Anunciando o evangelho num mundo pós-moderno - 2/5

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Por Rev. Felipe Camargo


2. Anunciando a mensagem

Os profetas eram mensageiros do Senhor e, portanto, devem ser considerados bons modelos para nós hoje. Uma das coisas que podemos perceber nos profetas do Antigo Testamento é o fato de sua mensagem ter sido fundamentada no Pentateuco. Eles não traziam uma mensagem totalmente nova, mas se preocupavam em mostrar como as Escrituras podiam ser aplicadas aquele povo. Com isso em mente, o principio a ser aplicado ao mensageiro contemporâneo é que toda pregação deve ser fundamentada na Palavra de Deus.

Embora possa parecer óbvio que o pregador deva pregar a Bíblia, isso não parece ser tão natural assim. Na verdade, pode haver uma grande confusão nos púlpitos a respeito disso. Muitos sermões possuem aparência de pregação bíblica, mas, na realidade são pensamentos de homens e não de Deus. O simples fato de alguém levar a Bíblia para o púlpito não quer dizer que ele esteja pregando realmente a Bíblia. A tentação que o pregador pode sofrer é usar um texto bíblico apenas para dizer o que pensa e não o que a Bíblia realmente diz. 

Muitas vezes, ainda, a falha no púlpito acontece por uma preocupação em agradar aqueles que estão ouvindo. Paulo adverte que nos últimos dias as pessoas não aceitariam as verdades de Deus (2 Tm 3.1-4.5). É natural, portanto, que a pregação verdadeira não seja tão aceita pela maioria das pessoas. No entanto, quando um pregador deixa de pregar a Palavra de Deus simplesmente pela tentação de agradar a igreja, mostra que ele deixou de ser um pregador e que seu temor está em homens e não em Deus. Por isso, não está errado também afirmar que se a pregação não tem causado impacto na igreja certamente o pregador abandonou o compromisso de pregar a Bíblia. Como afirma Mohler, “se você está e paz com o mundo, você já abdicou do seu chamado”.[29] 

O que se defende aqui é que a autoridade de uma pregação não vem pela forma de falar ou pelo número de pessoas que se consegue persuadir, mas pela autoridade da Palavra de Deus. Quanto à isso, Robinson explica: “Um pregador pode proclamar qualquer coisa, com voz imponente, no domingo de manhã, depois de serem cantados os hinos. Mesmo assim, quando um pregador deixa de pregar as Escrituras, perde sua autoridade.”[30]  

Calvino, que era um grande expositor da Bíblia, não aceitava outra forma e pregação senão aquela que explicasse com fidelidade a vontade de Deus exposta na Bíblia:

Quando, porém, pareceu bem a Deus suscitar mais clara forma à Igreja, quis que fosse confiada à escrita, e assim selar sua Palavra, para que os sacerdotes daí buscassem o que ensinar ao povo e para que a essa regra se conformasse todo o ensino que se transmitisse. E assim, após a promulgação da lei, quando se ordena aos sacerdotes que ensinassem “pela boca do Senhor” [Ml 2.7], o sentido é que não ensinassem algo estranho ou alheio a esse gênero de ensino que Deus havia compreendido na Lei. Com efeito, lhes foi vedado acrescentá-la e diminuí-la.[31] 

Para Calvino, o motivo para se pregar biblicamente é porque somente através desta pregação que Deus se utiliza para edificar seu povo.[32] Calvino, neste ponto não aceita exceções: “Deve-se, porém, ser mantido por nós o que já citamos de Paulo: que a Igreja não é edificada de outro modo senão pela pregação externa.”[33]  

Por isso, a pregação expositiva se torna o melhor modelo de pregação, pois nela a preocupação do pregador é expor a Bíblia e somente isto. Por pregação expositiva deve ser entendida como aquela pregação cujo alvo principal é explicar e aplicar a mensagem de um determinado texto da maneira mais fiel possível. Mohler, sobre isso, diz:

“Eu defino pregação expositiva como aquele estilo de pregação cristã que tem como propósito central a apresentação e a aplicação do texto da Bíblia. [...] Sendo a Palavra de Deus, o texto da Escritura tem o direito de estabelecer tanto o conteúdo quanto a estrutura do sermão. A exposição genuína ocorre quando o pregador define o significado e a mensagem do texto bíblico e deixa claro como a Palavra de Deus estabelece a identidade e a perspectiva da igreja como povo de Deus.” [34] 

O mesmo afirma MacArthur de maneira resumida: “por expositiva quero dizer pregar de tal maneira que o significado da passagem bíblica se apresente completa e exatamente como Deus quer” (tradução minha).[35] Portanto, quem direciona a forma e o assunto do sermão é o texto e não o pregador.

No entanto, a pregação expositiva não é um simples método de pregação, mas um compromisso com a Palavra de Deus. Está correto Robinson ao afirmar que a pregação expositiva é mais uma filosofia do que um método.[36] Ligon Duncan explica melhor esse pensamento dizendo:

“Eu não me refiro à pregação expositiva como um estilo ou um método de pregação, mas ao compromisso de princípios autoconsciente com a pregação de tal modo que a própria Escritura forneça o tema principal, as verdades essenciais e aplicação principal na nossa proclamação” [37]

Assim, fazer uso de recursos homiléticos e didáticos não são errados desde que não interfira na mensagem central do texto. Na verdade, estes recursos devem ser dependentes do próprio texto.

Entretanto, o fato de um pregador tratar de alguma verdade bíblica, não significa que ele esteja sendo expositivo. É interessante notar que o grande pregador Lloyd-Jones recusava qualquer pregação que não fosse a pregação expositiva. Neste ponto ele chega a afirmar: “A verdadeira pregação é a exposição da Palavra de Deus. Não é mera exposição dos dogmas ou do ensino da Igreja.”[38] Em outro lugar ele ainda adverte que:

“É erro grave quando um homem impõe violentamente o seu sistema sobre qualquer texto em particular; porém, ao mesmo tempo, é vital que a sua interpretação a respeito de qualquer texto especifico seja confrontada e controlada por esse sistema, por esse corpo de doutrina e de verdades, que se encontram na Bíblia. A tendência de alguns homens que têm uma teologia sistemática, e à qual se apegam rigidamente, consiste em impô-la a textos particulares, assim forçando tais textos.” [39]

É nisso que se diferencia a pregação expositiva da pregação textual e temática. Na pregação textual e temática o pregador é tentado a impor a sua doutrina em determinados textos. Mas, como apresentado até agora, a preocupação do pregador é que o texto bíblico fale ao coração do crente e não um sistema doutrinário.

Para que isso ocorra, ou seja, que o pregador transmita realmente a Palavra de Deus, ele necessita de um estudo detalhado do texto bíblico. Usando as palavras de Mohler, “o pregador deve ser um servo da Palavra”.[40] Por isso, é importante que o pregador faça uma exegese cuidadosa da passagem. Olivetti demonstra a preocupação com a correta interpretação da Palavra de Deus dizendo que:

“Descuidar da interpretação da Bíblia é tender a pregar inverdades, a torcer ou truncar ou falsear as verdades da Palavra de Deus. E agir assim é ser infiel a Deus e à Sua Palavra, e é ser um traidor dos seus ouvintes e dos seus leitores.” [41]

Este talvez seja um grande motivo do porque a pregação expositiva não tenha tido tanto espaço nos púlpitos. A pregação expositiva exige, inevitavelmente, um estudo mais demorado e árduo que as demais formas de pregação.

De certa forma, toda essa preocupação com a pregação expositiva parte de um pressuposto teológico. Como bem explica MacArthur, a pregação expositiva deve ser uma resposta à certeza da inspiração e inerrância da Bíblia.[42] Ele afirma que a “infalibilidad demanda la exposición como el único método de predicación que preserva la pureza de la Escritura y alcanza el propósito para el cual Dios nos dio su Palabra”.[43] O mesmo afirma Mohler dizendo que se “cremos verdadeiramente que a Bíblia é a Palavra escrita de Deus – a revelação de Deus perfeita e divinamente inspirada, a pregação expositiva é a única opção válida para nós”.[44] 

Nesse sentido, Shedd também explica que “o poder transformador da Palavra depende do reconhecimento da autoridade divina.”[45] A igreja precisa obedecer à palavra pregada não pelo pregador, mas porque a autoridade vem de Deus. Se este compromisso e entendimento partir primeiramente do pregador será mais fácil para que a igreja também se comprometa. Shedd continua neste pensamento dizendo que “quando um mestre da Palavra demonstra um compromisso real com a revelação de Deus, os ouvintes estarão mais dispostos a aprender a se submeter igualmente aos conselhos divinos.”[46] 

Tanto MacArthur quanto Shedd evidenciam uma preocupação em mostrar a grande tarefa que o pregador tem nas mãos. Com esse ensino eles refletem um princípio que se estende desde a reforma, que o pregador fiel à Escritura é na verdade a própria “boca de Deus”.[47] Para a teologia reformada, pregar biblicamente não é falar algo acerca da Palavra de Deus. Pelo contrário, a pregação bíblica se torna a própria Palavra de Deus. Sobre isso, Anglada afirma:

“Assim como a palavra inspirada não deixa de ser divina, embora escrita por autores humanos em pleno uso de suas peculiaridades humanas, assim também a palavra pregada não deixa de ser de Deus por ser mediada pela personalidade do pregador”. [48] 

Calvino, em suas institutas diz:

“Mas, os que pensam que a autoridade da doutrina é desprezada pela baixa condição dos homens que foram chamados a ensiná-la, estes põem à mostra sua ingratidão, porquanto, entre tantos dotes preclaros com os quais Deus adornou o gênero humano, esta prerrogativa é singular: que a si digna consagrar as bocas e línguas dos homens, para que neles faça ressoar sua própria voz.” [49]

E o mesmo em seus comentários:

A fé procedente do evangelho seria deveras frágil, se fôssemos nós olhar somente para os homens. Toda a sua autoridade procede de reconhecermos que os homens são meros instrumentos de Deus e de ouvirmos Cristo nos falando por meio de lábios humanos. [50]

Portanto, o pregador não pode se esquecer do grande peso que carrega em seus ombros. Ele deve ser fiel à Palavra do Senhor para que ele seja a própria voz de Deus. Ele não é apenas um orador, mas é um mensageiro de Deus. Ele não pode simplesmente estar preocupado em agradar pessoas, mas preocupado em agradar aquele que envia a mensagem ao seu povo. 

