Refutação ao livro “A Cabana”

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Introdução 

Um dos livros que mais tem sido lido e vendido nestes últimos meses é “A Cabana” de William P. Young.[1] Um livro que se propõe a ajudar a entender a trindade e o sofrimento tem sido amplamente aceito no meio evangélico. Uma rápida pesquisa na internet é possível encontrar pessoas testemunhando como o livro ajudou a suportar o sofrimento e a entender quem é Deus. Alguns chegam até a afirmar que tiveram um encontro real com Deus somente depois de ter lido o livro.

A questão a ser tratada neste trabalho é se a visão apresentada neste livro de fato é bíblica. Será apresentado os principais pontos explorados pelo autor e analisado à partir de textos bíblicos. Este trabalho tem o objetivo de mostrar que tipo de influência os leitores tem recebido deste livro. 

O que significa contaminar-se em Daniel 1?

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Por Rev. Felipe Camargo


Em Daniel 1.8 diz que Daniel e seus amigos resolveram não contaminar-se das finas iguarias do rei. Isso levanta algumas dúvidas e diferentes interpretações. O que significa “contaminar” neste versículo? Como aquele alimento poderia trazer contaminação? Este artigo visa responder esta questão dentro de uma breve análise do texto dentro do seu contexto. 

Há pelo menos três posições geralmente defendidas por comentaristas. A primeira posição é que as finas iguarias do rei possuíam alimentos proibidos pela Lei, como porco. Na Lei de Moisés, realmente havia algumas proibições de comer certos alimentos. Em Levítico 11 há uma lista de animais que eram proibidos de comer. No entanto, o texto diz que ele recusa toda a comida do rei e não somente aquilo que era proibido pela Lei. E ainda, esta posição não explica o porquê eles recusaram também o vinho.

A segunda posição é que a comida era oferecida aos ídolos. E de fato isso ocorria naquele período. Se este fosse o caso eles estariam também corretos em tomar esta decisão. Mas novamente, não há no texto qualquer indício de que este tenha sido o motivo. E se o problema fosse os ídolos em si, por que eles não recusaram os seus novos nomes? Portanto, esta também não é uma interpretação tão clara para o texto.

Uma terceira posição parece ser mais coerente com o contexto, e se refere ao perigo da acomodação. A maneira como o texto fala da comida do rei parece ser atrativa aos quatro amigos e, de fato, era para ser assim. Parece ser algo bem incomum um rei dar da sua própria comida para cativos, mesmo que pertencessem à linhagem dos nobres. Uma olhada um pouco melhor para a Babilônia percebemos que a intensão deles era sempre de transformar seus cativos em “novos caldeus”. Diferentemente da Pérsia que incentivava a cultura e a religião das nações subordinadas, a Babilônia queria transformá-los. 

Por isso Nabucodonosor muda os nomes daqueles jovens e ordena que aprendessem a língua e a cultura dos caldeus. Por serem nobres, eles se tornariam os responsáveis por propagar a cultura para a sua nação e transformar o restante dos exilados. Eles realmente tentavam fazer com que eles se esquecessem quem eram, de onde vieram e quem adoravam. 

O salmo 137 diz que eles provocavam o povo a cantar músicas alegres com o propósito de se esquecer de Jerusalém. No entanto, o salmista revela que ele não cairia no pecado de se esquecer de Sião, que era a sua terra e seu lar verdadeiro.

A versão Revista e Atualizada omite a palavra “coração” do texto hebraico. Isso é muito significativo para uma melhor interpretação, porque mostra que a decisão tomada por Daniel era uma questão mais interna do que externa. Jesus, certa feita, ensinou aos seus discípulos que o que contamina o homem não é o que entra, mas o que sai do coração: “Então, lhes disse Assim vós também não entendeis? Não compreendeis que tudo o que de fora entra no homem não o pode contaminar, porque não lhe entra no coração, mas no ventre, e sai para lugar escuso? E, assim, considerou ele puros todos os alimentos. E dizia O que sai do homem, isso é o que o contamina. Porque de dentro, do coração dos homens, é que procedem os maus desígnios, a prostituição, os furtos, os homicídios, os adultérios, a avareza, as malícias, o dolo, a lascívia, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura. Ora, todos estes males vêm de dentro e contaminam o homem” (Mc 7.18-23). Este não era um ensino novo, afinal, há vários textos no antigo Testamento que trazem este ensino. Provérbios 23.3, por exemplo; fala para tomar cuidado com delicados manjares e comidas enganadoras. Da mesma forma os salmos falam da necessidade de cuidar do coração para não pecar contra Deus. E é Jeremias quem vai dizer do perigo do coração corrupto e enganoso.

Assim, o grande perigo do alimento era a sedução da Babilônia. Daniel e seus amigos não podiam cair na armadilha de Nabucodonosor e se acomodar àquele país se esquecendo de Sião. Não é sem motivo que em Apocalipse a Babilônia vai ser o nome dado ao presente século, um mundo cheio de atrativos para seduzir a igreja e fazê-la esquecer do seu lar celestial.

E nós?

Assim como Daniel e seus amigos, nós vivemos num mundo repleto de tentações para nos fazer esquecer da nossa pátria celestial. O mundo, bem como seu príncipe maligno, quer que esqueçamos quem somos e quem adoramos. O grande perigo é que muitas vezes não percebemos suas armadilhas e nos acomodamos à este presente século por causa de seus atrativos passageiros. 

O nosso alerta é para sermos como Daniel e seus amigos, ou seja, sermos firmes em nossos corações para permanecermos fiéis ao Senhor. É necessário, para isso, pensarmos mais nas coisas lá do alto, onde Cristo vive e não nas coisas daqui da terra (Cl 3.1-3). Entendermos que somos forasteiros e peregrinos rumo a Nova Jerusalém. E enquanto vivemos na Babilônia, aguardemos o dia da nossa restauração completa.

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Divulgação: Bereianos
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Temor de Deus e felicidade no lar

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Por Rev. Felipe Camargo


Bem-aventurado aquele que teme ao SENHOR e anda nos seus caminhos.” (Salmo 128.1)

O Salmo 128 era um dos cânticos cantados pelo povo que caminhava para Jerusalém. Eles tinham a esperança que chegando lá eles poderiam cultuar ao Senhor no templo e receber as bênçãos espirituais. Eles sabiam que o seu lar só seria abençoado se Deus estivesse com eles (Sl 127).

