Revelação e Futuro

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Excerto da palestra X, "Revelação e Futuro", do livro A Filosofia da Revelação, de Herman Bavinck, a ser publicado em breve pela Editora Monergismo. Tradução de Fabrício Tavares de Moraes, co-editor do blog Bereianos.

A doutrina de que o homem está corrompido pelo pecado, não podendo, portanto, santificar e salvar a si mesmo por meio de sua própria força é comumente considerada o erro mais terrível de todos; a autonomia e a autosoteria rejeitam toda forma de heterosoteria. Mas, ao mesmo tempo, quando toda transcendência e metafísica são negadas, o ser humano é exaltado acima de seu estado habitual, passando a ser identificado com o divino. A tarefa super-humana de transformar a presente sociedade num estado de paz e alegria requer mais do que simplesmente o poder humano; se Deus não opera a mudança, a esperança pode ser cultivada somente quando o poder do homem é divinizado. De fato, essa é a ideia central daquela teoria filosófica que Strauss desenvolveu mais claramente, a saber, que o infinito não é realizado num único homem, mas somente na humanidade; esta, sendo a verdadeira unidade das naturezas divina e humana, o homem transformando-se em Deus, o Espírito infinito descendo à finitude, a criança da visível mãe-natureza e do invisível pai-espírito, o realizador de milagres, o salvador do mundo. Aquilo que a humanidade confessa com relação a Cristo e declara em sua ideia de divindade é simplesmente um símbolo daquilo que ela encontra em si mesma, daquilo que ela é. Teologia é essencialmente antropologia; o culto a Deus é a humanidade adorando a si mesma. Comte, dessa forma, foi bem consistente quando substituiu a adoração a Deus pela adoração ao homem.

Essa deificação do homem prova claramente que nenhuma escatologia é possível sem metafísica. Mas isso é demonstrado ainda mais claramente por outro fato. A cultura, a ética, o idealismo – todos indo atrás de um objetivo – devem sempre buscar uma aliança com a metafísica. Kant reverteu as relações entre esses elementos, e tentou tornar a moral totalmente independente da ciência; mas sobre essa moralidade, o filósofo construiu novamente uma fé prática numa providência divina. De semelhante modo, qualquer sistema ético que aspira ser a verdadeira ética e apresentar um caráter normativo e teleológico, sem se tornar uma simples descrição de hábitos e costumes, se vê forçado a buscar o apoio da metafísica. Se o homem deve se empenhar por um ideal, ele pode ganhar coragem apenas pela fé que tal ideal é o ideal do mundo inteiro e está baseado efetivamente na realidade. Ao banir a metafísica, o materialismo não possui mais um sistema ético, passa a desconhecer a distinção entre bem e mal, não possui mais lei moral, nem dever, nem virtude, nem sumo bem. E quando a filosofia humanista imanentista de Natorp, Cohen e outros procura basear a ética exclusivamente no imperativo categórico, ela perde toda segurança de que o “deveria” irá algum dia triunfar sobre o “é”, e o bem sobre o mal. Independentemente daquilo que se crê ser o bem maior, este é ou uma imaginação, ou é e deve também ser o supremo e verdadeiro ser, a essência da realidade, o sentido e destino do mundo, e, assim, também o vínculo que mantém unidos todos os homens e nações em cada parte do mundo, salvando-os da anarquia.

O cristão, por sua vez, encontra a segurança do triunfo do bem em sua confissão da vontade soberana e todo-poderosa, que, embora distinta e exaltada acima do mundo, cumpre, todavia, por meio dele, Seus santos desígnios, e, de acordo com estes desígnios, conduz a humanidade e o mundo à salvação. Mas aquele que rejeita essa confissão não escapa, contudo, da metafísica. Soa bem chamar o homem de “o rebelde na natureza”, o qual, quando esta diz: “Morra!”, responde: “Eu continuarei vivendo”. Porém, com toda sua sabedoria e força, o homem, ao final das contas, é impotente contra a natureza. Eis o motivo porque, mesmo quando o teísmo é negado, a verdadeira realidade – a vontade do mundo que se encontra oculta por detrás dos fenômenos, manifestando-se muito imperfeitamente – é pensada como análoga àquela do homem, e especialmente como uma vontade eticamente boa. Não obstante toda sua autoconfiança e autoglorificação, o homem está, em toda cosmovisão possível, incorporado num todo maior, sendo, portanto, explicado e confirmado por essa totalidade. A metafísica, que é a crença no absoluto como um poder sagrado, sempre constitui o fundamento da ética.

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Autor: Herman Bavinck
Fonte: A filosofia da revelação
Tradução: Fabrício Tavares de Moraes
Divulgação: Bereianos
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O Calvinismo e o Conceito de Cultura - Uma Antítese ao Marxismo Cultural

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"Nossas críticas à cultura não terão poder de persuasão a menos que estejam baseadas em algo que possamos endossar nas crenças e nos valores dessa cultura". - Timothy Keller

Cultura é uma palavra bem gasta, com muitas conotações e nuances em cada contexto que é aplicada. Vemos um florescer benéfico do interesse de muitos cristãos brasileiros pela cultura, de como a igreja pode engajar-se nela e entende-la. Será que tudo na cultura é ruim? Ou a igreja deve enxergar a cultura como bênção de Deus e desfrutá-la sem medida? Ou será que deveríamos nos afastar definitivamente da cultura popular e termos realmente uma cultura evangélica? Quem nunca ouviu: “Devemos apenas evangelizar, nada de nos envolvermos com política ou com arte”; “um crente músico somente pode tocar seu instrumento na igreja ou com músicas cristãs, ele não deve envolver-se com coisas desse 'mundo', o mundo jaz no maligno”. Essas são afirmações que ainda ouvimos muito. Lembro na época em que fui para o seminário (que ainda era tolerável porque se ia estudar a Palavra de Deus), mas o jovem que queria ir a faculdade era imediatamente repreendido por alguns irmãos da igreja – cuidado para não se desviar! Quando comecei minha graduação em jornalismo, um irmão me exortou: cuidado para não virar ateu! E por aí vai...

Quão bíblico é o Molinismo? (Parte 2)

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Esse será o segundo post de uma série de n partes, onde n>1 e provavelmente n<10.

Nesta curta série, estou considerando a seguinte pergunta: “O quanto será que a Bíblia apoia o Molinismo?”. No primeiro post, eu resumi como eu pretendo abordar a questão, antes de olhar para dois ensinos bíblicos que o Molinismo procura acomodar: (1) a providência divina abrangente e (2) o conhecimento de Deus sobre os contra-factuais de liberdade da criatura. Cheguei à conclusão de que, apesar de a Bíblia, de fato, afirmar (1) e (2), e o Molinismo ser consistente com a Bíblia nesses pontos, o Agostinianismo também é. Logo, o Molinismo não detém vantagem alguma sobre o Agostinianismo com respeito a (1) e a (2). Eu, então, acrescentei:

Se queremos mostrar que o Molinismo possui melhor suporte bíblico do que o agostinianismo (ou vice-versa), então precisamos encontrar alguma proposição p que é afirmada pelo molinismo e negada pelo agostinianismo (ou vice-versa) de forma que p goza de apoio bíblico positivo (isto é, existem textos bíblicos que, segundo a interpretação mais natural e defensável, e sem implorar questões filosóficas, asseguram ou implicam p).

Nos próximos posts eu quero examinar três potenciais candidatos para a proposição p do lado molinista: (1) que o incompatibilismo é verdadeiro; (2) que Deus deseja que todos sejam salvos; e (3) que Deus não é o autor do pecado.



Incompatibilismo acerca do livre arbítrio

Como eu disse no primeiro post, os molinistas estão comprometidos com uma visão libertária do livre-arbítrio, e isso envolve duas reivindicações básicas:

Incompatibilismo: A verdadeira liberdade é incompatível com o determinismo.
Liberdade: Nós fazemos, pelo menos algumas, verdadeiras escolhas livres, i.e., escolhas pelas quais podemos ser considerados moralmente responsáveis.

Em conjunto, essas duas afirmações implicam que o determinismo é falso, mas, como os compatibilistas geralmente concordam que nós, de fato, fazemos escolhas verdadeiramente livres, a primeira reivindicação é o que realmente distingue os libertários dos compatibilistas.


Portanto, a questão que realmente importa aqui é saber se a Bíblia oferece algum suporte para o incompatibilismo. Antes de responder a essa pergunta, no entanto, gostaria de fazer duas observações preliminares. A primeira é esta: Eu argumentei antes que existem diferentes tipos de determinismo e que, em certos sentidos não-triviais, o Molinismo é determinista. O que o molinista realmente rejeita é o determinismo causal, ou seja, a tese de que todo evento é implicado por causas anteriores suficientes. Assim, quando considerarmos a reivindicação incompatibilista no que se segue, devemos entendê-la como a alegação de que a liberdade é incompatível com determinismo causal.

Em segundo lugar, apesar de não haver dúvidas de que os molinistas são comprometidos ao libertarianismo, existe um debate se os agostinianos são comprometidos ao compatibilismo ou não.