Uma última observação deve ser feita sobre a pregação expositiva. Afinal, até essa forma de pregação tem causado certa confusão nos pregadores. A função da exegese na pregação é apenas para “oferecer uma boa base para descobrir o sentido do texto”.[51] Mas, a exegese não deve ser apresentada em um sermão. Com essa preocupação em mente Thomas explica que a pregação deve sempre ser feita de maneira didática. Em seu artigo sobre pregação expositiva ele mostra que a pregação expositiva não é um comentário exegético sobre um determinado texto.[52]

Se o primeiro dever de um pastor é ser instruído no conhecimento da sã doutrina, e o segundo é reter sua confissão com firmeza e inusitada coragem, o terceiro é que adapte o método do ensino visando a produzir edificação, e não divague, movido pela ambição, por entre as sutilezas da curiosidade frívola; mas, ao contrário, que busque tão-somente o sólido avanço da Igreja. [53]

Se a mensagem vem carregada de informações complexas o pregador não está atingindo o objetivo da pregação. Mas, o pregador deve aprender a selecionar bem o conteúdo e apresentar a mensagem de maneira que até o mais simples consiga entender e ser edificado.

Continua nos próximos dias...

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Notas:
[28] ELLSWORTH, Roger. Pregue a Palavra. In: ASCOL (Ed.). Amado Timóteo. São José dos Campos: Fiel, 2005. Cap.15. p. 236.
[29] Ibid. p. 22.
[30] ROBINSON. Pregação Bíblica. p. 20
[31] CALVINO, João. As Institutas. 2ª ed. São Paulo: CEP, 2006. (Vol. 4). IV.8.6.
[32] CALVINO, João. As Pastorais: 1 Timóteo, 2 Timóteo, Tito e Filemon: Comentário à sagrada escritura. Tradução de MARTINS. São Paulo: Edições Paracletos, 1998. p. 313.
[33] CALVINO. As Institutas. IV.1.5.
[34] MOHLER, R. Albert; Jr. Pregar com a cultura em mente. In: A pregação da cruz. São Paulo: CEP, 2010. Cap.3. p. 64.
[35] MacARTHUR, John. El mandato de la infalibilidade biblica. In: MacARTHUR (Ed.). El redescubrimiento de la predicacion expositiva. Nashiville, Tenn.: Caribe, 1996. Cap.2. p. 41.
[36] ROBINSON. Pregação Bíblica. p. 22.
[37] DUNCAN III, J. Ligon. Pregar Cristo a Partir do Antigo Testamento. In: DEVER (Ed.). A Pregação da Cruz. São Paulo: CEP, 2010. p. 37,38.
[38] LLOYD-JONES, David Martyn. A Pregação. São Paulo: PES, [19--]. p.
[39] LLOYD-JONES, David Martyn. Pregação & pregadores. 2ª ed. São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 1986. p. 48.
[40] MOHLER. A primazia da pregação. p. 17.
[41] OLIVETTI, Odayr. O púlpito e a interpretação da Bíblia. In: PIERATT (Ed.). Chamado para servir. São Paulo: Vida Nova, 1994. Cap.16. p. 253-266. p. 259.
[42] MacARTHUR. El mandato de la infalibilidade biblica. p. 41.
[43] Ibid. p. 42.
[44] MOHLER, R. Albert; Jr. Deus não está em silêncio. São José dos Campos: Fiel, 2011. p. 72.
[45] SHEDD, Russell Philip. Palavra viva. São Paulo: Vida Nova, 2000. p.13
[46] Ibid. p. 56.
[47] ANGLADA, Paulo R. B. Introdução à Pregação Reformada. Ananindeua: Knox Publicações, 2005. p. 60.
[48] ANGLADA, Paulo R. B. Vox Dei: A Teologia Reformada da Pregação, http://geocities.com/arpav/biblioteca/voxdei.html. 19 de agosto, 2008.
[49] CALVINO. As Institutas. IV.1.5.
[50] CALVINO, João. Efésios. São Paulo: Edições Paracletos, 1998. 75.
[51] SHEDD. Palavra viva. p. 67
[52] THOMAS, Derek. A pregação Expositiva: Mantendo os olhos no texto. In: MOHLER, BOICE, THOMAS and BEEKE (Ed.). Apascenta o meu rebanho. São Paulo: CEP, 2009. p. 52
[53] CALVINO. As Pastorais: 1 Timóteo, 2 Timóteo, Tito e Filemon. p. 313-314.

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Divulgação: Bereianos

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Anunciando o evangelho num mundo pós-moderno - 1/5

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Anunciando o evangelho num mundo pós-moderno - 5/5
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Anunciando o evangelho num mundo pós-moderno - 1/5

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Por Rev. Felipe Camargo


1. Conhecendo os nossos ouvintes

O pregador, para que traga uma mensagem que atinja os ouvintes, é imprescindível que conheça tanto o meio em que a igreja está inserida quanto os particulares de cada membro. “Os melhores pregadores são sempre pastores diligentes que conhecem as pessoas de sua área e congregação, e compreendem o escárnio humano em toda a sua dor e prazer, glória e tragédia”.[1]  

1.1. Conhecendo a cultura

Primeiramente o pregador precisa prestar atenção no meio em que a igreja está inserida. Ele não pode esquecer que a igreja pertence à uma cultura sem Deus. É necessário, como afirma Stott, que se estude os dois lados do abismo.[2]  

Quanto a isso, Mohler diz que há alguns acreditam que a cultura é irrelevante para a pregação.[3] No entanto, como ele mesmo afirma, todos estão profundamente arraigados na cultura. Não somente os pregadores são influenciados pela cultura, mas as variadas características da cultura contribui na modelagem de uma determinada congregação.[4] É por esse motivo que John Stott alerta para a necessidade do pregador parar um tempo para ler ou assistir jornal, ler resenhas de livros seculares mais influentes, se possível até lê-los, assistir filmes, entre outras coisas.[5] Stott ainda afirma:

“los estudios bíblicos y teológicos no conforman por sí solos la buena predicación. Son indispensables, pero a menos que estén complementados con estudios contemporáneos pueden mantenernos en un desastroso aislamiento a un lado del abismo cultural.” [6]  

Afinal, igreja não está isenta de receber influencias externas a ponto de influenciar sua maneira de pensar e agir.

O próprio contexto levanta dúvidas na cabeça do cristão. Por isso, a responsabilidade do pregador é ajudar os ouvintes a entender questões levantadas na atualidade. Ele é responsável em ensinar a verdade de maneira que desenvolva nos ouvintes uma mente cristã para conseguir discernir os grandes problemas de hoje e deste modo amadurecer em Cristo.[7] 

Um claro exemplo das dificuldades que o pregador contemporâneo pode encontrar é o fato de se encontrar num mundo pós-moderno. Mohler dedica um capítulo inteiro para uma análise sobre a pós-modernidade mostrando a forma de pensar e de agir do homem que vive neste período.[8] Ele termina o capítulo mostrando o grande desafio que o pregador tem diante desta realidade.

Leandro Lima destaca que há 3 formas de reagir diante da pós-modernidade. A primeira, segundo ele, é a “aceitação simples”. Com isso ele quer dizer que é aceitar a existência da pós-modernidade como algo irreversível e entender que a única opção é se adaptar. Essa adaptação envolve tanto a mensagem como o método da apresentação.[9] Mohler afirma que há alguns que “permitem que a cultura seja dominante em seus ministérios, de modo que ela se torne tão fascinante que eles próprios transformam em representante de um ministério aculturado”.[10] 

A segunda alternativa apresentada é a “negação simples”. Essa alternativa nega a existência do pós-modernismo e valoriza as tradições do passado tanto no conteúdo como na forma de apresentar a mensagem.[11] No entanto, Fergunson está correto ao afirmar que a “exposição bíblica deve falar às pessoas sentadas nos bancos das igrejas hoje, não àqueles que sentaram neles há centenas de anos”.[12] Lima também alerta sobre o grande perigo desta postura: “ao negar a realidade da época atual, faz-se necessário um esforço por manter a mensagem e o método da apresentação, mas acaba sendo inevitável o isolacionismo e a dificuldade de ser ouvido”.[13] 

A terceira opção que Lima dá é a “aceitação crítica”.[14] Nesta aceitação crítica pode-se tanto ter uma avaliação da pós-modernidade para simplesmente mostrar que ela está totalmente errada, ou perceber que há pontos positivos e rejeitar apenas aquilo que influencie na mensagem.[15] Esta terceira alternativa, como também colocado por Lima, é a melhor opção para os pregadores contemporâneos. Nesse mesmo sentido, Mohler afirma que “neste tempo crítico de transição cultural e intelectual, a tarefa de pregação tem de ser entendida como uma chamada apologética.”[16] 

Olhando para a pregação de Joel, a terceira opção é a que melhor se encaixa com sua posição. Portanto, é necessário que o pregador esteja atento aos perigos oferecidos pela pós-modernidade. Sem interferir no conteúdo, o pregador precisa observar o que é necessário adaptar ou se opor.