Para uma família ser abençoada por Deus ela precisa ter homens que temem ao Senhor. O homem deve ser o líder do lar, tanto material quanto espiritualmente. Ele é o principal responsável por trazer o mantimento para a sua casa. Mas, principalmente, ele deve guiar sua família no caminho do Senhor. Temer ao Senhor envolve um respeito e obediência que não temos a mais ninguém. Temer ao Senhor envolve adoração e amor completo. Precisamos de maridos e pais que temem ao Senhor.

Uma família abençoada tem mulheres sábias que edificam o seu lar. Isso significa que sua preocupação principal é cuidar de seu marido e de seus filhos. Ela não sente vergonha de servir ao Senhor através dos trabalhos domésticos. Mulheres tementes ao Senhor não devem dar ouvidos ao movimento feminista. Precisamos de esposas e mães que amem suas famílias mais do que seu sucesso profissional. Precisamos de esposas e mães que amem ao Senhor acima de todas as coisas.

A família abençoada possui filhos que honram os seus pais. Isso significa que filhos que temem ao Senhor tem prazer de estar em volta da mesa para ter comunhão com seus pais. Filhos crentes sabem que devem respeitar seus pais como ao Senhor. Isso ocorre porque foram educados nos caminhos de Deus e aprenderam as Palavras da Verdade. Seu amor não está voltado para eles, mas par Deus, acima de tudo. Precisamos de filhos que honrem seus pais por causa do amor que eles têm por Cristo.

Por fim, uma família só é abençoada se estiver com a família da fé. O Salmo 128 termina com a promessa da bênção vinda de Sião. Era lá que todas as famílias se reuniam formando a grande família de Deus e podiam dizer: “Oh! Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos”. Famílias só serão abençoadas se tiverem comunhão com o povo de Deus, ou seja, se a sua casa for a Casa de Deus. Precisamos de famílias que estejam presentes na igreja e que possam dizer: “eu e minha casa serviremos ao Senhor”.

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Divulgação: Bereianos
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Frutificando com Perseverança

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Por Rev. Felipe Camargo


A que caiu na boa terra são os que, tendo ouvido de bom e reto coração, retêm a palavra; estes frutificam com perseverança. (Lc 8.15)

Para ser perseverante e frutificar com perseverança é necessário reter a palavra no coração. A parábola que Jesus conta em Lucas 8 é para mostrar quem são aqueles que pertencem de fato ao reino de Deus; e mostrar porque há tantos que se desviam do evangelho. Jesus mostra que são poucos os que tem o coração preparado para receber a Palavra de Deus. Um dos versículos mais conhecidos, Salmo 119.11, diz que é guardando a Palavra de Deus no coração que nós não pecamos contra o Senhor. Isso só é possível se nós meditarmos nas Sagradas Escrituras. Infelizmente a meditação na Palavra do Senhor tem sido desprezada. Já reparou, por exemplo, que não temos o costume de decorar versículos bíblicos? Ou, que muitas vezes nem sequer lembramos do texto lido em nossa devocional? Ouvir e ler a Bíblia não é o mesmo que reter e guardar. É necessário tomar cuidado com as leituras superficiais da Bíblia, porque ela vai gerar em nós uma vida espiritual também superficial.

Quando a leitura bíblica não é superficial, mas existe uma meditação sincera, o resultado são os frutos. Outro texto bem conhecido é o salmo 1. No versículo 3 diz que aquele que medita na Palavra de Deus de dia e de noite é comparado à arvore que dá seu fruto no devido tempo. O primeiro fruto que surge é no momento da leitura. Muitas vezes somos confortados pelo texto que lemos, outras vezes somos exortados e não conseguimos ficar em paz enquanto não confessarmos nossos pecados. Mas, outros frutos surgem com o passar do tempo. Muitas vezes as mudanças em nossas vidas são notadas quando menos esperamos. 

No entanto, temos que ficar alertas também para as mudanças superficiais. Estas são aquelas mudanças que não duram muito tempo. A verdadeira transformação é aquela que é constante. O crente verdadeiro não se acomoda nem tem animo dobre (inconstante), mas ele sempre está frutificando com perseverança. 

O apóstolo João diz que, o que nos foi dado escrito (Bíblia), é suficiente para crermos em Cristo e crendo teremos vida em seu nome. A Palavra de Deus frutifica em nós dando a vida eterna. Foi por causa disso que Philip Paul Bliss escreveu o hino 351. Em princípio a intenção era apenas criar um cântico que fosse entoado na Escola Dominical de sua igreja. Mas, com o passar dos anos essa música começou a ser usada como tema para a Escola Bíblica Dominical em diversas partes do mundo. Philip entendia que só por meio das Escrituras uma igreja pode entender a graça divina e crescer no Senhor. “Que alegres são estas palavras de vida!

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Fonte: Bereianos
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Anunciando o evangelho num mundo pós-moderno - 5/5

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Por Rev. Felipe Camargo


5. Pregação no Antigo Testamento: É Mesmo Necessária?

Mauro F. Meister

D. Martyn Lloyd-Jones afirma em seu livro Pregação e Pregadores que "a mais urgente necessidade da Igreja hoje é de verdadeira pregação; e como é a maior e a mais urgente necessidade da igreja, é também, obviamente, a maior necessidade do mundo".[94] Essa necessidade certamente não mudou de figura desde a primeira publicação de Pregações e Pregadores em 1971.[95] O que mudou, no entanto, foi o interesse na pregação nos últimos vinte anos. Percebeu-se, no mundo cristão,[96] que não há substituto para a pregação. Antigas escolas liberais e tradicionais, que defendiam o uso de outras formas de ensino como substituto para a pregação, perceberam que esta antiga prática, de fato "não inventada pelo homem mas graciosamente criada por Deus",[97] ainda é, e sempre será, o mais efetivo meio de proclamar as Boas Novas. [98]

Creio que o declínio na prática da pregação surgiu como fruto de vários fatores[99]: (a) descrença na autoridade das Escrituras; (b) valorização exagerada da arte de falar (retórica); (c) confusão entre pregação e exposição filosófica de uma verdade ("helenização" do evangelho)[100]; (d) massificação do evangelho (cultura "pop" e entretenimento). O despertamento para a pregação nos últimos vinte anos deu-se em reação a várias destas causas, porém nem sempre pelas razões corretas e de formas corretas. Por exemplo, o interesse de vários teólogos e pregadores modernos na pregação é uma reação à helenização do evangelho, porém, sem retorno à crença na autoridade das Escrituras.[101] O fato é que existe um "movimento" de pregação na igreja ao redor do mundo e também na igreja evangélica brasileira.

