A Trindade, a Criação e os “Pais e Mães de Pets”

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Tem se tornado cada vez mais comum encontrarmos proprietários de animais de estimação, como cães, gatos e pássaros, que denominam o seu relacionamento com os seus “pets” como “pais e filhos”. São homens e mulheres que se declaram “pais” e “mães de pets”, que tiram fotos com os seus animais e nas legendas escrevem frases como: “Uma selfie com a mamãe” ou “Primeira foto com a filha”. Além disso, sobrenomes de famílias são atribuídos aos animais, festas de aniversário são organizadas, decorações dispendiosas são utilizadas e até mesmo funerais, com a família em torno do caixão do animal são situações cada vez mais comuns. Toda a rotina da pessoa ou do casal é alterada, de modo a incluir o animal em todas as ocasiões. Até mesmo datas comemorativas, como o dia das mães e dos pais, são modificadas para contemplar os “pais e mães de pets”.¹

A inconsistência da ciência sem Deus

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É importante deixar claro também que o conhecimento cientifico é a obediência ao mandato cultural de Gênesis 1:26.


Recentemente, a revista VEJA publicou uma entrevista com o astrofísico americano Neil Degrasse Tyson, com a frase: “Não vejo evidências que corroborem a existência de Deus” estampada.

O que este artigo visa não são argumentos a posteriori para a existência de Deus, nem tampouco apresentam uma solução sobre o que os filósofos chamam de “problema do mal” (Se bem que se há algum problema, o problema é deles!), que foi o que astrofísico tanto frisou em sua entrevista, e muito menos mostrar a falibilidade do método cientifico.

Talvez em outra oportunidade eu possa tratar dessas coisas, mas no momento o meu objetivo principal neste artigo é demonstrar a inconsistência da ciência à parte de Deus, como bem já apresentou o título, e como a ciência é possível somente com Deus.

O presente artigo também não tem por finalidade fornecer argumentos exaustivos sobre o assunto (apesar de este ser o meu desejo, mas não vejo momento propício para isso); antes, procura ser objetivo e direto em poucas linhas.

Alguns poderão achar prepotência da minha parte, afinal, não é comum um jovem de 18 anos de idade querer ensinar algo à um astrofísico de 56 anos; mas não nego que renomeados intelectuais incrédulos são verdadeiramente inteligentes no sentido de que fazem uso extremamente sofisticado e engenhoso das suas faculdades mentais, mas são estultos em rejeitar o óbvio e demonstrarei isso aqui. Mas, por que homens inteligentes fogem tanto de Deus? Porque estão determinados a serem antes “modernos” que fiéis à Palavra de Deus.

É importante deixar claro também que o conhecimento cientifico é a obediência ao mandato cultural de Gênesis 1:26 quando no versículo, existe uma ordem explícita para “dominarmos sobre a terra”. Sim, os cientistas incrédulos cumprem o plano pactual de Deus mesmo sem saber!

Um breve resumo das origens da ciência moderna

Alfred North Whitehead, um renomeado pesquisador na área da filosofia da ciência, diz na sua exposição do tema “Ciência e o mundo moderno” que o Cristianismo é a mãe das ciências, por causa da insistência da Idade Média na racionalidade inteligível de Deus”. Whitehead também falava da confiança “na racionalidade inteligível do ser pessoal”.

Naquelas palestras, ele também dizia que foi graças à racionalidade de Deus que os primeiros cientistas conseguiram manter a sua “confiança inexpugnável em que qualquer evento detalhado pode ser correlacionado com antecedentes, de forma perfeitamente definida, exemplificando princípios gerais. Sem esse tipo de fé, todos os inacreditáveis esforços dos cientistas seriam em vão”. Em outras palavras, os primeiros cientistas não ficavam nada surpresos em descobrir que era possível alguém achar algo de verdadeiro sobre a natureza e o universo com base na razão, e o motivo disso era a crença de que o mundo foi criado por um Deus inteligível.

Vivendo com a concepção de que o mundo foi criado por um Deus inteligível, os cientistas podiam progredir com confiança, na expectativa de poder descobrir coisas acerca do mundo por meio da observação e experimentação. Esta era a sua base epistemológica – os fundamentos filosóficos que lhe davam a certeza de que podiam desenvolver conhecimentos (epistemologia é a teoria do conhecimento – como sabemos, ou como sabemos que podemos saber).

Já que o mundo foi criado por um Deus inteligível, esses cientistas não ficavam surpresos por encontrar uma correlação entre eles enquanto observadores e a coisa observada – isto é, entre o sujeito e objeto. Este fundamento serve de norma para toda pessoa ou coisa, no âmbito da estrutura de pensamento cristão, não importa se está observando uma cadeira ou as moléculas que compõem uma cadeira. Sem este fundamento, não teria nascido a ciência moderna no mundo ocidental.

Francis Bacon, considerado o fundador da ciência moderna, levava a Bíblia a sério, sobretudo a temática sobre a queda do homem em Adão, isto é, a rebeldia do homem na história. Em Novum Organum Scientiarum, ele afirmava que: “com a queda, os homens perderam o seu estado de inocência e, ao mesmo tempo, o seu controle sobre a criação. Ambas as perdas, entretanto, podem, em parte, ser reparadas ainda neste mundo; a primeira pela religião e fé e a última, por meio das artes e ciências”. Note que Bacon não vê a ciência como autônoma. O homem não é autônomo – inclusive sua ciência. O homem, portanto, deve levar a sério o que a Bíblia ensina sobre a História e sobre o que ela diz ter ocorrido no cosmos.

Citando novamente Bacon: para concluir, portanto, não podemos deixar nenhum homem, por pretensões insanas à sobriedade, ou uma doentia moderação aplicada, pensar ou sustentar que o homem possa ir longe demais na pesquisa ou ser excessivamente entendido no livro das palavras de Deus ou no livro das obras de Deus”. Para Bacon, o “livro das palavras de Deus” é a Bíblia; “o livro das obras de Deus” é o mundo que Deus criou.

