Série Credo Apostólico - Parte 7: O Espírito Santo em Ação

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INTRODUÇÃO

Creio no Espírito Santo”.

O Espírito Santo vem sendo mal compreendido em inúmeros arraiais evangélicos, tanto a sua pessoa como a sua atuação se resumem a demonstração de um mover que não encontra base na Escritura Sagrada. Enquanto que outros setores do evangelicalismo parecem ignorar a atuação do Espírito em nossos dias.

Para evitar este desequilíbrio, precisamos mergulhar nas páginas da Bíblia para dela tirar um conceito legítimo sobre a pessoa e a obra do Espírito Santo. É bem verdade que no Antigo Testamento, ao fazermos uma leitura superficial, parece que nada há em seu conteúdo que nos mostre o Espírito em ação. Mas, ao fazer um estudo mais apurado, veremos que Ele se revela desde o relato da criação. Afinal, é o próprio Espírito de Deus que conduz o processo de escrituração, e graças a Ele temos em mãos o livro sagrado. Assim sendo, difícil seria se Ele não revelasse a si mesmo.

O objetivo deste texto é fazer com que entendamos que o Espírito é Deus, sendo um componente da Santíssima Trindade. E também veremos a sua atuação por todo registro da Escritura.

O ESPÍRITO NO ANTIGO TESTAMENTO

Percorrendo o Antigo e o Novo Testamento, o conteúdo traz luz sobre a atuação daquele que é comumente chamado na teologia de a “terceira pessoa da Trindade”, pois, muitos estão apenas familiarizados com os outros dois componentes da Santa Tríade que são Deus-Pai e Jesus Cristo, Deus-Filho. No início da revelação, o termo hebraico ruach é usado para designar o Espírito Santo no Antigo Testamento. Energia e poder ativo seriam as palavras que melhor se aproximam da ideia concernente a ruach. A conotação do termo não enfatiza a imaterialidade, mas sim a presença poderosa do Espírito que ao descer sobre os indivíduos faz com que os mesmos adquiram uma energia não natural, isto é, sobrenatural (Jz 14.6). A primeira aparição do termo está em Gênesis 1.2. Em outras 107 ocorrências, ruach vai se referir à atividade de Deus (Elohim) no mundo. Só que há um erro frequente de achar que o Espírito Santo é apenas uma energia. A ideia que ruach traz consigo é a de Deus envolvendo-se pessoalmente com a sua criação, por isso que as Escrituras tratam o Espírito como um agente criador, presente em toda a etapa da construção do cosmos. Isso coloca o Espírito Santo ao lado dos demais componentes da Trindade realizando a obra de criar o mundo ex nihilo, dando sentido assim a expressão que se encontra no plural em Gênesis 1.26: “façamos”.

O Espírito de Deus é responsável por dar ordem a matéria criada, tal como ele foi o sustentador do povo escolhido, isto é, Israel, lhes concedendo leis justas e um governo para que seu povo não emergisse no caos. Moisés, Josué e outros líderes tinham o Espírito do SENHOR (Nm 11.16-17 e 27.18). Também foi de sua incumbência conceder dons artísticos aos homens (Ex 31.2-6). Ele é o Espírito da ordem e da beleza. Além de criador, o Santo Espírito também é recriador, pois, Ele atua no homem caído, regenerando-o e dando-lhe um norteamento moral, isto é, santificador. Ele é quem aplica a salvação pela graça no coração do homem. Como está escrito em Ezequiel 11.19-20: "E lhes darei um só coração, e um espírito novo porei dentro deles; e tirarei da sua carne o coração de pedra, e lhes darei um coração de carne; Para que andem nos meus estatutos, e guardem os meus juízos, e os cumpram; e eles me serão por povo, e eu lhes serei por Deus".

O ESPÍRITO NO NOVO TESTAMENTO

Em todo o Antigo Testamento a atuação distinta do Espírito não ficou muito clara para o povo de Israel. Toda ação divina era atribuída a Adonai, o SENHOR. Embora Ele tenha atuado intensamente, inclusive na inspiração dos autores que formariam o cânon bíblico, é apenas no Novo Testamento que o povo eleito passa a ter informações mais precisas acerca do seu ser e de sua obra. Na revelação neotestamentária, o Espírito é o parakletos, apresentado pelo próprio Cristo (Jo 14.16). Ele seria a testemunha em prol de Jesus. Testemunha melhor não há, uma vez que o Espírito se fez presente em todo o momento do ministério messiânico. Da concepção até a morte na Cruz, o Espírito Santo testificou que aquele homem vindo de Nazaré era o Filho de Deus prometido em todo o Antigo Testamento - desde Gênesis 3.15.

Já no momento da chegada do Cristo ao mundo, Maria concebeu virgem, milagrosamente, pela obra do Espírito. A presença do Espírito Santo neste momento é de suma importância para referendar a profecia de que a glória de Deus no segundo templo seria maior (Ag 2.7-9). A glória do antigo templo era o próprio Espírito Santo - a fumaça que envolvia o sumo-sacerdote no lugar Santíssimo. Quando Cristo nasce dessa concepção sobrenatural realizada pelo Espírito, a glória maior profetizada por Ageu se cumpre. Além disso, o Espírito teve como função preservar a santidade do Deus que se encarnava, sustentando a sua impecabilidade.

No Batismo (Mt 3.16-17), a voz audível do Pai e o Espírito Santo em sua aparição na forma de uma pomba selam o início do ministério de Jesus, endossando-o como um profeta enviado pelo próprio Deus para apregoar as boas novas (Lc 4.18). Após ser batizado, Cristo é levado pelo Espírito a ser tentado no deserto por Satanás (Lc 4.1). Diferente de Adão, Jesus resiste e derrota o diabo, confirmando-o como o segundo Adão, capaz de redimir a humanidade caída. Foi o Espírito Santo quem preservou Jesus nos momentos de aflição antes da sua morte terrível para expiar os pecados. Ele conduziu o Cristo até a cruz, mesmo quando Satanás tentou de várias maneiras fazer com que Jesus não a encontrasse. E embora a ressurreição e ascensão sejam obras atribuídas ao Pai, podemos afirmar que existe a atuação poderosa e efetiva do Santo Espírito também nestas coisas, pois, é em Seu poder ativo que os milagres acontecem.

O ESPÍRITO E O POVO DO LIVRO

A Igreja é capacitada pelo Espírito para apregoar o Evangelho. Jesus é quem diz isso antes de subir aos céus (1.8). E em pentecostes (Atos 2), vemos que a Igreja que era um grupo de centenas, passa a ter três mil pessoas inclusas após o Espírito Santo descer sobre o seus. É a era da plenitude do Espírito. O apóstolo Paulo fala claramente que o Evangelho é a pregação resultante do poder do Santo Espírito (1 Ts 1.5), e o Parakletos mata o velho homem e faz com que o mesmo viva agora em novidade de vida. As Escrituras atestam que é Ele quem convence o homem do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8), fazendo com que o mesmo vá até Cristo para salvar-se do inferno.

Ademais, aquilo que foi registrado no Novo Testamento são Palavras do próprio Espírito Santo, trazendo a revelação messiânica a todos os povos. Ele que lembraria aos escritores do NT as palavras de Jesus e ensinaria também o que haveriam de escrever (Jo 14.26). Para a Teologia isto é chamado de doutrina da inspiração. Pedro e Paulo  atestam a inspiração de toda a Escritura em suas cartas (1Tm 3.16 e 1Pd 1.21). Por isso não há fonte mais apropriada do que a Bíblia para conhecermos o Espírito Santo, o Pai e o Filho, que formam a Santíssima Trindade, a divindade cristã.

O povo de Deus, isto é, a igreja, pode ser chamada de “povo do Livro”, pois é na Escritura que baseiam o seu estilo de vida. Cabe ao Espírito ajuntar este rebanho do SENHOR e fazê-los santos a partir do entendimento e da aplicação do conteúdo bíblico. Conteúdo que, como já foi dito, é inspirado - e neste processo de inspiração – o Espírito Santo conduziu os escritores canônicos a não cometerem nenhum erro na redação da palavra revelada.

