O trabalho do Espírito Santo na criação dos céus e da terra

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Por Leonardo Dâmaso


Texto base: Salmo 33.6; 104.30

INTRODUÇÃO

Ao dissecar sobre a obra da trindade na criação de todas as coisas, o bom estudante das Escrituras se depara com assuntos que, por um lado, são incríveis e, por outro, são pouco conhecidos pela maioria esmagadora da igreja evangélica brasileira. Dentre estes assuntos pouco abordados, temos o papel que o Espírito Santo exerceu no passado, continua exercendo no presente, e ainda exercerá no futuro [na terra restaurada] na criação. 

Sendo assim, para que possamos compreender adequadamente como foi o trabalho do Espírito Santo na criação dos céus e da terra, conforme o relato de Gênesis 1 e 2, e de várias outras passagens da Escritura, é imprescindível esboçarmos uma distinção importante. 


Deus Pai é o criador – aquele que trouxe a existência os céus e a terra pela sua infinita sabedoria e poder. Deus Filho é o coordenador – aquele que organizou todo o processo da criação; que pôs em ordem todas as coisas. E, finalmente, Deus Espírito Santo é o aperfeiçoador – aquele que concluiu e preserva toda a criação em ordem.


Tendo observado o papel de cada pessoa da divindade no processo de criação, é importante ressaltar ainda mais detalhes específicos sobre o papel do Espírito Santo na criação dos céus e da terra, o que veremos a seguir.




EXPLANAÇÃO

1. A uniformidade do papel da divindade na criação

O trabalho de Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo no processo da criação dos céus e da terra não foi algo realizado em estágios sucessivos, onde Deus Pai planejou, Deus Filho executou e o Espírito Santo completou. A obra da criação não foi uma divisão de tarefas, pois, se fosse assim, não seria um trabalho apenas, mas três trabalhos distintos realizados por três pessoas separadamente. 


Não! Antes, o trabalho de Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo no processo da criação foi uma distribuição de tarefas de um mesmo trabalho executado por ambos.  

  
Por exemplo, na construção de uma casa ou apartamento, não temos duas ou mais obras a serem realizadas, mas apenas uma obra com distribuições de tarefas. Deixe-me elucidar ainda mais este exemplo. No processo de uma construção, o primeiro passo é o planejamento, ou seja, arquitetar a construção. 

Após o projeto de uma casa ou apartamento já estar feito, o segundo passo é a contratação dos pedreiros para começar a construção. E o terceiro passo é a decoração da casa ou apartamento, que geralmente é feita também pelos pedreiros, porém existem algumas exceções, onde decoradores específicos são designados para tarefas específicas. 


Na criação de todas as coisas, podemos notar semelhanças com o exemplo supracitado. Deus Pai foi o “arquiteto” da criação – aquele que planejou todos os detalhes. Deus Filho foi o “executor” da criação – aquele que esteve presente trabalhando em todo o processo. E Deus Espírito Santo foi o “decorador” da criação – poeticamente falando, aquele que “embelezou” os céus e a terra e tudo que nela há com a sua glória. Portanto, a criação dos céus e da terra foi um trabalho da divindade, porém com diferentes tarefas para Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo. 

  
2. A peculiaridade do papel do Espírito Santo na criação 

Conforme vimos, o Espírito Santo teve a sua participação na criação, e suas atividades estavam intimamente relacionadas com as atividades de Deus Pai e Deus Filho em todo o processo. Contudo, sua atividade principal começou somente depois da criação da matéria pela palavra de Deus, onde Ele deu origem à vida. 


Gênesis 1.2 demonstra primeiro a criação de toda a matéria, a animação e, por fim, a preservação da mesma, a qual é obra do Espírito Santo. Desse modo, senão vejamos alguns aspectos do trabalho específico da terceira pessoa da trindade na criação dos céus e da terra.


a) Pairava sobre a desordem 


Antes da criação da terra estar completa e em ordem para ser habitável, o Espírito Santo já estava presente desde o início em todo o processo. Em Gênesis 1.2, é dito que o Espírito de Deus ou o Espírito Santo pairava sobre a face das “águas”, ou, literalmente, do abismo. 


“O texto hebraico mostra que o trabalho do Espírito Santo se movendo sobre a face das águas era semelhante àquele de uma ave que, com as asas estendidas, paira sobre seus filhotes para cobri-los e afagá-lo. A figura implica que não apenas a terra existia, mas também os germes de vida estavam nela e que, o Espírito Santo, impregnando esses germes, fez com que a vida existisse, a fim de conduzi-la ao seu destino”.[1]   

   
b) Criou e dispôs os céus e a terra

No Salmo 33.6, vemos descrito que o Espírito Santo criou os céus e o exército deles. A primeira expressão do versículo diz: Os céus por sua palavra se fizeram; e a segunda afirma: ... e, pelo sopro [Espírito] de sua boca, o exército deles [sol, lua e estrelas]


Na poesia hebraica, expressões paralelas denotam o mesmo sentido, porém de maneiras diferentes. Desse modo, nessa passagem, os termos palavra e Espírito (sopro), possuem o mesmo significado. O termo Espírito, no entanto, enfatiza apenas a peculiaridade do trabalho do Espírito Santo na criação. 


Refere-se não à criação da matéria da qual o sol, a lua e as estrelas foram compostos, mas da glória que eles refletem. Esta glória é obra do Espírito Santo. Assim, o Salmo 33.6 aborda a criação, a natureza dos céus e, por conseguinte, o seu desenvolvimento, o qual é realizado pelo Espírito Santo.


c) Proporcionou vida à criação animal 


Gênesis 1.24-25 relata a criação dos animais e suas diferentes espécies. Foi obra do Espírito Santo outorgar vida aos animais. Foi Ele que produziu vida aos animais domésticos, como cães e gatos; aos répteis, aos animais selváticos, dentre outros. 


d) Chamou o homem à existência  


Sabemos que as três pessoas da divindade estavam presentes em todo o processo da criação dos céus e da terra. Entretanto, produzir vida ao homem foi tarefa essencial do Espírito Santo. Gênesis 2.7 salienta que após criar o homem Adão do pó da terra, Deus soprou em suas narinas o fôlego de vida. Esta vida, portanto, é a vida biológica que o Espírito Santo insuflou em Adão. 


Não obstante, Jó 33.4 e o Salmo 104.30 destacam mais claramente o trabalho do Espírito Santo na criação. Jó afirma que o Espírito Santo teve um papel específico na formação do homem. O Salmo 104.30, por sua vez, declara que Ele realizou um trabalho similar na criação dos animais em geral. 


A expressão envias o teu Espírito, eles são criados, não faz alusão aos homens, mas a diversidade dos animais que foram criados, os quais são mencionados nos versículos 25-29. Logo, o salmista está se referindo aos animais e sua preservação, e não à criação e preservação dos homens. 


O Salmo 104.30 acentua que, apesar da matéria e o modelo do qual os animais foram criados já estivessem em pauta no conselho trinitariano, ainda assim era indispensável o trabalho do Espírito Santo para ocasionar a existência deles. Todavia, para melhor compreensão do assunto em voga, é importante demarcar a seguinte observação: 


Jó, no capítulo 33.4, não sinaliza a criação do primeiro homem, Adão, mas simplesmente a criação de um homem. De modo semelhante, no Salmo 104.30, o salmista também não enfatiza a primeira criação dos animais; antes, ele se referiu aos animais que nadavam no mar no momento em que compunha o Salmo. É bem provável que o salmista estivesse na beira do mar nessa ocasião em uma introspecção. 