Ora, se a prática da pregação que efetuamos não é apenas uma opção apresentada nas páginas do Novo Testamento, mas sobretudo uma ordem direta nos Evangelhos (Mc 3.14; 16.15), nos ensinos apostólicos (2 Tm 4.2), e uma prática clara em ambos (Mc 1.38; At 5.42), o que devemos pregar e como devemos pregar, isto é, o conteúdo e a forma da pregação, são assuntos de fundamental importância para a vida do pregador e, conseqüentemente, para a vida da igreja. Presumo que os leitores interessados neste artigo crêem na pregação e na autoridade das Escrituras. Este artigo tem a ver com o que devemos pregar, ou seja, o conteúdo da pregação.

É realmente necessário pregar em passagens do Antigo Testamento? A pergunta pareceria desnecessária. Porém, é fato que pregações no Antigo Testamento são a exceção e não a regra nos púlpitos de nossas igrejas (as exceções servem para comprovar a regra). Se é verdade que os mestres da igreja, os pregadores da Palavra, devem anunciar "todo o desígnio de Deus", como Paulo havia feito durante seu ministério em Éfeso (At 20.27), então creio que a exposição das Escrituras do Antigo Testamento está faltando nos púlpitos de nossas igrejas. Duas questões pertinentes devem ser levantadas: (a) Por que devemos pregar em passagens do Antigo Testamento? (b) Por que não se prega tão freqüentemente textos do Antigo Testamento quanto se esperaria?

Por que devemos pregar em textos do Antigo Testamento? 

Gostaria de levantar apenas três aspectos sobre a necessidade de se pregar em textos do Antigo Testamento.[102]

(1) Em primeiro lugar, deve-se considerar que, para uma exposição clara a respeito de Jesus e de todos os seus atributos como a Segunda Pessoa da Trindade e filho de Deus encarnado, é necessário entender o Antigo Testamento. Ambos, o Antigo e o Novo Testamentos, são incompletos na ausência um do outro. Jesus não é uma figura obscura vinda do nada para salvar a humanidade. Jesus é o Messias prometido a Israel por Deus Pai para salvar o seu povo. O caráter de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, é revelado nas páginas do Antigo Testamento de maneira grandiosa e gloriosa. No entanto, nos púlpitos e nas congregações ao redor do mundo, existe uma tremenda ignorância a respeito do Antigo Testamento e do seu conteúdo. Facilmente percebe-se neles um conhecimento do conteúdo do Novo Testamento, ao mesmo tempo em que demonstram uma falta de conhecimento do Antigo Testamento. O conhecimento do Novo Testamento que não é correspondido pelo conhecimento do Antigo, é uma contradição e uma impossibilidade. As Escrituras do Novo Testamento começam com uma referência ao Antigo Testamento e centenas de outras referências são feitas no seu corpo. A falta de entendimento do conteúdo do Antigo Testamento implica em uma falta de entendimento claro do texto do Novo Testamento. O próprio Senhor Jesus, quando pregava, começava "por Moisés, discorrendo por todos os profetas" e assim, "expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras" (Lc 24.27).

(2) Para se entender corretamente o papel da Igreja como Corpo de Jesus Cristo é necessário entender o propósito de Deus na criação de Israel. O ensino do Novo Testamento a respeito de Israel só pode ser entendido à luz de toda a revelação de Deus, e não em compartimentos estanques. Não é sem motivo que se encontram tremendas divergências teológicas na área de eclesiologia, visto que o papel de Israel no Antigo Testamento é extremamente mal entendido. Um dos grandes perigos para a Igreja moderna é o de repetir os mesmos pecados da Igreja no Antigo Testamento, mesmo tendo à sua frente o exemplo de como não se deve agir. O mesmo problema se desdobra na área de escatologia, onde o Antigo Testamento, quando citado, na maioria das vezes é usado de maneira inadequada, senão absurda. É necessário que se compreenda que Jesus é o descendente de Abraão, pai de Israel, e sucessor de Davi, rei de Israel. Uma tentativa de se entender o papel da Igreja à parte destes fatos, levará a uma interpretação incorreta do seu papel. A verdadeira igreja de Jesus Cristo é edificada "sobre o fundamento dos apóstolos e profetas" (Ef 2.20). Grandes estudiosos do Novo Testamento são de fato aqueles que têm grande conhecimento do Antigo Testamento.

(3) O povo de Deus não pode, de forma relevante, entender, participar e cumprir seu papel como filhos de Deus no mundo, sem uma compreensão adequada das Escrituras do Antigo Testamento. É óbvia, para pregadores e pastores com formação acadêmica, a necessidade de se compreender a criação e a queda da humanidade para se pregar, de forma coerente, pelo menos, a respeito de qualquer tema nas Escrituras. No ato da criação, Deus deu ao homem três mandatos: espiritual, social e cultural.[103] A possibilidade do cumprimento apropriado destes mandatos é proporcional ao que o povo de Deus conhece deles. Infelizmente, o conhecimento dessas ordens divinas é muitas vezes negado ao povo de Deus por seus pregadores. O Antigo Testamento é rico em ensinamentos sobre família, sociedade, culto e serviço, áreas em que o povo de Deus necessita grandemente de instrução. Em suma, para um ensino equilibrado e qualificado sobre vida cristã, é essencial que o povo de Deus conheça as Escrituras do Antigo Testamento.

Por que não se prega tão freqüentemente no Antigo Testamento quanto se deve?

Muitos aspectos da resposta a esta pergunta estão incluídos nas respostas à pergunta anterior. Entretanto, um outro é abordado aqui: Teologia Bíblica.

