Escatologia das Testemunhas de Jeová - Uma Ilustração do Autoritarismo das Seitas

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O objetivo deste artigo é apresentar a escatologia das Testemunhas de Jeová a fim de ilustrar o papel central que a doutrina dos últimos dias tem para as seitas como forma de justificar a liderança autoritária da Torre de Vigia. As seitas costumam ter uma escatologia própria como uma tentativa de explicar a descontinuidade histórica que há entre elas e o Cristianismo primitivo. Para isso, as igrejas pseudocristãs colocam a si mesmas como um grupo religioso, cujo surgimento e história foram profetizados nas Escrituras. 

Os adventistas, por exemplo, afirmam que a Bíblia profetizou o surgimento de um movimento que anunciaria uma data errada para a Volta de Jesus gerando um grande desapontamento, pregaria a guarda do sábado, anunciaria o Juízo investigativo, teria uma profetisa e que surgiria no final do século XIX e assim identificam a si mesmos como a única igreja verdadeira, a “igreja da profecia”. Veremos que o mesmo se dá em relação aos russelitas, além de evidenciar outras funções que a escatologia cumpre dentro da seita, especialmente em relação à justificação do autoritarismo do Corpo Governante.

1914 – O INÍCIO DOS ÚLTIMOS DIAS

Para as Testemunhas de Jeová os últimos dias começaram em outubro de 1914. Nesse ano, algumas coisas aconteceram [1]:

  1. Jesus foi empossado Rei no Céu: Jesus começou a reinar no céu como Rei do Reino de Jeová.
  2. Satanás foi expulso do Céu: Quando começou a reinar, Jesus expulsou Satanás do céu para a terra.
  3. Os sinais da vinda de Cristo começam a se manifestar na Terra: A vinda de Jesus é sua presença invisível como rei celestial, como Satanás e os demônios foram lançados a Terra, as coisas no mundo começaram a ficar ruins, fazendo surgir guerras, fomes, terremotos e doenças.
  4. Iniciou-se a ressurreição espiritual dos ungidos: Jesus passou a ressuscitar (na verdade “recriar em espírito”), os salvos que vão morar no céu (cujo número exato é de 144.000 pessoas). Assim, os fiéis apóstolos foram recriados invisivelmente em espírito e levados para o céu, e a partir de então, todo cristão ungido, ao morrer, é recriado em espírito e levado para o Céu, passando a governar com Jesus, como poderosa criatura espiritual.

A PURIFICAÇÃO DOS CRISTÃOS UNGIDOS

De acordo com a organização, a partir do ano 100 d.C., começou o cativeiro babilônico, um longo período em que o povo de Deus estaria em inatividade espiritual [2]. Depois que se tornou Rei em 1914, Jesus veio a Terra para fazer uma inspeção, a fim de começar a separar o trigo do joio, visto que os poucos cristãos verdadeiros estavam ocultos desde 100 d.C., quando Satanás teria começado a semear os “cristãos nominais”.[3]  

Mas antes que Jesus viesse para fazer a inspeção, Jeová levantou o mensageiro que prepararia o caminho do Senhor: Charles Taze Russel e seus associados, estudantes da Bíblia que começaram a obra de restauração da verdade na Terra, os fundadores da religião das Testemunhas de Jeová. Assim, quando Jesus veio invisivelmente fazer sua inspeção, ele encontrou um grupo de estudantes da Bíblia que já pregavam a verdade há 30 anos.[4]

No entanto, esse grupo ainda era cheio de imperfeições e precisava ser purificado, assim de Dezembro de 1914 a Junho de 1918, cumpriram-se os três tempos e meios ou 1260 dias, durante os quais os cristãos passariam por um processo de purificação por meio de perseguições sofridas pelos salvos que vão morar no céu.[5] Terminada a purificação, em 1919, Jesus designou esses salvos para serem “o escravo fiel e discreto”, o qual deveria ser “o canal de comunicação” entre Jesus e os cristãos. Este grupo é formado pelos cristãos ungidos que fazem parte dos 144.000, seu dever é fornecer “alimento espiritual”, por meio das revistas a Sentinela e Despertai. Hoje, o “escravo fiel” é a liderança da religião – O Corpo Governante das Testemunhas de Jeová com sede em Brooklin, NY.[6]

Além dos salvos que vão morar no céu, existem os Testemunhas de Jeová comuns. Eles não têm um número definido, além disso, não têm os mesmos privilégios dos 144.000. Diferente dos que compõem o Corpo Governante, os Testemunhas de Jeová comuns, não são regenerados, nem adotados como filhos de Deus, não reinarão com Cristo e não podem participar da Santa Ceia. Jesus fez uma Nova Aliança apenas com os cristãos ungidos e por isso, Cristo é mediador somente entre Jeová e os 144.000. No entanto, os Testemunhas de Jeová comuns, por ajudarem os cristãos ungidos na obra da pregação, vão viver para sempre na Terra sob o governo dos 144.000.

O grupo dos “comuns” emergiu e se multiplicou ao sair vitorioso ao fim da Segunda Guerra Mundial, ocorrida no período profético das 2300 tardes e manhãs, que vai de 1 ou 15 de junho de 1938 a 8 ou 22 de outubro de 1944.[7] Enquanto os salvos que vão morar no céu são chamados “o escravo fiel e discreto”, os Testemunhas de Jeová comuns formam o grupo dos “domésticos”. Hoje existem cerca de 8 milhões de domésticos no mundo.[8] Um doméstico deve ser fiel aos ensinos do escravo fiel, mesmo quando eles são contrários à Bíblia [9]. Eles poderão viver para sempre no paraíso na Terra por terem auxiliado os 144.000 e por isso, são representados, por Jesus, como ovelhas à direita que deram de comer, beber e vestir aos “pequeninos de Jesus” (os cristãos ungidos).[10]

O ARMAGEDOM

De acordo com a seita, a última geração que não passará sem que aconteça o Armagedom, é formada por dois grupos: (i) os cristãos que foram ungidos em 1914, ou antes disso e (ii) os cristãos ungidos que foram contemporâneos aos do primeiro grupo. Alguns desse segundo grupo estarão vivos na Grande Tribulação. Esses cristãos já estão envelhecendo [11]  assim, o Armagedom deve acontecer por volta de 2034 [12].

