Se mulheres não eram circuncidadas por que devem ser batizadas?

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Por Frank Brito


Em outra postagem deste blog foi defendido que os infantes, filhos de pais que professam a fé cristã, devem ser batizados. Nesta outra postagem foi argumentado que:

1. Deus estabeleceu um pacto por meio de Abraão.

2. Este pacto foi feito com aqueles que professam a fé no Deus verdadeiro junto com seus filhos infantes.

3. A promessa de Deus, desde o princípio, era que este pacto seria firmado com “todas as famílias da terra” (Gn 12:3), que é o mesmo que “todas as nações da terra” (Gn 18:18).

4. A primeira família ou nação chamada por Deus para firmar Seu pacto foi “a casa de Israel” (cf. Gn 17:1-14; Ex 19:5-6; Dt 4:7-8; Sl 147:19-20; Am 3:2; Ef 2:11-12).

5. Mediante a vinda de Jesus Cristo, Deus finalmente firmou Seu pacto com todos aqueles a quem a promessa foi originalmente feita (cf. Mt 8:11; Rm 3:29; 4:9-14; 15:8-12; II Co 1:20; Gl 3:27-29; Ef 2:11-14; 3:1-6), isto é, com “todas as famílias da terra” (Gn 12:3), que é o mesmo que “todas as nações da terra” (Gn 18:18).

6. Na era do Antigo Testamento, o sinal e selo deste pacto era a circuncisão (cf. Gn 17:1-14) e na era do Novo Testamento o sinal e selo deste pacto é o batismo (cf. Mt 28:19-20; Gl 3:27-29; Cl 2:11-13).

7. Todos os membros do pacto devem receber o sinal e selo do pacto, isto é, todos aqueles que professam a fé no Deus verdadeiro junto com seus filhos infantes.

O propósito do presente estudo não é demonstrar que todos estes pontos são verdadeiros. Isso já foi feito em outra postagem. O propósito deste estudo é demonstrar porque na era do Novo Testamento as mulheres (incluindo meninas) devem ser batizadas, ainda que na era do Antigo Testamento elas não eram circuncidadas.

A primeira coisa que precisamos observar aqui é que há um importante elemento de descontinuidade entre a promessa original de Deus feita a Abraão em Gênesis 12 e os membros do pacto em Gênesis 17 quando a circuncisão foi instituída. A promessa original era que este pacto seria firmado com “todas as famílias da terra” (Gn 12:3), que é o mesmo que “todas as nações da terra” (Gn 18:18), mas os membros do pacto em Gênesis 17 são a família que daria origem a nação de Israel. Ou seja, o sinal da circuncisão apontava para o cumprimento da primeira parte da promessa que Deus fez à Abraão: “E multiplicarei a tua descendência como as estrelas dos céus, e darei à tua descendência todas estas terras” (Gn 26:4; cf. 12:3). Mas ainda ficaria faltando a segunda parte: “e por meio dela serão benditas todas as nações da terra” (Gn 26.4; cf. Gn 12:3).

Mediante a vinda de Jesus Cristo, Deus finalmente firmou Seu pacto com todos aqueles a quem a promessa foi originalmente feita:

Porque todas quantas promessas há de Deus, são nele sim, e por ele o Amém”. (II Coríntios 1:20)

Digo pois que Cristo foi feito ministro da circuncisão, por causa da verdade de Deus, para confirmar as promessas feitas aos pais; e para que os gentios glorifiquem a Deus pela sua misericórdia, como está escrito: Portanto eu te louvarei entre os gentios, e cantarei ao teu nome. E outra vez diz: Alegrai-vos, gentios, juntamente com o povo. E ainda: Louvai ao Senhor, todos os gentios, e louvem-no, todos os povos. E outra vez, diz também Isaías: Haverá a raiz de Jessé, aquele que se levanta para reger os gentios; nele os gentios esperarão. (Romanos 15:8-12)

Portanto, lembrai-vos de que vós noutro tempo éreis gentios na carne… Naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos aos pactos da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo. Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto… Por esta razão eu, Paulo, o prisioneiro de Cristo Jesus por amor de vós gentios. Se é que tendes ouvido a dispensação da graça de Deus, que para convosco me foi dada; como pela revelação me foi manifestado o mistério, conforme acima em poucas palavras vos escrevi, pelo que, quando ledes, podeis perceber a minha compreensão do mistério de Cristo, o qual em outras gerações não foi manifestado aos filhos dos homens, como se revelou agora no Espírito aos seus santos apóstolos e profetas, a saber, que os gentios são co-herdeiros e membros do mesmo corpo e co-participantes da promessa em Cristo Jesus por meio do evangelho. (Efésios 2:11-13; 3:1-6)

Deus, então, não anulou Suas promessas. Elas foram reafirmadas em Jesus Cristo. As nações precisam ser ensinadas, como Jesus mandou fazer antes de subir ao Céu, porque Deus prometeu a Abraão: “Em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12.1-3) e “em tua descendência serão benditas todas as nações da terra” (Gn 22.18). Deus começou a cumprir essa promessa quando, da descendência de Abraão, formou Israel. Com sinal da promessa, Deus deu a circuncisão. Para cumprir o restante da promessa, Jesus Cristo, na Grande Comissão, mandou que as demais nações também pactuassem com Deus, para que fossem co-herdeiras da mesma promessa. O Novo Pacto não é uma anulação do que foi anteriormente estabelecido, mas é o pacto, conforme Gênesis 12, sendo ampliado para que incluísse todos aqueles a quem o pacto foi originalmente prometido. O Novo Pacto, então, não excluiu Israel (Rm 11:1) com quem Deus já havia firmado o Seu pacto, mas inclui as demais nações, além de Israel, já que “os dons e a vocação de Deus são irretratáveis” (Rm 11:29). É por isso que, tendo sido firmado com todas as famílias da terra, esperamos pelo dia em que “todos os limites da terra se lembrarão e se converterão ao Senhor, e diante dele adorarão todas as famílias das nações” (Sl 22:27). É por isso também que o pacto de Deus que já havia sido firmado com os infantes (cf. Ez 16:20-21; Ml 2:15) não poderia ter sido anulado por Jesus Cristo. Para que Deus anulasse seu pacto com os infantes, ele teria que anular o pacto abraâmico que incluia os infantes. Mas Deus não anulou o pacto abraâmico. Pelo contrário, o pacto foi confirmado ainda mais, pois passou a incluir as nações gentílicas como “co-herdeiros da mesma promessas” (Ef 3:6) e, portanto, inclui também os infantes dentre os gentios (cf. I Co 7:14).

Os judeus incrédulos do primeiro século queriam a primeira parte da promessa, mas não a segunda. Eles gostavam de saber que Israel foi chamado por Deus, mas não queriam que as outras nações fossem chamadas da mesma maneira.Paulo perguntou: “É porventura Deus somente dos judeus? E não o é também dos gentios?” (Rom 3:29). Essa era a substância do pacto estabelecido com Abraão: “estabelecerei o meu pacto contigo e com a tua descendência depois de ti em suas gerações, como pacto perpétuo, para te ser por Deus a ti e à tua descendência depois de ti” (Gênesis 17:7). E se os gentios “co-herdeiros da mesma promessas” (Ef 3:6), conforme a promessa original de Gênesis 12 diz que seriam, isso significa que Deus o é também das nações gentílicas e de sua descendência. Mas os judaizantes respondiam: “Não, não o é também dos gentios. É somente dos judeus”. Por isso eles exigiam que os gentios, caso quisessem ser salvos, fossem naturalizados e “vivessem como judeus” (Gl 2:14).

A carta aos Gálatas foi escrita para refutar estes judeus que queriam negar o direito das nações gentílicas serem admitidas como co-herdeiras do pacto instituído com Abraão. A questão crucial da carta aos Gálatas, e de toda controversa em torno da circuncisão no Novo Testamento, é o seguinte: Deus estava ampliando o seu pacto para que também incluísse os gentios além dos judeus que já faziam parte? Em outras palavras, Deus cumpriria só a primeira parte da promessa, “E multiplicarei a tua descendência como as estrelas dos céus, e darei à tua descendência todas estas terras” (Gn 26:4; cf. 12:3), mas não cumpriria a segunda parte, “e por meio dela serão benditas todas as nações da terra” (Gn 26.4; cf. Gn 12:3)?

