Franklin Ferreira vs Wayne Grudem: a subordinação do Filho

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Por Luciano Sena


Lendo a Teologia de A. Myatt e Franklin Ferreira, me deparei com uma ‘polêmica’: O Filho de Deus, sempre foi, é, e será eternamente subordinado ao Pai?

Ferreira ‘acusa’ Wayne Grudem como defendendo uma séria falha de interpretação. Wayne Grudem é um autor calvinista pentecostal e batista. Franklin e Myatt, são batistas e calvinistas.

Antes de tudo, precisamos esclarecer que não se trata de heresia, propriamente dita. Não se questiona a divindade essencial do Filho. Na verdade, a questão é: A Escritura ensina que o Filho é sujeito e subordinado ao Pai. Mas essa subordinação funcional foi restrita apenas no seu trabalho Messiânico? Isto é, em sua encarnação e ofícios relacionados? Ou a própria alegação de ser Filho Eterno em si mesmo revela a necessidade de subordinação?

Wayne Grudem diz:

“Na obra da redenção também há funções distintas. Deus Pai planejou a redenção e enviou seu Filho ao mundo (Jo 3.16; Gl 4.4; Ef 1.9-10). O Filho obedeceu ao Pai e realizou a redenção para nós. Assim podemos dizer que o papel do Pai na criação e na redenção foi planejar, dirigir e enviar o Filho e o Espírito Santo. Isso não é de admirar, pois mostra que o Pai e o Filho se relacionam um com o outro como pai e filho numa família humana: o pai dirige e tem autoridade sobre o filho, e o filho obedece e é submisso às ordens do pai. O Espírito Santo é obediente às ordens tanto do Pai quanto do Filho.
Quando as Escrituras falam da criação, novamente falam que o Pai criou por inter­médio do Filho, indicando uma relação anterior ao princípio da criação. Portanto, as diferentes funções que vemos o Pai, o Filho, e o Espírito Santo desempenharem são simplesmente ações exteriores de uma relação eterna entre as três pessoas, relação essa que sempre existiu e existirá por toda a eternidade. Deus sempre existiu como três pessoas distintas: Pai, Filho e Espírito Santo. Essas distinções são essenciais à própria natureza de Deus e não poderiam ser diferentes."

Para Grudem entender assim é essencial para uma construção correta da doutrina trinitariana:

"Se não há igualdade ontológica, nem todas as pessoas são plenamente Deus. Mas se não há subordinação econômica, então não existe diferença inerente no modo como as três pessoas se relacionam umas com as outras, e conseqüentemente não temos as três pessoas distintas que existem como Pai, Filho e Espírito Santo por toda a eternidade. Por exemplo, se o Filho não está eternamente subordinado ao Pai no seu papel, então o Pai não é eternamente "Pai", nem o Filho eternamente "Filho". Isso significaria que a Trindade não existe desde a eternidade."

Myatt e Ferreira respondem:

“São vários os problemas com o argumento de Grudem. Ele começa a partir de dois enunciados que são corretos, a saber: (a) as três pessoas da Trindade são distintas e (b) elas cumprem papéis diferentes em relação à criação e redenção. Porém, ele erra ao asseverar que isso implica que (c) as relações entre as três são da qualidade de uma hierarquia, ou cadeia de comando eterna. O enunciado "c" simplesmente não se segue dos enunciados "a" e "b".
O problema começa quando Grudem confunde a ideia de distinção com submissão, de modo que ele não consegue entender como uma pode existir sem a outra. Mas não há razão lógica para levar alguém a supor que a distinção de papéis não possa existir sem uma subordinação de uma pessoa à outra. Tais relações são comuns. A confusão de Grudem ocorre pela aplicação errônea da analogia da família humana. Porém, mesmo essa analogia serve para ilustrar que é perfeitamente normal existir distinção de papéis sem subordinação. É verdade que, numa família bem ajustada, os filhos são submissos ao pai. Numa família saudável o pai orienta e o filho obedece, enquanto ainda é criança. Ao se tornar adulto, a natureza do relacionamento entre o pai e o filho muda de submissão e obediência para respeito e cooperação mútua. Como criança, o filho tem a responsabilidade de obedecer. Como adulto, essa cadeia de comando não existe mais, embora a relação entre ambos ainda permaneça como uma relação de pai e filho. O filho não é menos filho por ser adulto. A existência da relação paternal e filial não depende de obediência e submissão. Portanto, a analogia mostra que é perfeitamente possível uma relação eterna de paternidade e filiação entre Deus Pai e Deus Filho sem subordinação eterna.”

Fica difícil julgar a questão, quando avaliamos os 'oponentes'. Franklin Ferreira, e os demais citados,  tem autoridade suficiente para questionar Grudem, assim como este também tem. O problema engrossa no fato de que Grudem cita Charles Hodge e A. Strong como defensores de uma subordinação eterna. Daí, é luta de gigantes.

Por sua vez, Ferreira e Myatt dizem que a posição de Atanásio é contra uma subordinação eterna, que concerne ao Filho. Quanto a F. Ferreira, por quem temos profunda admiração, por ser obviamente uma das maiores autoridades calvinistas de nosso país; se ele mostrasse o que Atanásio disse sobre esse tema, acredito que a palavra final seria dada. Isso, infelizmente, por falta de espaço talvez, não mostrou em sua Sistemática. Mas eles citam autores, teólogos, de nome Gilles, Spencer e Gill, que fizeram pesquisas nessa área, e os mesmos garantem que essa é a posição ortodoxa dos Credos e dos Reformadores. Um desses autores diz que a subordinação eterna é semi-ariana!!!

O Credo Atanasiano, pelo que percebo, não trata exaustivamente da questão. Apesar de dizer algo nessa direção nos seguintes dizeres: "Igual ao Pai quanto à divindade, menor que o Pai quanto à humanidade". Obviamente não é negado nem estabelecido o assunto. Isso qualquer um que crê na subordinação eterna também diz. Por outro lado, O Credo estaria com ‘humanidade’ aludindo também para sua obra Messiânica? O que incluiria os seus ofícios? Se sim, neste caso, Ferreira e Myatt estão certos e Grudem, Hodge e Strong, errados.

Ferreira e Myatt concluem com palavras de advertências: “A nossa conclusão é que a doutrina da subordinação eterna do Filho ao Pai não é bíblica e entra em choque com o ensino ortodoxo da igreja através da história. Portanto, deve ser rejeitada, como um perigoso caminho em direção à negação da Trindade."

Bibliografia: Teologia Sistemática - Franklin e Myatt – Cap. 13, A pessoa de Jesus Cristo: O subordinacionismo.

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“Erga a voz”: A violência, a ideologização do debate e uma oportunidade para a igreja cristã

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Por Franklin Ferreira


“A terra estava corrompida à vista de Deus e cheia de violência” (Gn 6.11).