A despeito da pressuposição básica com respeito à revelação proposicional e à infalibilidade das Escrituras na teologia de nossa igreja,[104] existem fatores que não permitem uma visão global do ensino das Escrituras. Entre estes, estão a dicotomização teológica entre Antigo e Novo Testamentos e a compartimentalização teológica dentro dos testamentos. É comum encontrar-se nos nossos currículos de seminário e literatura teológica a dicotomia Teologia Bíblica do Antigo Testamento vs. Teologia Bíblica do Novo Testamento. Essas divisões não são apenas reflexo de uma necessidade prática, porém, de um pressuposto teológico nem sempre muito claro: o de que existe mais de uma Teologia Bíblica. A prova mais evidente desse fato são nossos púlpitos, onde, via de regra, o Novo Testamento é destacado em prejuízo do Antigo Testamento. Em geral, Antigo e Novo Testamentos são colocados tão à parte um do outro que é necessária uma explicação complexa dos elos que os unem. Também dentro dos próprios testamentos a divisão é evidenciada quando se fala de teologia joanina, paulina, sinaítica, etc.[105] É natural que existam barreiras em termos históricos devido à distância temporal e cultural entre os Testamentos e a apropriação destes no cânon da Igreja. Essa barreira é também evidenciada pelo fato da revelação ter um caráter progressivo. Porém, o valor teológico de ambos os testamentos não é para ser comparado. Creio que este conceito está implícito nas Escrituras (Hb 1.1-4), assim como está explicitamente descrito no capítulo I da Confissão de Fé de Westminster. Deus se revelou progressivamente e é extremamente importante que as Escrituras sejam lidas e entendidas nesta perspectiva. Nas palavras de E. Clowney, "Essa revelação não foi dada em um só tempo nem na forma de um dicionário teológico".[106] 

Também um só Deus se revelou e isto nos mostra a unidade das Escrituras como revelação lógica e coerente.[107] Apesar deste conceito ser estudado freqüentemente sob o título de Teologia Dogmática (Sistemática), ele é parte do conceito central da Teologia Bíblica. Gerhardus Vos define Teologia Bíblica como "o ramo da teologia exegética que lida com o processo da auto-revelação de Deus depositada[108] na Bíblia".[109] Para uma exposição fiel da verdade das Escrituras é necessário que haja entendimento da Teologia Bíblica como um todo e equilíbrio na exposição dessa teologia. Para isto é necessário que haja equilíbrio na exposição entre Antigo e Novo Testamentos. Creio que uma Teologia Bíblica sem o devido equilíbrio é um dos principais motivos porque não há pregação mais consistente e sistemática das Escrituras do Antigo Testamento.

Um pressuposto que leva ao desequilíbrio na Teologia Bíblica é o de que a familiaridade com a Teologia Sistemática é suficiente para promover um conhecimento abrangente das Escrituras. Teologia Sistemática e Teologia Bíblica são disciplinas distintas, porém interdependentes. A Teologia Sistemática séria não é apenas um amontoado de "textos-prova" descontextualizados. Quando elaborada com seriedade, ela leva em consideração a contribuição da Teologia Bíblica como matéria exegética. A Teologia Bíblica, quando também elaborada com seriedade, considera sempre a perspectiva abrangente da Teologia Sistemática. Assim, ambas as disciplinas são mantidas em uma tensão constante e renovada, conduzindo ao desenvolvimento de uma teologia sadia e relevante que, por sua vez, deve ser ministrada ao povo de Deus do púlpito de nossas igrejas, através da exposição equilibrada do Antigo e do Novo Testamentos.[110] 

O que devemos fazer? 

Penso que diante dos fatos devemos rever algumas de nossas tradições. Tradições podem ser benéficas ou maléficas, dependendo de como são passadas e recebidas por novas gerações. Em muitos casos, boas tradições sofrem distorção e acabam sendo praticadas sem objetivo, ou até mesmo hipocritamente. Basta ler as páginas do Novo Testamento e as críticas feitas por Jesus quanto às várias tradições dos israelitas da época. Se sabemos porque devemos pregar o Antigo Testamento e qual é a maior dificuldade de aproximação às Escrituras do Antigo Testamento, devemos também rever a nossa tradição quanto à pregação do mesmo. Essa revisão precisa acontecer em dois níveis: individual e coletivo.

O nível individual concerne aos padrões que se adota quanto à pregação do Antigo Testamento. Temos mesmo o desejo de ensinar, como pregadores da Palavra, "todo conselho de Deus", e a convicção de que devemos fazê-lo? De que modo a congregação que nos escuta constantemente como pregadores da Palavra percebe as riquezas dos ensinamentos do Antigo Testamento? Como algo obscuro, sem sentido e até mesmo terrível de se ouvir e ler, e que só serve para algumas partes do exercício litúrgico? Uma parte das Escrituras que deve ser relegada a segundo plano? Se a resposta a estas questões é positiva, então a pregação das Escrituras no Novo Testamento também precisa ser revista.

O nível coletivo concerne aos que estão a nossa volta e ministram a outros que são ou serão os pregadores da Palavra. Qual o papel e a importância da Teologia Bíblica? Como ela é ensinada nas instituições de sua igreja? Quais os frutos da mesma na proclamação do Evangelho? Qual a ênfase dada ao ensino de uma Teologia Bíblica que reflete a unidade das Escrituras? As respostas a estas questões devem nos ajudar a perceber quais as tradições que precisam de revisão.