Quanto a isso, vejamos o que nos diz a Confissão de Fé de Westminster, Capítulo 1, artigo V:

Pelo testemunho da Igreja podemos ser movidos e incitados a um alto e reverente apreço da Escritura Sagrada; a suprema excelência do seu conteúdo, e eficácia da sua doutrina, a majestade do seu estilo, a harmonia de todas as suas partes, o escopo do seu todo (que é dar a Deus toda a glória), a plena revelação que faz do único meio de salvar-se o homem, as suas muitas outras excelências incomparáveis e completa perfeição, são argumentos pelos quais abundantemente se evidencia ser ela a palavra de Deus; contudo, a nossa plena persuasão e certeza da sua infalível verdade e divina autoridade provém da operação interna do Espírito Santo, que pela palavra e com a palavra testifica em nossos corações.
I Tim. 3:15; I João 2:20,27; João 16:13-14; I Cor. 2:10-12.

CONCLUSÃO

Para sermos computados como cristãos, é necessário crer que o Espírito Santo é Deus. É uma pessoa, com atributos eternos e imutáveis. Assim diz o Credo de Atanásio:

O que o Pai é, o mesmo é o Filho, e o Espírito Santo. (...) Assim, o Pai é Deus, o Filho é Deus, o Espírito Santo é Deus. Contudo, não há três Deuses, mas um só Deus. Portanto o Pai é Senhor, o Filho é Senhor, e o Espírito Santo é Senhor. Contudo, não há três Senhores, mas um só Senhor. Porque, assim como compelidos pela verdade cristã a confessar cada pessoa separadamente como Deus e Senhor; assim também somos proibidos pela religião universal de dizer que há três Deuses ou Senhores.

Soli Deo Gloria

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Autor: Pr. Thiago Oliveira
Divulgação: Bereianos


Leia também:
Série Credo Apostólico - Parte 1: Um Símbolo da Fé Cristã
Série Credo Apostólico - Parte 2: Pai, Todo Poderoso, Criador
Série Credo Apostólico - Parte 3: Jesus Cristo é o Senhor
Série Credo Apostólico - Parte 4: O Redentor no Espaço-Tempo
Série Credo Apostólico - Parte 5: O Padecimento do Cristo
Série Credo Apostólico - Parte 6: A Vitória do Cristo

O selo escatológico do Espírito: uma experiência posterior?

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Este artigo é uma exposição exegética e apologética de Efésios 1.13 que diz:

“... no qual também vós, tendo ouvido a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, e tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa”. 

Há três principais interpretações desse texto: 1. O selo do Espírito como sendo o batismo cristão; 2. O selo do Espírito como sendo uma experiência pós-conversão (após crer); 3. O selo do Espírito como algo feito simultaneamente com a conversão. 


Irei defender a terceira interpretação em oposição à segunda. A primeira interpretação não será refutada aqui, visto que não é muito defendida nem conhecida, carece totalmente de apoio contextual e já fora refutada várias vezes por defensores da segunda e terceira interpretação.

1. O selo do Espírito: significado e background

O conceito do selo é tanto antigo como comum. Na antiguidade, era costume selar gados, escravos, documentos e outras propriedades.[1] Na esfera religiosa, homens identificavam a si mesmos como propriedades de suas divindades imprimindo sobre si os seus selos.[2] No judaísmo, a circuncisão era chamada de “o selo de Abraão” ou o selo da “santa aliança”.[3] No Antigo Testamento, Deus selou seus escolhidos para distingui-los como Sua propriedade e para livrá-los da destruição (Ez. 9.4-6).

Portanto, selo pode significar possessão, autenticação e segurança. Como o contexto fala sobre o resgate da possessão de Deus (1.14), esse significado está em vista aqui. Entretanto, possessão implica autenticação e segurança e esses três elementos são verdadeiros em Ef, 1.13, uma vez que o Espírito marca os cristãos como posses de Deus, autentica que um cristão é verdadeiro (pois quem não tem o Espírito de Cristo não é de Cristo: Rm. 8.9) e é o Espírito que assegura a salvação final de todo cristão.

2. A crença e o selo: questões gramaticais

Os defensores da interpretação que diz que o selo do Espírito é posterior à conversão apontam para uma questão gramatical. O texto diz: “ ...e tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa” (καὶ πιστεύσαντες ἐσφραγίσθητε τῷ Πνεύματι τῆς ἐπαγγελίας τῷ Ἁγίῳ). O particípio aoristo “crido” antecede o verbo principal “fostes selados” (aoristo passivo). Essa antecedência pode ser tanto causal (o crer causa a selagem) ou temporal (o crer antecede temporalmente o selo). Entretanto, nesse contexto a relação dessas duas palavras é mais bem entendida como sendo coincidentes/simultâneos.[4] Como observado por S. E. Porter, há algumas exceções na regra que diz que o particípio aoristo antecedendo o verbo principal tem a tendência de expressar ação antecedente, e Efésios 1.13 é uma dessas exceções.[5] 

3. O selo do Espírito e o Espírito da promessa

O texto diz que os cristãos são “... selados com o Espírito Santo da promessa”. Provavelmente um semitismo para “O Espírito que fora prometido”. Alguns textos do AT que prometem o derramamento do Espírito são: Ezequiel 36.26-27; 37.14; Joel 2.28-30, etc. A marca distintiva desse derramamento escatológico do Espírito é que Ele seria derramado em todas as pessoas da comunidade da aliança (do povo de Deus). Semelhantemente, Gálatas 3.14 diz que os gentios recebem pela fé a promessa do Espírito, cumprindo as promessas feitas a Abraão. Portanto, quem não tem o Espírito prometido não faz parte do povo escatológico de Deus.

4. O selo do Espírito e a falácia da autoridade

Um conhecido e respeitado defensor de que o selo do Espírito é uma experiência posterior à fé é o Dr. Martin Lloyd Jones. Em sua exposição de Efésios 1.13, Lloyd Jones “consubstancia sua opinião” citando nomes de peso, como os puritanos Thomas Goodwin e John Owen, e de Charles Simeon e Charles Hodge. Entretanto, nas palavras de D. A. Carson, “o máximo de contribuição que isso pode dar a um argumento é o empréstimo da reputação geral da autoridade para apoiá-lo”.[6] Ainda que devamos aprender com todas as “autoridades” dos estudos bíblicos, nossa fonte de suprema autoridade é a própria Escritura.

5. A dimensão escatológica do selo do Espírito

Concluo meus argumentos apontando para a dimensão escatológica do Selo do Espírito. O próximo verso (Ef. 1.14) diz: “...o qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão de Deus, para o louvor da sua glória”. Semelhantemente em Ef. 4.30: “E não entristeçais o Espírito Santo de Deus, no qual fostes selados para o dia da redenção”, e em 2Co. 1.21: “...o qual também nos selou e nos deu como penhor o Espírito em nossos corações”. O Espírito é o penhor, o pagamento antecipado da redenção final dos cristãos. Os paralelos com o livro apócrifo “Salmos de Salomão” (15.6-13) são instrutivos[7]: 1. Em ambas as passagens há dois tipos de pessoas, em Sl. Sal. 15 temos os justos e os pecadores (15.6-13) e em Efésios temos os crentes e os filhos da desobediência (Ef. 1.13; 2.2; 5.3). 2. Ambos os grupos são distinguidos por uma marca ou sinal. Em Sl. Sal. os justos são marcados por Deus com a marca da salvação e os pecadores são marcados com o sinal da destruição (Sl. Sal. 15.6-9), em Efésios os crentes são marcados com o Espírito (1.13; 4.30); 3. Os dois grupos terão destinos diferentes. Um grupo receberá salvação e o outro herdará a destruição (Sl. Sal. 15. 6-13, Ef. 1:13-14; 5:5-6, 6:9); 4. Eles encontrarão seus respectivos destinos em um dia particular. Em Sl. Sal. será o dia de misericórdia para os justos e o dia do julgamento para os pecadores (Sl. Sal. 15.12-13) e em Efésios será o dia da redenção para os cristãos e o dia da ira para os filhos da desobediência (Ef. 2.2-3; 5.6).[8] As imagens apocalípticas de Ef. 1.13 e 4.30 já são uma realidade. Isso é normalmente denominado de “escatologia inaugurada”. Os cristãos já foram resgatados, mas ainda aguardam o resgate final. Portanto, excluir alguns cristãos dessa realidade é excluí-los do esquema escatológico paulino do “já e ainda não”.