Antes que comece a Grande Tribulação, haverá um tempo de “paz e segurança” pronunciado pelas nações e pelas religiões falsas. Em seguida, a Organização das Nações Unidas atacará as organizações religiosas do mundo, destruindo a cristandade e demais religiões falsas. A única religião que sobreviverá aos ataques da ONU será as Testemunhas de Jeová. Em seguida, provavelmente ocorrerão manifestações sobrenaturais no céu, então quando os perversos estiverem a ponto de iniciar um ataque contra as Testemunhas de Jeová, os cristãos ungidos que ainda estiverem na Terra serão arrebatados para o Céu. Em seguida, Jesus virá junto com os 144.000 e com seus anjos e aniquilará os maus da existência. Os que rejeitaram a Jeová no passado foram aniquilados assim que morreram (a morte natural é aniquilação da existência, segundo a escatologia das Testemunhas de Jeová), já os ímpios vivos no Armagedom serão eliminados da existência por Jesus. Ninguém sofrerá num inferno, mas somente as Testemunhas de Jeová sobreviverão ao extermínio. A sobrevivência ao extermínio que ocorrerá no Armagedom dependerá da obediência à Organização Torre de Vigia. [13]

O PARAÍSO RESTAURADO
     
As Testemunhas de Jeová sobreviventes ao Armagedom darão início à restauração da Terra. Elas terão a tarefa de transformar gradualmente toda a Terra em um paraíso. [14] Jesus e os 144.000 governarão, a partir do Céu, os súditos domésticos na Terra. O governo de Jeová promoverá diversos programas sociais para os habitantes da Terra, incluindo programas de saúde, moradia, alimento, educação e emprego. [15]

Ainda será possível perder a salvação durante os primeiros mil anos no paraíso. Quem for infiel a Jeová no paraíso será eliminado da existência. Jeová ressuscitará pessoas que nunca tiveram a oportunidade de ouvir o evangelho e elas terão de cumprir as exigências que Jeová der a elas. Os que não estiverem dispostos a se ajustar às exigências de Jeová serão exterminados. Depois de 1.000 anos de paraíso, as pessoas ainda terão que passar por um teste final – uma tentação do Diabo. Somente aqueles que resistirem aos enganos de Satanás poderão continuar vivendo para sempre no paraíso na Terra, os demais serão eliminados da existência para sempre. [15]

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A escatologia das Testemunhas de Jeová ilustra bem as características de uma seita. Entre elas podemos citar:

  1. Autoritarismo: As Testemunhas de Jeová comuns estão debaixo da autoridade de um Corpo Governante privilegiado, ao qual são obrigadas a auxiliar caso queiram sobreviver ao extermínio do Armagedom.
  2. Exclusivismo: Somente sendo fiel à Organização Torre de Vigia será possível ser salvo. Elas são a única religião verdadeira. Jeová usará a Organização das Nações Unidas para eliminar todas as religiões, menos a Torre de Vigia.
  3. Legalismo: A condição para sobreviver ao Armagedom e até mesmo para não ser exterminado no paraíso, é ser obediente aos requisitos e exigências de Jeová. As Testemunhas de Jeová devem ser fiéis aos mandamentos da liderança, pois ela é o canal de comunicação que Jesus designou. [17]

A escatologia das seitas também é o meio que elas usam para explicar como um grupo que surgiu no século XIX pode ser a única religião verdadeira, mesmo estando em total descontinuidade com o Cristianismo primitivo. As Testemunhas de Jeová ensinam que o povo de Deus permaneceu oculto por 1819 anos (de 100 d.C. a 1919 d.C.) até que Jeová ressuscitasse do “vale de ossos secos”, a única religião verdadeira, colocando o “trigo” em evidência ao separá-lo do “joio” (Cristandade). Ainda, a Sociedade Torre de Vigia mantém a fidelidade de seus “domésticos” à organização, por meio do medo de que Jeová as extermine no Armagedom se não obedecerem ao escravo fiel e discreto:


“Elas acreditam que Jesus pagou pelo pecado de Adão, no jardim, mas cabe a elas trabalhar para a “perfeição”, seguindo as regras da organização Torre de Vigia. Embora as Testemunhas de Jeová sorriam quando apresentam a sua mensagem porta-a-porta, elas não têm a verdadeira paz e alegria no fundo de seus corações. Elas não têm certeza da salvação, porque a sua religião ensina que devem cumprir todos os regulamentos da organização Torre de Vigia, a fim ser achadas dignas o suficiente para sobreviver ao Armagedom (futura batalha de Deus para acabar com o governo dos ímpios). Em seu esforço para ter a aprovação de Deus, a organização domina-os através do medo e da culpa, concentrando-se na sua incapacidade de cumprir o que lhes é exigido. Isso deixa as Testemunhas de Jeová espiritualmente vazias, lutando arduamente pela aprovação de Deus, sem nenhuma garantia de onde elas vão acabar após a morte. É verdade que enquanto elas parecem felizes por fora, por dentro estão morrendo, ansiando a paz e alegria que só Cristo pode fornecer.” [18]

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Fontes:
[1] Testemunhas de Jeová (2016). Você pode entender a Bíblia. Associação Torre de Vigia de Bíblias e Tratados Cesário Lange, São Paulo, Brasil, pp. 219, 91, 94-97, 80.
[2] A Sentinela (Edição de Estudos) de Março de 2016. Perguntas dos Leitores. Disponível em: https://www.jw.org/pt/publicacoes/revistas/a-sentinela-estudo-marco-2016/perguntas-dos-leitores/#?insight[search_id]=3724a4f7-46c1-457f-bd27-fd2d30407db9&insight[search_result_index]=1
[3] Testemunhas de Jeová (2014). O Reino de Deus já Governa. Associação Torre de Vigia de Bíblias e Tratados Cesário Lange, São Paulo, Brasil, pp. 10, 100.
[4] A Sentinela (Edição de Estudos) de Julho de 2013: “Eis que estou convosco todos os dias”. Disponível em: https://www.jw.org/pt/publicacoes/revistas/w20130715/jesus-parabola-trigo-e-joio/#?insight[search_id]=f7fb3014-b94f-475e-aad4-7655113de756&insight[search_result_index]=1
[5] Testemunhas de Jeová (2004). Preste Atenção à PROFECIA DE DANIEL! – Edição de tipo grande. . Associação Torre de Vigia de Bíblias e Tratados Cesário Lange, São Paulo, Brasil, pp. 183 -187, 389.
[6] A Sentinela (Edição de Estudo) de Julho de 2013: “Quem é realmente o Escravo Fiel e Discreto?”. Disponível em: https://www.jw.org/pt/publicacoes/revistas/w20130715/quem-e-o-escravo-fiel-e-discreto/#?insight[search_id]=150b039c-2df8-4126-927d-112aa0570807&insight[search_result_index]=0
[7] Testemunhas de Jeová (2004). Preste Atenção à PROFECIA DE DANIEL! – Edição de tipo grande. . Associação Torre de Vigia de Bíblias e Tratados Cesário Lange, São Paulo, Brasil, pp. 227 -231, 389.
[8] Quantas Testemunhas de Jeová existem no mundo? Disponível em: https://www.jw.org/pt/testemunhas-de-jeova/perguntas-frequentes/quantos-membros-tj/#?insight[search_id]=e520e77a-3eca-49ad-b0cc-ea4f9f25dad8&insight[search_result_index]=7
[9] http://www.4jehovah.org/pt-pt/como-testemunhar-eficazmente-as-testemunhas-de-jeova/
[10] Testemunhas de Jeová (2006). O Maior Homem que Já Viveu. Associação Torre de Vigia de Bíblias e Tratados Cesário Lange, São Paulo, Brasil, seção 111.
[11] A Sentinela (Edição Fácil de Ler) de Janeiro de 2014. Disponível em: 
https://www.jw.org/pt/publicacoes/revistas/ws20140115/venha-o-teu-reino/#?insight[search_id]=70294262-00b2-4115-80cc-ed7c4d0e09f8&insight[search_result_index]=3
[12] http://www.quotes-watchtower.co.uk/2034.html
[13] Testemunhas de Jeová (2014). O Reino de Deus já Governa. Associação Torre de Vigia de Bíblias e Tratados Cesário Lange, São Paulo, Brasil, pp. 222 – 230.
[14] Testemunhas de Jeová (1985). A Vida – Qual a sua origem? A Evolução ou a Criação. Associação Torre de Vigia de Bíblias e Tratados Cesário Lange, São Paulo, Brasil, pp. 235 – 238.
[15] Testemunhas de Jeová (2014). O Reino de Deus já Governa. Associação Torre de Vigia de Bíblias e Tratados Cesário Lange, São Paulo, Brasil, p. 27.
[16] O que a Bíblia Realmente Ensina. Apêndice: Dia do Julgamento: O que é? – Disponível em: https://www.jw.org/pt/publicacoes/livros/biblia-ensina/o-que-e-dia-do-julgamento-reinado-de-mil-anos/
[17] Ferreira, F. & Myatt (2007). Teologia Sistemática - VIDA NOVA, p. 917.
[18] http://www.4jehovah.org/pt-pt/como-testemunhar-eficazmente-as-testemunhas-de-jeova/