“Eis que clamo: violência! Mas não sou ouvido; grito: socorro! Porém não há justiça” (Jó 19.7).

“O Senhor põe à prova o justo e ao ímpio; mas ao que ama a violência a sua alma o abomina” (Sl 11.5). 

“Vi a violência na mão dos opressores, sem que ninguém consolasse os oprimidos” (Ec 4.1).

“Até quando, SENHOR, clamarei eu, e tu não me escutarás? Gritar-te-ei: violência! E não salvarás? Por que me mostras a iniquidade e me fazes ver a opressão? Pois a destruição e a violência estão diante de mim; há contendas, e o litígio se suscita” (Hb 1.2-3).

Dando nome à tragédia

A melhor forma de abordar o tema da violência é começar por relembrar reverentemente as vítimas – que, pelo menos nesta vida, não receberão a justiça e vindicação que elas merecem. Em 29 de novembro de 2005, ocorreu o impensável no país. Cinco pessoas, inclusive uma criança de um ano e dois meses de idade, morreram queimadas dentro de um ônibus na Penha, subúrbio norte do Rio de Janeiro.[1] Esse bárbaro assassinato elevou a violência a um novo e assustador patamar no Brasil, qual seja, o da banalização da vida humana e da crueldade sem limites. No ano seguinte, em 28 de dezembro de 2006, sete pessoas morreram carbonizadas em um ônibus da Viação Itapemirim que foi incendiado no viaduto que liga a Rodovia Washington Luiz à Avenida Brasil, no município do Rio de Janeiro.[2] Em 7 de fevereiro de 2007 o menino João Hélio, que tinha seis anos de idade, foi assassinado após um assalto. Os assaltantes (inclusive um menor de idade) arrastaram o menino preso ao cinto de segurança pelo lado de fora do veículo. Em 9 de abril de 2013, um adolescente de 17 anos matou o universitário Victor Hugo Deppman durante um assalto na região do Belém, em São Paulo. A dentista Cinthya Magaly Moutinho de Souza foi queimada viva durante um assalto dentro de seu consultório, em São Bernardo do Campo, na grande São Paulo, em 25 de abril de 2013. Um dos criminosos era um menor de idade. Em 3 de junho, faleceu o dentista Alexandre Peçanha Gaddy, queimado durante um assalto em seu consultório no dia 27 de maio de 2013, em São José dos Campos, interior paulista. 

Outros casos e nomes de vítimas poderiam ser mencionados. Mas esses são centenas de milhares. E esta violência não está circunscrita a credo religioso, etnia e classe social – ou, neste último caso, quase, como veremos abaixo. E a maioria dos criminosos fica impune, seja pela ineptidão da policia, fria morosidade do sistema judiciário (cf. Sl 82.1-8; Ec 8.11),[3] falência do sistema carcerário ou mesmo pela indiferença do legislativo, que não apresenta uma resposta à altura a esta onda crescente de barbárie e violência. Os impostos altíssimos consomem, em média, 40% da renda bruta do trabalhador, o governo é perdulário e os serviços públicos são completamente ineficientes. Constata-se que o establishment se tornou incompetente e obtuso, podendo bem ser chamado de “sociedade incivil”, pois produziu no país uma classe governante que perpetua seus privilégios e coloca seus interesses acima do povo, recompensando a lealdade e punindo tudo o mais.[4] Nesta conjuntura, instalou-se no país uma síndrome do medo associada à violência, e, por conta da omissão do Estado, não se tem perspectiva alguma de melhora nessa conjuntura em curto ou médio prazo.

A espiral da violência: 1980-2010

Os registros do Subsistema de Informação sobre Mortalidade (Ministério da Saúde) mostram que, entre 1980 e 2010, 799.226 cidadãos no Brasil morreram por disparos de algum tipo de arma de fogo. Nesse período, as vítimas passaram de 8.710 em 1980, para 38.892 em 2010, num crescimento de 346,5%.[5] Numa tentativa de chamar a atenção para a violência no país, os coordenadores do Mapa da Violência fizeram um quadro comparativo da realidade nacional com as mortes ocorridas nas principais guerras dos últimos anos.



O número de assassinatos no Brasil, entre 2004 e 2007, é maior que as baixas em doze dos maiores conflitos militares no mesmo período: as guerras provocaram a morte de 169.574 pessoas, enquanto no Brasil 192.804 pessoas foram assassinadas a tiros. Como diz o coordenador do Mapa da Violência 2013, Julio Jacobo Waiselfisz, “no Brasil, país sem disputas territoriais, movimentos emancipatórios, guerras civis, enfrentamentos religiosos, raciais ou étnicos, morreram mais pessoas vítimas de homicídios que os 12 maiores conflitos armados do mundo”.[6] Ainda que precisem ser levadas em conta as diferenças demográficas entre estes países, os números de mortos no Brasil são escandalosos.

Segundo dados do Ministério da Justiça, a população carcerária no Brasil é de 548 mil pessoas, sendo que os presídios e cadeias dispõem de apenas 310 mil vagas.[7] E segundo dados obtidos a partir dos mutirões carcerários desenvolvidos pelo Conselho Nacional de Justiça, os índices de reincidência variam entre 60% e 70%, um dos maiores do mundo. Na atualidade há no país 75.000 pessoas cumprindo pena em regime semiaberto, sendo que, no ano de 2012, 5,1% dos que tiveram direito à saída temporária não retornaram às celas.

Ideologia e a interdição do debate

O que se conclui da crescente violência é que nosso sistema legal/penal é voltado para a defesa e proteção do criminoso.[8] O sistema político sequer representa adequadamente o desejo da população por segurança, e a maioria dos governantes adere ao ideário esquerdista e segue incapaz de enxergar a individualidade da culpa. Mesmo as igrejas cristãs, que poderiam fazer a diferença, estão, em parte, infectadas pelo pensamento dito “progressista”, que não permite o avanço ou aprofundamento do debate.

Historicamente faz parte da essência de partidos esquerdistas associarem a ideologia ao crime: o traficante é vítima (do capitalismo), o menor assassino é vítima (da sociedade), o assaltante é vitima (da desigualdade social), os “mensaleiros” do PT são vítimas (de uma armação de reacionários). Mas a explicação para essa mentalidade é simples: desde a revolução soviética de 1917 isso acontece. Os comunistas chamavam os criminosos da época de “socialmente próximos” (sotsialnoblizkii).[9] A mesma visão é replicada na atualidade pelos esquerdistas dos trópicos.