Felizmente, não precisamos resolver esse debate aqui. Ou o agostinianismo é consistente com uma visão libertária do livre arbítrio ou não é. Se ele for compatível com o libertarianismo, segue-se que qualquer apoio bíblico a favor do mesmo (se existir) não favoreceria o molinismo sobre o agostinianismo. Se não for, o molinismo teria vantagem somente se a Bíblia oferecesse algum suporte para o incompatibilismo. Mas, como irei argumentar agora, isso não é o que acontece.

Até onde tenho conhecimento, não há nada na Bíblia que chegue perto de, explicitamente ou diretamente, implicar no incompatibilismo sobre o livre arbítrio, ou seja, que implique que a verdadeira liberdade seja incompatível com o determinismo causal. Na verdade, é difícil até imaginar como seria tal afirmação. Certamente, não devemos esperar que a Bíblia afirme explicitamente que a liberdade (ou a responsabilidade moral) seja incompatível com o determinismo. E seria raciocínio circular argumentar algo como: “A Bíblia ensina que nós fazemos algumas livres escolhas; o determinismo é incompatível com a livre escolha; portanto, a Bíblia implica que nós possuímos um livre-arbítrio não-determinista”. Tal argumento meramente assume o incompatibilismo como uma de suas premissas. A questão é se a Bíblia oferece algum apoio independente a favor dela.

Quando os molinistas (juntamente com outros cristãos que defendem o libertarianismo) são chamados a defender seu ponto de vista sobre o livre-arbítrio, eles raramente apelam diretamente a textos bíblicos pela simples razão de que não existem textos bíblicos que servem para esse fim. Normalmente eles irão apelar para intuições de senso comum sobre o livre-arbítrio ou a um ou mais argumentos filosóficos a favor do incompatibilismo. Então, a defesa deles se torna algo do tipo: 1 – a Bíblia afirma que podemos fazer escolhas livres (ou seja, escolhas pelas quais somos moralmente responsáveis); 2 – as escolhas livres devem ser libertárias (apelando a intuições e/ou a argumentos filosóficos); portanto, a Bíblia dá suporte ao libertarianismo (ao menos indiretamente).

Esta linha de raciocínio pode ser criticada de diversas maneiras. Em primeiro lugar, a noção de que o libertarianismo é a visão de senso comum sobre livre-arbítrio é altamente questionável. Uma série de estudos têm sido feitos sobre a questão e não estamos nem perto de um consenso. Dependendo de quais perguntas são feitas (e como exatamente essas questões são enquadradas), parece que a intuição de algumas pessoas as inclina para o incompatibilismo e outras inclinam-se para o compatibilismo. Na verdade, parece que muitas pessoas têm intuições conflitantes quando se trata de livre arbítrio e responsabilidade moral.

Quanto aos argumentos filosóficos a favor do incompatibilismo, mais uma vez, o júri não se decidiu. Admito que existam alguns argumentos impressionantes a favor do incompatibilismo, mas também existem respostas, igualmente impressionantes, a esses argumentos. Além disso, existem argumentos filosóficos pesados contra as descrições libertárias (por exemplo, a objeção da sorte e a objeção do “o indeterminismo não ajuda em nada”). Na situação que o debate sobre o livre-arbítrio está atualmente, é justo dizer que o campo está dividido igualmente entre compatibilistas e incompatibilistas. Além do mais, os últimos nem sempre são libertários; entre os incompatibilistas, temos alguns que são céticos, e até mesmo negam, o livre arbítrio.

Em todo caso, tudo isso é (em grande parte) irrelevante. Lembre-se que a questão que estamos considerando aqui é se algum ensinamento bíblico favorece o molinismo quando deparado ao agostinianismo. Apelos a intuições extra-bíblicas ou a argumentos filosóficos, obviamente, não contam como ensinamentos bíblicos!

Há um versículo, no entanto, que muitos libertários têm apontado como dando apoio ao livre-arbítrio não-determinístico:

Não veio sobre vós tentação, senão humana; mas fiel é Deus, que não vos deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar. (1 Coríntios 10:13)

A sugestão é que o apóstolo Paulo está afirmando (ou, pelo menos, assumindo) alguma versão do Princípio das Possibilidades Alternativas (PPA):

PPA: Uma pessoa é moralmente responsável por uma ação apenas se essa pessoa pudesse ter agido de outra maneira (ou seja, capaz de fazer o contrário).

O argumento é mais ou menos o seguinte: Paulo está dando aos Coríntios (e por extensão, a todos os cristãos) a garantia de que sempre que um crente é confrontado com uma tentação ao pecado, Deus irá garantir que o crente tenha a capacidade de resistir a essa tentação e não sucumbir a ela. Em outras palavras, quando um crente é tentado a cometer algum pecado, Deus irá garantir fielmente que o crente tem a capacidade de fazer o contrário, ou seja, de não cometer o tal pecado. O crente tem, assim, o poder de escolha contrária – ou seja, ele possui um livre arbítrio libertário. (Este argumento assume, razoavelmente o bastante, que o crente é moralmente responsável se ele resistir ou não à tentação).


Existem, no entanto, vários problemas neste apelo a 1 Coríntios 10:13:

1. Existe uma discussão (mesmo entre os libertários) sobre a veracidade do PPA (e, de fato, sobre qual versão do PPA é verdade, pois existem variações da versão básica mencionada acima). Alguns defensores do libertarianismo argumentam que a condição sine qua non do livre-arbítrio libertário não é o PPA, mas sim alguma outra condição, como a condição da “fonte final” (ou seja, uma pessoa faz uma livre escolha somente se ela é a “fonte final” dessa escolha). Assim, mesmo que 1 Coríntios 10:13 desse suporte ao PPA, não seria uma consequência lógica que o verse também desse suporte ao libertarianismo.

2. Não somente existem libertários que rejeitam o PPA, como também existem alguns compatibilistas contemporâneos que o endossam (ou, pelo menos, uma versão  compatibilista do PPA). Existem maneiras de entender as frases “poderia ter agido de outra maneira” e “capaz de fazer o contrário ” que são consistentes com o determinismo causal. Assim, ainda que 1 Coríntios 10:13 desse suporte ao PPA, isso não seria garantia de que desse suporte apenas à versão incompatibilista do PPA. Claramente, o que Paulo diz no texto não é detalhado o suficiente para distinguir a compreensão compatibilista da libertária do termo “capacidade” (crucial ao texto).

3. Observe duas coisas sobre as declarações de Paulo no verso: Em primeiro lugar, elas são dirigidas especificamente aos crentes, e não para todos os seres humanos (veja o 1 Cor. 10: 1). Em segundo lugar, eles indicam que Deus proverá, ativamente, algo para os crentes (algo que eles não teriam de alguma outra maneira no curso normal dos acontecimentos). Então, se essa garantia de Paulo realmente implica uma visão libertária do livre-arbítrio, implica também que a liberdade não-determinista é algo que Deus vai ativamente (de forma sobrenatural?) conceder aos cristãos quando esses enfrentarem as tentações. Mas isso não é suficiente para o molinista. Pois, de acordo com o mesmo, todos os seres humanos têm uma liberdade não-determinista durante o curso normal dos acontecimentos (já que a liberdade não-determinista é para eles uma condição necessária para a responsabilidade moral). Ao final das contas, uma leitura libertária de 1 Coríntios 10:13 vai contra os pressupostos básicos da Molinismo.

Então aqui está a conclusão. 1 Coríntios 10:13 não oferece apoio claro a uma visão incompatibilista do livre arbítrio. Há maneiras simples e consistentes com o compatibilismo de entender essa garantia paulina. Na realidade, a única maneira de sair com uma noção de livre-arbítrio não-determinista a partir desse texto é ao adicionar vários argumentos filosóficos a ele (de que o PPA é o princípio distintivo do libertarianismo, de que as versões compatibilistas do PPA são inadequadas, etc.) e, mesmo assim, o verso não vai levar ao libertarianismopara todos” como proposto pelo Molinismo.

Eu não estou ciente de qualquer outro texto ou ensinamento bíblico que ofereça algum apoio direto a favor do incompatibilismo sobre o livre arbítrio. Concluo, portanto, que não há tal apoio. No próximo post desta série, vou considerar se o ensino bíblico de que Deus deseja que todos sejam salvos favorece o molinismo sobre o agostinianismo.

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Nota: Para algumas críticas incisivas do apelo molinista/arminiano a 1 Cor. 10:13, veja os seguintes posts de Steve Hays:

Molinismo e 1 Cor 10:13 (Traduzido por Alison Aquino)

Rota de Escape (em inglês)
Escolha contrária (Traduzido por Alison Aquino)
Contrafactuais e escolhas contrárias (em inglês)
Eterna Insegurança (em inglês)

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Autor: James Anderson
Fonte: Analogical Thoughts
Tradução: Erving Ximendes
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A ideia de uma filosofia pautada nas Escrituras - 2/2

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O correlato da soberania de Deus sobre todas as coisas e com a soberania das esferas é o principium exlusae antinomiae (o princípio da antinomia excluída). A prática e a ciência sempre deparar-se-ão com problemas, caso não partam do princípio de que as antinomias estão excluídas no cosmos. Pois se todas as áreas estão sujeitas à lei de Deus que lhes é particularmente válida, então é evidente que nenhuma dessas áreas se encontra sujeita à outra lei, de modo que toda tentativa humana de sujeitá-las a uma lei que não está adaptada para a área em destaque está condenada ao naufrágio.