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Autor: Bruno dos Santos Queiroz
Divulgação: Bereianos

Leia também: 
Refutando as Seitas - Parte 1 (Testemunhas de Jeová)
Refutando as Seitas - Parte 2 (Adventismo do Sétimo Dia)
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Crentes em um mundo de descrentes – Parte 2

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A besta que surge da terra - Apocalipse 13.11-18

Nos versículos anteriores, vimos João descrevendo a Besta que surge do mar, referindo-se a uma Besta que surge do meio da humanidade. Observamos, que essa Besta que surge do mar se mostra como a perversão completa da humanidade, como se fosse o braço de Satanás. Vimos também que, a primeira Besta parece se referir ao quarto animal que Daniel vê (Dn 7.7), o qual é descrito como uma fusão de um leão, um urso e um leopardo (Ap 13.2). 

Com toda essa autoridade que a primeira Besta recebe, ela faz com que o povo a adore, mostrando ser incomparável a qualquer coisa (13.4), pronta para desmoralizar a Deus com suas blasfêmias e perseguição contra o povo de Deus (13.6,7), tendo autoridade sobre cada tribo, povo, língua e nação (13.7), confirmando a perdição da humanidade, pois não adorarão a Deus, mas, sim, a Besta (13.8). 

Se, a primeira Besta parece ser a imagem de Satanás, mostrando-se digna de adoração plagiando a Deus, a segunda Besta se coloca como aquele que leva a humanidade a adorar a primeira Besta, como sendo uma falsificação de Cristo. Encorajando a humanidade a buscar a salvação em sistemas humanos, ao invés de buscarem na graça de Deus, em Cristo. Por fim, a segunda Besta vai se levantar de forma inofensiva, mas, ao abrir a boca se revelará e levará muitos para o abismo. A visão que João tem da segunda Besta, a qual é descrita mais à frente como o falso profeta (16.13; 19.20), revela três elementos fundamentais: a sua pessoa (13.11); o seu poder (13.12-14); e o seu programa (13.15-18). 

A sua pessoa – 13.11

Vi ainda outra besta emergir da terra; possuía dois chifres...”

Se, para entender o início do capítulo 13, precisamos olhar para Daniel 7, de igual modo, para compreendermos essa última parte, precisamos olhar para Daniel 8. Essa Besta com dois chifres mostra seu poder, mas não igual ao da primeira Besta, que tinha dez chifres.

Ela, a segunda Besta, mostra seu governo maligno, como uma paródia das duas testemunhas, que são os dois candelabros – a igreja. Ou seja, enquanto a igreja proclama que só há salvação em Cristo, a segunda Besta proclamará que a salvação estará na primeira Besta, a qual deve ser digna de adoração.

Ao invés de surgir do mar, essa besta surge da terra como se fosse uma oposição ao céu, ao trono de Deus. Sua mensagem é eivada de mundanismo, a qual massageia o ego do homem, levando-os a adorarem o sistema humano.

“...parecendo dragão, mas falava como dragão.” 

Ou seja, é um lobo com pele de cordeiro. Parece ser inofensivo, mas é pura destruição. Os falsos profetas possuem esse estilo. Falam de maneira sorrateira, de forma bonita e agradável. No entanto, sua mensagem se mostra contraria à Palavra de Deus, pois, quem o está usando é Satanás.

E aqueles que derem crédito às suas mentiras, entrarão em terrível julgamento com Deus (Ap 14.9-11). 

O seu poder – 13.12-14

Exerce toda a autoridade da primeira besta na sua presença. Faz com que a terra e os seus habitantes adorem a primeira besta, cuja ferida mortal foi curada” (v.12).

A segunda besta não é uma contradição da primeira, mas, um complemento. Ela faz uma propaganda da primeira besta, lembrando que a ferida mortal da primeira Besta foi curada. Porém, a segunda Besta não quer plagiar a Cristo ou ao Espírito Santo, somente. Pois, percebam, ela quer agir igual a Cristo, sendo a mediadora entre a humanidade e a primeira Besta; e quer agir como o Espirito Santo, convencendo o mundo de que a primeira Besta deve ser adorada.

Também opera grandes sinais, de maneira que até fogo do céu faz descer à terra, diante dos homens. Seduz os que habitam sobre a terra por causa dos sinais que lhe foi dado executar diante da besta, dizendo aos que habitam sobre a terra que façam uma imagem à besta, àquela que, ferida à espada, sobreviveu” (vv. 13-14)

As ações da Besta parecem ser ecos irônicos, primeiro de Moisés com grandes sinais (como a igreja também é descrita em Ap 11), e, depois, com Elias, ao dizer que fazia descer fogo do céu como uma demonstração profética, mas aqui será um falso profeta. 

Infelizmente, o povo é levado a acreditar em todo e qualquer tipo de sinais e maravilhas. E, esses sinais, serão o meio pelo qual a segunda Besta seduzirá o povo e os desafiará para que façam uma imagem em honra para a Besta, pois tinha sido ferida e foi curada. 

