Expiação: universal ou limitada?

image from google

Cristo não veio ao mundo e morreu na cruz para possibilitar a salvação dos homens e sim salvar os homens de seus pecados, sendo estes pecados o motivo de nossa destituição do Reino de Deus (Rm 3.10-12,23).


Não é difícil notar, no entanto, que as doutrinas humanistas não enxergam isso por pura dureza, porque nenhum ser humano consegue admitir que a sua "salvação depende exclusivamente da volição divina [de Deus] e não com suas próprias forças humanas". Se a salvação possui nossa participação, voltamos então para as heresias pelagianas e semi-pelagianas do Catolicismo Romano, isto é, da graça merecida, sendo que o dom de crer se torna uma "boa obra".

Cristo veio para salvar somente o seu povo, não encontro no texto de Mateus 1.21 a ideia de "possibilidade de salvação", o texto está "afirmando" um desígnio. E em Efésios 5.25,26, afirma que o próprio Cristo se entregou por sua noiva e verteu o seu sangue na cruz para salvá-la e redimi-la de seus pecados, para apresentá-la pura e imaculada. Portanto, o povo que Cristo veio salvar, este também que é conhecido como A noiva do Cordeiro, o Corpo de Cristo e Igreja, estes que compõem o "corpo", nada mais são do que aquelas pessoas que foram agraciadas com o dom da Fé para que possam crer, e isso não vem de nós mesmos, mas vem de Deus (Ef 2.8-10, cf At 13.48).

"Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome; Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus." (João 1:12,13)

Torno novamente a dizer que "Cristo não morreu para possibilitar a salvação para o mundo," e sim, para salvar pecadores ímpios dignos de condenação, para que tenhamos agora paz com Deus e que passemos a estar firmes na graça. Não é difícil entender isso, está na Bíblia, basta ter acesso a ela (Romanos 5.1,2,7-11).

Cristo não veio para aplacar os pecados do mundo, mas para aplacar os pecados dos eleitos (pessoas de várias etnias, raças, tribos e nações) para que, em tempo oportuno, viessem a crer; o oposto da fé é a incredulidade, e se o sangue de Cristo serve para aplacar a ira de Deus contra o ímpio, por que ainda se prega o Evangelho, sendo que Cristo morreu por todo o mundo e, muitos não creem? Se Cristo levou sobre si os nossos pecados, e segundo os sinergistas "os pecados do mundo", sendo que também a incredulidade é um pecado, por que ninguém é salvo? 

Não consigo ver consistência nas doutrinas humanistas do "Livre-Arbítrio" sinérgico quando comparo tal declaração de "possibilidade salvífica ao mundo" a um pecado chamado incredulidade. Analisando Isaías 53.4-7, não consigo cogitar uma doutrina que faz caso do "Livre-arbítrio" humano, mas não toleram a liberdade de Deus quando quer escolher pecadores para serem salvos. Mas espere: ao tratar de salvação, o homem possui Livre-arbítrio e Deus “não”? E se o homem e Deus possuem o atributo de Livre-arbítrio (um juízo de escolha 100% livre de qualquer ação, influência e inclinação de outro agente externo) por que há a diferença de Deus, anjos e homens, criaturas, Reino Celestial e inferno? O Livre-arbítrio não deve ser respeitado quando homens não querem ser salvos e, quando os mesmos, mesmo na incredulidade, não querem ir ao inferno? Se há Livre-arbítrio, ele deve ser considerado em seu todo, se não seria prática de barganhas e infidelidades, uma dualidade divina inescrupulosa!

Portanto, fico com esta afirmativa; que Deus em seu amor e misericórdia, de seu bel prazer e soberana vontade, resolveu salvar pecadores e justifica-los em seu filho Cristo Jesus, e pecadores foram preteridos para o Juízo. Esse ato é a realização da misericórdia de Deus em seu infinito amor e, a execução do ato da justiça e a merecida punição do culpado. Não vejo acepção quando o mesmo Deus salva e condena "pecadores iníquos de mesma proporção".

***
Autor: Klarystone P. Leal
Divulgação: Bereianos
.

A essência singular da fé - 1/2

.


Tendo visto o objeto da fé, partamos agora em direção à forma ou à essência singular e natureza da fé. A essência de algo é aquilo que faz com que este algo seja o que é. A essência de uma coisa a identifica e a distingue de todas as demais coisas. Uma coisa pode possuir apenas uma única essência. Logo, se há duas essências, há também duas coisas. Portanto, de semelhante modo, a fé possui uma essência que lhe é exclusiva.

Neste ponto, devemos notar em que consiste (e também em que não consiste) a natureza essencial da fé.

Em primeiro lugar, a fé não consiste em amor, que é aquilo que os papistas e os arminianos afirmam. O amor não é a essência da fé, pois 1) fé e amor são duas virtudes distintas: “Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; porém o maior destes é o amor” (1Co 13:13). É demasiado óbvio que uma virtude não pode ser a essência de uma outra. 2) O amor é o fruto da fé. Porque, em Cristo Jesus, nem a circuncisão, nem a incircuncisão têm valor algum, mas a fé que atua pelo amor” (Gl 5:6). A fé, portanto, não extrai sua eficácia do amor, antes, a fé é eficaz para a operação do amor, assim como a prática de toda virtude por meio do amor. Atentem também para o ímpeto da palavra ἐνεργέω (energeo) (cf. Rm 7:5; Cl 1:29). O resultado de algo não pode ser sua essência.

Em segundo lugar, a fé não consiste na obediência e observância dos mandamentos de Deus, que é algo que as partes supramencionadas afirmam. Pois a fé se distingue expressamente das obras (1Co 13:13). E também: Ora, o intuito da presente admoestação visa ao amor que procede de coração puro, e de consciência boa, e de fé sem hipocrisia” (1Tm 1:5). Sim, na questão da justificação, as obras e a fé são contrastadas. Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei” (Rm 3:28). Mas alguém dirá: Tu tens fé, e eu tenho obras” (Tg 2:18).

A fé verdadeira é a fonte das boas obras. Estas são frutos e característica da fé, tornando-se evidente, portanto, que onde as boas obras estão ausentes, também a fé verdadeira está ausente. “Porque, assim como o corpo sem espírito é morto, assim também a fé sem obras é morta” (Tg 2:26). Certamente o corpo está morto, caso a respiração tenha cessado. Semelhantemente, tal fé está morta, isto é, a verdadeira fé não está presente quando ela não se manifesta.

Mesmo se sustentarmos que o amor e a observância dos mandamentos não são a forma ou natureza essencial da fé, longe esteja de nós sustentar que a fé pode existir sem o amor. Quando um homem torna-se um crente, ele não apenas recebe iluminação aos olhos do entendimento e em certo grau se torna familiarizado com o Mediador e os benefícios da aliança, mas também se torna, desse modo, amorosamente cativo. O crente se regozija no fato de que há salvação, perdão de pecados e um Espírito que o santifica. Ele se regozija no fato de que há um Cristo e que Ele lhe é oferecido. Ele tem amor pela verdade (2 Ts 2:10). Tendo agora recebido e tendo sido unido a Cristo pela fé, seu amor para com Deus e Cristo é inflamado, e com toda sua disposição ele deseja ser obediente. Nós amamos porque ele nos amou primeiro (1Jo 4:19).

Em terceiro lugar, a essência mesma da fé não consiste em confiar que Cristo é meu Salvador, uma vez que:

(1) Cristo não morreu por todos os homens. Todo indivíduo precisaria, portanto, de fundamentos sólidos a partir dos quais seria capaz de concluir que Cristo morreu por ele e é, pois, seu Salvador.

(2) Deus de fato ordenou que todos que ouvissem Sua palavra cressem, mas Ele não ordenou que todos cressem que Cristo é seu Salvador. Não há um único texto na Bíblia para apoiar isso, de maneira que é simples imaginação afirmar que todos devem crer que Cristo é seu Salvador. Se assim fosse, ele creria numa mentira e iria para o inferno ao aderir a tal ilusão.

(3) Crer que Cristo é meu Salvador pertence à certeza, que é um fruto da fé, o qual pode variar em grau e pode, pois, estar inteiramente ausente. Portanto, a fé verdadeira permanece, e aquele que a possui permanece um verdadeiro crente.

(4) Vários indivíduos que creram temporariamente estão plenamente seguros de si mesmos e não possuem a menor dúvida de que Cristo é seu Salvador e morreu por eles. Eles, todavia, não possuem fé verdadeira e irão se encontrar em engano. Segue, pois, que a fé verdadeira não consiste em confiar que Cristo morreu por mim.