A luta, que tem sido travada nos últimos anos na Universidade Livre de Amsterdã, contra a aceitação das antinomias, é basicamente apenas a continuação dessa antiga luta contra a pseudo-soberania da razão, a qual foi travada de forma tão corajosa nas outras regiões na Holanda. O pensamento pagão sempre aceitou antinomias. E não poderia ser diferente, pois tal pensamento foi o responsável por trazê-las à tona. Afinal, tendo concebido o cosmos como o trabalho ordenado de Deus, o paganismo refletiu, opinativo, que Deus foi confrontado com um caos que aguardava ser posto em ordem – quanto mais fácil, melhor. Ora, Hans Driesch (em sua obra Wissen und Denken, 1919) recentemente, de maneira honesta, ressaltou o ideal monista de ordem, para então – de modo não muito diligente – reconhecer que ele não se sustentava.

No entanto, mesmo onde se reconhece uma variedade de funções, acaba-se reduzindo à velha concepção: não se espera mais surpresas, mas tenta-se, tão logo descubramos uma nova distinção de uma função específica, dividir tudo novamente em classes já descobertas. Desse modo, o materialista distingue as superfícies espaciais e o movimento; o vitalista, por sua vez, resguarda a distinção entre o “mecânico” e o “orgânico”; e, por fim, torna-se conspícuo a outros que a vida emocional é algo totalmente diferente da vida orgânica. Sendo assim, tem-se, consequentemente, que as funções não se encontram nitidamente separadas entre si; pensemos, por exemplo, na fusão da aritmética com a espacialidade. Todavia, sabemos como na concepção grega do “Logos”, a função analítica e a linguística, bem como o pensamento e o juízo, eram concebidos confusamente como uma só coisa – a analítica ou lógica e a linguística até hoje sofrem por isso. O que podemos esperar desse confronto? Todas essas áreas possuem a verdade a seu lado numa proporção tal que cada uma delas percebe uma distinção de determinada função e a mantém. Com efeito, o movimento não pode ser subsumido no espaço, nem o orgânico, no movimento.

O emocional é, de fato, algo totalmente diferente do orgânico, e, de semelhante modo, o analítico é distinto do emocional. A criação é um livro escrito por Deus, e todas essas coisas são igualmente capítulos individuais deste livro. Entretanto, todas essas tentativas se encontram equivocadas na medida em que cada uma busca encaixar à força a rica diversidade total dentro de um esquema de uma distinção específica que tenha sido recentemente redescoberta, após ter caído em esquecimento nos dias passados e é agora superestimada de forma totalmente injustificada. Consequentemente, cremos, no que diz respeito à totalidade da história da ciência até então, que podemos distinguir de pronto as seguintes funções: a função aritmética, a espacial, a física (energética, incluindo a energia cinética), a orgânica, a emocional ou psíquica, a analítica ou lógica, a histórica, a linguística, a social, a econômica, a estética, a jurídica, a ética e a pística [fé]. Nessa ordem, elas são as funções das coisas que se encontram intimamente ligadas e sujeitas às leis de Deus, que são válidas para elas.

1. Não menos importantes são as “coerências” no cosmos. Há coerências tanto em uma mesma coisa (intra-individual) e entre diferentes coisas (inter-individual). Primeiramente, tratemos sobre a coerência intraindividual.

Neste ponto, é preciso distinguir duas questões: uma coerência entre estados consecutivos de uma mesma circunstância. Já a coerência interindividual se torna prontamente patente quando pensamos, por exemplo, acerca da coerência entre uma inflamação orgânica e a dor associada a ela no nível emocional, ou ao contrário, quando pensamos sobre a tensão psíquica que acompanha as preocupações econômicas. As obscuridades somente virão à tona caso sigamos a tendência da filosofia atual que percebe algo como sendo o resultado de duas pseudo-coisas. Com tal afirmação, não pretendo criticar a análise técnica que é capaz de dividir novamente as coisas compostas em seus componentes originais. A atribuição do nome coisa aos materiais que o químico extrai dessa forma é totalmente justificada – eles são materiais que pertencem ao mesmo domínio, e de semelhante modo possuem as mesmas funções, i.e., uma função aritmética, uma espacial e uma física. Mas a questão é totalmente diferente quando tratamos das chamadas coisas, que permanecem com o filósofo quando ele divide uma coisa em dois grupos. Assim Demócrito dividiu a coisa física numa coisa espacial acrescida de movimento; e outros viram a planta como uma pedra mais a vida; um animal como sendo um organismo mais algo psíquico; e um ser humano como um animal e algo mais. Quem faz coro a isso nega a coerência existente entre as diferentes funções. Pois é exatamente por meio dessa conexão que as funções menos complexas num ser humano se desenvolvem muito mais plenamente do que num animal ou numa planta. As funções inferiores, tão logo surjam, são primeiramente direcionadas em coerência com as funções superiores – as inferiores “antecipam” as superiores.

Por outro lado, as funções mais complexas são não apenas fundadas nas menos complexas, mas também se remetem para as inferiores: elas retrocipam. Antecipações e retrocipações existem, pois, em virtude apenas da coerência vertical de uma variedade de funções numa mesma coisa. Tal coerência deve ser claramente distinguida da coerência horizontal entre funções iguais de coisas diferentes. As funções são sempre “funções-das-coisas”, mas jamais podemos apresentar um grupo de funções como se fosse uma coisa. Aqui há, pois, uma segunda coerência intra-individual: uma coisa perpassa diferentes estados em todas suas funções. Ela existe no tempo; possui um passado, um presente e um futuro. Tais estados não existem desconectados um do outro. O último [o futuro] está contido no primeiro [passado], embora o presente não possa ser predito a partir do passado, nem o futuro possa ser profetizado a partir do presente. Isso indica uma coerência bastante peculiar entre o anterior e o posterior: o primeiro claramente envolve um número de possibilidades que abrangem também o último, embora este, por sua vez, ainda inclua várias possibilidades ausentes no primeiro.

As duas coerências intra-individuais não são idênticas, em suas naturezas. Não é que uma função se encontre em relação à outra como uma potencialidade está para uma realidade, embora essa relação ocorra em todas as funções. Tanto na vida quanto nas Sagradas Escrituras não somente o que acima discutimos se encontra em destaque, mas também as coerências inter-individuais. Ambas (a vida e as Escrituras) estão atentas para o importante lugar que a coerência entre as coisas individuais ocupa no cosmos – uma percepção que muitos, recentemente, quase perderam sob a influência do individualismo. Tratemos brevemente da coerência entre sujeitos e sujeitos e, então, a coerência entre sujeitos e objetos presente em meio à riqueza apresentada pela obra do Criador. Coisas individualmente diferentes que pertencem ao mesmo “domínio”, por exemplo, duas plantas ou dois seres humanos, são similares no seguinte sentido: ambos possuem funções sujeitas à mesma esfera de lei. Tais funções não se encontram desconectadas, mas estão em coerência uma com relação à outra – uma coerência que, certamente, apresenta o caráter da esfera de lei em questão. Desse modo, duas linhas se entrecruzam; na esfera física, uma forma de energia se transforma em outra; e assim alguém me indica a suspeita na área analítica. Onde quer que a linguagem desempenhe um papel, essas coerências assumem o caráter de co-operação, por meio dessas coisas inter-humanas tais como sociedade, empresa, estado, família, comunidade religiosa. Essas coerências são diferentes entre si, visto que o objetivo particular de cada uma não reside na mesma esfera de lei. Não é necessário me demorar no que diz respeito à necessidade de distinguir essas coerências claramente e do esforço desempenhado por parte dos calvinistas nisso.

Frequentemente essa coerência é discutida somente na epistemologia – o que é um equívoco. Ainda que não caiamos no erro do positivismo, de tornar a existência dos objetos dependente da investigação realizada sobre eles, ainda existe outros perigos, mesmo que se separe um lugar independente para o objeto, dentro da epistemologia. Ora, o fato de algo tornar-se objeto não depende de sua investigação, pois objetos – independente se a atenção se dirige a eles ou não – se apresentam onde quer que uma função inferior se repete numa função superior. Assim, o ponto é, no âmbito espacial, a repetição da descontinuidade do número; dessa forma, há – “objetivamente” – no âmbito físico, trajetos imutáveis que são descritos por coisas mutáveis; de semelhante modo, a estimulação biótica ocasionada pela luz se repete no âmbito físico como cor; e, desse modo, somos confrontados com vir-a-ser independente de determinado objeto quando o espaço, que em si mesmo não é euclidiano, se torna euclidiano no âmbito físico, ao mesmo tempo que atua como espaço de percepção.

