Série Credo Apostólico - Parte 5: O Padecimento do Cristo

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INTRODUÇÃO

“...foi crucificado, morto, sepultado, desceu ao mundo dos mortos”.

A crucificação é um episódio doloroso e que muitos conhecem por sua brutalidade. O filme “Paixão de Cristo”, dirigido por Mel Gibson foi uma das encenações do martírio de Jesus que mais se aproximou do espetáculo horrendo que aconteceu há dois milênios atrás. Mas o que passa despercebido para alguns é que as dores físicas e o horripilante rito de matar um homem pendurando-o num madeiro não foram o pior que aconteceu ao Cristo. Seu padecimento extrapola o que é visível para a plateia que vê o Filho de Deus apregoado na cruz. O que nosso Senhor sentiu foi o peso de carregar sobre si os pecados de muitos e com isso, sentiu a ira e o abandono de Deus Pai, pois ali, de maneira substitutiva, aquele que não tinha pecado representava (de modo vicário) a soma da vileza dos piores pecadores possíveis. E ele sentiu a agonia infernal de ser punido para satisfazer a justa ira divina.

Logo, devemos compreender que a crucificação não evidencia apenas o altruísmo de um homem que deu a vida para deixar de herança um belo exemplo às gerações posteriores. A cruz pode ser vista como um episódio de amor e misericórdia, porém, mais que isso ela foi o desfecho de uma dívida que era preciso ser paga. O credor não podia simplesmente perdoar, alguém deveria derramar seu sangue para que a justiça fosse feita. Citando John Stott, é correto dizer que “Na Cruz, a misericórdia e a justiça divina foram igualmente expressas e eternamente reconciliadas”.

Para uma melhor compreensão do que disse Stott, é preciso recorrer a um texto paulino.

O SUBSTITUTO

Paulo vai iniciar a sua exposição doutrinária aos Romanos afirmando que as pessoas sem Lei são culpadas diante de Deus (Rm 1.18-2.16). Em seguida, o apóstolo afirma que os possuidores da Lei também são culpados (Rm 2.17-3.8). Enfim, o mundo inteiro é culpado diante de Deus (Rm 3. 9-20). A culpa é proveniente do pecado: “todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus” (Rm 3.23).

Ao falar sobre a natureza culpada do ser humano, que o torna réu no Tribunal de Deus, Paulo está introduzindo a boa nova. O Evangelho, para ser bem compreendido, precisa partir desse ponto. O que se segue na explanação paulina é que Deus não nos retribuirá segundo os nossos pecados, pois em Cristo, através da morte na cruz, nós fomos justificados, isto quer dizer que nossos pecados não mais serão levados em conta, foi Cristo quem pagou por eles com seu sangue. Eis a boa notícia que leva o nome de Evangelho. Então, não é preciso fazer nada na tentativa de aplacarmos a ira de Deus. Jesus já fez tudo por nós, sua obra é completa e já foi consumada. Basta crer somente nele.
A fé nos justifica e não nossas obras, pois somos incapazes de guardar a Lei de Deus. Jesus foi aquele que não pecou e se deu por sacrifício em nosso favor. Nossos pecados foram remidos pelo sangue de Cristo. Judeus e gentios, ambos declarados justos graças aos méritos do Salvador. O que Paulo ensina aqui é o cerne da doutrina cristã, e em ambos os testamentos temos o desenvolvimento da história da redenção até chegarmos até o Cristo.

Em Gênesis 1, lemos Deus criando o mundo e o homem. Tudo o que Ele criou é bom. Mas, no capítulo 3 já vemos que o homem decide quebrar sua aliança com Deus e através da instrumentalidade de Satanás, o pecado entra no mundo e macula o espírito do homem, colocando-o na condição de inimigo do SENHOR, separado de Sua santa presença. Todavia, em Gênesis 3.15 existe uma promessa de que da descendência da mulher – Eva – viria àquele que iria destruir Satanás e sua obra perversa. E o desenrolar do Antigo Testamento nos mostra Deus suscitando uma semente até que chegue a plenitude dos tempos (Gl 4.4) e a profecia se cumpra ao nascer Jesus, nascido de uma mulher e debaixo da lei.

Como o ser humano se tornou incapaz de se achegar a Deus, por conta do pecado, foi preciso que Deus estabelecesse o resgate. E para isso um inocente assumiu o lugar dos pecadores. Jesus Cristo é um substituto legal que em si suportou toda a ira dos pecados sendo expurgados. Por Deus ser santo, não pode conviver com o pecado, e por isso não poderia simplesmente perdoar e deixa-lo impune. A misericórdia do Senhor não acontece a despeito de sua justiça. O pecado deveria ser punido e seus efeitos no homem derrotado para que pudéssemos ter reconciliação.

O autor da carta aos Hebreus nos diz que sem derramamento de sangue não há remissão de pecados (Hb 9. 22). Falando de todo o sistema sacrificial da antiga aliança, o autor mostra que eram apontamentos ao sacrifício definitivo de Cristo, por isso que ele é chamado de Cordeiro de Deus, e foi imolado antes da fundação do mundo (Ap 13.8 e 1 Pd 1.19-20). Como o animal do sacrifício, e, ao mesmo tempo, sacerdote que estava mediando nossa relação com o Pai, Cristo foi nosso substituto, o segundo Adão que através de sua obediência perfeita, atendeu os critérios para receber o pagamento de nossos pecados e assim nos justificar.

A OBRA DA CRUZ

Cristo sendo nosso substituto, e morrendo na cruz, realizou aquilo que não poderíamos. A Escritura usa quatro termos para falar sobre o que foi realizado através da morte vicária de nosso Salvador, vejamos agora o que eles querem dizer.

- Propiciação: É o sacrifício que serve para aplacar a ira de alguém que foi ofendido. No nosso caso, ofendemos ao Criador através de nossos pecados, por isso, a propiciação seria um fator apaziguador, pelo qual Deus não nos puniria por nossos pecados. O sacrifício de animais no Antigo Testamento tinha esse caráter, por isso que o local onde o sangue era aspergido chamava-se propiciatório. Cristo na cruz é a nossa propiciação (1 Jo 2.2 e 4.10).

- Expiação: É o ato que promove reconciliação, reaproximação, perdão e purificação mediante sacrifício. O sangue dos animais ilustrava o sangue de Cristo vertido no Calvário. Jesus expiou nossos pecados.

- Justificação: Ter a culpa removida e sermos declarados justos diante de Deus é um dos efeitos da expiação. Não somos considerados justos pelos nossos méritos. A justificação vem pelo derramamento de sangue inocente. O sacrifício de Cristo nos justifica (Rm 3.24-25), e de uma vez por todas (Hb 9), sem necessidade de continuar sacrificando.

- Santificação: Seguindo a justificação vem a santificação. Dentro da Arca estava a Lei (Dt 10.2 e Hb 9.5). Por cima da Lei havia o sangue da expiação, derramado sobre o propiciatório. Isso nos mostra que não é a obediência a Lei que me leva ao Cordeiro (Cristo). É o Cordeiro que me leva a obedecer a Lei. Guiados por Jesus, santidade é um caminho real, pois nele, somos separados para as boas obras.