CONCLUSÃO
   
Diante de tudo o que foi proposto, entendemos que o Espírito Santo teve um papel singular na obra da criação. Sendo assim, três considerações finais precisam ser destacadas acerca do caráter da obra do Espírito Santo na criação dos céus e da terra. 

1) O ato do Espírito pairar sobre a terra vazia, descrito em Gênesis 1.2, aponta que o seu trabalho era trazer à existência a vida escondida na terra ainda inabitável e inacabada, ou seja, transmitir vida à toda matéria que seria criada, como o homem, os animais, as plantas, os luminares, e outros.


2) Além de trazer à existência a vida secreta, o caráter do trabalho do Espírito Santo na criação consiste em fazer com que a beleza da glória divina escondida se revele em toda a criação, ativando, assim, a capacidade da criação de se reproduzir. Podemos utilizar como exemplo de reprodução da beleza divina as plantas, os animais, os luminares, as estações do ano, etc. 


3) Não existe uma tricotomia na obra da criação. Não podemos fazer uma separação de trabalho. Juntamente com Deus Pai e Deus filho, o Espírito Santo também planejou, geriu e coordenou toda a obra da criação.  


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Nota:
[1] Abraham Kuyper. A obra do Espírito Santo, pág 66-67.         

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Fonte: Bereianos
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Atos simbólicos do Espírito?

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Por Rev. Augustus Nicodemus Lopes


Não faz muito tempo Ana Paula Valadão provocou uma polêmica no meio evangélico ao se colocar de quatro no palco, durante um show em Anápolis, e começar a andar tentando imitar um leão. Enquanto isto, os membros da banda faziam gestos de “leão” ou de olhos fechados e mãos erguidas “abençoavam” a plateia, que gritava em delírio. O vídeo está no Youtube. Não quero voltar a este episódio, já tão batido, mas usá-lo como gancho para entender o quadro maior.

Isto de se imitar animais no palco sob a "unção" do Espírito Santo parece ter começado em 1995, na igreja do Aeroporto de Toronto, famosa por ter sido o berço da “bênção do riso santo”. Escrevi um artigo sobre isto em 1996. Naquele ano, um pastor chinês, líder das Igrejas chinesas cantonesas de Vancouver, Canadá, durante o período de ministração na Igreja do Aeroporto, começou a urrar como um leão. O pastor da Igreja, John Arnott, estava ausente do país, e foi chamado às pressas de volta, para resolver o problema. A liderança que havia ficado à frente da Igreja lhe disse que entendiam que o comportamento bizarro do pastor chinês era do Espírito Santo.

Arnott entrevistou o pastor chinês diante da congregação durante uma reunião, e para surpresa de todos, ele caiu sobre as mãos e os pés, e começou a rugir como um leão na plataforma, engatinhando de um lado para o outro, e gritando "Deixem ir meu povo, deixem ir meu povo!". Ao voltar ao normal, o pastor chinês explicou que durante anos seu povo tinha sido iludido pelo dragão, mas agora o leão de Judá haveria de libertá-los. A igreja irrompeu em gritos e aplausos de aprovação, e Arnott convenceu-se que aquilo vinha realmente do Espírito de Deus. Isto acabou provocando o desligamento desta igreja da sua denominação, a Vineyard Fellowship, que discordou que aquilo vinha de Deus. Mas, parece que a moda pegou.

A partir daí, os sons de animais passaram a fazer parte da "bênção de Toronto." Houve casos de pessoas rugindo como leão, cantando como galo, piando como a águia, mugindo como o boi, e gritando gritos de guerra como um guerreiro. Para Arnott, estes sons eram "profecias encenadas", em que Deus fala uma palavra profética à Igreja através de sons de animais. Arnott passou a admitir e a defender este comportamento como parte do avivamento em andamento na Igreja do Aeroporto.

Acredito que o argumento para “profecias encenadas” ou “atos proféticos” tão em voga hoje nos shows e cultos do movimento gospel e do pentecostalismo sincrético é que, no passado, Deus mandou seus servos transmitirem mensagens ao povo usando objetos e dramatizando a mensagem. Não é difícil achar exemplos disto no Antigo Testamento. Deus mandou que Jeremias atasse canzis (cangas) ao pescoço como símbolo do cativeiro do povo de Israel (Jer 27:2); mandou que comprasse um cinto de linho e o enterrasse às margens do Eufrates até que apodrecesse, como símbolo também da futura deportação dos judeus para a Babilônia (Jer 13:1-11); determinou que ele comprasse uma botija de barro e quebrasse na presença do povo, para simbolizar a mesma coisa (Jer 19:1-11). O Senhor mandou que Isaías andasse nú e descalço por três anos, como símbolo do castigo de Deus contra o Egito e a Etiópia (Is 20:3-4). Há outros exemplos de profetas que poderiam ser citados.

No Novo Testamento, o único exemplo de um profeta falando a Palavra de Deus e ilustrando-a com um ato simbólico é o do profeta Ágabo, que usando um cinto, amarrou seus próprios pés e mãos para simbolizar a prisão de Paulo (At 21:10-11).

Ao tentarmos entender a “teologia” dos atos proféticos da Bíblia percebemos alguns traços comuns a todas as ocorrências.

  • Elas foram determinadas a profetas de Deus, como Isaías e Jeremias, os quais foram levantados por Deus para profetizar sobre o futuro da nação de Israel e a vinda do Messias. Ou seja, tais atos tinham a ver com a história da salvação, o registro dos atos salvadores de Deus na história.
  • Estes atos simbólicos ilustravam revelações diretas de Deus para o seu povo através dos profetas. No caso de Ágabo, tratava-se de uma revelação sobre a vida do apóstolo Paulo, homem inspirado por Deus, que o Senhor haveria de usar para escrever a maior parte do Novo Testamento. Portanto, a mensagem de todos aqueles atos proféticos se cumpriu literalmente, como os profetas disseram que haveria de acontecer.
  • Sem revelação direta, infalível e inerrante da parte de Deus, não há atos simbólicos. Eles eram ilustrações destas revelações. Uma vez que não temos mais profetas e apóstolos, que eram os canais destas revelações infalíveis, não temos mais estes atos proféticos que acompanhavam ocasionalmente tais revelações.
  • Nesta compreensão vai o autor de Hebreus, que relega ao passado aqueles modos de Deus falar ao seu povo. Agora, Deus nos fala pela sua dramatização maior e suprema, a encarnação em Jesus Cristo (Hb 1:1-3).
  • Tanto assim, que os únicos atos simbólicos que o Senhor Jesus determinou ao seu povo, e cuja mensagem é fixa e imutável, foi que batizassem os discípulos com água e comessem pão e bebessem vinho em memória dele. Tais atos ilustram e simbolizam nossa união com o Salvador. Fora disto, não encontramos qualquer outra recomendação do uso de atos simbólicos para transmitir a mensagem do Senhor.

Portanto, para mim, estes “atos proféticos” atuais e profecias encenadas nada mais são que uma tentativa inútil – para não ser crítico demais - de imitar os profetas e apóstolos, na mesma linha destes que hoje reivindicam, em vão, serem capazes de fazer a mesma coisa que aqueles fizeram.