Em quarto lugar, a essência da fé não consiste em desejar ter Jesus como Salvador. Desejar, ou se dispor, pode ser considerado como um ato interno. Uma pessoa percebe a verdade, a necessidade e a excelência de ter Jesus como seu Salvador, e assim deseja tê-Lo como tal. Esse desejo interno incide no objeto em si, mas não nas circunstâncias concomitantes – tais como a necessidade de se abandonar a vida mundana, de buscar Cristo em verdade (agindo assim frequentemente), de entrar verdadeiramente em aliança com Cristo, encontrando somente n'Ele seu deleite. Também é necessário ao crente tomar o mundo como seu inimigo, testemunhando e batalhando contra ele, e estar disposto, por amor a Cristo, a suportar toda pobreza, nudez, perseguições e zombaria. Isto, contudo, não condiz com tais pessoas, e, portanto, eles abandonam por aquilo que Ele é, cedendo, portanto, às suas concupiscências. Destarte, o desejo deles nada mais é do que o desejo de Balaão: Que eu morra a morte dos justos, e o meu fim seja como o dele” (Nm 23:10).

Tal desejo pode ser também de uma natureza extrovertida, isto é, o ser que se expande em direção a Cristo, por meio do qual determinada pessoa demonstra ao Senhor Jesus seu desejo vertical por Ele e Seus benefícios, com o esquecimento de tudo o mais. Uma vez que seu coração não o condena, isso lhe dá liberdade para ir a Cristo e recebe-Lo pela fé como seu Salvador. Aquele que tem sede venha, e quem quiser receba de graça a água da vida” (Ap 22:17). Desse modo, visto que o desejo não precede o exercício da fé, na medida em que se considera a natureza da questão, embora onde quer que exista um desejo tão expansivo, existe também a verdadeira fé.

Em quinto lugar, a essência da fé não consiste num assentimento da verdade do Evangelho. Uma pessoa pode ter uma compreensão bastante clara de todos os mistérios da fé, na medida em que diz respeito tanto às suas verdades quanto à sua excelência. Deixemo-lo aquiescer com plena confiança a essas verdades como verdades, bem como à excelência delas – mesmo isto não é verdadeira fé. De fato, é verdade que os crentes também possuem conhecimento e assentimento, contudo, não podem se apoiar nisso. Eles sabem e têm experiência que esses elementos não os levam a se tornar participantes de Cristo, e, portanto, eles vão além e se apropriam de Cristo. Eles se apoiam n'Ele, confiando seus corpos e almas a Cristo, para que Ele possa justificá-los, etc. Portanto, se um homem não possui nada mais do que o conhecimento e assentimento, ele pode estar certo de que possui meramente a fé histórica ou temporal. Porém, se um indivíduo percebe dentro de si mesmo o exercício real da confiança em Cristo, considerando-a como um fruto de seu assentimento (tomando-o como o ato essencial da fé), ele de fato possui a verdadeira fé. Contudo, ele está equivocado ao considerar que o conhecimento é a natureza essencial da fé. Ilustraremos isto mais adiante na questão que se segue. A essência singular ou forma da fé não consiste, pois, nessas seis questões supramencionadas. Devemos, portanto, considerar agora em que consiste o ato singular e essencial da fé.

Questão: O ato essencial da fé consiste em assentir às verdades divinas e às promessas do Evangelho, ou, antes, consiste numa confiança sincera em Cristo para ser justificado, santificado e conduzido, por Ele, à felicidade?

Resposta: Antes de respondermos, queremos afirmar que:

(1) Não entendemos esse confiar em Cristo como equivalente à certeza – a convicção de que se é pessoalmente um participante de Cristo e todas Suas promessas, ou a paz e quietude resultantes dentro da alma, pois todas estas são frutos da fé, que são mais evidentes em um, e menos em outro. Pelo contrário, entendemos por confiar o ato expansivo [dinâmico] do coração por meio do qual o homem, ao se render e receber a Cristo, Lhe confia corpo e alma, a fim de que Ele possa salvá-lo. Podemos compará-lo a um credor que confia seu dinheiro a alguém, dando-o. De semelhante modo, podemos também compará-lo a alguém que, colocando-se sobre os ombros de um homem robusto a fim de ser carregado através de um rio, confia nele, inclinando-se e fiando-se nele, permitindo-se, desse modo, ser conduzido ao local designado.

(2) Afirmamos que um conhecimento das verdades do Evangelho e o assentimento às mesmas são os pré-requisitos necessários para tal confiança. Sustentamos, ainda, que, posteriormente, a fé também se foca continuamente sobre e é ativada pelas promessas.

***
Autor: Wilhelmus à Brakel
Fonte: The Christian's Reasonable Service
Tradução: Fabrício Tavares
Divulgação: Bereianos
.

Por quem Cristo intercede?

.


Na própria obra de nossa salvação, há duas ações que Cristo fez. (Não me refiro ao plano eterno que torna possível nossa salvação, mas apenas na sua produção em tempos históricos). Estes dois atos históricos de Cristo, são:

1. Sua entrega voluntária, no passado, 
2. Sua intercessão por nós, agora.

Na entrega que Cristo fez de Si mesmo, incluo Sua prontidão para sofrer tudo o que estava envolvido em Sua vinda para morrer, isto é, o esvaziar-Se de Sua própria glória, e o nascer de uma mulher, Seus atos de humildade e obediência à vontade do Pai através de toda a Sua vida, e, finalmente, Sua morte na cruz.

E na intercessão de Cristo por nós, incluo também Sua ressurreição e ascensão, pois são a base de Sua intercessão. Sem elas, não poderia haver intercessão.

Veremos estas duas coisas em maiores detalhes depois, mas quero fazer alguns comentários agora. Estes dois atos têm a mesma intenção. Sua entrega voluntária e intercessão destinam-se a "trazer muitos filhos à glória." (Hebreus 2:10). Os benefícios intencionados por estes dois atos destinam-se às mesmas pessoas; Ele ora em favor daqueles por quem morreu. (João 17:9). Sabemos que Sua intercessão deve ser bem sucedida - "Pai, graças te dou, por me haveres ouvido", disse Ele certa vez. (João 11:41). Segue-se, então, que todos por quem Ele morreu necessariamente receberão todas as boas coisas obtidas através daquela morte. Isso claramente destrói o ensino de que Cristo morreu por todos os homens!

A entrega voluntária de Cristo e Sua intercessão são o único meio para realizar nossa redenção.

É importante verificar, nas Escrituras, como a entrega voluntária de Cristo e Sua intercessão estão ligadas intimamente. Por exemplo:

"Cristo justifica aqueles cujas iniquidades (ou pecados) Ele carregou(lsaías 53:11).
"Cristo intercede por aqueles cujos pecados Ele carregou(lsaías 53:12).
"Cristo ressuscitou dos mortos para justificar aqueles pelos quais Ele morreu(Romanos 4:25).

Cristo morreu pelos eleitos de Deus e agora ora por eles (Romanos 8:33-34). Isso deixa claro que Cristo não pode ter morrido por todos os homens, pois se tivesse, então todos os homens seriam justificados, o que, sem dúvida alguma, não acontece.

Sacrificar e orar são tarefas requeridas de um sacerdote. Se ele falhar em qualquer uma delas, terá falhado na qualidade de sacerdote de Seu povo. Jesus Cristo é mencionado tanto como nossa propiciação (sacrifício) quanto como nosso advogado (representante) (1João 2:1-2). Ele é mencionado tanto como oferecendo Seu sangue (Hebreus 9:11-14), quanto como intercedendo por nós (Hebreus 7:25). Posto que é um sacerdote fiel, Ele precisa realizar estas duas tarefas com perfeição. Visto que Suas orações são sempre ouvidas, Ele não pode estar intercedendo por todos os homens, porquanto nem todos os homens são salvos. Isso deixa claro que Ele também não pode ter morrido por todos os homens.

Devemos também nos lembrar da maneira como Cristo agora intercede por nós. As Escrituras dizem que é pela apresentação de Seu sangue no céu (Hebreus 9: 11-12, 24). Em outras palavras, Ele intercede apresentando Seus sofrimentos ao Pai. Os dois atos, sofrimento e intercessão, devem, portanto, estar relacionados à mesma pessoa, caso contrário, não adiantaria usar um como base para o outro.

O próprio Cristo associa Sua morte e Sua intercessão como o único meio para nossa redenção, em Sua oração no capítulo 17 de João. ( "Não oro pelo mundo, mas por aqueles...") Nessa oração, Ele Se refere à entrega de Si mesmo na morte, e Sua oração é por aqueles que o Pai havia dado a Ele. Não podemos separar estes dois atos, se o próprio Cristo os une. Um sem outro não teria valor, como Paulo argumenta: "E, se Cristo não ressuscitou (e portanto não está intercedendo agora), é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados." (1 Coríntios 15:17).

