Por que somos contra o casamento gay?

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União homossexual é um tema sempre polêmico que evoca emoções diversas em todos os lados do debate. Quais as bases filosóficas, porém, daqueles que são contra o casamento gay? Eles odeiam os homossexuais? Eles espancam gay na rua? Eles são contra que negro seja livre e contra direito de voto para mulheres? No vídeo de hoje, tentamos expor os motivos que nos levam a crer que o casamento gay seja prejudicial para a sociedade e até para os próprios homossexuais. Assista:



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Fonte: Dois Dedos de Teologia
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Olavo, os protestantes e a falta de filtros: que nos sirva de lição!

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Quem é meu amigo ou me acompanha nas redes sociais sabe que já fiz inúmeras ressalvas ao Olavo de Carvalho. Sempre que eu publicava uma ressalva, os seus admiradores vinham colocar a minha postagem em xeque. Para aqueles que repetem o mantra “Olavo tem razão”, o óbvio de minhas ponderações sempre passou despercebido. Mas agora a coisa mudou, e uma enxurrada de textos falando mal do “Professor” apareceu na minha timeline. O mais cômico é ver essa postura de quem antes o defendia com unhas e dentes, mesmo quando o mesmo não era atacado, apenas questionado. O que mudou?

O Srº Olavo começou a postar muitas frases e questionamentos em defesa do catolicismo. Até aí tudo bem, ele é católico. O problema foi quando ele disse que os protestantes mataram mais que a Inquisição Católica (cadê as fontes “Professor”?), que a Inquisição é invenção dos protestantes, quando disse que o protestantismo foi concebido por dois filhos da p*t# e quando agrediu a doutrina da predestinação. Logo, nossos pastores começaram a vociferar contra o pensador e, como dizem os pernambucanos, só não o chamaram de arroz doce. Todavia, o que me deixa intrigado é que só agora perceberam que o Olavo de Carvalho é alguém que traz certo prejuízo a cosmovisão reformada. Cegueira? O que a provocou, então?

Tenho arquivado alguns print’s de frases ditas pelo Srº Olavo que são uma afronta ao que nós, do segmento protestante, acreditamos em matéria de fé e de ética. Coletei seus dizeres para referendar um texto que cogitei escrever. Meu objetivo era demonstrar que o Olavo de Carvalho não deveria ser tão recomendado para os nossos jovens, pois, seus ensinos iriam confundir aqueles que ainda não tem uma base solidificada. Tanto é que depoimentos de jovens protestantes que se converteram ao catolicismo e deram graças ao “Professor” são até compartilhados na internet (como este aqui). Desisti do texto devido a um imbróglio entre o próprio Olavo e o Júlio Severo e não quis que as pessoas associassem o meu escrito como sendo partidário de um dos lados desta briga. Agora, também acredito não precisar usar os print’s, pois, todos viram a face do Olavo que teimavam ou não queriam enxergar. Ora, que face é essa?

Antes de mais dada, gostaria de dizer que não me refiro a nenhuma obra literária do Olavo, mas sim a sua atuação na internet, quer nas redes sociais, quer em vídeos no YouTube. A face que nunca admirei e nem recomendei pode ser vista na sua página, recheada de pornofonia. Outra coisa: a imagem que ele tem de si (do seu conhecimento) é extremamente narcisista e seus vídeos que tratam de filosofia possuem um viés que, para os que confessam os credos reformados, não coadunam com o pensamento calvinista. Como disse Schaeffer: “a Reforma repudiou tanto a formulação aristotélica quanto a neoplatônica”[1]. E são exatamente estas formulações que o Olavo utiliza para desenvolver seu raciocínio filosófico. Um vídeo curto de seis minutos mostra a concepção dualista do Olavo, onde ele diz que “a lei moral visa à salvação da alma e não visa a sua conduta neste mundo. O evangelho não ensina como você organizar a sociedade, como que se deve ter uma sociedade mais produtiva, uma sociedade justa...não! O evangelho está alheio a isso, ele está interessado na salvação da sua alma meu filho”[2]. Recorro a Schaeffer mais uma vez para mostrar que esta posição é equivocada:

A verdadeira espiritualidade abrange toda a realidade. Há coisas que a Bíblia nos mostra como pecaminosas – as quais não estão de acordo com o caráter de Deus. Mas, tirando isso, o senhorio de Cristo toda a vida e toda a vida igualmente. Isto é, a verdadeira espiritualidade abrange não somente toda a vida, mas abrange todas as partes do espectro da vida igualmente. Neste sentido, não há nada na nossa realidade que não seja espiritual.[3]
Muito diferente era, e é a perspectiva bíblica sustentada pela Reforma. Não é uma concepção platônica. A alma não é mais importante que o corpo. Deus criou o homem no seu todo e o homem todo é importante. A doutrina da ressurreição corpórea dos mortos não é coisa superada, anacrônica. Ela nos diz que Deus ama o homem todo e que o ser humano é importante em sua totalidade. Portanto, o ensino bíblico se opõe ao platônico, segundo o qual a alma (o “superior”) é muito importante enquanto que o corpo (o “inferior”) fica com bem reduzida importância. A concepção bíblica opõe-se de igual modo à posição humanista em que o corpo e a mente autônoma assumem grande relevância mas a graça se faz praticamente destituída de significação.[4]

Até aqui pode parecer bobagem tudo isso, pois, por não ser protestante, obviamente que o Olavo não teria que afinar suas ideias com o calvinismo em sua totalidade. Evidente que não! Contudo, diante de toda a recomendação não filtrada feita por pastores e teólogos às obras dele, muitas destas recomendações recheadas de entusiasmo, e que concediam um status quo de mito para o Olavo, acabaram por seduzir muitos jovens despreparados para a idolatria. Quando falo sobre idolatria não me refiro a voltarem à devoção aos santos praticada pelos romanistas, pois, não foram todos que se tornaram católicos ao ouvirem o “Professor”, falo de idolatrarem a pessoa do Olavo, isso tudo por terem uma visão não amadurecida tanto da fé como da política.


A maioria das pessoas conhecem o Olavo de Carvalho da internet e sua atuação contra o marxismo, principalmente seu posicionamento anti-petismo. Essa afinidade fez com que muitos não atentassem para as outras questões supra elencadas. O equívoco dos protestantes é achar que “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”. O fato do Olavo falar muitas verdades sobre as demandas diabólicas do marxismo não deveria fazer dele um pensador de referência para os cristãos reformados. Afinal, temos ou não temos bons pensadores e teóricos políticos dentro da tradição calvinista? Claro que temos, mas vivemos carentes de referências mais “famosas”, digamos assim. Vejo reformados publicando diversos vídeos de criaturas como o Silas Malafaia, que é herege de primeira categoria. Geralmente a saída para este comportamento é uma frase que assim diz: “Não concordo com a teologia do Malafaia, mas estou com ele no posicionamento político”. Por mais que ele tenha dito coisas corretas contra o Governo e os militantes esquerdistas, ele não deixa de ser um corruptor da Escritura Sagrada, assim sendo, não deveríamos associar a sua imagem a nossa. Com o Olavo não pode ser diferente. Se ele, ou outro, diz algo que seja verdadeiro, isso não é o suficiente para que eu compartilhe suas falas. Nós mesmos poderíamos dizer o que tais homens dizem em sua essência - se assim cremos - sem ter que remeter a nossa imagem com personas que não são espelhos da piedade cristã. Lembrando que uma vida piedosa é uma evidência dos eleitos, que são chamados para as boas obras.