Conclusão

Nas palavras de Gordon Fee, crer e ser selado com o Espírito são dois lados do mesmo evento.[9] Para Paulo, O Espírito sempre é sine qua non para a existência cristã.[10] O selo do Espírito não é algo meramente empírico, onde um cristão experimenta alguma segurança, mas sim é algo ontológico e funcional, ou seja, Deus efetivamente sela os seus (Deus indicado pelo passivo divino de Ef. 1.13). Portanto a incoerência de dizer que o selo do Espírito é posterior ao crer (e a conversão) se dá nos seguintes pontos: 1. Se isso for realidade, então há cristãos genuínos que não são propriedades de Deus, nem são autênticos (contradição explícita) nem possuem segurança de sua salvação (conforme os significados de selo do ponto 1; 2. Como o Espírito é prometido à todo o povo de Deus, então é possível ser um cristão genuíno e não fazer parte do povo de Deus. Se o “Espírito da promessa” significar “O Espírito que nos promete” a futura redenção (como alguns exegetas apontam), então há cristãos que não possuem a promessa da vida eterna.

Nenhum desses dois pontos possui respaldo bíblico, pelo contrário, todo o NT aponta para direções opostas. Não devemos confundir os ministérios e as operações do Espírito. Ser selado é um ato instantâneo e irrevogável. Entretanto, o enchimento com o Espírito é algo que devemos sempre buscar. Paulo posteriormente em Efésios diz: Enchei-vos do Espírito! (Ef. 5.18). Mas ele nunca diz para buscarmos constantemente o selo do Espírito, pois essa selagem é um ato único de Deus somente no momento da conversão de todos os cristãos.

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Notas:
[1] Archie Wang Do HUI, The Concept of the Holy Spirit in Ephesians and its Relation to the Pneumatologies of Luke and Paul, pp. 181-187.
[2] Ibid.
[3] Betz, TDNT, 7.662.
[4] Peter O´Brien, Ephesians (PCNT) p. 118.
[5] S. E. Porter, verbal aspects, pp. 383-85.
[6] D. A. Carson, perigos da interpretação Bíblica, p. 115.
[7] Archie Wang Do HUI, pp. 181-187.
[8] C. Arnold, Ephesians, p. 113, 157.
[9] Gordon Fee, God´s Empowering Presence, pp. 669-670.
[10] Ibid.

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Autor: Willian Orlandi
Divulgação: Bereianos
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A divindade e a personalidade do Espírito Santo

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Por Francisco Alison Silva Aquino


As discussões em torno da pessoa do Espírito Santo, a princípio, foram um pouco negligenciadas nos primeiros séculos da igreja cristã. Isto se deve principalmente ao fato de que a pessoa de Cristo é que era alvo de controvérsias teológicas. O credo de Nicéia (325), por exemplo, embora cite a expressão “Espírito Santo”, não faz nenhuma descrição mais detalhada quanto a Ele. No credo Niceno diz: “... e novamente virá para julgar os vivos e os mortos; E no Espírito Santo.” 

No entanto, algumas descrições quanto à pessoa do Espírito foram sendo feitas no decorrer da história. No credo niceno-constantinopolitano (381), o qual constitui uma ratificação do credo niceno com alguns pormenores a mais, diz: “... e se encarnou [do Espírito Santo...]”. Em outra parte afirma: “E no ESPÍRITO SANTO, o Senhor e Vivificador, o que procede do pai e do Filho, o que juntamente com o pai e o filho é adorado e glorificado, o que falou através dos profetas;”. Aqui nós temos uma descrição um pouco mais ampla da pessoa do Espírito. Já no credo atanasiano (c.500), várias vezes é mencionada a pessoa do Espírito Santo. Nele é enfatizado que o Espírito Santo também é Deus juntamente com as duas outras pessoas da trindade: o Pai e o Filho. O credo usa expressões tais como: “o Espírito Santo eterno”, “Espírito Santo onipotente”, “o Espírito Santo é Deus”, “o Espírito Santo é Senhor”, etc.

A ortodoxia enfatiza a divindade plena do Espírito em igualdade com o Pai e o Filho. No entanto, existe outro aspecto a respeito do Espírito, além da sua divindade, digno de ser tratado com bastante diligência, a saber, a sua personalidade. Uma vez que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são três pessoas e um único Deus, iguais em essência, e sendo o Pai e o Filho seres pessoais, também o Espírito o é. 

Estes dois aspectos (divindade e personalidade) do Espírito Santo tem sido negados por algumas seitas e religiões. Enquanto determinadas religiões, como o islamismo, uma vez que este nega a unidade absoluta de Deus, negam o primeiro, geralmente seitas (ex. As Testemunhas de Jeová) negam o segundo, embora nós possamos dizer que em muitos casos negar um aspecto implica em negar o outro. Assim sendo, analisemos então o que as Escrituras dizem a respeito destes dois aspectos intrínsecos à pessoa do Espírito Santo.

Quanto à divindade do Espírito, as Escrituras são claras ao atribuir a estes atributos pertencentes somente a Deus. Logo em Gênesis nós vemos uma indicação de um desses atributos quando lemos que “o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas”. Ou seja, o Espírito participou da atividade criadora da terra, atividade esta realizada pelas pessoas da trindade. Em outras palavras, o Espírito estava presente na obra da criação, demonstrando assim o atributo da onipotência que o caracteriza como ser divino. Jó também atribuiu sua criação ao Espírito: “O Espírito de Deus me fez; e a inspiração do Todo-Poderoso me deu vida.” (Jó 33.4).

Outro atributo concedido ao Espírito Santo é a onipresença: “Para onde me irei do teu ESPÍRITO, ou para onde fugirei da tua face? Se subir ao céu, lá tu estás; se fizer no inferno a minha cama, eis que tu ali estás também. Se tomar as asas da alva, se habitar nas extremidades do mar, Até ali a tua mão me guiará e a tua destra me susterá.” (Salmos 139.7-10). 

O texto de Isaías 40.13-14 demonstra o atributo da onisciência: “Quem guiou o ESPÍRITO do Senhor, ou como seu conselheiro o ensinou? Com quem tomou ele conselho, que lhe desse entendimento, e lhe ensinasse o caminho do juízo, e lhe ensinasse conhecimento, e lhe mostrasse o caminho do entendimento?” (Isaías 40.13-14).

Além dos versículos que demonstram os atributos divinos do Espírito, há outras passagens da Escritura que claramente afirmam que o Espírito Santo é Deus. Talvez o texto mais claro quanto a isso seja o de Atos 5.3-4 que diz: “Disse então Pedro: Ananias, por que encheu Satanás o teu coração, para que mentisses ao ESPÍRITO SANTO, e retivesses parte do preço da herdade? Guardando-a não ficava para ti? E, vendida, não estava em teu poder? Por que formaste este desígnio em teu coração? Não mentiste aos homens, mas a DEUS.” (Atos 5:3-4). Em outras palavras, a passagem nos diz que mentir ao Espírito Santo é mentir a Deus, uma vez que aquele também compartilha da essência divina.

Quanto à personalidade do Espírito, as Escrituras são ainda mais claras ao tratar o Espírito como um ser pessoal. A palavra para “Espírito” no grego é pneuma. Esta palavra é neutra, porém quando usada para o Espírito possui um artigo masculino. Um fato que indica que o Espírito Santo é uma pessoa é que ele, como Consolador (parakletos, João 14.26; 15.26), é colocado ao lado de Cristo como o consolador que estava para partir. Além disso, a Escritura também confere ao Espírito atributos pessoais. Vejamos alguns deles.