E por fim, tratemos ainda acerca da transição de uma coisa da coerência inter-individual para a coerência intra-individual e vice-versa. A primeira transição pode ser encontrada dentro de um mesmo domínio, por exemplo, na fusão química de diferentes materiais, e entre diferentes domínios, por exemplo na absorção de determinado nutriente por parte das plantas, animais e seres humanos. Transições nas direções opostos aparecem, por exemplo, na coerência genética. Por esse conceito, entendemos o desenvolvimento de uma coisa a partir de uma ou mais coisas dentro do mesmo domínio. Tal desenvolvimento ocorre de modo totalmente diferente do ensinado pelos adeptos da teoria funcionalista da evolução: de acordo com eles, as coisas com funções superiores poderiam se desenvolver a partir de coisas com funções inferiores. O estudo do desenvolvimento real restringe essas especulações e estudos apenas àquilo que se encontra no cosmos, o que se implica, conforme já dito, na origem de uma coisa a partir da outra dentro do mesmo domínio. Tomemos um exemplo: um elétron, que anteriormente se encontrava numa coerência intra-individual com os demais elementos do átomo, está agora ligado com os mesmos elementos numa coerência inter-individual. A questão se torna um pouco mais complicada quando – como na reprodução sexual – a coisa que é ejetada entra numa coerência intra-individual com outra, com a qual se encontrava anteriormente apenas inter-individualmente ligada. Somente caso alguém realmente estude o desenvolvimento em si (o que seria de fato uma felicidade), será possível construir um conceito decente de “tipo” [i.e. espécie]. Aquilo que hoje em dia é apresentado como tal nada mais é do que uma similaridade percebida na “forma” das coisas; e há ainda certa disputa se existe efetivamente uma forma geral que possa ser usada como critério, ou se isso é apenas o produto da ação abstrativa de nosso pensamento. 

No que tange à raça humana, no primeiro caso (a forma geral) alguns pensadores elevaram seu próprio ideal a uma norma para os demais, e olharam com desdém para aqueles que não satisfaziam esse ideal [como no caso do racismo e eugenia]. No outro caso, a questão descamba para o cosmopolitismo. Quão diferente é a concepção das Sagradas Escrituras! Ela não apresenta esses ideais acima citados, mas também não aponta na direção do cosmopolitismo; todavia, ensina que de um só fez todas raças humanas (At 17:26); quando trata acerca das almas dos descendentes, que estavam “nos lombos” ou “quadris” dos ancestrais, ela toma o desenvolvimento de forma totalmente concreta (ex. Gn 35:11; Ex 1:5; Jz 8:30; 1 Rs 8:19; 2 Cr 6:9; At 2:30; Hb 7:5). Por essa razão, ela também dá grande importância para as genealogias que remontam a Adão, que, com exceção de Jesus, foi o único ser humano que não veio à existência por meio da união sexual. O primeiro ser humano teve origem na criação, e, então, a partir de um ato criativo particular de Deus, no qual Ele insuflou o sopro da vida (Gn 2:7), de modo que lhe foi possível, quando a luz da palavra pregada de Deus chegou até ele (Adão), testar suas próprias ações e o comportamento dos outros com base na Lei de Deus (Pv 20:27) e na execução de seu ofício humano: dominar sobre as obras das mãos de Deus – isto é ser a “imagem” (Gn 1:26-27) e o “filho de Deus” (Lc 3:38)

II

A filosofia pautada nas Escrituras concebe a religião como um pacto, um unio foederalis, que se torna conhecida pela raça humana através da revelação da Palavra, ainda antes mesmo da Queda.

1. Com essa afirmação, a filosofia calvinista se dirige contra toda tentativa de interpretar a religião como uma submersão substancial ou funcional do homem em Deus. Por essa razão, na filosofia calvinista, até mesmo a religião é tratada como um tópico separado, pois não há fundamento nos associarmos com as concepções atuais, de acordo com as quais a religião pode ser resumida naquilo que citamos anteriormente. Todavia, é exatamente isso que não podemos fazer. Se alguém iguala a vida no pacto divino com uma ou outra função, então tal pessoa acaba sendo conduzida – quer queira ou não – ao universalismo: fé, vida espiritual, consciência ou qualquer outro termo com o qual se queria nomear isso, torna-se raios do ser divino, cristalizações do Logos ou algo do tipo. Portanto, não é possível entender fé e descrença como oposições restritas; a especulação imediatamente se apresenta a fim de relativizar essas oposições. Caso não queiramos seguir essa última posição, então a afirmação de que a religião é uma função humana conduz consequentemente à não atribuição dessa função (a religião) a todo mundo: a fé se torna um donum superadditum, que fica totalmente sem uma associação imediata com relação às outras funções. A fatídica negação da coerência entre pensamento e fé é, pois, o resultado inevitável desse posicionamento. Roma tomou um caminho diferente. Ao passo que rejeitam tanto a separação entre fé e razão e universalismo, eles, nessa questão, buscam basear a alternativa “fé versus descrença” na relação mantida pelo ser humano com os oficiais da igreja instituída. Isso é um equívoco, pois embora essa relação não seja, em si mesma, uma função, contudo, ainda reside na área funcional: é a associação entre o âmbito devocional e o âmbito do poder na área pística [da fé], que também está presente nas religiões não-cristãs.

A identificação da religião com uma função não nos leva a lugar nenhum e, de semelhante modo, não está de acordo com o parâmetro das Escrituras. Mas as Escrituras mostram um caminho que torne possível compreender a religião? A mesma Escritura, que com sua intimação acerca do castigo eterno, denuncia o universalismo, mas que, por outro lado, não separa a religião da vida, nem, segundo o modo romanista, identifica a religião com a relação entre “leigos” e oficiais”; essa mesma Escritura nos mostra o caminho na medida em que, de maneira simples, fala acerca do coração, de onde procedem as fontes da vida (Pv 4:23). Com isso, a coerência do coração com as funções também nos é indicada: as funções são a estrutura na qual e através da qual se expressa o coração do homem. E aquilo que se aplica a todas as funções também é válida para função pística [da fé, da confissão]: até mesmo aquilo no qual um indivíduo crê depende, em última análise, do tipo de coração que ele possui. Ora, todos aqueles que estão familiarizados com as Escrituras sabem que podem encontrar a base dessa distinção entre “coração” e fé” ao longo de toda a narrativa bíblica (At 16:14). Essa mesma concepção é ainda mais essencial para a distinção entre regeneração e conversão.

A fé, como uma função, está presente em todas as pessoas, mas ao passo que tal função, nos cristãos, leva em conta a Palavra de Deus, nos não-cristãos, a fé (como função) os leva a substituir as Escrituras por alguma outra coisa. Neste último caso, o ser humano cria seu próprio e suposto conhecimento daquilo que por vezes proveio de uma suposta descoberta do coração humano e a respeito das questões que o cristão conhece por meio da Palavra de Deus. Assim, o descrente, em última análise, vive e morre como um produto de sua própria cultura. Se o Espírito de Deus, contudo, redireciona a direção básica da vida humana e a traz à obediência da Palavra de Deus, então no desenvolvimento ulterior da vida, essa Palavra adquire cada vez mais sentido. Ora, esta Palavra exonera o indivíduo da determinação daquilo que é, de fato, a religião. As Sagradas Escrituras a veem como um “andar com Deus” (Gn 5:22-24), um “guarda e conservação da aliança” (Êx 19:5; Dt 33:9; Sl 25:10, 103:18, 132:12; Is 56:4-6; Dn 9:4), etc. Essa aliança não é um vínculo que se encontra necessariamente dentro dos limites do cosmos. É um relacionamento entre Deus, que de forma alguma pertence ao cosmos, e o ser humano, que de todas formas, pertence ao cosmos.

2. Somente – e com isso chegamos ao segundo raciocínio que está incluído em minha afirmação – as coerências que existem dentro do cosmos se incluem na aliança. Consequentemente a Palavra de Deus não “aconteceu” apenas aqui e ali, ou ora com relação a isto e aquilo no que diz respeito àquele “indivíduo”. Não! A Palavra de Deus foi pregada a toda raça humana, primeiramente a Adão, então a ambos nossos ancestrais (Adão e Eva) antes de terem pecado; posteriormente a Noé, e finalmente aos patriarcas e a todo Israel. É necessário estar atento aos hábitos e deveres dos pais em proclamar essa Palavra a seus filhos (Sl 78:3,4; Dt 4:9 e 6:7). Por essa razão, a Palavra que é pregada num momento posterior nem sempre repete a que foi pregada anteriormente, mas, pelo contrário, se liga a ela – e mesmo a Queda não implica numa ruptura com essa ligação. Com efeito, somente após a Queda, a Palavra obteve o status de palavra da graça. Contudo, o Salvador, cujo advento ela agora proclama, foi Ele mesmo o Criador do mundo, que salva Sua própria obra, o Qual derrama Seu espírito sobre toda carne – tal como no estado em que foi criada. Santificados justamente por esse Espírito, a fé na Palavra de Deus cresce novamente na vida do homem – e também a fé em Suas promessas para os crentes e seus descendentes. Por conseguinte, a vida em lugar algum é tão poderosa como nessa instância, na qual o indivíduo crê em Deus a partir diretamente de Sua Palavra.