Sempre quando via pastores e outros cristãos reformados compartilhando vídeos e frases contendo palavrões (sem levar em conta a questão do decoro) apenas por ter sido uma fala que politicamente se alinhava com a sua, meu coração doía. Mais dorido ainda era ver nossos jovens, que infelizmente não leem homens como Schaeffer, Kuyper, Dooyeweed, para solidificar sua cosmovisão reformada, sendo doutrinados pelo Srº Olavo, que por mais conservador que seja – politicamente falando – não é nem de longe um bom referencial. Podemos dizer que o Olavo de Carvalho teve e tem sua relevância política, e que as suas obras não precisam ser (de um todo) rechaçadas. Mas, apelo aos pastores que aprendam a lição e filtrem suas recomendações às suas ovelhas. Não esqueçam que ensiná-las a cosmovisão abrangente do calvinismo é um dever ministerial. Negligenciar isto e ficar recomendando pensadores X ou Y sem as devidas ressalvas pode causar um estrago pior do que se imagina. Que isso tudo nos sirva de lição! 

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Notas:
[1] A Morte da Razão, p. 15.
[2] https://www.youtube.com/watch?v=hKOCtCgn2-I
[3] A Igreja no século 21, p.233.
[4] A Morte da Razão, p. 13. 

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Autor: Thiago Oliveira
Fonte: Electus
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Por que sou contra o aborto

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Poucas coisas nesse mundo causam-me desgosto. Por assumir uma visão normativamente negativa da humanidade, acredito que a existência e a prática de atos deploráveis são possíveis aos homens, em qualquer época e lugar, religião ou filosofia, por qualquer razão ou falta dela, a quem quer que seja por quem quer que for. E isso é claramente demonstrado na experiência humana, seja nos livros de história ou nas histórias do Datena. Num mundo com claras tendências ao mal, tenho a convicção de que a maldade do homem pode ser manifesta de diferentes modos e a qualquer momento. Entretanto, a questão da luta pela liberdade do aborto me causa um amargo desgosto.

Eu não consigo entender como alguém teria condições morais para defender o aborto como uma questão de liberdade do indivíduo. Eu acredito que para encontrar qualquer consistência nesse tipo de argumento, a dessensibilização da consciência e a desumanização da vida são fundamentais. Entretanto, essas são duas coisas que não consigo fazer.

Para dessensibilizar a consciência desse modo é necessário abraçar alguma forma de niilismo, ou talvez alguma forma extremada de hedonismo, a ponto de considerar como válido apenas o desejo do ego em detrimento da existência de um ente, que por sua fraqueza precisa ser destituído de qualquer direito, vez ou voz. Por isso, pouco importa o que [ou melhor quem] é que perde o direito a vida, o que realmente importa é que indivíduo não perca a possibilidade da liberdade dos encargos da maternidade.

Para desumanizar a vida desse modo é necessário acreditar que existem diferentes tipos de vida, e que os estágios mais embrionários da vida são na verdade não humanos. Um embrião pode até ser considerado como vivo, mas não goza do status de humano. Por isso, exterminar a possibilidade de vida fora do útero de um embrião não pode ser classificado como um assassinato.

Como já disse, essas são premissas que eu não consigo assumir. Não consigo encontrar argumentos que sejam suficientes para suportar a validade moral dessas premissas. E é por isso que eu sou contra o aborto.

Por que Sou Contra o Aborto

Partindo da cosmovisão cristã, posso afirmar que sou contra o aborto por que eu acredito na dignidade da vida humana, independente do tempo de existência. De acordo com o Cristianismo, a vida humana é marcada pela dignidade que lhe foi atribuída por seu Criador (Gen 1:26, 27a, b; 9:6). Tal dignidade é descrita nos termos da Imago Dei (imagem de Deus), que em última análise reflete a dignidade do Criador. Não importa qual é o estado de rebelião do indivíduo em relação a Deus, sua vida é ainda marcada pela dignidade derivada da criação. É por isso que o assassinato, em qualquer forma, é deplorável diante dos valores morais do Cristianismo.

Eu sou contra o aborto porque acredito na humanidade da criança não nascida, desde os mais embrionários estágios da vida. As escrituras tratam da criança não nascida como pessoas (Gen. 25:22; Jer 1.5; Sal 22:9-10; 71:6), a ponto de serem consideradas como filhos mesmo antes do seu nascimento (Lc 1.36, 41, 44). Nas escrituras, a criança não nascida é frequentemente descrita como os mesmos termos que descrevem um criança já nascida, o que sugere que não existe diferença essencial entre elas (Gen. 38:27-30; Jo 1:21; 3:3, 11-16; 10:18-19; 31:15; Sal.51:5; Isa. 49:5; Jer. 20:14-18; Os. 12:3; Lc 1:15; Rom. 9:10-11). É por iso que o aborto é considerado como assassinado do ponto de vista da cosmovisão cristã.

Eu sou contra o aborto porque o sou contra a morte de crianças inocentes. Do ponto de vista do Cristianismo, a morte do inocente é deplorável (Gen 9.6; Exo 23.7; Deut 19.10-11; 27.25; Prov 6.16-19), e no caso do aborto, a criança é penalizada com morte pelo simples fato de existir. Ela não é culpada de sua existência, ainda que com ela grandes desafios venham a existir. Do ponto de vista do Cristianismo, a vida é sagrada (Gen. 1:26–27; 2:7; Deut. 30:15–19; Jo 1:21; Sal. 8:5; 1 Cor. 15:26), em especial a vida das crianças (Sal. 127:3–5; Lc 18:15–16).

Eu sou contra o aborto porque acredito que o direito a vida da criança não nascida é maior que o direito da liberdade da mãe. A partir do momento que entendemos a criança não nascida como humana, seu direito à vida é superior ao direito da liberdade da mãe. Nas escrituras, o direito da criança é garantido na lei (Deut. 14:29; 24:17–21; 26:12–13; cf. 16:11, 14) ao mesmo tempo que o assassinato de crianças não nascidas é visto como o mais desumano e cruel dos atos dos homens ímpios (2Re 8:12; 15:16; Os. 10:14–15; Na. 3:10; cf. Mat. 2:16).

Eu sou contra o aborto porque acredito que a criança não nascida não é parte da constituição do corpo da mãe. Na verdade a criança não nascida tem um código genético distinto da mãe, um sistema imunológico distinto do da mãe e em muitos casos um tipo sanguíneo e gênero distinto da própria mãe. Nas escrituras a criança não nascida nunca é confundida com a mãe, ou apresentada como parte do corpo da mãe.

Uma Visão Retrógrada desde a Antiguidade

Talvez você tenha lido até aqui e concluído que a visão cristã da dignidade da vida humana, mesmo em sua forma mais embrionária, seja retrógrada, ultrapassada e sem lugar no diálogo sobre o aborto nos nossos dias. E talvez você tenha razão: O cristianismo defende mesmo uma opinião antiga, ultrapassada e a cada dia que passa tem seu lugar reduzido no diálogo sobre a dignidade da vida humana. Mas, historicamente, nós cristãos estamos acostumados com isso. No que se refere ao chamado “direito” ao aborto, o monoteísmo judaico-cristão é considerado ultrapassado há muito tempo.