Assim sendo, a obra de Cristo tem grande valor para nós, e sem ela não teríamos paz com Deus, continuaríamos mortos em nossos delitos e pecados, vivendo debaixo de sua ira. Mas foi por sua infinita misericórdia que Cristo nos foi dado, para que nele nós obtivéssemos a vida.

MORTE REAL

O Credo enfatiza que a morte de Cristo foi real e não figurativa. Ele foi sepultado, após morrer crucificado, que era uma ultrajante pena de morte aplicada no Império Romano aos mais vis criminosos. Isso está registrado nos quatro evangelhos, de forma que basta lê-los para nos certificarmos disso. Todavia, um grupo herético (gnósticos) negava que Jesus havia morrido, pois para eles, Cristo tinha apenas uma aparência corpórea, mas não tinha um corpo real. Ora, isso faz com que a morte de Cristo não seja real, logo, ele não seria o nosso substituto. Mas não é isso que a Escritura nos diz e precisamos afirmar categoricamente que o Verbo se fez carne (João 1).

Uma ênfase de que Cristo morreu de fato é a sentença “desceu ao mundo dos mortos” ou “desceu ao Hades”. Esta é uma frase que não constava primeiramente no Credo, mas foi acrescida a ele por volta do século 7. Antes disso, a expressão era usada como substituta da frase “foi sepultado”, mas o seu emprego sendo colocado após a frase que antes a substituía, tal como lemos hoje, gerou uma série de interpretações.

Hades é para os gregos o mundo dos mortos, onde estão todos que faleceram. Os bons ficam no lugar chamado Elísio e os maus no Tártaro, que seriam os dois compartimentos deste mundo. A cristianização desse termo o colocou como sendo o Inferno e daí houve uma corrente que começou a defender que após a sua morte, Cristo foi pregar aos cativos no Inferno ou foi lá para proclamar a sua vitória, como creem os luteranos.

No Antigo Testamento, Sheol era a designação do lugar dos mortos, mas também podia ser, dependendo do uso, sepultura. Hades foi muitas vezes usado como sinônimo de Sheol. Pedro usou a palavra em Atos 2:27, quando citou o Salmo 16:10 - que usa Sheol. Isto pode nos levar a concluir que “desceu ao Hades” sirva de ênfase ao sepultamento de Cristo.

A tradição reformada, a partir de Calvino, interpreta a frase como sendo enfática. Sobre o porquê desta sentença está no Credo (pergunta 44), o Catecismo de Heidelberg responde:

Porque meu Senhor Jesus Cristo sofreu, principalmente na cruz inexprimíveis angústias, dores e terrores. Por isso, até nas minhas mais duras tentações, tenho a certeza de que Ele me libertou da angústia e do tormento do inferno”.

O Catecismo Maior de Westminster (Resposta a pergunta 50) também diz que A humilhação de Cristo depois da sua morte consistiu em ser ele sepultado, em continuar no estado dos mortos e sob o poder da morte até ao terceiro dia; o que, aliás, tem sido exprimido nestas palavras: Ele desceu ao inferno (Hades)”.

CONCLUSÃO

Jesus sofreu não apenas na sua crucificação. Toda sua vida foi de aflição. Santo, teve que habitar num mundo corrompido pelo pecado, sendo tentado em tudo, mas sem pecar, como nos diz o texto sagrado (Hb 4.15). Experimentou o descrédito daqueles que eram o seu povo e lidou com o ódio de determinado grupo religioso. Jesus foi traído por um de seus discípulos e negado pelos outros ao ser preso. Homem de dores!

Na crucificação, apesar de toda dor física, havia a terrível angústia de ser punido e abandonado por seu Pai, pois ali estava representando a figura da vileza humana, mesmo sendo Ele alguém que obedeceu plenamente toda a lei. Aquela aflição sofrida na cruz era demais para nós, não suportaríamos, todavia, Ele a suportou em nosso lugar para que ficássemos livres. O fardo do pecado foi desatado de nossas costas e os que creem em seu sacrifício não sentirão os tormentos infernais, pois Cristo já suportou tais tormentos. Por isso regozijemo-nos na mensagem da cruz. Ela é boa nova para todo o que em Cristo Jesus depositar a sua fé.

Soli Deo Gloria

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Autor: Pr. Thiago Oliveira
Divulgação: Bereianos


Leia também:
Série Credo Apostólico - Parte 1: Um Símbolo da Fé Cristã
Série Credo Apostólico - Parte 2: Pai, Todo Poderoso, Criador
Série Credo Apostólico - Parte 3: Jesus Cristo é o Senhor
Série Credo Apostólico - Parte 4: O Redentor no Espaço-Tempo
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A cruz e o pecado – uma resposta a André Valadão

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Recentemente o pastor e cantor gospel André Valadão postou uma foto nas redes sociais afirmando o seguinte: “a cruz não é a revelação do nosso pecado, é a revelação do nosso valor”. Confesso que ao ver tal imagem circulando na rede me assustei, tamanho o absurdo da afirmação. 

Qualquer cristão que tenha estudado um pouco a sua Bíblia sabe que a cruz de Cristo é justamente a exposição máxima do nosso pecado. A Bíblia sistemática e categoricamente afirma que a humanidade foi inteiramente afetada pelo pecado, que “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.23), que “não há um justo, nem um sequer” (Rm 3.10), que somos como um vale de ossos secos, mortos espiritualmente (Ez 37.1-14), que somos como a pior das esposas, que após ter sido resgatada da morte pelo marido, cuidada e criada como uma princesa, vai e se entrega a todos os outros homens, sendo pior do que as meretrizes porque a elas “se dá a paga, mas tu dás presente a todos os teus amantes; e o fazes para que venham a ti de todas as partes adulterar contigo” (Ez 16.33). A Bíblia não “pega leve” quando fala do nosso pecado e nem deveria. Nas palavras de Paul Washer, “o pecado é uma ofensa infinita contra um Deus infinitamente santo” e na Queda houve uma completa separação entre o homem e Deus. 

Então, como assim, “a cruz revela o nosso valor”? Isaías diz que “todas as nações são perante ele [no caso, Deus] como cousa que não é nada; ele as considera menos do que nada, como um vácuo” (Is 40.17). E o profeta continua, agora exaltando a majestade de Deus: “com quem comparareis a Deus? Ou que cousa semelhante confrontareis com ele?” (Is. 40.18). Um pouco acima, Isaías diz: “Eis que as nações são consideradas por ele como um pingo que cai dum balde e como um grão de pó na balança; as ilhas são como pó fino que se levanta. Nem todo o Líbano basta para queimar, nem os seus animais, para um holocausto” (Is 40.15-16). De novo eu pergunto, qual é mesmo o nosso valor?

Ainda, grandes homens na Bíblia reconheceram continuamente a sua insignificância. Paulo disse “desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm 7.24). Ao reconhecer sua completa ausência de valor, ele humildemente dá graças a Cristo pela cruz: “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor. De maneira que eu, de mim mesmo, com a mente, sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne, da lei do pecado” (Rm 7.25). 