João 14.26 indica o atributo da inteligência: “Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ENSINARÁ todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito.”. O papel do Espírito em nos ensinar toda a verdade aponta para o aspecto pessoal do Espírito. Uma força impessoal não poderia fazer isso. 

O texto de Atos 16.7 mostra que o Espírito Santo tem vontade: “E, quando chegaram a Mísia, intentavam ir para Bitínia, mas o Espírito não lho PERMITIU.”. Mais claro ainda é o texto de I Coríntios 12.11: “Mas um só e o mesmo Espírito opera todas estas coisas, repartindo particularmente a cada um COMO QUER.” Uma força impessoal obviamente não tem vontade. 

Outros textos mostram que o Espírito também tem sentimentos (emoções). Isaías 63.10 diz: “Mas eles foram rebeldes, e CONTRISTARAM o seu Espírito Santo; por isso se lhes tornou em inimigo, e ele mesmo pelejou contra eles.” (Isaías 63:10). Também o texto de Efésios 4.30: “E não ENTRISTEÇAIS o Espírito Santo de Deus, no qual estais selados para o dia da redenção.” (Efésios 4.30). Uma mera influência ou força não pode se entristecer.

Além de todos estes textos que comprovam a personalidade do Espírito, outras passagens demonstram que o Espírito realiza atos próprios de uma pessoa como falar, sondar, testificar, revelar, ordenar, interceder, entre outros. Quem realiza todos estes atos só pode ser um ser pessoal, não pode ser uma mera influência, poder ou força impessoal.

Como afirma Erickson: “Todas essas considerações levam a uma conclusão. O Espírito Santo é uma pessoa, não uma força, e tal pessoa é Deus, na mesma dimensão e da mesma forma que o Pai e o Filho”. 

Aqueles que negam que o Espírito é Deus e aqueles que negam sua personalidade, afirmando que Ele é apenas uma força, incorrem no erro gravíssimo de ofendê-lo. É necessário que tais pessoas tenham seus olhos abertos para contemplarem a maravilha da pessoa e da obra do Espírito Santo como um ser divino e pessoal. 

O erro da própria igreja cristã tem sido esquecer a pessoa do Espírito. Como afirma Franklin Ferreira e Alan Myatt: “Devemos dar ao Espírito Santo, que é plenamente divino, a mesma glória que damos ao Pai e ao Filho. Agir de outra forma é cair em algum tipo de subordinacionismo.” O Espírito Santo deve ser adorado e glorificado juntamente com o Pai e o Filho como nos diz o credo de Constantinopla: 'no Espírito Santo, Senhor e vivificador, o qual procede do Pai e do Filho; que juntamente com o Pai e o Filho é adorado e glorificado'”.

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Notas:
[1] Millard J. Erickson, Introdução a Teologia Sistemática, p.349.
[2] Franklin Ferreira & Allan Myatt, Teologia sistemática, p. 340-341.

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A obra do Espírito Santo na encarnação de Jesus Cristo

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Por Leonardo Dâmaso


Texto base: Hebreus 10.5

1. A preparação do corpo de Jesus

A criação dos céus e da terra foi um ato da divindade. Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo estiveram ativos em todo o processo. Cada um deles teve o seu papel especifico na realização deste trabalho.

Podemos salientar que Deus Pai foi quem “arquitetou” a criação – aquele que planejou todos os detalhes; Deus Filho foi quem “executou” o plano da criação – aquele que esteve presente trabalhando em todo o processo; e, finalmente, Deus Espírito Santo foi o “decorador” da criação – ou seja, poeticamente falando, aquele que “embelezou” os céus e a terra e tudo que nela há com a sua glória.

Portanto, a criação foi um trabalho da divindade, porém com diferentes tarefas realizadas por Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo.

Todavia, na preparação do corpo humano de Jesus para a encarnação, não temos somente o ato do Espírito Santo, mas da divindade. Deus Pai e o próprio Deus Filho também cooperaram neste ato. Cada pessoa da trindade teve a sua participação.

Deus Pai foi quem planejou a encarnação e providenciou todo o material do corpo humano de Jesus, como a criação de sua alma humana e todas as suas vocações. Deus filho foi quem coordenou o trabalho de sua encarnação; e Deus Espírito Santo foi quem concluiu e manifestou este ato divino, a saber, o Deus Filho “encarnado”, o Deus-homem ao mundo.

O Espírito foi o autor da concepção de Jesus no ventre de Maria (Mt 1.18). A concepção da natureza humana de Cristo no útero de Maria foi um ato miraculoso do Espírito Santo (Lc 1.35).

2. Os elementos que constituem a pessoa de Cristo

a) A sua natureza humana

Os teólogos de Westminster acentuaram a substância humana que Jesus herdou de Maria, a qual é o fundamento psico-somático de sua verdadeira natureza humana. Sendo assim, o Catecismo Maior de Westminster enfatiza os dois elementos constituintes da natureza humana de Cristo – o seu corpo e a sua alma, da seguinte maneira:

Cristo, o Filho de Deus, fez-se homem tomando para si um verdadeiro corpo e uma alma racional, sendo concebido pelo poder do Espírito Santo no ventre da Virgem Maria, da sua substância e nascido dela, mas sem pecado” (P.37).

Donald Macleod escreve cientificamente acerca da verdadeira humanidade de Cristo Jesus, porém em uma linguagem elucidativa e acessível. Ele ressalta:

“Através do cordão umbilical [que ligava Maria ao ente santo que estava nela] ele é este homem específico, o filho dessa mulher específica, o portador de toda a história genética prévia do seu povo e o recipiente de inumeráveis aspectos hereditários. Ele era o genótipo singular exatamente porque ela contribuiu ao menos com metade dos seus cromossomos (como qualquer mãe humana faria). Como o restante apareceu, permanece um mistério. A única certeza é que Maria não poderia sozinha contribuir com o cromossomo Y que determina o sexo, que é sempre proporcionado pelo pai biológico. Esse cromossomo, ao menos, deve ter sido proporcionado de maneira miraculosa; e permanece possível que todos os cromossomos normalmente derivados do pai tenham sido providenciados dessa maneira, [sendo] o ato divino que fertilizou o óvulo simultaneamente criou vinte e três cromossomos complementares àqueles derivados da mãe”.[1]

Esta substância humana que Jesus herdou de Maria possui duas partes – uma material e outra imaterial. A primeira parte é o que podemos chamar de um corpo verdadeiro, e a segunda parte seria a alma [ou espírito] racional. Portanto, estes dois elementos constituem a natureza humana de Cristo, o nosso redentor.

Todavia, a concepção de Cristo está vinculada com o fato de Maria ser virgem e não ter mantido relacionamento sexual com José até que ele nascesse (Mt 1.25). Desse modo, a unipersonalidade do Deus Filho só pôde acontecer através da concepção virginal.

Se houvesse a fecundação de um homem no ventre de Maria, certamente nasceria uma pessoa humana, e Jesus acabaria possuindo esta pessoa na encarnação. Assim, teríamos um Redentor com dupla personalidade.

Quando um ser é concebido, uma pessoa vem à existência. Entretanto, quando a pessoa de Cristo, que sempre existiu, compartilha da nossa humanidade, ele adota uma natureza humana tornando-se, assim, não um ser bi-pessoal, mas um ser unipessoal.

Não temos duas pessoas em Jesus, uma humana e outra divina, mas uma pessoa com duas naturezas – uma divina e outra humana. Na concepção de Jesus, uma nova pessoa não veio a existir, como vemos em outros nascimentos; antes, como Deus que é e que sempre existiu, ele uniu-se a uma natureza humana.

A encarnação do Verbo através de uma mulher virgem é que tornou possível o nascimento deste ser que é unipessoal, e não bi-pessoal. Se o Deus Filho possuísse um ser humano gerado de pais humanos, haveria, então, dois seres dentro de Maria – um divino e um humano.

No entanto, foi através da atuação do Espírito Santo em uma mulher virgem que produziu um Redentor sem pecado e unipessoal, possuindo uma natureza divina que procedeu da segunda pessoa da Trindade, e uma natureza humana que procedeu de sua mãe biológica, Maria.