Se o Novo Pacto não é uma anulação do que foi anteriormente estabelecido, mas é o pacto, conforme Gênesis 12, sendo ampliado para que incluísse todos aqueles a quem o pacto foi originalmente prometido, isso significa que o mesmo que fora dito para Israel teria que ser verdade para os gentios, “para te ser por Deus a ti e à tua descendência depois de ti”. Como está escrito também:

Todos os limites da terra se lembrarão e se converterão ao Senhor, e diante dele adorarão todas as famílias das nações. (Salmo 22:27)

Tributai ao Senhor, ó famílias dos povos, tributai ao Senhor glória e força”. (Salmo 96:7)

É por isso que Paulo escreveu aos Gálatas:

Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo. Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus. E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, e herdeiros conforme a promessa”. (Gálatas 3:27-29)

Mediante a vinda de Jesus Cristo, Deus finalmente firmou Seu pacto com todos aqueles a quem a promessa foi originalmente feita, conforme Gênesis 12 (e textos paralelos) e não somente com aqueles com quem o pacto foi estabelecido em Gênesis 17. O batismo é o sinal e selo deste pacto. É por isso que o Apóstolo diz que agora “não há judeu nem grego” e também “não há macho nem fêmea. O pacto foi ampliado para que incluísse todos os herdeiros conforme a promessa. Por isso, diferente de Gênesis 17, além de incluir os gentios, inclui também as mulheres. Os gentios e as mulheres foram incluídos como pleno herdeiros da promessa e por isso devem ser batizados. Não há, portanto, uma mudança arbitrária. A mudança condiz com as promessas de Deus.

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Fonte: Resistir e Construir
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Quando os magos do oriente foram adorar a Cristo?

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Por Frank Brito


E, tendo nascido Jesus em Belém de Judéia, no tempo do rei Herodes, eis que uns magos vieram do oriente a Jerusalém, Dizendo: Onde está aquele que é nascido rei dos judeus? Porque vimos a sua estrela no oriente, e viemos a adorá-lo”. (Mateus 2:1-2)

A maioria das pessoas acreditam que os magos do Oriente se encontraram com Cristo enquanto ele ainda estava na manjedoura, tendo acabado de nascer. Essa ideia é perpetuada por quadros e presépios que mostram os magos do Oriente diante da sagrada família, na manjedoura. Mas esse cenário não condiz com a narrativa bíblica. O Evangelho segundo S. Mateus é muito claro que os magos se encontraram com o bebê Jesus, não mais quando estavam na manjedoura, mas em uma “casa” (Mt 2:11), o que aconteceu, provavelmente, cerca de dois anos depois de Cristo ter nascido.

Harmonizando os Evangelhos

Os Evangelhos segundo Mateus e Lucas são os únicos que entram em detalhes sobre as circunstâncias do nascimento de Cristo. Marcos já começa narrando Seu ministério público e o de João Batista. E o Evangelho de João, logo depois de falar sobre a Divindade de Cristo e Sua encarnação também pula direto para Seu ministério público e o de João Batista. Somente Mateus e Lucas narram as circunstâncias de Seu nascimento. Todavia, eles dão detalhes diferentes. Isso levou alguns críticos no decorrer da história a criticar a veracidade das duas narrativas, alegando que elas se contradizem. Mas quando analisamos cuidadosamente a informação que recebemos dos dois Evangelhos, fica claro que não há qualquer contradição nos fatos narrados, as duas narrativas se harmonizam perfeitamente.

Lucas começa seu Evangelho falando do anúncio do nascimento de João Batista pelo anjo Gabriel ao seu pai, enquanto este ministrava como sacerdote no templo (Lc 1:5-23), passa para o anúncio do nascimento de Cristo a Maria, também pelo anjo Gabriel (Lc 1:26-35) e depois fala sobre o nascimento dos dois (Lc 1:57-80; 2:1-40). Nada disso é narrado pelo Evangelho de Mateus. Como será demonstrado a seguir, todos os eventos narrados em Lucas 2:1-40, sobre o nascimento de Cristo, devem ser entendidos como uma explicação detalhada do que aconteceu em Mateus 1:25, antes de Mateus 2:1: “deu à luz seu filho, o primogênito; e pôs-lhe por nome Jesus” (Mt 1:25). E tudo o que é narrado no segundo capítulo de Mateus, começando pela chegada dos magos do Oriente, deve ser entendido como tendo acontecendo depois de Lucas 2:39, no decorrer do período descrito pelo verso 40: “E o menino crescia, e se fortalecia em espírito, cheio de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre ele”.

A visita dos magos e a fuga para o Egito

Quando os magos do Oriente chegam para visitar Jesus, ele já tinha nascido. “E, tendo nascido Jesus em Belém de Judéia, no tempo do rei Herodes, eis que uns magos vieram do oriente a Jerusalém, Dizendo: Onde está aquele que é nascido rei dos judeus? porque vimos a sua estrela no oriente, e viemos a adorá-lo”. (Mt 2:1-2) Aqui é importante observar que o texto diz somente que Cristo já tinha nascido, mas não diz há quanto tempo ele tinha nascido. Em nenhum momento é dito que tinha acabado de nascer. Pelo contrário, no decorrer do diálogo entre os magos e o rei Herodes, temos evidência de que Ele já tinha cerca de dois anos:

E o rei Herodes, ouvindo isto, perturbou-se, e toda Jerusalém com ele. E, congregados todos os príncipes dos sacerdotes, e os escribas do povo, perguntou-lhes onde havia de nascer o Cristo. E eles lhe disseram: Em Belém de Judéia; porque assim está escrito pelo profeta: E tu, Belém, terra de Judá, De modo nenhum és a menor entre as capitais de Judá; Porque de ti sairá o Guia Que há de apascentar o meu povo de Israel. Então Herodes, chamando secretamente os magos, inquiriu exatamente deles acerca do tempo em que a estrela lhes aparecera. (Mateus 2:3-7)

Aqui é muito importante observar que o rei Herodes queria saber exatamente quando a estrela apareceu. Ou seja, os magos receberam a revelação do nascimento de Cristo por meio de uma estrela e o rei Herodes queria saber quando eles tinham visto essa estrela para, com base nisso, calcular há quanto tempo Cristo havia nascido. Foi com base nisso que ele mandou matar as crianças:

Então Herodes, vendo que tinha sido iludido pelos magos, irritou-se muito, e mandou matar todos os meninos que havia em Belém, e em todos os seus contornos, de dois anos para baixo, segundo o tempo que diligentemente inquirira dos magos. (Mateus 2:16)

Se ele mandou matar as crianças de dois anos para baixo, com base no testemunho dos magos, isso indica que Cristo teria nascido dois anos antes e esse havia sido o tempo que eles demoraram para sair do Oriente e chegarem em Jerusalém, desde quando receberam a revelação. Não é dito exatamente de que lugar eles vieram do Oriente, mas existem grandes possibilidades de que eles vieram do Império Arsácida, que existia ao oriente do Império Romano, o que, sem dúvidas, teria sido uma viagem longa e difícil. Ou possivelmente, eles teriam vindo da Índia, o que seria uma viagem ainda mais longa. Não temos como saber ao certo de onde eles vierem, mas o fato de virem do Oriente indica que a distância teria sido, no mínimo, um importante fator para que a viagem fosse demorada.