Em outra ocasião, Paulo, para muitos o maior pregador da história da igreja, afirma ser o principal dos pecadores: “...que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” (1 Tm 1.15). Ele ainda se considerava o menor dos apóstolos: “Porque sou o menor dos apóstolos, que mesmo não sou digno de ser chamado de apóstolo, pois persegui a igreja de Deus” (1 Co 15.9). E, por fim, o apóstolo ainda disse: “Mas longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu, para o mundo” (Gl 6.14). Diante de tudo o que Paulo afirma, cabe novamente a pergunta, qual é mesmo o nosso valor?

Davi, o maior rei de Israel, talvez na maior crise de sua vida, humildemente disse: “...pois eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim... eu nasci na iniquidade, e em pecado me concebeu a minha mãe... não me repulses da tua presença, nem me retires o teu Santo Espírito. Restitui-me a alegria da tua salvação e sustenta-me com Espírito voluntário” (Sl 51. 3, 5, 11-12). 

Daniel, um dos servos mais fiéis relatados na Bíblia, por diversas vezes reconheceu a sua insignificância e exaltou a majestade de Deus. Vejamos duas ocasiões em especial.

Quando ele interpretou o sonho de Nabucodonosor, disse: “mas há um Deus no céu, o qual revela mistérios... E a mim me foi revelado este mistério, não porque haja em mim mais sabedoria do que em todos os viventes...” (Dn 2. 28, 30). A reação do rei diante da declaração de Daniel foi a seguinte: “certamente, o vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos reis, e o revelador de mistérios, pois pudeste revelar este mistério” (Dn 2.47).

Na época do rei Dario, Daniel foi salvo por Deus da cova dos leões e ao explicar o ocorrido ao rei, ele disse o seguinte: “o meu Deus enviou o seu anjo e fechou a boca aos leões, para que não me fizessem dano...” (Dn 6.22). E qual foi a reação do rei? Esta: “Faço um decreto pelo qual, em todo o domínio do meu reino, os homens tremam e temam perante o Deus de Daniel, porque ele é o Deus vivo e que permanece para sempre...” (Dn 6.26). 

Vemos, portanto, que por duas vezes Daniel foi usado grandemente por Deus, mas se manteve humilde, atribuiu toda a glória ao Pai e por conta disso, dois reis ímpios glorificaram ao Senhor. Diante de mais esses exemplos, eu insisto na pergunta: qual é mesmo o nosso valor?

Ora, a missão de Cristo foi justamente assumir o nosso papel na aliança com Deus e se sacrificar por nós, os que cremos nele, como o cordeiro santo e sem mácula justamente porque não há valor algum em nós - toda honra e toda glória sejam dadas a Deus!

A cruz é, portanto, o sinal máximo do quanto a humanidade é pecaminosa. O cordeiro santo, o primogênito de Deus, o Verbo encarnado precisou se oferecer como sacrifício para expiar os pecados do mundo. Na cruz ele recebeu a punição pelos nossos pecados, tendo que provar do cálice da ira de Deus. E por que Deus fez isso? Por que Ele nos salvou em Cristo? Ele o fez para o louvor de sua glória, para que o Seu nome seja glorificado, para demonstrar a sua graça; não por conta do “nosso valor”. 

Não há embasamento bíblico para esse “evangelho autoajuda”, que exalta o homem como se ele tivesse alguma importância. O louvor ao homem é feito pelo Humanismo e não pelo Cristianismo. A fé cristã trata do louvor e da glória exclusivos de Deus. 

Soli Deo Gloria

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Sobre o autor: Pedro Franco, 23 anos, é estudante de farmácia pela UFRJ e diácono na Igreja Presbiteriana Adonai (RJ).
Divulgação: Bereianos
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Deus odeia os pecadores!

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"Deus odeia o pecado mas ama o pecador" é um jargão evangélico muito difundido que encontra terreno fértil até mesmo entre os reformados. Entretanto, a despeito de sua popularidade, passa longe da verdade bíblica. Minha oração é que este brevíssimo texto traga luz ao problema e iniba a perpetuação desta inverdade perniciosa.

Para início da discussão, a Bíblia NUNCA separa o pecador dos seus pecados. Para Deus, o pecado não é um "conceito", uma "abstração teórica" satélite ao homem, mas são atos, intenções e pensamentos cometidos por pessoas reais, e a elas associados. O pecado não é uma palavra em um dicionário, mas uma deformidade no caráter do homem, sendo, assim, indissoluvelmente conectado a pecadores. O Rev. Solano Portela, em um artigo bastante elucidativo, análogo e anterior ao meu, diz:

"[...] é impossível separar o pecado do pecador, como se o pecado fosse uma entidade com vida independente, que apenas se utiliza do corpo e da mente do praticante" [1].

Solano está certo.

Outrossim, se fosse verdade que Deus odeia o pecado enquanto ama pecadores, estes não iriam para o inferno. Antes, Deus condenaria ao inferno o "conceito" do pecado, ou: Deus empregaria uma substância amorfa e abstrata, a chamaria de "pecado" e a enviaria ao inferno na consumação dos tempos. Contudo, sabemos que não é assim que acontece. Com efeito, Deus envia PESSOAS, ao inferno. O Senhor condena PECADORES - e não o "pecado"! - ao inferno. Óbvio como parece, Deus procede assim porque odeia pecadores, e o remanescente de Deus só é salvo porque O apraz atribuir os seus pecados a Cristo.

Aliás, isso nos leva a um importante argumento cristológico. Quem morreu de forma expiatória e vergonhosa como sacrifício aceitável a Deus não foi um conceito, mas uma pessoa. Cristo assumiu o pecado dos eleitos e morreu por eles, vicariamente. A própria encarnação de Cristo está ligada à sua identificação com aquilo para o que apontava a ira condenatória de Deus. Se Cristo veio como homem (1Tm 2.5) é porque os homens - os seres humanos - são os destinatários da terrível e justa ira divina. A Bíblia diz que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores (Rm 5.8). Cristo não morreu por uma ideia, Ele morreu por PESSOAS, já que os pecados delas não estão separados delas.

Além disso, a Bíblia cristaliza, logo adiante, ainda em Romanos:

"Porque se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, tendo sido já reconciliados, seremos salvos pela sua vida" (Rom 5:9-10).

Deus está irado com PESSOAS, e não com uma ideia, com uma abstração. Este texto diz que nós, antes de termos os benefícios da obra de Cristo aplicados a nós, éramos inimigos de Deus. Inimigos! E diz ainda que fomos reconciliados. Ora, a reconciliação pressupõe uma condenação, e, seguindo a leitura deste pequeno versículo constatamos que o que foi condenado por Deus não se trata de um conceito, mas de pessoas. É evidente que Deus tem algo muito pessoal contra pecadores e que sua ira é direcionada a eles. Os homens em si mesmos, e não uma abstração intitulada "pecado", são alvos da ira divina. Se Deus odiasse um conceito chamado "pecado", o Filho de Deus não viria na forma de homem, mas na "forma" de tal conceito. Não sei como isso se pareceria...

Repare ainda que o verso diz que nós fomos reconciliados pela morte do Filho. Portanto, não se engane! O fato de que Deus "odeia o pecado mas ama pecadores" não foi verdadeiro sequer com o Unigênito do Pai, tampouco o será com seus filhos adotivos. Deus odiou a Cristo no último momento de Sua humilhação (Mt 27.46; 1Jo 4.10).