Os filósofos da Grécia não me deixam mentir aqui. De acordo com as leis de Sólon em Atenas (638-558 a.C) os pais tinham o direito de condenar seus filhos à morte em qualquer momento de suas vidas (Sextus Empiricus: Hyp 3,24; Hermógenes: De. Invent. I.1). Entre os escritores clássicos não era incomum encontrar ilustrações desse fato, e que também não era incomum que o aborto fosse realizado por meio de substâncias químicas (ἀμβλωθρίδιον; cf. Ph.1.59; Poll.2.7; Aret.CA2.11). Platão (427-348 a.C.), por exemplo, defendia que uma sociedade forte seria construída de modo análogo a criação de animais: “Se quisermos manter nosso rebanho no mais alto grau de excelência, deve existir o maior número de união possível entre o melhor dos animais de ambos os sexos (…) Aqueles que tem pais de uma ordem inferior, e qualquer criança dentre eles que sofra de alguma deformidade serão mortos de um modo misterioso, e colocados em um lugar desconhecido, como deve ser.” (Republic 460B). Aristoteles (384-322 a.C.) também defendia que a decisão entre criar ou matar uma criança deveria ser tomada com base na deformidade da mesma, e dizia: “que deveria existir uma lei que afirmasse que nenhuma criança com deformidade tem direito a vida (…) quando um casal tiver filhos em excesso, que eles realizem o aborto antes dos sentidos e da vida começar” (Politics 7.14). Já no primeiro século da era cristã, Hilarion escreve uma carta para sua esposa Alis, na qual ele afirma: “Se porventura você engravidar, e se for um menino, deixe que ele viva. Mas se for uma menina, jogue-a fora” (P.Oxy 744).

Similarmente, em Roma o mesmo direito existia, mas com algumas ressalvas. De acordo com Dionísio de Halicarnasso (I sec a.C.), o historiador grego, existia em Roma uma lei que proibia a morte de qualquer criança antes dos três anos, pois a expectativa era que esse tempo permitisse aos pais desenvolver algum tipo de afeto pela criança antes de encerrar sua vida (Roman Antiquities 2.15). Até mesmo Sêneca (4a.C.-65d.C.), o ético e estóico escritor, partilhava desse sentimento e dizia: “Os cachorros loucos, nós esmurramos a cabeça; o animal feroz e selvagem nós matamos; as ovelhas doentes nós matamos com faca para proteger o rebanho; o descendente desnecessário nós destruímos; até mesmo afogamos as crianças que no nascimentos parecem fracas ou anormais” (On Anger I. 15.2). De acordo com Sêneca, o que movia os romanos ao nobre ato de assassinar seus descendentes não era a raiva, mas a razão. De acordo com Sêneca, a morte de um filho não desejado era um ato em conformidade com a razão. Agora, a razão em si não era a única razão pelo qual os romanos eram inclinados a assassinar seus próprios descendentes. Na verdade, as razões para tal prática eram as mais diversas, e um pai poderia assassinar seus filhos pelo simples fato de considerar ter filhos o suficiente (Longus, Pastor 4). Aliás, foi Cornélio Tácito (55-120 d.C.), o historiador romano, que ao investigar o comportamento dos judeus os ridicularizou por descobrir que eles condenavam tanto o aborto quanto o infanticídio: “Entre ele é um crime matar crianças recém nascidas” (Histories, 5.5).

Outro Fundamento, Outro Ponto de Vista

Os fundamentos éticos, morais e intelectuais do judaísmo estavam em franca oposição a visão apresentada pelos filósofos e historiadores greco-romanos. Por outro lado, os judeus não partilhavam da mesma visão apresentada por esses filósofos e historiadores greco-romanos. Os fundamentos éticos, morais e intelectuais do judaísmo estavam em franca oposição a eles. De acordo com Flávio Josefo, o povo judeu é um povo que tem orgulho em “criar seus filhos e fazê-los guardar as leis preservando a piedade tradicional, que de acordo com eles é a mais importante das tarefas nessa vida” (Apion 1.60), afinal, de acordo com Josefo, a lei “deu ordens para cuidar de todas as crianças” (Apion 2.202). Digno de nota que nas duas passagens Josefo reage contra a prática Greco-Romana de abandono de crianças e do infanticídio, demonstrando que ambas as práticas eram consideradas anátema entre os judeus. Entre eles, “uma mulher não poderia matar a crianças não nascida ainda em seu ventre, nem ainda após o seu nascimento entregar aos cães ou a aves de rapina” (Ps.Phocydes). De acordo com Filo de Alexandria, o abandono de crianças era proibido entre os judeus em função de que “tal ato de impiedade tornou-se comum entre as outras nações, devido a sua desumana natureza” (Spec.Laws 3.111). Pouco à frente Filo ainda afirma: “Que os pais que privam seus filhos de todas as bênçãos, não dividindo com eles nada no momento do nascimento, que eles saibam que estão violando as leis da natureza, e que apesar de atribuírem a tal grandeza  ao amor ao prazer, eles odeiam sua própria espécie, e são assassinos, que executam o modo mais cruel assassinato, o infanticídio” (3.112). De acordo com Filo, a santa lei detesta aqueles que conspiram contra crianças, e os considera dignos de estrita punição (3.119).

De fato, o judaísmo era conhecido no mundo antigo por sua condenação do aborto e do infanticídio. A razão para tal visão da dignidade da vida humana mesmo em seu estágio embrionário, é que o ethos judaico era definido pela Lei Divina, que proibia qualquer tipo de sacrifício de crianças (Ex 13:13; Lev 18:21; 20:1-5; Num 18:14) e ao mesmo tempo reconhecia que a criança ainda no ventre de sua mãe era um ser humano (Gen 25:22-24; Ex 21:22-25; Jer 1:5). Aliás, de acordo com o AT, o próprio Deus zela pelas crianças e recompensa aqueles que as protegem (Ex.1:15-21; 2:6; Eze 16:3-6).

Diferente de outras civilizações do Oriente Médio Antigo, a legislação de Israel nem se quer menciona o caso do aborto. Por exemplo, nas Leis Assírias (1200 a.C.) encontra-se uma série de instruções relacionadas a morte de crianças não nascidas divididas em duas categorias: (1) A morte acidental da criança, vítima de um terceiro seria resolvida por meio do pagamento de um dívida. Caso a mãe viesse a morrer, o acusado pelo acidente teria o mesmo destino (A§50-52); (2) Por outro lado, se a mãe, por razões próprias decidisse terminar com a gravidez, ela também sofreria o mesmo fim, sendo empalada sem direito de ser enterrada (A§53; cf. COS II:281-2). Na legislação de Israel nós encontramos situações similares à primeira categoria mencionada nas leis assírias, entretanto, não encontramos qualquer paralelo para a segunda. Em outras palavras, a ideia do aborto era tão estranha entre os judeus, que a legislação de Israel nem sequer contemplou uma possível punição para o mesmo.

O Cristianismo é veementemente contrário ao abandono de crianças, o infanticídio e o aborto desde o estágio mais embrionário da fé cristã.

Por isso, não era surpreendente que o Cristianismo, desde o mais embrionário estágio, fosse veementemente contra o abandono de crianças, o infanticídio e o aborto. De acordo com o antigo documento cristão conhecido como Didaque (50-100d.C.), na sessão de pecados absurdos a serem evitados, nós lemos: “não assassinarás a criança por meio do aborto, nem matarás a criança já nascida” (2.2). Na epístola de Barnabé (70-130 d.C), seu autor instrui os cristãos no caminho da luz, e para permanecer nele, o cristão “não matará a criança por meio do aborto, nem a destruirá depois de seu nascimento” (19.10). Ao descrever os cristãos, o autor da carta a Diogeneto disse: “Eles se casam como todos os outros homens, e tem filhos. Mas eles não abandonam os seus filhos” (Ep.Dio. 5.6). Atenágoras de Atenas (133-190d.C.) já dizia que “aquelas mulheres que usam drogas para induzir o aborto cometem assassinato e precisarão prestar contas a Deus desse aborto” (Supplicatio 35). Pouco antes, Atenágoras também responde aos que acusam  os cristãos de assassinar seus filhos dizendo que “o mesmo homem não pode proibir o abandono de crianças, ao equiparar tal atitude ao infanticídio, e então assassinar a criança que tem quem dela possa cuidar” (Supplicatio 35). Minucio Felix (150-270d.C.), respondendo à mesma acusação afirma que “ninguém acredita em tal acusação, mas sabemos quem é capaz de tal crime. Entre vocês eu vejo recém nascidos eventualmente abandonados e entregues às feras e pássaros, ou violentamente estranguladas em uma morte certamente dolorosa” (Octaviuss 30.1, 2).