A seguir segue um texto do Rev. Nicodemus que dá uma pequena análise sobre a época em que nós vivemos:

LENDO A BÍBLIA HOJE
Alguns aspectos da pós-modernidade - nome que se dá à época em que estamos vivendo - se constituem em sérios desafios à leitura bíblica feita pelos reformados, mesmo aqueles que nunca ouviram o nome "pós-modernidade". 
Os reformados têm tradicionalmente interpretado as Escrituras partindo de alguns pressupostos oriundos da Reforma protestante. O mais importante deles é que as Escrituras são divinas, em sua origem, infalíveis e inerrantes no que ensinam, seguras e certas no seu ensino. Para eles, a Bíblia é a revelação da verdade. Em decorrência, só existe uma religião certa, a que se encontra revelada na Bíblia. Logo, no raciocínio reformado, tudo o que é necessário à vida eterna e à vida cristã aqui nesse mundo estão claramente reveladas na Escritura. E tais coisas são claramente expostas nela.
Existem alguns aspectos da pós-modernidade que desafiam esse pressuposto central da interpretação reformada das Escrituras.
1) O conceito de tolerância. Eu me refiro à idéia contemporânea de total complacência para com o pensamento de outros quanto à política, sexo, religião, raça, gênero, valores morais e atitudes pessoais. Neste conceito de tolerância, as pessoas nunca externam seu próprio ponto de vista de forma a contradizer o ponto de vista dos outros. Esse tipo de tolerância não deve ser confundida com a tolerância cristã, pois ela resulta da falta de convicções em questões filosóficas, morais e religiosas: "A tolerância é a virtude do homem sem convicções" (G. K. Chesterton). A tolerância da pós-modernidade é fortalecida pela queda na confiança na verdade, atitude típica de nossa época.
É preciso observar que existe uma tolerância exigida do cristão. Devemos tolerar as pessoas. Todavia, não temos de tolerar suas crenças, quando estas contrariam a verdade de Deus revelada nas Escrituras. Temos o dever de ouvir o que elas tem a dizer, e aprender delas naquilo em que se conformam com a verdade bíblica. Porém, tolerância ao erro, quando a verdade bíblica está em jogo, é omissão.
A tolerância tão característica da pós-modernidade pode afetar a interpretação da Bíblia levando as pessoas a interpretá-la a partir do conceito de "politicamente correto." Evita-se qualquer leitura, interpretação ou posicionamento que venha a ser ofensivo à sociedade ou comunidade a que se ministra. Textos bíblicos que denunciam claramente determinados comportamentos morais são domesticados com uma leitura crítica que os reduz a expressões retrógradas típicas dos moralistas machistas do século I. Textos que anunciam a Cristo como o único caminho para Deus são interpretados de tal forma a não excluir a salvação em outras religiões.
2) O inclusivismo. Num certo sentido, é o resultado do multiculturalismo do mundo pós-moderno. Não há mais no mundo ocidental um país com uma cultura única e uma raça homogênea. Países ocidentais são multiculturais e têm uma mescla de diversas raças. Para que não se seja ofensivo, e para que se possa conviver harmoniosamente, é necessário ser inclusivista. Isso significa dar vez e voz a todas as culturas e raças representadas.
Na sociedade pós-moderna, o conceito se estende para incluir os grupos moralmente orientados. Significa especialmente repartir o poder com as minorias anteriormente oprimidas pelas estruturas de poder, como por exemplo, os homossexuais, pobres e minorias étnicas.
Existem coisas boas do inclusivismo multiculturalista, como por exemplo, estudos nos meios acadêmicos sobre a cultura de raças minoritárias e oprimidas no ocidente, como africanos, hispânicos e orientais. Também a criação de bolsas de estudos e empregos para membros destas minorias raciais, bem como de grupos oprimidos, como as mulheres. Ainda digno de nota é a luta contra discriminação baseada tão somente em raça, religião, postura política e gênero.
Mas existem coisas que nos preocupam no inclusivismo. A maior de todas é que o inclusivismo exclui qualquer juízo de valor em termos morais, religiosos, e de justiça. Tem que ser assim para que o relacionamento multicultural e multi-moral funcione. 
O inclusivismo acaba também influenciando na interpretação bíblica. Sua mensagem é abordada do ponto de vista do programa das minorias. Por exemplo, a chamada teologia da libertação (meio defunta hoje) e as teologias feministas.
3) O relativismo. No que tange ao campo dos valores e dos conceitos morais e religiosos, é a idéia de que todos os valores morais e as crenças religiosas são igualmente válidos e que não se pode julgar entre eles. A verdade depende das lentes que alguém usa para ler a vida. O importante é que as pessoas tenham crenças, e não provar que uma delas é certa e a outra errada. Não há meio de se arbitrar sobre a verdade porque não há parâmetros absolutos. Desta forma, alguém pode crer em coisas mutuamente excludentes sem qualquer inconsistência.
Existem alguns perigos no relativismo quanto à leitura da Bíblia. Primeiro, o relativismo acaba por minar a credibilidade em qualquer forma de interpretação que se proponha como a correta. Segundo, acaba por individualizar a verdade. Cada pessoa tem sua verdade e ninguém pode alegar que a sua é superior à dos outros. Portanto, ninguém pode ter a pretensão de converter outros à sua fé.
Muitos cristãos são tentados a suavizar a sua interpretação da mensagem do Evangelho, excluindo os elementos que não são "politicamente corretos" como: pecado, culpa, condenação, ira de Deus, arrependimento, mudança de vida. Acaba sendo uma tentação de escapar pela forma mais fácil do dilema entre falar todo o conselho de Deus ou ofender as pessoas.
Esses são alguns dos perigos que a pós-modernidade traz à leitura e interpretação das Escrituras. Reconhecemos a contribuição da pós-modernidade em destacar a participação do contexto e do leitor na produção de significado, quando se lê um texto. Porém, discordamos que isso invalide a possibilidade de uma leitura das Escrituras que nos permita alcançar a mensagem de Deus para nós e de ouvir a voz de Cristo, como Ele gostaria que ouvíssemos.[17] 

1.2. Conhecendo a igreja

O conhecimento só será mais aprofundado a partir do momento que o pastor conhece a seu próprio rebanho. Para que a mensagem seja eficaz, a primeira atenção do pregador deve estar direcionada à própria igreja. Para Stott, a melhor forma de conhecer o povo é fechar a boca e abrir os olhos e ouvidos. [18] De fato, como ele mesmo reconhece, é uma tarefa difícil para o pregador se dispor a ouvir mais e falar menos. 

Falando sobre esta necessidade de aproximação e cuidado com o rebanho, Lewis diz: “O coração do verdadeiro pastor cuidará de se identificar com as pessoas, do mesmo modo que o Bom Pastor dá a sua vida pelas suas ovelhas.”[19] Ele argumenta ainda que: “muitos de nossos ouvintes hoje anseiam por um pregador que capta, cuide e cresce, um que se relaciona com as pessoas”.[20]  

Neste assunto Jay Adams traz um grande auxílio sobre como conhecer melhor a igreja pastoreada. Ele diz que para conhecer o seu público há pelo menos três formas básicas, sendo eles: através de contato informal, aconselhamento e contato formal.[21] 

Por contato informal ele entende que são encontros que não fazem parte das programações da igreja. São nestas conversas que o pregador pode conhecer com mais intimidade seus membros, pois, nestes momentos eles mostram quem realmente são. Corretamente Stott afirma que também é indispensável que se tenha conversas com as diferentes gerações de uma congregação para uma compreensão melhor da igreja como um todo.[22] Portanto, esses encontros e conversas não podem ser vistas como um tempo desperdiçado. 

O aconselhamento é outra forma de obter um melhor conhecimento do povo que pastoreia. Adams está certo ao afirmar que para que o crente atinja a maturidade em Cristo ele precisa da pregação pública e pregação privada.[23] Malone também lembra que: “Nosso ministério público na pregação da Palavra é a fundação de tudo o que fazemos. No entanto, nem nosso Senhor e nem seus discípulos negligenciaram o trabalho pessoal ao executar estas prioridades”.[24] Mas, o que muitos pastores podem esquecer é que ele deve utilizar o aconselhamento também para conhecer melhor o seu rebanho. Afinal, o aconselhamento ajuda o pastor conhecer áreas da vida do crente que a conversa informal não atinge. Por isso, o pastor deve estimular suas ovelhas a contar sobre sua vida particular para conhecê-las melhor.[25] Medos, pecados, fraquezas, frustrações, desejos, entre outras coisas são conhecidas profundamente apenas em aconselhamentos. Atos 20.20 mostra que esta era uma prática também de Paulo: “jamais deixando de vos anunciar coisa alguma proveitosa e de vo-la ensinar publicamente e também de casa em casa”. Em outras palavras, a pregação precisa do aconselhamento, tanto quanto o aconselhamento precisa da pregação. [26]

Ao falar sobre contato formal Adams parte de uma análise sistemática da congregação, principalmente ao chegar a uma nova igreja. Para que isso ocorra o primeiro passo é observar o que foi aprendido naquela igreja no decorrer dos anos. Essa análise pode ser adquirida também através de conversas com pessoas mais antigas daquela igreja. É necessário, entretanto, que não seja conversado apenas com uma única pessoa, mas com pessoas de diferentes grupos da igreja. No entanto, deve-se observar que esta análise não deve ser feita apenas ao chegar em uma nova congregação, mas, como o próprio Adams sugere, deve ser feita periodicamente.[27] Essa observação constante que o pastor faz o ajudará perceber quais as áreas que a igreja precisa desenvolver melhor e quais os temas devem ser abordados no púlpito.

Ellsworth, escrevendo à um personagem fictício chamado Timóteo, diz: “Você precisa estudar a Palavra, mas também precisa estudar o povo. Este tipo de estudo só pode ser feito, se você estiver entre eles e ministrando para eles”.[28] Desse modo o pregador conseguirá fazer uma aplicação de maneira apropriada visando a mudança necessária para aquela igreja.