Neste contexto, a culpa parece ser sempre da vítima. O bandido se tornou o herói em nossa cultura, e a polícia é vista apenas como o aparelho repressor do Estado. Numa reedição do antigo conflito de classes, quem trabalha, estuda e leva uma vista honesta é visto por ideólogos e partidários da esquerda como alguém que deve ser punido pelos criminosos e pela indiferença estatal – ou seja, para esses, o bom é ser bandido e/ou depender do dinheiro público fornecido generosamente pelo Estado.[10] Os esquerdistas têm as desculpas prontas para justificar a leniência da justiça brasileira e os atenuantes para os perpetradores de crimes bárbaros, pois para esses os crimes são interpretados como “luta de classes”, não se pode mudar o código penal no “calor da comoção” e a redução da maioridade penal é “quase” cláusula pétrea constitucional.[11] 

Vive-se um paroxismo absurdo onde o debate sobre a violência foi interditado pela adesão religiosa a uma ideologia. Não se pode nem se deve discutir a questão da maioridade penal sob o impacto da comoção e, portanto, não se deve discutir a garantia de que o autor de um “ato infracional” estará em liberdade em pouco tempo, porque é isso que lhe garantem a Constituição e o Estatuto da Criança e do Adolescente.[12] Para os esquerdistas, prontos para livrar os indivíduos do peso da responsabilidade ética e transferi-la integralmente para a sociedade,[13] propostas de mudança no Código Penal ou a discussão da maioridade penal são “oportunistas”. Mas, num país onde se cometem cerca de 40.000 assassinatos por ano e onde um assassino “assessorado por um advogado medianamente competente volta para a rua depois de cumprir um sexto da pena”, vai ser difícil, como conclui Sandro Vaia, “achar um momento que não seja ‘oportunista’ para debater a eficácia das leis”.[14] 

Infelizmente a discussão é bem mais ampla e poucos em nossa sociedade estão dispostos a dela participar. Alguns que tentam são logo silenciados pelos esquerdistas e “cristãos progressistas” (curiosamente, assim eram conhecidos os católicos poloneses que apoiavam o fascismo, no período entre-guerras, e o comunismo, no pós-guerra),[15] ou apelando-se para a necessidade de não se ter debate no “calor da comoção” ou por se rotular os oponentes como “fascistas”.[16] Os que têm certo destaque nos meios de comunicação geralmente são os pró-bandidos “coitadinhos”, “oprimidos” por um sistema social injusto e opressivo que os deixou sem escolha a não ser matar, torturar e estuprar. 

Mas a pergunta se impõe: haverá algum avanço na área de segurança pública com essa mentalidade no poder? Dificilmente, pois a classe política e aqueles que servem no aparelho estatal são a elite intocável, a “sociedade incivil”, andando em carro blindado, protegida por seguranças, abrigada em suas capitanias hereditárias, enquanto a maior parte da população do país vive refém da violência.[17] Esta casta superior de um país partido leva uma vida burguesa, enquanto posa de esquerdista com “consciência social”, asseverando que a sociedade deve criar condições plenas para que o homicida seja feliz para somente depois puni-lo por assassinar uma pessoa indefesa. 

Como não se resolve como chegar à sociedade plenamente justa, harmônica e feliz, pois esta está oculta nos “arcanos ideológicos” que inspiram esse pensamento, deixam-se os crimes impunes e as vítimas sem justiça. Se criminalidade diminuísse por uma questão de melhor educação, bem-estar social (welfare state) ou desenvolvimento econômico os países do primeiro mundo não teriam violência e crime. Portanto, as raízes da violência e criminalidade precisam ser procuradas em outra fonte, isto é, na maldade intrínseca aos seres humanos, que polui o meio onde este se encontra.

Nos Estados Unidos, Reino Unido e Europa a punição de um crime não se dá pela idade do autor, mas de acordo com a gravidade e crueldade do crime que ele cometeu.[18] Mas, como vão afirmar aqueles que se acham detentores das boas intenções,[19] mas que desprezam punir assassinos, deixar bandidos sem punição, soltos nas cidades, é “justa violência revolucionária”.[20] Mas que ninguém se engane: o sangue das vítimas está nas mãos destes, e Deus irá requerer isso deles (cf. Ez 35.6).

Em termos bíblico-teológicos, a segurança é obrigação legítima do Estado (cf. Rm 13.1-7). Só que o mesmo Poder Público que impede que o cidadão se defenda,[21] não lhe dá a devida segurança e nem desestimula o crime por meio de punições severas. Portanto, a mentalidade esquerdista rebaixou a política de segurança – e a política em geral – ao nível mais baixo da história da República. Os números de assassinatos anuais não decrescem, só aumentam; os números do desarmamento são usados ideologicamente;[22]  pelas fronteiras entram armamentos militares que rapidamente chegarão às mãos dos traficantes; no Rio de Janeiro, a pacificação iniciada em 2011 não acabou com os bandidos, eles somente mudaram de cenário; na Bahia, em fevereiro de 2012, foram assassinadas 153 pessoas durante dez dias de greve das forças de segurança, etc. As manchetes sobre o aumento da violência se sucedem, numa dança da morte que vai se tornando monótona e, por assim ser, dessensibilizando a sociedade.

Deve-se lamentar profundamente que os governantes sequer venham a público para explicar o inexplicável ou, pelo menos, se colocar ao lado dos que sofrem. Embora se saiba das especificidades constitucionais no trato da segurança pública, deve-se lamentar que os governantes municipais, estaduais e da federação não ofereçam uma palavra oficial de indignação. Isso é revoltante! Com tal indiferença, sugerem, ainda, que a vida das pessoas comuns pouco ou nada vale, e nem diz respeito a ninguém da esfera pública. Lamenta-se que aqueles que têm desempenhado funções no Legislativo e no Executivo revelem questionável competência  para governar os municípios, os estados e o país, espelhando um triste legado que insiste em se perpetuar na política brasileira.

Por fim, até recentemente a população brasileira parecia conformada, sem esboçar reação diante da violência e corrupção. Mas, desde o início de junho deste ano estão ocorrendo as maiores manifestações no Brasil desde os protestos de reivindicação por eleições presidenciais diretas no Brasil, em 1984, e o impeachment de Fernando Collor da presidência da República, em 1992. Estas manifestações começaram em São Paulo e se espalharam por vários estados, e atos em solidariedade foram realizados em cidades na Europa, Reino Unido e Estados Unidos, desencadeando uma crise social e política como há muito tempo não se via.[23] Embora haja uma pluralidade de ideais e objetivos nestes protestos, todos têm um denominador comum: repulsa ao desrespeito do ente estatal para com as pessoas, isto é, a completa falta de retorno que há para os cidadãos que, ao pagar inúmeros impostos, recebem em troca corrupção, insegurança, educação e saúde de má qualidade.  Ainda que partidos políticos e movimentos sociais de esquerda e extrema-esquerda tentem controlar (Gleichschaltung) as manifestações, estas, parece, assumiram no país inteiro um caráter apartidário, mas não antipartidário – e deve-se sempre lembrar que partidos e políticos são vitais ao regime democrático. No entanto, precisamos de mais atitudes que afetem de forma significativa nossa rotina, como passeatas pacíficas, suspensão de eventos festivos, e outras ações que deixem bem claro que algo muito grave está acontecendo no país. Os cidadãos deste país devem continuar protestando e clamando: “Chega de impunidade, chega de violência, chega de incompetência!”