No entanto, precisamos entender uma coisa. Os milagres que a Bíblia relata que os apóstolos fizeram, bem como Moisés/Josué e Elias/Eliseu, foram para confirmar o que estava sendo transmitido. Quando Moisés/Josué fizeram milagres extraordinários, foi para confirmar a validade daquilo que eles estavam trazendo ao povo: a Lei. Da mesma forma, Elias/Eliseu, os quais representam a classe dos profetas. E assim, Cristo e os apóstolos. Eles estavam trazendo as boas novas de salvação da Nova Aliança. 

Contudo, alguém dirá: “mas a besta fará milagres para validar a sua mensagem também, e agora?”. Nós cremos que Deus faz milagres, pois, Ele controla todas as coisas. No entanto, se cremos na Escritura, saberemos que não haverá nenhuma nova revelação e muito menos alguém que tome o lugar de Cristo.

“...e lhe foi dado comunicar fôlego à imagem da Besta, para que não só a imagem falasse, como ainda fizesse morrer quantos não adorassem a imagem da besta.” (v.15)

Mas, a segunda besta é audaciosa. Quando olhamos para algumas advertências do Antigo Testamento, vemos Deus mostrando que os ídolos nada são, pois, têm boca, mas não falam. Têm pés, mas não andam e som algum saí de sua garganta (cf. Sl 115.1-8). No entanto, a imagem dessa besta terá fôlego para que possa se comunicar. Deus permitirá que isso aconteça para mostrar como estará a humanidade antes da volta do Seu Filho, pois, o próprio Salmo 115.8, nos diz que todos quantos adoram uma imagem tornam-se semelhantes a ela.

Seu programa – 13.16-18

A todos, os pequenos e os grandes, os ricos e os pobres, os livres e os escravos, faz que lhe seja dada certa marca sobre a mão direita ou sobre a fronte, para que ninguém possa comprar ou vender, senão aquele que tem a marca, o nome da besta ou o número do seu nome. Aqui está a sabedoria. Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, pois é número de homem. Ora, esse número é seiscentos e sessenta e seis.”  (vv.16-18)

De modo que, a humanidade está, e estará, ainda mais cega nesses últimos dias, a imagem da besta que terá fôlego para que possa se comunicar com o povo, também matará aqueles que não a adorarem. No entanto, todos que lhe prestarem culto receberão a marca da besta. 

Diversas interpretações foram dadas ao que seria essa marca. Alguns cristãos, fazendo a somatória dos valores numéricos das letras, entendiam que o número 666 simbolizava Nero, Napoleão, Hitler, entre outros. Há algumas décadas, afirmava-se que essa marca seria o código de barra, pois, havia um valor numérico escondido e sem aquele código ninguém compraria nada. Outros, anos depois, entendiam que a marca da besta era o cartão de crédito, pois, com a mão você manuseava o cartão e na mente você gravava a senha. E, por fim, hoje em dia é dito que a marca da besta é um microchip, implantado na mão, o qual irá conter todos os nossos dados, e com esse chip implantado poderemos ou não, comprar ou vender algo. 

No entanto, essas interpretações não possuem fundamentação bíblica. Como mostra-nos o capítulo, a Besta quer falsificar, plagiar a Deus. Ou seja, ela copia a Deus, mas o copia de forma distorcida. E a Marca não é diferente. Na Lei, lemos que Deus a atará, a qual servirá como um sinal, nas mãos e entre os olhos. Ou seja, tudo aquilo que eu faço e tudo aquilo que eu penso, deve refletir a Lei de Deus. Assim sendo, a marca de Cristo é viver de conformidade com a Lei de Deus. Não obstante, a marca da besta é contrária a marca de Deus. Se a marca de Deus é viver em santidade, a marca da besta é viver em impiedade. Por isso que é o número 666. Enquanto Deus faz tudo perfeito, e essa perfeição é descrita pelo número 7, o número da besta é 6 porque é imperfeito, logo, é número de homem e não do Deus perfeito. 

Portanto, o número da Besta não se refere ao anticristo em si, mas creio que, na verdade, se refira ao seu programa (de como ele conduzirá as coisas). Ou seja, como diz o texto - não poderemos comprar ou vender sem a marca -, o povo de Deus será excluído do convívio da sociedade. 

Conclusão

Antes da volta de Cristo, a igreja não somente passará por uma perseguição física, como também por uma perseguição ideológica, sendo tentada, por todos os lados, a negar a Cristo.

Aplicação

Não devemos temer qualquer tecnologia que surja, conjecturando ser a marca da besta. A marca da besta é oposta a marca de Deus. Se nós temos o selo do Espirito, garantindo que pertencemos a Deus, estaremos para sempre com Cristo. A marca da besta garante que tal pessoa pertence ao Diabo. A marca de Deus é demonstrada por nossa vida de total confiança em Cristo e na sua obra. Aqueles que possuem a marca da besta confiarão no Diabo e em suas obras.

Quem nossas obras têm refletido? Em quem mais colocamos a nossa confiança? 

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Autor: Denis Monteiro
Revisão: Malvina Oliveira
Fonte: Bereianos

Leia também: Crentes em um mundo de descrentes – Parte 1
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Crentes em um mundo de descrentes – Parte 1

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A Besta que surge do mar - Apocalipse 13.1-10

Como ser crente em um mundo de descrentes? Como viver piedosamente enquanto tudo em nossa volta tenta fazer com que neguemos o nome de Cristo? Viver em santidade neste mundo é um grande desafio para o salvo. Alguns, por não entenderem quem é Deus, amenizam o tema “santidade” diminuindo a nossa exigência, enquanto outros, abrandam o caráter de Deus, colocando-O como um ser amoroso no sentido de que, Ele ignora nossos erros, ou seja, faz vista grossa.

Porém, não é essa a visão bíblica, tampouco a do livro de Apocalipse. Apocalipse exige que sejamos santos em meio às perseguições, para que testemunhemos de Cristo até que Ele volte. No entanto, o Dragão, a Serpente enganadora, Satanás, continuará a perseguir, tentando inutilizar e difamar a igreja. E, como mostra este capítulo, ele conseguirá vencer a igreja, mas será tarde. Pois, a Igreja terá cumprido com seu oficio, e quando ele conseguir vencê-la,  é porque sua derrota final está próxima.

Contexto

É isso que João quer mostrar neste capítulo. No capítulo 12, ele nos diz que o Dragão tenta perseguir a Cristo, mas perde e é expulso do céu. Na terra, ele tenta perseguir a Igreja, mas, não consegue, pois, Deus provê sempre um escape para seu povo. 

Agora, no capítulo 13, o texto mostra que não será o Dragão quem perseguirá a igreja diretamente, mas haverá um agente que fará o serviço. 

Vimos também que, para interpretar o livro de Apocalipse, precisamos olhar para o Antigo Testamento. Por exemplo, o capítulo 12 mostra sua similaridade com Gênesis 3, com a Serpente que persegue o Filho da mulher, sendo vencida e, persegue também os descendentes da mulher sem nenhum sucesso. Já o capítulo 13, indica-nos uma repetição de Daniel 7.1-8, onde lemos sobre três animais poderosos, cada um com sua descrição, e mostra-nos também um quarto animal, o qual Daniel não identifica, mas, era espantoso, com dez chifres e de sua boca saiam insolências (a mesma referência de Apocalipse 13).  Portanto, podemos entender esses dez versículos de Apocalipse 13 da seguinte forma: A descrição da Besta (13.1-4); A atuação da Besta (13.5-8) e A advertência para a Igreja (13.9,10). 