Por fim, concluo dizendo que a doutrina do ódio de Deus por pecadores não resulta apenas de uma inevitabilidade teológica - que, per se, já seria uma evidência inequívoca e fatalmente bíblica deste ensino - , mas encontra respaldo textual claro, translúcido, facilmente disponível a qualquer regenerado que aborde a Bíblia com sinceridade.

O Salmo 11.5 diz:

"O Senhor prova o justo; porém ao ímpio e ao que ama a violência odeia a sua alma".

E Paulo, aos Romanos, argumenta:

"Amei a Jacó, e odiei a Esaú. Que diremos pois? Que há injustiça da parte de Deus? De maneira nenhuma. Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia. [...] E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição" (Rom 9:13-15,22).

Ambos os textos não poderiam ser mais claros: Deus odeia pecadores. Odeia ao ponto de condená-los ao inferno por toda a eternidade. Não é a ideia "pecado" com a qual Deus está irado, mas com os próprios pecadores, que O desafiam na sua rebeldia.

Destarte, devemos evitar a propagação de jargões populares que, embora algumas vezes possam ser bem intencionados, corrompem a preciosa verdade divina e pulverizam equívocos doutrinários corrosivos. Deus não ama o pecador enquanto odeia o pecado. Deus ama aqueles por quem Cristo morreu. E aqueles por quem Cristo não morreu, estes não têm o seu nome escrito no livro da vida (Ap 20.15).

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Notas:
1. PORTELA, Solano. Deus odeia o pecado, mas ama ao pecador! É isso mesmo?. O Tempora o Moraes. Disponível em: http://tempora-mores.blogspot.com.br/2009/10/deus-odeia-o-pecado-mas-ama-o-pecador-e.html. Acesso em: 10 out. 2015.

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Autor: Paulo Ribeiro
Fonte: Teologia Expressa
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Pagando a dívida, e ainda devedor (comentário a Gl 2:20)

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Gálatas 2.20 é um versículo precioso, poderia dizer, inigualável. Não somente porque foi o versículo da minha conversão [que descrevi no texto O dia em que Cristo me fez], mas porque, de uma forma singular, poder-se-ia resumir a vida cristã ou, ao menos, descrevê-la plenamente. É também o alvo, o de um dia poder dizer: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim”. São palavras que me acalentam, me dominam, me compungem a encontrar-me nelas. Poderia ser a epígrafe cravada na minha sepultura, porém, muito mais a quero gravada em meu coração. O resumo de tudo o que almejo e quero experimentar. Mais do que isso, ser. E desde aquele momento, decorei-as, como se decora a melodia da mais bela entre todas as canções. Como se ouvisse a sinfonia perfeita, inefável, a síntese do mais puro e santo sentido, ainda que com palavras indizíveis em sua verdade absoluta e extraordinária. Como se estivesse a construir algo que sei impossível, por mim mesmo, construir. De certa forma, invejo a Paulo por ter sido ele e não eu a proferi-las; mas creio que saídas de sua boca, elas têm o som da minha voz, o som da sua voz, o som da voz de todos os santos, daqueles que são um em Cristo, e por ele vivem.
     
Mas, o que levou o apóstolo a proferi-las?
    
A mensagem central de Gálatas é a disputa: Lei x Evangelho. Em vários momentos, parece haver o desprezo de Paulo pela lei, como se fosse descartável e não existisse mais nenhum sentido nela. Mas esse não é o caso. Em outra carta, ele diz: E assim a lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom” [Rm 7.12]. E, ainda: “Anulamos, pois, a lei pela fé? De maneira nenhuma, antes estabelecemos a lei” [Rm 3.31].
    
O que está em disputa entre Paulo e os judaizantes é a lei como instrumento de salvação. Eles pregavam contra o Evangelho, ao afirmar que era necessário se cumprir toda a lei para salvar-se. Por isso, o apóstolo diz: “Se a justiça provém da lei, segue-se que Cristo morreu debalde” [ 2.21]. Ora, se para ser salvo o crente deveria cumprir toda a lei, qual a razão de Cristo encarnar, padecer, e morrer na cruz? Por isso o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo [2.16]. Desta forma, Paulo constrói a defesa do Evangelho da Graça, sem que haja nenhum tom antinominiano [1] em seu discurso, pelo contrário: “É porventura Cristo ministro do pecado? De maneira nenhuma. Porque, se torno a edificar aquilo que destruí, constituo-me a mim mesmo transgressor” [2.18].

Se Cristo pagou na cruz a dívida que tínhamos para com Deus, e se está paga, definitivamente paga, o que mais podemos fazer que Ele não fez? Fico a imaginar Paulo rindo-se da tolice desses homens, mas entristecendo-se pelo caráter sutil e maligno de distorcerem a fé a fim de enganar incautos, e anular a graça. Cristo, ao destruir o pecado e seu caráter condenatório sobre os eleitos, não poderia restituí-lo novamente, ao ponto em que seria exigido o cumprimento da lei para a salvação. Se a justiça foi decretada na cruz para os que creem, se o pecado foi morto, ressuscitá-lo significaria dizer, entre outras coisas, que a obra do Senhor não foi eficaz, e de que, loucamente, ao trazer a justiça, trouxe a injustiça.

O apóstolo está a condenar aqueles que anteriormente pregavam o Evangelho da graça, para agora viver pela lei, tornando-os em transgressores, porque quem não está morto para a lei, vive para ela, ou seja, vive para a morte, pois pela lei ninguém pode ser justificado perante Deus [3.11], antes está debaixo da maldição da lei. Ao contrário, quem está morto para a lei, vive para Deus, eternamente. Paulo ensina a teologia correta, a doutrina correta, mas muito mais do que isso.

• Ele disse que estava morto para a lei.
• Que estava crucificado com Cristo.
• Que vivia, não mais ele, mas Cristo.
• Que Cristo o amou, e se entregou a si mesmo por ele.

Então, o que levou o apóstolo a proferir o verso 2.20?

A consciência de tudo isso acima, mas, sobretudo, reconhecer que, sem Cristo, nada disso seria possível. Nem mesmo ele, Paulo, seria possível. De uma forma maravilhosa, Paulo reconhecia a completa dependência do Senhor, e a obra fantástica que fez para que ele pudesse reconhecer-se em Cristo. Sem ele, o que seria Paulo? Sem Cristo, o que seria eu? Você? Não haveria esperança, não haveria o perdão, nem a salvação. Apenas a tristeza assoladora de que a condenação era questão de tempo, irremediável, uma maldição a pairar sobre nossas cabeças eternamente. E se eu, antes condenado, agora salvo pelo poder de Deus, o que quereria exaltar em mim mesmo para voltar à destruição? Ou seria possível exaltar-me na ruína? Ou antes, ser um dia como Cristo é? Pois se olharmos para nós, como somos, sem Cristo, não haverá nada além de condenados sem que seja preciso esperar o castigo, pois estamos já a “curtir”, sobre nós, a ira de Deus. Se olhar para mim, descobrirei apenas que sou miserável, e nu, e cego. Se olhar, e apenas me ver, há um pecador naufragando em pecados. Se sou o futuro, não há futuro; apenas o passado de morte, de sofrimento e angústia. Ao contrário, se vejo Cristo em mim, assim como Paulo o via em si, as coisas mudam de figura. Já não sou mais um condenado, antes justificado. De pecador, a santo. De maldito, a bendito. De desgraçado e vil, a agraciado e amado.