Continua nos próximos dias... 

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Notas:
[1] STOTT, John. La predicación. Grand Rapids: Libros desafio, 2000. p. 185.
[2] Ibid. p. 185.
[3] MOHLER. Pregar com a cultura em mente. p. 63
[4] LEWIS, Ralph. Pregação indutiva. São Paulo: CEP, 2003. p. 32.
[5] STOTT. La predicación. p. 186.
[6] Ibid. p. 184.
[7] Ibid. p. 166-167.
[8] MOHLER. Pregar com a cultura em mente. P.125-142.
[9] LIMA, Leandro Antonio de. O Futuro do Calvinismo. São Paulo: CEP, 2010. p.120.
[10] MOHLER. Pregar com a cultura em mente. p. 63-64.
[11] LIMA. O Futuro do Calvinismo. p. 123.
[12] FERGUNSON, Sinclair B. Pregando ao Coração. In: MOHLER, BOICE, THOMAS and BEEKE (Ed.). Apascenta meu rebanho. São Paulo: CEP, 2009. Cap.7. p. 122
[13] LIMA. O Futuro do Calvinismo. p. 124.
[14] Ibid. p. 125.
[15] Lima chama isso de “crítica negativa” e “crítica positiva”. Ibid. p. 125-127.
[16] MOHLER. Deus não está em silêncio. p. 134
[17] LOPES, Augustus Nicodemus. Lendo a Bíblia hoje. Acessado em: http://tempora-mores.blogspot.com.br/2007/09/lendo-bblia-hoje.html. 07 de Abril de 2014.
[18] STOTT. La predicación. p. 185.
[19] LEWIS. Pregação indutiva. p. 29.
[20] Ibid. p. 29.
[21] ADAMS, Jay E. Preaching with purpose. Grand Rapids: Zondervan, 1979. p. 34.
[22] STOTT. La predicación. p. 186.
[23] ADAMS. Preaching with purpose. p. 36-37.
[24] MALONE, Fred. Faça o trabalho pessoal. In: ASCOL (Ed.). Amado Timóteo. São José dos Campos: Fiel, 2005. Cap.10. p.145.
[25] STOTT. La predicación. p. 185.
[26] ADAMS. Preaching with purpose. p. 37.
[27] Ibid. p. 39-40

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Divulgação: Bereianos

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Por Rev. Felipe Camargo


A Bíblia nos diz que qualquer coisa que fazemos deve ser para a glória de Deus. Se algo não glorifica a Deus, então, isso é pecado. Mas como fazer para glorificar a Deus sendo um pai? É possível ser pai e não glorificar a Deus? Gostaria que refletíssemos em pelo menos quatro pontos sobre isso. 

Primeiro, você não glorificará a Deus como pai se seu filho for a alegria e o centro da sua vida. Se seu filho é tudo para você, então ele é um ídolo para você e não podemos servir a dois senhores. A Bíblia diz que ninguém da nossa própria família deve ser mais importante do que o dia da sua conversão. Portanto, Deus deve vir em primeiro lugar!

Segundo, você não glorificará a Deus como pai se você não ensiná-lo acerca de Deus! Salmo 78 diz que precisamos contar sobre “os louvores do SENHOR, e o seu poder, e as maravilhas que fez”. Se seu filho não conhece as histórias bíblicas nem consegue citar versículos bíblicos, mostra que você não tem falado sobre Deus para ele em sua casa. Não estou me referindo a levar a igreja, mas, de falar com ele sobre Deus quando ele acorda, quando vai dormir, quando estiver sentado no sofá ou quando estiver passeando com ele (Dt 6.6,7). Quer saber se você tem glorificado a Deus como pai? Examine o quanto seu filho conhece da Palavra de Deus e sobre quem é Deus. 

Terceiro, você não glorificará a Deus como pai se você não orar com ele e por ele. É interessante que todos os pais, no dia de batizar o filho, se comprometem com toda a alegria na frente da igreja e diante de Deus que vai orar com ele e por ele. Mas, infelizmente, muitas vezes isso não é cumprido nem na primeira semana após o batizado. É interessante notar que os pais só lembram de orar pelos filhos quando crescem e se distanciam da igreja. Só se lembram de orar por eles quando começam  a dar trabalho. Ensine-o a orar e confiar no SENHOR desde pequeno. Ensine-o a falar com o verdadeiro Pai Celeste. 

Quarto, você não glorificará a Deus como pai se você não levá-lo a casa do SENHOR. Os filhos não são nossos, mas de Deus! Foi isso que motivou Ana a deixar o pequeno Samuel com o sacerdote Eli no templo. Inclusive, se o próprio pai não tiver prazer de estar na casa do SENHOR, dificilmente o filho terá. A obrigação de pai é mostrar que não existe lugar melhor para estar do que a casa do Pai juntamente com seus outros irmãos na fé. Melhor do que encaminhá-lo para uma boa faculdade ou uma grande empresa é ensiná-lo o caminho da igreja. Quer ter filhos abençoados? Leve-os onde eles poderão receber estas bênçãos. 

Que tipo de pai você tem sido? Um bom pai que ama o SENHOR acima de todas as coisas, que ensina as Sagradas letras ao seu filho, que ora com ele e por ele e que o leva para se encontrar com Deus? Ou você tem sido um péssimo pai que não tem buscado a glória de Deus na educação de seu filho? Se for a primeira opção, parabéns, você tem mostrado o caminho da salvação. Se for a segunda opção, infelizmente você tem empurrado seu filho para o inferno e você será cobrado por isso! Seja um bom pai e busque a glória de Deus na vida do filho e da família. 

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Fonte: Pastoral IP Estoril. Boletim nº 55 - 10/08/2014.
Divulgação: Bereianos
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A oração na vida do Pastor

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Por Rev. Felipe Camargo

Introdução:

Os pastores são pessoas escolhidas por Deus para exercer o ministério da Palavra. No entanto, a expressão “ministério da Palavra” pode levar muitos pastores e pregadores menosprezar suas reais funções diante de Deus. Atos 6.4 demonstra que a preocupação principal do pastor deve ser a oração e o ministério da palavra.

Os pastores realizam um grande número de atividades em suas igrejas: visitação, aconselhamento, administração eclesiástica, etc. O ensino e a pregação da Palavra de Deus também é algo que exige muito tempo do pastor, desde a preparação até a exposição. Por causa desse grande número de atividades o pastor pode ser tentado a deixar de orar. Por imaginar ser dispensável, ou por falta de compreensão, ou por qualquer outro motivo, ignoram a sua necessidade. 

Por esse motivo, apresento, neste trabalho, a urgência da oração na vida dos ministros de Deus. Muito embora o temas “pregação” e “oração” serem desenvolvidos neste trabalho, o tema da oração será o tema central.

1. A Oração e o ministério

1.1. Oração e a dependência do Pastor

O primeiro ponto a ser desenvolvido é a dependência do pastor. Como todo cristão ele é dependente de Deus. Geralmente a falta de oração na vida de um pastor é a falta de compreensão do real significado e motivo dela. O ministro de Deus não realiza seu ministério por suas próprias forças. Ao se colocar diante de Deus em oração ele está demonstrando submissão à vontade de Deus. Sua pregação não pode ser melhor que sua oração, pois isto não está em acordo com os ensinos de Cristo.[1] Holdt afirma que:

“O ministro que não ora por seu rebanho não é ministro de jeito nenhum. Ele é orgulhoso, porque faz seu trabalho como se pudesse obter algum sucesso sem o poder de Deus”.[2]  

Rosscup neste sentido argumenta que “se Jesus, o homem, dependeu do poder divino, quanto mais necessitamos nós de fazer o mesmo”.[3] De fato, Deus não precisa da oração do líder da igreja para realizar a sua obra, mas o pastor precisa de Deus para realizar qualquer coisa. “Uma vida de oração é o calvinismo em sua melhor forma; é uma declaração simples, aberta e honesta na presença de Deus, de total impotência”.[4]  

Neemias é um grande exemplo neste ponto. Como líder do povo de Deus, demonstrava grande dependência através da oração. A oração era algo comum para ele. Logo no primeiro capítulo encontramos Neemias jejuando e orando a Deus. Enquanto estava na presença do rei Artaxerxes precisando dizer palavras sábias a ele, Neemias orou (Ne 2.4). Por diversas vezes ele roga a Deus com a expressão “lembra-te” (Ne 5.19; 6.14; 13.14,22,29,31) mostrando sua dependência.

No mesmo sentido, Jesus é outro grande exemplo. Sendo o próprio Deus ele demonstrava sua dependência do Pai em todo momento através da oração. Do começo ao fim do seu ministério esteve em oração. 