Justino Mártir (110-175) escreve: “No que se refere a nós, nos foi ensinado que o abandono de crianças recém nascidas é a ação do ímpio. Isso nos foi ensinado para que não causemos a ninguém qualquer tipo de lesão, ou venhamos a ser culpados de tão ímpia conduta” (First Apology I.27.1-2). Tertuliano (155-240d.C.) já afirmava que “a lei de Moisés, na verdade, pune com o devido rigor, o homem que causar um aborto, baseado no fato de que ali já existe o rudimento de um ser humano” (Treasure on the Soul, 37). Em outro livro, Tertuliano também responde a seus acusadores sobre o cristianismo e pergunta: “Quantos dos os seus líderes, notáveis por sua justiça com vocês e pela severa administração para conosco, devo eu acusar de acordo com a consciência deles com o pecado de assassinar seus próprios filhos? No que se refere a diferença de gravidade do assassinato, esse é certamente o modo mais cruel de matar afogando [o recém nascido], ou o abandonando no frio, com fome e aos cachorros. (…) No nosso caso, entretanto, uma vez que o assassinato em todas as suas formas é proibido, nós não destruímos nem mesmo o feto no ventre de sua mãe” (Apology, 9).

Outro Ponto de Vista, Outro Modelo

Com fica evidente, o desprezo e descaso pela criança faz parta da história da humanidade. Nos nossos dias, entretanto, a idade com que as matamos, ou as razões que usamos para justificar tal ato, são diferentes, mas o desprezo e o descaso com as crianças continuam entre nós. Entre os filósofos gregos, o fortalecimento da sociedade justificava a morte de crianças fracas. Para eles, era melhor entregar uma criança que sofria de deformidades aos cães do que criar tal aberração. Entre os romanos, a razão e a sensibilidade eram os motivos para o assassinado a sangue frio de crianças, nascidas ou não. Contudo, em nossos dias alguns defendem que o assassinato de crianças não nascidas seja definido pela liberdade do indivíduo. Em outras palavras, eles querem que a decisão entre vida e morte seja entregue à mães que rejeitam sua maternidade, a indivíduos que valorizam o seu corpo, o seu trabalho, a sua carreira enquanto desprezam a vida dos seus próprios descendentes. Pessoas cuja consciência foi dessensibilizada a ponto de conseguirem desumanizar a vida dos seus próprios filhos.

Entretanto, o Cristianismo se opõe radicalmente a essa visão de mundo por que o motivo que os move é o amor. Amar ao outro sempre fez parte do monoteísmo judaico-cristão, mesmo quando esses não foram exemplares no exercício de suas responsabilidades. Entretanto, os cristãos não são apenas convidados  a amar o outro, mas a amá-los do mesmo modo que seu mestre os amou (Jo.13.34-35). Os cristãos são convidados por Cristo a amar aqueles que deles discordam e orar por aqueles que os perseguem (Mt.5.44). Como Jesus Cristo, o mestre maior dos cristãos, eles valorizam e respeitam as crianças (Mt.19.14; Lc.18.16), por que sabem que quando assim o fazem, eles valorizam e respeitam o próprio Cristo (Mt.18.5). Para o cristão, servir, amar, proteger aqueles que não tem vez ou voz é um ato de amor expresso ao próprio Cristo (Mt.25.35-40). É por isso que os cristãos são contra o aborto, criam orfanatos para cuidar de crianças abandonadas, prestam assistência as crianças nas ruas, prestam assistência a mães que precisam de ajuda e lutam pela voz e o direito das crianças não nascidas. Aliás, valorizamos aqueles que não tem vez ou voz desde os momentos mais embrionários da fé cristã.

Em outras palavras, a tradição Cristã sempre foi contrária ao abandono de crianças, do infanticídio e do aborto, por que os cristãos acreditavam que a beleza e a dignidade da vida superam o desastre da morte, em especial o do assassinato.  Eles valorizavam as escrituras e acreditavam que os valores morais apresentados nela eram de fato corretos, como foi também claramente ilustrados pelo próprio Cristo.

E o mesmo não é diferente comigo. Eu acredito que as escrituras apresentam os valores morais defendidos por Deus, e com ela afirmo que sou contra o aborto, infanticídio e o abandono de crianças. Pouco me importa se vier a ser rotulado como antiquado, retrógrado ou religioso por aqueles que acredito serem assassinos de crianças ou coniventes com tal atrocidade. Do ponto de vista da cosmovisão cristã, é aqui que me encontro, contra o aborto e em oposição aqueles que o valorizam.

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Autor: Marcelo Berti
Fonte: Teologando
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Cosmovisão Reformada (3/3) - Redenção

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REDENÇÃO

A restauração da criação exigirá um trabalho inspirado pelo Espírito Santo de construção de instituições de cuidado e de hábitos revitalizantes.

Que amor é esse que assume tais riscos?

O Deus do pacto de Israel e Pai de Jesus Cristo é um Criador pródigo e inventivo, que – no que pode nos parecer quase loucura – confiou o cuidado e o desenvolvimento[1] da criação a nós, Suas criaturas, comissionadas como portadoras de Sua imagem.

Comissionados e dotados de forma a cumprir essa missão de cultivo da imagem de Deus, nós trabalhamos e descansamos, fazemos amor e arte, cultivamos a terra e transformamos seu fruto no pão nosso de cada dia ao mesmo tempo em que concretizamos nossos sonhos mais extravagantes em catedrais e arranha-céus. Essa criação da cultura de portador da imagem [de Deus] será mais frutífera quando tomar para si a responsabilidade do grão do universo – isto é, quando nosso trabalho e lazer forem semeados nos “sulcos” das normas vivificantes de Deus.

Portanto, a criação vem acompanhada de uma missão e uma vocação. Sermos portadores da imagem de Deus é uma tarefa e uma responsabilidade confiada às criaturas. Se Deus criou a partir do e para o amor, então Ele também nos criou com o convite para amar o mundo e, desse modo, promover o seu – e o nosso – florescimento.

Contudo…

Nós confessamos – e muito frequentemente experienciamos – uma ruptura nessa alegre visão do amor criativo. Embora o amor autossacrificial de Deus nos tenha confiado o cuidado e cultivo de Sua criação, a humanidade tomou posse disso como se fosse um direito seu, ao invés de recebê-lo como uma dádiva. Dessa forma, nossa missão de desenvolver o potencial latente na criação acabou assumindo a forma de um invencionismo irrestrito ao invés da co-criação normatizada. Embora esse impulso criacional pela poeisis[2] não poderia ser suprimido ou apagado, o bom impulso criacional de fazer foi distorcido e mau direcionado: ao invés de fazer amor, fizemos guerra (e mesmo agora quando fazemos amor, estamos propensos a fazê-lo de formas que vão contra aquilo que é, de fato, bom para nós). Longe de cultivarmos a terra, nós criamos sistemas inteiros que a espoliam avidamente. Longe da criação normatizada, a humanidade se encontra propensa à transgressão licenciosa. Falhamos em conduzir adiante a missão que fora confiada a nós como portadores da imagem de Deus.