A teologia de Paulo [2] estava certa. Ela lhe trouxe esperança, certeza, convicção. E abriu-lhe os olhos para a mais surpreendente e inesperada verdade, de que ele já não era mais ele, mas Cristo a viver nele. E trazia no seu corpo as marcas do Senhor [6.17], marcas profundas que não o impediam de se ver como era, de reconhecer o que era, de gloriar-se nas fraquezas para que o poder do Senhor em si habitasse [1Co 12.9]. Porém, antes era necessário que compreendesse e conhecesse isso, para depois sentir; pois, como sentir o que não se conhece ou não compreende? Como alguém desejará o que não conhece?

Como qualquer homem, ele tinha de nascer, crescer e amadurecer na fé. Mas ninguém nasce por si mesmo; era necessário que fosse gerado por Cristo; que o sangue do Senhor não somente o limpasse dos pecados, mas corresse em suas veias e bombeasse no seu coração a vida. A vida que somente o Senhor poderia dar, e deu, a despeito de todo o desejo de nos apossar dela como se fosse nossa por direito, e não por dádiva, misericordiosa, e graciosamente entregue pelo amor com que Deus nos amou. O caminho nos é mostrado, mas não há nada que nos faça andar nele, se não nos for revelado. Quem não pode ver, como saberá onde andar?

O certo é que, como João o Batista disse, era necessário que ele diminuísse e Cristo crescesse [Jo 3.30].

E assim será para todos os que foram crucificados e mortos com Cristo.

Se ele não viver em nós, a morte viverá.

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Notas: 
[1] Antinomianismo significa “antilei”. É o oposto de legalismo, e como ele, uma heresia. Para os defensores do antinomianismo, o crente não tem de obedecer à lei de Deus, pois Cristo à pregou na cruz. E se a pregou na cruz, está-se livre para viver como quiser, inclusive pecando o quanto quiser; ao ponto de até mesmo distorcerem o sentido de graça, ao afirmar que, quanto mais se peca, mais a graça se manifesta.
[2] Paulo, ao defender magistralmente o Evangelho da graça, afirmando a justificação somente pela fé no sangue derramado de Cristo na cruz, defende também a sua autoridade e ministério contra os falsos-mestres, os detratores que buscavam difamá-lo e desqualificá-lo como apóstolo. E nada mais verdadeiro do que reafirmar que estava morto para si, para viver para Cristo, enquanto aqueles queriam viver por si mesmos.
- Aguçado pela conversa com uma querida irmã, lembrei-me que devia um texto sobre Gl 2.20. E, por mais que escreva, sempre serei devedor a Deus por tê-lo dado a mim.
- Não entrei muito na questão da impossibilidade da lei como meio de salvação, a qual farei brevemente em outro texto.

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Autor: Jorge Fernandes Isah
Fonte: 
Kálamos

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O Cristo Glorificado Voltará

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Imagine alguém que trabalhou o dia inteiro, como por exemplo, uma mãe que acordou bem cedo e desde a hora que as crianças saíram para escola ela não parou de trabalhar (e nem pensou em si mesma). Ela fez todo o seu serviço doméstico, além de deixar o café da tarde e também o jantar pronto. E agora, desde a hora que ela acordou, agora que todo o trabalho terminou, ela se senta. Este “sentar” não é um mero descanso, mas ela se sentou porque o trabalho foi concluído.

Quando olhamos para Hebreus 1.3-4 nós vemos a declaração do escritor mostrando que Cristo, após ter feito a purificação dos pecados, assentou-se a destra de Deus. Assim como a ilustração que mostrou uma mãe fazendo o seu trabalho e se sentando como sinal de seu término, da mesma forma Cristo, após cumprir aquilo que o Pai lhe mandou, Ele se assentou à direita de Deus.

É justamente isso que o 19º Dia do Senhor no Catecismo de Heidelberg vai nos mostrar:

50. Por que se acrescenta: "e está sentado à direita de Deus"?
R. Porque Cristo subiu ao céu para manifestar-se, lá mesmo, como o Cabeça de sua igreja cristã(1) e para governar tudo em nome de seu Pai (2). 
(1) Ef 1:20-23; Cl 1:18. (2) Mt 28:18; Jo 5:22. 
51. Que importância tem, para nós, essa glória de Cristo, nosso Cabeça?
R. Primeiro: por seu Espírito Santo, Ele derrama sobre nós, seus membros, os dons celestiais (1). Segundo: Ele nos defende e protege, por seu poder, contra todos os inimigos (2). 
(1) At 2:33; Ef 4:8,10-12. (2) Sl 2:9; Sl 110:1,2; Jo 10:28; Ef 4:8; Ap 12:5. 
52. Que consolo traz a você a volta de Cristo "para julgar os vivos e os mortos"?
R. Que, em toda miséria e perseguição, espero, de cabeça erguida, o Juiz que vem do céu, a saber: o Cristo que antes se apresentou em meu lugar ao tribunal de Deus e tirou de mim toda a maldição (1). Ele lançará, na condenação eterna, todos os seus e meus inimigos (2), mas Ele me levará para si mesmo, com todos os eleitos na alegria e glória celestiais (3). 
(1) Lc 21:28; Rm 8:23,24; Fp 3:20; 1Ts 4:16; Tt 2:13. (2) Mt 25:41-43; 2Ts 1:6,8,9. (3) Mt 25:34-36; 2Ts 1:7,10. 

O “assentar” de Cristo não é somente porque Ele concluiu a Sua obra, mas foi também uma demonstração de sua vitória sobre o pecado, a morte e o Diabo. Fazendo que todas as coisas fossem colocadas debaixo de seus pés, tornou-se o cabeça da Igreja (Ef 1.20-23), tendo toda a autoridade no céu e na terra (Mt 28.18), como um Rei Soberano. 


Na última pergunta do Dia do Senhor, o Credo confessa que Cristo voltará para “julgar os vivos e os mortos” e que esta certeza nos faz ter consolo em Cristo, mas de que forma? 

Primeiro, o retorno de Cristo é uma demonstração pública da absolvição dos nossos pecados. Pois, outrora nós, filhos da ira, fomos resgatados da nossa vã maneira de viver para uma nova e viva esperança em Cristo Jesus. E assim, a condenação que nós deveríamos receber, Cristo recebe na cruz, se fazendo maldição por nós. Por isso podemos dizer que “espero, de cabeça erguida, o Juiz que vem do céu, a saber: o Cristo que antes se apresentou em meu lugar ao tribunal de Deus e tirou de mim toda a maldição”. 