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Notas:
[94] D. Martyn Lloyd-Jones, Preaching and Preachers (London: Hodder and Stoughton, 1981) 9. Traduzido para o Português como Pregação e Pregadores (São Paulo: Editora Fiel, 1984). As citações são da obra original em inglês, traduzidas pelo próprio autor.
[95] O livro é a transcrição de uma série de palestras feitas por Lloyd-Jones no Westminster Theological Seminary, na Filadélfia, USA, em 1969.
[96] Uso o termo "cristão" aqui da forma mais genérica possível.
[97] R. Mohler, A Theology of Preaching, em Handbook of Contemporary Preaching, ed. Michael Duduit (Nashville, TN: Broadman Press, 1992) 13.
[98] M. Duduit comenta: "Durante a década de 60 muitos `especialistas' proclamaram a morte do púlpito; proclamavam que a pregação havia deixado de ser relevante às necessidades da população média americana. Ironicamente, as últimas duas décadas presenciaram uma explosão de interesse na pregação dentro da igreja americana" (M. Duduit, ed., Handbook of Contemporary Preaching, 47). J. Holbert afirma: "O sermão, considerado às portas da morte como uma forma de comunicação fora de moda, está de volta" (Preaching the Old Testament: Proclamation and Narrative in the Hebrew Bible [Nashville: Abingdon Press, 1991] 9).
[99] M. Lloyd-Jones expõe vários destes fatores de forma clara e mais extensa no capítulo 1 de Pregação e Pregadores, entitulado "A Primazia da Pregação." O capítulo introdutório da obra de John R. W. Stott, Between Two Worlds (Grand Rapids: Eerdmans, 1981) é também rico em demonstrar os motivos do declínio da pregação depois da segunda metade do século XX.
[100] Chamo de "helenização do evangelho" a crença de que a forma de pregação deve se submeter a princípios de exposição comuns nos tempos do Novo Testamento e próprios da cultura greco-romana. Se estes princípios devem ser tomados por normativos, não há pregação no Antigo Testamento onde o ensino do povo de Deus era principalmente feito através de narração de eventos e da explicação dos atos de Deus na história.
[101] Um exemplo representativo desta escola é J. Holbert, Preaching the Old Testament: Proclamation and Narrative in the Hebrew Bible. A lista de livros sobre pregação desta escola de pensamento é enorme, principalmente na área de Antigo Testamento.
[102] Para um ponto de vista diverso a respeito de pregação no Antigo Testamento ver E. Achtemeier, Preaching from the Old Testament (Louisville: Westminster / John Knox Press,1989) 21-26.
[103] Para um desenvolvimento mais completo destas idéias ver G. Van Groningen, Revelação Messiânica no Velho Testamento (Campinas, SP: Luz Para o Caminho, 1995).
[104] Falo como ministro da Igreja Presbiteriana do Brasil, denominação confessional, e parte da chamada "linha evangélica" no Brasil. Definições, descrições e estereótipos variam em diferentes países.
[105] Observe que esta dicotomização e compartimentalização é natural na teologia liberal onde o conceito de revelação proposicional e de unidade das Escrituras é totalmente desacreditado.
[106] E. Clowney, Preaching and Biblical Theology (London: Tyndale, 1962) 15.
[107] Para uma ampla discussão do conceito de unidade das Escrituras na área de Teologia Bíblica, verificar a descrição em Gerard Hasel, Teologia do Antigo Testamento: Questões Fundamentais no Debate Atual (Rio de Janeiro, RJ: JUERP, 1975) e Brevard S. Childs, Biblical Theology In Crisis (Philadelphia: Westminster, 1970). Para uma perspectiva mais evangélica, ver Van Groningen, Revelação Messiânica.
[108] O termo empregado por Vos "deposited" é certamente infeliz no debate teológico contemporâneo. Porém, isto não implica em que Vos não cria que toda a Escritura do Antigo e Novo Testamentos fosse a Palavra de Deus.
[109] G. Vos, Biblical Theology: Old and New Testaments (Grand Rapids: Eerdmans, 1948) 13.
[110] Clowney (Preaching and Biblical Theology, 9-19) discute com bastante clareza estes argumentos no primeiro capítulo de seu livro.

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Divulgação: Bereianos

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Por Rev. Felipe Camargo


4. As quatro condições da humanidade

Como já foi tratado anteriormente, a pregação deve levar o cristão à Cristo e isso é feito principalmente na aplicação. Este princípio evitará que o pregador faça aplicações legalistas. Como afirma Ellsworth, “a pregação tem como seu objetivo último a penetração redentiva”.[72] É necessário reforçar que embora seja outro caminho, não quer dizer que deve ser trabalhado separadamente. Como será apresentado, os dois caminhos podem andar em conjunto. 

Para uma aplicação redentiva, e até mesmo cristocêntrica, o pregador deve compreender o quadro que a Bíblia apresenta de “criação, queda, redenção, nova criação”. Dan Doriani trabalha com estes conceitos ao falar de doutrina. E de fato, em toda a Escritura pode-se encontrar doutrinas. O próprio Doriani trabalha as profecias, algumas vezes, como se a “fonte de aplicação” destes textos fossem “doutrina”. [73] 

a. Criação:

Quando é tratado do tema da criação, o pregador encontrará o ideal de todas as áreas da vida. Na Criação todos os mandatos funcionavam perfeitamente. O mandato cultural foi estabelecido antes da queda, apontando para a responsabilidade de cuidar daquilo que Deus criou. Isso demonstra que o trabalho em si é bom.[74] O fato do homem ter sido criado à imagem de Deus significa que sua responsabilidade não é somente de cuidar, mas desenvolver habilidades culturais.[75] O mandato social é estabelecido no sexto dia da criação. Este mandato é recebido juntamente com a bênção dando capacitação ao homem de estabelecer uma família e desenvolver todos os laços sociais (Gn 1.26-28). Neste ponto Plantinga afirma que agir amorosamente com o próximo é refletir a imagem de Deus.[76] O mandato espiritual também é encontrado na criação quando Deus estabelece ordens para não se comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal e até na ordem da guarda do sábado.

Um ensino que o pregador não pode esquecer é que a criação não foi feita para a glória do homem e sim para Deus. Toda a criação foi criada boa para que Deus fosse glorificado nesta criação. A Bíblia afirma que a criação foi criada em Cristo e para Cristo (Cl 1.16). “Todas as suas obras são simplesmente o transbordar da sua infinita exuberância, para sua própria grandeza”. [77]

Isso não muda quando se fala da criação do homem. O objetivo de Deus ter criado o homem por meio de Cristo é para que por meio dele Deus fosse glorificado. Neste sentido, o pregador deve sempre lembrar que o objetivo principal do homem é “glorificar a Deus e gozá-lo para sempre”.[78] John Piper afirma que:

“A felicidade de Deus em Deus é a base da nossa felicidade em Deus. Se Deus não exaltasse e manifestasse alegremente sua glória, seríamos privados da base da nossa alegria. Os fatos de Deus procurar nosso louvor e de nele buscarmos prazer estão em perfeita harmonia. Porque Deus é mais glorificado em nós quando estamos mais satisfeitos nele”. [79] 

Portanto, a felicidade do cristão repousa sobre o Deus soberano. Textos como de Amós 5 onde há o alerta de “buscar ao Senhor e viver”, não deve ser aplicado como se fosse apenas uma ameaça, embora o texto trate de um alerta condicional. O pregador deve lembrar os cristãos que o dever de buscar ao Senhor não é uma obrigação simplesmente, mas que ele foi criado para isso. A alegria do cristão deve ser glorificar a Deus pelo que ele é. [80]

