Resposta a Magno Paganelli, sobre “de quem é a Terra Santa”?

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Um pastor evangélico chamado Magno Paganelli escreveu uma crítica à tréplica que escrevi a Colin Chapman, a propósito de seu livro “De quem é a terra santa”.

O autor gasta dois parágrafos para se apresentar e parece muito preocupado em se mostrar como um especialista na área, falando de suas credenciais acadêmicas. Mas, em praticamente todos parágrafos de seu texto, há meias-verdades, erros, distorções, invencionices e imposturas.

Sobre a existência de um país chamado “Palestina”, Paganelli na verdade não respondeu a nenhuma das perguntas que fiz em minha tréplica. Para simplificar: ele poderia informar quando e onde existiu um país árabe chamado Palestina, e quais eram suas fronteiras e sua bandeira antes de 1948? E por que a Jordânia dominou a Cisjordânia e metade de Jerusalém durante 19 anos (1948-1967) e não fundou na época um estado palestino?

E para aqueles que, como Paganelli, estão prontos a descartar rapidamente acusações de judeofobia e antissemitismo por parte dos árabes é bom lembrar a declaração de Ismail Haniyeh, o “primeiro ministro” do Hamas, em comício em Gaza, na presença de 250 mil pessoas, em 2007: “Nós nunca reconheceremos Israel”. O líder do Hamas, Khalid Mashal, acrescentou: “Nós nunca vamos desistir de uma polegada da Palestina”.

Paganelli afirma que o Corpo de Mulas de Sião era um grupo terrorista. Tal afirmação é falsa. Este corpo foi criado em 1915 (e não em 1920, como ele erroneamente afirma), e seu comandante foi o tenente-coronel John Henry Patterson. É considerada a primeira unidade militar israelense, precursora da Legião Judaica, e foi parte da Força Expedicionária Mediterrânea, combatendo na campanha de Galípoli, contra o Império Otomano, de abril de 1915 a janeiro de 1916. A Legião Judaica, criada em 1917 como parte da Força Expedicionária Egípcia, lutou nas batalhas do Vale do Jordão e do Megido, em junho e setembro de 1918, ajudando os ingleses a derrotar os otomanos e alemães. A Legião Judaica foi desmobilizada em 1921.

Paganelli também afirma, erroneamente, que a Haganah (criada em 1920) teria suas origens no Corpo de Mulas de Sião, e seria uma organização terrorista – logo, as Forças de Defesa de Israel (criadas em 1948) teriam sua origem num suposto grupo terrorista. Na verdade, diferente do que ele afirma, a Haganah teve como precursora a Hashomer (fundada em 1909), cuja antecessora havia sido outro grupo de autodefesa, a Bar Giora (fundada em 1907). E Paganelli parece desconhecer que os grupos paramilitares Irgun (criado em 1931) e Lehi (criado em 1940) foram dissidências da Haganah (a título de comparação, a Haganah tinha 20 a 30 mil membros; o Lehi cerca de 300 a 500 membros).

Sobre a horrível explosão do quartel-general do Mandato Britânico da Palestina/Comando da Palestina, no Hotel King David, em 22 de julho de 1946, ele ignora que o Irgun fez várias ligações avisando do ataque, mas os britânicos não as levaram a sério. 91 pessoas foram mortas no ataque, inclusive 17 judeus. A Agência Judaica condenou o que chamou de “crime covarde” perpetrado por um “grupo criminoso”. Após o ocorrido, o Irgun e o Lehi romperam um acordo de cooperação com a Haganah e passaram a atuar separadamente.

Paganelli afirma que Vladimir Jabotinsky, um judeu russo, foi “um ex-terrorista soviético”, mais uma afirmação que não corresponde aos fatos. Jabotinsky, veterano do Corpo de Mulas de Sião e da Legião Judaica, era um firme anti-comunista, e chegou a escrever sobre o comunismo da União Soviética: “Um regime totalitário [que] deve ser mais insuportável para os judeus do que para qualquer outro povo, pois nenhuma outra raça disputou até agora o título dos judeus de primazia em matéria de individualidade e rebeldia”.

Como parece que Paganelli leu meu texto com óbvia má vontade, ele desconhece que Chapman – cujo livro ele não leu – acusa genérica e coletivamente os judeus pelos ataques a Balad al-Shaykh e Deir Yassin. O que fiz foi destacar que estes ataques não foram ataques realizados por todos os judeus, mas por dois grupos paramilitares judaicos, no contexto da luta de Israel por sua independência, em 1948.

Paganelli escreve que afirmar que Israel é uma democracia é “velho mito”, “propaganda enganosa” e “falácia”. Mas no Democracy Index 2018, do The Economist, o Estado de Israel é listado em 30º lugar. Já o Líbano, que ele supõe ser uma democracia exemplar, se encontra em 106º lugar. A Palestina está em 109º e o Egito, elogiado por ele, encontra-se em 127º lugar.

Paganelli ignora que os cristãos egípcios sofrem discriminação e violência que não ocorre em lugar algum em Israel. Desde 2011, centenas de coptas foram assassinados e várias igrejas foram destruídas por muçulmanos. Enquanto isso, em Israel, no vilarejo de Jish, os cristãos arameus estão revivendo a língua aramaica com o apoio da suprema corte de Israel.

E quanto aos cristãos palestinos, que são apenas 2,5% da população palestina (em 1922 eram 9,5%), a causa de seu êxodo não seria apenas o conflito entre Israel e os árabes, mas também a perseguição do Hamas e da Autoridade Palestina. Enquanto isso, os cristãos árabes que vivem em Israel estão entre as pessoas mais cultas no país.

Paganelli afirma que “há estatísticas que dão conta de que mais de 95% do partido comunista soviético chegou a ser formado por judeus”, simplesmente repetindo as mentiras e fantasias propagadas no infame texto antissemita “Os Protocolos dos Sábios de Sião”.

Por fim, num trecho surpreendente, vindo de alguém que se apresenta como especialista na área, Paganelli afirma que “antes de ser aliado dos Estados Unidos (na Guerra de 1967, p. ex.), Israel era aliado da União Soviética e de lá comprava armas, assim como o Egito de Nasser”. 
Imagem: print do blog de Magno Paganelli

Eu gostaria de saber do autor em que fábricas na União Soviética foram construídas as aeronaves Avia S-199 Mezek, Supermarine Spitfire, De Havilland Mosquito, Gloster Meteor, Boeing B-17 Flying Fortress, North American AT-6 Texan, North American P-51 Mustang, Dassault Ouragan e Dassault Mystére?


E em que fábricas da União Soviética foram construídos os carros de combate M-3, M-1, M-50 e M-51 (conhecidas por norte-americanos e britânicos como tanques Sherman), Hotchkiss H39 e AMX-13, os veículos blindados Bren Carrier e M3 Half-track e o automóvel Jeep Willys?

Para aqueles não familiarizados com história militar, entre a Guerra de Independência, em 1948, e a Crise de Suez, em 1956, as forças armadas de Israel receberam equipamento tcheco, inglês, americano e francês, contrabandeado por meio da Tchecoslováquia e, depois, comprado nos Estados Unidos, Inglaterra, França, Itália e Suécia. E, na Crise de Suez, Estados Unidos e União Soviética ficaram ao lado do Egito, contra Israel, França e Inglaterra.