Portanto, para Bacon, bem como para os demais cientistas que trabalhavam a partir do fundamento cristão, não havia, em última instância, nenhuma separação ou conflito entre os ensinamentos da Bíblia e da ciência. Eles defendiam uma concepção de uniformidade das causas naturais em um sistema aberto, ou, como também pode ser dito, eles defendiam a uniformidade das causas naturais em um espaço de tempo limitado e somente o cristianismo pode servir de base para isso.

A uniformidade da natureza

A uniformidade da natureza é o fundamento de toda a ciência, isto é, pressupor que o universo seja lógico e ordenado, e que siga as leis matemáticas constantes sobre o tempo e o espaço. A uniformidade simplesmente insiste que as leis da natureza são consistentes e não mudam arbitrariamente no tempo ou no espaço, embora condições e processos específicos possam mudar. O astrofísico citado no início do artigo demonstra implicitamente isso na entrevista completa concedida ao afirmar sobre as predições que a ciência pode fazer.

Essas predições só podem existir se houver certa regularidade no universo. O problema para o ateísmo é que tal regularidade somente faz sentido numa cosmovisão de criação bíblica.

Numa cosmovisão ateísta, o mundo dos “fatos” surge do “caos” – isto é o acaso final. E consequentemente, assume que a realidade não é divinamente criada e controlada de acordo com o plano de Deus. Contraditoriamente, ele assume fazendo ciência que a realidade é segundo toda racionalidade constituída.

Pois se o mundo não fosse racional, ou como eu disse “uniforme”, não poderia haver ciência. Em contrapartida, para os cristãos, a uniformidade da natureza repousa sobre o plano de Deus. A coerência que ele vê é tomada como analógica de resultado da absoluta coerência de Deus na criação do universo.

A tarefa do cristão, nas ciências, é a de descobrir a estrutura do mundo, ordenada por Deus. Para o cristão, o homem e o mundo são feitos um para o outro, de maneira que as habilidades racionais do homem são aplicáveis ao mundo à medida que o homem “domina a terra”.

Esses princípios cristãos são absolutamente essenciais para a ciência. Quando executamos um experimento repetidamente, nas mesmas condições anteriores, esperamos que ele tenha os mesmos resultados todas às vezes. Os cientistas são capazes de fazer predições apenas porque existe uniformidade como resultado do poder consistente e soberano de Deus.

A experimentação científica seria inútil sem uniformidade; nós obteríamos resultados diferentes toda vez que realizássemos o mesmo experimento, destruindo a própria possibilidade do conhecimento científico. Se por hipótese Deus não existisse, a alternativa seria dizer que tudo é ordenado por acaso, todo pensamento é fútil e todos os juízos éticos são nulos e vazios.

É bom deixar claro que eu não estou dizendo que aqueles que rejeitam a cosmovisão cristã não fazem ciência. O que estou dizendo é que um cientista é inconsistente quando não professa o cristianismo. Ele alega que o universo não é projetado, mas faz ciência como se o universo fosse projetado e mantido uniformemente por Deus.

Em Gênesis 8:22, Deus promete que podemos ter em vista certo grau de uniformidade no futuro. Sem a criação bíblica, a base racional para a uniformidade está perdida! A escolha é simples: Deus e a inteligibilidade do Universo ou o Caos e a ininteligibilidade do Universo.

A idolatria científica

O coração do homem é uma fábrica de ídolos, escreveu Calvino. O grande problema de boa parte dos cientistas modernos é a idolatria. A perda total de significado implícita no ateísmo é demais para que muitos suportem. As pessoas precisam de alguns valores, alguns padrões, algumas maneiras para orientarem suas vidas. Entre essas pessoas, aqueles que continuam a resistir à crença no verdadeiro Deus tornam-se inconsistentes quanto ao seu ateísmo. Se não querem o verdadeiro Deus, terão de procurar outro.

E um dos deuses deste século é a ciência moderna à parte de Deus. A ciência não cristã é amplamente divinizada e cultuada, mas agora está mais vulnerável do que em todos estes últimos quatrocentos anos. O compromisso do coração do descrente é opor-se a Deus, e, assim, ele procura fugir da sua responsabilidade de obedecer qualquer lei escriturística, inclusive as normas requeridas para o conhecimento. Mas ele não pode ter sucesso. Na verdade, ele não pode nem sequer atacar a lei sem presumir sua verdade, tornando dessa maneira o seu pensamento duvidoso.

A queda do homem no Éden foi uma tentativa de independência de Deus em cada aspecto da vida. O homem buscou seus próprios ideais de verdade em algo fora de Deus, diretamente dentro de si mesmo (racionalismo), ou indiretamente no universo ao seu redor (empirismo). Originalmente, o homem havia interpretado o universo sob a direção de Deus, mas agora busca interpretar o universo sem referência a Deus.

O homem fez de si mesmo um ideal falso de conhecimento, um ideal de compreensão absoluta não derivativa. Ele nunca teria feito isso se mantivesse o reconhecimento de sua condição de criatura. O homem buscou um ideal inatingível, e o resultado? Uma miséria intelectual sem fim.

Cristo, É o Senhor soberano de tudo, inclusive do nosso pensamento. Intelectuais são geralmente orgulhosos de sua autonomia e esse orgulho não pode prevalecer. Nas palavras de John Frame: Deus rejeita a sabedoria do mundo e chama seu povo, oferecendo-lhe uma sabedoria especial, dele próprio, uma sabedoria que se contrapõe agudamente aos valores do mundo. Os crentes são pela sabedoria de Deus e contra o falso ensino, mesmo quando enfrentam os mais difíceis desafios.

Esse assunto é melindroso para os homens modernos; é difícil apresentar de modo atraente o autoritarismo intelectual! Liberdade intelectual, liberdade acadêmica, liberdade de expressão e de pensamento – esses são valores importantes em nosso tempo. Podem os homens modernos serem levados adorar um Deus que é um autoritário intelectual? Isso depende, claro, de Deus e de sua graça. O fato é, porém, que esse autoritarismo é a fonte da verdadeira liberdade intelectual.”