Portanto, se separarmos a morte de Cristo de Sua intercessão, não há segurança de salvação para nós. De que valeria dizer que Cristo morreu por mim, no passado, se Ele agora não intercede por mim? E somente se Ele nos justifica agora que somos salvos da condenação de nossos pecados. Eu ainda poderia estar condenado se Cristo não intercedesse por mim. É claro que Sua intercessão deve ser em favor das mesmas pessoas pelas quais Ele morreu - e, sendo assim, Ele não pode ter morrido por todos!

***
Autor: John Owen
Fonte: The Death of Death in the Death of Christ. John Owen - 1647
Tradução: Versão em português do livro, traduzido pela Editora PES, disponível aqui! Se preferir, leia em PDF, aqui!
Divulgação: Bereianos
.

Deus odeia os pecadores!

.


"Deus odeia o pecado mas ama o pecador" é um jargão evangélico muito difundido que encontra terreno fértil até mesmo entre os reformados. Entretanto, a despeito de sua popularidade, passa longe da verdade bíblica. Minha oração é que este brevíssimo texto traga luz ao problema e iniba a perpetuação desta inverdade perniciosa.

Para início da discussão, a Bíblia NUNCA separa o pecador dos seus pecados. Para Deus, o pecado não é um "conceito", uma "abstração teórica" satélite ao homem, mas são atos, intenções e pensamentos cometidos por pessoas reais, e a elas associados. O pecado não é uma palavra em um dicionário, mas uma deformidade no caráter do homem, sendo, assim, indissoluvelmente conectado a pecadores. O Rev. Solano Portela, em um artigo bastante elucidativo, análogo e anterior ao meu, diz:

"[...] é impossível separar o pecado do pecador, como se o pecado fosse uma entidade com vida independente, que apenas se utiliza do corpo e da mente do praticante" [1].

Solano está certo.

Outrossim, se fosse verdade que Deus odeia o pecado enquanto ama pecadores, estes não iriam para o inferno. Antes, Deus condenaria ao inferno o "conceito" do pecado, ou: Deus empregaria uma substância amorfa e abstrata, a chamaria de "pecado" e a enviaria ao inferno na consumação dos tempos. Contudo, sabemos que não é assim que acontece. Com efeito, Deus envia PESSOAS, ao inferno. O Senhor condena PECADORES - e não o "pecado"! - ao inferno. Óbvio como parece, Deus procede assim porque odeia pecadores, e o remanescente de Deus só é salvo porque O apraz atribuir os seus pecados a Cristo.

Aliás, isso nos leva a um importante argumento cristológico. Quem morreu de forma expiatória e vergonhosa como sacrifício aceitável a Deus não foi um conceito, mas uma pessoa. Cristo assumiu o pecado dos eleitos e morreu por eles, vicariamente. A própria encarnação de Cristo está ligada à sua identificação com aquilo para o que apontava a ira condenatória de Deus. Se Cristo veio como homem (1Tm 2.5) é porque os homens - os seres humanos - são os destinatários da terrível e justa ira divina. A Bíblia diz que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores (Rm 5.8). Cristo não morreu por uma ideia, Ele morreu por PESSOAS, já que os pecados delas não estão separados delas.

Além disso, a Bíblia cristaliza, logo adiante, ainda em Romanos:

"Porque se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, tendo sido já reconciliados, seremos salvos pela sua vida" (Rom 5:9-10).

Deus está irado com PESSOAS, e não com uma ideia, com uma abstração. Este texto diz que nós, antes de termos os benefícios da obra de Cristo aplicados a nós, éramos inimigos de Deus. Inimigos! E diz ainda que fomos reconciliados. Ora, a reconciliação pressupõe uma condenação, e, seguindo a leitura deste pequeno versículo constatamos que o que foi condenado por Deus não se trata de um conceito, mas de pessoas. É evidente que Deus tem algo muito pessoal contra pecadores e que sua ira é direcionada a eles. Os homens em si mesmos, e não uma abstração intitulada "pecado", são alvos da ira divina. Se Deus odiasse um conceito chamado "pecado", o Filho de Deus não viria na forma de homem, mas na "forma" de tal conceito. Não sei como isso se pareceria...

Repare ainda que o verso diz que nós fomos reconciliados pela morte do Filho. Portanto, não se engane! O fato de que Deus "odeia o pecado mas ama pecadores" não foi verdadeiro sequer com o Unigênito do Pai, tampouco o será com seus filhos adotivos. Deus odiou a Cristo no último momento de Sua humilhação (Mt 27.46; 1Jo 4.10).

Por fim, concluo dizendo que a doutrina do ódio de Deus por pecadores não resulta apenas de uma inevitabilidade teológica - que, per se, já seria uma evidência inequívoca e fatalmente bíblica deste ensino - , mas encontra respaldo textual claro, translúcido, facilmente disponível a qualquer regenerado que aborde a Bíblia com sinceridade.

O Salmo 11.5 diz:

"O Senhor prova o justo; porém ao ímpio e ao que ama a violência odeia a sua alma".

E Paulo, aos Romanos, argumenta:

"Amei a Jacó, e odiei a Esaú. Que diremos pois? Que há injustiça da parte de Deus? De maneira nenhuma. Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia. [...] E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição" (Rom 9:13-15,22).

Ambos os textos não poderiam ser mais claros: Deus odeia pecadores. Odeia ao ponto de condená-los ao inferno por toda a eternidade. Não é a ideia "pecado" com a qual Deus está irado, mas com os próprios pecadores, que O desafiam na sua rebeldia.

Destarte, devemos evitar a propagação de jargões populares que, embora algumas vezes possam ser bem intencionados, corrompem a preciosa verdade divina e pulverizam equívocos doutrinários corrosivos. Deus não ama o pecador enquanto odeia o pecado. Deus ama aqueles por quem Cristo morreu. E aqueles por quem Cristo não morreu, estes não têm o seu nome escrito no livro da vida (Ap 20.15).

________________
Notas:
1. PORTELA, Solano. Deus odeia o pecado, mas ama ao pecador! É isso mesmo?. O Tempora o Moraes. Disponível em: http://tempora-mores.blogspot.com.br/2009/10/deus-odeia-o-pecado-mas-ama-o-pecador-e.html. Acesso em: 10 out. 2015.

***
Autor: Paulo Ribeiro
Fonte: Teologia Expressa
.

Pagando a dívida, e ainda devedor (comentário a Gl 2:20)

.


Gálatas 2.20 é um versículo precioso, poderia dizer, inigualável. Não somente porque foi o versículo da minha conversão [que descrevi no texto O dia em que Cristo me fez], mas porque, de uma forma singular, poder-se-ia resumir a vida cristã ou, ao menos, descrevê-la plenamente. É também o alvo, o de um dia poder dizer: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim”. São palavras que me acalentam, me dominam, me compungem a encontrar-me nelas. Poderia ser a epígrafe cravada na minha sepultura, porém, muito mais a quero gravada em meu coração. O resumo de tudo o que almejo e quero experimentar. Mais do que isso, ser. E desde aquele momento, decorei-as, como se decora a melodia da mais bela entre todas as canções. Como se ouvisse a sinfonia perfeita, inefável, a síntese do mais puro e santo sentido, ainda que com palavras indizíveis em sua verdade absoluta e extraordinária. Como se estivesse a construir algo que sei impossível, por mim mesmo, construir. De certa forma, invejo a Paulo por ter sido ele e não eu a proferi-las; mas creio que saídas de sua boca, elas têm o som da minha voz, o som da sua voz, o som da voz de todos os santos, daqueles que são um em Cristo, e por ele vivem.
     
Mas, o que levou o apóstolo a proferi-las?
    
A mensagem central de Gálatas é a disputa: Lei x Evangelho. Em vários momentos, parece haver o desprezo de Paulo pela lei, como se fosse descartável e não existisse mais nenhum sentido nela. Mas esse não é o caso. Em outra carta, ele diz: E assim a lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom” [Rm 7.12]. E, ainda: “Anulamos, pois, a lei pela fé? De maneira nenhuma, antes estabelecemos a lei” [Rm 3.31].
    
O que está em disputa entre Paulo e os judaizantes é a lei como instrumento de salvação. Eles pregavam contra o Evangelho, ao afirmar que era necessário se cumprir toda a lei para salvar-se. Por isso, o apóstolo diz: “Se a justiça provém da lei, segue-se que Cristo morreu debalde” [ 2.21]. Ora, se para ser salvo o crente deveria cumprir toda a lei, qual a razão de Cristo encarnar, padecer, e morrer na cruz? Por isso o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo [2.16]. Desta forma, Paulo constrói a defesa do Evangelho da Graça, sem que haja nenhum tom antinominiano [1] em seu discurso, pelo contrário: “É porventura Cristo ministro do pecado? De maneira nenhuma. Porque, se torno a edificar aquilo que destruí, constituo-me a mim mesmo transgressor” [2.18].