Na pregação dos profetas o tema da criação deve ser bem compreendido. Este tema é explorado nos profetas como argumentação para sua mensagem. Os princípios da criação ainda continuam. Não há como, por exemplo, tentar explicar e até aplicar Isaías 40 sem uma compreensão correta do tema da criação. A maneira como Isaías transmite a mensagem de consolo ao povo vem principalmente do ensino que Deus é criador.

b. Queda:

Na queda, é possível encontrar todos os mandatos sendo quebrados e prejudicados. O mandato cultural é afetado pela maldição lançada sobre a terra, fazendo com que ela produza cardos e abrolhos. O trabalho, não é mais algo agradável, mas o sustento é obtido pelo suor do rosto (Gn 3.17-19). No mandato social se encontra uma alteração não somente no casamento, mas há uma inimizade entre duas descendências (descendência da mulher e da serpente). O desentendimento entre o casal passa a ser algo dificultoso e com intrigas (Gn 3.16), os filhos trariam dores físicas (Gn 3.16) e emocionais (Gn 4.25). Se até mesmo entre irmãos há intrigas e morte (Gn 4.8), não é de se admirar que a sociedade se torne violente e má (Gn 4.23; 6.5). A comunhão do homem com Deus também já não é a mesma. A comunhão que havia no paraíso é anulada transformando-se em medo e vergonha (Gn 3.10). Poucos são os que reconhecem ao Senhor como o único Deus (Rm 3.9-18). Estes poucos lutam constantemente em viver uma vida digna diante de Deus (Rm 7.19).

Com a queda, a imagem de Deus no homem foi corrompida. Embora não esteja apagada, ela está prejudicada e ofuscada. O referencial do ser humano foi quebrado. O alvo do homem deixou de ser adorar a Deus e ter prazer nele. O homem deixou de adorar a Deus e passou adorar a criatura. Paulo trabalha com este ponto no seu primeiro capítulo de Romanos.

Como mostrado anteriormente, os profetas demonstram como o povo de Deus desobedeciam aos mandatos. Por isso, uma visão correta da queda auxilia o pregador a contextualizar os pecados cometidos pelo povo de Deus no Antigo Testamento, mostrando como os mesmos pecados são repetidos.

Mas, há ainda um ponto sobre a queda que amplia ainda mais o campo de aplicação, pois dá ao pregador, uma compreensão correta do mundo. Responde à perguntas do tipo “por que os ímpios prosperam?”, “Por que existem povos maus?”, “Por que o povo de Deus continua a se rebelar?”, “Porque existe tanta miséria, fome, morte, etc”. Conforme Platinga, durante anos os homens procuram uma solução para os problemas da humanidade, bem como sua cura. Portanto,

“Ser cristão é participar desse empreendimento humano comum de diagnosticar, de elaborar uma receita e de oferecer um prognóstico – mas fazer isto partindo de uma visão cristã do mundo; uma visão elaborada a partir das Escrituras, centralizada em Jesus Cristo, o Salvador”. [81]

Com isso em mente, o pregador deve tomar cuidado para não apresentar apenas o problema da queda, mas deve apontar para a solução, ou seja, para a redenção em Cristo.

c. Redenção:

Os profetas, por vezes, anunciavam as promessas de Deus que são chamadas de incondicionais. Essas promessas estão relacionadas à salvação e a aliança de Abraão até o Novo Testamento.[82] As profecias não eram apenas condenatórias, mas tinha um propósito de restauração do povo. Os alertas dos profetas ao povo por causa do pecado geralmente vinha acompanhada de uma mensagem de esperança para a pequena parte fiel. Algumas vezes esta redenção apontava para o final do castigo, outras para a vinda de Cristo e a nova aliança. Este é o meio mais fácil para uma aplicação cristocêntrica. Mas, ainda assim, o pregador deve ficar alerta para a intenção inicial do profeta. Para isso, o pregador deve ter em mente que o Senhor tornava conhecido para os profetas e através deles que os seus propósitos e objetivos escatológicos que foram revelados desde de Gênesis 3 “estavam sendo mantidos, colocados em prática e seriam plenamente alcançados e realizados.’’ [83]

Neste ponto, o pregador pode observar as mudanças que o cristão tem em Cristo. Em Cristo os mandatos podem ser restaurados, pelo menos em parte. Doriani, usando o exemplo do trabalho, afirma que na redenção, apesar de permanecer o pecado e a frustração, “o trabalho mais uma vez tem propósito”.[84] Paulo demonstra essa restauração em Efésios 5.18-9.9. Cunha, comentando este texto, mostra como os mandatos são aplicados através da plenitude do Espírito Santo. Ele apresenta o uso destes mandatos da seguinte forma:

• Efésios 5.18-20: O mandato espiritual: a. Falando uns com os outros salmos, hinos e cânticos espirituais; b. Falando entre vós com salmos, e hinos, e cânticos espirituais; c. Louvando e cantando de coração ao Senhor; d. Dando sempre graças por tudo a nosso Deus e Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo.
 Efésios 5.21-6.4: O mandato social: a. sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo (v.21); b. O relacionamento esposo/esposa; c. A submissão da mulher ao marido; d. O relacionamento pais/filhos.
• Efésios 6.5-9: O mandato cultural: a. O relacionamento servos/senhores: 1. com temor e tremor, na sinceridade do vosso coração, como a Cristo (v. 5); 2. não servindo à vista, para agradar a homens (v. 6); 3. como servos de Cristo, fazendo a vontade de Deus (v. 6); 4. de coração, como ao Senhor (v. 7).[85] 

Neste sentido, o pregador pode apresentar, no sermão, uma forma de restauração destes mandatos mostrando o que pode ser mudado e como fazer isto. Um caminho que pode ajudar é fazer ligações com o Novo Testamento. Greidanus ressalta que uma interpretação teológica lembra o pregador da preocupação central dos profetas: “a preocupação de revelar Deus atuando na História com o propósito de restabelecer seu reino sobre a terra.[86] 

A redenção em Cristo não deve trazer ao cristão um peso sobre seus ombros, pois Cristo oferece um jugo suave (Mt 11.30). É verdade que os cristãos precisam de punição e bons conselhos, “mas também precisam de abraços, alegria, presentes e festas”.[87] O pregador, portanto, deve trazer palavras de redenção.

d. Nova Criação: 