Eu reitero dizendo que não há como fugir: Deus é a sua autoridade intelectual ou algum aspecto da realidade criada; se você escolher a segunda opção, você estará condenado a idolatria, e consequentemente, fadado a inconsistência intelectual no mundo de Deus.

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Obras referenciais:
Ciência e o mundo moderno, de Alfred North Whitehead
• Novum Organum Scientiarum, de Francis Bacon
• A Doutrina do Conhecimento de Deus, de John Frame
• Como Viveremos?, de Francis Schaeffer
• O Pastor Reformado e o Pensamento Moderno, de Cornelius Van Til

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Sobre o autor: Gabriel Reis é aspirante ao ministério pastoral na 1ª Igreja Presbiteriana do Brasil em Duque de Caxias-RJ. Graduando em filosofia pela UFRJ. E fundador da Página Apologética Reformada.
Revisão: Raquel Magalhães
Fonte: Gospel Prime
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As obras de Deus e os decretos divinos em geral

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(1) Até agora Deus foi considerado em si mesmo. Agora ele também precisa ser considerado em suas obras.

1. Isto inclui tanto as obras essenciais como as pessoais.

2. As obras essenciais são aquelas que são realizadas por toda a Santíssima Trindade operando como sendo apenas um Ser.

3. As obras pessoais são aquelas que são peculiares a uma pessoa em particular.

4. Tanto as obras essenciais como as pessoais incluem aquilo que afeta Deus somente [ad intra] e aqueles efeitos são percebidos fora de Deus [ad extra].

5. A primeira espécie não tem outro objeto [terminus] além de Deus. [A esta espécie pertencem] tais assuntos como a inteligência pela qual Deus conhece a si mesmo, a geração do Filho e a procedência do Espírito Santo.

6. As obras da segunda espécie têm alguns outros objetos além da Santíssima Trindade. Tais como a predestinação, criação e coisas semelhantes que concernem às criaturas como objetos externos a Deus.

PROPOSIÇÕES

I. A mesma obra externa é tanto pessoal como essencial de diferentes pontos de vista. Assim, a encarnação de Cristo, em seu aspecto eterno [inaugurativo] é uma obra essencial, comum à toda a Trindade; em seu aspecto histórico [consumativo] ela é uma obra pessoal apenas do Filho. Embora o Pai e o Espírito sejam causas da encarnação, somente o Filho tornou-se encarnado. Do mesmo modo, embora a criação, redenção e santificação são obras de toda a Santíssima Trindade, todavia, de um ponto de vista, elas podem ser chamadas de pessoais. O Pai é chamado criador, porque ele é, como era a origem [fons] da operação da Trindade, e o Filho e Espírito Santo agem pelo Pai. O Filho é chamado redentor, porque ele consumou a obra da redenção assumindo a natureza humana. O Espírito Santo é chamado santificador, porque ele é enviado pelo Cristo como um confortador e santificador.

II. As obras externas são indivisíveis ou comuns a todas as pessoas. Desta proposição segue do que foi declarado acima; uma vez que a essência é comum a todas as pessoas, as obras essenciais também precisam ser comuns a todos os três.

III. Toda obra específica sempre preserva o mesmo princípio essencial, causa eficiente e efeito.

(2) As obras de Deus que tem a sua realização fora dele são tanto imanente e interna, como exposta e externa. As obras imanentes e internas de Deus são aquelas que recebem lugar dentro de sua divina essência, e deste modo são os decretos de Deus.

PROPOSIÇÕES

I. Nem todas as obras cujo objeto é fora de Deus [ad extra] é uma obra externa. Um decreto de Deus é ad extra naquilo que se refere à criatura ou alguma coisa além de Deus, mas ela é interna naquilo que ela permanece em toda a essência de Deus.

II. As obras imanentes e internas de Deus são as realidades [res] não diferem da essência de Deus. Tudo o que estiver em Deus é Deus, como apresentamos acima como uma consequência da simplicidade da essência divina; e como essência e ser [essentia et esse] não são diferentes em Deus, assim, em sua vontade e o ato da vontade não são realidades [realiter] diferentes.

(3) Um decreto é um ato interno da vontade divina, pelo qual ele determina, da eternidade, livremente, com absoluta certeza, aqueles assuntos que acontecerão no tempo.

PROPOSIÇÕES


I. Os decretos são chamados “o plano definitivo” (At 2:23), “a mão e plano de Deus” (At 4:28), “o beneplácito de Deus” (Ef 1:9), e a eterna providência de Deus. Eles são chamados de “eterna providência” em distinção da atual providência que não é outra senão que a execução dos decretos de Deus.

II. Eles também são chamados de vontade de Deus, e o que Deus intenta fazer [voluntas beneplaciti]. Na realidade, o decreto é a própria vontade de Deus; mas, para o propósito de ensino a vontade é tratada como a causa eficiente, e o decreto como o efeito. Outra nomenclatura acerca da vontade pode ser adotada para vários propósitos e várias distinções são feitas pelos teólogos; a distinção entre o que Deus intenta fazer e o que ele nos quer fazer [voluntas beneplaciti et signi], entre vontades antecedente e consequente, absoluta e condicional, oculta e revelada. Estas não são divisões reais, ou partes da vontade divina de Deus, pois de fato, ela é propriamente chamada àquilo que Deus intenta fazer [voluntas beneplaciti] porque pela sua completa liberdade e beneplácito, ele decretou tudo que acontecerá. O mesmo é “antecedente” porque ele existiu antes das coisas criadas, e foi contado com Deus desde a eternidade. Ele é chamado “absoluto” porque se baseia unicamente na boa vontade de Deus e não de nada no tempo, e finalmente, ele é chamado de “oculto” porque nem anjos, ou homens entendem-no sem auxílio [a priori]. Mas como está numa cantiga popular “Ele comanda e ele proíbe, permite, divide e completa” possa ser vagamente chamado pela designação da vontade divina. Assim como os editos de um magistrado são chamados de sua vontade, do mesmo modo a designação da vontade pode ser dada aos preceitos, proibições, promessas e bem como aos fatos e eventos. Assim, a divina vontade também é chamada daquilo que Deus quer fazer [voluntas signi], pois ela significa o que é aceitável a Deus; o que ele quer fazer a nosso favor. O decreto é chamado de “consequente” porque ele segue aquela vontade que antecede a eternidade; ele é “condicional” porque os mandamentos, proibições ou desobediência estão ligados a ele. Finalmente, ele é chamado de “revelado” porque é o modo explicado na palavra de Deus. É necessário observarmos que esta espécie de discussão não postula outra realidade diversa, ou contraditória, como se fossem vontades de Deus. 