Além disso, é importante observar um detalhe que é frequentemente apontado por críticos como uma contradição entre as duas narrativas. Segundo o Evangelho de Mateus, os magos encontraram com Cristo em uma “casa… com Maria sua mãe” (Mt 2:11) em Belém (v. 8). Depois disso, a família sagrada foi para o Egito, onde morou por um tempo: “E, levantando-se ele, tomou o menino e sua mãe, de noite, e foi para o Egito. E esteve lá, até à morte de Herodes”. (Mateus 2:13-15) Todavia, segundo o Evangelho de Lucas, depois do nascimento, circuncisão e apresentação de Cristo no templo, a família sagrada “voltou à Galiléia, para a sua cidade de Nazaré” (Lc 2:39). É dito que a família já morava lá (Lc 2:4), que eles somente foram até Belém por causa do alistamento (v. 2). Ou seja, eles moravam em Nazaré, foram até Belém, foram até Jerusalém para apresentar a criança e depois voltaram para Nazaré. Depois disso, não há maiores detalhes sobre outros lugares para onde eles teriam ido, mas, é dito que “todos os anos iam seus pais a Jerusalém à festa da páscoa” (Lc 2:41). Isso significa que, para os magos terem encontrado com Jesus em Belém, é preciso que, depois deles terem voltado para Nazaré, onde eles já moravam, eles teriam voltado novamente para Belém, cerca de dois anos depois. Dois anos é tempo suficiente para que, por algum motivo, eles tivessem ido a Belém de novo. Estando lá, eles se encontraram com os magos e, então, fugiram para o Egito. E o período em que permaneceram no Egito tem que necessariamente ter sido menos de um ano, para que houvesse tempo para que fosse possível que estivessem todos os anos em Jerusalém na festa da Páscoa. Sendo assim, eles teriam fugido para o Egito em algum momento logo depois da festa da Páscoa e teriam voltado em algum momento antes da festa da Páscoa do ano seguinte. Desta maneira, as duas narrativas se harmonizam perfeitamente, sem qualquer contradição. Então, para resumir:

1. O anjo visita Maria e ela concebe do Espírito Santo (Mateus 1:18; Lucas 1:27-28).

2. Maria imediatamente vai visitar Isabel, sua prima e fica por três meses (Lucas 1:39-56).

3. José, em algum momento destes três meses, enquanto Maria estava na casa de Isabel, decide abandonar Maria, sendo impedido pelo anjo (Mateus 1:19-24).

4. João Batista nasce e é circuncidado (Lucas 1:57-79).

5. José se casa com Maria em algum momento depois dela voltar da casa de Isabel (Mateus 1:24).

6. José e Maria saem de Nazaré e vão até Belém por conta do alistamento (Lucas 2:1-5).

7. Enquanto eles estavam em Belém, Jesus nasceu na manjedoura, por não haver lugar para eles na estalagem, provavelmente pela grande quantidade de pessoas que lá havia para o alistamento (Lucas 2:6-20).

8. Eles saem de Belém, depois que nasceu, e vão até Jerusalém para apresentar Jesus no templo (Lucas 2:22-38).

9. Eles voltam para Nazaré e continuam a morar lá (Lucas 2:39).

10. Em algum momento, até dois anos depois, eles voltam para Belém (Mateus 2:8-11).

11. Estando eles em Belém, os magos do Oriente chegam em Jerusalém e se encontram com o rei Herodes para perguntar sobre o Seu nascimento (Mateus 2:1-2).

12. O rei Herodes envia os magos até Belém (Mateus 2:8).

13. Os magos, guiados novamente pela estrela, chegam até uma casa onde estava Maria com o bebê Jesus, onde eles prestam culto a Cristo e o presenteiam com “tesouros” de “ouro, incenso e mirra”. (Mateus 2:9-11)

14. Os magos voltam para o Oriente, por conta de uma revelação de Deus (Mateus 2:12).

15. José recebe uma revelação em sonho, para que fugisse ao Egito, o que eles fazem imediatamente (Mateus 2:13-14).

16. O rei Herodes manda matar todas as crianças de dois anos para baixo que havia em Belém (Mateus 2:16).

17. A sagrada família permaneceu no Egito, por menos de um ano, até a morte do rei Herodes (Mateus 2:15,22).

18. A família voltou para Nazaré (Mateus 2:22,23).

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Fonte: Resistir e Construir
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É pecado jurar?

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Por Frank Brito


Outrossim, ouvistes que foi dito aos antigos: Não perjurarás, mas cumprirás os teus juramentos ao Senhor. Eu, porém, vos digo que de maneira nenhuma jureis; nem pelo céu, porque é o trono de Deus; Nem pela terra, porque é o escabelo de seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei; Nem jurarás pela tua cabeça, porque não podes tornar um cabelo branco ou preto. Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; Não, não; porque o que passa disto é de procedência maligna”. (Mateus 5:33-37)

Alguns cristãos acreditam, com base nestas palavras de Cristo, que todo juramento é pecado e que não podemos jurar em quaisquer circunstâncias. Todavia, uma análise cuidadosa do que Cristo disse demonstra que esta interpretação é errada e que, em vez de proibir toda forma de juramento, Cristo, na verdade, ordenou e exigiu os juramentos lícitos, em conformidade com o terceiro mandamento da Lei de Deus, “Não tomarás o nome do SENHOR teu Deus em vão”.

Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas

No princípio de Seu sermão, o Senhor deixou muito claro que em nenhuma parte de Seu sermão Ele estaria ab-rogando a Lei ou os Profetas: “Não cuideis que vim destruir a Lei ou os Profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir… Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus. Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” (Mt 5:20). No Sermão do Monte, então, Cristo não ab-rogou os mandamentos anteriormente dados por Seu Pai, mas os confirmou e defendeu contra a corrupção dos escribas e fariseus. Como Ele falou em outra ocasião contra os escribas e fariseus: “Por que transgredis vós, também, o mandamento de Deus pela vossa tradição? (…) Invalidastes, pela vossa tradição, o mandamento de Deus” (Mt 15:6). Sendo assim, os comentários de Cristo no decorrer do sermão precisam ser entendidos como esclarecimentos sobre o verdadeiro sentido dos mandamentos contra a má interpretação dos escribas e fariseus, pois “querendo ser mestres da Lei, não entendendo nem o que dizem nem o que afirmam” (I Tm 1:7).

O templo e o ouro do templo

No vigésimo terceiro capítulo do Evangelho de S. Mateus, lemos sobre o último confronto público entre Cristo e os escribas e fariseus. No decorrer deste capítulo, Jesus, diante de uma “multidão” (v. 1), chama os escribas e fariseus de “hipócritas” sete vezes (v. 13, 14, 15, 23, 25, 27, 29), além de “condutores cegos” (v. 16), “insensatos” (v. 17), “serpentes” e “raças de víboras” (v. 33). Cada vez, Ele fazia alguma crítica por algum mandamento de Deus que eles violavam e distorciam. Algumas das críticas que Jesus faz nesse capítulo são parecidas com as que Ele faz no Sermão do Monte, como em relação ao juramento:

Ai de vós, condutores cegos! pois que dizeis: Qualquer que jurar pelo templo, isso nada é; mas o que jurar pelo ouro do templo, esse é devedor. Insensatos e cegos! Pois qual é maior: o ouro, ou o templo, que santifica o ouro? E aquele que jurar pelo altar isso nada é; mas aquele que jurar pela oferta que está sobre o altar, esse é devedor. Insensatos e cegos! Pois qual é maior: a oferta, ou o altar, que santifica a oferta?” (Mateus 23:16-19)

Aqui nós vemos que os escribas e fariseus, provavelmente com base em tradições anteriores que recebiam dos antigos (Mt 15:6), haviam desenvolvido um sistema de juramentos em que se um juramento fosse feito de determinadas maneiras, ele não precisava ser considerado como válido e obrigatório. Se alguém dissesse, “eu juro pelo ouro do templo de Jerusalém”, havia a obrigação de cumprir o juramento, mas se dissesse, “eu juro pelo templo de Jerusalém”, o juramento poderia ser quebrado de consciência limpa. Nós temos algo parecido em nossa própria cultura. Fazer uma promessa de dedos cruzados significa que não existe a obrigação de cumprir a promessa. A diferença é que, em nosso caso, isso é normalmente feito em forma de brincadeira. No caso dos escribas e fariseus, havia um jogo de palavras que era levado a sério como forma de anular juramentos. Cristo os criticou duramente por isso e mostrou que o sistema deles era internamente contraditório. Se o templo era mais importante do que o ouro do templo, como um juramento pelo templo poderia ser considerado inválido enquanto um juramento pelo ouro do templo seria válido? “Insensatos e cegos! Pois qual é maior: o ouro, ou o templo, que santifica o ouro?” (v. 17)

Além disso, é importante observar que os eventos narrados em Mateus 23 aconteceram no templo (Mt 24:1). Por que isso é importante? Porque no último livro do Antigo Testamento, o livro do Profeta Malaquias, nós encontramos uma profecia sobre esta chegada de Cristo ao templo:

Eis que eu envio o meu mensageiro, que preparará o caminho diante de mim; e de repente virá ao seu templo o Senhor, a quem vós buscais; o Mensageiro do pacto, a quem vós desejais, eis que ele vem, diz o SENHOR dos Exércitos. Mas quem suportará o dia da sua vinda? E quem subsistirá, quando ele aparecer? Porque ele será como o fogo do ourives e como o sabão dos lavandeiros (…) E chegar-me-ei a vós para juízo; e serei uma testemunha veloz contra os feiticeiros, contra os adúlteros, contra os que juram falsamente, contra os que defraudam o diarista em seu salário, e a viúva, e o órfão, e que pervertem o direito do estrangeiro, e não me temem, diz o SENHOR dos Exércitos”. (Malaquias 3:1-2, 5)

O “mensageiro, que prepará o caminho diante de mim” (v. 1) foi João Batista, como o Evangelho de Marcos deixa claro:

Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus; Como está escrito nos profetas: Eis que eu envio o meu mensageiro ante a tua face, o qual preparará o teu caminho diante de ti. Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, Endireitai as suas veredas. Apareceu João batizando no deserto, e pregando o batismo de arrependimento, para remissão dos pecados”. (Marcos 1:1-4)

E o segundo “mensageiro” mencionado por Malaquias, “o Mensageiro do pacto” (v. 1) foi o próprio Senhor, que de repente veio ao templo, para declarar juízo de Deus:

E entrou Jesus no templo de Deus, e expulsou todos os que vendiam e compravam no templo, e derribou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas; E disse-lhes: Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração; mas vós a tendes convertido em covil de ladrões”. (Mateus 21:12-13)

E como o profeta Malaquias havia predito, Jesus Cristo, o Mensageiro do pacto, foi uma testemunha veloz “contra os que profetizam falsamente” (v. 5).

O que isso tudo mostra é que Cristo não era contra os juramentos legítimos, mas somente contra os falsos, como os escribas e fariseus, “condutores cegos” (Mt 23:16), ensinavam. Pelo contrário, a crítica de Cristo contra o sistema de falsos juramentos era justamente porque Ele ama e requer o juramento genuínos e sinceros!

Sim, sim; não, não

Com base nisso, podemos entender melhor do que Cristo está falando no Sermão do Monte. Quando Cristo diz, “nem pelo céu… nem pela terra… nem por Jerusalém… nem jurarás pela tua cabeça” (Mt 5:34-35), Ele não está falando de juramentos que eram lícitos no Antigo Testamento, mas que agora, na nova dispensação, Ele estava proibindo. Como já foi demonstrado, os comentários de Cristo no decorrer do Sermão do Monte precisam ser entendidos como esclarecimentos sobre o verdadeiro sentido dos mandamentos contra a má interpretação dos escribas e fariseus, exatamente como Ele fez no templo em Mateus 23. Pelo céu, pela terra, por Jerusalém, pela própria cabeça, eram as formas ilícitas de juramento que os escribas e fariseus praticavam e ensinavam, não formas de juramento que Deus havia ordenado. Cristo não estava combatendo os mandamentos de Deus sobre o juramento, mas a corrupção dos escribas e fariseus. Assim como em Mateus 23, o que Ele condenou no Sermão do Monte eram estas formas de ilícitas de juramento que os escribas e fariseus haviam desenvolvido com base na tradição dos antigos.

Eu, porém, vos digo que de maneira nenhuma jureis” (Mt 5:34), então, não trata-se uma proibição absoluta contra todo e qualquer juramento, mas somente com os tipos de juramentos que Ele lista logo em seguida, pelo céu, pela terra, por Jerusalém, pela própria cabeça, etc. Como Mateus 23 mostra, essas formas de juramentos faziam parte de um sistema de falsos juramentos desenvolvido pelos escribas e fariseus. A Lei de Deus nunca mandou jurar por qualquer uma dessas coisas, mas somente pelo nome do próprio Deus:

O SENHOR teu Deus temerás e a ele servirás, e pelo seu nome jurarás”. (Dt 6:13)
Não furtareis, nem mentireis, nem usareis de falsidade cada um com o seu próximo; nem jurareis falso pelo meu nome, pois profanarás o nome do teu Deus. Eu sou o SENHOR”. (Levítico 19:11-12)

Como ensina o Catecismo de Heidelberg:

102. Podemos jurar também pelos santos ou por outras criaturas?
R. Não, porque o juramento legítimo é uma invocação a Deus, para que Ele, o único que conhece os corações, testemunhe a verdade e nos castigue, se jurarmos falsamente. (1) Tal honra não pertence a criatura alguma (2).
(1) Rm 9:1; 2Co 1:23. (2) Mt 5:34-36; Tg 5:12.

A Lei de Deus manda jurar pelo nome de Deus e proíbe de jurar falsamente pelo nome dEle. Os escribas e fariseus, então, para não ter que jurar falsamente pelo nome de Deus, juravam por outras coisas. Mas com isso eles acabavam pecando duplamente. Primeiro, porque a Lei de Deus não autoriza qualquer outra forma de juramento, somente no nome de Deus. Segundo porque, o mesmo lugar que proíbe o falso juramento diz também, “nem mentireis, nem usareis de falsidade cada um com o seu próximo”, que é o que eles faziam com estes juramentos alternativos que eles inventavam. Então, eles não usavam o nome de Deus para evitar pecar em uma coisa, mas acabavam duplicando a culpa, se enforcando com a própria corda.

Além disso, é importante entender que Cristo não disse que “sim” e “não” sejam as únicas palavras que podemos usar em nosso vocabulário. O que ele disse é que o nosso falar deve ser “Sim, Sim; Não, não”. O que isso significa não é que só podemos usar essas palavras, mas que nosso linguajar, especialmente nossos juramentos, devem ser verdadeiros. Os falsos juramentos, sendo falsos, não eram “Sim, sim; Não, não”, mas eram dúbios, sem clareza, mentirosos. O verdadeiro juramento deve ser “Sim, Sim; Não, não” porque ele deve ser prestado, como ensina a Confissão de Westminster, “conforme o sentido claro e óbvio das palavras, sem equívoco ou restrição mental (CFW 22:4). Por isso, Paulo escreveu aos Coríntios:

Porque o Filho de Deus, Jesus Cristo, que entre vós foi pregado por nós, isto é, por mim, Silvano e Timóteo, não foi sim e não; mas nele houve sim. Porque todas quantas promessas há de Deus, são nele sim, e por ele o Amém, para glória de Deus por nós. Mas o que nos confirma convosco em Cristo, e o que nos ungiu, é Deus, O qual também nos selou e deu o penhor do Espírito em nossos corações”. (II Coríntios 1:19-22)

Aqui é importante observar que Paulo está falando das promessas de Deus. É o conceito de juramento. Deus nos fez promessas por juramento, como Paulo explicou em Sua carta aos Hebreus:

Pois os homens juram por aquele que é maior do que eles, e o juramento para confirmação é, para eles, o fim de toda contenda. Assim, querendo Deus mostrar mais abundantemente aos herdeiros da promessa a imutabilidade do seu conselho, se interpôs com juramento; para que por duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta, tenhamos poderosa consolação, nós, os que nos refugiamos em lançar mão da esperança proposta; a qual temos como âncora da alma, segura e firme, e que penetra até o interior do véu; aonde Jesus, como precursor, entrou por nós, feito sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque”. (Hebreus 6:16-20)

É por isso que, aos Coríntios, Paulo escreveu que “o Filho de Deus, Jesus Cristo, que entre vós foi pregado por nós, isto é, por mim, Silvano e Timóteo, não foi sim e não; mas nele houve sim” (I Co 1:19). “Sim e não” seria uma promessa e juramento duvidosa, como juravam os escribas e fariseus. O verdadeiro juramento, como o que o próprio Deus presta, é segundo “a imutabilidade do seu conselho” (Hb 6:17), pois “é impossível que Deus minta” (Hb 6:18) e por isso, “não foi sim e não; mas nele houve sim” (I Co 1:19). É exatamente sobre isso que que Cristo fala no Sermão do Monte, “Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; não, não” (Mt 5:37). Se é sim, é sim. Se é não é não. O que passar disso, “sim e não”, é dubiedade e, portanto, “vem do Maligno” (Mt 5:37).