Segundo, além de Cristo nos livrar da condenação eterna, Cristo nos faz vitorioso com Ele, pois os nossos inimigos serão condenados. No entanto, estes inimigos não são aqueles que odiamos sem uma causa justa (p.e. vizinhos, colegas de trabalho, irmãos da igreja etc.), mas são aqueles que se voltam contra o Evangelho, os inimigos da cruz de Cristo. Mas por que será um consolo para nós, saber que tais pessoas serão lançadas no inferno? Porque, primeiro, Deus é justo e todos aqueles que zombaram d'Ele serão, por Ele mesmo, lançados no inferno, cumprindo inúmeras passagens bíblicas que falam da realidade do inferno. Segundo, é um consolo saber que a fé que Deus nos deu é genuína, uma fé que nos faz crer realmente no sacrifício perfeito de Cristo, pois aqueles que não crêem em Cristo serão lançados eternamente no inferno. E, terceiro, de que valeria o inferno se Cristo tivesse morrido por toda a humanidade? Pois, se Deus derramou a sua ira – a qual era para ter sido derramada sobre mim – sobre Seu único Filho, por que Deus derramaria de novo a Sua ira sobre pecados que o Seu Filho já pagou?

Por fim, a volta de Cristo é um consolo para nós porque habitaremos com Ele para todo sempre em corpo e alma, onde todas as nossas dores, doenças e aflições serão sanadas. E, é claro, nunca mais pecaremos entristecendo o Santo Espirito de Deus. 

No entanto, este consolo indizível será para aqueles que entendem que o único consolo na vida e na morte é que não pertencemos a nós mesmos, mas de corpo e alma pertencemos ao nosso fiel Salvador, Jesus Cristo, e o seu retorno é a nossa bem-aventurada esperança (Tt 2.13).

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Fonte: Bereianos
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Ele não está aqui, mas ressuscitou!

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Qual história te motiva a fazer aquilo que você mais gosta ou sabe desempenhar? Algumas pessoas testemunham sobre a sua carreira ou aquilo que elas são por causa de alguma história que ouviram e se admiraram. Por exemplo, os funcionários da Disney; para desempenharem bem as suas funções, passam por um curso onde aprendem sobre quem foi Walt Disney, as dificuldades que ele teve, os seus fracassos, anseios e sonhos antes que ele alcançasse o sucesso.¹


Mas, o que motivou que simples pescadores e pecadores medrosos saíssem da casa trancada para anunciar ao mundo que Cristo é o Salvador? 

Claro, na verdade os discípulos sabiam da vida de Jesus, se lembravam de Suas pregações e de Sua morte. Mas quando souberam que Cristo tinha ressuscitado e quando O viram ressuscitado, isso deu a eles coragem para que saíssem e fossem desde a Judeia, Samaria e até os confins da terra anunciando sobre o Cristo ressurreto. 

Mas, além de incentivar esses pescadores e pecadores a irem enfrentar o mundo por causa da fé no Cristo ressurreto, eles anunciaram a importância da ressurreição de Cristo, pois há um diferencial na ressurreição de Cristo para as outras ressurreições que a Bíblia relata. E quais são? É justamente isso que o Catecismo de Heidelberg trata no 17º Dia do Senhor:

45. Que importância tem, para nós, a ressurreição de Cristo?
R. Primeiro: pela ressurreição, Ele venceu a morte, para que nós pudéssemos participar da justiça que Ele conquistou por sua morte (1). Segundo: nós também, por seu poder, somos ressuscitados para a nova vida (2). Terceiro: a ressurreição de Cristo é uma garantia de nossa ressurreição em glória (3). 
(1) Rm 4:25; 1Co 15:16-18; 1Pe 1:3. (2) Rm 6:4; Cl 3:1-3; Ef 2:4-6; (3) Rm 8:11; 1Co 15:20-22. 

Primeiro, por intermédio da ressurreição de Cristo nós temos a certeza de que o pecado, a morte e o Diabo foram derrotados, portanto, a ressurreição de Cristo nos atesta que Sua morte em nosso lugar foi satisfatória e suficiente para expiar os nossos pecados. Por isso, acredito que o símbolo do cristianismo não deve ser a cruz, pois a cruz lembra a Sua morte, mas sim o túmulo vazio. Porque o túmulo vazio mostra a certeza que Cristo pagou os nossos pecados e que a morte não o derrotou. 


Segundo, além de atestar o pagamento de nossa divida e confirmar a derrota de nossos inimigos, a ressurreição de nosso Senhor nos permite ter vida, e uma vida espiritual a qual não tínhamos antes, visto que, estávamos mortos em nossos delitos e pecados (Ef 2.1-3). O Novo Testamento diversas vezes usa o termo “em Cristo”, isso quer dizer sobre a nossa união com Ele, ou seja, além de vivermos para Ele, morremos e fomos sepultados, mas também fomos ressuscitados para uma nova vida. 

Terceiro, além de nos dar a certeza de que Cristo venceu a morte e nos deu vida, a ressurreição nos assegura que, como Cristo ressuscitou, nós também ressuscitaremos, fazendo que o corruptível seja revestido da incorruptibilidade e o mortal da imortalidade (1 Co 15.53). Ou seja, o processo de regeneração estará completo, pois tanto a alma quanto o corpo estarão revestidos da incorruptibilidade, porquanto “esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso, segundo o seu eficaz poder de sujeitar também a si todas as coisas” (Fp 3.20,21). 

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Nota:
[1] Veja: http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/o-que-te-motiva/tag/historias-da-vida-real. Acesso em 15 de Maio 2015.

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Autor: Denis Monteiro
Fonte: Bereianos
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Quem poderá pagar a nossa dívida?

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Por Denis Monteiro


Todas as vezes que alguém faz um favor para nós ou devemos alguém, e esse alguém a quem devemos nos abona diante da dívida, nós dizemos: “Deus lhe pague!”. 

Sendo assim, o Catecismo de Heidelberg nos dias 2 – 4 mostra, conforme a Escritura, a corrupção humana de forma bem clara, apontando que diante de Deus a humanidade está em débito com seu Criador após a entrada do pecado no mundo, nos tornando inúteis. Diante do que o Catecismo nos mostra, nós devemos a Deus o qual não nos deve nada. Portanto, quem poderá pagar a nossa dívida diante de Deus? Assim, o Catecismo nos mostra duas coisas: A problemática e a solução. 

A problemática

Pergunta 12: Segundo o justo juízo de Deus merecemos penas temporais e eternas; e não há possibilidades de nos livrarmos de tais penas e nos reconciliarmos com Deus?
Resposta: Deus requer que sua justiça seja cumprida¹; portanto, ou por nós mesmos ou por outra pessoa, importa que se satisfaça integralmente a sua justiça.²
(1) Gn 2:17; Êx 20:5; Êx 23:7; Ez 18:4; Hb 10:30. (2) Mt 5:26; Rm 8:3,4.
Pergunta 13: Podemos, por nós mesmos, oferecer a Deus tal satisfação? 
Resposta: De modo algum; antes acrescentamos mais débitos a cada dia.
Jó 4:18,19; Jó 9:2,3; Jó 15:16; Sl 130:3; Mt 6:12; Mt 16:26; Mt 18:25.
Pergunta 14: Poderia haver alguém, no céu ou na terra, simples criatura, que pudesse pagar nossos débitos? 
Resposta: Não. Primeiro, porque Deus não quer punir outra pessoa pelo pecado do homem.¹ Segundo, porque uma simples criatura seria incapaz de suportar a eterna ira de Deus contra o pecado para salvar outros.²
(1) Gn 3:17; Ez 18:4. (2) Sl 130:3; Na 1:6.