Ferguson nesse sentido afirma que a “oração é a expressão de fraqueza e de necessidade”. É por esse motivo que oramos, porque reconhecemos nossa incompetência apresentando “nossos rogos porque não podemos satisfazer-nos a nós mesmos”.[5] 

1.2. oração pelo ministério

A oração pelo próprio ministério é algo primordial. De fato o pastor deve orar pelo rebanho, mas antes disso, o pregador precisa ter o costume de orar por si e por seu próprio ministério. Russell Shedd argumenta que a oração é o meio ordenado por Deus para levantar os líderes da Igreja. Moisés foi levantado em resposta do clamor do povo. Os discípulos foram escolhidos após Jesus ter passado uma noite inteira orando.[6] E ressalta, também, que após tê-los escolhidos passou a ensiná-los sobre a necessidade da oração.[7] 

Essa oração deve ser praticada não somente pelos próprios pastores, mas por todos os que estão à sua volta. Cristo em sua oração, ora pelos seus discípulos e pela missão que eles receberam (Jo 17). Paulo em Romanos 15.30-33 pede para a igreja orar pelo seu ministério para que assim ele fale com ousadia. “Esse tipo de oração deveria estar nos nossos lábios constantemente, apresentada a Deus em favor daqueles cuja tarefa é anunciar o evangelho a outros”.[8] 

Portanto, para que o pregador possa realizar sua tarefa de maneira que agrade a Deus e tenha o melhor desempenho possível em seu ministério, é preciso orar pelo seu ministério e conseguir fazer seu rebanho esteja sustentando-o em oração.[9]  

1.3. A vida de oração do Pastor

É necessário entender que a oração deve fazer parte da vida do pastor. Não somente para a pregação em si, mas primeiramente pelo fato do ministro ser um cristão. No entanto, a sua vida de oração deve se destacar acima dos outros cristãos, pois senão “estaria desqualificado para o cargo que assumiu”.[10]  

Ao olharmos para a história de grandes pregadores, veremos que a oração sempre foi algo primordial e destacado.[11] James E. Rosscup utiliza grande parte do seu artigo “A Prioridade da pregação na pregação” relatando a importância que alguns desses grandes pregadores e professores de pregação dão a oração.[12] Neste artigo ele cita o professor de homilética David Larsen que diz que é mais importante ensinar seus alunos a orar do que a pregar.[13] 

Esta relação entre a oração e o pastor é um conceito ressaltado desde o princípio da Igreja. Os apóstolos ao nomearem os diáconos no capítulo 6 de Atos, o fazem para que não deixassem de lado sua obrigação de pregar a Palavra. Neste instante, ao dar as características dos diáconos, eles ressaltam qual seria a obrigação dos apóstolos: oração e ao ministério da Palavra.

Neste sentido, podemos perceber que aquele que se consagra ao ministério da Palavra tem a obrigação de ter uma vida de oração. Não há como um pastor se preocupar com a vida espiritual de sua igreja se ele não se preocupa com a sua. Ele deve antes de ensinar a Igreja a como ter uma vida espiritual ser um exemplo para ela.[14] Conforme Holdt:

“Os pastores precisam, invariavelmente, orar, assim como todas as outras pessoas. Eles devem fazer aquilo que todos os cristãos fazem: começar o dia com oração, programar-se a passar o dia com oração, e terminar o dia com oração, porém eles precisam ir além disso.” [15] 

2. O Pastor como pregador

Todo pastor deve ser pregador. Como foi apresentado acima, uma das prioridades do pastor deve ser a pregação. Desprezar esta tarefa é ignorar uma de suas principais tarefas. Ele deve se esmerar em ser um bom transmissor da Palavra de Deus. Portanto, uma das grandes questões a ser tratada é a relação entre a oração e a pregação.

2.1. A prática da oração pelo pregador

Tanto Lloyd-Jones quanto Spurgeon enfatizam que a oração deva ser constante na vida do pregador. Não somente no ato de orar, mas todo seu serviço como ministro está relacionado com oração cumprindo a ordem: “orai sem cessar”.[16] Ou seja, a todo o momento o pregador deve estar em espírito de oração.

Stott ressalta que muitos pastores têm seus ministérios em decadência por não darem a devida atenção ao ministério ao qual foram chamados: da Palavra e de oração. Argumenta, também, que estes pastores têm uma Igreja que não realiza sua obra por ter um pastor que trabalha por eles ao invés de se dedicar à pregação e a oração.[17] 

Neste sentido temos um grande exemplo do puritano Richard Baxter. Seu ministério era realizado de duas formas: pregações e reuniões pastorais com os membros para discussões e oração.[18] Ele mesmo afirma que é necessário conhecer o seu rebanho para poder pregar e orar por ele.[19] É necessário, portanto, orar por todo o rebanho.[20] Baxter também afirma:

“Como a oração também é força motora na realização da nossa obra, pois quem não ora por seu rebanho não lhe pregará poderosamente. Se não persuadirmos Deus a dar-lhes fé e arrependimento, não teremos probabilidade de os persuadir a crer e arrepender-se. [...] Se não persuadirmos Deus a ajudar os outros, nosso trabalho será vão.”[21]  

Portanto, assim como Holdt ressalta, é de estrema importância orar por toda a Igreja de forma nominal, ou seja, lembrando-se “de cada um individualmente”.[22] 

2.2. Oração para o preparo da pregação

Como pregador, o momento em que ele mais necessita de ter uma vida comprometida com a oração está no preparo da pregação e no transmitir a Palavra de Deus. Pois, para compreender as Escrituras é necessário a orientação do autor da mesma. 

Paulo nos ensina que as escrituras são inspiradas por Deus (2ª Tm 3.15-17). O mesmo vai nos ensinar Pedro dizendo a Palavra de Deus foi escrita por homens santos movidos pelo Espírito Santo (2ª Pe 1.21). Baseado nesta verdade, Paulo argumenta que somente o Espírito Santo conhece as grandezas de Deus (1ª Co 2.10-13). Neste sentido, MacArthur está correto ao dizer que “orar é buscar a fonte divina do entendimento – o próprio Deus”.[23] 

Grande parte das orações de Paulo tem como ênfase, que a igreja tivesse uma real compreensão das doutrinas bíblicas. Em sua carta aos efésios onde encontramos duas orações, ele roga a Deus que iluminasse o coração dos leitores (Ef. 1.15-19; 3.14-19). Da mesma forma aos colossenses, ele revela que constantemente orava pela igreja para que pudessem ter uma real compreensão da vontade de Deus (Cl 1.9). Podemos, portanto, perceber por essas afirmações de Paulo, não somente seu interesse em orar por seus rebanhos, mas que a oração para compreensão das Escrituras é algo essencial.

Anglada ressalta que devemos aprender com os reformadores, como Calvino e Lutero, que faziam do estudo e da oração a melhor regra hermenêutica:

Orare e labutare foram palavras empregadas por Calvino para resumir a sua concepção hermenêutica. Com estes termos ele expressou a necessidade de súplica pela ação iluminadora do Espírito Santo e do estudo diligente do texto e do contexto histórico, como requisitos indispensáveis à interpretação das Escrituras. Com o mesmo propósito, Lutero empregou uma figura: um barco com dois remos, o remo da oração e o remo do estudo. Com um só destes remos, navega-se em círculo, perde-se o rumo, e corre-se o risco de não chegar a lugar algum.[24]

E conclui:

Não é tempo de fazermos da oração uma prática hermenêutica, suplicando pela iluminação do Espírito Santo; e de labutarmos no estudo diligente das Escrituras, dando a devida atenção à língua e às circunstâncias históricas em que foram escritas? [25]

Para Calvino um coração devotado ao Senhor através da oração era algo primordial para a preparação de um texto. Para ele oração, e ensino estão unidos. Aquele a quem Deus chamou para ensinar na Igreja deve ser diligente na oração. [26]  

Os teólogos da Assembléia de Westminster compreendiam bem a necessidade de oração para a correta compreensão das Escrituras. Enquanto formulavam as doutrinas na Igreja eles passavam grandes momentos em oração e pregação. O início de cada sessão começava com uma oração e os jejuns eram freqüentes, pelo menos uma vez por mês:

“O Rev. Robert Baillie nos conta como num dia desses de jejum e culto houve quem orasse duas horas, sermões de uma hora entrecortados por orações de quase duas horas.” [27] 

Portanto, a oração deve vir antes de se preparar um sermão.[28] O pregador que não tem uma vida de oração demonstra falta de intimidade com o autor da Palavra. MacArthur afirma que pregar sem orar é desrespeitar o autor da Palavra:

Nenhum cristão deve olhar para baixo, para a Palavra, sem primeiro olhar para cima, para a fonte da Palavra e pedir direção. Engajar-se no estudo da Bíblia sem oração é presunção, ou até mesmo um sacrilégio.[29]

Spurgeon diz que somente através da oração as riquezas e os verdadeiros ensinos de uma determinada passagem serão encontrados.[30] “Os comentadores são bons instrutores, mas o próprio Autor é muito melhor, e a oração faz um apelo direto a Ele e O alista em nossa causa”.[31]  

2.3. A oração e a aplicação da mensagem

Há uma necessidade de que a oração e a pregação estejam ligadas. Os pregadores não têm poder para aplicar a mensagem no coração de seus ouvintes. Mas são totalmente dependentes do poder do Espírito Santo. Paulo demonstrava sua total dependência do Espírito Santo em sua pregação (1ª Co 2.4). 

A oração, dessa maneira, tem grande influência para a pregação. Se na preparação do sermão, houve dependência do Espírito, na pregação não será diferente. Orando, o pregador declara sua dependência na transmissão das verdades bíblicas. Não somente isto, mas demonstra sua dependência e completa confiança de que é o Espírito que aplicará a mensagem aos ouvintes.

“De fato, nenhuma outra coisa pode qualificar-vos tão gloriosamente para pregar como alguém que desce do monte da comunhão com Deus a fim de falar com os homens.” [32]  

Nesse sentido Spurgeon também afirma que melhor que qualquer método de eloqüência que o homem possa criar, não substitui a comunhão com Deus em oração.[33] 

Conclusão

Se nós cremos que, tanto a oração quanto a pregação bíblica, são meios que Deus se utiliza para nos abençoar, estes meios devem andar juntos. Os pastores devem ter esta consciência de que a oração é essencial para eles. Deve-se ter sempre em mente a ordem divina de “orai sem cessar”. Os pastores não foram chamados simplesmente para pregar, mas também para orar. Isso é cumprir a vocação divina. O mesmo Espírito que inspirou homens a escrever a Bíblia é o Espírito que todo pregador deve buscar em oração. Desprezar a oração ou a Palavra é desprezar o próprio Espírito Santo. 