A descrição da Besta – 13.1-4

Se, no capítulo 12 o Dragão persegue a Igreja e não tem êxito, no capítulo 13, o Dragão comissiona alguém para que persiga a igreja. Esse ser que está para perseguir a Igreja é descrito como igual ao Dragão do capítulo 12. Ambos possuem “dez chifres” (que simbolizam poder), e “sete diademas” (12.3; 13.2). A besta é tão impressionante quanto o Dragão. Se prestarmos cuidadosa atenção, João retrata a Besta como se fosse a imagem do Dragão, um tipo de "plágio" de Deus, no tocante a criação do homem à sua imagem. Enquanto o homem foi criado para refletir o caráter de Deus, a Besta, de igual modo, foi levantada para que refletisse a corrupção do Dragão. 

A imitação que a Besta quer fazer de Cristo não para por aí. Ela é descrita como tendo dez coroas sobre os chifres, Cristo é descrito como tendo muitas coroas (19.12). A Besta tem “nomes de blasfêmias”, Cristo tem nomes dignos (19.12,13,16). A Besta experimenta uma falsa ressurreição. O texto mostra que, em uma de suas cabeças (v.3), ela tinha uma ferida de morte que, no entanto, foi curada. Diferente de Cristo, que, provou a morte e ressuscitou dentre os mortos. E, assim como Cristo é adorado (5.8-10), a Beste é adorada (v.4), copiando até o cântico proferido por Moisés após passarem o Mar Vermelho, fugindo das garras de Faraó (Ap 13.4; cf. Êx 15.11).

João, mostra-nos aqui, que os quatros animais que Daniel vê resumem-se em apenas um. No livro de Daniel, esses três animais são compreendidos como representando os três reinos. O Leão com asas pode ser a Babilônia, pois as imagens antigas das cidades mostram um Leão com asas.  O Urso pode ser entendido como o império Medo-Persa e o Leopardo como o império Grego. E o quarto animal, a que império se refere?

Creio, que o animal que João vê, seja o quarto animal que Daniel viu. Ambos surgem do mar, têm dez chifres e sete diademas (coroas). Contudo, aqui não há a possibilidade de interpretar literalmente.

Alguns entendem que, se os outros animais representam os reinos antes de Cristo, esse animal que João vê representa o reino atual da época em que João escreve, o Romano. E, desse modo, entendiam que “mar” fizesse uma referência às navegações Romanas. Entretanto, não entendo que seja só o império Romano, mas, todos os Governos que vieram e virão, que negam a Cristo e limitam a atuação da Igreja. E aqui podemos entender o “mar” como uma referência às pessoas. Basta olharmos para a época de Daniel. Eles foram forçados a adorarem a imagem do imperador, por se recusarem veementemente foram lançados na fornalha, e Daniel foi preso porque estava orando. Percebam, a oposição surge do meio do povo tanto como um sistema, como descrito aqui, quanto como um falso profeta, descrito em Ap 13.11-18.

Assim será antes da volta de Cristo. Satanás fará oposição à igreja como fez a Daniel, proibindo que Deus seja adorado, mas, que a Besta seja adorada no lugar de Deus e aqueles que não a adorarem serão mortos. 

Porém, alguém poderá dizer: “Eu nunca me prostrarei diante de outra pessoa ou alguma imagem, substituindo a Jesus”. Ocorre que, existe outro meio pelo qual Satanás poderá atuar e, está atuando, para que substituamos a glória de Deus. Nós somos tentados a olhar para o Estado como um Estado messiânico, um Estado libertador dos males da sociedade. Temos a tendência de colocarmos a nossa confiança em políticos e ideologias que resolverão o problema da economia, da saúde e até mesmo espirituais. Uns, lutam para que o Estado governe tudo e tome até decisões mínimas para o povo, como por exemplo, usar uma lâmpada. Enquanto outros, lutam tanto por uma democracia, que, para tudo o que fazem necessitam, de igual modo, consultá-la para certificar-se se é correto ou não.

Portanto, essa imagem de idolatria é muito sutil, e Satanás intenta falsificar a Deus. Uma das formas pelas quais Satanás quer falsificar a Deus, é por meio de sua atuação. 

A atuação da Besta - 13.5-8

Pela quarta vez, João repete que a Besta recebeu algo, e ela o recebe por meio do Dragão. O que ela recebe, ela usa contra Deus e contra o povo de Deus. Contra Deus ela difama, blasfema. Se, anteriormente ela pretendia imitar a Deus, aqui, ela quer desmoralizar a Deus e o Seu povo que irá morar no céu. 

No entanto, o mesmo Deus que dá folego a todos, também restringe o poder da Besta durante esses 42 meses. Nesta última semana, que são os mil duzentos e sessenta dias, a Besta perseguirá a igreja e vencerá tendo autoridade sobre cada espaço desta terra. 

Não obstante, quando a Besta conseguir vencer a igreja, é porque a Igreja conseguiu cumprir com seu propósito de anunciar o Evangelho da salvação a todos os povos, e fazer com que os eleitos sejam atraídos por Deus. 

Mas, infelizmente, aqueles que não estavam no Livro da Vida desde a fundação do mundo, crerão na mentira e se unirão à Besta para pelejar contra Cristo e sua Igreja, como diz Paulo: o qual se opõe e se levanta contra tudo que se chama Deus ou é objeto de culto, a ponto de assentar-se no santuário de Deus, ostentando-se como se fosse o próprio Deus (2Ts 2.4). No entanto, esse engano não será no futuro somente, mas, já começou. Paulo disse que o mistério da iniquidade já opera (2Ts 2.7) e que, “quando ele vier aparecerá segundo a eficácia de Satanás, com todo poder, e sinais e prodígios da mentira” (2Ts 2.9). Se o poder que a Besta recebe vem do Dragão, os prodígios mentirosos que ela faz, é Deus quem permite, para que aqueles que negaram a verdade creiam na mentira (2Ts 2.11). 

Mesmo em meio a perseguição, Deus nunca deixa seu povo desamparado, sem resposta, pois Deus adverte a sua igreja. 

A advertência para a Igreja – Ap 13.9,10

Deus usa a mesma frase utilizada no final de cada carta às sete igrejas: “quem tem ouvidos, ouça”, asseverando que devemos estar atentos ao que fora dito antes e no que está porvir. João mostra à Igreja que o sofrimento é certo, mas, que ela não deve temer, antes, deve colocar toda a sua confiança no Deus que vingará seu povo. Enquanto isso, a Igreja deve mostrar-se firme diante das perseguições.