Com isso, entendemos que “não haveria a possibilidade de haver um Redentor com duas naturezas numa só Pessoa (a do Verbo divino) sem a intervenção sobrenatural do Espírito Santo em Maria causando a unio personalis”.[3]

Por outro lado, a ideia herética de que Jesus não possuía um corpo humano sempre esteve presente na história da igreja. Desde os primeiros séculos, a teologia cristã foi bastante influenciada pelo pensamento grego de que a matéria é inerentemente má e inferior ao espírito.

De acordo com este pensamento, se Jesus tivesse um corpo humano, ele poderia estar ligado ao pecado. Logo, ao querer preservar a divindade de Cristo do pecado, as ramificações que cometeram as heresias cristológicas, como o gnosticismo, docetismo, ebionismo, apolinarismo e o arianismo, acabaram negando a sua humanidade plena e verdadeira; ou seja, que Jesus possuía tanto um corpo humano quanto uma alma humana (veja Cl 2.9; 1Jo 1.1; 4.1-3; Lc 24.39; Jo 20.27).

Portanto, os reformadores tiveram o cuidado de ensinar a cristologia correta em seus epítomes teológicos, especialmente quando refutaram alguns anabatistas com ideias docéticas [4] no século 16.

Tendo observado algumas informações sobre a natureza humana do Deus Filho e a sua encarnação, acredito ser de vital importância esboçar alguns exemplos na Escritura que ratificam a sua humanidade. Vejamos:

i. JESUS SENTIA CANSAÇO João 4.6 – Havia ali o poço de Jacó. Jesus, cansado da viagem, sentou-se à beira do poço. Isto se deu por volta do meio-dia. (NVI)

Conforme é relatado por João, após uma viagem sob o sol causticante do meio dia, Jesus, cansado, senta-se à beira de um poço de água para descansar. As viagens que Jesus fazia exigiam bastante esforço físico. Ele não poderia beneficiar-se dos confortos da sociedade moderna de sua época e viajar à cavalo ou em carruagens.

Ele não tinha dinheiro para um conforto dessa natureza, que, por sinal, só as pessoas bem sucedidas financeiramente poderiam usufruir. As viagens evangelísticas de Jesus e dos discípulos eram feitas a pé.

Embora Jesus fosse verdadeiramente Deus, todavia, ele também era verdadeiramente homem e se cansava sempre que se esforçava fisicamente em alguma atividade quotidiana. Jesus era passível de limitações referente ao vigor físico, por isso ele precisava de descanso para se recompor. Vejamos o que diz o outro texto em pauta: Marcus 4.35-38a – Naquele dia, ao anoitecer, disse ele aos seus discípulos: Vamos atravessar para o outro lado. Deixando a multidão, eles o levaram no barco, assim como estava. Outros barcos também o acompanhavam. Levantou-se um forte vendaval, e as ondas se lançavam sobre o barco, de forma que este foi se enchendo de água. Jesus estava na popa, dormindo com a cabeça sobre um travesseiro. (NVI)

Após um dia extenuado de trabalho ensinando, pregando, curando e operando milagres, Jesus, no barco mesmo, longe das multidões, aproveitou a noite, que era praticamente o único período que tinha para dormir e descansar. Por assumir na sua encarnação os atributos que pertencem à natureza humana, Jesus também precisava dormir. O cansaço não é produto do seu estado de humilhação, mas de sua limitação como homem que era.

ii. JESUS TINHA SEDE

João 4.7 – Então veio uma mulher samaritana tirar água. E Jesus lhe disse: Dá-me um pouco de água. (Almeida Século 21)

Depois de um longo período de caminhada pelas estradas poeirentas da Galiléia, debaixo do sol escaldante do meio dia, Jesus senta-se à beira de um poço para descansar da viagem. Em seguida, uma mulher aparece para tirar água do poço e, vendo a mulher, Jesus diz: Dá-me um pouco de água.

A sede é o resultado natural e direto do cansaço provocado por alguma atividade física intensa no qual o corpo se expôs. Nesse caso, Jesus sentiu sede porque havia viajado a pé com seus discípulos por longas horas em estradas poeirentas sobre um calor descomunal.

Quando o corpo é exposto a grandes esforços, ele precisa dessedentar-se. A água é a mais importante substância que o homem ingere para continuar a viver. O ser humano pode ficar um tempo maior sem comer, mas não sem beber. A sede não é simplesmente o produto do cansaço; a água é necessária para a manutenção do nosso corpo. Deus nos fez com essa característica que aponta para a nossa limitação.[4]

Mesmo no estado de glorificação, nós, seres humanos, teremos sede. A sede é algo típico que pertence a seres finitos que carecem de subsistência. Quando a terra for restaurada por Deus, as mesmas coisas estabelecidas por Ele no Éden antes da queda serão trazidas de volta, fazendo, assim, parte do nosso quotidiano. Iremos comer e beber como já fazemos aqui neste mundo.

iii. JESUS SENTIA FOME

Mateus 4.2 – E depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome. (ARA) A fome é um sintoma fisiológico pelo qual o corpo percebe que necessita de alimento para manter-se vivo. “Todos os movimentos dos nossos órgãos, sejam eles voluntários ou involuntários, gastam energia e, consequentemente, exigem alimento para que a energia gasta seja reposta. O gasto de energia tem de ser reposto somente em seres com a natureza finita”.[5] Indelevelmente, Jesus, além de sentir sede, também sentia fome porque possuía uma natureza humana que é finita. Após permanecer em jejum durante quarenta dias, mesmo não fazendo nenhum tipo de exercício físico que exigisse muito esforço de sua parte, é bem provável que Jesus houvesse perdido quase todas as suas forças.

Os próprios movimentos dos órgãos interiores (que geralmente executam movimentos involuntários, como o batimento do coração, o esforço do músculo diafragma ao encher os pulmões de ar, e outros) consumiam a energia do nosso Redentor. Some-se a isso o movimento dos membros exteriores (como braços, pernas etc.) que são voluntários; sem dúvida, a energia que se gasta todos os dias para a subsistência do corpo humano requer uma boa alimentação.[6] À semelhança de Jesus, Moisés também ficou quarenta dias e quarenta noites sem comer e sem beber água no monte Horebe (Ex 34.28). Elias também caminhou quarenta dias sem comer e sem beber água até o mesmo monte (1Rs 19.8). Contudo, entendemos que no deserto Jesus não precisou do suporte da natureza divina para resistir os quarenta dias e quarenta noites sem comer. Moisés e Elias também ficaram este período sem comer e, especialmente, sem beber água, que, segundo a medicina, são fatos raros de acontecer e que depende muito da resistência de cada um, pois geralmente o corpo humano suporta a falta de água por cerca de 5 dias. Após este período, podem ocorrer graves problemas de saúde que podem levar a pessoa ao óbito. No entanto, Jesus, Moisés e Elias certamente receberam algum auxílio divino para suportar ficar sem comer e beber durante 40 dias. Portanto, Jesus sentiu fome após um período significativo de abstinência de alimento, o que é absolutamente normal, pois ele possuía limitações como qualquer outro ser humano possui.

iiii. JESUS É LIMITADO PELO ESPAÇO

Todo ser corpóreo está limitado a um espaço e não pode fugir ou se locomover dele para outro espaço ao mesmo tempo. Se Jesus fosse somente divino, ele, então, não seria limitado pelo espaço, porque antes de o espaço vir a existir ele já existia.

Quando o verbo, que é Jesus, se encarnou assumindo a natureza humana, tivemos um Redentor não divino e humano, mas um Redentor divino-humano. A natureza humana de Jesus possui um corpo e um espírito humano com características próprias de um ser finito.

Tanto a natureza divina quanto a natureza humana de Cristo, depois de unidas pela encarnação, ocupam espaço de forma limitada como é próprio de seres finitos. Embora a natureza humana de Jesus possa ter adquirido certas propriedades que desconhecemos, todavia, ela ainda se movia no espaço.