Mas ainda assim…

Nosso bom Criador não nos abandonou aos nossos próprios planos. Apesar de termos rompido a plenitude do amor criativo, nosso Deus complacente também rompeu nosso céu de bronze, juntamente com nosso desejo de nos fecharmos na imanência, ao manifestar-Se na carne – a nossa carne – como a imagem do Deus invisível. Jesus de Nazaré apresentou-Se como o segundo Adão, sendo nosso modelo daquilo que significa cumprir a missão original de cultivo da imagem [de Deus]. A Palavra se fez carne, não para salvar nossas almas de um mundo caído, mas, sim, para nos restaurar como amantes deste mundo – para nos (re)habilitar a cumprir aquela comissão criativa. De fato, Deus nos salva para que – novamente, numa espécie de loucura divina[3] – possamos salvar o mundo, para que possamos (re)fazer o mundo corretamente. E o amor redentor de Deus transborda em seus efeitos cósmicos, dando esperança à essa criação que geme em angústias.

Portanto, nossa redenção não é uma espécie de suplementação ao ser humano; na verdade, a redenção é o que possibilita que alguém seja realmente humano, e assim cumprir a missão que nos caracteriza como portadores da imagem de Deus. Irineu de Lyon apreende essa questão de forma sucinta: “A glória de Deus é um ser humano vivendo em plenitude” [4]. A redenção não acrescenta descabidamente uma espécie de anexo espiritual, nem nos liberta da condição humana a fim de alcançarmos um estado angelical. Pelo contrário, a redenção é a restauração de nossa humanidade, e a nossa humanidade está inseparavelmente ligada à nossa missão de sermos os criadores de cultura, sendo co-criativos juntamente com Deus.

Embora a redenção de Deus seja cósmica, e não simplesmente antropocêntrica, não obstante, ela opera de acordo com aquele “escândalo” criacional original mediante o qual a humanidade é comissionada como embaixadora, e mesmo como co-criadora, para o bem do mundo. Agora, também por meio de um “escândalo”, nós somos comissionados como co-redentores.

Embora não seja uma questão semelhante a: “salve a líder de torcida, salve o mundo” [5], a controversa economia da redenção, contudo, também não sugere: “salve a humanidade, salve o mundo”.

Uma das palavras utilizadas no Novo Testamento para se referir à salvação (soteria) traz consigo tanto a ideia de livramento e liberação quanto de saúde e bem-estar. Portanto, a salvação é libertação de nossa desordem e também restauração para a saúde e florescimento. Não consigo imaginar uma imagem melhor a esse respeito do que os tipos de práticas salutares que Wendell Berry apresenta e celebra em sua recente coleção intitulada “Bringing It To The Table: On Farming and Food” [6]. Considere, por exemplo, o elogio que Berry faz aos agricultores Amish que vivem no nordeste do estado de Indiana, que estão “trabalhando para restaurar os solos que foram exauridos anteriormente por outras pessoas”. Esta é uma versão compacta de nosso chamado para redimirmos o mundo. Sistemas, instituições e práticas falharam crassamente em cuidar do solo (e dos animais que viviam dele), sugaram-no e espoliaram a terra sem restaurá-la. O erro – sim, o pecado – desses lucros ilícitos há de se revelar brevemente, pois tais sistemas e práticas vão contra o grão do universo. A própria criação nos diz que estamos fazendo as coisas de modo errado. Nesse caso, a redenção é tangível e concreta: a saber, na rotação de culturas, na fertilização do solo e na atenção àquilo que o solo “está querendo nos dizer”. O trabalho feito para se restaurar o solo exaurido está situado dentro de um estilo de vida – de fato, é um estilo de vida.

Graças sejam dadas a Deus, pois tal remissão, revitalização e labor cultural não estão apenas sob a responsabilidade dos cristãos. Embora a Igreja seja, de fato, o povo que foi regenerado e revestido de poder pelo Espírito Santo para as boas obras da criação da cultura, o antegosto da vinda do Reino não está confinado à Igreja. O Espírito Santo é pródigo em espalhar sementes de esperança[7]. Assim, nós experimentamos avidamente antegostos onde quer que encontremos essas sementes. O Deus criador e redentor apresentado nas Escrituras tem prazer na literatura judaica que alcança as profundezas do potencial da linguagem, no mercado muçulmano que coloca em ação o grão do universo, e nos casamentos estruturados de agnósticos e ateus. Nós também podemos ter essa iniciativa de Deus e celebrar essas mesmas coisas.

Mas com o que a redenção se assemelha? Na maior parte das vezes, você a reconhece quando a vê, uma vez que ela é semelhante ao florescimento. A redenção é semelhante a uma vida bem vivida. É semelhante ao modo como as coisas deveriam ser de fato; é semelhante a um pomar bem cultivado, carregado de frutos produzidos por antigas raízes; é semelhante ao trabalho que edifica a alma e traz deleite; é semelhante a um marido e sua esposa, já anciãos, rindo de maneira hilária com seus bisnetos. É semelhante a uma bailarina que alonga seu corpo até o limite, encarnando, assim, uma estonteante beleza nos músculos e tendões que se retesam com devoção. É semelhante ao aluno de graduação debruçado sobre um microscópio, explorando nichos e recantos naquela microcriação engendrada por Deus, e, desse modo, buscando maneiras de desfazer a maldição. É semelhante à abundância para todos.

A redenção soa como as surpreendentes cadências de um concerto de Bach, cujo ritmo parece fazer a alma se expandir. A redenção é semelhante a um escritório onde todos cantarolam com um senso de harmonia naquela missão, por vezes pontuado por risadas colaborativas. É semelhante aos grunhidos e gritos de um jogador de tênis, cujas técnicas “blistering serve” e “liquid forehand” são decretos[8] de coisas que não poderíamos jamais sonhar. A redenção soa como as questões de uma aluna da terceira série, cujo professor se interessa suficientemente pelo seu bem-estar de modo a instigar sua curiosidade, dando espaço para uma curiosidade santificada a respeito deste mundo bom criado por Deus. E soa até mesmo como o debate espirituoso de um jovem casal que está discernindo quais as implicações do fato de que seu casamento é uma amizade que representa a comunidade que Deus deseja (e que Ele é).

A redenção cheira como o tom de carvalho de um vinho Chardonnay produzido no vale de Napa que nos dá anseios nas papilas gustativas. Cheira como a terra debaixo de nossas unhas após plantarmos peônias e gérberas. Cheira a uma cozinha de inverno, repleta de vapor, onde uma família reunida está se preparando para a ceia. Cheira à sabedoria ancestral de um livro herdado de um avô, ou àquele “cheiro de rua” que o cachorro da família rescende nos meados de Novembro. Cheira ao ato de ir de bicicleta ao trabalho numa manhã nevoenta de primavera. Cheira até mesmo à salgada pungência do trabalho duro e àquele singular leque de odores que banha o nascimento de uma criança.

A redenção tem o gosto de uma colheita de outono que deu frutos, não obstante o labor afetuoso e o cuidado atencioso para com o solo e a plantas. Tem o gosto de um peru do Dia de Ações de Graças, cuja “natureza própria de peru” ganha vida a partir de seu próprio deleite animal ao ar livre. A redenção tem gosto da deliciosa amargura do lúpulo de uma bebida compartilhada com os amigos de um pub da vizinhança. Tem até mesmo o gosto de comer seus brócolis porque sua mãe te ama o suficiente para querer que você se alimente bem.

Portanto, a redenção se assemelha à poesia corporal de Rafael Nadal e o sorriso de menino de Brett Favre numa noite agradável; soa como as amáveis risadas de Paul e Julia Child, e cheira à cozinha desta; a redenção reverbera como as profundas performances de Yo-Yo Ma em seu violoncelo; parece com o verso frenético da poesia de Auden ou o deleite vivo dos versos leves de Updike; é semelhante ao cuidado compassivo de Paul Farmer ou Madre Teresa. A redenção pode se manifestar de forma espetacular, fabulosa e (quase) triunfante.