Após Deus ter se revelado em Jesus Cristo, ter estado entre nós e transmitido ao vivo a sua Palavra, após os apóstolos terem registrado esta mensagem de maneira infalível e suficiente nas Escrituras, pergunto qual a necessidade de profecias encenadas e atos simbólicos para que Deus nos fale através deles. Se alguém não entende a fala de Deus registrada claramente na Bíblia vai entender através do simbolismo ambíguo de gestos e encenações de gente que alega falar no nome dele? Sola Scriptura!

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Fonte: O Tempora! O Mores!
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Como a Graça Controla o Chamado

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Por Abraham Booth (1734-1806)


O fato de Deus graciosamente escolher um povo para Si, dentre toda a raça humana pecadora, não é inicialmente conhecido pelos que são escolhidos. Eles nada sabem a respeito do assunto antes de se converterem. O Espírito Santo, portanto, precisa realmente chamá-los um por um, ou eles jamais saberão que são filhos de Deus! Esta experiência é conhecida nas Escrituras como "chamados por Deus" (I Cor. 1:9); "chamados pela graça" (Gal. 1:15); "chamados pelo evangelho" (II Tess. 2:14). O Espírito Santo serve-Se do evangelho para efetuar esse chamamento.

Os pecadores estão espiritualmente mortos. Eles aceitam a verdade do evangelho só quando o Espírito Santo os vivifica. "Os mortos ouvirão. . . e os que ouvirem viverão" (Jo. 5:25). O pecador recém-despertado talvez se sinta longe de Deus, porém, o evangelho diz: "... o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora" (Jo. 6:37). Assim, o pecador espiritualmente vivificado vem a Jesus, confiando na verdade do evangelho. Esta é, em suma, a experiência de quem é chamado pela graça. O fato de qualquer pecador ser chamado deve-se inteiramente à graça divina. "Deus chamou-me por Sua graça", disse Paulo. E nenhum santo jamais alegará outra causa.

Os pecadores, em geral, consideram suas ofensas contra Deus mais como falhas do que como crimes. Eles dormem em seus pecados, sonhando com uma misericórdia geral que, (esperam), lhes seja outorgada. Eles jazem inconscientes de seu perigo, até que o Espírito de Deus os toca e os convence de sua pecaminosidade. Mas quando eles são levantados da morte espiritual pelo Espírito de Deus, aprendem repentinamente que cada um de seus pecados os coloca sob a maldição de Deus. Os deveres negligenciados, as boas dádivas de Deus ingratamente usadas, os atos de rebelião cometidos contra Deus assediam a mente do pecador recém-despertado e perturbam sua alma. A consciência aguça o seu ferrão e a culpa se torna um peso. Ele vê que a santa lei de Deus é justa. A ruína passa a ser vista como inevitável para os pecadores não perdoados.

Daí, pelo Espírito e pela palavra da verdade, os pecadores despertados aprendem que são incapazes de escapar da lei de Deus por qualquer esforço próprio. Esta convicção os torna alarmados por não terem percebido antes sua ignorância e indiferença. Agora eles sabem que as Escrituras são verdadeiras quando atribuem ao homem natural a condição de um "cão que retorna ao seu vômito", a uma "porca lavada que retorna ao espojadouro de lama" (II Ped. 2:22) e a "um sepulcro aberto" (Sal. 5:9). Ao invés de viverem cada momento no ininterrupto e vibrante amor de Deus, como a lei divina exige, eles viveram — oh vergonha! — inteiramente voltados para o amor de si mesmos e para o pecado. Certamente a lei de Deus é justa! "Maldito é todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las" (Gal. 3:10). Uma vez que não permaneceram, eles são de fato malditos.

Ora, deve ser claro que tais pessoas admitirão prontamente que qualquer esperança para elas só será possível se Deus for misericordioso.
A graça, como meio de salvação, está inteiramente à disposição de qualquer um que reconhece seu demérito aos olhos de Deus.

Diante disso, poderíamos pensar que um pecador despertado para sua necessidade correria para receber uma salvação tão graciosa. Verdade maravilhosa! Espantoso favor! Que mais se poderia esperar? No entanto, a observação mostra que os pecadores despertados são, às vezes, muito lentos para receber este conforto. Isso acontece não porque a graça de Deus é deficiente, nem porque a salvação é de algum modo incompleta, e sim porque freqüentemente o pecador acha que ainda não teve bastante consciência do seu pecado, ou porque sente que ainda não deseja Cristo suficientemente. Isso evidencia que ele ainda compreende mal a glória da salvação pela graça.

Nossa convicção de pecado ou o desejo de termos Cristo como nosso Salvador não persuade a Deus a ser gracioso para conosco. São experiências necessárias para nos tornar desejosos de receber a graça, mas não são necessárias para levar Deus a ser gracioso conosco. É a graça que controla o ato de Deus quando Ele nos chama, e não o nosso montante de tristeza por causa dos pecados, nem o quanto desejamos ser salvos. Precisamos cuidar que não desejemos as misérias da incredulidade, a fim de obtermos permissão para crer.

O chamado do evangelho é para pecadores infelizes que, de si mesmos, nada têm em que possam confiar. Aquele que verdadeiramente crê em Cristo precisa confiar nEle como Justificador do ímpio (Rom. 4:5). O pecador que se sente, de algum modo, melhor do que o ímpio, não é encorajado a buscar a Cristo, e sim o pecador que sabe que é tão culpado quanto todos os outros! "Não vim chamar os justos", disse Jesus, "mas os pecadores ao arrependimento" (Mat. 9:13).

A base da esperança do crente e a fonte de sua alegria espiritual não decorrem do pensamento que ele fez alguma coisa para merecer sua própria salvação (chame isso de "crença" ou o que você quiser), mas das verdades de que a salvação é de graça e de que o Salvador "veio salvar o que se tinha perdido" (Mat. 18:11). Um crente depende da graça que não exige mérito, e de um Salvador que supre toda a justiça necessária.

Consciente, então, de que está na mesma situação de culpa de todos os outros ímpios do mundo, o pecador despertado está convencido de que seu chamado se deve exclusivamente ao fato de Deus lhe ter sido gracioso. Ele não conhece outra razão para isso. Ele está plenamente persuadido de que Deus deu o primeiro passo. Quando ele pensa na experiência de ter sido despertado para reconhecer sua necessidade espiritual, ele diz: "Eu fui achado por Aquele a Quem nem amei nem procurei".

Ser chamado por Deus é puramente um ato de Sua graça. Ter consciência de que a graça discriminativa de Deus te particularizou e te chamou, embora você não fosse diferente de todos os outros pecadores, deve encher o teu coração de gratidão cristã. Este fato encherá o teu coração de grande incentivo para piedosa obediência e serviço cristão fervoroso.

Que direi a você que ainda não foi chamado? Se você deixar este mundo no estado em que está, estará perdido para sempre. Só os que são chamados aqui, são glorificados lá. Não suponha que o conhecimento dos fatos do evangelho poderá te salvar, se o teu coração está frio e sem qualquer sentimento de amor a Deus. Que vantagem haverá para você se deixar entre teus amigos a lembrança de um respeitável caráter, e você mesmo for perdido? Queira Deus que este não seja o caso com os meus leitores!