Conclusão 

Viver neste mundo mal sempre será um desafio para o Cristão, para que não se corrompa com ele. E será este mesmo mundo que o Diabo usará para perseguir o povo de Deus. No entanto, Deus deixará o seu povo aqui para que testemunhe de Cristo até a sua volta.

Aplicação 

Se Deus adverte a igreja para ouvir atentamente a Sua mensagem sobre a maldade que há no mundo, a qual pode fazer com que me afaste de Deus, como eu posso ter certeza da minha salvação ante a perseguição? Desde o capítulo 12, João quer mostrar que a nossa vitória só é certa porque Cristo venceu. E essa mensagem vem desde o Antigo Testamento. O Salmo 15 questiona: “quem habitará no seu tabernáculo?”  e “quem há de morar no teu santo monte?”, a resposta é clara: Aquele que vive em integridade. Contudo, sabemos que diariamente pecamos, e, se pecamos diariamente, como podemos ser justos para sermos recompensados? O Salmos 24 nos faz a mesma pergunta do Salmo 15, afirmando-nos que alguém deverá ser integro para habitar com Deus. A cena muda e mostra que houve um homem que foi integro em toda sua vida, que morreu e ressuscitou para que possamos ter a garantia de nossa salvação. Portanto, mesmo que a igreja seja vencida fisicamente, Satanás nunca derrotará a igreja espiritualmente, ele não pode mais nos acusar, porque é Deus quem nos justifica.

No entanto, como mostrei acima, o versículo 10a – se alguém leva para cativeiro, para cativeiro vai – é uma paráfrase de Jeremias 15. Se a perseguição contra o cristão serve como um meio de perseverança, a perseguição para aqueles que estão na igreja, porém, não são salvos, servirá para que se manifestem como aqueles que nunca pertenceram ao corpo de Cristo.

Somente unidos com Cristo podemos desfrutar de sua vitória e de seus benefícios. Sem Cristo, o destino é perdição eterna. 

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Autor: Denis Monteiro
Revisão: Malvina Oliveira
Fonte: Bereianos

Leia também: Crentes em um mundo de descrentes – Parte 2
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Como interpretar Apocalipse?

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Introdução

Os debates sobre o livro de apocalipse são ad infinitum. Dentro da escatologia tupiniquim de nosso país os problemas ainda se agravam. Em geral, a escatologia brasileira é guiada e hipnotizada pelo sensacional e cinematográfico, em vez de ser guiada por uma análise séria do texto. 

Então, como devemos interpretar o Apocalipse de João? Literalmente? Simbolicamente? Ambos? As próprias regras hermenêuticas para a interpretação de textos apocalípticos em geral já responde nossa questão. Entretanto, uma análise cuidadosa do próprio texto esclarece para nós o caminho que devemos tomar. 

Neste breve artigo, veremos o significado e o pano de fundo de uma palavra logo no primeiro verso do livro. A palavra “semaino” (traduzida como notificar, na ARA) significando “comunicação por símbolos” será o objeto de nosso estudo. Não faremos uma análise exegética exaustiva, nem de Ap. 1.1, nem da sua alusão veterotestamentária, mas nos deteremos apenas na palavra semaino (para uma análise completa, ver Beale, 1999).

1. O significado de “semaino” (σημαίνω)

João inicia seu livro dizendo que é uma revelação (Ἀποκάλυψις) de Jesus Cristo, que pela mediação de um anjo, foi notificada a João (Ap. 1.1). A palavra que nós traduzimos como “notificou” (ἐσήμανεν) é o aoristo ativo do verbo σημαίνω. O léxico Inglês-Grego do NT traduz essa palavra como “fazer conhecer, comunicar, reportar, significar” (BAGD, 747). Todas essas definições trazem a ideia de comunicação, mas não especifica a natureza ou o modo dessa comunicação (Beale, 1999).

2. O pano de fundo de “semaino

Para entendermos com maior precisão o significado de semaino, precisamos analisar a clara alusão ao Antigo Testamento presente em Apocalipse 1.1. O texto alude a Daniel 2.28-30, 45. As cláusulas “revelação... Deus mostrou... o que deve acontecer... e fez conhecer (σημαίνω)” aparecem juntas somente em Dn. 2 e em Ap. 1.1 (Beale, ibid.).

O σημαίνω de Daniel 2 é a tradução grega do aramaico yĕda (fazer conhecer). O modus da comunicação é definido pelo contexto, que trata sobre uma visão como uma comunicação simbólica por intermédio de um sonho. Essa natureza simbólica da comunicação é atestada em Dn. 2.45:

Porquanto viste que do monte foi cortada uma pedra, sem auxílio de mãos, e ela esmiuçou o ferro, o bronze, o barro, a prata e o ouro, o grande Deus faz saber (σημαίνω) ao rei o que há de suceder no futuro. Certo é o sonho, e fiel a sua interpretação”.

O contexto fala sobre o sonho que o rei Nabucodonosor teve sobre uma estátua composta de quatro partes feitas de metais diferentes (ouro, prata, bronze e ferro). Daniel interpretou cada parte como sendo grandes reinos mundiais, mas que no fim, foram substituídos/derrotados pelo reino de Deus. A revelação dada ao rei babilônico não era abstrata, mas sim pictórica (
ibid.). 

Portanto, João ao escolher semaino em vez de “gnorizo” (fazer conhecer), faz isso intencionalmente (e não por acaso) demonstrando a natureza simbólica dessa comunicação (o livro de Apocalipse) que é definida pela alusão à Dn. 2.

3. O uso de “semaino” no restante do NT

Semaino” tipicamente traz a noção de comunicação por símbolos quando não tem o sentido mais geral de “fazer conhecer”, e ambos os sentidos são encontrados na LXX (Septuaginta). Dos outros cinco usos no NT, dois tem o sentido de “fazer conhecer” (At. 11.28; 25.27) ainda que um deles (11.28) tenha nuanças de comunicação simbólica (revelação simbólica do profeta).

Os três outros usos estão no evangelho de João (Jo. 12.33; 18.32; 21.19), resumindo a descrição pictórica de Jesus sobre a crucificação (ibid.). Esse evangelho usa o substantivo cognato “semeion” repetidamente para se referir aos milagres de Jesus como “sinais” ou “símbolos” de seus atributos e de sua missão (Ibid.).

4. O paralelo entre “semaino” e “deiknymi” em Ap. 1.1

A definição semântica de semaino como “comunicação por símbolos” é reforçada pelo seu paralelo com a palavra δείκνυμι (mostrar) no mesmo verso: “Revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe deu para mostrar aos seus servos...”. Embora essa palavra possa significar algum sinônimo de “fazer conhecer” em outras literaturas gregas, aqui ela tem o sentido de uma “revelação mediada por visões celestiais simbólicas comunicadas por um anjo (Beale, ibid.)”. O significado de “mostrar” para δείκνυμι é corroborado pelos outros sete usos dessa palavra em Apocalipse (4.1; 17.1; 21.9–10; 22.1, 6, 8). O que se é mostrado em cada uma delas é uma visão simbólica, e João escreve que ele “viu” (E eu vi - καὶ εἶδον) essas revelações pictóricas (p. ex. 17.3, 6; 21.22; 22.8; ibid.).