III. Ao lado da vontade de Deus não há causas que podem ser contrárias a sua vontade. De fato, muitas coisas podem ser contrárias àquilo que Deus quer [voluntas signi], no entanto, elas se conformam ao plano divino [voluntas beneplaciti]. Deus não criou o pecado do homem, pelo contrário, mais estritamente ele o proibiu. Contudo, ao mesmo tempo ele o decretou de acordo com a esta vontade [beneplaciti] como um meio de revelar a sua glória.

IV. Tanto o bem como mal, entretanto, resultam do decreto e vontade de Deus; primeiro ele causa, e depois ele permite.

V. Contudo, o decreto e vontade de Deus não têm o mesmo sentido como causa do mal ou do pecado, embora tudo o que Deus decreta assume a posição de necessidade. Desde os males que são decretados, não efetivamente, mas permissivamente, o decreto de Deus não é a causa do mal. Nem são os decretos de Deus a causa do mal sobre a explicação da inevitabilidade de seu resultado, ou mesmo que eles conduzam os resultados não por uma necessidade coerciva, mas meramente por algo imutável.

VI. A inevitabilidade [necessitas] dos decretos de Deus não destrói a liberdade nas criaturas racionais. A razão é que a necessidade não é uma necessidade da coerção, mas da imutabilidade. Que a queda de Adão aconteceu pela necessidade com respeito a um decreto divino; todavia, Adão pecou livremente, nem ordenado, nem coagido, ou influenciado por Deus; de fato, ele teve a mais estrita advertência para não pecar.

VII. A inevitabilidade dos decretos de Deus não destrói a contingência das causas secundárias. Muitos eventos que acontecem pela necessidade com respeito aos planos de Deus são contingentes com as causas secundárias. 

VIII. Não existe uma causa ativa [causa impulsiva] além da absolutamente livre vontade e prazer de Deus capaz de determinar os decretos divinos.

IX. O propósito [finis] dos divinos decretos é a glória de Deus.

X. Um decreto de Deus é singular e simples em si mesmo; nele não existe algo que seja anterior ou posterior.

XI. Com respeito a todas as coisas decretadas, deve ser especificado que na ordem em que ocorrem, Deus diz ter decretado quais deveriam ocorrer.

Tais questões como se Deus primeiro decretou isto ou aquilo, ou se ele decretou primeiro e o fim, ou os meios, são tolice. Desde que um decreto de Deus é em si mesmo um ato absolutamente simples, não há nele nem antecedente ou posterior; apenas com respeito às coisas decretadas podem ser especificadas. Com este entendimento podemos dizer que Deus decretou (1) criar o homem, (2) dar-lhe a sua imagem, mas de um modo que pudesse se perder, (3) permitir a queda, (4) e deixar alguns dos caídos entregues a si mesmos, mas eleger outros e preservá-los para a vida eterna. 

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Autor: Johannes Wollebius
Fonte: Traduzido de Johannes Wollebius, Compendium Theologicae Christianae in: John W. Beardslee III, Reformed Dogmatics: seventeenth-century Reformed Theology through the Writings of Wollebius, Voetius, and Turretin (Grand Rapids, Baker Books, 1977).
Tradução: Rev. Ewerton B. Tokashiki
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A criação

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Creio em Deus Pai, Todo-Poderoso, Criador dos céus e da terra.


Todos os cristãos creem e professam que Deus é o criador dos céus e da terra, mas além de professar essa verdade, o que isso pode influenciar em nossa cosmovisão?

A frase em destaque é muito conhecida no meio cristão, é a primeira declaração confessional sobre o cristianismo, e essa confissão começa declarando uma fé; Deus Criador dos céus e da terra. Seria estranho falar de Cristianismo sem falar da redenção de Jesus Cristo, mas pode ser mais estranho ainda falar sobre a redenção sem falar da criação, a qual foi o palco da redenção onde Cristo, nosso Senhor, morreu. No entanto, as partes que mostram o “Ele disse” (Gn 1.3, 6, 9, 11, 14, 20, 24, 26, 29; 2.18)¹ é o ato soberano de Deus em criar todas as coisas por intermédio de seu comando. Como um Soberano, Ele dá as ordens e a criação obedece, pois a Sua palavra não volta vazia e faz aquilo que lhe apraz (Is 55.10-11), é o que nos mostra o salmista: 

Pela palavra do Senhor foram feitos os céus, e todo o exército deles pelo espírito da sua boca. Ele ajunta as águas do mar como num montão; põe os abismos em depósitos. Tema toda a terra ao Senhor; temam-no todos os moradores do mundo. Porque falou, e foi feito; mandou, e logo apareceu” (Sl 33.6-9). 

Louvem o nome do Senhor, pois mandou, e logo foram criados. E os confirmou eternamente para sempre, e lhes deu um decreto que não ultrapassarão (Sl 148.5-6). 

Não obstante, aquele por quem Deus cria todas as coisas (Cl 1.16) é o mesmo que fez com que todas as coisas fossem criadas. Em João 1.1 nos mostra que Cristo estava no princípio, que a Palavra estava com Deus e que a Palavra era Deus. Portanto, as ordens soberanas de Deus na criação, as quais faziam com que todas as coisas viessem à existência, era Cristo, por intermédio de Deus, criando todas as coisas, porque Cristo é a Palavra de Deus. E Cristo mostra isso em seu ministério terreno proferindo palavra de ordens como um soberano sobre a criação, acalmando as ondas do mar (Mc 4.35-41) e para produzir cura (Lc 7.1-10). 