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Fonte: The Reign of Grace
Tradução: Josemar Bessa
Fonte: Josemar Bessa

O Fruto do Espírito




Por Priscila Dâmaso

TEXTO BASE: Gálatas 5:16-26

Introdução

Nesta parte da carta que Paulo escreve aos cristãos da igreja da Galácia, ele mostra o grande contraste que existe entre quem vive na carne e quem vive no espirito. Sabemos que aquele que se diz “cristão” é nascido do espirito, como o próprio Senhor Jesus relata a Nicodemos no texto de João 3:5-6:

Em verdade, em verdade vos digo: quem não nascer da água e do espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne; o que é nascido do Espírito é espírito.

Desse modo, como identificamos se somos nascidos do Espirito?

Através do fruto descrito nesse texto que vamos analisar podemos identificar se somos nascidos de novo. Uma coisa é clara nesse texto – aqui o fruto do espirito é único. Muitos acham que as atitudes descritas sobre este fruto são individuais, que se você tem um ou outro você é nascido de novo. Não, irmão! Não se iluda! Todos os elementos compõem um único fruto. Leia atentamente e você perceberá que a palavra fruto está escrito no singular, e não no plural. Vemos descrito o fruto do espirito, e não os frutos do espirito.

Explanação

Sendo assim, vejamos, então, cada uma das partes deste fruto contidas em Gálatas 5.22 e, com isso, façamos uma introspecção para entendermos a nossa posição diante de Deus.

1. Amor (Afeição profunda; afeição à pessoa ou objetos; paixão; entusiasmo)

A palavra grega “ágape”, traduzida por amor, inclui o amor a Deus e ao próximo. Paulo o coloca como o primeiro fruto por causa de sua força e importância, pois se refere aos dois principais mandamentos que o Senhor nos deixou: Amarás ao senhor teu Deus e ao próximo como a ti mesmo.

O amor gera em nós todos os outros elementos incluídos no fruto. Claro que, nos dias de hoje, o amor não tem mais a sua honra e o seu devido valor. O amor de hoje é impuro, egoísta e interesseiro, mas, para os filhos de Deus, o amor não pode perder o seu significado real, e a prática desse amor tem que ser de uma forma santa.

O amor relatado aqui pelo apóstolo Paulo, como o primeiro fruto, é um contraste notório com o amor carnal. No versículo 19 vemos que o primeiro fruto da carne é a prostituição. O amor do ímpio é assim – prostituído, sem valor e sem decência, inundado pelo pecado. O amor do cristão tem que ser diferente, pois essa é uma forte evidência de que este alguém é amado por Deus e é nascido de novo.

Quem ama a Deus crê em seu filho como único salvador e mediador, segue sua verdade e a prática. Este tem prazer de ir à casa do Senhor para adorá-lo, ama a comunhão, tem intimidade com Deus, busca a verdade e foge de heresias. Quem ama seu próximo oferece ajuda quando este precisa, perdoa, se compadece e é amigo, independente do que o outro possa lhe oferecer. Chora com ele e também se alegra, anda mais uma milha, levanta quando este cai e sempre tem uma palavra de consolo para oferecer ao abatido. Quem possui amor pratica tudo o que está escrito em 1 coríntios 13.

O amor do mundo é imoral, obsceno, impuro e sensual; trata com injustiça e violência; é um amor covarde e traiçoeiro que não pensa no outro, mas, sim, em satisfazer a si mesmo. É o contrário de tudo que é bom.

2. Alegria (Contentamento, júbilo; regozijo)

Como o próprio significado da palavra deixa claro, a alegria, aqui mencionada, é um contentamento em Deus. Quem ama a Deus demonstra regozijo pela sua verdade.

A palavra grega para alegria é “chara”, que é fundamentada em um consistente relacionamento com Deus. Esta alegria de forma alguma está relacionada a um triunfalismo pregado em muitas “igrejas ditas evangélicas” que vemos por ai, principalmente em “igrejas” neopentecostais, que infunde na mente dos membros que, para se ter alegria em Deus, você precisa alcançar bens materiais, como casa, carro, dinheiro etc.; ou então, para você ser feliz em Deus, você tem que ser uma pessoa saudável e cheia de vida. Irmão e irmã, isso é uma mentira de satanás para tornar os homens miseráveis, pois aquele que espera Cristo somente nessa vida é o mais miseráveis de todos os homens (1Cor 15.19).

A alegria mencionada por Paulo é um gozo em Deus. É um prazer único em Deus e em sua verdade. Nos momentos de tristeza e lutas, a alegria do Senhor é a nossa força (Ne 8: 10d). Isaias 12:3 mostra que das fontes da salvação tiraremos agua com alegria. Como diz o rei Davi: Então, irei ao altar de Deus, que é minha grande alegria (Salmo 43:4).

2. Paz (Tranquilidade, sossego, descanso)   

A palavra paz, no grego “eirene”, refere-se fundamentalmente a uma paz com Deus. Essa paz foi conquistada por Cristo na cruz. É uma paz que o mundo não pode nos dar. Quem possui essa paz descansa em Deus em meio às tribulações da vida; confia que o Senhor está na direção e que sabe o que é melhor. Possui a tranquilidade de que um dia habitara num reino governado por um Rei justo e que, nem a morte, nem a vida, nem anjos e principados e nem potestades, nem o antes nem o porvir... nada pode nos separar do Amor de Deus que está em Cristo Jesus (Rm 8: 38-39).

Estes três primeiros elementos que compõem o fruto do espirito estão diretamente ligados a Deus e a nossa relação com Ele. O três a seguir: Longanimidade, benignidade e bondade estão ligadas ao nosso relacionamento com o próximo.

3. Longanimidade (Firmeza de ânimo; coragem)

A palavra grega “makrothumia significa longanimidade; refere-se a alguém que tem ânimo espichado, ou, como dizem na linguagem popular – alguém com pavio longo. Uma pessoa longânime é tardia em irar-se. Não pensa em vingança mesmo se houverem possibilidades. Não se abala com as investidas do diabo. Não se derrete com as tribulações da vida, pelo contrário, se mantêm firme e constante, pois possui sua vida fundamentada em Cristo.     

Quando alguém lhe faz o mal, a pessoa longânime não paga na mesma moeda, pois ela tem facilidade em perdoar, haja vista que possui um espírito reto. Por amar a verdade de Deus, a defende, e por ser assim, é um ótimo (a) apologista.

4. Benignidade (Bondade; brandura)

Uma pessoa benigna é considerada uma pessoa branda, suave. Suas palavras são temperadas pelo espirito de Deus. Não usa um linguajar obsceno e nem torpe. Suas atitudes revelam sua doçura e seu caráter revela o amor de Deus.

No grego, a palavra “crestotes”, que traduzida significa benignidade, revela um tipo de pessoa gentil e bondosa com os outros. Uma pessoa benigna sempre age de forma misericordiosa. O benigno não age com bondade só com os seres-humanos; a sua compaixão e amor se estende sobre toda a criação de Deus – animais, plantas, terra e todo ser vivo. Paulo, em sua carta aos Efésios, diz: Antes, sedes uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus, em Cristo Jesus, vos perdoou (Ef 4:32).

5. Bondade (Qualidade do que é bom; boa índole)

A pessoa considerada bondosa age de forma honesta, é verdadeira, pura e justa. Suporta algumas injúrias com paciência e mansidão. Mesmo sendo pecador consegue agir de forma correta e não dá mau testemunho. Uma pessoa benigna também corrige, disciplina e exorta por amor ao próximo.