A igreja diante da violência

Diante deste quadro, deve-se perguntar: diante desta conjuntura, os cristãos devem agir individualmente ou por meio da igreja local? Qual é exatamente o papel da igreja diante da violência?

Deve-se começar por enfatizar que não podemos alternar “igreja” e “cristãos”, usando essas palavras como sinônimas. Precisa-se, portanto, distinguir entre as formas de ministério e serviço em que a igreja cristã – enquanto igreja – se envolve e as formas de ministério e serviço em que os cristãos – que pertencem a essas igrejas – se envolvem. Ao definirmos “igreja”, pode-se lembrar de que, em termos confessionais, duas marcas caracterizam a verdadeira igreja cristã: a Palavra de Deus pregada e ouvida em toda a sua pureza e a correta administração dos sacramentos do batismo e da ceia do Senhor. Como ensina o artigo sobre a Igreja (VII), na Confissão de Augsburgo (1530):

Ensina-se também que sempre haverá e permanecerá uma única santa igreja cristã, que é a congregação de todos os crentes, entre os quais o evangelho é pregado puramente e os santos sacramentos são administrados de acordo com o evangelho.

Portanto, devemos distinguir a missão da igreja e o dever dos cristãos. Se a igreja permanecer igreja cristã, os cristãos, ouvindo a pregação do evangelho, entenderão que é sua tarefa demonstrar misericórdia, cuidar dos pobres, preocuparem-se com questões de justiça, fazer “o bem a todos, mas principalmente aos da família da fé” (Gl 6.10).

A igreja cristã precisa voltar a ser igreja cristã. A verdadeira igreja é alicerçada pela e na Palavra de Deus. E a igreja cristã, que é comunidade da Palavra e do sacramento, será comunidade da cruz. Portanto, diante da cacofonia de vozes que se instalou entre os evangélicos no Brasil, isso precisa ser dito, com toda a seriedade: se uma comunidade que se quer ser igreja abandona estas marcas — a pregação da Palavra e a correta administração dos sacramentos – deixa de ser igreja cristã, se tornando, quando muito, uma ONG piedosa. Mas não mais igreja cristã, sob Cristo, sob a cruz. Como disse o Papa Francisco I em sua primeira homilia:

Podemos caminhar o que quisermos, podemos edificar um monte de coisas, mas se não confessarmos Jesus Cristo, está errado. Tornar-nos-emos uma ONG sócio-caritativa, mas não a Igreja, Esposa do Senhor. (...) Quando não [se] confessa Jesus Cristo, confessa[-se] o mundanismo do diabo, o mundanismo do demônio. (...) Quando caminhamos sem a cruz, edificamos sem a cruz ou confessamos um Cristo sem cruz, não somos discípulos do Senhor: somos mundanos, (...) não discípulos do Senhor. (...) Eu queria que (...) todos nós tivéssemos a coragem, sim a coragem, de caminhar na presença do Senhor, com a cruz do Senhor; de edificar a Igreja sobre o sangue do Senhor, que é derramado na cruz; e de confessar como nossa única glória Cristo crucificado. E assim a Igreja vai para diante.[24]

A igreja cristã deve permanecer igreja cristã. E assim, se permanecer fiel ao seu chamado, chamado este feito pelo próprio Deus-Trindade em sua santa Palavra, esta igreja deve moldar todas as áreas da vida do cristão por meio do anúncio do evangelho.

O conceito de “soberania das esferas” criado por Abraham Kuyper pode nos guiar nesta questão. Ele enfatizou que, enquanto a igreja permanece igreja, esta capacita os cristãos a que se dediquem, para a glória de Deus, ao entretenimento, educação, política, família, tudo isso de maneira distinta da missão da igreja. Portanto, uma igreja cristã, radicalmente fundamentada nas Escrituras, produzirá pessoas que mudam a sociedade, ainda que a igreja – enquanto igreja – não se engaje diretamente nesses empreendimentos. Devemos, então, reafirmar a distinção entre a igreja — enquanto ajuntamento definido pela Palavra e sacramentos — e o papel dos cristãos no reino de Deus, onde esses agem no mundo como indivíduos e por meio de agências e organizações voluntárias, fazendo “o bem a todos” (cf. Gl 6.10).

Portanto, as igrejas, sob a direção de seus pastores, devem assistir aos seus próprios membros e de outras igrejas coirmãs (cf. 1Co 16; 2Co 8-9), e os cristãos, estimulados por tal procedimento, devem demonstrar misericórdia aos seus bairros e cidades, como forma de revelar ao mundo o reino de Deus.[25] E, quando os cristãos estiverem diante de projetos de reforma social, devem trabalhar com associações e organizações, e não diretamente com a igreja, a comunidade da Palavra e dos sacramentos. Mas alguns cristãos devem trabalhar por uma reforma social mais ampla.[26] Aplicando a distinção de esferas à temática da violência, Tim Keller escreve:

Dissemos que há três ‘dimensões’ de fazer justiça e ajudar os necessitados. Além de assistência e desenvolvimento (tanto individual quanto corporativo), existe a reforma social. Essa reforma vai além de assistência às necessidades imediatas e dependência; ela busca transformar as condições e estruturas sociais que agravam ou causam essa dependência. Imagine uma sequência para a parábola do bom samaritano. Os meses passam, e, toda vez que viaja pela estrada que vai de Jerusalém a Jericó, o samaritano encontra alguém que foi roubado na estrada todo machucado, sangrando. Um dia, ele pergunta: ‘Como vamos dar fim a essa violência toda?’. A resposta seria fazer algum tipo de reforma social — instituir um novo acordo social que interrompa o fluxo de vítimas por meio de mudança nas condições sociais. Às vezes, a reforma social que funciona é simplesmente colocar mais policiais nas ruas. (...) Essa abordagem vai além de simplesmente ajudar pessoas. Busca mudar acordos e instituições sociais. Em alguns casos, envolve até mudança de leis.[27]

O Grupo de Clapham, cuja figura de maior destaque foi William Wilbeforce, afirmou a fé cristã com vigor e engajou-se vitoriosamente em lutas importantes e necessárias no Império Britânico, no século XIX. A partir da noção de separação de esferas, este grupo trabalhou pela abolição da escravatura, fundação de escolas cristãs para os pobres, reforma das prisões, combate à pornografia, realização de missões cristãs no estrangeiro e ênfase na liberdade religiosa. Este movimento permanece como um modelo para cristãos que queiram se engajar na reforma social.