Jesus se deslocava de um lugar para outro. É por causa disso que ele não somente aparecia como também desaparecia. Podemos chamar este fato de deslocamento espacial (veja Jo 20.26).

É absolutamente natural e próprio de seres finitos moverem-se no espaço. Os seres espirituais como anjos ou demônios, por exemplo, também se locomovem no espaço porque não possuem o atributo de onipresença, isto é, a capacidade de estar em todos os lugares ao mesmo tempo.

Deus não é limitado nem tampouco encerrado pelo espaço. Ele, como um espírito infinito, é o único que possui esta capacidade de estar em todos os lugares ao mesmo tempo com todo o seu ser.

No caso de Jesus, ele não é somente Deus, mas também é homem. Sendo assim, ele estará para sempre limitado pelo espaço conforme a sua natureza humana que está localizada no céu à direita do Pai.

O céu, apesar de ser um lugar invisível e imaterial onde seres espirituais e intangíveis habitam, é também um lugar físico porque Jesus está presente lá com a sua natureza humana, e a sua natureza divina presente em todos os lugares do espaço.

b) A sua alma racional

O corpo não perfaz a natureza humana. Por isso era imprescindível que Jesus tivesse uma natureza humana completa. Visto que era verdadeiramente humano, ele também possuía uma alma, que é a parte imaterial do homem.

A expressão alma racional revela certa apreensão apologética dos teólogos que formularam a Confissão de Fé de Westminster, a qual combate equívocos teológicos e heresias antigas ainda presentes na mente de muitos cristãos com relação à pessoa de Cristo Jesus, o redentor dos eleitos de Deus. Por isso, os teólogos de Westminster inseriram na Confissão de Fé a expressão alma racional para designá-la como parte essencial da natureza humana do Deus Filho encarnado.

A alma humana é constituída de algumas propriedades que também havia na alma de Jesus Cristo. Senão vejamos:

i. Ele possuía uma mente humana

Jesus possuía uma mente como a de qualquer outro homem. “Sua mente possuía percepção, lógica, desenvolvimento de ideias e assimilação de conceitos e informações”.[7] Conforme é dito em Lucas 2.52a sobre a infância de Jesus, ele crescia em sabedoria.

Este texto não descreve um fato pertencente à natureza divina de Jesus – a sua mente divina, mas a sua natureza humana, ou seja, faz referência a sua mente humana. A mente divina não precisa se desenvolver em sabedoria; antes, Lucas relata que a mente humana de Jesus crescia gradativamente à medida que recebia informações e observava o que estava acontecendo na vida cotidiana.

Não obstante, um fato interessante que merece ser destacado é que a mente humana de Jesus não podia conhecer o que era exclusivo da mente divina. Vejamos um exemplo disso na Escritura:

Marcos 13.32 – Mas a respeito daquele dia ou da hora ninguém sabe; nem os anjos do céu, nem o Filho, senão somente o Pai. (ARA)

Por razões que não foram reveladas na Escritura, a mente divina do Deus Filho encarnado não revelou à sua mente humana [pelo menos até aquele período do seu estado de humilhação] a data da sua segunda vinda ao mundo. A mente humana de Jesus não era onisciente como é a mente divina.

A mente humana de Jesus não era capacitada a conhecer eventos futuros como a mente divina conhecia, exceto se a mente humana recebesse algum tipo de informação da mente divina, ou algum tipo de auxílio através de uma ação do Espírito Santo nela.

Um exemplo de que a mente divina revelou a mente humana de Cristo um fato pode ser visto no caso de Natanael, um dos apóstolos. Antes que ele se aproximasse de Jesus para o conhece-lo pessoalmente, ele já sabia como era o caráter de Natanael (Jo 1.47).

A mente divina, que sabe e perscruta todas as coisas, e que integrava a personalidade de Cristo, reproduziu informações pertencentes ao caráter de Natanael à mente humana. Estas informações, por sua vez, foram comunicadas aos outros discípulos que estavam perto dele.

Outro exemplo é o evento da grande pesca realizada pelos apóstolos quando ainda eram discípulos de Jesus e exerciam a profissão de pescadores. Lucas relata que Jesus sabia que, se eles lançassem a rede numa determinada parte do lago, haveriam de colher muitos peixes. Jesus sabia o lugar exato em que se encontrava o cardume. Como pescadores experientes que eram os apóstolos não conseguiram detectar a localização dos peixes (Lc 5.1-7).

Esse conhecimento que Jesus teve é exclusivo da mente divina que foi transmitido à sua mente humana. Não é característico da mente humana esse tipo de conhecimento, porém, quando recebeu essa informação da mente divina, a mente humana de Cristo informou a localização exata do cardume nas profundezas das águas. Sem a revelação da mente divina, a mente humana jamais poderia descobrir este fato.

ii. Ele possuía emoções humanas

As emoções fazem parte da constituição da natureza humana. Não somente os homens, mas também Deus, os anjos e o próprio Jesus, como Deus homem que é sentia emoções. Senão vejamos:

1. Jesus esboçou ALEGRIA ao proferir as palavras descritas em João 15.11 e na oração sacerdotal, em João 17.13.

2. Jesus demonstrou ENCANTAMENTO pela fé que encontrou no centurião de Carfanaum, em Mateus 8.10.

3. Jesus teve COMPAIXÃO por um homem discriminado pela sociedade da época por ser leproso (Mc 1.40-41; veja outro exemplo similar em 6.34).

4. Jesus manifestou TRISTEZA ao ver Maria, sua família e os amigos chorando e lamentando pela morte de Lázaro (Jo 11.33-35).

iii. Ele possuía vontade humana

Mateus 26.39 – E, adiantando-se um pouco, prostou-se com o rosto em terra e orou: Meu Pai, se possível, afasta de mim este cálice, todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres. (Almeida Século 21)

Heber Carlos de Campos escreve:

Podemos ver perfeitamente duas vontades em questão: a divina e a humana, embora não na mesma pessoa. Lemos aqui que a divina é claramente a do Pai, enquanto que a outra vontade certamente é a vontade humana de Cristo. A vontade divina é a mesma nas três Pessoas da Trindade, porque todas elas possuem a mesma natureza divina. Todavia, somente o Filho encarnado possui a vontade humana, não as outras Pessoas da Trindade, porque a vontade humana se deve ao fato de ter ele assumido a natureza humana. Assim como as duas naturezas em Cristo pensam de modo diferente, sentem de modo diferente, também as volições são diferentes. Contudo, não há conflito na pessoa divino humana de Cristo. Sempre a vontade divina terá preeminência sobre a vontade humana, sendo esta última sempre submissa à primeira.[8]

As duas vontades em Cristo eram distintas e inseparáveis, mas elas sempre estiveram em harmonia, pois a vontade humana era invariavelmente subordinada à vontade divina.

iiii. Ele possuía senso moral

Outra característica que faz parte da natureza humana, e que difere os homens dos animais, é o senso moral. Todos os homens – quer sejam cristãos ou não, possuem o mínimo de senso moral. Contudo, Jesus é enfatizado nas Escrituras por ter um senso moral absolutamente irrepreensível em virtude de sua total santidade.

Por Cristo ter seu senso moral qualificado pela sua santidade, seria peremptoriamente impossível Ele permanecer indiferente e sem ação ao se deparar com erros morais de outrem.

“O senso moral envolve, não obstante, a capacidade de julgar o que é certo do errado, mas essa capacidade se torna cada vez maior à medida que um ser racional é santificado. Jesus Cristo era santo em sua natureza humana, e por isso tinha a capacidade plena de fazer julgamentos absolutamente corretos”.[9] 

Finalmente, ao confrontar os pecados dos homens, Jesus esboçou algumas emoções. Vejamos apenas duas delas:

1. Jesus demonstrou IRA contra aqueles que estavam fazendo do templo, que era um lugar de adoração e culto a Deus naquela época, um comércio (Jo 2.15-17).

2. Jesus ficou INDIGNADO com a ausência de compaixão e amor pelo próximo por parte dos líderes religiosos hipócritas e legalistas em uma sinagoga, num dia de sábado, onde ele estava prestes a curar um homem com a mão ressequida (Mc 3.5).