E, assim, como Deus fez todas as coisas por intermédio de Sua palavra, e Cristo mostra a sua autoridade por intermédio de sua palavra, é a Palavra de Deus que faz com que tenhamos fé (Rm 10.17) e que a nossa alma seja refrigerada (Sl 19.7), além do mais, Paulo compara a nossa salvação como o ato criador de Deus de chamar a luz das trevas (2Co 4.6; Gn 1.3). 

Sendo assim, crer que Deus criou os céus e a terra não é só uma maneira de combater o evolucionismo, mas mostrar em quê a nossa cosmovisão está baseada no ato soberano e pactual de Deus e na revelação do Redentor desde o princípio.

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Nota:
[1] KAISER, Walter C. Jr. O plano da promessa de Deus: Teologia bíblica do Antigo e Novo Testamentos. São Paulo: Ed. Vida Nova, 2011, p. 35 

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Fonte: Bereianos
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Comentário de Gênesis 1:1-2

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Por João Calvino


No princípio criou Deus os céus e a terra. E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.

No princípio.
Interpretar o termo “princípio” relacionando-o a Cristo não nos é de maneira alguma útil, pois Moisés, neste ponto, simplesmente pretende afirmar que o mundo não havia sido aperfeiçoado em seus primórdios do modo como agora vemos, mas que foi criado um caos vazio de céus e terra. A linguagem mosaica deve, portanto, ser explicada. Quando Deus, no princípio, criou os céus e a terra, a terra era sem forma e vazia.[1] Ele, ademais, nos ensina mediante o termo “criada” que aquilo que antes não existia foi agora feito; ora, ele não utilizou a palavra יָצַר (yatsar), que significa moldar ou formar, mas sim בָּרָ֣א (bara’), que significa criar.[2] Consequentemente, sua intenção é dizer que o mundo foi feito a partir do nada. Logo, refuta-se, assim, a insensatez daqueles que imaginam que existia, desde a eternidade, uma matéria informe, bem como daqueles que nada absorvem da narrativa de Moisés a não ser que o mundo foi provido de novos ornamentos e recebeu uma forma da qual antes se encontrava destituído.


De fato, tal ideia era, em tempos antigos, uma fábula comum entre os pagãos,[3] que tinham recebido apenas uma descrição obscura da criação, e que, segundo o hábito, adulteraram a verdade de Deus em invencionices esdrúxulas. Todavia, para os cristãos, laborar (como o faz Steuchus)[4] para manter esse erro grosseiro é absurdo e intolerável. Assim, tenhamos em mente primeiramente o seguinte ponto: o mundo não é eterno, mas foi criado por Deus. Não há dúvida que Moisés dá o nome de céus e terra àquela massa desordenada que ele, logo em seguida (Gênesis 1:2), denominada “águas”. A razão disso é que tal matéria estava para ser a semente de todo o mundo. Além disso, essa é a divisão do mundo generalizadamente reconhecida.[5]  

Deus. Moisés utiliza o termo Elohim, um substantivo no plural, donde se faz a inferência de que as três Pessoas da Divindade são aqui percebidas; contudo, como evidência de um assunto assim tão grandioso [A Trindade], não me parece apresentar muita solidez, de modo que não insistirei nesse termo. Porém, que isso nos sirva de alerta, de modo que tenhamos todo cuidado com miragens bruscas desse tipo.[6] Alguns pensam que o termo em pauta constitui um testemunho contra os arianos, uma prova da Deidade do Filho e do Espírito Santo; contudo, ao mesmo tempo, eles se envolvem no erro de Sabélio,[7] porque Moisés subsequentemente ajunta que Elohim tinha dito e que o Espírito de Elohim se movia sobre as águas. 

Caso venhamos a supor que as três Pessoas estão aqui denotadas, então não haverá distinção entre elas, pois se concluiria que tanto o Filho é gerado por Si mesmo e que o Espírito não é do Pai, mas de Si mesmo. Para mim, é suficiente entender que o número plural do substantivo expressa aqueles poderes que Deus exerceu ao criar o mundo. Ademais, reconheço que a Escritura, embora liste vários poderes da Divindade, todavia, sempre nos traz à memória o Pai, a Sua Palavra e o Espírito, como veremos em breve. Porém, aquelas absurdidades às quais aludi nos proíbem com sutileza de distorcer aquilo que Moisés simplesmente declara com relação ao próprio Deus, aplicando separadamente às Pessoas da Divindade. Isto, contudo, percebo como estando além de quaisquer controvérsias, que da circunstância peculiar dessa passagem, inscreve-se aqui um título atribuído a Deus, que expressa aqueles poderes que estavam anteriormente incluídos de certa forma em Sua essência eterna.[8]   

E a terra era sem forma e vazia. Não seria demasiadamente solícito com relação à interpretação destes dois epítetos תֹ֙הוּ֙ (tohu) e בֹ֔הוּ (bohu). Os hebreus os utilizavam para designar aquilo que era vazio e confuso, ou vão, ou destituído de qualquer valor. Indubitavelmente, Moisés colocou ambos em oposição a todos aqueles objetos criados que pertencem à forma, ao ornamento e à perfeição do mundo. Tendo nós excluído da terra tudo aquilo que Deus acrescentou posteriormente ao tempo aqui aludido, então teremos um caos bruto e ainda não trabalhado, ou, antes, um caos amorfo. Consequentemente, entendo aquilo que Moisés acrescenta logo em seguida, isto é, que “havia trevas sobre a face do abismo”, como uma parte daquele vazio desordenado: porque a luz começou a dar alguma aparência externa ao mundo. Por algum motivo, o autor chama isso de abismo e águas, uma vez que naquele amontoado de matéria, nada era sólido ou estável, e nada se podia distinguir. 