À igreja cristã é exigido dar uma palavra sobre a violência – especialmente quando se leva em conta o quanto as Escrituras tratam deste pecado: “Assim diz o Senhor: executai o direito e a justiça, e livrai o oprimido da mão do opressor; não oprimais ao estrangeiro nem ao órfão, nem à viúva; não façais violência, nem derrameis sangue inocente neste lugar” (Jr 22.3). Mas a igreja só conseguirá fazer isso com fidelidade à Palavra de Deus, se voltar a ser igreja cristã – e pastores precisam voltar a ser pastores, edificando o corpo de Cristo (cf. Ef 4.11-16), para que este de fato expanda o reino de Deus neste país.

A igreja cristã se quer ser igreja cristã precisa reintroduzir noções bíblicas como pecado original e pecado pessoal no discurso público, ao mesmo tempo em que se fala do pecado nas estruturas sociais e políticas, assim como da responsabilidade moral que toda pessoa criada à imagem de Deus (cf. Gn 1.26-27) tem diante dele e de seus semelhantes. Isso deve ser dito com seriedade: Deus está irado com aqueles que permanecem em seu pecado (cf. Jo 3.36). Somente a afirmação pública do realismo bíblico sobre a tragédia do pecado, da transgressão e da iniquidade será capaz de refutar o utopismo ingênuo dos esquerdistas.[28] 

Se o pecado é um poder desfigurador, a igreja também deve enfatizar o poder renovador da aliança, da graça e da justiça de Deus. Pois será o ensino cristão sobre o sacrifício vicário de Cristo na cruz e sua ressurreição dentre os mortos, assim como a justificação concedida pela fé a pecadores que pode estabelecer uma cultura de paz (shalom) verdadeira (cf. Rm 4.24-25; 5.1), também para as vítimas e os perpetradores de violência, que se evidenciará por meio de arrependimento, conversão, reconciliação e perdão.[29] E a ênfase na obra do Espírito Santo poderá conduzir os cristãos a se dedicarem a obras de compaixão entre as vítimas da violência.

Os temas bíblicos da aliança e do federalismo podem ajudar os cristãos a despertar a sociedade civil a buscar ações de reparação de danos contra o Poder Público, acionando o Ministério Público para interpor uma Ação Civil Pública em casos relacionados à segurança pública ou mesmo propor uma Ação de Improbidade Administrativa de governadores e prefeitos. Também precisa ser enfatizada nas igrejas a necessidade do voto consciente, opondo-se ao “voto de cajado”, e aos arranjos institucionais entre igrejas (ou denominações) e políticos (ou partidos políticos), que é causa de corrupção em nosso meio. Na verdade, é constrangedor o modelo de políticos evangélicos brasileiros que, em geral, são populistas, amadores e despreparados. Sua permanência no poder tem se dado em função do uso e abuso de clichês cristãos, da prática do assistencialismo, bem como do desprezo pelo nome de Deus, usado com fins eleitoreiros. Também se criou uma visão reducionista de causas políticas cristãs, restritas apenas à luta contra a homossexualidade e o aborto. A corrupção e a violência parecem ser temas que não entraram na agenda desses políticos. Assim sendo, eles traem uma importante herança da tradição evangélica: políticos cristãos comprometidos com a glória de Deus e com a promoção do bem-estar na sociedade. Isso ocorre, parece, porque as exigências do evangelho de Cristo foram banalizadas, reduzidas a um moralismo seletivo (cf. Cl 2.18-23), a serviço ou da mensagem da prosperidade, ou cativa à ideologia esquerdista.

As igrejas cristãs devem, em cultos públicos, confessar seus pecados e iniquidades, assim como as transgressões cometidas no país, suplicando pelo derramamento do Espírito Santo sobre o corpo de Cristo. De acordo com as Escrituras, Deus tem prazer em atender as orações de seu povo, inclusive para mudar os rumos de um país ou região (cf. 2Cr 7.13-14). Pode-se aprender isso na história da Europa Central em 1980-1989: o cardeal Stefan Wyszyński conduziu a Igreja Católica na Polônia durante os anos negros do comunismo naquele país, pregando “não apenas sobre justiça social e dignidade do trabalho (...), mas também sobre valores morais absolutos e universais, a inviolabilidade da consciência individual, e a fé na encarnação de Deus em Cristo como alicerce do humanismo genuíno”;[30] o bispo da Igreja Reformada na Romênia László Tőkés, por meio de suas pregações contra a violência e a pobreza na cidade de Timişoara, foi essencial na queda do totalitarismo comunista naquele país; o pastor da Igreja Evangélica (Luterana), Christian Führer dirigiu durante quase dez anos reuniões de “orações pela paz” às segundas-feiras, na Igreja de São Nicolau, em Leipzig, fundamentais na derrubada pacífica do regime comunista no leste da Alemanha.[31] Como diz a Escritura: “‘Não por força nem por violência, mas pelo meu Espírito’, diz o SENHOR dos Exércitos” (Zc 4.6 NVI).

Por fim, diante de Deus, o justo juiz, deve-se reintroduzir o ensino de que haverá descanso e conforto eterno para aqueles que estão em Cristo pela fé somente, e punição eterna para aqueles que permanecem em seus pecados,  inclusive pelo uso da violência: “Quanto, porém, (...) aos assassinos, (...) a parte que lhes cabe será no lago que arde com fogo e enxofre, a saber, a segunda morte”. Cristãos estão obrigados à esperança. Portanto, esperam a ressurreição do corpo e “novo céu e nova terra”, onde “estará o trono de Deus e do Cordeiro”, quando serão feitas “novas todas as coisas”, e aqueles que ali estiverem terão enxugadas “dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram”. Podem ter confiança nestas promessas por causa da palavra régia: “Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim. Eu, a quem tem sede, darei de graça da fonte da água da vida” (Ap 21.1, 4-6, 8; 22.3).

Portanto, os pregadores do evangelho são instrumentais para que os membros de uma igreja cristã, fundamentada e obediente à Palavra de Deus dada aos profetas e apóstolos (cf. Ef 2.20; 3.5; 4.11), sejam despertados para a reforma social. Esta mensagem deve ser dirigida não a um establishment surdo, mas à sociedade mais ampla, de forma apartidária. Pois o que se precisa é de uma transformação que comece não de cima, da perspectiva dos poderosos ou pelo uso de instrumentos políticos de poder, mas de baixo, da fraqueza, da súplica, da identificação sofredora com as vítimas e com os que sofrem.

Em tudo isso, a igreja cristã deve reafirmar seu compromisso de interceder em favor de todos, também por aqueles que foram atingidos pela violência, assim também por aqueles que “se acham investidos de autoridade” a fim de que sejam chamados à responsabilidade, “para que vivamos vida tranquila e mansa, com toda piedade e respeito” (1Tm 2.1-2). E que os cristãos alcancem mais sabedoria na escolha dos próximos governantes, objetivando ter, nesta posição, políticos que, de fato, sirvam ao país.