De onde Paganelli tirou a informação de que nessa época “Israel era aliado da União Soviética e de lá comprava armas, assim como o Egito”?

Se tal opinião inédita é verdadeira, é o furo historiográfico do século! 

Livros serão reescritos!

Fábricas como a Boeing, a North American, a De Havilland e a Dassault eram da União Soviética!

Que revelação espantosa!

As Forças de Defesa de Israel não sabiam que usavam equipamento da União Soviética!

Uma miragem no deserto!

É bom lembrar que 3.500 voluntários judeus e cristãos de 43 países lutaram ao lado de Israel na Guerra de Independência, em 1948. Destes, 1.000 vieram dos Estados Unidos, 1.000 do Reino Unido, 500 da África do Sul, 500 do Canadá e 30 da Finlândia. Estes foram chamados de Mahal, um acrônimo de “voluntários do exterior”. 123 Mahalniks foram mortos em combate.

Pelo menos, em seu texto Paganelli deixou bem clara sua posição. Só faltou ele afirmar (como ironizou meu amigo, o rabi Yehuda Hochman) “que o Rabino chefe das Forças de Defesa de Israel prepara os pães ázimos da Páscoa com sangue de crianças palestinas”.

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BIBLIOGRAFIA BÁSICA:
Anita Shapira, Israel: uma história (Rio de Janeiro/São Paulo: Paz & Terra, 2018).
Benny Morris, Um Estado, dois Estados: soluções para o conflito Israel-Palestina (São Paulo: Sêfer, 2014).
Shlomo Aloni, Arab-Israeli Air Wars 1947-1982 (Botley: Osprey, 2001).
John Laffin, The Israeli Army in The Middle East Wars 1948-73 (London: Osprey, 1982).
Samuel Katz, Israeli Elite Units Since 1948 (London: Osprey, 1988).

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Autor: Pr. Franklin Ferreira
Divulgação: Bereianos
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Uma agenda para o voto consciente

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“Eu tenho ouvido: ‘Não traga a religião [cristã] para a política’. É precisamente para este lugar que ela deveria ser trazida e colocada ali na frente de todos os homens como um candelabro” (C. H. Spurgeon).

Como se costuma dizer, “a política é o espaço do bem comum”, frase que pode ser entendida como uma forma de praticar o amor cristão. Afinal, é pela ação política que muitas pessoas no país podem ser beneficiadas pelo bem e pela justiça. Mas para que isso aconteça, é necessário que a prática política esteja fundamentada em valores éticos. Além disso, a transformação da conjuntura social de acordo com a cosmovisão cristã é, também, uma forma de evangelizar. Portanto, com o objetivo de propor o voto consciente e responsável aos cristãos, sugerimos alguns elementos que deverão ser considerados na hora da sua escolha eleitoral:

Review | Pilares da Fé - Franklin Ferreira

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PILARES DA FÉ | A atualidade da mensagem da Reforma. Edições Vida Nova 2017. Autor: Franklin Ferreira.

Neste ano comemora-se os 500 da Reforma Protestante. Dada essa importante e singular data, muitas obras tem sido publicadas no Brasil sobre o tema. Em especial destaco as publicações de Edições Vida Nova, empreendendo uma série de publicações sobre a História, Documentos e Teologia da Reforma.

Dentre as boas publicações, está o livro do pastor e professor Franklin Ferreira. Já é sabido, mas, vale notificar que Franklin é um dos mais expressivos teólogos do nosso país em nossa geração. Suas obras envolvem Teologia Sistemática, História da Igreja, Espiritualidade e Teologia Política. Além de escritor o pastor na Igreja da Trindade, Franklin está a frente do importante Seminário Martin Bucer que tem dado grande contribuição a Teologia Reformada no Brasil. Também exercendo importante trabalho junto as editoras Vida Nova e Fiel.

Chegando ao livro, então, gostaria de dizer algumas palavras sobre a obra do professor Franklin. O livro é fruto de uma série de palestras proferidas em 2015, entre 20 e 22 de novembro, na Igreja Batista Reformada do Ipiranga em São Paulo (p.11). De fato nada incomum, muitas grandes e expressivas obras foram frutos de palestras como por exemplo, o clássico livro de Abraham Kuyper - Calvinismo - ou o Rosto de Deus do filósofo Roger Scruton, bem como outra obra de Franklin sobre o Credo Apostólico, publicado pela editora Fiel.

Os Pilares da Fé, trada dos Cinco Solas da Reforma: Sola Scriptura, Solus Christus, Sola Gratia, Sola Fide, Soli Deo Gloria. Com um prefácio do escritor e teólogo Solano Portela e uma apresentação feita pelo deputado estadual do Rio Grande do Sul, cristão luterano, Marcel Van Hattem. Iniciando, então, a obra mostrando a importância do livro nas esferas teológica e política em nosso país.

Alguns podem pensar: mas já não temos livros publicados sobre essa temática? Posso dizer que gosto bastante de outras publicações sobre o assunto, mas considero o livro de Franklin Ferreira importante por dialogar com nosso contexto no Brasil, aplicando de forma muito pastoral aos problemas correntes na teologia das igrejas no país e a realidade cultural e política do país.

Ao tratar do do primeiro sola, gostei muito quando Franklin trabalhou sobre a questão do Sola Scriptura e a Confessionalidade, tratando dos conceitos de Norma Normans e Norma Normata. Também a questão surgida posteriormente do Nuda Scriptura que rompe com a tradição confessional, asseverando que esta não valida o Sola Scriptura. Algo interessante dito pelo autor é que a Escritura é Deus falando conosco, os documentos confessionais somos nós confessando o que cremos, a Deus aos homens (paráfrase minha).

Ao tratar sobre o Solus Christus, Franklin trabalha de forma magistral a teologia da cruz em Lutero. O capítulo é profundamente evangélico e teologicamente reformado.

Os capítulos seguintes sobre o Sola Gratia e Sola Fide tratam sobre a Justificação Pela Fé Somente. Riquíssimos, posso dizer que este é um tipo de livro que todo cristão deveria ler. Com um sólido trabalho em Teologia Sistemática e Teologia Histórica, Franklin dialoga com grandes autores e nos trás valiosos ensinamentos e aplicações sobre a doutrina da justificação. Uma questão que me chamou atenção foi o diálogo do autor com a Declaração de Cambridge.

Ao final de cada capítulo se encontra uma tese dessa declaração importante feita pela Aliança de Evangélicos Confessionais em 1996. O livro inclui um apêndice com a declaração transcrita. O livro de Franklin é notavelmente pedagógico, podendo ser usado em seminários ou grupos de estudos bíblicos e Escolas Bíblicas Dominicais.

Franklin termina o livro falando do quinto sola: Soli Deo Gloria. Um capítulo jubiloso, doxológico, aplicando a cada esfera da vida e da atuação da igreja a glorificação do nome de Deus. Franklin inicia o capítulo com uma frase marcante: Por que Deus existe? Para sua própria glória! E essa é a paixão última de Deus. Todo propósito da história - e mesmo todo propósito da nossa existência - é a glória de Deus, p. 176.

Termino dizendo que é um livro importante, necessário e urgente.