Mas na maior parte do tempo, a redenção delegada pelo Espírito Santo é semelhante àquilo que Raymond Carver chama “um coisinha boa” [9]. É semelhante ao nosso trabalho cotidiano bem-feito por amor, em ressonância com o desejo de Deus para Sua criação – contanto que nosso “trabalho pé-no-chão” esteja instalado como parte de uma contribuição para os sistemas e estruturas de desenvolvimento. A redenção é semelhante à realização de nosso dever de casa, ao preparar as merendeiras das crianças, à construção feita com qualidade e com a devoção de um artesão, e é também semelhante à elaboração de um orçamento municipal que discirna o que realmente importa e que, assim, contribui para o bem comum. Certamente que a redenção é o fim do apartheid, mas também as amizades, antes impossíveis, que foram forjadas nas circunstâncias que se seguiram. É um assento vago no ônibus para quem quer que seja[10], mas é também travar relações com meus vizinhos que são diferentes de mim. É nada menos do que tentar mudar o mundo, todavia isso começa em nossas casas, em nossas igrejas, em nossos bairros e escolas.

Não deveríamos ficar surpresos pelo fato de que a redenção nem sempre manifestar-se-á de modo triunfante. Se Jesus vem como o segundo Adão que molda o desenvolvimento da cultura redentiva, então, neste nosso mundo devastado, esse labor cultural apresentará uma forma cruciforme. Todavia, também assemelhar-se-á à esperança que tem fome da alegria e deleite [Jeremias 15:16].

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NOTAS:
[1] Deus nos confiou o desenvolvimento da criação para que pudéssemos explorar as potências latentes, enterradas pelo próprio Deus no seu mundo criado. É o que os neocalvinistas chamam de “Mandato Cultural”, baseado em Gênesis 1:28 e 2:17, e que se baseia na tarefa de trabalhar e desenvolver a cultura, visando a glória de Deus. Isso envolve a redenção da cultura, ciência, arte e intelecto, para que o Reino de Deus, que já está inaugurado mas não plenamente estabelecido, venha progressivamente se instaurar. Nas palavras de Von Gronigen: “O primeiro mandato que foi dado tem sido corretamente citado como sendo o mandato cultural. Era para o homem e a mulher exercitarem suas prerrogativas reais governando sobre o cosmos, desenvolvendo-o e simultaneamente mantendo-o. Todas as formas de vida na terra foram, de forma específica, colocadas sob a supervisão dos vice-gerentes humanos. Com esta responsabilidade, veio o privilégio de usar as plantas, seus frutos e sua semente para manter a vida e a energia para realizar as tarefas reais. A humanidade poderia responder obedientemente ao mandato cultural para a glória de Deus por causa da sua criação à imagem e semelhança de Deus. Deus, através da exposição deste mandato, colocou a humanidade em um relacionamento singular com o cosmos. Na realidade, foi um relacionamento de governador sobre o domínio cósmico. Mas este governo envolvia trabalho. O trabalho é, consequentemente, tanto um privilégio real como também uma responsabilidade.” (Gerard Van Groningen. In: Criação e Consumação, v. 1).
[2] Poiesis (no original grego: ποιεσις), segundo o Dicionário Heidegger, de Michael Inwood, significa: “o fazer, fabricação, produção, poesia, poema’, que, por sua vez, vem de poiein, "fazer". Aristóteles distingue poiesis, "o fazer" – que essencialmente possui um produto final, um poeima – de praxis, "ação" – que não possui. (p. 144). Sendo assim, a poesis é a capacidade criativa inerente ao homem, que trabalha a partir de um material preexistente, seja físico ou não (como no caso do poema que trabalha com a linguagem), dando-lhe uma forma final que pode ser apreendida pelo intelecto, abstração ou tato humanos. Deus deu ao homem essa capacidade de co-criar juntamente com Ele, a partir dos materiais que Ele disponibilizou ao homem.
[3] O termo “loucura” aqui utilizado trata-se, evidentemente, não de uma falta de reverência aos pensamentos e atitudes de Deus, mas, sim, de uma contraposição entre a Mente Divina e o bom senso humano, como o Apóstolo Paulo já havia dito: “Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1 Coríntios 1:25).
[4] Essa afirmação (gloria Dei homo vivens) de um dos mais proeminentes Pais da Igreja pode, num primeiro momento, chocar os neófitos ou aqueles que não se aprofundaram ainda no estudo teológico. Contudo, o contexto e o sentido mais profundo nos leva a compreender a beleza e ortodoxia da frase: combatendo os gnósticos, que depreciavam a parte física da Criação, incluindo o corpo humano, Irineu se levanta para dizer que o homem coroa a Criação de Deus, já que foi criado à Sua imagem e semelhança. E não apenas isso, o próprio Deus assumiu a condição humana, fazendo-se carne e habitando entre nós. Portanto, a afirmação de que Cristo, o Filho, é a glória de Deus (O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, Hebreus 1:3) não contradiz a afirmação de Irineu; antes, a complementa, pois Cristo, o homem perfeito, reflete a imagem e semelhança de Deus também perfeitamente. Segue-se daí que por ter cumprido plenamente a vontade de Deus, e por ter expressado claramente o caráter de Deus, Jesus Cristo é o homem que viveu e vive em plenitude, sendo tudo aquilo que Deus planejou e pretendeu para o homem. Portanto, Cristo, o homem que vive plenamente (pois dEle procede a própria Vida), é a glória de Deus.
[5] Referência ao seriado “Heroes”, no qual o personagem Hiro é avisado por seu “eu” do futuro de que a chave para a vitória dos heróis é “salvar a líder de torcida”. A frase “salve a líder de torcida, salve o mundo” torna-se, consequentemente o lema da série. A líder de torcida em questão é uma personagem que aparece posteriormente na narrativa, que também possui superpoderes. No texto em questão, o autor quer dizer que a economia da salvação, embora não seja limitada a apenas um indivíduo, também não se estende a toda humanidade, como postula o Arminianismo.
[6] A expressão “bring something to the table” (literalmente, trazer algo à mesa) significa fornecer algo que há de trazer um benefício. O título do livro faz um jogo de palavras com a questão de uma alimentação e cultivo saudáveis e os benefícios decorrentes desses hábitos.
[7] O autor faz menção à ideia de “sementes do Verbo” (logos spermatikoi), postulada por Justino, o Mártir, um dos pais apologistas. Esse grande filósofo cristão discorre em suas obras 1 e 2 Apologia e Diálogo com o Judeu Trifão que há sementes da Verdade em várias culturas e povos, mesmo naqueles que não foram iluminados com a revelação plena manifesta em Jesus Cristo. Joseph Ratzinger, em seu livro Padres da Igreja, observa a respeito do pensamento de Justino: “o projeto divino da criação e da salvação [...] se realiza em Jesus Cristo, o Logos, isto é o Verbo eterno, a Razão eterna, a Razão criadora. Cada homem, como criatura racional, é partícipe do Logos, leva em si uma "semente", e pode colher os indícios da verdade. Assim o mesmo Logos, que se revelou como figura profética aos Judeus na Lei antiga, manifestou-se parcialmente, como que em "sementes de verdade", também na filosofia grega. Mas, conclui Justino, dado que o cristianismo é a manifestação histórica e pessoal do Logos na sua totalidade, origina-se que "tudo o que foi expresso de positivo por quem quer que seja, pertence a nós cristãos" (2 Apologia 13, 4).
[8] Decretos são as normas estruturais moldadas e configuradas por Deus e que são a base mesma da existência dos entes. Sendo assim, cada ente possui uma lógica e estrutura interna criada e determinada por Deus – daí a sua harmonia e substancialidade. Deus plasmou o universo com Sua Lei, de modo que ela não apenas governa sobre os entes, mas também nestes entes. A vocação do indivíduo humano é a norma gravada em seu ser pelo poder de Deus. Se cumprirmos nossa vocação, não apenas nos tornamos quem Deus planejou que fossemos, mas também estamos em total harmonia com a normatização da criação original.
[9] Nome de um conto de Raymond Carver.
[10] Referência a Rosa Parks, uma costureira norte-americana que se tornou símbolo do movimento dos direitos civis dos negros dos Estados Unidos ao se recusar a ceder seu lugar no banco de um ônibus a um homem branco (que, naquela época segregacionista, tinham preferência sobre as pessoas negras), dando início, portanto, ao que ficou conhecido como “Boicote aos Ônibus de Montgomery”. Nessa parte do texto, o autor diz que a Redenção suprime essas barreiras (segregação étnica, social, política e cultural) criadas pelos efeitos do pecado na mente humana, pois o ensino bíblico é que “de um só sangue fez toda a geração dos homens” (Atos 17:26), e que todos, independentemente da cor de sua pele, condição social ou nacionalidade, foram criados à imagem e semelhança de Deus (Genêsis 1:27). Além disso, em Cristo, todos são reunidos em um só corpo chamado Igreja, na qual exercem funções primordiais e inseparáveis como membros, de forma que neste corpo místico “não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3:28).