O Catecismo nos mostra que nós ou outra pessoa deve satisfazer ou pagar a dívida que temos diante de Deus. Mas o grande problema é que, primeiro, nem nós, nem nenhuma outra pessoa pode pagar essa dívida diante de Deus, pois se nós tentarmos pagar, na verdade, ela só aumentaria com os nossos pecados diários. Segundo, Deus não iria condenar outra pessoa por causa do nosso pecado porque a alma que pecar, essa morrerá (Ez 18.4). Terceiro, nós não suportaríamos a ira de Deus sobre nós para nos livrar e, assim, não conseguiríamos livrar outras pessoas. Ou seja, se não conseguimos salvar a nós mesmos, como poderemos salvar outros?

E por que não conseguimos pagar a nossa própria dívida? Porque somos pecadores desde o momento de nossa concepção (Sl 51.5; 58.3; Is 48.8), sendo assim, por causa de nossa natureza pecaminosa sem a mediação de Cristo, estamos dia após dia em guerra com Deus, pois Deus, para o pecador não redimido, é seu inimigo numero um. Somos limitados, não sabemos o que vai acontecer daqui a dois minutos, não escolhemos onde nascer e como nascer ou com que cor nascer, não podemos acrescentar um palmo à nossa estatura (Lc 12.25). Então, como nós, sendo limitados, podemos pagar uma dívida com um Deus eterno e santo que está irado? 

A Pergunta e Resposta 15 nos mostra a solução.

Pergunta 15: Então, que Mediador e Redentor devemos buscar?
Resposta: Um que seja verdadeiro¹ homem, mas perfeitamente justo², mais poderoso que todas as demais criaturas, isto é, que seja, ao mesmo tempo, verdadeiro Deus.³
(1) 1Co 15:21. (2) Hb 7:26. (3) Is 7:14; Is 9:6; Jr 23:6; Lc 11:22; Rm 8:3,4.

A única pessoa que pode nos livrar na ira de Deus, é alguém perfeito e justo e mais poderoso do que qualquer criatura, mas ao mesmo tempo verdadeiro Deus. Cristo é o único homem que pôde tomar o nosso lugar e satisfazer a ira de Deus, pois o sangue de animais não tira pecado e nenhum homem pode dar a vida em lugar de outro homem (Hb 10.4; Ez 18.4). Portanto, Cristo, sendo o Cordeiro de Deus e o Leão da Tribo de Judá, Deus fez cair sobre Ele à iniquidade de nós todos (Is 53.6). Portanto, somente Cristo pôde suportar a ira de Deus e salvar os eleitos da condenação eterna. 


Que essa realidade seja motivo de jubilo e gratidão, mas também um ato de humildade perante Deus em Cristo. Motivo de jubilo e gratidão, pois pela morte de Cristo, a carne rasgada do cordeiro (Hb 10.20), temos livre acesso a Deus, fazendo parte do pacto não sendo mais inimigos, mas recebendo a paz entre Deus e nós (Ef 2.18). Mas também deve ser motivo de humildade, pois o Catecismo, conforme a Escritura, declara que nós éramos incapazes de cumprir a Lei de Deus e pagar por nossas próprias faltas. Mas aprouve a Deus enviar Seu único Filho para morrer em nosso lugar. 

Amém!

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Fonte: Bereianos
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Você sabe o que é Justificação?

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Por Rev. Ronaldo P. Mendes


o qual foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou por causa da nossa justificação.…” (Romanos 8.30)

A Justificação “é um ato da livre graça de Deus, no qual ele perdoa todos os nossos pecados e nos aceita como justos diante dele, somente por causa da justiça de Cristo a nós imputada, e recebida somente pela fé.” (Breve Catecismo de Westminster). O pecador que, por natureza, é inimigo de Deus, sendo justificado pela fé em Cristo pode desfrutar de uma completa e perfeita paz e harmonia com Deus (cf Romanos 5.1).

É um ato de um juiz, absolvendo alguém que é acusado de crime. Mas de qual crime o homem é acusado? A resposta está em Gêneses 3 onde está o relatado a desobediência de Adão, a queda da humanidade. O homem pecou e para ser justo diante de Deus é preciso pagar um preço, esse preço Deus cobrou em seu Filho Jesus Cristo. O homem está morto em seus delitos e pecados. Assim, para que esse homem possa viver, é necessário que Deus faça algo por ele,  Deus o torna justo através da obra de Cristo (cf Rm 3.23-24). O Senhor, por sua graça, atribui ao pecador que é culpado e condenado, mas eleito em Cristo, a retidão perfeita de Deus. Ele o absolve nos méritos de Jesus de toda a culpa e castigo, e lhe dá um direito a vida eterna. Nós não temos penalidade a pagar pelo pecado, incluindo os pecados do presente, do passado e do futuro.

Aos nossos olhos parece-nos injustiça por parte do juiz. Mais é um julgamento justo, pois a sua base é a justiça de Cristo o nosso representante que obedeceu a lei que nos sujeitava e suportou o pior castigo para pagar a nossa dívida.

Justificação segundo o Antigo Testamento

No Antigo Testamento, o conceito de justiça aparece com frequência em contextos forenses ou jurídicos. Uma pessoa justa é a que foi declarada sem culpa pelo juiz. A tarefa do juiz é condenar o culpado e absolver o inocente. Deus é juiz de todos: “porque sustentas o meu direito e a minha causa; no trono te assentas e julgas retamente.” (Salmo 9.4). Segundo o Antigo testamento, justificar implica certificar que a pessoa é inocente e, depois declarar que o fato é verdadeiro, que ela cumpriu a lei.

No texto de Deuteronômio lemos: “Em havendo contenda entre alguns, e vierem a juízo, os juízes os julgarão, justificando ao justo e condenando ao culpado” (25.1). Nesse caso “justificar” significa “declarar justo” ou inocente, assim como “condenar” significa “declarar culpado”. O Antigo Testamento emprega duas diferentes formas da mesma palavra (hidsdik e tsiddek) para expressar esta idéia. Estas palavras não indicam, exceto em algumas passagens, uma mudança moral efetuada por Deus no homem, mas designam regularmente uma declaração divina com referência ao homem. Exprimem a idéia de que Deus na competência de Juiz declara o homem justo. Por isso o pensamento que expressam é muitas vezes em oposição ao da condenação (Dt. 25.1; Pv 17.15; Is. 5.23).

Justificação segundo o Novo Testamento

No Novo testamento os termos usados para justificação, no grego, são: Dikaios (justo); Dikaiosis (justificação, defesa, reclamação dum direito); Dikaioo (tratar como justo, inocentar”, “declarar justo”.).

O verbo dikaio tem o mesmo significado que o hebraico Kadoshi (santo). Não refere à retidão moral da pessoa, mas ao estado de retidão que é o resultado da decisão judicial ou legal.

Podemos encontrar esse termo nos escritos do apóstolo Paulo: “Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica” (Romanos 4.5); “sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus,” (Romanos 3.24). A justificação está alicerçada sobre a obediência da vida inteira de Cristo, na qual ele cumpriu os preceitos de Deus por nós, em sua morte na cruz, quando pagou a pena do julgamento divino que era contra nós.