Que Deus desperte os pastores para que esses honrem seu chamado sagrado, pois estes são instrumentais na edificação de uma igreja cristã que se postará contra um Estado que quer ser total, que almeja dirigir todas as esferas da existência, ao mesmo tempo em que trai a nação ao não ser a autoridade instituída por Deus, ministro para o bem, e que castiga “o que pratica o mal” (cf. Rm 13.4). Como Karl Barth escreveu:

Por isso a igreja e a teologia não podem entrar em hibernação quando há um Estado total, conformando-se com uma moratória e alguma adaptação forçada. Elas são a fronteira natural também do Estado total. Pois também no Estado total o povo vive da palavra de Deus, cujo conteúdo é: ‘remissão dos pecados, ressurreição do corpo e vida eterna’. A igreja e a teologia devem servir a essa palavra, em favor do povo. Por isso são a fronteira do Estado. Elas o são para a salvação do povo, para aquela salvação que nem o Estado nem a igreja podem criar, mas que a igreja é vocacionada a proclamar. Ela deve poder ficar fiel e querer ficar fiel a esse seu objeto particular. O teólogo deve permanecer vigilante, em sua atribuição específica: um pássaro solitário no telhado, portanto sobre a terra, mas sob o céu aberto, ampla e incondicionalmente aberto. Ah, que o teólogo evangélico (...) queira permanecer vigilante ou, se porventura tenha estado dormindo, que queira ficar vigilante hoje, hoje de novo![32] 

Se pastores honrarem seu chamado a serem ministros da Palavra de Deus, podemos ter esperança de uma renovação da pregação da lei e do evangelho que reforme a igreja, que a torne cristã. Podemos ter esperança de que, cristãos amparados por estas igrejas cristãs, lancem-se a frear a espiral de violência que assola este país, e que, se Deus renovar a igreja brasileira por meio de sua Palavra, haverá real unidade e concórdia cristã também quanto a erguer a voz contra a violência (Confissão de Augsburgo, artigo VII):

Porque para a verdadeira unidade da igreja cristã é suficiente que o evangelho seja pregado unanimemente de acordo com a reta compreensão dele e os sacramentos sejam administrados em conformidade com a palavra de Deus. E para a verdadeira unidade da igreja cristã não é necessário que em toda a parte se observem cerimônias uniformes instituídas pelos homens. É como diz Paulo em Efésios 4: ‘Há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo’.

O retorno à pregação e ensino da pura Palavra de Deus é urgentemente necessário para uma igreja cristã que almeja relevância no país hoje. Que muitos ouçam o chamado de Dietrich Bonhoeffer: “[A igreja] não nos será tomada – seu nome é decisão, seu nome é o discernimento dos espíritos... Venha... você que foi abandonado, você que perdeu a Igreja; retornemos às Sagradas Escrituras, busquemos juntos a Igreja... Pois aqueles momentos, quando a compreensão humana se desintegra, podem muito bem ser uma grande oportunidade de edificação... Igreja, permaneça igreja! ... confesse, confesse, confesse”. [33]

“Ó Deus, da violência tu me salvas” (2Sm 22.3).
“Ele tem piedade do fraco e do necessitado, e salva a alma aos indigentes. Redime as suas almas da opressão e da violência, e precioso lhe é o sangue deles” (Sl 72.13-14).
“Levanta-te, ó Deus, julga a terra” (Sl 82.8).
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Para ler as notas deste artigo, acesse a fonte original aqui.

Sobre o autor: Franklin Ferreira é Bacharel em Teologia pela Escola Superior de Teologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie e Mestre em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil. É diretor e professor de teologia sistemática e história da igreja no Seminário Martin Bucer, em São José dos Campos, São Paulo, e consultor acadêmico de Edições Vida Nova. Autor dos livros Teologia Cristã e Teologia Sistemática (este em coautoria com Alan Myatt), publicados por Edições Vida Nova, e Gigantes da Fé e Agostinho de A a Z.

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O Cristão e a Política

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O que o cristão deve pensar sobre política? Na última Conferência de Jovens perguntamos a Franklin Ferreira sobre o assunto e ele deu algumas diretrizes no vídeo abaixo. Lembrando que a gravação se deu antes dos protestos, então, não haverá nenhuma referência sobre elas.



Fonte: Voltemos ao Evangelho

Veja uma lista de livros cristãos sobre política e economia, dentro de uma cosmovisão reformada, recomendada por Franklin Ferreira, aqui!
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Igreja e Estado

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Por – Franklin Ferreira


Deus estabelece na criação várias instituições para a ordem social, cada qual com sua própria esfera de atividade e missão, e responsável por algo diante dele. Mas, antes de considerarmos a posição reformada sobre a relação da igreja com o estado, será útil compará-la com outros modelos políticos e teológicos rivais.

Ao tratar-se de modelos políticos, fala-se de espectro político, que é o conjunto de posições políticas representadas em um país ou localidade. A classificação das correntes políticas geralmente se faz através da sua localização em um ou mais eixos, cada um representando um aspecto da política. Isso é representado pelo diagrama abaixo, que mostra onde está situada uma pessoa, um partido político ou um governo no que diz respeito à sua ideologia política.[39]



Um primeiro modelo político é apresentado no gráfico abaixo, que ilustra as ênfases estatizantes e intervencionistas associadas à posição esquerdista, como no comunismo e no nazismo. Nesse modelo, há pouca ou nenhuma liberdade pessoal e nenhuma liberdade econômica. O estado ou partido ganha uma dimensão transcendente, agindo para estender seu domínio ideológico sobre todas as esferas da sociedade:


O estatismo é o cerne do esquerdismo, não a mera ausência de eleições livres e “democracia”. Portanto, em última instância, tanto o comunismo como o nazismo são socialismos, sendo o primeiro um socialismo de classe e internacional, e o segundo um socialismo étnico e nacionalista.[40]

Um segundo modelo é ilustrado no gráfico abaixo, que resume os ideários políticos associados à posição direitista, em que se privilegia a liberdade pessoal e econômica, e a garantia dos direitos individuais, sendo os limites o respeito à vida, à propriedade e à liberdade dos demais:


Os dois primeiros gráficos delineiam os dois principais lados em disputa no espectro político, especialmente desde antes da II Guerra Mundial, mas que se tornaram proeminentes no Pós-Guerra. Obviamente, há várias gradações partidárias entre a esquerda e a direita. À esquerda podem ser associados o comunismo, o socialismo e o nazismo. A centro-esquerda, a essencialmente pecaminosas e impedidas de qualquer possibilidade de redenção:


Como visto anteriormente, a visão reformada da sociedade não se centraliza no indivíduo nem na instituição, mas na soberania de Deus sobre as esferas da criação, nas quais diferentes instituições estão debaixo do reinado de Deus. Essa posição destaca que “todos os homens vivem numa rede de relacionamentos divinamente ordenada.” Nesse sentido, “as pessoas não encontram sentido ou propósito quer em sua própria individualidade, quer como parte de um todo coletivo.” Na verdade, “elas atendem a seus chamados dentro de uma pluralidade de associações comunais, como família, escola e Estado”, portanto “Deus ordenou cada uma dessas esferas de atividade como parte da ordem original. Juntas, elas constituem a comunidade da vida.”[41]

O gráfico a seguir esboça essa posição:



Nessa posição, a família, o indivíduo e a igreja são esferas independentes, pois existem a despeito do Estado, derivando sua autoridade somente de Deus. O papel do Estado é mediador, intervindo quando as diferentes esferas entram em conflito entre si ou para defender os fracos contra abusos de poder.