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Autor: James K.A. Smith
Fonte: CARDUS
Tradução: Fabrício Tavares
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Cosmovisão Reformada (2/3) - Queda

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QUEDA

“Eis o problema fundamental da raça humana: nós estamos afastados de Deus.”

E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom (Genesis 1:31). No entanto, no nosso tempo as coisas não parecem tão atraentes. O que aconteceu? Por que tudo se encontra tão torto e alquebrado? Por que, Senhor? Por que me encontro tão curvado, tão alquebrado, e as demais pessoas também?

Todos, sem exceção, se indagam sobre essa questão do “porquê”. Annie Lennox lança um assolador “Por quê?” em sua angustiante canção homônima[1], na qual a cantora investiga suas próprias futilidades e o alquebramento que existe entre ela e os outros.

These are the tears,
The tears we shed.
This is the fear,
This is the dread.

[Estas são as lágrimas,
As lágrimas que derramamos.
Este é o medo,
Este é o pavor.]

Por quê? Por que há valentões no parquinho? Por que há vermes e lagartas lutando pela vida no passeio ou no asfalto após a chuva? Em primeiro lugar, por que tanto concreto e asfalto? E tantos formigueiros de formigas-de-fogo? Por que há digitária no meu jardim ao invés da viçosa grama-bermudas ou da festuca? Por que é tão difícil aprender, mas tão fácil esquecer? Qual o motivo de existir o movimento Rastafari ou a religião sincretista caribenha da Santeria? Por que há essa repugnante reificação das mulheres e do corpo feminino? Por que essa viciosa predação entre animais que podemos ver no Animal Planet?


Por que a humanidade é esse lobo voraz para si mesma – homo homini lupus[2]? Por que existem diretores executivos super-gananciosos? Por que Chris morreu de aneurisma cerebral no último ano, apenas duas semanas após termos sido companheiros de quarto numa conferência? Por que, no momento em que escrevo este artigo, meu amigo e também colega de profissão, Rodney, está lutando pela vida numa UTI com pancreatite? Por que minha mãe teve que suportar uma dúzia de complicadas cirurgias de câncer antes de morrer? Por que ainda há tanto racismo no mundo? Por que tanta solidão? Por que há tão rígidas distinções sociais e de classe no Plaza, no Broadmoor, ou no Biltmore? Wo ist Gott[3]? Por quê? Ad nauseam[4].

Humpty Dumpty sat on a wall.
Humpty Dumpty had a great fall.
All the king's horses and all the king's men
Could not put Humpty Dumpty back together again[5].

[Humpty Dumpty num muro se aboletou,
Humpty Dumpty lá de cima despencou.
Todos os cavalos e os homens do Rei a arfar
Não conseguiram de novo lá para cima o içar.][6]

Desconheço se há uma interpretação oficial dessa canção infantil que provavelmente ouvimos assentados no colo de nossas mães ao longo de toda nossa infância. Mas é possível vê-la como uma parábola representando a criação e queda da humanidade, um instantâneo daquilo que aconteceu no espaço compreendido em Gênesis 1 a 3. E é a narrativa apresentada no terceiro capítulo mais especificamente que nos mostra o que deu errado – ela nos faz compreender a razão pela qual nós e todas as demais coisas se encontram tão desordenados atualmente.


No princípio, na criação, “Humpty Dumpty” se assentou sobre um muro, tendo uma natureza “muito boa”. Mas, então, “Humpty Dumpty” sofreu uma grande “queda” – mergulhando no pecado. Uma vez que era apenas um frágil ovo, as consequências foram devastadoras. Nenhuma quantidade de esforço humano, quer realizado pelos cavalos do rei ou pelos homens do rei, foi capaz de coloca-lo novamente em seu lugar.

A canção infantil termina em desespero. Não se oferece uma solução para a “quebra” de Humpty Dumpty. Contudo, felizmente a Bíblia não termina do mesmo modo. Ele continua explicando como Deus coloca Humpty Dumpty novamente em seu lugar por meio de Jesus Cristo. Essa é a narrativa da Redenção. Mas estamos nos adiantando no assunto... Por enquanto, queremos utilizar esses quartos versos da canção infantil a fim de ilustrar a Queda e a consequente e ampla devastação que ela deixou em seu rastro.

Este é o segundo “ato” da narrativa cósmica das Escrituras, o segundo maior tema na visão bíblica da vida e do mundo. Num primeiro momento, nos são apresentadas as boas-novas da criação, mas agora temos as más notícias da queda. Isso introduz um conflito fundamental no drama bíblico, o qual deve ser resolvido antes que termine o enredo de Deus. Tal relato demonstra, ao contrário de outras cosmovisões, que o mal não está enraizado na criação em si mesma, mas, sim, na rebelião moral da raça humana contra a autoridade divina do Deus santo. Às vezes costumo chamar esse episódio de “descriação”, devido ao dano que ele causou ao mundo muito bom criado por Deus: chamo-o assim devido à forma como a Queda distorceu as intenções divinas para a humanidade, o nosso conhecimento, o nosso amor, a nossa capacidade de criação cultural, e, enfim, toda a terra.

Por vezes, contudo, achamos difícil levar a sério essa narrativa primitiva. Por quê? Provavelmente porque ela tem sido frequentemente satirizada. Como Herbert Schlossberg observou: “Séculos de arte religiosa e, recentemente, centenas de animações de mulheres nuas, maçãs e serpentes têm servido para nos distrair do significa da Queda em Gênesis 3”.

Atualmente, como James Smith me ajudou a compreender, a narrativa da Queda é ridicularizada à luz da vigente noção evolucionária da predação e da necessidade da morte para a sobrevivência e desenvolvimento das espécies mais adaptadas.

Independentemente disso, nós devemos tentar deixar nossos preconceitos contemporâneos de lado, e descobrir que, embora possa ser difícil para nós entendermos essa narrativa, ela, contudo, faz com que muitas outras coisas sejam compreensíveis, como Peter Kreeft já disse – ela esclarece, por exemplo, nosso persistente abatimento e a profunda dor do mundo.