III

Com relação às circunstâncias após a Queda no pecado, a filosofia pautada nas Escrituras admite: (1) a depravação total do ser humano; (2) a morte como punição pelo pecado; (3) a revelação da graça do Deus soberano no Mediador.

1. Aquele que acompanhou as questões precedentes compreende que a filosofia pautada nas Escrituras aceita a Palavra de Deus também naquelas partes em que ela expressa suas duras verdades. Em última análise, há mais a se ganhar com isso do que caso nos recusarmos a encarar a realidade. Não é tarefa da filosofia mudar algo na realidade; antes, ela deve somente buscar compreender o cosmos a partir da luz da Palavra de Deus. Por meio da comunicação do Espírito Santo, somos confrontados, em primeiro lugar, com o fato de que a raça humana está depravada pelo pecado. Assim, a morte não somente afeta Adão, mas ao mesmo tempo todos aqueles que estão incluídos nele (1Co 15:21). Ninguém pode dizer isto com plena consciência, sem que sua afirmação se torne (como no caso de Paulo) uma queixa: pois todos pecaram e carecem da glória de Deus; é precisamente do coração do homem que procedem os maus pensamentos e toda sorte de horrores que o corrompem (Mt 15:18-19). Se a graça de Deus intervém, inflama-se, então, no coração do homem, a luta entre o antigo ódio e o novo amor, entre a “carne” e o “espírito” – uma oposição que, como vemos, não tem nada a ver com a oposição entre “espírito” e “vida”, a qual não ocorre na vida cristã e que também, de modo nenhum, é antitética.

2. Ora, torna-se claro, portanto, como o pensamento pautado nas Escrituras deve compreender a morte. Nessa questão, as Escrituras Sagradas apresentam uma dualidade (Ap 20:14, 21:8, cf. também Ap 2:11, 20:6): a primeira e segunda morte.

Aparentemente, a filosofia da Antiguidade possuía essa mesma ideia, mas mediante uma análise mais pormenorizada torna-se evidente que se tratam de duas concepções totalmente diferentes. A filosofia clássica, para a qual o ser humano era tanto o ponto de partida e o fim, concebia a morte como uma separação desejável no nível funcional. Destarte, a morte era concebida como uma separação entre o “soma” [corpo] inferior e a “psyche” [alma] superior; posteriormente, passou-se a ensinar que, na segunda morte, a parte suprema da “psyche”, que se libertou da prisão do “soma”, abandona sua parte inferior na lua, a fim de retornar ao sol. O pensamento básico das Escrituras é completamente diferente. O ponto de partida e o destino não se encontra no ser humano, mas sim em Deus. O destino supremo do ser humano é viver na aliança com o Pai celeste, como um de seus filhos. A morte pode ser qualquer coisa, menos algo desejável; ela foi imposta sobre a humanidade como castigo por todas suas transgressões (Gn 2:17). Isso se aplica tanto à primeira quanto à segunda morte. Ora, a distinção entre ambas consiste disto: que a primeira morte se estende a todos em Adão, ao passo que a segunda morte coincide com o castigo eterno que se aplica a todos aqueles que não foram salvos em Cristo (1Co 15:21; Ap 21:8).

Torna-se claro, portanto, que essa caracterização da morte e tal distinção entre a primeira e a segunda morte – dado que é religiosamente concebida – não possui relação alguma com as especulações pseudo-religiosas de um Plutarco. Ademais, com relação à descrição mais pormenorizada da morte, as Escrituras Sagradas não a concebem de maneira funcionalista, em contraposição aos filósofos. Por certo a morte é separação, mas primeiramente é a descontinuação da coerência na qual o ser humano, como “alma vivente”, mantinha com seu ambiente (Jó 14:10; Ec 9:5-6). Todo o resto é secundário – isto já é evidente a partir do fato que essa descontinuidade ocorre somente com a primeira morte; na segunda morte, o coração ou alma já se encontra novamente unido ao corpo. Ademais, na concepção bíblica, o corpo não é a vida animal do homem – algo que as Escrituras desconhecem por completo –, mas a totalidade das funções, que Paulo compara com uma veste.

3. O que é graça? Qual é a relação que mantém com a “natureza” e “pecado”? É lícito associar a palavra “graça” com a representação de uma área, e desse modo falar a respeito da “área da graça?”. Também nessa questão, a exposição positiva pode assumir a proeminência. “Graça” significa, em primeiro lugar, “demonstração de benevolência”: no relacionamento de Deus com o pecador – “o perdido favorecido”. Nesse relacionamento, a graça sempre procede de Deus. Seu oposto não é a “natureza” nem o “pecado”, mas a “ira de Deus”. A resposta à questão do relacionamento entre natureza e graça depende do sentido no qual o termo “natureza” é utilizado. Por vezes significa o “modo” (por exemplo, a “natureza” divina e a “natureza” humana de Cristo); em outros casos, significa “o original”. De semelhante modo, frequentemente significa o ser humano que está em Adão: “o homem natural” se tornou uma “natureza depravada”, e assim permanece, a não ser que o Espírito de Deus intervenha salvificamente. Portanto, devemos compreender o ensino paulino: Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus (1Co 2:14).

Porém o povo de Deus, que nasceu de novo mediante o Espírito de Cristo, percebe muito claramente aquilo que vem do Espírito de Deus; e a estas pessoas, Paulo fala acerca do relacionamento que, por um lado, tinham com Adão, e, por outro, com Cristo: Mas não é primeiro o espiritual, e sim o natural; depois, o espiritual (1Co 15:16). Nesse sentido, a natureza é o oposto da graça! Para se perceber o grande perigo que nesse ponto reside, basta olhar para o uso que Roma faz das palavras “natureza” e “graça”: observemos simplesmente como a “graça” é identificada com “os meios de graça”. Poderíamos também, nesse contexto, nos referir ao jogo de palavras em Leibniz, que identifica graça com aquelas funções do ser humano que não estão presentes nos animais. As Escrituras apresentam uma concepção ainda mais simples do “pecado”. Originalmente, o termo significa “privação” ou “insuficiência” na destinação do ser humano por meio da transgressão do mandamento, embora o ser humano permaneça sob a lei. A graça, com relação ao pecado, é, portanto, “perdão” ou “remissão”. A oposição "graça versus ira”, na parte de Deus, possui um correlato no lado humano: perdão versus pecado mantido/retido. Ora, não há objeção contra o tratamento das “áreas da graça” em si mesmas. Todavia, é preciso resistir de forma restrita à tentativa de delinear rigorosamente essa área, bem como lembrar claramente que tal área se identifica com aquilo que foi criado, uma vez que e na medida em que Deus vê isso (a criação) com benevolência (perdida após a Queda no pecado). A área da graça é muito maior do que a Igreja como corpo de Cristo: mesmo às tribos mais recônditas, Deus ainda concede a certas pessoas Sua rica graça para que ordenem a família e a vida de determinado povo. Isso é o que os calvinistas sempre perceberam e consequentemente chamaram de “graça comum”, após a Queda.

A distinção entre a área da graça comum e a área da graça particular é problemática somente quando alguém permite com que ela se coincida com um dualismo na vida de uma mesma pessoa. Pois se alguém segue esse caminho, logo adentra na concepção gnóstica ou na concepção romana de natureza e graça, com a qual o calvinista não tem nada em comum – portanto, possivelmente seja melhor falar, dentro da linha das Escrituras, de “vasos” [de graça] ao invés de “áreas da graça” (cf. Rm 9:23). No entanto, mais importante do que essas questões terminológicas, é evidentemente a questão de como a graça chega até o ser humano. Respondemos: “por meio da Palavra”. Contudo, como deveríamos compreender isso? Se alguém a define como a palavra pregada, então acaba identificando também a graça que doa livremente a vida com a arte da magia ou bruxaria. É preciso, pois, distinguir, por um lado, entre a Palavra Divina criativa [isto é, o Logos divino, Cristo], que pregou, enviou seus profetas e finalmente apareceu em Pessoa, e, por outro, a Palavra do Evangelho pregada que – desde que direcionada aos seres humanos – Lhe (isto é, a Palavra Divina) anunciou em linguagem humana e ainda o faz. Dito de outro modo, por detrás da Palavra como conhecimento comunicado, está a Palavra que Se amalgamou de uma forma única com Aquele que (concebido pelo Espírito Santo e nascido da virgem Maria, não é o primeiro Adão, mas) é Ele mesmo o segundo Adão, o qual (a despeito de Seu ligação com a raça humana caída), mediante Sua coerência indissolúvel com Deus e por meio da unção com o Espírito Santo, carrega toda a linha adâmica perdida que Lhe pertence, através de todos as oposições, rumo ao seu destino eterno. 