Toda língua jurará

Segundo o profeta Isaías, uma das característica dos que são salvos por Deus é que eles juram, em verdade, pelo nome de Deus:

Olhai para mim, e sereis salvos, vós, todos os termos da terra; porque eu sou Deus, e não há outro. Por mim mesmo tenho jurado, já saiu da minha boca a palavra de justiça, e não tornará atrás; que diante de mim se dobrará todo o joelho, e por mim jurará toda a língua. (Isaías 45:22-23)
Assim que aquele que se bendisser na terra, se bendirá no Deus da verdade; e aquele que jurar na terra, jurará pelo Deus da verdade; porque já estão esquecidas as angústias passadas, e estão escondidas dos meus olhos”. (Isaías 65:16)

Este verso de Isaías 45 é citado duas vezes pelo Apóstolo Paulo no Novo Testamento:

Porque está escrito: Como eu vivo, diz o Senhor, que todo o joelho se dobrará a mim, E toda a língua confessará a Deus. (Romanos 14:11)
E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz. Por isso, também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome; para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, e toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai”. (Filipenses 2:8-11)

Aqui nós vemos que “confessar a Deus” ou “confessar que Jesus Cristo é o Senhor” é tratado por Paulo como sendo equivalente ao juramento por Deus. Em outras palavras, “confessar que Jesus Cristo é o Senhor” significa é uma promessa feita, sob juramento, de ser Seu servo, tendo-O como Senhor. Sendo assim, se todo juramento fosse proibido no Novo Testamento, Paulo não poderia aplicar o princípio de Isaías 45 ao que acontece na conversão do homem ao Evangelho.

O juramento, então, longe de ser proibido pelo Novo Testamento, é reafirmado, em Seu sentido original, contrário a corrupção dos escribas e fariseus. Como diz o Salmo:

Do SENHOR é a terra e a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam. Porque ele a fundou sobre os mares, e a firmou sobre os rios. Quem subirá ao monte do SENHOR, ou quem estará no seu lugar santo? Aquele que é limpo de mãos e puro de coração, que não entrega a sua alma à vaidade, nem jura enganosamente. Este receberá a bênção do SENHOR e a justiça do Deus da sua salvação”. (Sl 24:1-5)

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Fonte: Resistir e Construir
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O quinto mandamento e a desigualdade econômica

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Por Frank Brito


Honra a teu pai e a tua mãe”. (Êxodo 20:12)

O homem de bem deixa uma herança aos filhos de seus filhos, mas a riqueza do pecador é depositada para o justo”. (Provérbios 13:22)

“… porque não devem os filhos entesourar para os pais, mas os pais para os filhos”. (II Coríntios 12:14)

Por que políticos socialistas costumam ser hostis à estrutura familiar cristã tradicional? Um dentre muitos motivos é que a estrutura familiar inevitavelmente estabelece e perpetua a desigualdade econômica. Não há como haver igualdade econômica e, ao mesmo tempo, haver a família cristã. As duas coisas são, por natureza, opostas. Manipuladores socialistas já entenderam isso bem. Infelizmente, muitos cristãos, alvos dos manipuladores, continuam a acreditar que a igualdade econômica seja algo de alguma forma desejável ou virtuoso.

Como o Catecismo Maior de Westminster corretamente identifica, “o alcance geral do quinto mandamento é o cumprimento dos deveres que mutuamente temos uns para com os outros em nossas diversas relações como inferiores, superiores ou iguais” (CMW, P. 126). Em outras palavras, o quinto mandamento da Lei de Deus, “Honra a teu pai e a tua mãe”, rege as relações entre pais e filhos, o que inclui não somente as obrigações e responsabilidades dos filhos em relação aos pais, mas também as obrigações e responsabilidades dos pais em relação aos filhos, como S. Paulo deixa claro quando comentou esse mandamento:

Vós, filhos, sede obedientes a vossos pais no Senhor, porque isto é justo. Honra a teu pai e a tua mãe (que é o primeiro mandamento com promessa), para que te vá bem, e sejas de longa vida sobre a terra. E vós, pais, não provoqueis à ira vossos filhos, mas criai-os na disciplina e admoestação do Senhor”. (Efésios 6:1-4)

Ou seja, os filhos têm determinadas obrigações e responsabilidades em relação aos seus pais pelo fato de serem seus pais. Da mesma forma, os pais têm determinadas obrigações e responsabilidades em relação aos seus filhos pelo fato de serem seus filhos. São obrigações e responsabilidades derivadas da estrutura familiar que não existiriam se não houvessem esses laços familiares. Então, vamos supor que você tenha uma filha de dois anos e o seu vizinho tem uma filha de três. Quem é responsável por determinar o que sua filha vai comer? É você ou o seu vizinho? E a filha dele, é você quem tem que dizer a hora que ela vai dormir? Ou seja, a relação que existe entre você e sua filha determina as obrigações e responsabilidades que você tem em relação a ela que não existiriam caso ela não fosse sua filha.

Dentre as responsabilidades dos pais em relação os filhos está a obrigação de sustentá-los economicamente, pelo menos enquanto são incapazes de ganhar o próprio sustento. Quando os pais envelhecem e não podem mais sustentar a si mesmos, os filhos passam a ter essa obrigação em relação aos pais (Mt 15:4-6). “Mas, se alguém não tem cuidado… dos da sua família, negou a fé, e é pior do que o infiel” (I Tm 5:8). Novamente, são obrigações e responsabilidades derivadas da estrutura familiar que não existiriam se não houvessem esses laços familiares. Como Paulo escreve à Timóteo: “Se algum crente ou alguma crente tem viúvas, socorra-as, e não se sobrecarregue a igreja, para que se possam sustentar as que deveras são viúvas” (I Tm 5:16). Ou seja, a responsabilidade de sustentar uma mãe viúva é primeiro do próprio filho e família e só depois da Igreja. A relação filial estabelece um nível de responsabilidade que outros não tem pelo mero fato de que os outros não são seus filhos.

Isso significa que, no contexto da família, os pais devem amar e, consequentemente, favorecer seus filhos mais do que as crianças que não são seus filhos. Da mesma forma, um marido deve amar sua esposa mais do que qualquer outra mulher. Mais do que isso, há um tipo específico de amor e favor que o marido só pode ter em relação a sua própria esposa e não pode ter por mais nenhuma outra mulher. E nisso está incluído a relação econômica. Um homem tem a obrigação de sustentar todas as mulheres igualmente? Ou ele tem uma obrigação especial em relação a sua própria esposa pelo mero fato de ser sua esposa? Da mesma forma, ele tem uma obrigação especial de sustentar e favorecer economicamente os seus próprios filhos de uma maneira que ele não tem com os filhos do vizinho.

Daí se deriva o direito à herança, ou seja, à transferência inter-geracional de propriedade. S. Paulo diz que “não devem os filhos entesourar para os pais, mas os pais para os filhos” (II Co 12:14). Aqui há uma responsabilidade dos pais em relação aos filhos, mas que não existe dos filhos em relação aos pais. Ou seja, é uma responsabilidade derivada exclusivamente da paternidade. Os filhos têm direito à herança de seus pais porque estes são seus pais e, portanto, se estes não fossem seus pais, o direito não existiria. Se João é filho de Carlos e Filipe não é, João tem o direito de ser economicamente favorecido pela herança de Carlos de uma maneira que Filipe não tem. Como diz Provérbios, é virtuoso um homem deixar herança para seus filhos.