Se o ministro de Deus despreza a necessidade da oração em sua vida ele não compreende o seu chamado. Ele precisa compreender que ele deve orar por sua vida, pelo seu ministério, pelo seu rebanho e por todos os que estão à sua volta. Como foi apresentado, a própria pregação em si necessita da oração. Desde sua preparação até a aplicação no coração dos ouvintes é necessário a atuação do Espírito Santo. Em todos os momentos o pregador é dependente desta atuação. Esta dependência é expressa através da oração do pregador e da Igreja.

É necessário, portanto, que haja um despertar no coração de cada pregador para a necessidade da oração. Não há como ter um bom ministério sem uma vida entregue a comunhão com Deus. Não é errado se preocupar com outras atividades do ministério, no entanto, é um grande erro desprezar as principais atividades: pregação e oração.

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Notas:
[1] SPURGEON, C. H. Lições aos meus alunos. São Paulo, SP: PES, 1990. (2). p. 66.
[2] HOLDT, Martin. Ore sempre. In: ASCOL (Ed.). Amado Timóteo. S. J. Campos, SP: Fiel, 2005. Cap.Cap. 6. p. 87-99. p. 91.
[3] ROSSCUP, James E. The Priority of Prayer in Preaching. 29 de agosto, 2008. p. 23.
[4] HOLDT. Ore sempre.p. 95.
[5] FERGUSON, Sinclair B. O Espírito Santo. São Paulo, SP: Puritanos, 2000. p. 261.
[6] SHEDD, Russell Philip. A oração: e o preparo de líderes cristãos. São Paulo, SP: Shedd Publicações, 2005. p.25-27
[7] Ibid. p. 28.
[8] CARSON, Donald A. Servos ordenados, São Paulo, SP, Edição 19, Out/Dez. 2008. p. 20.
[9] SHEDD. A oração: e o preparo de líderes cristãos. p. 42.
[10] SPURGEON. Lições aos meus alunos. p. 48.
[11] LLOYD-JONE, David Martyn. Pregação & Pregadores. 2ª. ed. São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 1986. p. 123.
[12] ROSSCUP. The Priority of Prayer in Preaching,  p. 33-43.
[13] Ibid. p. 35.
[14] Ibid. p. 21-22.
[15] HOLDT. Ore sempre.p. 90.
[16] SPURGEON. Lições aos meus alunos. p. 49; LLOYD-JONE. Pregação & Pregadores. p. 124.
[17] STOTT, John R. W. A mensagem de Atos: Até os confins da terra: A Bíblia fala hoje. São Paulo, SP: ABU, 2005. p. 136.
[18] FERREIRA, Franklin. Gigantes da fé. São Paulo, SP: Vida, 2001. p. 184.
[19] BAXTER, Richard. O pastor aprovado: modelo de ministério e crescimento pessoal. 2ª. ed. São Paulo, SP: PES, 1996. p. 140.
[20] Ver. SPURGEON. Lições aos meus alunos. p. 70-71.
[21] BAXTER. O pastor aprovado: modelo de ministério e crescimento pessoal. p. 40.
[22] HOLDT. Ore sempre.p. 93.
[23] MacARTHUR, John. Como obter o máximo da Palavra de Deus. São Paulo, SP: CEP, 1999. p. 183
[24] ANGLADA, Paulo R. B. Orare et Labutare: A Hermenêutica Reformada das Escrituras. 25 de agosto, 2008.
[25] Ibid.
[26] LAWSON, Steven J. A arte expositiva de João Calvino. São Paulo, SP: Fiel, 2008. p. 49.
[27] KERR, Guilherme. A Assembléia de Westminster. 2ª. ed. São Paulo, SP: Fiel, 1992. p. 16.
[28] LLOYD-JONE. Pregação & pregadores. p. 120.
[29] MacARTHUR. Como obter o máximo da Palavra de Deus. p. 183.
[30] SPURGEON. Lições aos meus alunos. p. 50.
[31] Ibid. p. 51.
[32] Ibid. p. 53. 
[33] Ibid. p. 53.

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Trabalho em cumprimento da matéria “Fundamentos bíblico-teológicos para revitalização e multiplicação de igrejas”, ministrada pelos professores. Rev. Jedeias Duarte e Rev. Arival Dias. Centro de Pós-Graduação Andrew Jumper - São Paulo, SP.

Sobre o autor: Felipe Camargo é Pastor da Igreja Presbiteriana do Estoril no Riacho Grande, São Bernardo do Campo em SP. Formado em Teologia no Seminário JMC, mestrado em Divindade (M.Div), com habilitação em Pregação e cursando Mestrado em Antigo Testamento no Centro de Pós Graduação Andrew Jumper.

Artigo gentilmente cedido pelo autor ao blog Bereianos.
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Calvino e a Pregação da Palavra

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Por Rev. Felipe Camargo


Introdução

O pensamento de Calvino sobre pregação, ou Calvino como pregador tem sido estudado por muitos eruditos e com isto, artigos e livros já foram publicados sobre este assunto. Parker tem sido um dos autores que mais escreveu sobre o assunto, considerado, portanto, uma grande autoridade como intérprete de Calvino. O objetivo deste trabalho se limita a analisar o pensamento de Calvino sobre a autoridade da pregação e a edificação da Igreja, tendo como objeto de estudo os próprios escritos de Calvino.

Por isso, algumas questões devem ser levantadas. A primeira delas se refere à Palavra de Deus. Qual a visão de Calvino sobre a Palavra de Deus? Onde ela é encontrada? Qual o seu objetivo? Qual o valor dela para a Igreja? Uma questão paralela à esta está relacionada com pregação. Qual a finalidade da pregação? Qual o papel dos pregadores? Até que ponto o pregador tem autoridade ao proclamar a Palavra de Deus?

E por fim, uma última análise a ser feita está ligada aos ensinos de Calvino nos nossos dias. Qual a importância de se estudar o pensamento de Calvino sobre pregação? Portanto, o trabalho procura analisar se é possível aplicar os ensinos de Calvino sobre pregação nos dias atuais.

A Bíblia como Palavra de Deus

Para uma correta compreensão acerca do pensamento de Calvino sobre pregação, é necessário entender sua visão acerca da Palavra Escrita. Para Calvino, a Palavra Escrita deve ser considerada como sendo o único lugar onde se encontra a verdadeira sabedoria vinda da de Deus. [1]

Calvino, nas Institutas, afirma que o homem foi dotado de um desejo de conhecer a Deus [2], mas por causa do pecado esse conhecimento se tornou falho. [3] Nesse sentido, demonstra que Deus não somente se revela através da criação [4], mas também adiciona um recurso melhor para este fim. [5] Por isso, Deus, além da sua própria criação, resolveu se revelar também em palavras. 

Portanto, as Escrituras servem para nos mostrar a verdade sobre Deus: 

Assim a Escritura, coletando-nos na mente conhecimento de Deus que de outra sorte seria confuso, dissipada a escuridão, nos mostra em diáfana clareza o Deus verdadeiro. [6]

Por isso, a Escritura foi dada por Deus para que o homem conhecesse tudo o que precisa ser conhecido para não fazer cogitações da verdade. Sendo assim, somente através da sua Palavra, se pode ter um correto conhecimento acerca de Deus. [7] Neste sentido Calvino faz questão de enfatizar que, o que distingue o cristianismo das demais religiões é que Deus falou, e fez isso através da Escritura. [8]

“Moisés e os profetas não pronunciaram precipitadamente e ao acaso o que deles temos recebido, senão que, falando pelo impulso de Deus. Ousada e destemidamente testificaram a verdade de que era a boca do Senhor que falava através deles.” [9]

Um ensino primordial acerca das Escrituras e sua autoridade é perceber que há uma perfeita harmonia. Deus, ao revelar a Lei estabeleceu a base para os demais escritos. Nem os profetas nem o Novo Testamento estão fora desta harmonia. [10]

“Não se deve ter outra Palavra de Deus, a que se dê lugar na Igreja, senão aquela que se contém, primeiro na Lei e nos Profetas, então nos Escritos Apostólicos [...]. Daqui também coligimos que não se prometeu outra coisa aos apóstolos senão o que tiveram outrora os profetas, a saber, que expusessem a Escritura antiga.” [11]

Está em harmonia, portanto, o conceito que toda a Palavra de Deus é perfeita e infalível, devendo aceitá-la desta maneira. 

O fato de Calvino afirmar que “os escritos dos apóstolos nada contém além de simples e natural explicação da lei e dos profetas juntamente com uma clara descrição das coisas expressas neles” [12], não quer dizer que o Novo Testamento seja apenas uma explicação da Palavra de Deus. Mas na verdade, Calvino afirma que seus escritores também foram usados pelo Espírito Santo. Ele afirma que: 

“Entretanto, a própria realidade brada patentemente que esses homens haviam sido ensinados pelo Espírito que, antes desprezíveis em meio ao próprio vulgo, de repente começaram a dissertar tão magnificamente acerca de mistérios celestiais.” [13]

Não há dúvidas para Calvino que, embora a Bíblia tenha sido escrita por homens, não se deve ignorar o fato que eles foram usados por Deus. Eles não escreveram aquilo que imaginavam, mas escreveram o que vinha da parte de Deus. [14] O fato de ele ter usado homens pecadores não desmerece a revelação. Não faz das Escrituras imperfeitas ou falíveis. Pelo contrário, ainda assim, considera-se Palavra de Deus.

“Portanto, iluminados por seu poder, já não cremos que a Escritura procede de Deus por nosso próprio juízo, ou pelo juízo de outros; ao contrário, com a máxima certeza, não menos se contemplássemos nela a majestade do próprio Deus, concluímos, acima do juízo humano, que ela nos emanou diretamente da boca de Deus, através do ministério humano.” [15]

A reverência às Escrituras, portanto, se dá não pelos autores humanos, mas pelo autor divino. Aquele que desrespeita a Palavra de Deus desrespeita o próprio Deus. Calvino argumenta que “devemos à Escritura a mesma reverência devida a Deus, já que ela tem nele sua única fonte, e não existe nenhuma origem humana misturada nela.” [16] Por isso, é possível compreender o cuidado que Calvino dá à fiel exposição da mesma.