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Autor: Dirk H. Th. Vollenhoven 
Fonte: All of Life Redeemed 
Tradução: Fabrício Tavares
Via: Bereianos

Leia também:
A ideia de uma filosofia pautada nas Escrituras - 1/2
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Quão bíblico é o Molinismo? (Parte 1)

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O Molinismo é uma teoria que pretende conciliar uma robusta doutrina da providência e presciência divina com uma visão libertária do livre-arbítrio, apelando para a noção do conhecimento médio divino: o eterno conhecimento de Deus sobre os chamados contra-factuais da liberdade da criatura em questão, ou seja, as verdades contingentes acerca de quais seriam as possíveis criaturas que livremente escolheriam a Deus se elas fossem colocadas sob determinadas circunstâncias. (Para outros posts, em inglês, tratando do Molinismo, clique aqui)

O Molinismo é mais frequentemente criticado por razões teológicas ou filosóficas principalmente porque ele é justamente defendido com base em suas supostas virtudes teológicas e filosóficas. E não há nada de errado nisso. Eu mesmo já lancei objeções ao Molinismo por razões teológicas e filosóficas. (Então está tudo bem, certo?) No entanto, para o cristão que crê que a Bíblia é a Palavra de Deus e a autoridade final em questões teológicas, a pergunta preeminente deve ser: O quanto será que a Bíblia dá suporte ao Molinismo? (Não me proponho a defender neste momento o princípio metodológico subjacente, irei simplesmente admiti-lo.)

Existem pelo menos dois componentes na questão que estamos tratando. Em primeiro lugar, será que o Molinismo é consistente com a Bíblia? Em outras palavras, será que a Bíblia ensina coisas que são (ou parecem ser) incompatíveis com os princípios ou as implicações do Molinismo? Em segundo lugar, será que a Bíblia oferece algum suporte positivo para as alegações propriamente pertencentes ao Molinismo, ou seja, aqueles princípios que distinguem o Molinismo das principais alternativas concorrentes (como Agostinianismo e o Teísmo Aberto)? Nesta série de posts, proponho explorar essas questões tendo como referência alguns textos bíblicos chaves. Vou me concentrar especialmente em como o Molinismo se compara ao Agostinianismo (que é, sem dúvida, seu principal concorrente entre os teólogos cristãos ortodoxos). (Nota: Estou usando o termo Agostinianismo simplesmente como abreviação para o determinismo divino causal. Não assumimos aqui que o próprio Santo Agostinho tenha, de fato, crido no Agostinianismo nesse sentido! Mas, definindo o Agostinianismo dessa maneira, iremos incluir a maioria dos calvinistas confessionais e, penso eu, muitos dos tomistas conservadores.)

Antes de entrar no centro da questão, eu deveria tratar uma preocupação que alguns leitores podem apresentar. Eu não estou assumindo que a Bíblia responda a todas as questões filosóficas nem que possa resolver qualquer disputa filosófica. É evidente que existem algumas questões filosóficas (por exemplo, se é possível viajar no tempo ou não, se os números são entidades reais, e se o utilitarismo de regra colapsa no utilitarismo de ato) que a Bíblia sequer pretende abordar (e isso também é uma coisa boa!). Mas, ao mesmo tempo, eu considero que a Bíblia faz algumas afirmações filosóficas (de fato, a declaração de abertura da Bíblia é profundamente metafísica!) e ainda mais frequentemente expressa coisas (afirmações, promessas, comandos, etc.) que têm implicações ou pressuposições filosóficas razoavelmente claras.

Então, de uma forma mais crua, eu acredito que a Bíblia nos apresenta uma série de “pontos” que devem tanto informar quanto restringir a nossa maneira de filosofar. Algumas teorias filosóficas são consistentes com esses pontos, enquanto que outras não são. Algumas teorias filosóficas se adequam melhor a esses pontos que outras. Algumas perguntas filosóficas não são determinadas pela evidência bíblica, mas nem todas são assim. Então, as perguntas exploradas nesta série incluem: (1) Quais são os pontos bíblicos importantes (ou alguns deles) quando se trata de avaliar o Molinismo? e (2) O quanto será que o Molinismo se adéqua a esses pontos?

A providência divina abrangente

Um dos temas mais importantes da Bíblia é o controle providencial abrangente de Deus sobre sua criação (às vezes chamado de “providência divina meticulosa”). Tudo o que acontece na criação ocorre de acordo com o plano soberano de Deus; nada acontece a não ser por Sua vontade. Os teólogos têm feito várias distinções entre a vontade ativa e permissiva de Deus, a vontade decretadora (secreta) e preceptiva (revelada), a vontade antecedente e conseqüente (e assim por diante), mas o argumento central é o mesmo: Deus tem um decreto eterno que cobre todo evento na criação, e esse decreto infalivelmente irá acontecer.

Aqui estão alguns textos específicos que ilustram esta penetrante doutrina bíblica:

O Senhor dos Exércitos jurou, dizendo: Como pensei, assim sucederá, e como determinei, assim se efetuará. Porque o Senhor dos Exércitos o determinou; quem o invalidará? E a sua mão está estendida; quem pois a fará voltar atrás?” (Isaías 14:24, 27)

Lembrai-vos disto, e considerai; trazei-o à memória, ó prevaricadores.Lembrai-vos das coisas passadas desde a antiguidade; que eu sou Deus, e não há outro Deus, não há outro semelhante a mim.Que anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam; que digo: O meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade.Que chamo a ave de rapina desde o oriente, e de uma terra remota o homem do meu conselho; porque assim o disse, e assim o farei vir; eu o formei, e também o farei.” (Isaías 46:8-11)

Quem é aquele que diz, e assim acontece, quando o Senhor o não mande? Porventura da boca do Altíssimo não sai tanto o mal como o bem?” (Lamentações 3:37,38)

E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.” (Romanos 8:28)

Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade;” (Efésios 1:11)

Particularmente notáveis são as afirmações bíblicas do controle soberano de Deus sobre as ações pecaminosas de suas criaturas, de tal forma que até mesmo essas ações fazem parte de seu plano providencial (por exemplo, Gênesis 50:20,  Juízes 14:1-4, 1 Samuel 2:25, Isaías 10:5-19, Atos 4:27,28, Romanos 9:14-21).

Uma das virtudes do Molinismo é que o mesmo procura acomodar este importante tema bíblico. De acordo com o Molinismo, Deus, de fato, tem um decreto eterno infalível; todos os eventos na criação foram ordenados por Deus. Citando um de seus defensores:

Essa visão não só dá espaço para a liberdade humana, mas dá a Deus um meio de escolher qual mundo de criaturas livres Ele deseja criar. Pois, sabendo como as pessoas iriam livremente escolher sob quaisquer circunstâncias que fossem, Deus pode, pelo Seu decreto, colocar apenas essas pessoas [que o escolheriam] sob essas circunstâncias, realizando assim Seus propósitos finais através das decisões livres das criaturas. Assim, empregando seu conhecimento hipotético, Deus pode planejar um mundo nos mínimos detalhes e ainda assim fazê-lo sem aniquilar a liberdade da criatura, uma vez que Deus já levava em conta nas equações quais pessoas livremente escolheriam sob várias circunstâncias. Como o conhecimento hipotético de Deus encontra-se logicamente entre o Seu conhecimento natural e Seu conhecimento livre, os molinistas o chamam de conhecimento médio de Deus. [2]

Logo, sobre este ponto, o Molinismo claramente apresenta vantagem sobre alternativas como o Teísmo Aberto (que rejeita a doutrina da providência divina abrangente). No entanto, como o Agostinianismo também afirma essa doutrina, nesse ponto o Molinismo não pode afirmar ser mais bíblico do que o Agostinianismo. Em outras palavras, o ensinamento da Bíblia sobre o controle providencial abrangente de Deus não favorece o Molinismo quando comparado ao Agostinianismo.

Contrafactuais da liberdade

O princípio que define o Molinismo é a afirmação de que Deus possui o chamado conhecimento médio e de que Ele baseia Seu eterno decreto nesse conhecimento prévio. O conhecimento médio é o conhecimento de Deus (precedente a Criação) acerca do quê as possíveis criaturas (ou seja, qualquer criatura que Deus possa trazer à existência) livremente escolheriam sob qualquer conjunto específico de circunstâncias. Por exemplo, de acordo com o Molinismo, Deus sabe desde a eternidade o que eu iria livremente escolher para comer no café da manhã se eu estivesse hospedado no Hilton Atlanta em 18 de Novembro de 2015 e me fosse apresentada uma determinada gama de opções enquanto eu sentia fome. Este conhecimento não implica por si só que eu irei fazer tal livre escolha, mas apenas que eu faria essa livre escolha se Deus decidisse me criar e organizar tudo, providencialmente, para que me fossem apresentadas as opções nessa data em particular, sob essas específicas circunstâncias.

Da mesma forma, de acordo com o Molinismo, Deus também sabe desde a eternidade o quê Schmames Anderson (meu irmão gêmeo do mal, uma possível criatura que Deus misericordiosamente optou por não criar no mundo real) livremente escolheria comer no café da manhã em circunstâncias semelhantes. (Suponho eu que seria “papas de milho” ou “pãozinho com salsa branca”.)