Algumas das promessas incondicionais, tratadas anteriormente, são a restauração dos novos céus e nova terra e a restauração do povo de Deus.[88] Portanto, neste ponto, a aplicação gira em torno do que o crente pode e deve esperar. Quando se fala de nova criação a aplicação deve falar acerca da vida futura e para onde todas as coisas caminham. A criação desde a queda espera ansiosa pela redenção do pecado (Rm 8.20-22) e o mesmo acontece com o crente (Rm 8.23-25). A mensagem dos profetas incluía a esperança de um novo reino estabelecido sobre a terra, contudo, “uma terra transformada pelo poder de Deus”.[89] Neste sentido, pode-se afirmar que o mandato cultural será totalmente redimido. O trabalho, por exemplo, continuará sem o pecado e frustrações.[90] O mesmo acontece com o mandato social, ou seja, o relacionamento do homem com seu próximo. Pois, sem pecado, não haverá inimizades, já que isso é consequência do desejo pecaminoso do coração (Tg 1.1-4). Por conseqüência, o relacionamento com Deus, o mandato espiritual, sem o pecado será pleno e perfeito (1ª Co 15.28).

A esperança de um reino futuro e a restauração de todas as coisas eram temas recorrentes nas mensagens dos profetas, e por isso, essa esperança deve ser levado em conta na aplicação. Eles pregavam sobre a esperança de um reino vindouro de plena alegria. Nesta nova era Deus se regozijaria novamente com sua criação. “Este entrelaçamento de Deus, da humanidade e de toda a sua criação em justiça, complementação e regozijo, é o que os profetas hebraicos chamam de Shalom”.[91] 

É verdade que nem todos os textos falam sobre a nova criação e por isso, o pregador deve ficar atento para isso. Deve-se evitar aplicar este tema se o texto não trata sobre esta esperança. Mas, ao mesmo tempo, não se deve esquecer o contexto da mensagem dos profetas. Os profetas tinham um entendimento do mal porque também tinham uma compreensão do bem.[92] 

Como Olyott ressalta, não basta apenas dizer o que fazer e como fazer, mas é necessário mostrar o porque fazer, ou seja, qual esperança motiva o cristão a fazer o que Deus manda.[93] 

Resumindo, com uma correta compreensão destas quatro condições da humanidade, o pregador encontrará algumas formas de aplicar o seu sermão. Na criação, o pregador mostra o ideal de todas as coisas. No pecado, o pregador apresenta um esclarecimento sobre a realidade e aponta para o que está errado. Na redenção, o pregador aplica a obra de Cristo na vida do cristão mostrando como e o que deve ser mudado. Na nova criação, o pregador pode mostrar o que o cristão pode esperar.

Continua nos próximos dias...

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Notas:
[72] ELLSWORTH. De fé em fé. p. 117.
[73] DORIANI. A verdade na prática. p. 240-243.
[74] Ibid. p. 243.
[75] PLANTINGA, Cornelius; Jr. O crente no mundo de Deus. São Paulo: CEP, 2008. p. 46.
[76] Ibid. p. 47.
[77] PIPER, John. Teologia da Alegria. São Paulo: Shedd, 2003. p. 32.
[78] WESTMINSTER, Assembléia de. O Breve Catecismo. São Paulo: CEP, 1988. Perg. 1. 
[79] PIPER. Teologia da Alegria. p. 37.
[80] PIPER, John. Plena Satisfação em Deus. São José dos Campos: Fiel, 2009. Piper, depois de explorar brevemente este tema, faz quatro aplicações deste tema no seu livro “Plena satisfação em Deus”. Este livro pode servir de exemplo de como este tema pode ser aplicado em diversas áreas na vida do cristão.
[81] PLANTINGA. O crente no mundo de Deus. p. 31.
[82] KAISER and SILVA. Introdução à hermenêutica bíblica. p. 144-145.
[83] GRONINGEN. Criação e Consumação. p. 17.
[84] DORIANI. A verdade na prática. p. 243.
[85] CUNHA, Wilson de Angelo. Breves Considerações sobre a Aliança da Criação e a Plenitude do Espírito em Efésios 5:18 - 6:9, http://www.monergismo.com/textos/teologia_pacto/alianca_plenitude.htm. 08 de Dezembro, 2010.
[86] GREIDANUS. O pregador contemporâneo e o texto antigo. p. 305.
[87] OLYOTT. Ministrando como o Mestre. p. 25.
[88] KAISER and SILVA. Introdução à hermenêutica bíblica. p. 144-145.
[89] GREIDANUS. O pregador contemporâneo e o texto antigo. p. 285.
[90] DORIANI. A verdade na prática. p. 243.
[91] PLANTINGA. O crente no mundo de Deus. p. 30-31.
[92] Ibid. p. 30.
[93] OLYOTT. Ministrando como o Mestre. p. 25.

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Por Rev. Felipe Camargo


3. Aplicação da mensagem

As duas grandes seções de Joel (Joel 1.8-14; 2.12-26) também mostram como ele se preocupava com que a mensagem fosse aplicada aos ouvintes. Após mostrar as calamidades e mostrar o erro, Joel chama o povo ao arrependimento. É importante que o pregador tenha essa preocupação em trazer mudança ao povo a quem prega. Usando a figura de John Stott, é necessário que o pregador construa uma ponte que ligue as duas épocas que são bem diferentes. [54]

De fato, a aplicação da mensagem e transformação dos ouvintes é obra do Espírito Santo. Como afirma Shedd, “pregar uma mensagem bíblica sem esse gracioso ministério do Espírito não produzirá qualquer benefício eterno”.[55] Um bom discurso sobre a Palavra de Deus sem o auxílio do Espírito não passará de uma boa palestra.[56] Mas, isso não exclui a tarefa do pregador de mostrar o que o texto exige dos crentes. É com isso em mente que Shedd também afirma:

“Se não se focaliza na necessidade dos ouvintes como pecadores, distantes de Deus e de sua vontade perfeita, o pregador pode facilmente disparar uma flecha sem ter um alvo em vista. Seguramente essa flecha se perderá”. [57]

Para Chapell, por exemplo, a aplicação é tão importante que ela não somente direciona como o pregador irá expor o texto [58], mas que sem a aplicação a exposição não está completa.[59]