Conclusão

Tanto a semântica como o Background de semaino em Ap. 1.1 é de imensa importância para uma aproximação hermenêutica correta a esse livro. Alguns comentaristas presumem que Apocalipse algumas vezes explica o significado de suas imagens, e que, portanto, onde não há explicações, deve se interpretar conforme o sentido “natural/literal”, a menos que o contexto indique o contrário (Walvoord, Revelation, 30). Conclui-se disso que devemos interpretar Apocalipse literalmente, a menos que sejamos forçados pelo contexto a interpretá-lo simbolicamente. Entretanto, com a análise acima, concluímos exatamente o contrário. O material de Apocalipse é majoritariamente simbólico (no mínimo 1.12-20; 4.1-22.5). Obviamente algumas partes não são simbólicas, mas a essência do livro é figurativa (Ibid.). 

Greg Beale (op. cit.) demonstra que há quatro níveis de comunicação em Apocalipse: 1. Linguístico (o próprio texto); 2. Visionário (as experiências visionárias de João; 3. Referencial (que consiste numa identificação histórica específica dos objetos vistos na visão) e; 4. Simbólico (é o que os símbolos nas visões conotam sobre seu referencial histórico). Então, por exemplo, em Ap. 19.7-8 a descrição textual é o nível linguístico, que pode ser lido e/ou ouvido. As imagens da noiva e do linho fino são o que João viu no nível visionário. 3. No nível referencial, a figura do casamento da noiva com o noivo se refere ao regozijo atual dos cristãos em comunhão com Cristo, provavelmente após sua segunda vinda. Finalmente, o nível simbólico se refere ao que nós determinamos ser o sentido preciso da comunhão da noiva com o noivo e da imagem do casamento em geral (o linho fino é explicitamente interpretado como sendo os atos de justiça dos santos). Pelo menos parte desse simbolismo significa a união espiritual consumada da igreja com Cristo, em Sua presença, e a celebração jubilosa associada a essa união final (Beale).

Concluímos que o próprio autor de Apocalipse (João) determina logo no primeiro verso que devemos interpretar seu livro simbolicamente, a menos que o contexto explicitamente se mostre literal (como o autor, a ilha de Patmos, as sete igrejas, etc).     
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Bibliografia:

- Bauckham, Richard, "The theology of the Book of Revelation" (1993).
- W. Bauer, W. F. Arndt, F. W. Gingrich, and F. W. Danker, A Greek-English Lexicon of the New Testament. Chicago: University of Chicago, 1979.
- Beale, G. K. (1999). The book of Revelation: a commentary on the Greek text. Grand Rapids, MI; Carlisle, Cumbria: W.B. Eerdmans; Paternoster Press.
- "John´s use of the Old Testament in revelation",(1998).

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Autor: Willian Orlandi
Divulgação: Bereianos
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A proteção do povo de Deus

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Texto base: Apocalipse 12.13-18

Introdução

A igreja, que é o povo de Deus, sempre foi perseguida desde muito tempo e Deus sempre deu um escape. Após o Império de Nero – por causa de sua acusação contra os cristãos de atearem fogo em Roma -, a igreja passou a ser perseguida ferrenhamente. 

Eram perseguidos ao ponto de serem forçados a negar a Cristo. E se não negassem, a morte era certa. Se o cristão tivesse família, ela era presa e torturada para que o cristão negasse a fé, caso contrário, cada membro da família era morto um a um, pouco a pouco. Isso aconteceu – diz a história – com uma mulher viúva mãe de sete filhos. Ela foi presa durante o império de Marco Aurélio após denúncias feitas ao prefeito da cidade. Os oficiais a pegaram e forçaram-na a negar a Cristo. Não atendendo ao pedido, eles pegaram seus sete filhos e começaram a matar um a um para que, porventura, ela viesse a negar a Cristo. Após ela ver seus sete filhos mortos e receber a ameaça de morte, disse ao prefeito: “Viva, eu te vencerei; se me matares, em minha própria morte, vencer-te-ei ainda mais”. Após longas horas de tortura, ela foi decapitada. [Homilae xl in Evangelia, Gregório Magno. livro I, homilia 3.]

Infelizmente ela não foi a única, mas milhares de cristãos foram mortos por diversos meios diferentes. E por incrível que pareça tais perseguições faziam com que a igreja crescesse ainda mais. Aqueles que eram queimados em fogueiras, morriam louvando ao Senhor. Os imperadores sabendo disso, pediam que, antes dos cristãos serem queimados tivessem suas línguas arrancadas.

E assim, até a volta de Cristo, Satanás perseguirá a igreja para descontar a sua ira de perdedor.

Contexto

João inicia o capítulo mostrando uma perseguição no céu (vv. 1-4) e termina o capítulo com o mesmo Dragão perseguindo o povo de Deus na Terra (vv.13-18). No meio dessas duas cenas, João intercala com uma cena na terra (vv.5,6) e no céu (vv. 7-12).

Não creio que este capítulo esteja em ordem cronológica, porque João retoma o que fora dito anteriormente. Por exemplo, os versos 1 e 2 mostram a mulher que está prestes para dar à luz. Os versos 5 e 6 mostram que a criança nasce e sobe para o céu e a mulher foge para o deserto. No entanto, os versos 3 e 4 mostram a atuação do Dragão no céu, sua corrupção e perseguição. E dos versos 7 ao 12 mostram a batalha com o Dragão no céu e sua expulsão com a vitória de Cristo. E agora, por fim, a cena se volta para a terra dando continuidade ao verso 6, mostrando como o Dragão perseguirá a mulher.

No entanto, a igreja não está sozinha na terra. Pois, em cada ataque de Satanás, Deus provê um escape para o seu povo. 

Primeiro ataque – 12.13,14

13. Quando, pois, o dragão se viu atirado para a terra, perseguiu a mulher que dera à luz o filho do varão; 14. e foram dadas à mulher as duas asas de grande águia, para que voasse até ao deserto, ao seu lugar, aí onde é sustentada durante um tempo, tempo e metade de um tempo, fora da vista da serpente.

João relata a primeira forma em que Satanás ataca a igreja; como um Dragão perseguidor. O verbo “perseguiu” pode ser traduzido como “caçador”. Ou seja, Satanás é um Dragão que está atrás de sua presa. Pois, sem nenhuma chance de atacar a Cristo, ele agora se volta contra a igreja para tentar destruí-la, pois foi expulso de uma vez por todas do céu.