Soli Deo Gloria

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Autor: Rev. Thomas Magnum
Divulgação: Bereianos

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Sobre os “Cristãos Progressistas”

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Os assim chamados “cristãos progressistas” (alcunha que não é nova, e foi usada, por exemplo, na Polônia, nas décadas de 1950 e 1960 para caracterizar os católicos que apoiaram os comunistas) se notabilizam, hoje, no Brasil, por defender a união civil de pessoas do mesmo sexo, aborto, maioridade penal e todo tipo de estatismo, como bons devotos de uma ordem religiosa, totalmente leais ao Partido e ao santo graal da Ideia.¹ Todos aqueles que não concordam com eles são tratados, simplesmente, como “não-pessoas”. E alguns de seus autores prediletos são Jürgen Moltmann, Hans Küng, Paul Tillich, Rob Bell, Brian McLaren, John Howard Yoder, Rosemary Radford Ruether, Leonardo Boff, Frei Betto, Gustavo Gutiérrez, Severino Croatto, entre outros.

Mas a defesa veemente desses temas são sinais de um mal maior. Até que ponto esses “cristãos progressistas” não têm reinterpretado profundamente a fé cristã, tornando-a em algo amorfo, totalmente distinto daquilo que se pode receber como revelação de Deus nas Escrituras Sagradas?

Parece que há, da parte desses “cristãos progressistas”, uma clara ruptura com “aquilo que foi crido em todo lugar, em todo tempo e por todos [os fiéis]” (Vicente de Lérins); isto é, esses “cristãos progressistas” se caracterizam não só por um afastamento, mas por uma rejeição de todo o ensino consensual entre os cristãos legítimos: a crença no Deus uno e trino, em sua revelação infalível e autoritativa nas Escrituras Sagradas, no pecado original e pessoal, na salvação exclusiva pela livre graça, no nascimento virginal de Cristo Jesus, em seu sacrifício sangrento na cruz, expiatório e substitutivo, em sua ressurreição corporal e em sua segunda vinda, única, visível e pessoal.

Se há, de fato, tal cisão, como reconhecer esses ditos “progressistas” como cristãos? Até que ponto – mais uma vez, se há um afastamento do ensino consensual cristão, como resumido nos antigos credos, aceitos por todos os ramos da fé cristã – não se deve considerá-los como meros “cavalos de Tróia”? Pois estes têm por alvo subverter os alicerces mais básicos da fé e da ética cristã para que a Igreja seja controlada (Gleichschaltung), subordinando-a à agenda do Partido/Estado, inflexível e colossal.

E, me parece, com a derrocada da esquerda na esfera pública, esses “cristãos progressistas” dobraram a aposta, na esfera eclesial, propagandeando com mais virulência, militantemente, suas crenças e valores.

Ao fim, toda noção de cristianismo parece ter sido subvertida pelos “cristãos progressistas”, subordinados que estão a uma Ideia. Se isso é assim, estes não podem ser reconhecidos como cristãos. Pois eles colocam fé na Ideia, não na Revelação. E gnosticismo não é cristianismo.
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Nota:
[1] O termo “cristão progressista” também foi usado no Brasil nas décadas de 1950 e 1960 para caracterizar os adeptos da teologia da libertação, que “pensavam à frente”, contrapondo-se aos “reacionários”, que, por serem conservadores, estariam “amarrando o progresso”. E, na época, era hegemônico equacionar “progresso” com a noção comunista de história. Os “cristãos progressistas” surgiram nesse momento, supondo que a classe que salvaria o mundo seriam os pobres. Com a derrocada do socialismo no leste europeu, seguindo a nova esquerda, os “cristãos progressistas” entendem que a classe que salvará o mundo será a dos “excluídos” e minorias: mulheres, negros, homossexuais, índios, etc. Agora, enquanto o esquerdismo do PT sai de moda no Brasil e no restante da América Latina, alguns, atrasados em seis décadas, defendem e propagam o “cristianismo progressista”, na contramão da história.

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Autor: Franklin Ferreira
Divulgação: Bereianos

Sobre a participação dos cristãos nas manifestações

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Romanos 13.1-7, os cristãos e os protestos contra o governo. 

Romanos 13.1-7 é um texto bíblico usado e abusado para justificar o silêncio e a omissão por parte dos cristãos, mesmo diante de governos autoritários ou totalitários.

Mas deve-se levar em conta os seguintes pontos:

1. Na Carta aos Romanos o poder pertence exclusivamente a Deus. As “autoridades do governo” nunca são chamadas de “poder” ou “poderes”, como se convencionou chamar na linguagem política contemporânea. Na carta, o único que tem poder é Deus, que vem a nós através do evangelho, que é Jesus Cristo morto e ressurreto, o único Senhor, e Senhor de todos. Já que o Deus todo-poderoso estabelece toda autoridade, essa tem um poder derivado e, por isso, limitado.

2. Romanos 13.1-7 trata da autoridade legítima ideal e a define: (a) esta é serva de Deus (“diakonos” [13.4], que pode ser traduzida como ministro, administrador ou empregado; e “leitourgos” [13.6], que designa o servo do Estado, aquele que faz um serviço para o povo) para o bem dos cidadãos; (b) recompensa o bem que é feito pelos que estão sob o seu governo; (c) e detém o poder da espada, sendo agente de punição contra quem pratica o mal – e por cumprir tais prerrogativas ordenadas por Deus, os cristãos se sujeitam “por causa da consciência” a tal autoridade e pagam tributos e impostos.

3. Quando as autoridades deixam de servir aos cidadãos, enaltecer o bem e punir o mal, DEIXAM DE SER AUTORIDADE LEGÍTIMA.

4. Logo, não são mais ordenadas por Deus. Se tornam a besta que surge do mar (Ap 13.1-10), tentando ser o idolátrico “Estado total”, que exige culto e submissão. E devem ser resistidas de toda forma legítima pelos cristãos, inclusive por meio da desobediência (como os apóstolos e cristãos mártires fizeram a partir do último quarto do século I d.C.; cf. At 5.29) e protestos (e.g. 1Rs 12.3,4; At 16.37; 21.37-39; 22.25-28; 23.17-22; 24.10,11,24-26; 25.8-12; 25.11; 26.1-32).

5. Duas citações de R. C. Sproul, que resumem o ensino global das Escrituras sobre a relação do cristão com o Estado, reforçam o que aqui é exposto:

“...Aqueles que se escondem atrás da ideia de que a igreja nunca deve falar sobre questões políticas esqueceram um princípio das Escrituras que podemos chamar de crítica profética. Pode ter sido politicamente incorreto o fato de Natã confrontar Davi sobre o seu adultério com Bate-Seba e o assassinato de Urias (2Sm 12.1-15a). Pode ter sido politicamente incorreto o fato de Elias enfrentar Acabe por seu confisco pecaminoso da vinha de Nabote (1Rs 21). Pode ter sido politicamente incorreto o fato de João Batista desafiar o casamento ilícito de Herodes, o tetrarca (Mt 14). Nesses e em outros exemplos das Sagradas Escrituras, vemos que os representantes da igreja não tentavam tornar-se o Estado, mas ofereciam uma crítica profética ao Estado — apesar das possíveis consequências. A igreja não é o Estado, mas é a consciência do Estado, e essa é uma consciência que não pode se dar ao luxo de tornar-se cauterizada e silenciosa.”
“A Igreja é chamada a ser um crítico do Estado, quando este falha em obedecer ao seu mandato debaixo da autoridade de Deus.”