Se Cristo pagou na cruz a dívida que tínhamos para com Deus, e se está paga, definitivamente paga, o que mais podemos fazer que Ele não fez? Fico a imaginar Paulo rindo-se da tolice desses homens, mas entristecendo-se pelo caráter sutil e maligno de distorcerem a fé a fim de enganar incautos, e anular a graça. Cristo, ao destruir o pecado e seu caráter condenatório sobre os eleitos, não poderia restituí-lo novamente, ao ponto em que seria exigido o cumprimento da lei para a salvação. Se a justiça foi decretada na cruz para os que creem, se o pecado foi morto, ressuscitá-lo significaria dizer, entre outras coisas, que a obra do Senhor não foi eficaz, e de que, loucamente, ao trazer a justiça, trouxe a injustiça.

O apóstolo está a condenar aqueles que anteriormente pregavam o Evangelho da graça, para agora viver pela lei, tornando-os em transgressores, porque quem não está morto para a lei, vive para ela, ou seja, vive para a morte, pois pela lei ninguém pode ser justificado perante Deus [3.11], antes está debaixo da maldição da lei. Ao contrário, quem está morto para a lei, vive para Deus, eternamente. Paulo ensina a teologia correta, a doutrina correta, mas muito mais do que isso.

• Ele disse que estava morto para a lei.
• Que estava crucificado com Cristo.
• Que vivia, não mais ele, mas Cristo.
• Que Cristo o amou, e se entregou a si mesmo por ele.

Então, o que levou o apóstolo a proferir o verso 2.20?

A consciência de tudo isso acima, mas, sobretudo, reconhecer que, sem Cristo, nada disso seria possível. Nem mesmo ele, Paulo, seria possível. De uma forma maravilhosa, Paulo reconhecia a completa dependência do Senhor, e a obra fantástica que fez para que ele pudesse reconhecer-se em Cristo. Sem ele, o que seria Paulo? Sem Cristo, o que seria eu? Você? Não haveria esperança, não haveria o perdão, nem a salvação. Apenas a tristeza assoladora de que a condenação era questão de tempo, irremediável, uma maldição a pairar sobre nossas cabeças eternamente. E se eu, antes condenado, agora salvo pelo poder de Deus, o que quereria exaltar em mim mesmo para voltar à destruição? Ou seria possível exaltar-me na ruína? Ou antes, ser um dia como Cristo é? Pois se olharmos para nós, como somos, sem Cristo, não haverá nada além de condenados sem que seja preciso esperar o castigo, pois estamos já a “curtir”, sobre nós, a ira de Deus. Se olhar para mim, descobrirei apenas que sou miserável, e nu, e cego. Se olhar, e apenas me ver, há um pecador naufragando em pecados. Se sou o futuro, não há futuro; apenas o passado de morte, de sofrimento e angústia. Ao contrário, se vejo Cristo em mim, assim como Paulo o via em si, as coisas mudam de figura. Já não sou mais um condenado, antes justificado. De pecador, a santo. De maldito, a bendito. De desgraçado e vil, a agraciado e amado.

A teologia de Paulo [2] estava certa. Ela lhe trouxe esperança, certeza, convicção. E abriu-lhe os olhos para a mais surpreendente e inesperada verdade, de que ele já não era mais ele, mas Cristo a viver nele. E trazia no seu corpo as marcas do Senhor [6.17], marcas profundas que não o impediam de se ver como era, de reconhecer o que era, de gloriar-se nas fraquezas para que o poder do Senhor em si habitasse [1Co 12.9]. Porém, antes era necessário que compreendesse e conhecesse isso, para depois sentir; pois, como sentir o que não se conhece ou não compreende? Como alguém desejará o que não conhece?

Como qualquer homem, ele tinha de nascer, crescer e amadurecer na fé. Mas ninguém nasce por si mesmo; era necessário que fosse gerado por Cristo; que o sangue do Senhor não somente o limpasse dos pecados, mas corresse em suas veias e bombeasse no seu coração a vida. A vida que somente o Senhor poderia dar, e deu, a despeito de todo o desejo de nos apossar dela como se fosse nossa por direito, e não por dádiva, misericordiosa, e graciosamente entregue pelo amor com que Deus nos amou. O caminho nos é mostrado, mas não há nada que nos faça andar nele, se não nos for revelado. Quem não pode ver, como saberá onde andar?

O certo é que, como João o Batista disse, era necessário que ele diminuísse e Cristo crescesse [Jo 3.30].

E assim será para todos os que foram crucificados e mortos com Cristo.

Se ele não viver em nós, a morte viverá.

_________

Notas: 
[1] Antinomianismo significa “antilei”. É o oposto de legalismo, e como ele, uma heresia. Para os defensores do antinomianismo, o crente não tem de obedecer à lei de Deus, pois Cristo à pregou na cruz. E se a pregou na cruz, está-se livre para viver como quiser, inclusive pecando o quanto quiser; ao ponto de até mesmo distorcerem o sentido de graça, ao afirmar que, quanto mais se peca, mais a graça se manifesta.
[2] Paulo, ao defender magistralmente o Evangelho da graça, afirmando a justificação somente pela fé no sangue derramado de Cristo na cruz, defende também a sua autoridade e ministério contra os falsos-mestres, os detratores que buscavam difamá-lo e desqualificá-lo como apóstolo. E nada mais verdadeiro do que reafirmar que estava morto para si, para viver para Cristo, enquanto aqueles queriam viver por si mesmos.
- Aguçado pela conversa com uma querida irmã, lembrei-me que devia um texto sobre Gl 2.20. E, por mais que escreva, sempre serei devedor a Deus por tê-lo dado a mim.
- Não entrei muito na questão da impossibilidade da lei como meio de salvação, a qual farei brevemente em outro texto.

***
Autor: Jorge Fernandes Isah
Fonte: 
Kálamos

.

Por quem Cristo morreu?

.


Neste vídeo, o Rev. Dorisvan Cunha expõe um dos pontos mais controvertidos da Teologia Reformada; a extensão da expiação de Cristo. A pergunta é: por quem Cristo morreu? Ele morreu por toda a humanidade ou Ele morreu apenas pelos pecados do Seu povo?


Assista:



***
Fonte: Guerra Pela Verdade
.

O Cristo Glorificado Voltará

.


Imagine alguém que trabalhou o dia inteiro, como por exemplo, uma mãe que acordou bem cedo e desde a hora que as crianças saíram para escola ela não parou de trabalhar (e nem pensou em si mesma). Ela fez todo o seu serviço doméstico, além de deixar o café da tarde e também o jantar pronto. E agora, desde a hora que ela acordou, agora que todo o trabalho terminou, ela se senta. Este “sentar” não é um mero descanso, mas ela se sentou porque o trabalho foi concluído.

Quando olhamos para Hebreus 1.3-4 nós vemos a declaração do escritor mostrando que Cristo, após ter feito a purificação dos pecados, assentou-se a destra de Deus. Assim como a ilustração que mostrou uma mãe fazendo o seu trabalho e se sentando como sinal de seu término, da mesma forma Cristo, após cumprir aquilo que o Pai lhe mandou, Ele se assentou à direita de Deus.

É justamente isso que o 19º Dia do Senhor no Catecismo de Heidelberg vai nos mostrar:

50. Por que se acrescenta: "e está sentado à direita de Deus"?
R. Porque Cristo subiu ao céu para manifestar-se, lá mesmo, como o Cabeça de sua igreja cristã(1) e para governar tudo em nome de seu Pai (2). 
(1) Ef 1:20-23; Cl 1:18. (2) Mt 28:18; Jo 5:22. 
51. Que importância tem, para nós, essa glória de Cristo, nosso Cabeça?
R. Primeiro: por seu Espírito Santo, Ele derrama sobre nós, seus membros, os dons celestiais (1). Segundo: Ele nos defende e protege, por seu poder, contra todos os inimigos (2). 
(1) At 2:33; Ef 4:8,10-12. (2) Sl 2:9; Sl 110:1,2; Jo 10:28; Ef 4:8; Ap 12:5. 
52. Que consolo traz a você a volta de Cristo "para julgar os vivos e os mortos"?
R. Que, em toda miséria e perseguição, espero, de cabeça erguida, o Juiz que vem do céu, a saber: o Cristo que antes se apresentou em meu lugar ao tribunal de Deus e tirou de mim toda a maldição (1). Ele lançará, na condenação eterna, todos os seus e meus inimigos (2), mas Ele me levará para si mesmo, com todos os eleitos na alegria e glória celestiais (3). 
(1) Lc 21:28; Rm 8:23,24; Fp 3:20; 1Ts 4:16; Tt 2:13. (2) Mt 25:41-43; 2Ts 1:6,8,9. (3) Mt 25:34-36; 2Ts 1:7,10. 