A palavra bondade, no grego “agathosyne”, possui um princípio energizante. Trench diz que Jesus usou essa palavra quando purificou o templo expulsando os que estavam transformando o Templo de Deus em um mercado. Porém, mais tarde, usou “crestotes” (benigno) com a mulher que ungiu seus pés, pois manifestou com esta uma atitude amável.1 A pessoa que manifesta bondade em suas atitudes não faz somente a outras pessoas, mais faz bem a si mesmo como está escrito em provérbios 11:17.

6. Fidelidade (Lealdade)

É tão bom conhecer alguém fiel. O fiel é alguém que podemos confiar sempre. Alguém que é amigo e confidente, que te apoia nos seus objetivos quando estes são para o seu bem e te repreende quando está errado. O fiel é benigno, bondoso, amoroso, longânime, transmite paz, é manso, possui domínio sobre seu sentimentos e emoções e é alegre.  

Alguém assim não é fiel somente ao seu próximo; antes, é fiel primeiramente a Deus e a sua palavra. Pode o mundo desabar que ele continua com a sua fé inabalável. Pode ser comparado ao servo João que seguiu ao Senhor Jesus até ao seu calvário. A própria palavra grega “pistis”, traduzida por fidelidade, significa fé, que é o nosso firme fundamento que nos mantêm no caminho em direção a Deus. A fidelidade depende da fé, não age de forma individual.

Devemos seguir a fidelidade de Jó, que mesmo diante de tanta dor, em momento algum, blasfemou contra seu Senhor. Ele era fiel no muito e também no pouco. Existem vários exemplos na palavra de Deus em que podemos nos apoiar para nos tornamos fiéis, como: Moisés (Nm 12: 17); Davi (1Sm 22:14); Hananias (Ne 7:2); Daniel (Dn 6:4) dentre outros.

7. Mansidão (Qualidade de manso; índole pacifica)

A palavra grega “prautes”, que traduzida significa mansidão, nos passa um ar de uma dócil submissão. Uma pessoa mansa, por mais que ela tenha inteligência, poder ou status, se mantêm humilde e nunca abusa das qualidades que possui. É como se fossemos cães ferozes domesticados pelo Espírito. O manso de espírito têm facilidade de se submeter. Mesmo quando tem razão tenta de forma pacifica mostrar seu ponto de vista, e mesmo que o outro não concorde, não age de forma arrogante ou obstinada. Este tipo de mansidão nos leva a se submeter a vontade de Deus. Segundo Donald Guthrie, esta qualidade não é natural e precisa ser cultivado pelo Espírito Santo. O desenvolvimento da mesma nos leva a harmonia e não a discórdia.2 John Stott nos diz que esta mansidão é aquela atitude de humildade que Cristo tem (Mt 11:29; 2Co 10:1).3

8. Domínio Próprio (Autocontrole)

A palavra grega “egkrateia” significa autocontrole, domínio dos próprios desejos. Uma coisa que pega o Cristão são o desejos sexuais. Talvez esta seja uma das coisas mais difíceis de conseguirmos controlar. Ter domínio sobre seus desejos e ações requer a intervenção do Espirito, pois, sem isso, digo que impossível dominar a fera que somos. É muito difícil domar nossos instintos. Se alguém fala algo que não nos agrada, logo já queremos partir para agressão.

Quando estamos solteiros e passa uma mulher ou um homem atraente, logo olhamos com cobiça e daí vem os pensamentos pecaminosos. E quando os hormônios do nosso corpo começam a gritar e nos levam a assistir sites pornográficos para acalmar a agitação dentro de nós? Quando passamos por momentos de tribulação, nossa mente já nos induz a trair nosso cônjuge. Quando passamos por dificuldades, já pensamos em encher a cara nos embriagando.

Irmão e irmã, se não tivermos domínio sobre nossa mente e corpo, pecaremos contra Deus de todos os modos. Talvez este seja o elemento do fruto mais difícil de alcançarmos, mais não é impossível. O Próprio Senhor Jesus, em sua natureza humana, foi tentado de todas as formas e não caiu em nenhuma delas. Que possamos usá-lo como nossa fonte de motivação.

Conclusão

Depois da analise a respeito do Fruto do Espirito, percebemos o porquê devemos nascer de novo. Se somos filhos de Deus, temos o seu “DNA”. E qual seria, então, o seu “DNA”? O fruto do Espirito!

Todos os elementos que formam o fruto mencionado em Gálatas fazem parte do caráter de Deus. Ele é perfeito em todos eles, e por sermos filhos de seu amor através de cristo precisamos ter o caráter semelhante ao de nosso Pai.

Nós somos a bíblia do ímpio. Muitas vezes, o mundo observa nossas atitudes diante de diversas situações. Ele vê a diferença ao praticar as coisas que, para este mundo caído, não são normais. Amar quem nos persegue, bendizer quem nos maldiz, perdoar uma traição, praticar atos de justiça, dar a outra face, submissão são loucuras para aqueles que não conhecem a Deus.

Sabe por que não conseguimos todas as partes do fruto? Porque o nosso amor é imperfeito! Se ao ler esse texto você percebe que falta uma dessas coisas mencionadas, não se apavore! Busque em Deus aquilo que te falta. O Fruto do Espirito é completo, e todos os seus pedaços estão perfeitamente enraizados. Um depende do outro. Busque aperfeiçoar aquelas qualidades que você tem mais dificuldade e se esforce em praticá-las. Assim, o mundo vai ver que você é um amado de Deus.

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Notas:

Hernandes Dias Lopes. Gálatas, pág 250.
Donald Guthrie. Gálatas, pág 180.
John Stott. A mensagem de Gálatas, pág 135.
  
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Fonte: Bereianos
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Os três benefícios que vivenciamos por meio da obra do Espírito Santo

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Por Kevin DeYoung


O Espírito não opera para fazer cristãos anônimos que têm as bênçãos de Cristo dissociada da fé em Cristo. Os benefícios são nossos apenas pela fé. É pela confiança em Cristo, por descansarmos em Cristo e dependermos unicamente de Cristo que o Espírito Santo opera nós. 

O primeiro benefício é que partilhamos de Cristo e de todas as suas bênçãos. Certamente, se alguém é abençoado de Deus, é seu Filho. E pelo Espírito, nós também partilhamos agora de todas as suas bênçãos. Também somos contemplados com favor. Tudo o que Cristo realizou é nosso. Tudo o que ele ganhou é nosso. A herança prometida a Abraão é nossa (Gl 3.14). Tudo isso e muito mais, porque nós pertencemos a Cristo e as bênçãos de Cristo pertencem a nós mediante as ministrações do Espírito.

O segundo benefício é o consolo do Espírito Santo. A maioria de nós já ouviu que o Espírito Santo é um Consolador (Jo 14.16). Outras traduções trazem paracletos como um "Ajudante" (ESV). um "Conselheiro" (NVI), ou um"Advogado" (NRSV), mas a verdade ainda está lá: Deus consola o seu povo pelo o Espírito Santo. Isso acontece de várias maneiras. O Espírito Santo pode sobrenaturalmente fortalecer a sua alma e dar-lhe uma paz que ultrapassa o entendimento ou uma calma confiança no trabalho do Senhor (At 9.31). Ele também pode consolar você por meio de outros cristãos enquanto você compartilha da comunhão do Espírito Santo. Como o Espírito da verdade, ele, muitas vezes, fala com você por meio da Palavra de Deus, levando-o a toda a verdade (Jo 16.13), incentivando-o com as palavras da Escritura que ele inspirou e a gora ilumina. Ele pode levar você a se lembrar de uma preciosa verdade bíblica ou direcionar seus pensamentos para a obra consumada de Cristo ou fazer com que seus olhos vejam mais claramente a glória de Deus. 