Abaixo, é oferecido um desenvolvimento dessa posição por meio de algumas premissas que podem guiar o entendimento evangélico da relação entre o cristão e a política:[42]

Em primeiro lugar, afirma-se a distinção entre igreja e Estado, lembrando que toda autoridade procede de Deus. As tarefas da igreja e do Estado são de dois tipos e são distintas, não podendo ser confundidas. A existência do Estado deve ser reconhecida como um dom e uma ordem de Deus, estabelecida a partir da Queda, por causa do pecado (1Sm 12.17-25; 24.7,11; 26.9-11; 2Sm 1.14-16; Rm 13.1-5; 1Pe 2.13; Ap 13.10). Portanto, os que assumem cargos públicos devem reconhecer que sua autoridade é delegada. O governo estabelecido por Deus é mediado pelo povo, que elege seus governantes. Estes são eleitos para servir ao povo, ao mesmo tempo que cumprem suas tarefas com senso de dever, pois sabem que darão contas de seus atos perante uma autoridade maior.

Em segundo lugar, rejeita-se o conceito de soberania absoluta do Estado e o conceito de soberania absoluta do povo. Para a fé cristã, o poder reside em Deus e em Cristo, que é o Senhor de todo poder e autoridade (Ef 1.21,22) e “o soberano dos reis da terra” (Ap 1.5; 19.16), comandando todas as esferas sociais. Somente Deus detém o poder absoluto: “Porque o SENHOR é o nosso juiz; o SENHOR é o nosso legislador; o SENHOR  é o nosso rei; ele nos salvará” (Is 33.22). Portanto, Deus é a fonte final da lei e de toda autoridade. Logo, prestar fidelidade ou lealdade absoluta ao Estado é idolatria, pois é Deus quem estabelece o certo por meio de sua lei, portanto deve-se compartilhar a lei de Deus por meio da mudança das estruturas sociais. Por isso que, na mesma medida em que as leis estabelecidas numa nação devem ser derivadas da lei de Deus, essas leis devem ser aplicadas a todas as pessoas, incluindo os governantes. Mesmo numa nação que não é cristã, pode-se apelar à lei de Deus escrita na criação e gravada na consciência dos seres humanos, que é coincidente com a lei revelada. Portanto, numa nação, não há ninguém que esteja acima da lei. Esse é o princípio da lex rex (a lei é o rei), que se opõe ao princípio despótico da rex lex (o rei é a lei).

Em terceiro lugar, Deus delega poder tanto ao governante quanto às pessoas. Ao ocupar um cargo de autoridade, nenhum homem tem poder sobre outro, a não ser quando essa capacidade é delegada por Deus. Mas esse poder é relativo e revogável. Por isso, os cristãos devem opor-se a todo sistema político totalitário. Mais do que um direito, isto é um dever: “É mais importante obedecer a Deus que aos homens” (At 5.29). A fé cristã honra as autoridades, embora negue ao Estado o direito de intervir em matérias de culto, doutrina e ética. O exercício da autoridade é necessário, mas jamais ao custo da liberdade de consciência, pois somente Deus é o único Senhor. Já que o poder não é algo intrínseco ao governante, mas delegado por Deus, os cristãos devem resistir, pelos meios corretos e legítimos, a quem exerce o poder político contra a vontade de Deus. Para a tradição reformada, o governo é governo legítimo quando e na medida em que é servo de Deus. Assim, não devemos identificar um governo, de forma direta e automática, com a vontade de Deus.[43] Nesse sentido, a resistência ao Estado que faça mau uso do poder que lhe foi delegado deve ser entendida como desobediência civil.[44]  Desde que exercido dentro de limites aceitáveis, esse é um mecanismo legítimo a que tem direito todo cidadão e, de forma específica, todo cristão, quando em confronto com um Estado totalitário que interfere na esfera litúrgica, doutrinária ou ética, e requer para si o que equivale à adoração. Portanto, a “rebelião contra os tiranos é obediência a Deus” (Rebellion to tyrants is obedience to God).

Em quarto lugar, nenhuma ideologia é absoluta e nem pode ser confundida com o evangelho. Com acerto, a Declaração Teológica de Barmen afirma: “[8.18] Rejeitamos a falsa doutrina de que à Igreja seria permitido substituir a forma da sua mensagem e organização, a seu bel-prazer ou de acordo com as respectivas convicções ideológicas e políticas reinantes.” Sempre que a igreja identifica determinada ideologia com o reino de Deus ou com a mensagem bíblica, essa mensagem não apenas foi distorcida, como também acabou sendo obliterada. Por outro lado, a igreja deve manter vigilância sobre o Estado. Não se pretende com isso substituir o sermão baseado na Escritura pelo discurso político. Adorar a Deus, proclamar sua Palavra e ministrar os sacramentos é a principal tarefa da igreja, além da qual não existe outra. Ao proclamar com fidelidade a Palavra de Deus, a igreja influencia o Estado, fazendo com que suas leis se conformem com a vontade de Deus. De tal fidelidade decorrem consequências políticas e sociais ao chamado primário da comunidade cristã.

Em quinto lugar, o realismo cristão ressalta que a corrupção na política tem origem primariamente no coração dos seres humanos. Se a doutrina da criação afirma a dignidade humana, o ensino bíblico sobre a queda afirma a corrupção humana. Os pecados individuais se tornam pecados estruturais, tais como idolatria, egoísmo, violência, despotismo, corrupção; estes acabam por afetar as estruturas do poder constituído. Por isso, a igreja cristã “prega uma conversão interior dos governantes e dos governados a Deus”, crendo que, a partir do arrependimento e quebrantamento pessoal, as estruturas serão limpas de iniquidades. Por outro lado, a revelação geral e a graça comum ensinam que “há princípios que, se aplicados, produzirão a ética na política.” Essas são as doutrinas que proporcionam a base dos valores éticos em pessoas que não são cristãs. Portanto, “o caminho para a ética na política” não passa pela conversão de todos ao cristianismo, nem consiste “em colocar em cargos políticos quem se professa cristão”, mas em “contribuir para que a lei de Deus seja reconhecida” por todos.[45]  Por isso, podemos cooperar com incrédulos como cobeligerantes na esfera política, lutando contra males aos quais também nos opomos.