A Palavra de Deus e a Edificação

Um princípio importante para Calvino era que toda a Escritura trazia algum ensino para a vida dos cristãos. Nos seus escritos, Calvino fazia questão de enfatizar que toda a Escritura é útil e deve ser praticada. Não há grau de importância entre o Antigo Testamento e o Novo Testamento. Ambos são considerados como Palavra de Deus e útil para a vida cristã. [17]

Para Calvino, era através da Palavra que Deus concede vida ao pecador. Sem Deus não há vida, e todos estão condenados à morte eterna. Esta vida, portanto, é comunicada através de sua Palavra. Ele afirma que “embora temporária, seja a vida do homem, ela já feita eterna pela Palavra; por ela é modelada e feita nova criatura.” [18]

Mas as Escrituras não têm o único propósito de comunicar a vida eterna, mas também de corrigir para um crescimento espiritual. Na verdade, tudo o que é revelado por Deus nas Escrituras tem o propósito específico de corrigir a vida do homem. Calvino adverte que:

Se porventura nos sentirmos sempre tentados a menosprezar ou a sentir repugnância pelo evangelho, lembremo-nos de que o seu poder e eficácia estão no fato de que é por meio dele que nos vem a salvação; assim como alhures ele ensina que o evangelho é o poder de Deus para a salvação dos Crentes. [19]

Não se pode dizer que exista algo supérfluo e inútil em sua Palavra. [20] Pelo contrário, se torna pecaminoso estudar as Escrituras sem trazer para si uma aplicação e buscar uma vida prática, ou seja, sempre ao que é proveitoso. [21]

Calvino sustenta que a Lei de Deus é a norma de justiça pela qual nossa vida é moldada. [22] Este molde realizado pela Lei tem o objetivo de tornar o homem completo a ponto de não haver nada que o torne defeituoso, por isso, a obrigação do homem de querer conhecer cada vez mais a Palavra. [23]

Comentando o Salmo 19, Calvino diz: 

Se alguém deseja ter um método próprio para governar sua vida, a lei de Deus é a única perfeitamente suficiente para tal propósito; mas que, ao contrário, assim que as pessoas se apartam dela, são passíveis de cair em infindáveis erros e pecados. [24]

Portanto, qualquer meio que se utilize para obter a edificação da Igreja que não seja através da Palavra é condenada.

A supremacia da pregação

Assim como Calvino afirma que as Escrituras é o meio ordinário instituído por Deus para edificar sua Igreja, ele também sustenta que a pregação é o modo normal que o Senhor designou para comunicar sua Palavra. [25] Portanto, é através da pregação que Deus se utiliza para edificar seu povo. [26] Conforme Calvino, o propósito da pregação do evangelho é exatamente para que Deus guie todas as nações à obediência da fé. [27]

Calvino, neste ponto não aceita exceções: “Deve-se, porém, ser mantido por nós o que já citamos de Paulo: que a Igreja não é edificada de outro modo senão pela pregação externa.” [28] A maneira instituída por Deus para a edificação é a pregação da Palavra de Deus. Sem ela, não há progresso na fé, conforme Calvino explica com mais detalhes:

“Deus instila em nós a fé, mas pela instrumentalidade de seu evangelho, como adverte Paulo, de que “a fé vem do ouvir” [Rm 10.17], assim como também em Deus reside seu poder de salvar, mas, segundo atesta o próprio Paulo, o exibe e o desenvolve na pregação do evangelho [Rm 1.16].” [29]

Com isso em mente, ele desenvolve o ensino da prioridade da pregação dentro da Igreja de Cristo. Não há dúvidas de que o objetivo da Igreja é o crescimento na fé de cada cristão. E por isso Deus instituiu ministros da Palavra para realizar este propósito através da pregação:

E, para que a pregação do evangelho florescesse, depôs esse tesouro com a Igreja: instituiu “pastores e mestres” [Ef 4.11], por cujos lábios ensinasse aos seus, investiu-os de autoridade, enfim, nada omitiu que contribuísse para o santo consenso da fé e a reta ordem. [30]

A Igreja, portanto, não deve desprezar este meio fundamental para sua edificação, muito menos os pregadores ao subir no púlpito. Para Calvino, esta é uma grande responsabilidade para os pastores. Ao subir em um púlpito, o pastor deve ter sempre em mente: “Deus desejou revelar seu poder soberano através da espada espiritual de sua Palavra sempre que é pregada pelo pastor.” [31]

Este conceito de que “toda Escritura é útil para a edificação da Igreja” era algo concreto também no seu pastorado. Por isso, pregava sistematicamente à sua igreja versículo por versículo. [32] Acreditava que cada versículo das Sagradas Escrituras tem uma aplicação para a edificação da Igreja. Na exposição do livro de Daniel, nas suas 66 exposições ele termina com uma oração escrita. Em cada oração ele apresenta o ensino retirado dos versículos explanados fazendo uma aplicação para os seus dias. [33] Conforme ele mesmo diz:

Assim concluímos que este é o mais valioso tesouro da Igreja, que ele que ele tenha escolhido uma morada para ele mesmo, para residir nos corações dos fiéis por seu Espírito, e assim preservar entre eles a doutrina do seu evangelho. (Isaías 59.21) [34]

Para Calvino, portanto, a pregação não é apenas uma obrigação da Igreja e dos seus pastores, mas é um privilégio no qual Deus preserva a sua Igreja. 

Responsabilidade do Pregador

Visto que é por meio de ministros da Palavra que Deus instrui o seu povo, é necessário ressaltar que Calvino, por isso, destaca a grande responsabilidade do pastor. Para ele, o pastor deve estar munido da Palavra de Deus para guiar seu povo para edificação: 

Se o primeiro dever de um pastor é ser instruído no conhecimento da sã doutrina, e o segundo é reter sua confissão com firmeza e inusitada coragem, o terceiro é que adapte o método do ensino visando a produzir edificação, e não divague, movido pela ambição, por entre as sutilezas da curiosidade frívola; mas, ao contrário, que busque tão-somente o sólido avanço da Igreja. [35]

Mas é através da pregação que o pregador desempenha essa função. Portanto, para Calvino, o pastor não deve procurar guiar ou edificar o rebanho que não seja ela instrução da Palavra:

É esta, portanto, uma dádiva singular, quando, para instruir a Igreja, Deus não apenas se serve de mestres mudos, mas ainda abre seus sacrossantos lábios, não simplesmente para proclamar que se deve adorar a um Deus, mas ao mesmo tempo declara ser esse Aquele a quem se deve adorar; nem meramente ensina aos eleitos a atentarem para Deus, mas ainda se mostra como Aquele para quem devem atentar. [36]

Logo, o papel do pastor é apresentar a Deus para que a sua Igreja o adore. Para que isso aconteça, Calvino acredita que o pregador deva ser fiel em sua pregação.

Calvino acreditava que Deus poderia falar pelos céus ou através de anjos, mas o meio que ele escolheu foi através de homens comuns. Assim sendo, “não se requer de um pastor apenas cultura, mas também inabalável fidelidade pela sã doutrina, ao ponto de jamais apartar-se dela”. [37] À sua Igreja cabe a responsabilidade de procurar aqueles que pregam em nome de Deus e com autoridade divina. [38]

Calvino até certo ponto, foi um homem tolerante, mas ao mesmo tempo foi extremamente radical em certos assuntos. [39] Um desses assuntos em que se demonstrava intolerante se referia à pregação.

A pregação é um dos sinais essenciais para distinguir a verdadeira Igreja, por isso Calvino afirma que “Deus quis que fosse conservada pura a pregação de sua Palavra.” [40] Mas ao mesmo tempo que as Escrituras devem ser usadas para ensinar a sabedoria de Deus, deve se ter por certo que “os falsos profetas também fazem uso dela em busca de pretexto para o seu ensino. Para que ela seja proveitosa para a salvação, temos que aprender a fazer um uso correto.” [41]

Para ele, 

Não se deve ter outra Palavra de Deus, a que se dê lugar na Igreja, senão aquela que se contém, primeiro na Lei e nos Profetas, então nos Escritos Apostólicos; nem outro modo de ensinar a Igreja corretamente, senão aquele prescrito e normativo dessa Palavra. [42]

Por isso, Calvino sempre debateu contra aqueles que ensinavam outra doutrina que não fosse a verdadeira.