E o Espírito de Deus. Os intérpretes já lutaram com essa passagem de várias maneiras. A opinião defendida por alguns, de que essa expressão se refere ao vento é demasiadamente frígida para exigir de nós uma refutação. Aqueles que por ela entendem o Espírito de Deus estão corretos, todavia, não contemplam o sentido pretendido por Moisés em conexão com todo seu discurso; logo, surgem várias interpretações do particípio merachepeth. Em primeiro lugar, expressarei o que, segundo meu entendimento, Moisés pretendia com isso. Já ouvimos que, antes de Deus aperfeiçoar o mundo, este era um amontoado não organizado; porém, Moisés agora ensina que o poder do Espírito foi necessário para sustentá-lo. Pois, afinal, tal dúvida pode nos assolar a mente: como um amontoado desordenado poderia subsistir, uma vez que agora vemos o mundo preservado pelo governo ou ordem. 

Portanto, Moisés afirma que esse amontoado, embora confuso, foi tornado estável naquele momento pela eficácia secreta do Espírito. Ora, há dois sentidos possíveis para a palavra hebraica que se encaixam aqui: o Espírito Se movia e Se agitava sobre as águas a fim de produzir robustez; ou o Espírito chocava tais águas a fim de acalentá-las. Dado que pouca diferença faz ao fim e ao cabo a escolha por qualquer uma dessas explicações, deixemos livre o juízo do leitor. Mas se tal caos exigiu a secreta inspiração de Deus para prevenir sua célere dissolução, como poderia a presente ordem, tão clara e distinta, subsistir por si mesma, a não ser que derivasse sua força de outro lugar? Portanto, que se cumpra a Escritura: “Envias o teu Espírito, eles são criados, e, assim, renovas a face da terra” (Sl 104:30), por outro lado, tão logo o SENHOR retira Seu Espírito, todas as coisas retornam ao pó e se desvanecem (Sl 104:29). 

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Notas:
[1] Na tradução francesa : « La terre estoit vuide, et sans forme, et ne servoit a rien » –— “A terra era vazia, e sem forma, e sem utilidade alguma”.
[2] O termo possui um duplo sentido – 1 Criar a partir do nada, como se prova mediante a presente passagem – “No princípio”, uma vez que nada havia sido feito antes deles [do céu e da terra]. 2 Produzir algo excepcional a partir de uma matéria preexistente, tal como é dito posteriormente que Ele [Deus] criou os grandes animais marinhos [provavelmente as baleias](Gn 1:21) e o homem – Conferir Fagius, Drusius e Estius, na Sinopse de Poole.
[3] Inter profanos homines (no original latim) – Entre homens profanos.
[4] Steuchus Augustinis foi o autor de uma obra chamada De Perennie Philosophia, Lugfd., 1540, e é provavelmente o autor a quem Calvino se refere. A obra, todavia, é bem rara e provavelmente de muito pouco valor.
[5] A saber, em céus e terra.
[6] Neste ponto específico, o pensamento de Calvino evidencia o candor de sua mente e sua determinação em aderir estritamente àquilo que ele concebe ser o sentido das Sagradas Escrituras, independentemente da relação que possa ter com as doutrinas que ele sustém. Todavia, talvez seja justo direcionar o leitor que deseja examinar com profundidade o sentido da palavra אֱלֹהִ֑ים (Elohim) que se encontra no plural (e que é objeto de tantas controvérsias) e que traduzimos por Deus a algumas fontes de informação, a partir das quais ele, o leitor, pode formar seu próprio juízo a respeito do termo. Cocceius argumenta que o mistério da Trindade na Unidade está contido nessa palavra; vários outros escritores de reputação também adotam essa opinião. Outros, por sua vez, argumentam que, embora não seja dada nenhuma sugestão da Trindade na Unidade, ainda assim a noção de pluralidade das Pessoas está claramente implícita no termo. Para um relatório completo de todos os argumentos a favor dessa hipótese, pode-se consultar a obra do Dr. John Pye Smith acerca do testemunho escriturístico do Messias – uma obra de profunda erudição que se destaca pela dedicação paciente e pela análise que se desdobra de maneira sutil e reflexiva. Deve-se observar, contudo, que esse autor imparcial e diligente não se deparou com a objeção especial apresentada nessa passagem por Calvino, a saber, o risco de se cair involuntariamente no sabelianismo ao se tentar refutar o arianismo. (Nota do Editor).
[7] O erro de Sabélio (de acordo com Theodoret) consistia em sustentar “que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são apenas uma hipóstase e uma só Pessoa com três nomes”, ou, nas palavras do eminente erudito e historiador eclesiástico Dr. Burton, “Sabélio dividiu a Divindade Una em três, mas ele acreditava que o Filho e o Espírito Santo não tinham existência pessoal distinta, exceto quando trazidos à tona momentaneamente pelo Pai” – Cf. Burton’s Lectures on Ecclesiastical History [Palestras de Burton sobre História da Igreja], vol. 2, p. 365; e também sua Bampton Lectures, nota 103. Essas obras talvez irão auxiliar o leitor a entender a natureza do argumento de Calvino apresentado logo em seguida. Supondo que a palavra Elohim denota as Três Pessoas da Divindade no primeiro verso, ela também denota as mesmas Três Pessoas no segundo verso. Todavia, nesta passagem (isto é, o verso 2) Moisés diz que o Espírito de Elohim, isto é, o Espírito das Três Pessoas pairava sobre as águas. Sendo assim, a distinção das Pessoas se perde, pois o Espírito é Ele mesmo uma delas; portanto, consequentemente – segundo essa linha de raciocínio – o Espírito é enviado de Si mesmo. O mesmo raciocínio poderia provar que o Filho foi gerado por Si mesmo, pois Ele é uma das Pessoas de Elohim por meio do qual o Filho é gerado. (Nota do Editor).
[8] A interpretação dada acima com relação ao sentido da palavra אֱלֹהִ֑ים (Elohim) é corroborada pelas profundas investigações críticas do Dr. Hengstenberg, professor de Teologia na Universidade de Berlim, cujo trabalho, composto numa forma de certo modo nova, e intitulado “Dissertations on the Genuineness of the Pentateuco” [Ensaios sobre a autenticidade do Pentateuco], surge numa edição em inglês, sob a superintendência da Sociedade Continental de Tradução, enquanto estas páginas estão sendo editadas. Juntamente com outros críticos eruditos, ele conclui que tal palavra é derivada da raiz árabe “Allah”, que significa cultuar, adorar e ser tomado pelo temor. Hengstenberg, portanto, vê o título como especialmente uma descrição do terrível aspecto do caráter Divino. Com relação à forma plural da palavra, ele cita a afirmação dos rabis judeus segundo os quais o termo significa “Dominus potentiarum omnium”, isto é, “O SENHOR de todos os poderes”. O Dr. Hengstenberg se refere a Calvino e outros como tendo se oposto, ainda que seu efeito imediato, à noção sustentada por Pedro Lombardo relacionada ao mistério da Trindade. O erudito alemão também rejeita a sugestão profana de Le Clerc e seus sucessores da Escola Noológica de que o nome Elohim tem origem no politeísmo; e, em seguida, continua a mostrar que “há na língua hebraica um uso vastamente extenso do plural a fim de expressar a intensidade da ideia contida no singular”. Após numerosas referências, que provam esse ponto, ele dá sequência ao seu argumento: que, “se, em relação aos objetos terrenos, tudo aquilo que serve para representar uma ordem total de seres é trazido à mente mediante a forma plural, podemos antecipar uma aplicação ainda mais extensa desse método de distinção nos nomes de Deus, em cujo ser e atributos há, de maneira total, uma unidade que abrange e compreende toda a multiplicidade”. Ele ainda acrescenta: “o uso do plural possui o mesmo propósito que, em várias partes da Escritura, é realizado por uma acumulação dos nomes Divino; como em Josué 22:22; o triságio em Isaías 6:2 e הָֽאֱלֹהִ֔ים אֱלֹהֵ֣י (Elohey heelohym) e הָאֲדֹנִ֑ים אֲדֹנֵ֖י (Adonay Adonaym) em Deuteronômio 10:17. Este uso nos leva a dirigir nossa atenção às riquezas infinitas e à plenitude inexaurível contida no único Ser Divino, de forma que embora os homens possam conceber inúmeros deuses, investindo-os com uma série de perfeições, todavia, todas elas estão contido no único אֱלֹהִ֑ים (Elohim). Ver o supramencionado Dissertations, p. 268-273. Talvez seja necessário afirmar aqui que independente dos tesouros bíblicos que os escritos desse autor contenha – e, sem dúvida, são grandes tesouros –, ao leitor provavelmente será exigido manter alta a sua guarda quando da leitura da obra. Pois, não obstante a enérgica oposição geral do autor ao anti-supranaturalismo de seus conterrâneos, ele, entretanto, não escapou completamente do contágio daquilo que lutou para resistir. Pode haver ocasiões, portanto, nas quais será propício aludir a alguns de seus equívocos.