O terceiro benefício é a presença do Espírito Santo para sempre. No céu, o Espírito continuará a nos ensinar mais sobre as riquezas inesgotáveis de Cristo. Ele continuará a ser o vinculo pessoal que une os crentes em comunhão. E ele continuará a ministrar para nós a presença de Deus Pai e Deus Filho, que juntamente com o Espírito Santo são o Deus triuno, bendito para sempre, amém. 

Fonte: Trecho extraído do livro As Boas novas que quase esquecemos (pags. 101,102)

O que o cessacionismo não é

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Por Nathan Busenitz


Muito barulho foi feito (nesse blog e em outro lugar) sobre os recentes comentários anti-cessacionistas feitos por um pastor popular de Seattle. Não desejo começar uma guerra de palavras ou me envolver numa polêmica online. Apenas espero fazer uma contribuição útil a esse tema.

Nos últimos anos, investiguei o registro histórico sobre os dons carismáticos, especialmente o dom de línguas. Espero que o pastor citado, e seu co-autor, tratem o material de forma responsável em seus futuros trabalhos sobre o assunto (Quem sabe, talvez eles poderiam estar abertos a um livro com dois pontos de vista?)

Além disso, também espero que, ao criticar a posição cessacionista, os autores não criem uma caricatura do cessacionismo. (Vou admitir que, com base no que li até agora, tenho medo de que a caricatura já esteja em construção.)

Contudo, em um esforço para desmantelar uma deturpação falaciosa antes de ser construída, ofereço os quatro seguintes esclarecimentos sobre o que o cessacionismo não é:

1. Cessacionismo não é contra o sobrenatural e nem nega a possibilidade dos milagres.

Quando se trata de compreender a posição cessacionista, a questão não é se Deus continua a fazer milagres hoje? Cessacionistas reconheceriam prontamente que Deus pode agir a qualquer momento e da maneira que Ele escolher. John MacArthur explica que: 

Milagres na Bíblia (primariamente) ocorreram em três grandes períodos de tempo. O tempo de Moisés e Josué, o tempo de Elias e Eliseu, e o tempo de Cristo e os apóstolos. E durante esses três breves períodos de tempo, e somente neles, os milagres proliferaram; eles eram a norma, eram em abundância. Agora, Deus pode interpor-Se no fluxo humano sobrenaturalmente a qualquer hora que Ele quiser. Nós não o limitamos. O que simplesmente dizemos é que Ele escolheu limitar a Si mesmo em grande medida àqueles três períodos de tempo.

Assim, o cessacionismo não nega a realidade de que Deus pode fazer o que Ele quiser, sempre que Ele quiser. (Salmo 115:3). O cessacionismo não coloca Deus numa caixa ou limita sua prerrogativa soberana.

Ele reconhece que havia algo único e especial sobre o período e realização de milagres que definiu os ministérios de Moisés e Josué, Elias e Eliseu, e Cristo e seus apóstolos. Além disso, ele reconhece o fato aparentemente óbvio que esses tipos de milagres (como a divisão do mar, a interrupção da chuva, a ressurreição dos mortos, o andar sobre a água, ou a cura instantânea de coxos e cegos) não estão ocorrendo hoje.

Assim, os cessacionistas concluem que:

A era apostólica foi maravilhosamente única e está finalizada. E o que aconteceu nesse tempo, portanto, não é o paradigma para a vida cristã. O paradigma para a vida cristã é estudar a Palavra de Deus, que é capaz de nos tornar sábios e perfeitos. (Isto) é viver pela fé e não por vista.  (Ibid.)

Mas, será que Deus ainda pode fazer coisas extraordinárias no mundo de hoje? Certamente que sim, se Ele escolher. Na verdade, cada vez que os olhos de um pecador são abertos para evangelho, e uma nova vida em Cristo é criada, isto nada mais é do que um milagre.

Em seu útil livro, Continua? Samuel Waldron habilmente expressa a posição cessacionista desta forma: 102):

Não estou negando os milagres no mundo de hoje no sentido mais amplo de ocorrências sobrenaturais e providências extraordinárias. Estou apenas dizendo que não existem milagres no sentido mais estrito dos operadores de milagres, que se utilizam de sinais miraculosos para atestar a revelação redentora de Deus. Embora Deus nunca tenha se colocado para fora do Seu mundo, e ainda tenha liberdade para fazer o que Lhe apraz, quando Lhe apraz, como Lhe apraz, e onde Lhe apraz, Ele deixou claro que o progresso da revelação redentora, atestada por sinais miraculosos feitos por operadores de milagres, terminou na revelação apresentada no Novo Testamento.

Portanto, a questão não é: Deus ainda faz milagres?  

Em vez disso, a questão definitiva deve ser esta: Os dons miraculosos do Novo Testamento continuam operando hoje na igreja de tal forma que o que era norma nos dias de Cristo e dos apóstolos  deva ser esperado hoje?

A isso, todo cessacionista responderia que "não".

2. O Cessacionismo não é fundamentado em uma única interpretação do "perfeito" em I Coríntios 13:10.

Com relação a esse assunto, parece que existe tantas abordagens sobre “o perfeito” entre os eruditos cessacionistas quanto existem comentaristas que escrevem a respeito de 1 Coríntios 13:8-13. O espaço desse artigo não permite uma investigação completa sobre o tema, mas somente uma rápida explanação das principais posições.

As diferentes visões

(1) Alguns (como F.F. Bruce) argumentam que o próprio amor é o perfeito. Assim, quando a plenitude do amor vier, os coríntios deixarão seus desejos infantis.

(2) Alguns (como B.B. Warfield) afirmam que o cânon completo da Escritura é o perfeito. A Escritura é descrita como perfeita em Tiago 1:25, um texto em que a mesma palavra para “espelho” (como no v. 12) é encontrada (em Tiago 1:23). Assim, a revelação parcial será aniquilada quando chegar a plena revelação da Escritura. 

(3) Alguns (como Robert Thomas) afirmam que a maturidade da igreja é o perfeito. Esta abordagem é baseada na ilustração do verso 11 e a conexão entre esta passagem e Ef. 4:11–13. O momento exato da "maturidade" da igreja é desconhecido, embora esteja muito associada ao fechamento do cânon e o fim da era apostólica. (cf. Ef.  2:20).

(4) Alguns (como Thomas Edgar) veem a condução do crente à presença de Cristo (no momento da morte) como o perfeito. Esta perspectiva considera o aspecto pessoal da afirmação paulina no verso 12. A experiência pessoal de Paulo do pleno conhecimento quando ele for conduzido a presença de Cristo em sua morte. (cf. 2 Co. 5:8).

(5) Alguns (como Richard Gaffin) veem o retorno de Cristo (e o fim desta era) como o perfeito. Este é o mesmo ponto de vista da maioria dos continuístas. Assim, quando Cristo voltar (como descrito no capítulo 15), a revelação parcial, como nós conhecemos agora, será completada.