Portanto o Molinismo implica em: (i) realmente existirem tais verdades contrafactuais sobre as livres escolhas das possíveis criaturas; e (ii) no conhecimento de Deus, desde a Eternidade (ou seja, antes da Sua decisão de criar um mundo), sobre essas verdades contrafactuais. Tanto (i) quanto (ii) tem sido desafiados pelos críticos do Molinismo, mas essa não é a minha preocupação aqui. Em vez disso, quero considerar se há apoio bíblico para essas afirmações distintas do Molinismo.

Compreensivelmente, os molinistas têm colocado grande peso nas declarações das Escrituras que, em face disso, pressupõem o conhecimento hipotético de Deus de como as pessoas se comportariam se elas se encontrassem sob determinadas circunstâncias (especificamente como eles se comportariam se o mundo fosse diferente do que é, daí o termo “contrafactuais de liberdade”). Os textos bíblicos incluem: 1 Sm. 23:8-14; Ez. 3:6; Jr. 38:17-18; Mt. 11:21-24; Mt. 12:7; Lc. 22:67-68; Jo 18:36; 1 Co. 2:8.

Eu concordo que haja, de fato, um forte apoio bíblico a ideia de conhecimento contrafactual de Deus acerca das escolhas humanas. No entanto, devemos notar algo muito importante sobre estes textos: eles não afirmam explicitamente que as escolhas feitas (ou as que seriam feitas) são escolhas de natureza libertária.

É completamente razoável inferir que as escolhas em questão sejam escolhas livres, uma vez que as criaturas são (ou seriam) consideradas moralmente responsáveis por essas escolhas. Mas existe um debate muito grande entre os filósofos sobre qual seria o tipo necessário de liberdade para que se possa haver uma cobrança de responsabilidade moral sobre as criaturas. De um lado estão os libertários, que argumentam que a liberdade genuína requer o indeterminismo causal (isto é, as livres escolhas não podem ser causalmente determinadas por eventos ou estados anteriores). E do outro lado estão os compatibilistas, que argumentam que a liberdade genuína seja compatível com o determinismo causal.

Os molinistas, por definição, sustentam uma visão libertária (incompatibilista) da liberdade. A principal virtude do Molinismo, de acordo com seus defensores, é que ela concilia a liberdade (libertária) humana com a providência divina abrangente. Mas, os textos bíblicos citados acima não abordam a questão do tipo de liberdade que os seres humanos possuem. Eles não favorecem uma visão libertária sobre uma visão compatibilista. Se os molinistas os usam como suporte para a ideia de que existe o conhecimento contrafactual de Deus acerca da liberdade incompatibilista, é porque eles estão admitindo que esse tipo de liberdade seja necessário para que haja responsabilidade moral. Mas essa é uma afirmação filosófica discutível; não é algo que pode ser diretamente inferido a partir dos textos.

Os agostinianos tipicamente sustentam uma visão compatibilista da liberdade. Nesse ponto de vista, não há nenhum problema em afirmar que Deus tem o conhecimento contrafactual da liberdade humana. Este conhecimento não é um conhecimento médio (que por definição é o conhecimento contrafactual de uma liberdade incompatibilista). Ao invés disso, ele cai sob o conhecimento natural de Deus ou sob o Seu conhecimento livre. (Agostinianos podem assumir diferentes pontos de vista aqui, mas esse debate interno não vem ao caso. Todos os Agostinianos irão afirmar que Deus tem um conhecimento contrafactual abrangente).

O resultado, então, é que os textos bíblicos citados em apoio ao Molinismo (os textos que implicam (1) que existem verdades contrafactuais sobre as livres escolhas dos seres humanos; e (2) que Deus conhece essas verdades) são igualmente consistentes com o Agostinianismo se não formos levantar a questão da natureza das escolhas dos seres humanos (libertária versus compatibilista). Logo, esses textos favorecem o Molinismo apenas diante de alternativas concorrentes que negam (1) ou (2) (como o Teísmo Aberto ou a visão da Presciência Simples). Mas eles não favorecem o Molinismo diante do Agostinianismo pelo simples fato de o último também afirmar (1) e (2).

Podemos ser tentados a ir mais longe e argumentar que, à luz das objeções filosóficas à ideia de que não se pode haver verdadeiros contrafactuais de liberdade incompatibilista (por exemplo, a chamada objeção base), esses textos bíblicos na verdade apoiariam o Agostinianismo e não o Molinismo. Eu suspeito que o molinista aqui irá retrucar que existem objeções filosóficas ao compatibilismo (isto é, argumentos a favor do incompatibilismo) que pesam tanto quanto os argumentos contra a existência de verdadeiros contrafactuais de liberdade incompatibilista. O que essa resposta não leva em conta (penso eu) é que o molinista tem que lidar com dois conjuntos de problemas: objeções ao conhecimento médio e objeções à liberdade indeterminística (por exemplo, a famosa objeção da sorte). De toda maneira, está claro que neste momento o debate mudou, saiu das implicações superficiais dos textos bíblicos citados acima para disputas metafísicas mais profundas.

E agora? Para onde vamos?

Vimos que em relação a duas afirmações bíblicas significativas (a providência divina abrangente e o conhecimento de Deus de contrafactuais) não dá ao Molinismo vantagem alguma sobre o Agostinianismo, uma vez que ambas as posições são consistentes com esses ensinamentos bíblicos (pelo menos de cara). Se queremos mostrar que o Molinismo possui melhor suporte bíblico do que o Agostinianismo (ou vice-versa), então precisamos encontrar alguma proposição p que é afirmada pelo Molinismo e negada pelo Agostinianismo (ou vice-versa) de forma que p goza de apoio bíblico positivo (isto é, existem textos bíblicos que, segundo a interpretação mais natural e defensável, e sem implorar questões filosóficas, asseguram ou implicam p).

Na próxima parte desta série, irei considerar algumas proposições candidatas a p.

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Notas:
[1] Para uma discussão mais detalhada sobre o ensinamento bíblico da providência divina, leia os capítulos  8-9 do livro Systematic Theology por John Frame , ou os capítulos 3-5  de The Reformed Doctrine of Predestination por of Loraine Boettner.
[2] William Lane Craig, “God Directs All Things,” em Four Views on Divine Providence, ed. Dennis W. Jowers (Zondervan, 2011), p. 82, enfâse adicionada. O “conhecimento natural” de Deus é o Seu conhecimento acerca de todas as possibilidades e necessidades, que é fundamentado na natureza essencial de Deus. O “conhecimento livre” de Deus é Seu conhecimento acerca de todas as verdades contingentes sobre o mundo real, esse conhecimento está fundamentado no eterno e livre decreto de Deus.

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Autor: James N. Anderson
Fonte: Analogical Thoughts
Tradução: Erving Ximendes
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A ideia de uma filosofia pautada nas Escrituras - 1/2

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A falta de clareza que presentemente domina a teologia pode ser reduzida, em larga medida, a certas circunstâncias na área da filosofia. Evidentemente, a teologia, como uma ciência especial, terá ainda problemas suficientes para solucionar, mesmo que os equívocos na filosofia sejam diminuídos. Mas, nesse caso, as questões remanescentes serão formuladas de maneira consideravelmente mais clara e serão, portanto, mais fáceis de serem respondidas.

Creio, portanto, que também a teologia possui um grande interesse no pensamento basilar na filosofia. Mas somente podemos esperar algo da filosofia quando ela compreender o sentido da Reforma e a busca por sua salvação num retorno às Sagradas Escrituras. Um esforço assim intenso em prol de um retorno às Escrituras já se encontrava presente na filosofia de séculos anteriores: pensemos nos Pais da Igreja, especialmente Agostinho, e, posteriormente, Bradwardine; pensemos também nos Reformadores e, dentre eles, chamemos um pelo nome: Calvino!

Assim como Bradwardine, Calvino foi chamado um “novo Agostinho”. Todavia, tal título se encaixa menos no Reformador genebrino do que em Bradwardine, pois, mais profundamente do que os outros – ainda mais profundamente do que Agostinho –, Calvino penetrou no mundo do pensamento das Sagradas Escrituras, de forma que, ainda hoje, nos é vantajoso reportamos a ele. O que é o calvinismo? Por calvinismo devemos entender uma glorificação acrítica das obras escritas por Calvino durante sua vida ou uma repetição literal daquilo que ele pensou?

E aquele que pensa assim possui o direito de recusar o título de “calvinista” a todos que pensam diferentemente do grande Reformador com relação ao primeiro ou último ponto? Evidentemente não. Devemos, pelo contrário, distinguir entre aquilo que em Calvino se deduz imediatamente de seus princípios e aquilo que somente faz sentido com as emergências de sua época e vida. Analisemos primeiramente os princípios de Calvino. Com isto, nos referimos aos pensamentos que não se contradizem, mas que conduzem todo o edifício de sua obra de vida. Com relação a isso, devemos mencionar, em primeiro lugar, o reconhecimento das Sagradas Escrituras como a Palavra de Deus.