O “assentar” de Cristo não é somente porque Ele concluiu a Sua obra, mas foi também uma demonstração de sua vitória sobre o pecado, a morte e o Diabo. Fazendo que todas as coisas fossem colocadas debaixo de seus pés, tornou-se o cabeça da Igreja (Ef 1.20-23), tendo toda a autoridade no céu e na terra (Mt 28.18), como um Rei Soberano. 


Na última pergunta do Dia do Senhor, o Credo confessa que Cristo voltará para “julgar os vivos e os mortos” e que esta certeza nos faz ter consolo em Cristo, mas de que forma? 

Primeiro, o retorno de Cristo é uma demonstração pública da absolvição dos nossos pecados. Pois, outrora nós, filhos da ira, fomos resgatados da nossa vã maneira de viver para uma nova e viva esperança em Cristo Jesus. E assim, a condenação que nós deveríamos receber, Cristo recebe na cruz, se fazendo maldição por nós. Por isso podemos dizer que “espero, de cabeça erguida, o Juiz que vem do céu, a saber: o Cristo que antes se apresentou em meu lugar ao tribunal de Deus e tirou de mim toda a maldição”. 

Segundo, além de Cristo nos livrar da condenação eterna, Cristo nos faz vitorioso com Ele, pois os nossos inimigos serão condenados. No entanto, estes inimigos não são aqueles que odiamos sem uma causa justa (p.e. vizinhos, colegas de trabalho, irmãos da igreja etc.), mas são aqueles que se voltam contra o Evangelho, os inimigos da cruz de Cristo. Mas por que será um consolo para nós, saber que tais pessoas serão lançadas no inferno? Porque, primeiro, Deus é justo e todos aqueles que zombaram d'Ele serão, por Ele mesmo, lançados no inferno, cumprindo inúmeras passagens bíblicas que falam da realidade do inferno. Segundo, é um consolo saber que a fé que Deus nos deu é genuína, uma fé que nos faz crer realmente no sacrifício perfeito de Cristo, pois aqueles que não crêem em Cristo serão lançados eternamente no inferno. E, terceiro, de que valeria o inferno se Cristo tivesse morrido por toda a humanidade? Pois, se Deus derramou a sua ira – a qual era para ter sido derramada sobre mim – sobre Seu único Filho, por que Deus derramaria de novo a Sua ira sobre pecados que o Seu Filho já pagou?

Por fim, a volta de Cristo é um consolo para nós porque habitaremos com Ele para todo sempre em corpo e alma, onde todas as nossas dores, doenças e aflições serão sanadas. E, é claro, nunca mais pecaremos entristecendo o Santo Espirito de Deus. 

No entanto, este consolo indizível será para aqueles que entendem que o único consolo na vida e na morte é que não pertencemos a nós mesmos, mas de corpo e alma pertencemos ao nosso fiel Salvador, Jesus Cristo, e o seu retorno é a nossa bem-aventurada esperança (Tt 2.13).

***
Fonte: Bereianos
.

Creio em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor

.

Creio em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor, o qual foi concebido por obra do Espírito Santo; nasceu da virgem Maria; padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado; ressurgiu dos mortos ao terceiro dia; subiu ao Céu; está sentado à direita de Deus Pai Todo-poderoso, donde há de vir para julgar os vivos e os mortos.

Nesta segunda parte, o Credo Apostólico ratifica quem é Cristo, a Sua divindade como segunda pessoa da Trindade, como ele nasceu, morreu e ressuscitou.

Durante séculos Jesus sofreu vários ataques, alguns negaram a Sua divindade, sua humanidade, sua existência. Hoje, os ataques à pessoa de Cristo são um pouco diferentes, alguns desses ataques, ou melhor - blasfêmias, é inventar alguns títulos a Cristo, os quais não possuem base bíblica. Na verdade esses títulos não são para engrandecê-lo, mas para menosprezar sobre quem Ele é na realidade.

Certa feita Jesus pergunta aos seus discípulos: “Quem diz os homens ser o Filho do homem? E eles disseram: Uns, João o Batista; outros, Elias; e outros, Jeremias, ou um dos profetas. Disse-lhes ele: E vós, quem dizeis que eu sou? E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. (Mt 16.13-16). A resposta de Pedro é a mesma que afirma o Credo em outras palavras, Jesus Cristo, seu único Filho. 

Para o homem moderno essa declaração de Pedro é antiquada, para eles, Jesus foi um grande psicólogo que já existiu, outros veem Jesus como um grande revolucionário de sua época, um profeta. Todas essas declarações e outras as quais fazem com que percam o sentido bíblico de quem é Jesus, podem ser consideradas como atitudes de um anticristo. João, em sua primeira carta, vai nos mostrar que o espirito do anticristo é aquele que não confessa que Jesus veio em carne. Provavelmente João estava se deparando com um pré-gnosticismo, mas o mais interessante é que não confessar como é Jesus e, como ele veio, e para que veio, essa pessoa tem o espirito do anticristo. Logo, qualquer pessoa que intitula Cristo de algo que faz com que se perca do foco da revelação bíblica, esse tem o espirito do anticristo.[1] 

Mas não é assim que o credo trabalha, ele nos mostra de forma magnifica e resumida sobre quem é Cristo e o que Ele fez:

          • Filho de Deus
          • Nosso Senhor
          • Nasceu da virgem Maria, concebido pelo Espirito Santo. 
          • Crucificado, morto e ressuscitado.
          • A ascensão de Cristo
          • Segunda vinda

1. Filho de Deus 

No Antigo Testamento o termo “Filho de Deus” era aplicado a nação de Israel, aos juízes, aos anjos e especialmente ao rei. No Novo Testamento a igreja toma o lugar de Israel e ela é consistida dos “filhos de Deus”, por adoção. 

Mas, no caso de Cristo, este nome adquire um significado mais profundo. Se eu não reconheço Cristo como Filho de Deus, eu estarei negando o seu:

Sentido messiânico. Crer que Jesus é o Messias é crer que Cristo, o Filho de Deus, é o libertador profetizado na Antiga Aliança, o qual deveria morrer pelos pecados de seu povo (Is 52.13 – 53.12). Crer que Cristo é o Messias é crer que o Filho é o próprio Deus. Pois alguns textos mostram claramente de que a salvação pertence ao Senhor (Jn 2.9), e que o próprio braço do Senhor pode salvar (Is 59.15-20; cf. 43.3, 11; 45.15,21). A afirmação de que Jesus é o Messias é central no evangelho bíblico. 
Sentido trinitário. A Escritura mostra que Cristo é a segunda Pessoa da trindade, o testemunho escriturístico e é claro em mostrar que Cristo é Deus porque é igual ao Pai em essência, poder e santidade, em essência, Cristo é igual ao Pai em eternidade (Jo 17.5,24), em honra e glória (Jo 5.23, 17.1,4,5), criador e redentor (Jo 1.3; 5.21), em domínio (Lc 10.22; 22.29), em perfeição (Hb 7.28), auto existência (Jo 1.4. 14.6) e digno de adoração (Mt 14.33); em poder, Cristo mostra sobre a natureza (Mt 4.3; 14.15-23), sobre satanás (Jo 5.21; 6.40), para perdoar pecado (Mc 2.5-7) e em santidade (Lc 1.35; Jo 10.36). 

Assim, com as definições acima, podemos ver que há, de fato, duas naturezas em Cristo. Quando a Bíblia mostra Jesus como Filho de Deus, a Bíblia está mostrando a deidade de Cristo. E quando a Bíblia mostra Jesus como o Filho do Homem, a Bíblia está mostrando a sua humanidade. Mas Cristo é também chamado de Filho de Davi, onde que, esse título faz referência ao seu messianismo. É em Cristo que o trono de Davi é perpetuamente continuado (Sl 89.29,34-36), é onde que o tabernáculo de Davi é levantado (Am 9.11, cf. At 15.16). Este Rei, o Filho de Davi, não tem um reino politico, mas é Ele que inaugura e anuncia o Reino de Deus. 


2. Nosso Senhor

Crer que Cristo é Senhor sobre tudo e todos para a atual sociedade é repugnante, para a atual sociedade a melhor forma de guiar o mundo é não tendo um governante, fazendo assim, com que todos sejam anárquicos. 

Até para o evangelicalismo o título de Senhor atribuído a Cristo é menosprezado, um dos sentidos que o termo Senhor é usado é o fato de fazer referência a um senhor que é dono de escravos. E é isso que a Bíblia declara. Ela nos testifica que “...não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por preço...” (1 Co 6.19,20) e o mesmo Paulo fala em suas epístolas que é “escravo de Cristo”. Aqui o crente é visto como uma possessão de Cristo, mas para alguns ser escravo de Cristo é humilhante e opressor, mas o que alguns não entendem é que a verdadeira liberdade é ser escravo de Cristo. 