Em sexto lugar, por causa do pecado na sociedade, a república se torna não apenas o melhor sistema, mas o sistema mais viável. A forma de governo que mais se aproxima do modelo bíblico é a república, na qual a nação é governada pela lei constitucional e administrada por representantes eleitos pelo povo. Porque somente Deus concentra em si todo o poder (cf. Is 33.22), deve haver a divisão e a separação dos poderes executivo, legislativo e judiciário, de modo que nenhum governo ou ramo do governo monopolize o poder. Assim, a república se torna o melhor sistema, pois é a salvaguarda das liberdades individuais, “designada para fragmentar o poder político, de modo que ele não possa ameaçar as vidas, liberdades e propriedades.”[46] Portanto, devido à inclinação humana para a injustiça, advinda do pecado, a república torna-se necessária; e devido à inclinação humana para a justiça, capacitada pela graça comum, a república torna-se possível.

Portanto, os cristãos defendem os fatores que definem uma república, que são aqui esboçados e que podem ser deduzidos ou inferidos da Escritura:

  • ênfase nas funções primordiais do Estado, em que os governantes têm a obrigação de zelar pela segurança do povo, afinal, pagamos impostos por ela (cf. Rm 13.1-7);
  • limitação da extensão e do poder do Estado, pois, a partir das Escrituras, entende-se que o governo não tem autoridade para estabelecer impostos exorbitantes, redistribuir propriedades ou renda, criar zonas francas ou confiscar depósitos bancários;
  • separação e cruzamento fiscalizador (checks and balances) entre os poderes executivo, legislativo e judiciário, para que nenhum poder possua poderes absolutos, e para que sempre haja equilíbrio;
  • oportunidades de ascensão social para todas as pessoas, investindo e promovendo educação e serviços médicos;
  • promoção de uma ética protestante do trabalho, pois “o que Max Weber chama de trabalho ético protestante é um conjunto de virtudes econômicas [bíblicas]: honestidade, pontualidade, diligência, obediência ao quarto mandamento — ‘seis dias trabalharás’, obediência ao oitavo mandamento — ‘não furtarás’, e obediência ao décimo mandamento — ‘não cobiçarás’”, reconhecendo que a ênfase no “trabalho produtivo origina-se da Bíblia e da Reforma”;[47]
  • direito à propriedade privada como direito fundamental (cf. Êx 20.15,17; 1Rs 21);[48]
  • alternância do poder civil, que impede que um partido ou autoridade se perpetue no poder, assim como a defesa do pluralismo político e partidário;
  • centralidade do contrato social, que é um acordo entre os membros de uma sociedade pelo qual reconhecem a autoridade sobre todos de um conjunto de regras; a constituição, que limita o poder, organiza o Estado e define direitos e garantias fundamentais;
  • garantia das liberdades individuais, por meio do estabelecimento de normas gerais de conduta, que redundem em liberdade de expressão, associação e de imprensa.
Esses são o conjunto de princípios que a tradição reformada tem afirmado ao tratar da relação dos fiéis e da comunidade cristã com o Estado. Que, à luz desse ensino, os cristãos orem e intercedam pelos governantes, “para que tenhamos uma vida tranquila e serena, em toda piedade e honestidade” (1Tm 2.1-3).

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Notas:

[39] Gráficos adaptados de Greg Johnson, O mundo de acordo com Deus. São Paulo, Vida, 2006, p. 93,94 (usados com permissão da Editora Vida), Espectro político, http://pt.wikipedia.org/wiki/Espectro_político e “Espectropolítico”, O capitalista: vida, liberdade, propriedade, htttp://www.ocapitalista.com/2007/12/espectro-poltico.html, acessados em 27 de abril de 2010.
[40] Para uma introdução à conceituação da esquerda aqui adotada, cf., por exemplo, Alain Besançon, A infelicidade do século. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2000, Jonah Goldberg, Fascismo de esquerda. Rio de Janeiro, Record, 2009 e Czeslaw Milosz, Mente cativa. São Paulo, Novo Século, 2010. Para uma crítica ao marxismo e ao nazismo como cosmovisões rivais da fé cristã, cf., por exemplo, Alister McGrath, Apologética cristã no século XXI. São Paulo, Vida, 2008, p. 272-279 e Franklin Ferreira, “A Igreja Confessional Alemã e a ‘Disputa pela Igreja’ (1933-1937)”, Fides Reformata, v. 15, n. 1 (2010), p. 9-36. Cf. também os textos de Thomas Schirrmacher: “Four Problems with Germany’s Re-unification”, Contra Mundum, http://www.contra-mundum.org/schirrmacher/probreun.html, “The Myth of the End of Communism”, Contra Mundum, http://www.contra-mundum.org/schirrmacher/mythcomm.html e “National Socialism as Religion”, Chalcedon Report 1992, http://ww.contra-mundum.org/schirrmacher/NS_Religion.pdf.
[41] Gordon Spykman, “The principled pluralistic position”, em Gary Scott Smith (ed.), God and Politics: Four Views on the Reformation of Civil Government. Phillipsburg, NJ, Presbyterian and Reformed, 1989, p. 79, citado em Greg Johnson, O mundo de acordo com Deus, p. 93. 
[41] Gordon Spykman, “The principled pluralistic position”, em Gary Scott Smith (ed.), God and Politics: Four Views on the Reformation of Civil Government. Phillipsburg, NJ, Presbyterian and Reformed, 1989, p. 79, citado em Greg Johnson, O mundo de acordo com Deus, p. 93.
[42] Pontos básicos extraídos de: Augustus Nicodemus Lopes, Ética na política e a universidade: Carta de princípios 2006. São Paulo, Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2006; Eberhard Busch, “Igreja e política na tradição reformada”, em Donald McKim (ed.), Grandes temas da tradição reformada, p. 160-175; “Um manifesto cristão”, em Francis Schaeffer, A igreja no século 21. São Paulo, Cultura Cristã, 2010, p. 157-239; André Biéler, A força oculta do protestantismo. São Paulo, Cultura Cristã, 1999; Abraham Kuyper, Calvinismo. São Paulo, Cultura Cristã, 2002, p. 85-115; Greg Johnson, O mundo de acordo com Deus, p. 92-101; Johannes Althusius, Política. Rio de Janeiro, TopBooks, 2003; David W. Hall, The Genevan Reformation and the American Founding. Lanham, MD, Lexington, 2005.

Fonte: Trecho do 6º Capítulo do livro “Teologia Cristã”  (Vida Nova), de Franklin Ferreira.
Extraído de: Voltemos ao Evangelho

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