No entanto, Deus provê um escape para seu povo. João usa uma frase que foi utilizada em Êxodo 19.4 para demonstrar que da mesma forma em que Deus preservou seu povo, dando asas de águia para fugir das mãos de Faraó; Deus protegerá seu povo do inimigo derrotado. E mesmo em meio ao deserto, durante o tempo determinado – referência essa emprestada de Daniel 7.25 -, o qual são os 1260 dias do capitulo 11, Deus nutre sua igreja, não a deixando desamparada. 

Segundo ataque – 12.15.16

15. Então, a serpente arrojou da sua boca, atrás da mulher, água como um rio, a fim de fazer com que ela fosse arrebatada pelo rio. 16. A terra, porém, socorreu a mulher; e a terra abriu a boca e engoliu o rio que o dragão tinha arrojado de sua boca. 

Se antes João apresenta Satanás como um dragão caçador, agora ele mostra que Satanás é uma serpente. Se nós nos lembrarmos de quando Satanás foi retratado como uma serpente, ele é tido como enganador. O Novo Testamento mostra que nos últimos dias, antes da vinda de Cristo, surgiriam várias doutrinas que fariam com que o povo vivesse na imoralidade e a igreja negasse a Cristo. No entanto, a serpente não quer somente enganar, mas continua a perseguir. 

O texto mostra que um rio saía da boca da serpente para ir atrás da mulher. Existem algumas interpretações sobre o que seria esse rio, mas creio que seja uma referência a perseguição. Pois, no Antigo Testamento, em Salmo 18.4, Davi diz que “torrentes de Belial me assaltaram”. E também o salmista, no Salmo 144.7,8,11, em forma de oração, pede a Deus que o tire das águas impetuosas que proferem mentiras e falsidades. Portanto, Satanás age com falsidade para com a igreja e, ao mesmo tempo, ele a busca destruir de alguma forma. 

Mas Cristo segue vitorioso e Ele protege mais uma vez seu povo. A expressão “a terra abriu a boca e engoliu” é parecida com a frase do cântico de Moisés, após Deus livrar seu povo das mãos de Faraó quando atravessavam o Mar Vermelho: Estendeste a tua destra; e a terra os tragou” (Êx 15.12). Não devemos entender “terra”, neste capítulo 12, como literal. Mas que essa terra é instrumento nas mãos de Deus para proteger Seu povo. Por exemplo, na Romênia comunista o cristianismo era proibido e isso dificultava a entrada de Bíblia ou qualquer literatura que professasse a fé cristã. Veja este relato do missionário que ficou preso por 14 anos no país: 

A pregação de Cristo sob essas novas condições não era fácil. Conseguimos imprimir vários panfletos evangélicos, passando-os através da severa censura dos comunistas. 
Apresentamos ao censor comunista um livreto que na primeira página trazia um retrato de Karl Marx, o fundador do Comunismo. Os livros tinham por título "Religião, ópio do povo", ou outros semelhantes. O censor pensou tratar-se de livros comunistas e neles colocou o selo de sua aprovação. Nesses livros, depois de umas poucas páginas cheias de citações de Marx, Lenin e Stalin, as quais agradavam ao censo, dávamos nossa mensagem a respeito de Cristo. [Torturado por amor a Cristo, Richard Wurmbrand, pág. 18]

Por meio de sua providência, Deus faz com que a igreja não seja atingida e Seu Evangelho chegue as nações que odeiam a Cristo.


Terceiro ataque – 12.17,18

17. Irou-se o dragão contra a mulher e foi pelear com os restantes da sua descendência, os que guardamos mandamentos de Deus e tem o testemunho de Jesus; 18. e se pôs em pé sobre a areia do mar. 

O eterno perdedor parece não admitir a sua derrota e agora se volta contra os crentes individualmente com grande fúria e vingança buscando destruir. Aqueles que Satanás persegue são os que guardam os mandamentos de Deus e dão testemunhos de Jesus. No entanto, podemos entender que o meio pelo qual eles vencem o Dragão é justamente por isso: guardam a Palavra de Deus e dão testemunhos de Jesus.

Por fim, João termina o capítulo como se fosse uma introdução do que virá adiante. Satanás está observando os descendentes em pé sobre a areia, como se fosse um animal perigoso pegando distância para atacar a qualquer momento. 

Conclusão

A perseguição contra a igreja é certa. Todas as vezes que vemos algo acontecer que afronta a igreja nós temos o desejo e pedimos a volta de Cristo. No entanto, a perseguição faz parte de nosso testemunho. Quanto mais a igreja testemunha de Cristo mais ela será perseguida.

Aplicações

Nós realmente estamos prontos para morrer por Cristo? Se surgisse um Governo que considerasse o Cristianismo um crime, será que haveriam provas suficientes para nos incriminar?

Se você acha que a igreja atualmente sofre ataques, bem como ocorre uma crescente apostasia, lembre-se do que Cristo falou, que nos últimos dias surgiriam falsos cristos e falsos profetas operando grandes sinais e prodígios para enganar, se possível fosse, até os eleitos.

No entanto, como Apocalipse 12 mostrou, Cristo venceu Satanás expulsando-o do céu e restringindo ainda mais o seu poder. Pois, como Cristo tinha dito aos seus discípulos, as portas do inferno não prevalecerão contra a igreja.

Não obstante, o descrente não tem essa promessa. E como os outros capítulos de Apocalipse mostrarão, aqueles que não servem a Deus estarão unidos ao Dragão para pelejar contra Cristo e sua igreja. Mas, como já vimos, Satanás já está derrotado. Portanto, de que lado você gostaria de estar no último dia?

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Autor: Denis Monteiro
Revisão: Malvina Oliveira
Fonte: Bereianos

Leia também: O mundo contra a Igreja

O mundo contra a Igreja

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Texto base: Ap 11.1-13

Introdução

No dia 1º de Julho de 1523, dois jovens agostinianos, Henrique e João, foram queimados em fogueira na praça do mercado em Bruxelas por haverem professado crer nos ensinamentos de Lutero. No mesmo ano, Lutero compõe o hino “Castelo Forte”, mostrando que, quando estamos do lado do Senhor defendendo a Sua causa o inimigo se levanta querendo nos atacar para nos destruir, mas, como diz o Hino: “mui forte é o Deus fiel”. Claro que o hino não diz respeito a esses jovens somente - que foram mortos em praça pública, pois desde abril de 1521 Lutero já se opunha publicamente diante de tribunais por não concordar com tudo aquilo que a Igreja Católica vinha ensinando. Todas as vezes que eu vejo a Igreja sendo perseguida em alguns países, eu me lembro desse hino, o qual mostra com toda certeza que mesmo que o mal nos derrote isso não será o nosso fim, porque “com Ele reinaremos”, pois o inimigo “já condenado está”. 

E é isso que João quer transmitir à Igreja daquela época, e para a nossa também. Durante o período da ascensão de Cristo até a sua volta a Igreja será perseguida, mas não será derrotada. Mas, quando estiver próximo do fim, aparentemente o mal derrotará a Igreja, no entanto, quem realmente será derrotado é a Besta e seus seguidores.