Outro uso da palavra Senhor no Novo Testamento referindo-se a Cristo está relacionado com o Antigo Testamento. A palavra “senhor” no grego (Kyrios) foi usada para traduzir a palavra hebraica Adonai na Bíblia do Antigo Testamento em grego (LXX), palavra essa que foi usada na liturgia de Israel para substituir a palavra Yahweh, a qual não podia ser proferida.[2] No Novo Testamento Jesus recebe o título de Senhor o qual está assentado à direita de Deus, e assim, Cristo recebe o título de Adonai, pois quando Jesus é chamado de “Senhor dos senhores” não resta dúvida que o termo se refere a uma autoridade absoluta sobre toda a autoridade. 

Por isso que para a atual sociedade crer que Jesus é Senhor sobre tudo e todos, é humilhante. Para os cristãos do primeiro século, crer que Jesus como Senhor era desonrar a César e esperar arcar com as consequências. 

3. Nasceu da virgem Maria, concebido pelo Espírito Santo

Como uma expressão de fé, o Credo confirma que Jesus nasceu de uma virgem por obra do Espirito Santo, e este é um dos temas mais descridos. Como uma virgem pode dar a luz se não houver um contato com um homem? Mas qual a implicação de crer que Cristo nasceu de uma virgem? 

3.1. A necessidade de uma virgem

A necessidade de uma virgem não era para fazer com que Jesus fosse santo, no entanto, Cristo seria e é santo por ser a sua natureza eternamente santa. Mas a necessidade de que Cristo nascesse de uma virgem era para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta “Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho...” (Is 7.14). Alguns entendem que o termo almah não é tão apropriado assim para fazer jus ao termo “virgem” que Mateus descreve em 1.23. Holladay define o termo almah como uma “moça (em idade para se casar)”.[3] E assim surgiram vários ataques dizendo que a referência de Mateus a Isaias era forçada demais. A questão é que a profecia se cumpre nos tempos de Isaias (a curto prazo) e ela aponta para o futuro por causa do Deus Conosco (a longo prazo).[4] Além de ser uma dupla referência, a própria Septuaginta (LXX – uma tradução do 1º século antes de Cristo do Antigo Testamento) traduz o termo “virgem” do hebraico para o grego perthernos, da mesma forma que cita Mateus. Logo, seria difícil concluir que os tradutores da Septuaginta queriam favorecer o cristianismo, como acusam Mateus, o evangelista, de ter feito isso.  

Beale explica sobre o significado de explícitos e implícitos que há em tais passagens, G.K. Beale defende que tal concepção, o qual ele chama de “O conceito de visão periférica cognitiva,[5] era mantida pelos escritores do AT (significados explícitos) e que estes possuíam, o significado implícito. Ou seja, segundo Beale, “quando os autores neotestamentários e veterotestamentários fazem afirmações diretas com um significado explicito, essas afirmações sempre pressupõem uma gama correlata de significados secundários que ampliam o significado explicito”.[6] Por exemplo, quando o autor neotestamentário diz que os crentes estão “em Cristo”, quais aspectos envolvem essa união? Essa união de estar “em Cristo” envolve todos os aspectos salvívicos concedidos por Cristo e em Cristo. Ou seja, quando o apóstolo Paulo fala de justificação, é óbvio que o apóstolo não estava deixando de lado o tema sobre santificação. 

3.2. Por que crer que Jesus nasceu de uma virgem? 

Vimos acima que o fato de Cristo nascer de uma virgem não era para que Ele nascesse santo, mas para se cumprir a profecia que fora dita pelo profeta. Mas, por que é essencial para a fé cristã crer que Jesus nasceu de uma virgem?

Além de crer na inerrância da Escritura mostrando o seu perfeito cumprimento, Deus mostra o desfecho final de sua revelação progressiva desde o Antigo Testamento. Na Antiga Aliança as mulheres estéreis, após Deus abrir o seus ventres, deram à luz filhos que foram grandes homens de Deus na nação de Israel (p.e. Sara, Gn 11.30; 16.2; Ana, 1Sm 1.6ss e Isabel, 1.7ss), bem como as profecias, serviram de preparação para que, quando acontecesse o ocorrido, eles entendessem o ocorrido. Ou seja, Deus fez com que mulheres estéreis dessem à luz a grandes servos de Deus mostrando que o Servo do Senhor que haveria de vir, viria de uma virgem. 

Crer que Cristo nasceu de uma virgem mediante a ação do Espírito Santo não quer dizer que Cristo herdaria a corrupção de José (apelando para o traducionismo). Mas é entender a obra de redenção de Jesus Cristo. Quando Deus criou Adão, Deus o formou do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego de vida. Quando Deus gerou a Cristo, nascido de mulher na plenitude dos tempos, foi para mostrar a ação redentora de Cristo sendo o nosso segundo Adão. Enquanto em Adão a morte passou a todos os homens, em Cristo a vida veio sobre todo aquele que crê. 

Por fim, Rousas John Rushdoony, diz:

“O nascimento virginal é um milagre, o milagre de uma nova criação, uma nova humanidade. O renascimento de todo cristão é um milagre, o milagre da regeneração por Jesus Cristo. Esse segundo milagre depende do primeiro. Porque Jesus Cristo é verdadeiro homem e verdadeiro Deus, ele é capaz de refazer o homem segundo a sua imagem. Ele é capaz de preservar o homem dos poderes das trevas, e é capaz de sujeitar todas as coisas ao seu domínio. De fato, o objetivo da história é declarado de antemão: “o reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo, ele reinará pelos séculos dos séculos” (Ap 11:15). Temos um destino glorioso naquele que nasceu da virgem Maria.[7]

Somente aquele que nasceu de novo, provou a graça do novo nascimento, pode afirmar que o nosso Salvador nasceu de uma virgem, não herdando a sua natureza pecaminosa porque o seu Pai é Deus e sua natureza é santa. 


4. Crucificado, morto e ressuscitado

Esta parte, para qualquer teólogo liberal é difícil de aceitar. E isso pode ser um problema para a atual sociedade. Por exemplo, todo o mundo comemora o Natal (de forma errada, mas comemoram). É mais fácil crer no nascimento do que na morte e ressurreição de alguém. O Natal, até para os cristãos, é mais comemorado do que a Páscoa (que simboliza a ressurreição). Ou seja, crer em um nascimento é fácil, mas na ressurreição não. Mas, o que significa o fato de Cristo ter sido crucificado, morto e ressuscitado? 

4.1. Por que Deus necessitou de uma cruz?

Sendo Deus todo poderoso, criador de todas as coisas, por que Ele precisou de uma cruz para com que recebêssemos o perdão de nossos pecados? 

Paulo nos dá uma luz, dizendo: 

Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro.” (Gl 3:13)

Mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos.” (1º Coríntios 1:23)

Paulo nos mostra que a cruz era maldição que produzia escândalo nos gregos. Para os romanos era o castigo mais cruel e asqueroso, morrer em uma cruz era a forma de morrer mais torturante que podia existir, era para os assassinos e rebeldes. 

Se a cruz para os romanos era asquerosa, quanto mais para um judeu que, segundo a Lei, ser pendurado no madeiro era sinal de maldição (Dt 21.22,23).

A maldição da cruz é colocada sobre Cristo. Ele, sendo o nosso substituto, se faz maldito para nos tornar bendito diante de Deus, o Pai. O Justo morre pelos injustos. E Pedro, enfatizou aos judeus de sua época, lembrando-os da maldição de Cristo:

O Deus de nossos pais ressuscitou a Jesus, ao qual vós matastes, suspendendo-o no madeiro.” (At 5.30)
E nós somos testemunhas de todas as coisas que fez, tanto na terra da Judéia como em Jerusalém; ao qual mataram, pendurando-o num madeiro.” (Atos 10.39)
Por não terem conhecido a este, os que habitavam em Jerusalém, os seus príncipes, condenaram-no, cumprindo assim as vozes dos profetas que se leem todos os sábados. E, embora não achassem alguma causa de morte, pediram a Pilatos que ele fosse morto. E, havendo eles cumprido todas as coisas que D’Ele estavam escritas, tirando-O do madeiro, o puseram na sepultura.” (At 13.27-29)

Pedro, assim como outros cristãos, não tinha vergonha de falar que o seu Senhor foi amaldiçoado no madeiro, por causa de seus pecados. Como o próprio Pedro fala: “
carregando Ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados.” (1Pe 2.24)

A cruz de Cristo mostra que os planos de Deus são bons, mesmo quando não entendemos, a crucificação de um inocente é a pior coisa que aconteceu, mas ao mesmo tempo foi a melhor coisa que nos aconteceu. Pois, se cremos que Deus tira um Bem Maior do mal, o maior bem que Deus fez foi moer o seu próprio Filho na cruz em favor de muitos. 