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Fonte: Christian Classics Ethereal Library
Tradução: Fabrício Moraes
Revisão: Leonardo Dâmaso
Divulgação: Bereianos
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O trabalho do Espírito Santo na criação dos céus e da terra

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Por Leonardo Dâmaso


Texto base: Salmo 33.6; 104.30

INTRODUÇÃO

Ao dissecar sobre a obra da trindade na criação de todas as coisas, o bom estudante das Escrituras se depara com assuntos que, por um lado, são incríveis e, por outro, são pouco conhecidos pela maioria esmagadora da igreja evangélica brasileira. Dentre estes assuntos pouco abordados, temos o papel que o Espírito Santo exerceu no passado, continua exercendo no presente, e ainda exercerá no futuro [na terra restaurada] na criação. 

Sendo assim, para que possamos compreender adequadamente como foi o trabalho do Espírito Santo na criação dos céus e da terra, conforme o relato de Gênesis 1 e 2, e de várias outras passagens da Escritura, é imprescindível esboçarmos uma distinção importante. 


Deus Pai é o criador – aquele que trouxe a existência os céus e a terra pela sua infinita sabedoria e poder. Deus Filho é o coordenador – aquele que organizou todo o processo da criação; que pôs em ordem todas as coisas. E, finalmente, Deus Espírito Santo é o aperfeiçoador – aquele que concluiu e preserva toda a criação em ordem.


Tendo observado o papel de cada pessoa da divindade no processo de criação, é importante ressaltar ainda mais detalhes específicos sobre o papel do Espírito Santo na criação dos céus e da terra, o que veremos a seguir.




EXPLANAÇÃO

1. A uniformidade do papel da divindade na criação

O trabalho de Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo no processo da criação dos céus e da terra não foi algo realizado em estágios sucessivos, onde Deus Pai planejou, Deus Filho executou e o Espírito Santo completou. A obra da criação não foi uma divisão de tarefas, pois, se fosse assim, não seria um trabalho apenas, mas três trabalhos distintos realizados por três pessoas separadamente. 


Não! Antes, o trabalho de Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo no processo da criação foi uma distribuição de tarefas de um mesmo trabalho executado por ambos.  

  
Por exemplo, na construção de uma casa ou apartamento, não temos duas ou mais obras a serem realizadas, mas apenas uma obra com distribuições de tarefas. Deixe-me elucidar ainda mais este exemplo. No processo de uma construção, o primeiro passo é o planejamento, ou seja, arquitetar a construção. 

Após o projeto de uma casa ou apartamento já estar feito, o segundo passo é a contratação dos pedreiros para começar a construção. E o terceiro passo é a decoração da casa ou apartamento, que geralmente é feita também pelos pedreiros, porém existem algumas exceções, onde decoradores específicos são designados para tarefas específicas. 