Estes princípios, por si só, estabelecem a desigualdade econômica na sociedade. Se um homem tem uma obrigação maior de favorecer sua própria esposa e seus próprios filhos economicamente, isso significa que ele, obviamente, não deve favorecer a todos igualmente. Esse tipo de igualdade seria, antes de mais nada, desonrar terrivelmente a sua esposa, ao tratá-la como todas as outras mulheres, inclusive tendo as mesmas obrigações em relação a qualquer prostituta. O amor que ele deve à sua própria esposa tem que estar acima ao amor por qualquer outra mulher. Além disso, o direito de seus filhos à herança significa que se ele trabalhou mais e ganhou mais do que o seu vizinho, os seus filhos têm o direito de herdar e usufruir de mais do que os filhos de seu vizinho. O direito de seus filhos à herança significa que, pela mera relação filial, seus filhos tem direitos de ser mais beneficiados economicamente pelos pais. Mais do que isso, porque os pais têm a obrigação de favorecer seus filhos economicamente mais do que os outros filhos, se os seus pais trabalham mais e e ganham mais, os filhos têm o direito moral, derivado dessa relação familiar, de já começar a vida sendo mais beneficiado economicamente do que os filhos daqueles que trabalharam menos e ganharam menos. E se cada geração for como o homem de bem de Provérbios 13:22, a tendência é que, em cada geração, o capital só irá aumentar, com cada filho dando continuidade ao capital pelo qual ele próprio não trabalhou, mas que, por direito, herdou de seus pais.

No Brasil, existe a tendência de tratar com desdém o dinheiro e os bens que alguém tem sem que tenha trabalhado por si mesmo, mas que tenha simplesmente recebido por herança e benefício de seus pais. A verdade é que essa é uma mentalidade pecaminosa. O direito à herança é parte da essência da própria estrutura familiar, é parte da obrigação dos pais de favorecerem os próprios filhos economicamente. Os filhos têm direito à herança porque são filhos e desprezar o uso desse direito é desprezar a própria estrutura familiar, como se de alguma forma o dinheiro e os bens herdados fossem ilegítimos, como se de alguma forma não fosse verdade que “o homem de bem deixa uma herança aos filhos” (Pv 13:22) ou que “os pais devem entesourar para os filhos” (II Co 12:14).

É por isso que não há como haver igualdade econômica e, ao mesmo tempo, haver a família cristã e é por isso que o socialismo é hostil à estrutura familiar cristã tradicional e trabalha para subvertê-la. A estrutura familiar estabelece obrigações e responsabilidades econômicas, nas quais cada membro da família é obrigado a favorecer a própria família economicamente de maneira diferenciada de todas as demais famílias. “Os pais devem entesourar para os filhos” (II Co 12:14), os maridos devem favorecer as esposas acima de todas as mulheres (Ef 5:23-33) e os filhos são os maiores responsáveis pelo sustento dos pais na velhice (Mt 15:4-6; I Tm 5:8). E se cada membro da família deve favorecer os próprios membros, antes de favorecer os outros, segue-se, obviamente, que ele estará tratando os outros de maneira desigual. Sendo assim, a igualdade econômica entre todos não será uma possibilidade.

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Fonte: Resistir e Construir
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Se o domingo é o “dia do Senhor” (Ap 1.10), como entender Romanos 14?

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Ora, ao que é fraco na fé, acolhei-o, mas não para condenar-lhe os escrúpulos. Um crê que de tudo se pode comer, e outro, que é fraco, come só legumes. Quem come não despreze a quem não come; e quem não come não julgue a quem come; pois Deus o acolheu. Quem és tu, que julgas o servo alheio? Para seu próprio senhor ele está em pé ou cai; mas estará firme, porque poderoso é o Senhor para o firmar. Um faz diferença entre dia e dia, mas outro julga iguais todos os dias. Cada um esteja inteiramente convicto em sua própria mente. Aquele que faz caso do dia, para o Senhor o faz. E quem come, para o Senhor come, porque dá graças a Deus; e quem não come, para o Senhor não come, e dá graças a Deus”. (Romanos 14:1-6)

Quem está sem pecado, atire a primeira pedra

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Por Frank Brito


Então os escribas e fariseus trouxeram-lhe uma mulher apanhada em adultério; e pondo-a no meio, disseram-lhe: Mestre, esta mulher foi apanhada em flagrante adultério. Ora, Moisés nos ordena na Lei que as tais sejam apedrejadas. Tu, pois, que dizes?” (João 8:3-5)

Desde o início do ministério público, um dos maiores desejos dos escribas e dos fariseus era provar que Cristo era um inimigo da Lei de Deus dada por meio de Moisés. Havia razões importantes para isso. Primeiro, Cristo havia feito exatamente mesma acusação contra eles no Sermão do Monte, logo no início de Seu ministério público:

Não penseis que vim destruir a Lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará da Lei um só i ou um só til, até que tudo seja cumprido. Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus. Pois eu vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus”. (Mateus 5:17-20)

Os escribas e fariseus eram reconhecidos em Israel como os grandes mestres da Lei. Cristo passou todo o Seu ministério público derrubando esse mito:

Então chegaram a Jesus uns fariseus e escribas vindos de Jerusalém, e lhe perguntaram: Por que transgridem os teus discípulos a tradição dos anciãos? pois não lavam as mãos, quando comem. Ele, porém, respondendo, disse-lhes: E vós, por que transgredis o mandamento de Deus por causa da vossa tradição? [...] E assim por causa da vossa tradição invalidastes a palavra de Deus. Hipócritas! bem profetizou Isaias a vosso respeito, dizendo: Este povo honra-me com os lábios; o seu coração, porém, está longe de mim. Mas em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homem”. (Mateus 15:1-3,6-9)

Ai de vós, doutores da Lei! Porque tirastes a chave do conhecimento; vós mesmos não entrastes, e impedistes aos que entravam”. (Lucas 11:52)

Não vos deu Moisés a Lei? No entanto nenhum de vós cumpre a Lei” (João 7:19)

O que Cristo continuamente demonstrou foi que os escribas e fariseus eram os grandes deturpadores e transgressores, não mestres, da Lei dada por Moisés. Desta maneira, se cumpriu na vida de Cristo o que está escrito no livro dos Salmos: “Os soberbos zombaram grandemente de mim; contudo não me desviei da tua Lei. Lembro-me dos teus juízos antigos, ó Senhor, e assim me consolo. Grande indignação apoderou-se de mim, por causa dos ímpios que abandonam a tua Lei” (Sl 119:51-53). Jesus, não eles, guardavam a Lei dada por Moisés. Sua doutrina era diferente do que eles ensinavam porque Ele somente era fiel aos mandamentos de Seu Pai. As multidões perceberam essa diferença já no Sermão do Monte: “Ao concluir Jesus este discurso, as multidões se maravilhavam da sua doutrina; porque as ensinava como tendo autoridade, e não como os escribas” (Mt 7:28-29).

Para aqueles que conheciam e criam no Antigo Testamento, a fidelidade de Cristo aos mandamentos de Deus não foi nenhuma surpresa ou novidade. Jesus é o Messias prometido. Segundo os antigos profetas, quando o Messias viesse, Ele confirmaria e estabeleceria a Lei como padrão de justiça para todos os povos:

Acontecerá nos últimos dias que se firmará o monte da casa do Senhor, será estabelecido como o mais alto dos montes e se elevará por cima dos outeiros; e concorrerão a ele todas as nações. Irão muitos povos, e dirão: Vinde, e subamos ao monte do Senhor, à casa do Deus de Jacó, para que nos ensine os seus caminhos, e andemos nas suas veredas; porque de Sião sairá a Lei, e de Jerusalém a Palavra do Senhor. E Ele julgará entre as nações, e repreenderá a muitos povos; e estes converterão as suas espadas em relhas de arado, e as suas lanças em foices; uma nação não levantará espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerra”. (Isaías 2:2-4)

Eis aqui o meu servo, a quem sustenho; o meu escolhido, em quem se compraz a minha alma; pus o meu Espírito sobre ele. Ele trará justiça às nações. Não clamará, não se exaltará, nem fará ouvir a sua voz na rua. A cana trilhada, não a quebrará, nem apagará o pavio que fumega; em verdade trará a justiça; não faltará nem será quebrantado, até que ponha na terra a justiça; e as ilhas aguardarão a sua Lei. Assim diz Deus, o Senhor, que criou os céus e os desenrolou, e estendeu a terra e o que dela procede; que dá a respiração ao povo que nela está, e o espírito aos que andam nela. Eu o Senhor te chamei em justiça; tomei-te pela mão, e te guardei; e te dei por pacto ao povo, e para luz das nações”. (Isaías 42:1-6)