Sendo assim, a razão da cruz, segundo Philip Ryken, era sofrer a maldição que nós merecemos pelos nossos pecados.[8] 

4.2. O Servo sofredor

Jesus, em Isaías 53, é descrito como o “servo sofredor”. O termo não aparece no texto, mas mostra o Servo de Deus sofrendo, pela vontade e pelas mãos de Deus, em favor de muitos. Não podemos falar sobre a morte de Cristo sem falar de suas causas. Vejamos algumas coisas que o profeta Isaías nos revela sobre a morte de Cristo e o propósito da causa do sofrimento de Cristo. 

4.2.1. O pecado humano

Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido. Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho; mas o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos. Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca. Da opressão e do juízo foi tirado; e quem contará o tempo da sua vida? Porquanto foi cortado da terra dos viventes; pela transgressão do meu povo ele foi atingido. E puseram a sua sepultura com os ímpios, e com o rico na sua morte; ainda que nunca cometeu injustiça, nem houve engano na sua boca.” (Isaías 53.4-9)

Isaías mostra que as nossas dores, enfermidades, transgressões e iniquidades são a causa da morte de Cristo, o servo sofredor, por causa da desobediência de nossos primeiros pais e o pacto quebrado, toda a humanidade recebeu a condenação de Adão. Este, sendo o representante de toda a raça humana, condenou a todos ao inferno. Mas Deus o fez enfermar para que nos reunisse em um só rebanho com um só pastor.

4.2.2. O agrado do Pai

Todavia, ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do pecado, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias; e o bom prazer do Senhor prosperará na sua mão.” (Isaías 53.10)

A morte de Cristo não foi um mero acaso, até porque Cristo é o cordeiro morto desde a fundação do mundo (Ap 13.8). Foi a vontade de Deus moer o Seu Filho. Aqui, a pergunta sobre o mal é respondida: Por que Deus permite que alguém bom (realmente bom) sofra, Deus seria capaz disso? Sim! Deus permitiu e fez com que o Santo de Israel, o Ungido, sofresse em favor de seu povo para que o bom prazer prosperasse em suas mãos.

John Piper, diz:

O seu alvo era destruir o mal e o sofrimento através do próprio mal e sofrimento. “Pelas suas pisaduras fomos sarados” (Isaías 53.5). Por meio do sofrimento de Jesus Cristo, Deus deseja mostrar ao mundo que não há pecado nem mal tão grande do qual Ele, em Cristo, não possa fazer surgir justiça e alegria eternas. “O próprio sofrimento que causamos tornou-se a esperança de nossa salvação.” [9] 

4.2.3. Expiação


A morte de Cristo, segundo o texto de Isaías 53.10, é expiatória. D.A. Carson define expiação como “o ato pelo qual o pecado é cancelado, anulado, apagado do registro”.[10] A morte de Cristo na cruz nos mostra que por nós mesmos os nossos pecados não poderiam ser pagos, muito menos cancelados. Em Cristo, Deus propôs expiação por nossos pecados (Rm 3.25), ou seja, removendo e afastando de nós o nosso pecado. 

4.2.4. Para se satisfazer

O texto prossegue dizendo: Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento, o meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniquidades deles,  levou sobre si.” (Isaías 53.11)

Cristo morre na cruz sabendo que seu trabalho não seria em vão, tinha plena certeza do bom resultado do seu penoso trabalho. Aqueles que creem em uma expiação universal têm sérios problemas com esse verso, visto que, Cristo morre por toda a humanidade, sabendo que nem todos serão salvos, Ele ficaria com o fruto do seu trabalho? Creio que não, pois que fruto é esse de algo que não foi eficaz? Somente a morte substitutiva pode cumprir com este propósito.

Este belo trabalho envolve a justificação, esta só pode ser feita por alguém justo, e Cristo é Servo Justo, o qual justificará a muitos. A justificação é o ato pelo qual Cristo, tomando o nosso lugar, nos declarou quites para com a Lei de Deus.

Sendo assim, a morte de Cristo era necessária para se cumprir o que os Escritos já mostravam, pois era impossível a nós satisfazer à ira de Deus, e Cristo, Seu Filho, recebe a nossa condenação na cruz cancelando os nossos pecados e dividas diante de Deus.

4.3. Ele não está aqui

Esta foi a frase que o anjo disse às mulheres quando foram até o túmulo no domingo de manhã (Mt 28.6). 

Nos pontos acima vimos a Sua humilhação, Cristo, sendo Deus, como Paulo descreve, não teve usurpação em ser igual a Deus, antes, foi um servo obediente até a morte e morte de cruz (Fp 2.5-11). Cristo, em seu estado de humilhação, nasceu de uma pecadora, viveu entre pecadores, comeu com esses pecadores, por causa dos pecadores foi humilhado, cuspido e morto na cruz. O credo agora vai mostrar o Seu estado de exaltação: Ressurreição e ascensão. 

4.3.1. Cristo ressuscitou para quê?

Como mostrei acima quando falei do seu nascimento, abordei a questão de que a nossa sociedade, mesmo sendo a comunidade cristã, não dá tanta importância a Páscoa. Infelizmente alguns cristãos fazem mais festa no dia 25 de dezembro (tradicionalmente comemora-se o nascimento de Cristo), do que a sua ressurreição, a qual os primeiros cristãos, com o testemunho bíblico, entenderam ser Cristo a nossa páscoa (1Co 5.7).

Portanto, nós vimos acima que Cristo foi morto na cruz por causa dos nossos pecados. Mas, e se Cristo não tivesse ressuscitado? Paulo nos responde que “se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé.” (1Co 15.14) 

Calvino, diz:

“É vã a pregação, não simplesmente porque ela inclua certo elemento de falsidade, mas porque é indigna e um completo logro. Pois o que fica se Cristo foi devorado pela morte; se foi aniquilado; se sucumbiu sob a maldição do pecado; se, finalmente, ficou cativo de Satanás? Numa palavra, uma vez que o principio fundamental foi removido, tudo o que resta será de nenhum valor”. [11] 

A nossa fé e pregação, que é uma exposição daquilo que cremos, vai por água abaixo. Pois, a nossa justificação foi fruto da ressurreição de Cristo, vencendo a morte. Cremos e pregamos que todos quantos morrerem em Cristo antes da Sua volta, ressuscitarão para a vida eterna, porque Cristo também ressuscitou sendo a primícia dos que dormem (1Co 15.13,20). Se Cristo não ressuscitou a nossa vida continua a mesma, debaixo de maldição, sendo escravo do mundo, a carne e o Diabo, e assim, “
comamos e bebamos que amanhã morreremos” (1Co 15.32).

A ressurreição é o elemento mais importante da igreja cristã, pois quando Cristo foi crucificado os discípulos fugiram, mas quando Cristo ressuscita eles saíram de onde estavam escondidos e passaram com Cristo quarenta dias ouvindo acerca do reino de Deus (At 1.3). 

É nisso que está firmada a nossa fé, pois na ressurreição de Cristo temos:

         • A certeza de nossos pecados pagos;
         • A certeza de que fomos absolvidos diante de Deus;
         • A certeza de que Cristo não era pecador, porque a morte não o venceu;
         • Que na sua morte e ressurreição Cristo venceu a morte e despojou os                       principados e potestades;
         • A certeza de que ressuscitaremos e viveremos com ele eternamente.


4.3.2. A ressurreição de Cristo é uma prova da Trindade

Assim com a obra de salvação é realizada pela Trindade[12], a ressurreição de Cristo é também uma prova disto. A Escritura declara que a ressurreição de Cristo foi pelo:

Deus Pai - At 3.26 “Ressuscitando Deus a seu Filho Jesus, primeiro o enviou a vós, para que nisso vos abençoasse, no apartar, a cada um de vós, das vossas maldades.” (cf. Gl 1.1)
Deus Espirito - Rm 8.11 “E, se o Espírito daquele que dentre os mortos ressuscitou a Jesus habita em vós, aquele que dentre os mortos ressuscitou a Cristo também vivificará os vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que em vós habita.”
Deus Filho - Jo 10.18 “Ninguém ma tira de mim, mas eu de mim mesmo a dou; tenho poder para dar, e poder para tornar a tomá-la. Este mandamento recebeu de meu Pai.” (cf. Jo 2.9)

4.4. A ascensão de Cristo


A ascensão de Cristo é a ordem natural da ressurreição, se constituindo no selo do cumprimento da sua obra expiatória. A ressurreição de Cristo está ligada a três princípios: Eclesiologia, soteriologia e escatologia. 

4.4.1. Eclesiologia

Cristo, ao ressuscitar, passa quarenta dias ensinando os seus discípulos e com mais de quinhentos irmãos (1Co 15.6). Antes de ascender aos céus Cristo incumbiu aos seus discípulos que ficassem em Jerusalém até que do alto fossem revestidos de poder (Lc 24.49). Sendo assim, a igreja tem a incumbência de:

        • Pregar a Cristo – Mc 16.19,20; cf. At 4.13
        • Viver diariamente como Corpo de Cristo – Ef 1.22,23

A ascensão de Cristo é um estimulo de perseveramos na fé, sabendo piamente, que o nosso Senhor estará conosco até a consumação dos séculos. 