6. Portanto, Romanos 13.1-7 não pode nem deve ser usado para justificar passividade ou omissão diante daqueles que traíram seu chamado e perderam a legitimidade de fazer parte da autoridade e ordem que vem de Deus.

Em países em que estes pontos foram compreendidos nunca houve ditaduras.

Para os cristãos que participarão dos protestos contra o governo no domingo:

1. Para aqueles que guardam o domingo como dia santo e para aqueles que entendem todo dia como “santo ao Senhor”, a direção é: “Uma pessoa considera um dia mais importante do que outro, mas outra julga iguais todos os dias. Cada um esteja inteiramente convicto em sua mente.” (Rm 14.4-5; cf. Gl 4.10-11; Cl 2.16-17). Que um e outro se abstenham de julgar o outro, pois tal postura nega o senhorio de Cristo. E que todos orem pela nação, em mútuo respeito, “não para debater opiniões”, pois cada um terá de prestar a Deus contas de si mesmo. De toda forma, este assunto não é central para a mensagem evangélica; “portanto, acolhei-vos uns aos outros, como também Cristo nos acolheu, para glória de Deus” (Rm 14.1,12; 15.7).

2. A maioria das manifestações está marcada para o horário da tarde. Deste modo, que os cristãos aproveitem o tempo de culto pela manhã para suplicar para que Deus perdoe nossos muitos pecados e tenha misericórdia de nosso país, e se agrade de usar os acontecimentos desta época para mudar os rumos da nação. Um importante motivo de oração é que governantes e governados tenham real respeito e apreço pelos valores cristãos, pelo decoro e pelos princípios justos presentes nas leis e Constituição do Brasil. Tal mudança não se dará “por força nem por poder”, mas pelo “Espírito, diz o SENHOR dos Exércitos” (Zc 4.6).

3. Durante o protesto, permaneçam em oração. Se em grupo, aproveitem para orar juntos pelo país, portando-se como “o sal da terra” e “a luz do mundo” (Mt 5.13-14).

4. E manifestem-se pacificamente, sem responder a eventuais provocações e repudiando toda violência, para que sejam reconhecidos como “filhos de Deus” (Mt 5.9).

Pois foi assim que as reuniões de oração realizadas na Nikolaikirche, em Leipzig, contribuíram para derrubar o comunismo na República Democrática da Alemanha, no ano de 1989.

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Autor: Franklin Ferreira
Fonte: Página do autor no Facebook
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Resposta ao Silas Daniel - Ainda Sobre Luteranismo e Monergismo

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Silas Daniel publicou mais um texto em resposta às minhas postagens. Neste, não há nada de novo; o autor tenta clarificar algumas questões, especialmente sobre a relação de Lutero com o sinergismo de Melanchthon e alguns vocábulos empregados. Comento apenas as questões principais – já que o reverendo luterano Daniel Branco já respondeu ao texto com profundidade, numa nova postagem publicada na página da Congregação Luterana da Reforma.

Silas insiste no fato de Lutero, aparentemente, condescender com o sinergismo de Melanchthon (sem levar em conta que o sinergismo deste só se tornou explícito dois anos após a morte do primeiro), como se isso provasse que houve algum tipo de atenuação no monergismo do reformador alemão. Mas o autor não responde efetivamente às questões levantadas nos dois textos escritos por Daniel Blanco, nem as do meu último texto sobre Lutero, insistindo, a partir de uma opinião bem peculiar, baseada em inferências, que Lutero suavizou sua posição em Da vontade cativa. O leitor deve notar que estas afirmações da parte de Silas são feitas sem citação a nenhuma fonte primária que corrobore tal posição (e ele não cita nem uma vez obras de referência sobre a teologia da Reforma, como as obras de Henri Strohl, Timothy George ou Paul Althaus). De qualquer forma, um exemplo de fonte primária talvez baste para mostrar a fragilidade de sua posição: de forma completamente oposta ao que o autor opina, Lutero escreveu a Wolfgang Capito, em 9 de julho de 1537, que nenhum de seus livros mereceria ser preservado, com a exceção de seu Catecismo Menor e do De servo arbítrio (LW 50, p. 172-173).

Vou ficando com a impressão de que é muito mais fácil por parte dos arminianos afirmar, sem provas, que supostamente houve mudança ou abrandamento no pensamento do reformador alemão do que interagir com a vigorosa interpretação monergista que ele ofereceu ao texto bíblico, não só em Da vontade cativa, mas em suas preleções à Epístola do Bem-aventurado Apóstolo Paulo aos Romanos e no Comentário à Epístola aos Gálatas. A propósito, o leitor pode conferir em minha última postagem, O luteranismo confessional e o monergismo (publicada no Bereianos), a citação inequívoca de Lutero sobre a predestinação soberana e graciosa, em seu prefácio à epístola aos Romanos, e publicada segundo a versão revisada no último ano de sua vida.

Como Silas Daniel parece não entender o princípio de igreja confessional, ele insiste em citar alguns escritores (me parece incorrendo no argumento ad verecundiam) para afirmar que a tradição luterana se afastou do monergismo do reformador – e, mais uma vez, é preciso destacar, tal conclusão se dá a partir da citação de fontes secundárias. Ele não cita nenhuma vez qualquer um dos documentos confessionais luteranos reunidos no Livro de Concórdia (o que fiz em O luteranismo confessional e o monergismo) para apoiar sua opinião sobre a tradição luterana.

Para tornar clara a questão: em igrejas confessionais, como as igrejas da tradição reformada, é perguntado aos candidatos ao ministério pastoral: “Recebeis e adotais sinceramente a Confissão de Fé e os Catecismos desta Igreja, como fiel exposição do sistema de doutrina ensinado nas Santas Escrituras?” Espera-se, como resposta, que estes afirmem solenemente “sua crença nas Escrituras Sagradas como a Palavra de Deus, bem como a sua lealdade à Confissão de Fé” e aos Catecismos como fiéis resumos do ensino bíblico – e que estes se mantenham firmes neste santo compromisso. Assim sendo, para as tradições confessionais, o que determina o que estas creem são seus documentos confessionais, não a posição de seus teólogos, mesmo dos mais representativos.

Por interpretar a história da controvérsia sobre a soteriologia em termos anacrônicos, reduzindo as alternativas em “calvinismo” e “arminianismo” (problema já tratado em detalhes em Sobre arminianismo, calvinismo e o uso da história do pensamento cristão, também publicado no Bereianos, e de passagem em O luteranismo confessional e o monergismo), o autor não consegue entender que a tradição luterana é uma terceira interpretação da soteriologia, mas não menos confessionalmente monergista que a tradição reformada.

Sobre o uso da expressão “mecânica da salvação”, minha crítica ao uso da mesma se dá por tal ideia sugerir a noção de graça ex opere operato, reduzindo a salvação a um sistema, ou ao recebimento mecânico da salvação (como na tradição pelagiana, com sua linguagem do tipo “aceitar a Jesus”, “tomar uma decisão por Cristo”, etc.). O fato da expressão “mecanismo da salvação” (e não “mecânica”) ter sido citada por Lloyd-Jones (uma única vez na palestra O que é um evangélico, em contraponto a “método de salvação”) é indiferente. Silas é livre para usar a expressão que lhe convier. A mim me parece que falar da livre graça de Deus é mais apropriado e bíblico (diga-se de passagem, esta última expressão é encontrada, de forma recorrente, em vários dos sermões de John Wesley).