Atendei-me, povo meu, e nação minha, inclinai os ouvidos para mim; porque de mim sairá a Lei, estabelecerei a minha justiça como luz dos povos. Perto está a minha justiça, vem saindo a minha salvação, e os meus braços governarão os povos; as ilhas me aguardam, e no meu braço esperam. Levantai os vossos olhos para os céus e olhai para a terra em baixo; porque os céus desaparecerão como a fumaça, e a terra se envelhecerá como um vestido; e os seus moradores morrerão semelhantemente; a minha salvação, porém, durará para sempre, e a minha justiça não será abolida. Ouvi-me, vós que conheceis a justiça, vós, povo, em cujo coração está a minha Lei; não temais o opróbrio dos homens, nem vos turbeis pelas suas injúrias”. (Isaías 51:4-7)

É por isso que no Sermão do Monte Cristo confirmou, defendeu e explicou a Lei. Como o verdadeiro Messias, Ele veio cumprir os profetas. E, como era o caso do profeta de Isaías, ele também lutava contra aqueles que substituíam a Lei de Deus por “doutrinas que são preceitos de homem.” (Mt 15:9; Is 29:13). Uma maneira de entender a relação entre Cristo e os escribas e fariseus em Israel é da seguinte maneira: um estelionatário, com um diploma falso, se passa por médico e engana leigos até que um médico de verdade o desmascara dentro de alguns minutos, demonstrando que o estelionatário é na verdade um grande ignorante sobre os princípios mais rudimentares da medicina. Foi basicamente isso que Jesus fez contra os escribas e fariseus. Desmascarou falsos doutores da Lei. Como diz Provérbios: “Os que abandonam a Lei louvam os ímpios; mas os que guardam a Lei pelejam contra eles” (Pv 28:4). Tendo sido desmascarados, os escribas e fariseus passaram a viver obcecados com duas ideias fixas: arrumar meios de matar Jesus e formular perguntas capciosas para demonstrar que Cristo era um falso mestre e falso profeta e, portanto, não poderia ser o Messias:

Então chegaram a ele os fariseus e os saduceus e, para o experimentarem, pediram-lhe que lhes mostrasse algum sinal do céu”. (Mateus 16:1)

Aproximaram-se dele alguns fariseus que o experimentavam, dizendo: É lícito ao homem repudiar sua mulher por qualquer motivo?” (Mateus 19:3)

E eis que se levantou certo doutor da Lei e, para o experimentar, disse: Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” (Luk 10:25)

Ai de vós, doutores da Lei! Porque tirastes a chave da ciência; vós mesmos não entrastes, e impedistes aos que entravam. Ao sair ele dali, começaram os escribas e os fariseus a apertá-lo fortemente, e a interrogá-lo acerca de muitas coisas, armando-lhe ciladas, a fim de o apanharem em alguma coisa que dissesse”. (Lucas 11:52-54)

Foi isso que eles tentaram fazer quando levaram a mulher adúltera até Ele:

Disseram-lhe: Mestre, esta mulher foi apanhada em flagrante adultério. Ora, Moisés nos ordena na Lei que as tais sejam apedrejadas. Tu, pois, que dizes? Isto diziam eles, tentando-o, para terem de que o acusar. Jesus, porém, inclinando-se, começou a escrever no chão com o dedo”. (João 8:4-6)

Jesus defenderia a Lei ou não? Infelizmente, muitos cristãos modernos caem na cilada deles. Não por serem tentados nas mesmas circunstâncias Cristo foi, mas porque acreditam que Ele de fato contrariou e quebrou a Lei. Entendem que se Cristo tivesse observado a Lei, aquela mulher teria sido executada. O que percebem é que, ao dizer isso, estão se colocando ao lado dos escribas e fariseus. “Isto diziam eles, tentando-o, para terem de que o acusar”. Se a acusação fosse verdadeira, os escribas e fariseus seriam justificados em denunciar Jesus como um falso mestre. Se a acusação fosse verdadeira, Jesus seria simplesmente mais um falso Messias. Mas essa conclusão parte de ignorância da Lei. Para aqueles que de fato conhecem os detalhes da Lei e de sua aplicação, não há dúvidas de que a acusação dos escribas e fariseus era falsa. Há três coisas especialmente importantes que precisamos entender sobre o caso.

1) O adultério era crime segundo a Lei.

Assim como matar ou roubar são crimes no Brasil, o adultério era crime segundo a Lei de Moisés. Alias, o adultério também era crime no Brasil até 2005. No caso da Lei de Moisés, a pena era a morte:

O homem que adulterar com a mulher de outro, sim, aquele que adulterar com a mulher do seu próximo, certamente será morto, tanto o adúltero, como a adúltera”. (Levítico 20:10)

Se um homem for encontrado deitado com mulher que tenha marido, morrerão ambos, o homem que se tiver deitado com a mulher, e a mulher. Assim exterminarás o mal de Israel”. (Deuteronômio 22:22)

É importante observar nestes textos que a pena deveria ser aplicada tanto no homem quanto na mulher: “morrerão ambos, o homem que se tiver deitado com a mulher, e a mulher”. Os escribas e fariseus disseram ter encontrado aquela mulher “em flagrante adultério” (Jo 8:4). Onde estava o homem que adulterava com ela? Por que somente a mulher adúltera foi levada até Jesus? Isso era transgredir a Lei.

2) Era necessário haver duas testemunhas do crime para que alguém recebesse pena capital.

Uma só testemunha não se levantará contra alguém por qualquer iniquidade, ou por qualquer pecado, seja qual for o pecado cometido; pela boca de duas ou de três testemunhas se estabelecerá o fato”. (Deuteronômio 19:15)

Para que alguém fosse condenado à morte, pelo menos duas testemunhas do crime precisavam se apresentar. Sem isso, ninguém poderia receber pena capital.

3) O crime deveria ser julgado e investigado por magistrados legalmente instituídos.

Juízes e oficiais porás em todas as tuas cidades que o Senhor teu Deus te dá, segundo as tuas tribos, para que julguem o povo com justiça. Não torcerás o juízo; não farás acepção de pessoas, nem receberás peitas; porque a peita cega os olhos dos sábios, e perverte a causa dos justos. A justiça, somente a justiça seguirás, para que vivas, e possuas em herança a terra que o Senhor teu Deus te dá”. (Deuteronômio 16:18-20)

Toda alma esteja sujeita às autoridades superiores; porque não há autoridade que não venha de Deus; e as que existem foram ordenadas por Deus. Por isso quem resiste à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos a condenação. Porque os magistrados não são motivo de temor para os que fazem o bem, mas para os que fazem o mal. Queres tu, pois, não temer a autoridade? Faze o bem, e terás louvor dela; porquanto ela é ministro de Deus para teu bem. Mas, se fizeres o mal, teme, pois não traz debalde a espada; porque é ministro de Deus, e vingador em ira contra aquele que pratica o mal”. (Romanos 13:1-4)

Sujeitai-vos a toda autoridade humana por amor do Senhor, quer ao rei, como soberano, quer aos governadores, como por Ele enviados para castigo dos malfeitores, e para louvor dos que fazem o bem”. (I Pedro 2:13-14)

Parte da obrigação dos magistrados era a de investigar as testemunhas para saber se eram falsas ou não. Caso fossem falsas, deveriam receber a mesma pena que tentavam aplicar contra o próximo:

E os juízes inquirirão cuidadosamente; e eis que, sendo a testemunha falsa, e falso o testemunho que deu contra seu irmão, far-lhe-ás como ele cuidava fazer a seu irmão; e assim exterminarás o mal do meio de ti. Os restantes, ouvindo isso, temerão e nunca mais cometerão semelhante mal no meio de ti”.  (Deuteronômio 19:17-20)

Sendo assim, temos que nos perguntar: quem eram os magistrados e juízes legalmente constituídos no tempo de Cristo? Não era o próprio Cristo, como Ele mesmo deixou claro:

Disse-lhe alguém dentre a multidão: Mestre, dize a meu irmão que reparte comigo a herança. Mas ele lhe respondeu: Homem, quem me constituiu a mim juiz ou repartidor entre vós?” (Lucas 12:13-14)

Cristo não era um magistrado e a autoridade civil estava nas mãos dos romanos, como os próprios escribas e fariseus reconheceram no julgamento de Cristo:

Então Pilatos saiu a ter com eles, e perguntou: Que acusação trazeis contra este homem? Responderam-lhe: Se ele não fosse malfeitor, não to entregaríamos. Disse-lhes, então, Pilatos: Tomai-o vós, e julgai-o segundo a vossa lei. Disseram-lhe os judeus: A nós não nos é permitido tirar a vida a ninguém”. (João 18:29-31)

Os judeus estavam sob o domínio de Roma e por isso eles não tinham autoridade para aplicar a pena de morte contra ninguém. Como, então, eles poderiam aplicar a pena contra a mulher adúltera? É por isso eles tiveram que entregar Cristo aos romanos. Somente eles tinham autoridade para isso. Mas Pilatos não estava muito interessado em lidar com o caso. Os judeus estavam acusando Jesus de coisas como blasfêmia (Mt 26:65-66; Jo 5:18). Por que Pilatos estaria interessado em condenar alguém por algo assim se ele mesmo não cria no Deus dos judeus? Foi o mesmo que aconteceu quando os judeus entregaram Paulo aos magistrados romanos para ser julgados:

Sendo Gálio procônsul da Acaia, levantaram-se os judeus de comum acordo contra Paulo, e o levaram ao tribunal, dizendo: Este persuade os homens a render culto a Deus de um modo contrário à Lei. E, quando Paulo estava para abrir a boca, disse Gálio aos judeus: Se de fato houvesse, ó judeus, algum agravo ou crime perverso, com razão eu vos sofreria; mas, se são questões de palavras, de nomes, e da vossa Lei, disso cuidai vós mesmos; porque eu não quero ser juiz destas coisas. E expulsou-os do tribunal”. (Atos 18:12-16)

É por isso que eles tiveram que inventar outra acusação: que Jesus usurpava o trono e a autoridade do Imperador, de César:

Daí em diante Pilatos procurava soltá-lo; mas os judeus clamaram: Se soltares a este, não és amigo de César; todo aquele que se faz rei é contra César. Pilatos, pois, quando ouviu isto, trouxe Jesus para fora e sentou-se no tribunal, no lugar chamado Pavimento, e em hebraico Gabatá. Ora, era a preparação da páscoa, e cerca da hora sexta. E disse aos judeus: Eis o vosso rei. Mas eles clamaram: Tira-o! tira-o! crucifica-o! Disse-lhes Pilatos: Hei de crucificar o vosso rei? responderam, os principais sacerdotes: Não temos rei, senão César. Então lho entregou para ser crucificado” (João 19:12-16)

Isso esclarece porque os escribas e fariseus pensaram que tinham colocado Jesus num beco sem saída. A Lei de Moisés estabelecia pena capital contra adúlteros. Mas isso só podia ser aplicado por quem fosse um magistrado legalmente constituído. Se Jesus se recusasse a aplicar a pena, eles poderiam acusa-Lo de transgredir e anular Moisés. Mas se Ele aceitasse aplicar a pena, Ele estaria se colocando na posição e um magistrado, como um Rei e, com base nisso, eles poderiam entrega-Lo aos romanos como um revolucionário, usurpador do trono de César. No entendimento deles, independente do que Jesus fizesse, eles teriam algo para acusá-Lo.

Mas o próprio Jesus não confiava a eles, porque os conhecia a todos, e não necessitava de que alguém lhe desse testemunho do homem, pois bem sabia o que havia no homem”. (Jo 2:24-25) Jesus conhecia bem a iniquidade deles e também conhecia bem a Lei de Seu Pai. O julgamento era ilegal pelos padrões da própria Lei. Primeiro, não é possível praticar o adultério sozinho. A mulher adúltera não podia ser julgada e condenada sem o homem que adulterou com ela: “Morrerão ambos, o homem que se tiver deitado com a mulher, e a mulher” (Dt 22:22). Segundo, a Lei proibia que qualquer pessoa fosse condenada a morte sem que o suspeito fosse devidamente julgado pelos magistrados civis junto com pelo menos duas testemunhas. As coisas eram resolvidas em um tribunal legalmente instituído, não com bandos correndo pelas ruas com pedras na mão. Por isso Cristo condenou a hipocrisia deles:

Isto diziam eles, tentando-o, para terem de que o acusar. Jesus, porém, inclinando-se, começou a escrever no chão com o dedo. Mas, como insistissem em perguntar-lhe, ergueu-se e disse- lhes: Aquele dentre vós que está sem pecado seja o primeiro que lhe atire uma pedra. E, tornando a inclinar-se, escrevia na terra. Quando ouviram isto foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos, até os últimos; ficou só Jesus, e a mulher ali em pé” (João 8:6-9)

Aqui é importante observar que quando Jesus disse “seja o primeiro que lhe atire a pedra”, Ele estava falando diretamente com aqueles que eram as testemunhas:

Pela boca de duas ou de três testemunhas, será morto o que houver de morrer; pela boca duma só testemunha não morrerá. A mão das testemunhas será a primeira contra ele, para matá-lo, e depois a mão de todo o povo; assim exterminarás o mal do meio de ti”. (Deuteronômio 17:6-7)

Isso deixa claro, então, que Cristo não anulou ou transgrediu a Lei, mas guardou cada “jota e til” (Mt 5:18). Quando Ele disse “seja o primeiro que lhe atire a pedra”, Ele estava simplesmente reafirmando Deuteronômio 17:6-7. É como se Ele os dissesse: “Se isto é um julgamento lícito, se você está verdadeiramente observando os mandamentos de Deus, se o que você faz aqui não é pecaminoso, mas é feito em pureza e justiça, como Moisés mandou, então vai, podem aplicar a pena, começando pelas testemunhas, seja o primeiro que lhe atire a pedra”. O problema não estava na Lei, no que Moisés havia ordenado, mas na hipocrisia e injustiça daqueles que estavam querendo aplica-La naquelas circunstâncias. Com as penas do próprio Moisés, Cristo não tinha nenhum problema, como Ele deixou claro em Mateus 15:4. Mas, como Ele mesmo havia ensinado, “se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” (Mt 5:20).

Muitos erradamente inferem que em João 8:7, quando Ele mandou que Deuteronômio 17:6-7 fosse observado, Ele estava dizendo que somente aqueles que são absolutamente puros e imaculados podem aplicar penas, ou seja, ninguém. Mas isso é tirar o texto de seu devido contexto e é colocar Cristo contra Moisés. Quando Moisés mandou instituir juízes, ele não disse que somente pessoas absolutamente puras e imaculadas poderiam servir como juízes. O que aprendemos na Lei é que devem ser homens “tementes a Deus” (Êx 18:18), “para que julguem o povo com justiça” (Dt 16:18) e “não torçam o juízo” (Dt 16:19). Como a mãe do rei Lamuel lhe ensinou: “Abre a tua boca; julga retamente, e faze justiça” (Pro 31:9). Sendo assim, quando Jesus mandou que Deuteronômio 17:6-7 fosse observado, “Aquele dentre vós que está sem pecado seja o primeiro que lhe atire uma pedra” (Jo 8:7), Ele estava falando do pecado específico de incitar e participar de um julgamento iníquo, contrário a Lei de Deus, com o objetivo de acusa-Lo falsamente. Juízes e testemunhas justas, em um tribunal legalmente instituído, não se enquadram nisso. Pois, “o caminho do ímpio é abominável ao Senhor; mas Ele ama ao que segue a justiça” (Pv 15:9). Por isso Ele prometeu por meio do profeta Isaías que a nação voltaria a ter juízes justos, para julgar com justiça:

Voltarei contra ti a minha mão, e purificarei como com potassa a tua escória; e tirar-te-ei toda impureza; e te restituirei os teus juízes, como eram dantes, e os teus conselheiros, como no princípio, então serás chamada cidade de justiça, cidade fiel”. (Isaías 1:25-2)

João 8 nos ensina, então, algumas lições importantes:

1) Jesus era verdadeiramente comprometido com a Lei de Deus e não com as falsas interpretações dadas pelos escribas e fariseus.

2) Devemos nos sujeitar as autoridades legalmente constituídas.

3) A graça e o perdão de Deus pode atingir até mesmo os criminosos. Adúlteros, assassinos, ladrões e blasfemos podem ser reconciliados com Deus por meio de Jesus Cristo.

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