Em suas Institutas e no Livro de Ordem Eclesiástica, nas suas controvérsias e comentários, em seus sermões e cartas: em tudo, em suma, o fim de todas as objeções se dá com a invocação da mais alta jurisdição: as Escrituras Sagradas. E ainda hoje esse “princípio formal” da Reforma permanece absolutamente válido para todo aquele que deseja ser designado como calvinista. De semelhante modo, também é de grande importância para a reforma da filosofia. Isto significa que não adotamos, juntamente com a filosofia atual, uma postura crítica com relação à Palavra de Deus e uma posição mais flexível contra a filosofia tradicional, mas, pelo contrário, que ao mesmo tempo em que nos curvamos perante a autoridade das Sagradas Escrituras, devemos investigar com total liberdade tudo aquilo que permanece no tocante à sua veracidade – e isto também com relação ao nosso próprio trabalho. Se tomarmos isso a sério, então, por toda parte, a proposição do problema muda e consequentemente também a resposta. Mas o reconhecimento das Sagradas Escrituras como a Palavra de Deus somente pode apresentar conteúdo substancial ao responder esta questão: “O que dizem as Escrituras?” A resposta calvinista para tal indagação pode ser resumida brevemente nos seguintes pontos:

1. As Escrituras Sagradas ensinam a soberania imediata do Deus que Se revelou na Sua Palavra sobre todas as coisas em todas as relações e todas as áreas; e, em conformidade com isso, as Escrituras distinguem claramente Deus, o soberano, e aquilo que foi criado por Ele.

2. Concebe a religião como unio foederalis (uma unidade pactual) que chega ao conhecimento da família humana mediante a revelação da Palavra também já antes da Queda.

3.  De semelhante modo, a resposta calvinista também afirma isto a respeito das circunstâncias após a Queda:

a) a depravação total da humanidade;
b) a morte como punição do pecado;
c) a revelação da graça do Deus soberano no Mediador.

Passemos agora aos pontos fundamentais da filosofia comparados com as Escrituras, isto é, aquelas concepções básicas que levam em conta as Sagradas Escrituras no estudo de todos seus tópicos. No desenvolvimento de seus elementos primordiais, a filosofia pode sutilmente se desviar da resposta calvinista acerca dos principais conteúdos da Bíblia. A filosofia, quando contrastada com as Escrituras, pode, pois, nos ensinar primeiramente a soberania imediata daquele Deus que Se revelou em Sua Palavra, soberania que está acima de todas as coisas – em cada relação e em cada domínio – e também distinguir claramente, de acordo com essa Palavra, Deus como o soberano e aquilo que foi por Ele criado.

1. Em primeiro lugar, gostaria de chamar a atenção para esta sub-cláusula: “que Se revelou em Sua Palavra”. Ora, isto não é supérfluo, pois a filosofia não jogou com nenhuma outra palavra tanto quanto o fez com o termo “Deus”. Por vezes, tal expressão indica uma unidade arquetípica; depois, Deus foi novamente identificado com a forma do mundo, etc. etc. etc. Foi particularmente na Idade Média que mais houve equívocos neste ponto, quando vários cristãos buscaram combinar o pensamento pagão com a filosofia contrastada com as Escrituras. Consequentemente, é necessário declarar explicitamente: quando alguém crê que é preciso sustentar, na filosofia, uma concepção acerca de Deus que difere daquele ensinada nas Escrituras, segue-se que esse “deus” é um outro que não o Deus das Sagradas Escrituras, de modo que a filosofia desse indivíduo não é calvinista.

2. Por virtude dessa Revelação escrita, a filosofia contrastada com as Escrituras aceita que Deus criou o céu e a terra, sustentando-os, nesse meio tempo, por meio da Palavra de Seu poder. Portanto, crê-se nele como o fundamento fixo (“hipóstase”) de todas as coisas, e distinguindo-O nitidamente das coisas visíveis e invisíveis que, tanto no céu quanto na terra, se encontram estabelecidas neste “firmamento”.

3. O que é soberania? Essa questão é iluminada, no melhor dos casos, mediante uma analogia da relação entre um monarca absolutista e seus súditos. No que tange aos seres humanos, esse relacionamento deve ser rejeitado e visto como inaceitável, justamente pelo fato de que se encontra enraizado numa concepção que deifica o monarca como o criador do Estado ou como o filho do deus daquela terra. Um soberano humano tal como esse formula uma lei e acredita estar acima dela. No entanto, apenas Deus é o criador de todas as coisas e de cada realidade. Somente Ele pode estabelecer leis reais ao cosmos – somente Ele é o verdadeiro soberano. Ora, entre Deus e o cosmos, existe um verdadeiro “limite”, que, obviamente, não pode ser espacial, dado que a espacialidade pertence ao âmbito da criação, e um limite espacial somente pode separar uma coisa no cosmos de outra coisa que também se encontra no mesmo cosmos, de maneira que esta está situada fora daquela coisa. Todavia, aqueles que creem que Deus se encontra fora do cosmos dessa maneira acima não fariam jus à confissão de Sua imanência. Contudo, ainda assim a palavra “limite” nos é útil, já que possui outro sentido: implica aqui em algo que torna possível uma clara distinção, sem que nos sejamos levados a pensar em termos de espacialidade. É esse o sentido presente quando dizemos: “O limite entre Deus e cosmos é a lei”. Tudo aquilo que se encontra acima da lei do cosmos é soberano sobre ele. Tal predicado, portanto, se aplica somente ao Deus das Escrituras. Tudo que pertence ao cosmos se encontra sob a lei de Deus e está sujeito a Ele, isto é, sujeito ao Senhor.

4. Dificilmente será necessário explanar a expressão “sobre todas as coisas”. Qualquer um que a utilize está aberto para o reconhecimento das diferenças entre as coisas e configurações no cosmos. Simultaneamente, tal expressão contradiz todo aquele que venha a invocar essas diferenças com o intuito de afirmar: “Eis aqui algo que não está sujeito ao SENHOR”. Por exemplo, quando aqueles calvinistas que honravam a monarquia disputavam o dito monarquista princeps legibus solutus est, isto é, “o príncipe se encontra acima da lei”, tal fato se deu de acordo com sua confissão: “Deus legibus solutus est” (em vernáculo: “Deus se encontra acima da lei”). Tais calvinistas, portanto, desse modo, absolutamente não negavam a autoridade do monarca; todos aqueles com certo conhecimento histórico se lembram de que especialmente Calvino distingue nitidamente entre reforma e revolução. O poder do soberano não é, de fato, divinamente soberano, todavia, nada impede que os poderosos deste mundo, que foram colocados para governar sobre os cristãos, sejam reconhecidos, contanto que não proíbam estes de servirem a Deus, em obediência à Sua Palavra.

5. É preciso expandir ainda mais esse pensamento com a seguinte adição: [Deus é soberano, sobre todas as coisas] “em cada domínio”. O cosmos possui outras diferenças individuais além daquelas anteriormente mencionadas entre “uma” e “outra” coisa. Um das variações diz respeito às áreas nas quais uma e a mesma coisa agem. A filosofia pagã geralmente tentou forçar essa rica diversidade num esquema de umas poucas distinções. Calvino, todavia, seguiu um curso de pensamento totalmente diferente. O mundo é obra de Deus, portanto, a criação é muito mais rica do que julga nossa percepção. Tendo isto como ponto de partida, Calvino demoliu todas as construções que somente conduziam a representações enviesadas. Desse modo, ele não apenas rejeitou a distinção católico-romana entre natureza e graça, mas também reconheceu – transcendendo, assim, a doutrina luterana deveras reducionista das estruturas sociais (“família”, “estado” e “igreja”) – a vida econômica em sua singularidade.

O reconhecimento da variegada multiplicidade das criaturas e o conhecimento de que elas, sem exceção, estão sob a lei de Deus, são a fonte da concepção calvinista de liberdade, que renuncia qualquer esforço revolucionário, e que mantém rigorosamente puros os ricos conteúdos dessa concepção. Em primeiro lugar, a liberdade cristã – a libertação do pecado, que nos impede de, em todas as áreas, servir a Deus de acordo com Sua Palavra. Relacionado mas ainda assim distinto disso, se encontra a liberdade que temos em mente quando falamos de igrejas livres, comunidades livres e universidades livres. Os alicerces dessa segunda liberdade se encontram enraizados na percepção de que aquela vida que foi liberta por Cristo do poder do pecado não pode negligentemente desprezar a rica diversidade presente na criação de Deus.

Mesmo num estado cuja população consistisse somente de cristãos, o poder dos oficiais civis deve ser distinguido do poder dos oficiais da igreja constituída. Se não levarmos em conta essa distinção, então um oficial de determinada área intervém reguladoramente na área do outro, e, subsequentemente, sua regulação sempre envolve uma distorção. E uma vez que justamente tal variedade é obra de Deus, é possível compreender, pois, que o calvinista experimenta sua libertação em Cristo também no reconhecimento dessa riqueza e na sua luta contra a estreiteza de mente que, por fim, termina na tiranização de uma área da vida por oficiais de outra área. Essa foi a luta do Dr. A. Kuyper pela soberania das próprias esferas [soberania das esferas].

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Autor: Dirk H. Th. Vollenhoven 
Fonte: All of Life Redeemed
Tradução: Fabrício Tavares
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