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Notas:
[1] Donald Macleod. The Person of Christ, 1988, pág 162.
[2] O docetismo não é somente a negação total da humanidade de Cristo. Qualquer pensamento que negue a plenitude da humanidade de Cristo também é docetismo.
[3] Heber Carlos de Campos. As Duas Naturezas do Redentor, pág 430.
[4] Ibid, pág 495.
[5] Ibid, pág 496.
[6] Ibid.
[7] Ibid, pág 393.
[8] Heber Carlos de Campos. As Duas Naturezas do Redentor, pág 404.
[9] Ibid, pág 405-406

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Fonte: Bereianos
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As línguas estranhas pentecostais são línguas de verdade?

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Por Yago Martins


Quando eu era pentecostal, algo sempre me deixou intrigado com o falar em línguas, quer fossem as minhas línguas estranhas ou a dos outros: se as línguas estranhas são de fato, idiomas, por qual motivo tantos homens só repetem a mesma sequência de sons vez após vez? Que tipo de idioma era este que possuía nada mais que a repetição das mesmas palavras e sons indefinidamente? Em vários estudos em nível de mestrado e doutorado, temos fato comprovado que a dita língua estranha, que deveria ser falada miraculosamente, é nada mais que uma reprodução dos fonemas da língua-mãe do falante, com as mesmas estruturas de cadência, ritmo, respiração, tom e melodia, análogas ao ato de vocalização livre de qualquer não-religioso do mesmo país, provando que não são idiomas coisa alguma, e que são um subproduto da língua do próprio falante. Esta evidência fenomenológica, se não respondida – como eu acredito que permanece –, fornece evidência para nos fazer crer que as línguas estranhas nada mais são que a livre vocalização que é possível a qualquer pessoa, religiosa ou não, e não há qualquer sobrenaturalidade nisto. Você não pode simplesmente dizer que “milagre não se entende” e deixar isso pra lá. Assista:



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Fonte: Dois Dedos de Teologia - Racionalizando #3
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Batismo no Espírito Santo: uma segunda bênção?

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Por Paulo Ribeiro


A doutrina bíblica do batismo com ou no Espírito Santo é maravilhosa e aponta para uma realidade que sintetiza a mensagem do evangelho: a de que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões (2Co 5.19). Esta doutrina, a do batismo, mostra que Deus opera em seus eleitos a ação de purificá-los do pecado, de uma só vez, aspergindo-lhes o Espírito Santo em uma aplicação individual da obra expiatória de Cristo em favor deles. O resultado pode ser descrito conforme 1Pe 1.2: fomos eleitos...em santificação do Espírito (neste contexto, um termo equivalente à justificação)...para a aspersão do sangue de Jesus Cristo.

Porém, esta doutrina sofreu algumas reinterpretações ao longo dos últimos séculos e, em tempos mais recentes, Charles Fox Parham (1873 - 1929) efetuou uma releitura desta doutrina explicando que ela, na verdade, seria uma segunda bênção, distinta da conversão e justificação do crente. O cristão primeiro se converteria (isso mesmo: o próprio cristão SE converteria, mas deixo este problema para outro artigo) e, então, estaria unido a Cristo e perdoado. Mas, ele precisaria receber uma bênção posterior - o batismo com o Espírito - para receber poder para o testemunho, dons especiais, etc.

Para deixar a doutrina ainda mais confusa, o ramo cristão que se erigiu a partir de Parham, ramo que chamamos de "pentecostalismo", associou o que entenderam como uma segunda bênção ao anacrônico dom de línguas, dizendo que a glossolália, portanto, seria evidência do batismo no Espírito. E o texto bíblico de Atos 2 serviu como o selo de que as coisas são realmente assim. Os discípulos receberam o Espírito Santo no pentecostes; os discípulos falaram em línguas "estranhas" (volto nisso em outro artigo); logo, quem é batizado no Espírito, fala em línguas.

Entretanto, seria realmente o batismo no Espírito Santo uma bênção posterior e distinta da conversão? Quais seriam as implicações de adotarmos esta ideia? Ela teria alguma implicação para a soteriologia? E para a bibliologia? Certamente teria implicações dramáticas para a práxis cristã. Mas o mais importante aqui é: seria esta interpretação correta?

O que diz a doutrina

Frases que mencionam um certo batismo com/no/do Espírito Santo ocorrem poucas vezes no Novo Testamento (Mt 3.11; Mc 1.8; Lc 3.16; Jo 1.33; At 1.5; 11.16; 1Co 12.13), embora diversas outras passagens aludam à esta mesma operação empregando termos diferentes. Algumas vezes a sentença parece indicar que o Espírito é o agente e a igreja é o meio com o qual os crentes são batizados (frases que dizem "batismo do Espírito") e outras a sentença parece mostrar que Cristo é o agente e o Espírito é o meio com o qual as pessoas são batizadas (frases que dizem "batismo com o Espírito"). Contudo, a sadia interpretação deve considerar o princípio da analogia da fé, pelo qual determinado ensino deve ser observado segundo a totalidade da revelação bíblica, e em virtude do qual uma passagem deve lançar luz hermenêutica sobre outra.

Assim, se observarmos todas as passagens que, de alguma maneira, mencionam o batismo no/com/pelo Espírito Santo, constataremos que se trata de uma mesma e única operação divina, que ocorre concomitantemente à regeneração. E três grandes razões nos levam a afirmar isso:

(I) O texto de 1Co 12.13 diz que todos os cristãos foram batizados. Considerando o fato de que na igreja de Corinto havia cristãos em pecado e de que, segundo o ensino pentecostal, uma pessoa, para receber o batismo, precisa santificar-se muito [1], somos levados a constatar que o batismo recebido pelos coríntios não foi o batismo especial e distinto da conversão preconizado pelos pentecostais. Antes, foi a obra de Deus que regenera seus eleitos, os converte e justifica.

(II) Não há, na Escritura inteira, uma só exortação para que os crentes (os que realmente foram salvos) busquem uma bênção posterior e adicional que, supostamente, os capacitaria para o testemunho. Devemos nos perguntar se uma operação paracletológica aparentemente tão importante como esta não deveria ser alvo de constantes (ou ao menos de um!) encorajamento apostólico para que os crentes a buscassem. Se o suposto "batismo pentecostal" fosse realmente algo tão importante e necessário, não deveríamos encontrar nas epístolas alguma exortação do tipo: "Vocês, que já creem, busquem com afinco receber esta outra bênção porque vocês precisam de poder para testemunhar do evangelho!"? Mas não encontramos. Na verdade, o principal texto-base sobre o qual o pentecostalismo se apoia na formulação desta doutrina (o de Atos 2) é um texto descritivo, reconhecidamente o tipo de texto a partir do qual NÃO DEVEMOS formular doutrinas.

(III) O texto de Ef 4.5, aparentemente e quase certamente se refere ao batismo do Espírito. Se isso for certo, temos então uma declaração explícita de que não existe um batismo posterior e distinto, afinal, "há um só Senhor, uma só fé e um só batismo".

Mas e quanto às diferenças nos termos? Às vezes a Bíblia fala em batismo com o Espírito e outras vezes em batismo pelo Espírito. A isso respondemos que, caso acepções rígidas de termos devam ser uma pauta interpretativa, então deveríamos considerar como substâncias distintas os termos "coração", "alma" e "entendimento" em Mateus 22.37; porém, sabemos que esses termos não indicam substâncias diferentes, antes, todos apontam para o aspecto interior do ser humano, sua mente e afeições. Segundo Charles C. Ryrie, é "mais provável que essa frase, usada de maneira pouco frequente e aparentemente técnica, em todas as ocorrências se referisse à mesma atividade [2]". Eu apenas retiraria o "provável" da afirmação de Ryrie para dizer que CERTAMENTE essa frase, em todas as suas ocorrências, se refere à mesma coisa. O literalismo na interpretação bíblica, com efeito, tem conduzido a graves distorções doutrinárias no pensamento cristão.