Sobre o uso dos termos “semipelagianismo” e “semiagostinianismo”, deve-se afirmar que não atribuímos significado arbitrário a estes vocábulos, usando-os segundo nossas preferências. Eles devem ser referidos a partir dos dicionários teológicos e livros-textos consagrados, assim como de seu uso na história da teologia. Neste caso, referenciei tanto a diferença entre semipelagianismo e semiagostinianismo (que julgo importante, já que as duas interpretações pressupõem inícios diferentes para a salvação: a primeira, a partir da vontade, que será assistida por Deus; a segunda, atribuindo-a a Deus, que coopera com a vontade), como o fato de Agostinho e Próspero serem considerados autores “medievais”. Neste caso, o autor insiste na datação tradicional para se evadir de que houve de fato uma tradição monergista na Idade Média, e ela começou cedo. Para relembrar, Silas Daniel havia afirmado em seu texto publicado em O Obreiro Aprovado de que não teria havido ninguém que ensinou a doutrina da predestinação entre Agostinho e a Reforma, afirmação que ele corrigiu posteriormente. Ele, inclusive, afirmou naquela revista que os sínodos de Quiercy e Valença ensinaram “a predestinação pela presciência divina”, um óbvio equívoco de interpretação que fica evidente para aqueles que consultarem as fontes originais, na edição bilíngue de Denzinger-Hünerman (Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral), e citadas em meu ensaio Sobre arminianismo, calvinismo e o uso da história do pensamento cristão (onde o leitor encontrará também a citação dos artigos principais das decisões do Sínodo de Orange sobre a soteriologia).

Por fim, as várias citações de Próspero a favor daquilo que é chamado de “universalismo hipotético”, com que o autor encerra seu último texto, não provam nada. As citações não demonstram que tal posição é incompatível ou é uma ruptura com o monergismo que ele herdou de Agostinho, e do qual foi firme defensor; Próspero também foi a influência determinante no Sínodo de Orange (por meio da obra Sententiae ex Augustino delibatae), que condenou o pelagianismo e “algumas doutrinas semi-pelagianas típicas, como aquela da initium fidei humana”, e que adotou “uma forma atenuada de agostinianismo” (Justo Gonzalez, Uma história do pensamento cristão, v. 2, p. 60-61).

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Autor: Franklin Ferreira
Divulgação: Bereianos

Leia também: 
Uma avaliação do artigo "Em defesa do arminianismo"
Resposta a Zwinglio Rodrigues: Sobre exegese, arminianismo e o Sínodo de Dort
Resposta ao Pr. Silas Daniel - Sobre arminianismo, calvinismo e o uso da história do pensamento cristão
O Luteranismo Confessional e o Monergismo
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“Estadolatria”: Sobre a Idolatria da Esquerda ao Estado I

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“Quando a política pretende ser redentora, promete demais. Quando pretende fazer a obra de Deus, não se torna divina, mas demoníaca”.[1]

Marcus Vinícius Matos, membro da Coordenação Nacional da Rede FALE e bolsista CAPES fazendo doutorado em Direito na Inglaterra, publicou dois textos no blog esquerdista Dignidade, da Revista Ultimato,[2] em que se propõe a responder a supostos “cinco principais argumentos” que ele imaginou estarem em alguns dos ensaios sobre política, totalitarismo e violência que publiquei na revista eletrônica Teologia Brasileira.[3] Meus escritos têm um e somente um tema: assumir que o Estado ou partido possa ser redentivo é idolatria.


O autor dos textos (a quem conheci em 1995) afirma que meus textos derivam de supostas conversas que tive com ele, dizendo que delas “parece ter se originado boa parte dos argumentos que ele levanta nos seus textos atuais”. Houve uma troca de e-mails em 2006, se não me engano, por causa dos atentados do PCC em São Paulo. Recordo-me também de ter recebido um e-mail dele no qual defendia o ministro dos esportes, ligado ao PCdoB, em 2011 (e que se demitiu em meio a uma série de acusações de corrupção), e lembro-me de ter trocado alguns e-mails com ele na sequência. De qualquer forma, tal suposição do autor é presunçosa e arrogante e não corresponde à verdade. Na Teologia Sistemática que escrevi com Alan Myatt, publicada em 2007, há seções sobre fé e política no cap. 21, e os ensaios que escrevi na Teologia Brasileira são derivados das ideias presentes nesta obra.

Seus textos são escritos de sua privilegiada posição na Inglaterra com desdém e condescendência para com os “descrentes”, os “ignorantes”, os “desinformados” e os “não esclarecidos”, que ousam, a partir de suas experiências inconvenientes no Brasil, criticar ou obstruir o ideal esquerdista.

1. Apelando à “falácia do espantalho”

O autor, em sua primeira postagem publicada, entendeu tão mal o que escrevi que é como se não tivesse lido meus ensaios. Com base em pressupostos característicos da esquerda, ele se propõe a “refutar” o meu suposto “neoliberalismo”, que ele considera o principal culpado por todos os grandes males da humanidade. Só que o tal de “neoliberalismo” é algo que não defendo e que não é sequer mencionado em meus textos, simplesmente porque não o considero um conceito válido e relevante para minha argumentação (voltaremos a esta questão no final).[4] Mas ao associar meu posicionamento a uma detestada palavra de ordem do discurso de esquerda que para mim nada significa, o autor demonstra estar pouco disposto a me compreender e muito disposto a me enquadrar dogmaticamente nas categorias que lhe são naturais, e que se baseiam em pressupostos de que não compartilho.

Um exemplo basta para delinear o uso da falácia do espantalho por parte do autor. Na primeira postagem ele escreve, com linguagem típica: “Há uma diferença significativa entre totalitarismo e autoritarismo que passa batida pelo texto do autor”. Como ele realmente parece não ter lido meus textos, é necessário notar que tal diferença é estabelecida no início do ensaio Totalitarismo, o culto do Estado e a liberdade do evangelho, não só no texto, mas também numa longa nota de rodapé, referenciada com bibliografia. Fica a impressão de que Marcus Vinícius age assim apostando que seus leitores não consultarão os ensaios aos quais suas postagens supõem responder. Pelo jeito, vale tudo para defender o bezerro de ouro moderno, o culto ao Estado, seja por meio da incompreensão ou da distorção do que defendi em meus escritos.

Desenvolvendo o que foi já dito em Totalitarismo, o culto do Estado e a liberdade do evangelho, pode-se asseverar que o totalitarismo é uma versão extremada do autoritarismo. As diferenças entre ambas as posições podem ser estabelecidas por meio de comparação das características de ditadores totalitários e autoritários:[5]


Em linhas gerais, no autoritarismo, que não é guiado por ideais utópicos, há uma certa distinção entre o Estado e a sociedade, com tolerância a alguma pluralidade na organização social; o totalitarismo, por outro lado, invade a vida privada e a asfixia, na tentativa ideologicamente orientada de mudar o mundo e a natureza humana.