Na criação de todas as coisas, podemos notar semelhanças com o exemplo supracitado. Deus Pai foi o “arquiteto” da criação – aquele que planejou todos os detalhes. Deus Filho foi o “executor” da criação – aquele que esteve presente trabalhando em todo o processo. E Deus Espírito Santo foi o “decorador” da criação – poeticamente falando, aquele que “embelezou” os céus e a terra e tudo que nela há com a sua glória. Portanto, a criação dos céus e da terra foi um trabalho da divindade, porém com diferentes tarefas para Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo. 

  
2. A peculiaridade do papel do Espírito Santo na criação 

Conforme vimos, o Espírito Santo teve a sua participação na criação, e suas atividades estavam intimamente relacionadas com as atividades de Deus Pai e Deus Filho em todo o processo. Contudo, sua atividade principal começou somente depois da criação da matéria pela palavra de Deus, onde Ele deu origem à vida. 


Gênesis 1.2 demonstra primeiro a criação de toda a matéria, a animação e, por fim, a preservação da mesma, a qual é obra do Espírito Santo. Desse modo, senão vejamos alguns aspectos do trabalho específico da terceira pessoa da trindade na criação dos céus e da terra.


a) Pairava sobre a desordem 


Antes da criação da terra estar completa e em ordem para ser habitável, o Espírito Santo já estava presente desde o início em todo o processo. Em Gênesis 1.2, é dito que o Espírito de Deus ou o Espírito Santo pairava sobre a face das “águas”, ou, literalmente, do abismo. 


“O texto hebraico mostra que o trabalho do Espírito Santo se movendo sobre a face das águas era semelhante àquele de uma ave que, com as asas estendidas, paira sobre seus filhotes para cobri-los e afagá-lo. A figura implica que não apenas a terra existia, mas também os germes de vida estavam nela e que, o Espírito Santo, impregnando esses germes, fez com que a vida existisse, a fim de conduzi-la ao seu destino”.[1]   

   
b) Criou e dispôs os céus e a terra

No Salmo 33.6, vemos descrito que o Espírito Santo criou os céus e o exército deles. A primeira expressão do versículo diz: Os céus por sua palavra se fizeram; e a segunda afirma: ... e, pelo sopro [Espírito] de sua boca, o exército deles [sol, lua e estrelas]


Na poesia hebraica, expressões paralelas denotam o mesmo sentido, porém de maneiras diferentes. Desse modo, nessa passagem, os termos palavra e Espírito (sopro), possuem o mesmo significado. O termo Espírito, no entanto, enfatiza apenas a peculiaridade do trabalho do Espírito Santo na criação. 


Refere-se não à criação da matéria da qual o sol, a lua e as estrelas foram compostos, mas da glória que eles refletem. Esta glória é obra do Espírito Santo. Assim, o Salmo 33.6 aborda a criação, a natureza dos céus e, por conseguinte, o seu desenvolvimento, o qual é realizado pelo Espírito Santo.


c) Proporcionou vida à criação animal 


Gênesis 1.24-25 relata a criação dos animais e suas diferentes espécies. Foi obra do Espírito Santo outorgar vida aos animais. Foi Ele que produziu vida aos animais domésticos, como cães e gatos; aos répteis, aos animais selváticos, dentre outros. 


d) Chamou o homem à existência  


Sabemos que as três pessoas da divindade estavam presentes em todo o processo da criação dos céus e da terra. Entretanto, produzir vida ao homem foi tarefa essencial do Espírito Santo. Gênesis 2.7 salienta que após criar o homem Adão do pó da terra, Deus soprou em suas narinas o fôlego de vida. Esta vida, portanto, é a vida biológica que o Espírito Santo insuflou em Adão. 


Não obstante, Jó 33.4 e o Salmo 104.30 destacam mais claramente o trabalho do Espírito Santo na criação. Jó afirma que o Espírito Santo teve um papel específico na formação do homem. O Salmo 104.30, por sua vez, declara que Ele realizou um trabalho similar na criação dos animais em geral. 


A expressão envias o teu Espírito, eles são criados, não faz alusão aos homens, mas a diversidade dos animais que foram criados, os quais são mencionados nos versículos 25-29. Logo, o salmista está se referindo aos animais e sua preservação, e não à criação e preservação dos homens. 


O Salmo 104.30 acentua que, apesar da matéria e o modelo do qual os animais foram criados já estivessem em pauta no conselho trinitariano, ainda assim era indispensável o trabalho do Espírito Santo para ocasionar a existência deles. Todavia, para melhor compreensão do assunto em voga, é importante demarcar a seguinte observação: 


Jó, no capítulo 33.4, não sinaliza a criação do primeiro homem, Adão, mas simplesmente a criação de um homem. De modo semelhante, no Salmo 104.30, o salmista também não enfatiza a primeira criação dos animais; antes, ele se referiu aos animais que nadavam no mar no momento em que compunha o Salmo. É bem provável que o salmista estivesse na beira do mar nessa ocasião em uma introspecção. 



CONCLUSÃO
   
Diante de tudo o que foi proposto, entendemos que o Espírito Santo teve um papel singular na obra da criação. Sendo assim, três considerações finais precisam ser destacadas acerca do caráter da obra do Espírito Santo na criação dos céus e da terra. 

1) O ato do Espírito pairar sobre a terra vazia, descrito em Gênesis 1.2, aponta que o seu trabalho era trazer à existência a vida escondida na terra ainda inabitável e inacabada, ou seja, transmitir vida à toda matéria que seria criada, como o homem, os animais, as plantas, os luminares, e outros.


2) Além de trazer à existência a vida secreta, o caráter do trabalho do Espírito Santo na criação consiste em fazer com que a beleza da glória divina escondida se revele em toda a criação, ativando, assim, a capacidade da criação de se reproduzir. Podemos utilizar como exemplo de reprodução da beleza divina as plantas, os animais, os luminares, as estações do ano, etc. 


3) Não existe uma tricotomia na obra da criação. Não podemos fazer uma separação de trabalho. Juntamente com Deus Pai e Deus filho, o Espírito Santo também planejou, geriu e coordenou toda a obra da criação.  


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Nota:
[1] Abraham Kuyper. A obra do Espírito Santo, pág 66-67.         

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Fonte: Bereianos
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