O sentido mais comum do verbo Dikaios é de “declarar justo”, e os escritos de Paulo trazem esse significado: “Mas, ao que não trabalha, porém crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça.” (Romanos 4.5). Aqui Paulo não quer dizer que Deus torna justo os ímpios (transformando-os inteiramente e tornando-os moralmente perfeitos), mas em reposta à fé deles. A justificação é uma declaração legal por parte de Deus: “Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós” (Romanos 8.33-34).

Um exemplo de declaração de justificação está em Lucas 18.9-14, onde  Jesus ensinando, conta a parábola do farizeu e publicano, encontramos ali características de dois homens diante de Deus, o fariseu não foi justificado porque confiava em seus esforços, porém o publicano voltou para casa justificado, a idéia é que ele “foi feito justo” por Deus, o próprio Deus o justificou.

De acordo com o Novo Testamento, a justificação é uma ação forense ou declarativa de Deus, como a de um juiz absolvendo o acusado. E isso pode ser observado: “e, por meio dele, todo o que crê é justificado de todas as coisas das quais vós não pudestes ser justificados pela lei de Moisés.” (Atos 13.39); “Tais fostes alguns de vós; mas vós vos lavastes, mas fostes santificados, mas fostes justificados em o nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus.” ( I Coríntios 6.11). 

Em I Coríntios 1.30 lemos: “Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção,”, Jesus é “justiça” dikaiosúnê, esse é um dos benefícios que Cristo nos trouxe através de sua morte e ressurreição. A totalidade da justiça pessoal de Cristo é imputada a nós e considerada como nossa. Deus apaga as nossas transgressões, e dos nossos pecados ele não se lembra; somos feitos justiça de Deus em Jesus, que é o fim da lei para a justiça de todo aquele que crê. A aliança das obras está cumprida em Cristo, algo que jamais conseguiríamos cumprir. Aos olhos de Deus somos justos, porque somos justificados em Cristo.

Onde Adão caiu Cristo veio cumprir: “Pois assim está escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente. O último Adão, porém, é espírito vivificante.” (I Coríntios 15.45). Faz parte da própria essência do evangelho insistir que Deus nos declara justos não com base em nossa atual condição de justiça ou santidade, mas com base na perfeita justiça de Cristo, a qual ele considera pertencente a nós.      

O instrumento da justificação

A teologia protestante afirma que a fé é causa instrumental da justificação no sentido em que a fé é o meio pelo qual os méritos de Cristo são apropriados a nós. “A fé, assim recebendo e assim se firmando em Cristo e em sua justiça, é o único instrumento de justificação; ela, contudo, não está sozinha na pessoa justificada, mas sempre anda acompanhada de todas as demais graças salvíficas; não é uma fé morta, mas a fé que age pelo amor.” (Confissão de Fé de Westminster)
        
A Bíblia diz que não somos justificados por nossas próprias boas obras, mas pelo que é acrescentado pela fé, ou seja, a justiça de Cristo. Deus transferiu a nós a justiça de Cristo. E o apóstolo Paulo nos ensina como ocorre a justificação: “sabendo, contudo, que o homem não é justificado por obras da lei, e sim mediante a fé em Cristo Jesus, também temos crido em Cristo Jesus, para que fôssemos justificados pela fé em Cristo e não por obras da lei, pois, por obras da lei, ninguém será justificado.” (Gálatas 2.16). Paulo indica que a fé vem primeiro com o propósito de sermos justificados.

As Escrituras nunca dizem que somos justificados por causa da bondade inerente da nossa fé, como se ela tivesse mérito diante de Deus. Nunca nos permitamos pensar que nossa fé por si só merece favor de Deus. Antes, as Escrituras dizem que somos justificados “mediante” nossa fé, dando a entender que a fé é o instrumento pelo qual a justificação nos é dada, mas em nenhuma hipótese uma atividade que obtenha o favor de Deus. Ao contrário, nós somos justificados unicamente por causa dos méritos da obra de Cristo ( Romanos 4.23-25). 

Em Palavra de Deus nos mostra o motivo e o modo de justificação para o pecador: “pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus, a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, …” (Romanos 3.23-25), aqui temos a causa instrumental da justificação do homem caído “mediante a fé”, ou  “através da fé”.

Não pensemos nós, que o termo “causa instrumental” está dizendo que justificação depende do homem, pois tudo é dom de Deus: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus;” (Efésios 2.8).

Quando as Escrituras falam da justificação pela obediência ou pelo sangue de Cristo, a fé está subentendida; do contrário, as passagens que falam de justificação pela fé não teriam sentido. Da mesma maneira, quando falam de justificação pela fé, ficam subentendidos o sangue e a obediência, ou não teria sentido dizer “justificado por seu sangue”; “pela obediência de um só, muitos serão justificados.” O que Cristo fez e sofreu e, também, a nossa fé em Cristo são necessários para efetuar a nossa justificação.

A fé é o oposto exato em confiar em si mesmo, ela é o meio pelo qual o injusto se torna justo diante do tribunal de Deus. A fé não é a base para a justificação. Caso fosse, o homem teria mérito. O homem nunca foi salvo por obras, mas sim por fé, é o exemplo de Abraão: “Pois que diz a Escritura? Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça.” (Romanos 4.3).

Em suma, por causa instrumental entendemos que a fé é o meio pelo qual o homem é justificado, mas não é a causa da justificação. Ela é um dom de Deus, sendo assim o homem não tem nenhum mérito na justificação, pois “…é Deus quem Justifica…” (Romanos 8.33).

Para concluirmos essa breve consideração sobre a justificação, é necessário lembrarmos de que é Deus o autor da justificação do homem, pois ele é injusto diante de Deus. A justificação é a declaração legal no tribunal de Deus onde ele remove a culpa do pecado do homem, pagando a sua penalidade. É um ato de um juiz, absolvendo alguém que é acusado de crime.

No Antigo Testamento, justificação tem a idéia forense ou jurídica. Uma pessoa justa é a que foi declarada sem culpa pelo juiz. É certificar que a pessoa é inocente e, depois declarar que o fato é verdadeiro, que essa pessoa cumpriu a lei. No Novo Testamento, o termo “justificar” denota “declarar justo”, assim como no Antigo Testamento, a justificação é declaração legal por parte de Deus. E isso é por meio da fé, a causa instrumental, o meio pelo qual somos justificados, mas a fé não é a causa da nossa justificação. Ela não é a base para a justificação, mais sim os méritos de Cristo: “E é evidente que, pela lei, ninguém é justificado diante de Deus, porque o justo viverá pela fé.” (Gálatas 3.11).

A Deus toda honra e glória!

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Para saber mais sobre o assunto, recomendo a leitura de alguns livros:“Justificação pela fé somente” (Joel R. Beeke, John Armstrong, John Gerstner, John MacArthur, RC Sproul), “Introdução à Teologia Sistemática (Millard J. Erickson), Justificação pela graça (Charles Haddon Spurgeon), Manual de Teologia Cristã (Louis Berkhof).

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Fonte: Solus Christus
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