4.4.2. Soteriologia

A ascensão de Cristo ressalta o cumprimento de sua missão, revelando a Sua glória e poder, enquanto na encarnação Cristo se desprende de Sua glória, na sua ascensão Cristo volta ao seu estado anterior ao seu nascimento. E assim Paulo diz sobre a ascensão e salvação: “Subindo ao alto, levou cativo o cativeiro” (Ef 4.8). As suas ovelhas estavam mortas em pecado, cativos no poder de satanás. Mas, na ascensão de Cristo, Ele consome a sua obra para a plena posse da salvação dos eleitos.

4.4.3. Escatologia

A ascensão de Cristo é marcada por um dialogo entre os seus discípulos e seu Senhor e a resposta de dois homens vestidos de branco: 

Aqueles, pois, que se haviam reunido perguntou-lhe, dizendo: Senhor te restaurará neste tempo o reino a Israel? E disse-lhes: Não vos pertence saber os tempos ou as estações que o Pai estabeleceu pelo seu próprio poder [...] E, quando dizia isto, vendo-o eles, foi elevado às alturas, e uma nuvem o recebeu, ocultando-o a seus olhos. E, estando com os olhos fitos no céu, enquanto ele subia, eis que junto deles se puseram dois homens vestidos de branco. Os quais lhes disseram: Homens galileus, por que estais olhando para o céu? Esse Jesus, que dentre vós foi recebido em cima no céu, há de vir assim como para o céu o vistes ir.” (Atos 1.6,7, 9-11)

A resposta de Jesus aos seus discípulos é bem enfática, dizendo que não compete aos homens saber o dia de sua vinda (cf. 1Ts 5.1), mas que Jesus voltará da mesma forma que os vistes subir, afirmam os homens de branco.

Essa é a esperança que move a Igreja, pregar o Evangelho a todas as pessoas até que venha o fim, sabendo que o nosso Senhor Jesus voltará com grande poder e glória e consumará todo o mal, fazendo justiça começando pela casa de Deus (Ml 3.1-5, 13-18; cf. 1Pe 4.17).

4.4.4. Em que a ascensão de Cristo nos beneficia

Primeiro, temos um advogado junto ao Pai (1Jo 2.1), Cristo está no céu defendendo a nossa causa, para sempre. Satanás não pode nos acusar mais, pois Cristo é o nosso advogado que está pronto para nos defender. 

Segundo, temos a nossa própria carne no céu. Cristo, quando ressuscitou, foi com o mesmo corpo, só que glorioso. Ou seja, o corpo que Ele viveu entre os pecadores foi o mesmo que ressuscitou e ascendeu aos céus. Essa é a nossa esperança, de que, da mesma forma que Cristo ressuscitou e ascendeu aos céus, nós, os que estamos em Cristo, ressuscitaremos e viveremos eternamente com ele (Cl 3.3-4). 

Terceiro, temos o Espírito Santo como resultado, Cristo tinha dito aos seus discípulos que se Ele não fosse o Espírito não viria. Ele sobe aos céus, a promessa é cumprida e o Espírito passou a habitar em toda carne (Jo 16.7; At 2.17). Por intermédio do Espírito, Cristo está presente conosco. 

4.4.5. Assentado a direita de Deus

No último aspecto sobre o seu estado de exaltação, após a ressurreição, o Credo mostra que Cristo foi levado às alturas, posto à direita de Deus em sinal de autoridade, ficando acima de todo principado, potestade, um nome que está acima de todo nome (Ef 1.10,21), sujeitando todas as coisas sob seus pés (1Co 15.27), tendo-se tornado tão superior aos anjos quando herdou mais excelente nome do que eles (Hb 1.3-4).

A.A. Hodge, diz:

“Cristo assentado sobre esse trono, durante a presente dispensação, como mediador, aplica eficazmente ao seu povo, por meio do seu Espírito, a salvação que previamente havia adquirido para eles em seu estado de humilhação.”[13]

Enquanto Cristo estiver à direita de Deus, Cristo está intercedendo pelos eleitos e por aqueles que serão salvos, mas Cristo virá outra vez para julgar os vivos e os mortos. 


4.5. Segunda vinda

A vinda de Cristo, para o Credo, é enfática. Ele morre, ressuscita, ascende aos céus e voltará. Essa é a certeza de toda a história cristã, tendo como base a certeza de sua ressurreição, como mostrei acima. 

A certeza da volta de Cristo é um sinal de esperança gloriosa e de medo, porque a Bíblia diz para nós vigiarmos todos os dias, pois não sabemos nem o dia e nem a hora da volta do Filho do Homem, e uma esperança, pois temos a certeza de que nossas lágrimas serão enxugadas. 

O crente deve ter em mente que a volta de Cristo, para a sua igreja fiel, é um consolo. O Catecismo de Heidelberg, no 19º Dia do Senhor, pergunta:

Que consolo lhe dá o fato de que Cristo há de vir para julgar os vivos e os mortos?
Resposta: Que em todas as minhas aflições e perseguições eu de cabeça erguida e cheio de ânimo espero vir do céu, como juiz, Aquele mesmo que antes se submeteu ao juízo de Deus por minha causa, e removeu de sobre mim toda a maldição. Ela lançará todos os Seus e meus inimigos na condenação eterna, mas levará para Si mesmo, para o gozo e glória celestiais, a mim e a todos os Seus escolhidos. (pergunta 52)

A resposta da pergunta 52 do Catecismo nos mostra três motivos para nos alegrarmos sobre a sua segunda e única vinda. 


Primeira, é um consolo porque não tememos o julgamento, porque a ira que nós merecíamos foi derramada sobre o nosso Senhor, sendo assim, todas as nossas aflições e perseguições que sofremos aqui na terra cessarão. Segundo, a sua vinda nos traz consolo porque Cristo subjugará todos os nossos inimigos debaixo de seus pés. Isso não surge com um tom de vingança pecaminoso, mas a certeza, a qual a Bíblia nos diz, que toda injustiça será feita justiça que é vinda do próprio Deus. Esse é o brado daqueles que estão debaixo do trono de Deus: E clamavam com grande voz, dizendo: Até quando, ó verdadeiro e santo Dominador, não julgas e vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?” (Ap 6.10).

Terceiro, nos mostra que na sua vinda teremos a certeza que em corpo e alma moraremos eternamente com o nosso Senhor. A vinda do juiz indica o fim de todo sofrimento, de toda depressão, de todo câncer e de todos os males causados pelo pecado. 

_____________
Notas:
[1] Cf. 1 João 2.18,22; 4.4.3; 2 João 1.7
[2] SPROUL, R.C. Discípulos hoje. 1º ed. – São Paulo: Cultura Cristã, p. 32
[3] HOLLADAY, William L. Léxico hebraico  e aramaico do Antigo Testamento. 1ªed. – São Paulo: Vida Nova, p. 389
[4] Cf. OSWALT, John. Comentário do Antigo Testamento – Isaías – vol. 01. 1ªed. – São Paulo: Cultura Cristã. p. 263-267
[5] BEALE, G.K. O uso do Antigo Testamento no Novo Testamento e suas implicações hermenêuticas. 1ª ed.– São Paulo: Vida Nova, p. 11-12
[6] Ibidem. p.55
[7] RUSHDOONY, Rousas John. Nascido da virgem Maria.
http://www.monergismo.com/textos/cristologia/nascido-virgem-maria_rushdoony.pdf
Acessado em 26/Dezembro/2014.
[8] Veja a obra de MONTGOMERY, James. A ofensa da cruz. In: GRAHAM, Philip. Et al. O coração da cruz. 1ª ed. – São Paulo: Cultura Cristã, 2008. 
[9] PIPER, John. Para sua alegria. 1ªed. São José dos Campos, SP – Ed. Fiel. 2008, p. 25
[10] CARSON, D.A. Qual a diferença entre propiciação e expiação? 
https://www.youtube.com/watch?v=Zz8rDC8pess. Acessado em 26/12/2014.
[11] CALVINO, João. 1 Coríntios. – 2.ed. – São Bernardo do Campo, SP: Edições Parakletos. 2003, p. 465
[12] Ef. 1.3-5 (Deus Elege); 6-12 (Jesus redime); 13-14 (Espirito Santo sela) (cf. 1Pe 1.2).
[13] HODGE, A.A. Esboços de teologia. 1.ed. – São Paulo: PES, 2001, p. 617. 

***
Fonte: Bereianos

Leia também a primeira parte deste estudo: Creio em Deus Pai Todo Poderoso
.