(6) Alguns (como John MacArthur) compreendem o estado eterno (no sentido geral) como o perfeito. Esta posição interpreta o neutro de to teleion como uma referência ao sentido geral dos eventos e não ao retorno pessoal de Cristo. Esta perspectiva combina as posições 4 e 5, citadas acima. De acordo com esta perspectiva: "Para os cristãos, o estado eterno inicia na morte, quando se encontram com o Senhor ou no arrebatamento, quando o Senhor o tomar para Si." (John MacArthur, Primeira Coríntios, p. 366).

Destas perspectivas, eu acho as três ultimas mais convincentes do que as três primeiras. Isto se deve principalmente, (eu confesso) ao testemunho da história da igreja. Dr. Gary Shogren, após um profundo estudo de mais de 169 referências patrísticas a esta passagem, conclui que a vasta maioria dos Pais da Igreja entendiam o perfeito como algo que está além desta vida (normalmente associando-o com o retorno de Cristo ou ao retorno de Cristo no céu. Até mesmo João Crisóstomo (que era claramente um cessacionista) via desta maneira. Embora não seja determinante, tal evidência histórica é de difícil rejeição.

Em todo caso, meu ponto aqui é simplesmente este: O intérprete pode tomar qualquer uma das posições acima e ainda permanecer cessacionista. De fato, existem cessacionistas sustentando cada uma das posições listadas (como os nomes listados indicavam).

Deste modo, Anthony Thiselton observa em seu comentário sobre esta passagem: "O único ponto importante aqui é que poucos ou nenhum dos argumentos dos “cessacionistas” sérios dependem de uma exegese específica de 1 Cor 13:8-11. Estes versos não devem ser usados como polêmica em nenhum dos lados neste debate " (NIGTC, pp 1063-1064). 1063–64).

3. Cessacionismo não é um ataque à Pessoa ou à obra do Espírito Santo.

Na verdade, apenas o oposto é verdadeiro. Cessacionistas são motivados pelo desejo de ver o Espírito Santo glorificado. Eles estão preocupados que, ao redefinir os dons, a posição continuísta barateie a natureza extraordinária dos dons, diminuindo a verdadeira obra miraculosa do Espírito nos estágios iniciais da igreja.

Cessacionistas estão convencidos de que, redefinindo a cura, a posição carismática apresenta um mau testemunho para o mundo ao ver que o doente não está curado. Redefinindo o dom de línguas, a posição carismática promove um tipo de jargão absurdo que vai contra tudo o que sabemos sobre o dom bíblico. Redefinindo o dom de profecia, a posição carismática dá credibilidade para aqueles que afirmam falar as palavras de Deus e ainda incorrem em erro. 

Portanto, esta é a principal preocupação dos cessacionistas: Que a honra do Deus Triuno e Sua Palavra sejam exaltadas – e que ela não seja banalizada por fracos substitutos.

E o que fazemos para saber se algo é autêntico ou não? Através de sua comparação com o testemunho escrito das Escrituras. Será que ao irmos para a Bíblia para definirmos os dons significa que estamos desprezando o Espírito Santo? Muito pelo contrário. Quando examinamos as Escrituras, estamos indo ao próprio testemunho do Espírito Santo para descobrir que Ele revelou os dons que Ele concedeu.

Como cessacionista, eu amo o Espírito Santo. Nunca iria querer fazer qualquer coisa para desacreditar sua obra, diminuir os seus atributos, ou minimizar o seu ministério. Nem iria querer perder nada do que Ele esteja fazendo na igreja de hoje.  E eu não sou o único cessacionista que se sente assim.

Porque amamos o Espírito Santo pela incrível e contínua obra do Espírito no corpo de Cristo. Suas obras de regeneração, habitação, batismo, selo, segurança iluminação, convencimento, confrontamento, confirmação, enchimento, e capacitação são todos os aspectos indispensáveis de seu ministério.

Porque amamos o Espírito Santo, somos motivados a estudar as Escrituras que Ele inspirou para aprender a andar de modo digno, sendo caracterizado pelo seu fruto. Ansiamos ser cheios pelo Espírito (Ef. 5:18) o que começa por sermos cheios de Sua Palavra (Cl 3:16-17) e ser equipados com Sua espada, que é a Palavra de Deus (Ef 6:17).

Finalmente, por causa do amor que temos pelo Espírito Santo, o apresentamos de forma justa, para entender e apreciar seus propósitos (como ele no-lo revelou em Sua Palavra), e alinhar-nos com o que Ele tem feito no mundo. Isto mais do que tudo nos dá razão para estudar a questão dos dons carismáticos (cf. 1Co 12:7-11). Nosso objetivo neste estudo tem que ser mais do que mera correção doutrinária. Nossa motivação deve ser de obter uma compreensão mais precisa da obra do Espírito Santo, de tal forma que possamos melhorar o nosso rendimento no serviço a Cristo, para glória de Deus.

4. Cessacionismo não é um produto do Iluminismo.

Talvez a maneira mais fácil de demonstrar este ponto final é citar os líderes pré-Iluministas cristãos que sustentavam uma posição cessacionista. Afinal, é difícil argumentar que a teologia de João Crisóstomo no século IV foi um resultado do racionalismo europeu do século XVIII.

Finalizando o assunto deste post, aqui estão dez líderes da história da Igreja a se considerar:

João Crisóstomo (c. 344–407):

A passagem inteira (falando sobre 1 Coríntios 12) é muito obscura, mas a obscuridade é produzida por nossa ignorância dos fatos referidos e por sua cessação, fatos que ocorriam, mas agora não tem mais lugar.

(fonte: João Crisóstomo, Homilias em I Coríntios, 36.7 Crisóstomo está comentando 1 Co. 12:1-2 como introdução ao capítulo inteiro. Citado de 1-2 Coríntios in: Ancient Christian Commentary Series, 146.)

Agostinho (354-430):

Nos tempos antigos o Espírito Santo veio sobre os crentes e eles falaram em línguas, que não haviam aprendido, conforme o Espírito concediam que falassem. Estes foram sinais adaptados ao tempo. Pois aquilo foi o sinal do Espírito Santo em todas as línguas [idiomas] para mostrar que o Evangelho de Deus era para ser espalhado a todas as línguas sobre a terra.  Isto foi feito por um sinal, e o sinal findou.

(Fonte: Agostinho. Homilias sobre a Primeira Epístola de João, 6.10. Cf. Schaff, NPNF, First Series, 7:497-98)

Teodoreto de Ciro (c. 393 c. 466):

Em tempos antigos, aqueles que aceitaram a divina pregação e que foram batizados para a sua salvação, receberam sinais visíveis da graça do Espírito Santo trabalhando neles. Alguns falaram em línguas que eles não sabiam e que ninguém lhes havia ensinado, enquanto outros realizaram milagres ou profetizaram.  O coríntios também fizeram essas coisas, mas não usaram os dons como deveriam ter usado. Eles estavam mais interessados em se mostrar do que em usar os dons para a edificação da igreja . . . Mesmo no nosso tempo a graça é dada para aqueles que são julgados dignos do santo batismo, mas não pode assumir a mesma forma que possuía naqueles dias.

(Fonte: Teodoreto de Ciro. Comentário sobra a primeira epístola aos Coríntios, 240, 43; em referência à 1Co 12:1,7.  Citado de 1-2 Coríntios, ACCS, 117).