Marcus Vinícius, seguindo um hábito comum entre esquerdistas brasileiros, retrata o espectro político apenas em categorias binárias, demonstrando desconhecer os vários ângulos da tabela de Nolan. Por isso, talvez, comete um erro elementar: não oferece definição alguma dos polos em debate.[6] Assim, o que sobra na primeira postagem são caricaturas, chavões e clichês do que ele convencionou retratar como “direita”. O leitor procurará em vão por referências ou citações de conservadores como Russell Kirk, Thomas Sowell ou Roger Scruton.[7] Por não definir os vocábulos, o autor também faz uma confusão imensa com os termos “liberal” e “conservador” para sugerir, sem provas, que faço uma síntese entre o cristianismo e o liberalismo econômico.

Também reclama que “o autor [no caso, eu] insiste em ignorar a existência” do anarquismo, enquanto eu deixei claro, logo no começo do ensaio Totalitarismo, o culto do Estado e a liberdade do evangelho, que precisei deixar de lado o libertarianismo e o autoritarismo por uma questão óbvia de delimitação. O autor parece não ter ideia do que é o libertarianismo ou seu derivado, o anarcocapitalismo, que compõem um dos extremos da tabela de Nolan, e que são favoráveis ao livre mercado e a uma intervenção mínima do governo na economia, mas também (de modo semelhante ao anarquismo) ao Estado laico, à união homossexual, à legalização do aborto e à descriminalização das drogas.[8] De todo modo, o anarquismo é utópico, na medida que somente uma revolução mundial violenta poderia produzir o que esta posição aspira – em suma, o anarquismo é uma ilusão política impossível de ser concretizada.

Por tudo isso, uma ou outra percepção que até soam interessantes em sua primeira postagem, e que eu eventualmente endossaria, acabam se revelando descartáveis, tanto pelas inconsistências conceituais e históricas quanto pela estrutura interpretativa esquerdista, que ele adota dogmaticamente.

2. Um exemplo de cegueira ideológica

Na primeira postagem Marcus Vinícius afirma que Guantánamo “é um campo de concentração pós-moderno”. Preciso dizer que, sob o impacto dessa frase, tive dificuldade de prosseguir com a leitura dos textos. 

De um total de 779 prisioneiros que passaram por Guantánamo desde 2002, 122 terroristas da Al-Qaeda permanecem presos ali. Portanto, com tal afirmação, o autor trivializa a inocência e o sofrimento de 6 milhões de judeus mortos em campos de concentração nazistas na II Guerra Mundial; os presos e mortos nos Gulag da extinta União Soviética (14 milhões de prisioneiros entre 1929-53; as estimativas variam de 1.5 a 10 milhões de mortos nesse mesmo período); nos campos da China (50 milhões de presos, dos quais 15 a 20 milhões foram assassinados em milhares de campos abertos em meados de 1950 e ainda hoje existentes); e nos campos da morte do Camboja (de 1 a 2 milhões de pessoas mortas entre 1975-79). Hoje, na Coreia do Norte comunista, há seis campos de concentração com cerca de 200 mil presos sem o devido processo legal sendo “reeducados” de acordo com os valores socialistas – e pelo menos 70 mil destes prisioneiros são cristãos. Nesses campos, os filhos dos dissidentes nascem e permanecem presos, sem escolarização, aprendendo que os guardas que vigiam o campo são mais confiáveis que seus próprios pais. [9]

Sob qualquer critério, quantitativo ou qualitativo, um campo de concentração é muito diferente de uma prisão para terroristas. O esforço de fazer com que se pareçam semelhantes resulta em uma distorção grave, e quem promove essa confusão dá mostras de que valoriza sua ideologia acima não só da fé, mas também da própria realidade.

3. Uso seletivo das fontes

Em sua segunda postagem, Marcus Vinícius demonstra não ter entendido nada do que escrevi sobre Karl Barth no ensaio Totalitarismo, o culto do Estado e a liberdade do evangelho. Na verdade, ele, mais uma vez, parece contar que seu leitor não examine o ensaio que ele visa replicar. 

No que parece ser o clímax de sua postagem, ele cita a “Carta a um Pastor da República Democrática Alemã” (Brief an einen Pfarrer in der DDR), de Barth, como se esta não só contradissesse o que escrevi sobre o teólogo suíço naquele texto, mas também contradissesse as palavras do próprio Barth que transcrevi. Mas burla o seu leitor ao não mencionar a data de publicação da carta (1958), ao não estabelecer o contexto histórico e político e, muito menos, o lugar da carta no pensamento político do teólogo suíço. Isso é impostura intelectual – levando-se em conta, claro, que ele tenha alguma leitura mais profunda de e sobre Karl Barth.[10]

4. Esquerdismo e nazismo – de novo!

Muitos esquerdistas surtam quando se demonstra que socialismo e nazismo são “gêmeos totalitários”, argumento que, como escreve João Pereira Coutinho, “longe de polêmico, é cada vez mais consensual”.[11]

Marcus Vinícius descarta tal associação, primeiro confundindo nazismo e fascismo (confusão típica, já que ele mesmo parece não saber a diferença entre autoritarismo e totalitarismo), e depois afirmando frivolamente que esse argumento é reproduzido “em vários espaços na internet, [e] tem sido amplamente divulgado pela direita (neo)conservadora e neoliberal brasileira”. Contudo, a verdade é que citei em meus ensaios uma grande quantidade de fontes para substanciar minhas afirmações, sendo todas elas publicações impressas, quase todas europeias e várias de centro-esquerda. O autor diz também que “o grave equívoco dessa posição é que ela não resiste e [sic] uma mínima visita a fontes primárias”. Essa afirmação é tão pueril quanto a primeira, e isso é agravado pelo fato de que não há, em seu próprio artigo, nenhuma tentativa de citar fontes primárias para substanciar sua acusação. Aliás, ele demonstra possuir pouca familiaridade com essas fontes: parece, por exemplo, não conhecer o programa político oficial do partido nacional-socialista.

Seu argumento, no fim das contas, contorna a questão ao afirmar que o nazismo não pode ter sido um socialismo autêntico porque perseguiu outros socialistas; mas essa perseguição é algo que nunca neguei, porque é irrelevante: nunca houve um momento na história do socialismo em que suas diversas facções não se perseguissem mutuamente, de modo que esse argumento nada prova.

Pelo jeito, o autor também ignora que, pelas razões apontadas em meus textos, o uso político de símbolos nazistas e comunistas é proibido em países da Europa Central que sofreram nas mãos dos dois sistemas (Polônia, Lituânia, Geórgia, Hungria e Moldávia). É sintomático que, embora a esquerda se gabe de ter o monopólio das virtudes, não há nenhum comentário ou penitência por parte do autor em suas postagens sobre o assassinato de 100 milhões de pessoas por parte da esquerda durante o século 20, conforme documentado e referenciado em dois de meus textos.