Partindo deste princípio de que não existe nenhuma verdade fora do Evangelho [43], ele insiste veementemente que “não é permitido aos ministros fiéis que forjem algum dogma novo, mas simplesmente que se apeguem à doutrina à qual Deus a todos sujeitou, sem exceção.” [44] Para exemplificar esta verdade, ele usa os próprios sacerdotes que foram orientados à se limitar no que foi dado:

Quando, porém, pareceu bem a Deus suscitar mais clara forma à Igreja, quis que fosse confiada à escrita, e assim selar sua Palavra, para que os sacerdotes daí buscassem o que ensinar ao povo e para que a essa regra se conformasse todo o ensino que se transmitisse. E assim, após a promulgação da lei, quando se ordena aos sacerdotes que ensinassem “pela boca do Senhor” [Ml 2.7], o sentido é que não ensinassem algo estranho ou alheio a esse gênero de ensino que Deus havia compreendido na Lei. Com efeito, lhes foi vedado acrescentá-la e diminuí-la. [45]

Mas Calvino entendia também que muitas vezes os pregadores são tentados a se desviar da verdadeira pregação. Não quer dizer com isso que eles são falsos profetas. Por isso, Calvino orienta aos pregadores a resistir a tentação de se desviar da pura e fiel pregação da Palavra:

Somos, naturalmente, dados à curiosidade, de modo que a nossa tendência é ignorar displicentemente, ou, pelo menos, experimentar só levemente o ensino que produz edificação, enquanto nos envolvemos com questões frívolas. A esta curiosidade adiciono a audácia e a temeridade, de maneira tal que nos prontificamos sem hesitação a pronunciar sobre coisas de que nada sabemos e que nos são ocultas. [46]

Por isso, muito sabiamente Calvino alerta aos pregadores a se limitarem àquilo que a Palavra de Deus nos diz. É somente isto que se deve saber e pregar. A Palavra de Deus é suficiente: “Eis o limite de nosso conhecimento.” [47]

Ao tratar sobre os anjos, Calvino acredita que possa trazer alguma curiosidade para o homem. Mas ele é insistente ao falar que quanto às coisas obscuras, “não falemos, ou sintamos, ou sequer almejemos saber outra coisa senão aquilo que nos é ensinado na Palavra de Deus”. Pois para Calvino, a busca por questões que não trazem edificação, são estudos inúteis. [48] Em outro lugar ele diz:

E visto que o Senhor nos quis instruir não em questões frívolas, mas na sólida piedade, no temor de seu nome, na verdadeira confiança, nos deveres da santidade, contentemo-nos com este conhecimento. [49]

Portanto, se o objetivo da Palavra de Deus é trazer edificação e fazer trilhar o caminho da salvação, nada mais correto do que os ministros transmitirem a Palavra da verdade com o mesmo objetivo.

Pregação como voz de Deus

Calvino afirma que um pregador ao fazer uma fiel pregação da Palavra de Deus, ele não está apenas repetindo ensinamentos, mas ele se torna a própria voz de Deus. [50] Antes de detalharmos este assunto é necessário salientar que para Calvino há uma grande diferença entre os escritores bíblicos e os pregadores posteriores:

“Todavia, entre os apóstolos e seus sucessores, como já disse, existe esta diferença: que aqueles foram infalíveis e autênticos amanuenses do Espírito Santo, e por isso seus escritos devem ser tidos como oráculos de Deus; os outros, porém, não têm outra função, senão que ensinem o que foi dado a conhecer e consignado nas Sagradas Escrituras.” [51]

Mas isso não quer dizer que anula a autoridade do pregador por não ser inspirado como os escritores. Para Calvino, o mesmo Espírito que inspirou os escritores é o mesmo que capacita os pregadores. É o Espírito Santo que torna capaz o árduo trabalho do pregador e torna suas palavras na poderosa voz de
Deus. [52]

Da mesma forma, o mesmo Espírito torna eficaz a pregação para os ouvintes. Desta forma, o Espírito Santo faz com que a mensagem pregada seja compreendida pela Igreja e aceita como a própria Palavra de Deus. [53] Nas palavras de Calvino, “a pregação é o instrumento da fé, por isso o Espírito Santo torna a pregação eficaz.” [54]

Evidentemente, a incapacidade humana não deve ser considerada quanto à autoridade da pregação fiel. Quanto a isso, Calvino afirma: 

“Mas, os que pensam que a autoridade da doutrina é desprezada pela baixa condição dos homens que foram chamados a ensiná-la, estes põem à mostra sua ingratidão, porquanto, entre tantos dotes preclaros com os quais Deus adornou o gênero humano, esta prerrogativa é singular: que a si digna consagrar as bocas e línguas dos homens, para que neles faça ressoar sua própria voz.” [55]

Deste modo, através do seu Espírito ele capacita homens para transmitir sua Palavra, colocando assim, sua própria Palavra em seus lábios. [56] Calvino enfatiza que os pregadores, no momento em que estão proclamando o evangelho, eles agem como instrumentos divinos:

A fé procedente do evangelho seria deveras frágil, se fôssemos nós olhar somente para os homens. Toda a sua autoridade procede de reconhecermos que os homens são meros instrumentos de Deus e de ouvirmos Cristo nos falando por meio de lábios humanos. [57]

Destarte, apesar da limitação humana, deve-se afirmar que a palavra que sai da boca de Deus é a mesma que sai da boca dos homens. [58]

O valor da pregação é tão valiosa e considerada, assim, a própria voz de Deus, que qualquer que rejeitar uma pregação fiel, não despreza homens, e sim a Deus. “Segue-se disto que aqueles que se retraem de ouvir a Palavra proclamada estão premeditadamente rejeitando o poder de Deus e repelindo de si a mão divina que pode libertá-los.” [59]

Cabe, portanto à igreja reconhecer a autoridade dos seus pastores, pois por meio deles elas são edificadas pela Palavra do próprio Deus. Deus instituiu este meio para ouvi-lo e não outro. Ninguém, pois, deve tentar advertir ou consolar a Igreja a não ser que seja um representante de Deus, falando assim “pela boca do Senhor”. [60] Esta foi a ordenança dada por Deus: 

Buscar a palavra e doutrina da boca dos profetas e professores, que prega em seu nome e por Sua autoridade, para que não possamos buscar loucamente por novas revelações. [61]

Conclui-se que uma Igreja que não ouve seu pastor, não ouve o Deus da Igreja, ou seja, o Deus da Palavra. Em outro lugar Calvino adverte os pastores a serem aqueles que mostrem a glória de Deus.

Eis o supremo poder com o qual convém que os pastores da Igreja sejam investidos, sem importar por que nome sejam chamados, isto é, que ousem fazer tudo confiantemente pela Palavra de Deus; que obriguem a todo poder, glória, sabedoria, exaltação do mundo a sujeitar-se-lhe e a obedecer-lhe à majestade; sustentados em seu poder, imperem sobre todos, desde o mais alto até o mais baixo; edifiquem a mansão de Cristo, desmantelem a de Satanás; apascentem as ovelhas, submetam os rebeldes e contumazes; liguem e desliguem; enfim, caso se faça necessário, relampejem e despeçam raios; tudo, porém, na Palavra de Deus. [62]

Implicações para os dias atuais

Calvino tem sido estudado como pregador. Poucos podem ser comparado à ele quando se fala de pregação. Calvino não era apenas o exegeta da reforma, mas o pregador da reforma. [63] Ele não ensinava sobre pregação, mas colocava em prática aquilo que ele cria e passava aos seus alunos. Calvino tem muito a nos ensinar sobre pregação. Subir num púlpito para pregar a Palavra de Deus não deve ser tido como algo sem muita importância. Algumas implicações devem ser tiradas desta pesquisa.

A primeira que deve ser ressaltada é que a Bíblia é a Palavra de Deus. Pode parecer óbvio para alguns que confessam a inspiração da Bíblia, mas algumas vezes não tem dado o devido valor à esta verdade. Saber que a Bíblia é a própria Palavra de Deus deve despertar no pregador o valor daquilo que ele transmite e saber que esta palavra é suficiente para transformar vidas. Saber que ela é a Palavra de Deus, deve fazer dela o centro dos cultos realizados na Igreja.

Outra verdade a ser destacada é a utilidade da Palavra de Deus. Calvino demonstrava em seu púlpito que cria que toda a Escritura é útil para edificação da Igreja. Sua prática era coerente com os seus ensinos. De fato ele pregava todos os versículos do livro escolhido para expor para a congregação.

Trazendo em cada um deles uma aplicação para transformação de vidas. Ignorar certas passagens bíblicas se torna, na verdade, uma descrença de que toda a Bíblia é útil para o ensino. E na verdade, essa prática não acaba transmitindo dúvidas para a congregação quanto a aplicabilidade de certas passagens? Em sua prática de pregação de versículo por versículo, Calvino transmitia esta verdade: “toda a Escritura é útil”.

O que mais se destaca nesta pesquisa é o valor da pregação. Calvino destacava algo que deve sempre ser valorizada no meio da Igreja: a pregação.

A pregação é o meio ordinário para a edificação da Igreja. Por mais que o pregador seja tentado a trazer algo que agrade os homens, ele deve sempre ser lembrado da autoridade e eficácia da pregação.

Embora seja natural que o homem se recuse a ouvir a Palavra, a fidelidade do pregador deve ser intacta. Sua responsabilidade é como nenhuma outra, pois ele é a própria voz de Deus. Lembrando-se sempre que ele não fala por si, mas é um instrumento dado por Deus para ser sua voz. Não é exagero, portanto, afirmar que os pregadores precisam sempre se lembrar que ao subir num púlpito ele está dizendo: “Assim diz o Senhor”.

Conclusão

Apresentei neste trabalho a visão de Calvino sobre a pregação e como isto é importante para a edificação da Igreja. Pode-se perceber que sua teologia sobre a pregação é tão importante quanto foi no seu tempo. A pregação ainda deve ser valorizada. Alguns pontos devem ser destacados com esta pesquisa.

Calvino acreditava fielmente na inspiração e perfeição da Bíblia, considerando-a como a própria Palavra de Deus. A imperfeição dos escritores não desmerece sua infalibilidade. A mesma foi dada para que o homem recebesse a salvação e fosse moldado por ela.

Desta maneira, Calvino cria que a pregação deveria ser fiel às Escrituras, não permitindo nenhum tipo de acréscimo ao transmiti-la. Para ele, a pregação fiel é a própria voz de Deus por intermédio humano. As imperfeições dos pregadores não desmerecem a autoridade da pregação, devendo ser respeitada como se respeita o próprio Deus. Concluindo assim, que a pregação é o meio ordinário para a edificação da Igreja.

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Notas: Para visualizá-las, acesse o trabalho original através deste link!

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Artigo gentilmente cedido pelo autor ao blog Bereianos.
Divulgação: Bereianos
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