Portanto, vemos que o batismo no Espírito é uma bênção comum (1Co 12.13; Ef 4.5), gratuita (1Co 2.12; Ef 2.8,9) e definitiva (2Co 1.21,22; Ef 4.30). Ele posiciona o crente no corpo místico de Cristo e o capacita para o testemunho (At 1.8; 1Co 2.4), para a edificação da igreja (1Co 12.12-20; Ef 2.22) e, gradativamente, restaura no cristão a imagem de Deus para a sua glória (2Co 3.18; Ef 4.24; Cl 3.10).

Implicações da formulação pentecostal da doutrina

Além de a interpretação pentecostal acerca do batismo no Espírito ser essencialmente falha, ela traz algumas implicações perturbadoras para a doutrina cristã.

A primeira delas seria na eclesiologia. Afirmar que existem dois batismos diferentes, um deles comum a todos os crentes e outro reservado a quem o busca com todos os critérios - empíricos - da cartilha pentecostal é pontuar uma linha divisória na única operação divina que visa a união dos que creem em um só corpo. Tendo em mente a figura do Templo de Salomão, Paulo diz:

"Assim, pois, não sois mais estrangeiros, nem forasteiros, antes sois concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, sendo o próprio Cristo Jesus a principal pedra da esquina; no qual todo o edifício bem ajustado cresce para templo santo no Senhor, no qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus no Espírito" (Ef 2.19-22).

O batismo no Espírito é precisamente aquilo que nos une mutuamente como cristãos. Neste ponto, algum defensor do pentecostalismo poderia afirmar que sua doutrina não divide a igreja, pois um dos batismos coloca o crente neste corpo. Entretanto, na visão pentecostal, permanece o fato de que, neste corpo, alguns são receptáculos de uma bênção especial e posterior enquanto todos os outros, ou são carnais porque não estão buscando este batismo, ou são carnais porque o estão buscando mas não o receberam ainda por não estarem suficientemente santificados. E para piorar, os que já receberam este batismo, têm o poder para testemunhar de Cristo enquanto os outros não. Devemos ignorar que o único fundamento legítimo para o testemunho cristão é a ressurreição de nosso Senhor (1Co 15.14), e que, uma vez que quem está lendo este artigo não viu o Cristo ressurreto com os próprios olhos mas crê como se tivesse visto, não tem o poder necessário para evangelizar? Devemos estranhar o apóstolo Pedro dizendo aos seus destinatários que mesmo eles não havendo visto Cristo, eles o amavam e nele confiavam exultando com alegria indizível e cheia de glória (1Pe 1.8)? É certo que não! Mas de acordo com a perspectiva pentecostal eles ainda não receberam a "segunda bênção". Eles creem em Cristo e a ressurreição do Senhor deu novo significado às suas vidas. Mas eles ainda lhes falta algo; eles estão quase lá...!

A segunda implicação desta doutrina pentecostal se dá em uma perigosa afirmação da contemporaneidade dos dons revelatórios ou extraordinários do Espírito Santo. A doutrina pentecostal ensina que, juntamente com o batismo no Espírito, alguns dons são dados ao cristão. E também ensina que dentre esses dons bem podem estar aqueles de natureza revelatória, assim como exibidos pelos apóstolos. Eu deixarei a questão da contemporaneidade para outro artigo, mas aqui é preciso adiantar algo. Ou os dons revelatórios ainda existem e o cânon cristão não está fechado, ou nossa Bíblia está completa, a revelação especial de Deus a nós foi bem-sucedida e, assim, os dons revelatórios cessaram. As duas posições são concorrentes e não podem coexistir. Se Deus, pelo Espírito Santo, ainda fala com seu povo por novas palavras e revelações, então a Escritura não está fechada.

Certo dia, um continuísta, argumentando comigo, disse que as profecias ainda aconteciam, mas consistiam de exortações pessoais e particulares, e jamais traziam novas verdades religiosas ou doutrinais. Ele estava tentando preservar a suficiência da Escritura. Em resposta, eu disse a ele que não importava o conteúdo da profecia, mas o autor. Se é o próprio Deus quem está falando, então as palavras que estamos a ouvir são palavras de Deus. E se são palavras de Deus, então devemos acrescentá-las às nossas Bíblias, e segue-se que nossas Bíblias não estão prontas ainda.

Contudo, a Escritura parece mostrar o contrário. Entre inúmeros textos e uma teologia bem amarrada, eu destaco a passagem de 2Pe 1.3,4:

"Visto como o seu divino poder nos tem dado tudo o que diz respeito à vida e à piedade, pelo pleno conhecimento daquele que nos chamou por sua própria glória e virtude; pelas quais ele nos tem dado as suas preciosas e grandíssimas promessas, para que por elas vos torneis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que pela concupiscência há no mundo."

Portanto, uma vez que o testemunho de Jesus Cristo é dado pela Escritura (Jo 5.39), é justo dizer que ela é suficiente para a nossa vida e, por consequência, cessaram aqueles dons revelatórios amplamente necessários no primeiro século, quando o cânon cristão não estava ainda fechado.

Finalmente, uma terceira implicação da doutrina pentecostal dos dois batismos, e talvez a mais grave delas, é de natureza soteriológica. No exato momento em que preconizarmos a necessidade de uma segunda bênção, estamos afirmando a insuficiência da obra de nosso Senhor. Observe isto: a obra de Cristo foi determinada na eternidade (Ap 13.8). Na eternidade, Deus se agradou em glorificar seu nome decretando a salvação de alguns por causa dos seus pecados. Deus quis salvar pecadores de sua própria ira escatológica e foi isso que, soberanamente, ele fez, e o fez por meio de Cristo. Isso faz com que o sacrifício de Cristo e sua glória resultante seja nada menos que o CENTRO DA MENTE E DOS PROPÓSITOS ETERNOS DE DEUS! Pela obra expiatória de Cristo um eleito seria salvo. Ele seria salvo! Isso não é pouca coisa! A magnitude da obra de Cristo e a grandeza incontornável da consequência dessa obra para o pecador que foi salvo deveria nos fazer rejeitar qualquer ensino que pregue a necessidade de algo a mais para cristão. Um pecador que foi salvo e, assim, batizado no Espírito Santo, já recebeu tudo! Não há mais nada para ele pelo simples fato de que não há nada maior a ser recebido do que o perdão de Deus e sua amizade. Justamente por isso o apóstolo Paulo foi capaz de dizer aos efésios: "Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nas regiões celestes em Cristo" (Ef 1.3). Deus não apenas nos abençoou em Cristo, mas [já] abençoou com TODAS as bênçãos espirituais naquele que nos comprou para sermos seus.

Isso significa que não há uma "segunda bênção" a ser desejada pelo cristão. Que outra bênção ele poderia querer além da amizade com Deus? Dizer que fomos regenerados, mas precisamos de algo a mais é escarnecer da obra de Cristo, que foi toda suficiente. Nele recebemos todas as bênçãos espirituais. Não há outra a ser almejada.

Assim, podemos concluir que a doutrina pentecostal do batismo no Espírito como uma segunda bênção deve ser enfaticamente rejeitada. É certo que o pentecostalismo não fere nenhuma doutrina cardeal do cristianismo. É certo que há muitos pentecostais (entre os quais alguns são amigos meus) piedosos e verdadeiramente servos de Cristo. É também certo que o pentecostalismo está, gradativamente, gerando expoentes inteligentes, canais para a promoção de uma perspectiva mais saudável e cristocêntrica de sua fé [3]. Mesmo assim, a doutrina pentecostal dos dois batismos é deveras débil e, visto que trás implicações ruins para a teologia cristã, deve ser rechaçada.

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Notas
1. Bíblia de Estudo Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p. 1627
2. RYRIE, Charles C. Teologia Básica. São Paulo: Mundo Cristão, 2004. p. 422
3. Um destes expoentes, que alegremente menciono, é o Gutierres Fernandes Siqueira, do site Teologia Pentecostal.

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Fonte: Teologia Expressa
Divulgação: Bereianos
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