5. Sobre o “neoliberalismo”

Uma das evidências de que Marcus Vinícius distorce e ignora minhas críticas à “ideia pagã do Estado total” [12] é exemplificada quando ele trata do texto bíblico de Mateus 22.16-22 no fim de sua segunda postagem. Comentando a passagem bíblica, ele afirma que “Jesus manda entregar o dinheiro (...) [aos] poderes deste mundo”, pois “mais importante do que a lealdade ideológica a César, que assumia uma forma divina, na época, é a materialidade da ideologia, a realidade a qual ela corresponde – no nosso caso, a idolatria (do)de mercado”. O autor não lida com a passagem em seu contexto canônico, mas tenta interpretá-la impondo à Escritura sua pré-compreensão esquerdista dogmática, lendo os versículos bíblicos como uma crítica anacrônica a uma abstração chamada “mercado”, e que não faria sentido nenhum para o leitor original. 

Nesta passagem, os líderes religiosos perguntam a Cristo sobre o “imposto do recenseamento”, pago ao império por todos os homens dos 14 aos 65 anos (mulheres pagavam o imposto dos 12 aos 65), que equivalia a um dia de trabalho ao ano, e era um reconhecimento do domínio do imperador romano.[13] A resposta simples de Jesus à armadilha dos fariseus e herodianos ensina não apenas a separação entre as esferas do culto a Deus e do serviço ao Estado, cada qual com seu campo de ação, mas especialmente que a lealdade última é dada exclusivamente a Deus como Senhor (At 4.19; 5.29), enquanto nossa relação com o Estado é provisória e temporária (Rm 13.1-7; 1Pe 2.13-17), nunca subserviente ou idólatra. Portanto, como bem lembrou Bento XVI, que nos acautelemos a todo o custo da “teologização da política”, que se tornará meramente a “ideologização da fé”.[14]

Marcus Vinícius procurará em vão em meus ensaios ou livros alguma declaração ou afirmação em defesa do tal do “neoliberalismo”, falácia que só existe no ideário socialista. O que aprendemos na Escritura é que o uso desenfreado dos meios para se obter dinheiro ou riquezas é condenado por Deus (por exemplo, em 1Tm 6.9-10). Quando o dinheiro deixa de ser apenas um meio e se torna um fim em si mesmo, passa a ser uma divindade e ocupa o lugar do único Deus (Mt 6.24). Portanto, temos na Escritura uma condenação que, no contexto de hoje, se dirige também ao capitalismo de Estado praticado pela esquerda, com sua adoração ao dinheiro e ao poder estatal. O amor idólatra ao dinheiro não é uma tentação só para “capitalistas” – e deve-se lembrar que capitalismo não é um sistema político, mas uma forma de vida econômica; há tipos de ganância que são socialistas por excelência. Essa idolatria se revela não só nos escândalos em série dos desvios bilionários dos cofres públicos e no aparelhamento de todas as esferas do estado brasileiro, mas também na imensa e brutal carga tributária colocada sobre os ombros de uma parcela significativa da sociedade, espoliada continuamente para o sustento de uma estrutura corrupta e ineficiente – a “sociedade incivil” que se tornou o governo esquerdista do PT.

O capitalismo de Estado, tão ao gosto da mentalidade esquerdista, suprime a liberdade econômica no Brasil. Só a título de comparação vale mencionar: Canadá é o 6º, Chile 7º, Estados Unidos 12º e a Inglaterra é o 13º país com mais liberdade econômica. Atualmente, o Brasil é o 118º país no ranking de liberdade econômica (éramos o 114º antes das eleições de 2014, quando o PT foi reeleito para o governo federal). Para ficar em poucos exemplos, Chile, México, Colômbia, Paraguai e até Botswana têm mais liberdade econômica que o Brasil.[15]

Ao mesmo tempo, a inflação no país ultrapassa 8%, os juros chegam a 12,75% ao ano, há uma recessão em curso, a renda diminuiu e, por causa da crise econômica resultante do dirigismo estatal, cerca de 1,5 milhão de trabalhadores já estão desempregados.[16] Além disso, 2/3 do ajuste fiscal consiste em aumento de impostos sobre a já tão combalida população, que arca com os custos pesados de um Estado corrupto e ineficiente – a carga tributária brasileira, uma das mais elevadas do mundo, chega a 36% do Produto Interno Bruto (PIB). 

Só a adesão cega à religião esquerdista não vê a conexão entre a liberdade econômica e o desenvolvimento de uma nação; em outras palavras, quanto menos liberdade econômica, menos riqueza para todos. Ou, colocando de outra forma: num país com menos liberdade econômica, mais riqueza será concentrada egoisticamente nas mãos de poucos poderosos. Tal sistema é maligno! A conclusão óbvia, me parece, é que “o emprego (...) de categorias marxistas para o propósito vulgar de suprimir a liberdade (...) depõe com o tempo contra os encantos da própria teoria”.[17]

Conclusão (parcial)

Marcus Vinícius Matos estuda na Inglaterra – o 13º país em liberdade econômica.[18] Já o partido de esquerda que ele defende tão aguerridamente tornou o Brasil o 118º país em liberdade econômica. Como ele não mora aqui, parece não ter ideia do mal que doze anos de governo socialista fez à democracia no Brasil. O programa partidário do PT e de seus aliados de esquerda e extrema-esquerda está baseado na luta de classes, na tutela estatal, na intervenção da economia, no desrespeito ao direito de propriedade, no desprezo pela democracia representativa, tendo sempre como objetivo final a criação de uma “sociedade” socialista no Brasil.

Note-se que o PT jamais deixou de prestar solidariedade aos governos de esquerda da Venezuela e de Cuba. Por mais que esses governos pisoteiem os direitos humanos que o PT e seus defensores dizem representar, nenhuma crítica governamental nem partidária é a eles endereçada. Portanto, a incapacidade do autor de compreender a dimensão da catástrofe da esquerda no Brasil e América Latina é, em grande medida, ideológica. Ele está cego para as contradições do que vê como “reforma” social, pois seu raciocínio está subordinado aos princípios dogmáticos do socialismo.

Não conheço qual a posição pessoal atual de Marcus Vinícius sobre revelação, Escritura, Deus, Cristo, expiação, ressurreição, santificação ou outros ensinos centrais da fé cristã. Portanto, não posso afirmar até que ponto o esquerdismo modificou sua fé pessoal. Mas que não haja ilusões: a aderência estrita aos dogmas da esquerda (ou de qualquer outro ângulo do espectro político) termina por impor mudanças à fé – seja por meio da reinterpretação das doutrinas cristãs, seja pela apostasia. Na seção de comentários de uma das suas postagens, ele é perguntado diretamente sobre “sua posição política no contexto brasileiro” e sobre sua posição pessoal quanto “ao aborto e ao casamento entre homossexuais”, mas se evade em responder às perguntas, pois quer evitar “reduções simplistas”. Por que tal acanhamento?