Portanto, duas tarefas primordiais para um pregador são a interpretação do texto e a interpretação dos ouvintes. Mas estas não são as únicas tarefas. O pregador ainda tem o desafio de apresentar uma aplicação das verdades do texto dentro do contexto dos ouvintes. Por isso, Fergunson alerta que:

“É possível instruir, e ainda assim falhar ao nutrir aqueles a quem pregamos. É possível nos dirigirmos à mente, mas fazer isso com pouca preocupação em ver a consciência, o coração e as afeições alcançadas e purificadas, a vontade direcionada e a pessoa inteira transformada por uma mente renovada.” [60]

Por isso, no preparo do sermão o pregador só pode considerar sua tarefa completa no momento em que conseguir identificar as aplicações apropriadas para aquele determinado texto. [61]

Observando um pouco mais as aplicações de Joel pode-se perceber que ele não mostra apenas o que fazer, mas também como deveria ser esse arrependimento e o porquê desse arrependimento. Mais uma vez Joel se torna um padrão para o pregador atual. Essas três abordagens devem ser básicas para uma aplicação bem sucedidas.

• O que deveriam fazer: Eles deveriam se arrepender não apenas externamente, mas, principalmente internamente. Deveriam santificar suas vidas e se voltarem para Deus. Este é o arrependimento exigido para que pudessem receber o favor de Deus novamente.
 Como deveriam fazer: Primeiro diz que todos deveriam se reunir em assembleia solene, incluindo até mesmo as crianças. Todos deveriam fazer jejum, se vestir de pano de saco, se entristecer pelo pecado e rogar o favor de Deus. A maneira como deveriam se arrepender, portanto, é estabelecido pelo próprio profeta.
• Por que deveriam fazer: Como já apresentado, as consequências desse verdadeiro arrependimento trariam não apenas recompensas materiais, mas também espirituais. Não somente os castigos seriam retirados, mas também a promessa de que receberiam também o Espírito de Deus. Corretamente afirma Shedd: “Se os ouvintes não sabem porque devem cumprir as ordens de Deus, a mensagem pode ter um cheiro mais forte de sinagoga do que de igreja. Ela é mais parecida com regras vazias de homens, do que com a Palavra transformadora do Senhor”. [62]

Corretamente, portanto, Olyott afirma que o pregador deve dizer não somente “o que” fazer, mas também “como” fazer dando sugestões sempre que possível e apontar o “por que” fazer. [63] 

O objetivo principal da aplicação é a preocupação em ver vidas sendo transformadas pela palavra de Deus. Se este não for o propósito tanto a aplicação quanto a própria pregação perdem o sentido de existir. De fato, esta tarefa tem se tornado cada vez mais difícil, como explica Mohler:

“Seja pelo pregador ou pelo púlpito, simplesmente não há muita admoestação na igreja hoje. Em nossos dias, isso seria considerado intolerante, invasivo e até mesmo uma imposição. Na verdade, seria mesmo uma arrogância. Mas a função do pregador é expor o erro e revelar o pecado”.[64] 

No entanto, independente da dificuldade, o pregador precisa chamar o povo para uma mudança de vida. Se não fosse por essa preocupação, a mensagem de Joel não teria sentido algum. 

O grande reformador Calvino era um claro exemplo de pregador que visava a transformação dos ouvintes. Para ele, o propósito da pregação do evangelho é exatamente para que Deus guiasse todas as nações à obediência da fé.[65] Lawson, falando sobre os princípios de pregação de Calvino, diz:

“Em suas pregações, repetidas vezes instou seus ouvintes a viverem a realidade do texto abordado. Ao falar do púlpito, o reformador enchia de persuasão afetuosa e apelos fervorosos. Ele pregava com intenção de impelir, encorajar e estimular sua congregação a seguir a Palavra”. [66] 

Mas, como mostra Anglada, esta não era uma preocupação apenas de Calvino, mas também de outros reformadores e puritanos.[67] 

Se toda aplicação deve visar a mudança de vida dos ouvintes,[68] então, todo sermão deve ter uma chamada à esta mudança. Mohler, quanto a isso diz:

“Creio que o alvo da pregação é compelir as pessoas a tomarem uma decisão. Quero que as pessoas me ouçam para entenderem exatamente o que a Palavra de Deus exige delas, quando eu termino. Elas devem dizer ‘Sim, eu farei o que Deus está dizendo’ ou: ‘Não, não farei o que Deus está dizendo’”.[69]

E complementa:

“Todo Sermão apresenta ao ouvinte uma decisão compulsória. Obedeceremos ou desobedeceremos à Palavra de Deus. A autoridade soberana de Deus opera por meio da pregação de sua Palavra para exigir obediência de seu povo” [70]

Shedd alerta que “quando uma mensagem não consegue transformar o coração, fatalmente o endurece”[71] O pregador, portanto, não deve se sentir alegre por elogios recebidos devido à sua eloquência, mas quando percebe que vidas estão sendo transformadas pela exposição da Palavra de Deus e aplicação dela.

Continua nos próximos dias...

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Notas:
[54] STOTT. La predicación. p. 132.
[55] SHEDD. Palavra viva. p.19.
[56] Ibid. p. 58.
[57] Ibid. p. 92
[58] CHAPELL, Bryan. Pregação Cristocêntrica. São Paulo: CEP, 2002. p. 219-222.
[59] Ibid. p. 222.
[60] FERGUNSON. Pregando ao Coração. p. 121.
[61] CHAPELL. Pregação Cristocêntrica. p. 220.
[62] SHEDD. Palavra viva. p.94.
[63] OLYOTT, Stuart. Pregação pura e simples. São José dos Campos: Fiel, 2008. p. 105-113; OLYOTT, Stuart. Ministrando como o Mestre. São José dos Campos: Fiel, 2005. p. 23,24. 
[64] MOHLER. A primazia da pregação. p. 29.
[65] CALVINO, João. Exposição de Romanos: Comentário à Sagrada Escritura. São Paulo: Edições Paracletos, 1997. 524.
[66] LAWSON, Steven J. A arte expositiva de João Calvino. São Paulo, SP: Fiel, 2008. p. 99-100.
[67] ANGLADA. Introdução à Pregação Reformada. p. 188-191.
[68] CHAPELL. Pregação Cristocêntrica. p. 219.
[69] MOHLER. Deus não está em silêncio. p. 79
[70] Ibid. p. 79.
[71] SHEDD. Palavra viva. p.11

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