Nota: Os defensores do continuísmo, como Jon Ruthven (em seu trabalho, sobre a Cessação dos Charismata), também reconhece pontos de vista cessacionistas em outros Pais da Igreja (como Orígenes, no século 3, e Ambrósio no século 4).

Além disso, a esta lista, podemos incluir o nome mais conhecido da Idade Média, o escolástico do século 13, Thomás Aquino.

Mas, vamos avançar para a Reforma e a era Puritana.

Martinho Lutero (1483-1546)

Na Igreja primitiva, o Espírito Santo foi enviado de forma visível.  Ele desceu sobre Cristo na forma de uma pomba (Mt. 3:16), e à semelhança de fogo sobre os apóstolos e outros crentes.  (Atos 2:3) Esse derramamento visível do Espírito Santo foi necessário para o estabelecimento da Igreja primitiva, como também foram necessários os milagres que acompanharam o dom do Espírito Santo. Paulo explicou o propósito destes dons miraculosos do Espírito em I Coríntios 14:22, "as línguas são um sinal, não para os que crêem, mas para os que não crêem".  Uma vez que a Igreja tinha sido estabelecida e devidamente anunciada por estes milagres, a aparência visível do Espírito Santo cessou.

(Fonte: Martinho Lutero, traduzido por Theodore Graebner [Grand Rapids, Michigan: Zondervan, 1949]...., pp  150-172. A respeito do comentário de Lutero sobre Gálatas 4:6.)

João Calvino (1509-1564):

Embora Cristo não declare expressamente se Ele pretende que esse dom [de milagres] seja temporário ou a permaneça perpetuamente na Igreja, é mais provável que os milagres tenham sido prometidos apenas por um tempo, para dar brilho ao evangelho enquanto ele era novo ou em estado de obscuridade.

(Fonte: João Calvino, Comentário sobre os Evangelhos Sinóticos, III:389.)

O dom de cura, como o resto dos milagres, os quais o Senhor quis que fossem trazidos à luz por um tempo, desapareceu, a fim de tornar a pregação do Evangelho maravilhosa para sempre.

(Fonte: João Calvino, Institutas da Religião Cristã, IV: 19, 18.)

John Owen (1616-1683):

Dons que em sua própria natureza excederam completamente o poder de todas as nossas habilidades, essa dispensação do Espírito há muito cessou e onde ela agora é simulada por alguém, pode ser justamente presumida como um delírio entusiasmado.

(Fonte: John Owen, Obras, IV:518.)

Thomas Watson (1620-1686):

Claro, há tanta necessidade de ordenação hoje como no tempo de Cristo e no tempo dos apóstolos, quando então havia dons extraordinários na igreja, os quais agora cessaram.

(Fonte: Thomas Watson, As Bem-Aventuranças, 140.)

Mattew Henry (1662-1714):

O que eram esses dons nos é largamente dito no corpo do capítulo [1 Coríntios 12], ou seja, ofícios e poderes extraordinários, concedidos a ministros e cristãos nos primeiros séculos, para a convicção dos descrentes, e propagação do evangelho.

(Fonte: Mattew Henry, Comentário Completo, em referência a 1 Coríntios 12)

O dom de línguas foi um novo produto do espírito de profecia e dado por uma razão particular, retirar o judeu e demonstrar que todas as nações podem ser conduzidas à igreja. Estes e outros sinais da profecia, começaram como sinais, e há muito cessaram e foram deixados para trás, e nós não temos nenhum incentivo para esperar um avivamento deles; mas, pelo contrário, somos direcionados para o chamado das Escrituras a mais certa palavra de profecia, mais certa que vozes dos céus, e ela nos orienta a tomar cuidado, a busca-la e se firmar nela., 2 Pedro 1:29.

(Fonte: Mattew Henry, Prefácio ao Vol IV de sua Exposição do At e NT, vii.)

John Gill (1697-1771):

[Comentando 1 Coríntios 12:9 e 30,].

Agora esses dons foram concedidos comumente, pelo Espírito, aos apóstolos, profetas e pastores, ou anciãos da igreja, naqueles primeiros tempos: a cópia de Alexandria, ea versão Latina da Vulgata, dizem, "por um só Espírito".

(Fonte: Comentário de John Gill de 1 Coríntios 12:9.)

Não; quando estes dons estavam presentes, nem todos os possuíam.  Quando a unção com óleo, a fim de curar o doente, estava em uso, ela só foi executada pelos anciãos da igreja, e não pelos seus membros comuns, que deveriam buscar o doente nesta ocasião.

(Fonte: Comentário de John Gill de 1 Coríntios 12:30.)

Jonathan Edwards (1703-1758):

Nos dias de sua [Jesus] encarnação, os seus discípulos tinham uma medida dos dons miraculosos do Espírito, sendo habilitados desta forma para ensinar e fazer milagres.  Mas, depois da ressurreição e ascensão, ocorreu o mais completo e notável derramamento do Espírito em seus dons milagrosos que já existiu, começando com o dia de Pentecostes, depois da ressureição Cristo e Sua ascenção ao céu.  E, em conseqüência disto, não somente aqui e ali uma pessoa extraordinária era dotada de dons extraordinários, mas eles eram comuns na igreja, e assim continuou durante a vida dos apóstolos, ou até a morte do último deles, mesmo o apóstolo João, que viveu por cerca de cem anos desde nascimento de Cristo, de modo que os primeiros cem anos da era cristã, ou o primeiro século, foi a era dos milagres.

Mas, logo após a finalização do cânon da Escritura quando o apóstolo João escreveu o livro do Apocalipse, não muito antes de sua morte, os dons miraculosos tiveram seu fim na igreja. Pois, agora, a revelação escrita da mente e da vontade de Deus estava completa e estabelecida. Revelação na qual Deus havia perfeitamente gravado uma regra permanente e totalmente suficiente para Sua igreja em todas as eras.  Com a igreja e a nação judaica derrotadas, e a igreja cristã e a última dispensação da igreja de Deus estabelecidas, os dons miraculosos do Espírito já não eram mais necessários e, portanto, eles cessaram; pois embora eles tenham continuado na igreja por tantas eras, eles se extinguiram, e Deus fez com que fossem extintos porque já não havia ocasião favorável a eles.  E assim foi cumprido o que está dito no texto: “Havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão;. Havendo ciência, desaparecerá".  E agora parece ser o fim para todos os frutos do Espírito tais como estes, e não temos mais razão de esperar que voltem.

(Fonte: Jonathan Edwards, sermão intitulado "O Espírito Santo deve ser comunicado ao Santos para sempre, In na graça da caridade, ou amor divino", em 1 Coríntios 13:8).

Os dons extraordinários foram dados para a fundação e o estabelecimento da igreja no mundo. Mas, depois que o cânon das Escrituras foi concluido e a igreja cristã foi plenamente fundada e estabelecida, os dons extraordinários cessaram.

(Fonte: Jonathan Edwards, Caridade e seus frutos, 29.)

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Poderiamos adicionar a esta lista outros nomes: James Buchanan, R. L. Dabney, Charles Spurgeon, George Smeaton, Abraham Kuyper, William G. T. Shedd, B. B. Warfield. A. W. Pink, e assim por diante. Mas, tem que se admitir, eles são figuras históricas pós-iluministas.

Então, eu acho que é melhor usar seu testemunho em uma outra postagem.

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Traduzido por: Isaias Lobão Pereira Junior. 
Revisado por: Arielle Pedrosa Borges.
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