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NOTAS:
[1] Joseph Ratzinger, Fé, verdade, tolerância (São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência Raimundo Lúlio, 2015), p. 110.
[2] As postagens são: “A idolatria do(de) Mercado: contra a teologia política neoliberal” e “A idolatria do(de) Mercado: o homem todo para o dinheiro (todo)”. São dois textos longos que, além dos vários problemas aqui destacados, são mal estruturados, o que torna a leitura enfadonha.
[4] Na verdade, pode-se considerar que toda a primeira postagem de Marcus Vinícius é baseada na “falácia do espantalho”. Sobre isso, cf., por exemplo, Paulo Roberto de Almeida, “Falácias acadêmicas, 1: o mito do neoliberalismo”, Revista Espaço Acadêmico No 87 (Agosto 2008), em: http://www.espacoacademico.com.br/087/87pra.htm.
[5] A tabela e as ideias aqui expostas encontram-se em P. C. Sondrol, “Totalitarian and Authoritarian Dictators: A Comparison of Fidel Castro and Alfredo Stroessner”, in: Journal of Latin American Studies vol. 23, n. 3 (October 1991), p. 599.
[6] Marcus Vinícius repete em seus textos erros para os quais André Venâncio chama a atenção em seu ensaio “Armadilhas do vocabulário político”, publicado em Teologia Brasileira: http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=397.
[7] Para uma introdução ao conservadorismo, cf. João Pereira Coutinho, As ideias conservadoras (São Paulo: Três Estrelas, 2014). Nesta obra o filósofo português procura resgatar os valores “liberais” clássicos: individualismo, constitucionalismo, antiautoritarismo e tolerância. 
[8] Talvez os mais articulados defensores do libertarianismo sejam Murray Rothbard e Hans-Hermann Hoppe. Para o desconforto que liberais sentem em ser rotulados com a direita e seu desprezo pela esquerda, cf. Roger Scar, “Liberalismo: de esquerda ou de direita?”, em: http://www.institutoliberal.org.br/blog/liberalismo-de-esquerda-ou-de-direita/. Para convergências e divergências entre liberais e conservadores, calcada em boas definições, cf. Rodrigo Constantino, “O conservadorismo pela lente de um liberal”, em: http://veja.abril.com.br/blog/rodrigo-constantino/filosofia-politica/o-conservadorismo-pela-lente-de-um-liberal/.
[9] Para mais dados sobre as perseguições comunistas na atualidade, cf. Paul Marshall, Lela Gilbert & Nina Shea, Perseguidos: o ataque global aos cristãos (São Paulo: Mundo Cristão, 2014), p. 35-73
[10] Em Totalitarismo, o culto do Estado e a liberdade do evangelho é mencionado que Karl Barth, num primeiro momento, tratou o comunismo e nazismo como iguais; num segundo momento, atenuou esta posição. Mas, mesmo assim, assumiu em privado uma posição de alerta sobre o socialismo. Em meu texto há, inclusive, farta citação de fontes primárias (derivadas das cartas de Barth) e secundárias (a reação de pastores atrás da Cortina de Ferro que lamentaram profundamente a posição ambígua de Barth), sumariamente ignoradas pelo blogueiro. Para um resumo do pensamento do teólogo suíço, cf. Franklin Ferreira, “Karl Barth: Uma introdução à sua carreira e aos principais temas de sua teologia”, em Fides Reformata v. 8, n.1 (2003), p. 29-62; para o papel de Barth na resistência ao nazismo no pré-guerra, cf. “A Igreja Confessional Alemã e a ‘Disputa pela Igreja’ (1933-1937)”, em Fides Reformata, v. 15 (2010), p. 9-36. Neste último ensaio, trato en passant de sua ambiguidade para com o comunismo no pós-guerra. Quanto à relação de Barth com o regime da Alemanha Oriental, cf. também Brief an Staastminister Zaisser, Berlin-Lichtenberg, vom 2 März 1953 betreffend Verhaftung von Pfarren in der DDR, onde ele pediu a libertação de pastores evangélicos presos pelo regime comunista.
[11] cf. “Ensaio analisa parentesco entre fascismo e comunismo”, em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq3110200916.htm.
[12] Herman Dooyeweerd, Estado e soberania: ensaios sobre cristianismo e política (São Paulo: Vida Nova, 2014), p. 50.
[13] O culto imperial já era disseminado pelas províncias do mundo romano na época do Novo Testamento. Os imperadores da dinastia Júlio-Claudiana, ainda que não exigissem honras divinas completas, foram deificados apenas após sua morte – mas nem todos o foram. Otávio era chamado de divi Iuli filius (filho do divino Júlio César) e foi deificado após sua morte; já seu herdeiro, Tibério, não o foi e tampouco o seu sucessor, Calígula. Claudio o foi, mas não Nero (este é o pano de fundo de Rm 1.18-32). O primeiro imperador que exigiu ser chamado de dominus et deus (“senhor e deus”) em vida foi Domiciano, da dinastia Flaviana (Ap 13.1-10 deve ser lido com isso em mente). Quando morreu, não só não foi deificado como foi o primeiro imperador a receber uma damnatio memoriae (literalmente “danação da memória”, que implicava o confisco de propriedades, o nome apagado de moedas e monumentos e as estátuas reutilizadas).
[14] Joseph Ratzinger, “A teologização da política viraria ideologização da fé”, em: 30 Dias, http://www.30giorni.it/articoli_id_968_l6.htm. Este discurso do então cardeal foi proferido no congresso “A participação e o comportamento dos católicos na vida política”, promovido pela Pontifícia Universidade da Santa Cruz, Roma, em 9 de abril de 2003.
[15] O leitor pode consultar mais informações sobre liberdade econômica, inclusive notando a conexão desta com o estado de direito, governo limitado e livre mercado, em: http://www.heritage.org/index/ranking. Em 2003 o Brasil se encontrava em 72º lugar em liberdade econômica: http://cedice.org.ve/wp-content/uploads/2012/12/Index-of-Economic-Freedom-2003.pdf.
[16] Cf. “Desemprego no Brasil sobe para o maior nível nos últimos três anos”, edição do Jornal Nacional de 28/04/2015, em: http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2015/04/desemprego-no-brasil-sobre-para-o-maior-nivel-nos-ultimos-tres-anos.html.
[17] Tony Judt, Reflexões sobre um século esquecido (Rio de Janeiro: Objetiva, 2010), p. 157.
[18] Para a crise das políticas de bem-estar social na Inglaterra, tão ao gosto das esquerdas, cf. Theodore Dalrymple, A vida na sarjeta (São Paulo: É Realizações, 2015). Cf. também a entrevista que o autor concedeu à Veja, em: http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/a-pior-pobreza-e-a-da-alma. Ele diz: “Mesmo em países miseráveis da África, onde trabalhei, nunca vi tamanha pobreza espiritual ou psicológica como a que observei na Inglaterra. E isso, eu acho, só pode ser explicado pela privação do sentido da vida. São pessoas capturadas por esse ciclo de dependência [do assistencialismo estatal], em que nada parece tornar a vida melhor ou pior. Não há esperança, nem medo. (...) Na Inglaterra, em 2006, antes da crise econômica, nós tínhamos 2,9 milhões de pessoas vivendo graças ao auxílio-doença. Elas não eram consideradas desempregadas, mas doentes. Acontece que a grande maioria não tinha enfermidade nenhuma – ou teríamos mais doentes do que na 1ª Guerra Mundial. Essa corrupção moral tem um efeito profundo sobre a sociedade, tanto sobre as pessoas que pedem o benefício, como os médicos que dão os atestados e até sobre o governo, que pôde melhorar seu indicador de desemprego. (...) Acho que, se bem controlada, não há razão para não ter uma rede de proteção social. O problema é que na Europa, particularmente na Grã-Bretanha, o sistema saiu de controle”.

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Autor: Franklin Ferreira
Divulgação: Bereianos
Imagem: The Adoration of the Golden Calf (1633-4), por Nicolas Poussin. Arte: Bereianos.
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