Os cinco primeiros versículos de Gênesis 3 são um relato da tentação da mulher. O versículo 1 nos informa que a serpente, a mais astuta das alimárias, foi usada por Satanás como o agente da tentação (Apocalipse 12:9; 20:2). Confrontando Eva, o Diabo lança uma pergunta perscrutadora: “É assim que Deus disse: Não comereis de toda a árvore do jardim?”. A serpente/Satanás não apenas testa o conhecimento da mulher a respeito da palavra de Deus, como também busca difamar o caráter divino ao sugerir sutilmente que Deus é mesquinho em Suas provisões para o homem. Nos versos 2 e 3 a mulher responde recitando o mandamento originalmente dado por Deus (Gênesis 2:16-17). Ela acrescenta, contudo, que o fruto proibido não deveria sequer ser tocado, e muito menos comido, para que eles não morressem. Assim, será que Eva foi a primeira legalista? Numa tentativa de persuadir a mulher a seguir seu próprio percurso revoltoso, a serpente/Satanás nega categoricamente a afirmação divina de que a desobediência resultaria em morte. Ele prossegue nessa sua negação assegurando que o comer da árvore proibida não resultaria em morte, antes transformaria o homem e a mulher em verdadeiros deuses. Eles poderiam fazer o que lhes aprouvesse, viver em liberdade da forma como lhes agradasse. Infelizmente a mulher acredita em tais mentiras, e convence seu marido a se unir a ela naquela insurreição contra o Criador.

Naquele momento tudo mudou. Uma nova consciência passou a dominá-los. Eles perderam a inocência e descobriram a vergonha. O pecado atingiu o ponto mais íntimo de sua humanidade, na sua sexualidade. Eles tentaram cobrir sua nudez com folhas de figueira. As trágicas consequências de sua autoafirmação orgulhosa seguiram-se imediatamente. O restante de Gênesis 3 descreve essas consequências na forma de quatro separações e três maldições.

Primeiramente, os seres humanos são separados de Deus (Gênesis 3:8-9). Quando o SENHOR veio habitualmente ao cair da tarde para fazer companhia ao homem e sua esposa, a reação do casal agora caído é a seguinte: eles “se esconderam da presença do SENHOR Deus, entre as árvores do Jardim” (Gênesis 3:8). Ao invés de irem jubilosamente ao encontro de seu Criador, eles agora se escondem, embaraçosamente distantes. Eles estão envergonhados, não apenas entre si, mas também perante Deus. O propósito para o qual Deus criou esse primeiro casal é frustrado – é separado do Autor da vida. Desse modo, devido ao pecado, o problema fundamental da raça humana é, essencialmente, espiritual e teológico: nós estamos afastados de Deus. Agora passamos a adorar os ídolos. Humpty Dumpty sofreu uma grande queda.

A segunda separação: os homens estão separados de e dentro de si mesmos (Gênesis 3:10). O afastamento de Deus tem repercussões internas diretas. Quando o SENHOR indagou ao homem onde se encontrava, ele respondeu em palavras que revelam um estado interior radicalmente alterado: “Ouvi a tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e escondi-me.” (Gênesis 3:10). O medo, a vergonha e a culpa estilhaçaram o sentimento de integralidade e bem-estar que o homem anteriormente possuía. A linha divisória entre o bem e o mal atravessa o coração de todos os seres humanos, como Solzhenitsyn observou. Em razão do pecado, portanto, a humanidade tem sofrido um dano interior significativo; estamos profundamente dilacerados por dentro. Assim, buscamos inutilmente a felicidade e a completude por conta própria, em uma vida de pura imanência debaixo do sol. Humpty Dumpty sofreu uma grande queda.

Em terceiro lugar, os seres humanos foram separados uns dos outros (Gênesis 3:11-13). Quando Deus indagou ao homem a respeito de sua nudez, e se ele havia comido ou não o fruto proibido, ele imediatamente buscou se defender e culpar a outrem por seu erro. “A mulher”, diz ele, “que Tu me destes, ela me deu do fruto da árvore, e eu comi” (Gênesis 3:12, ênfase acrescentada). Este episódio marca o início não apenas da batalha dos sexos, mas também das profundas divisões dentro da comunidade humana. Nossa alienação teológica e psicológica tiveram repercussões sociais significativas. O pecado não apenas nos separa de Deus e de nós mesmos, mas também uns dos outros. Humpty Dumpty sofreu uma grande queda. Nesse ponto da narrativa, Deus anuncia uma série de maldições: sobre a serpente, cuja humilhante derrota “com a cara na poeira”[7] é profetizada; sobre a mulher, que sofrerá arduamente como mulher e mãe; e, por último, sobre o homem, que deve suar abundantemente para ter domínio sobre a terra. Para, depois de tudo isso, morrermos.

Tendo sido estes três julgamentos outorgados, uma separação final é descrita no final de Gênesis 3. Deus expulsa o primeiro casal humano do Jardim, e coloca um batalhão angélico na entrada leste, com o intuito de evitar que os homens entrem novamente (Gênesis 3:20-24). Nós trocamos a graça e a benção do Éden pelo caos e confusão de um mundo alquebrado. Desde então, buscamos reconquistar nossa felicidade por meio de nossos próprios esforços “utópicos”, individual ou coletivamente.

Apenas Deus e Seu reino podem preencher os anseios do coração. A vida sem Deus é vã e fútil. Humpty Dumpty sofreu uma grande queda.

Usando as palavras de Francis Schaeffer, Gênesis 3 conta a narrativa da Queda histórica espaço-temporal e seus resultados[8]. No cerne deste episódio estava a busca humana equivocada por liberdade, autonomia, autolegislação e independência. Os resultados dessa busca foram ignorância e o mau desejo. Os efeitos noéticos e afetivos do pecado desestruturaram nossas vidas de modo horrível. As quatro separações, juntamente com as três maldições, convergem na morte. O mundo é, agora, um cemitério cósmico, gemendo em desespero, ansiando por libertação[9]. “Humpty Dumpty” sofreu uma grande queda. O que pode nos livrar desta morte? O que pode nos salvar dessa queda?

Continua nos próximos dias...

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Notas do tradutor:
[1] Evidentemente que a canção é homônima na língua original do artigo, o inglês. Sendo assim, o título da música de Annie Lennox é “Why”.
[2] Frase extraída da obra Asinaria, do dramaturgo romano Plauto (Titus Maccius Plautus 230 a.C. - 180 a.C), a qual pode ser traduzida como “o homem é o lobo do homem”. O texto diz originalmente Lupus est homo homini non homo. Entretanto, a frase acabou sendo popularizada por Thomas Hobbes no século XVIII, e por isso, por vezes, é a ele atribuída.
[3] Do alemão: “Onde está Deus?”
[4] O termo latino ad nauseam diz respeito à falácia conhecida como argumentum ad nauseam, isto é, a argumentação que tenta se validar por meio da repetição constante de determinada questão – repete-se a mesma afirmação de modo insistente até o ponto de provocar "náusea" e fastio ao interlocutor objetor, de modo que ele abra mão da discussão, embora não concorde com a afirmação do seu oponente. No contexto do presente artigo, o autor quer dizer que a situação aludida se repete infinitamente até à exaustão.
[5] Esses versos fazem parte de uma canção infantil da época Vitoriana bastante difundida nos países de língua inglesa. Humpty Dumpty é uma espécie de ovo antropomórfico que, sentado num muro, cai de forma abrupta, partindo-se, sendo impossível de recompô-lo. O personagem foi extremamente popularizado pelas obras de Lewis Carroll, especialmente nas animações baseadas nos seus livros sobre Alice. O autor o utiliza como uma metáfora literária da condição pecaminosa do homem herdada de Adão. Autores como o irlandês James Joyce, em seu labiríntico Finnegans Wake, já trabalharam com essa associação entre Humpty Dumpty e o homem espiritualmente caído.
[6] A presente tradução da cantiga, que mantém as rimas e a musicalidade próprias, foi realizada por Maria Luiza X. de A. Borges, e se encontra na seguinte obra: CARROLL, Lewis. Alice – Edição Comentada. Notas de Martin Gardner. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. 1. ed. São Paulo: Jorge Zahar Editor, 2002. p. 200. Outra tradução também apropriada diz:

Humpty Dumpty sentou-se em um muro,
Humpty Dumpty caiu no chão duro.
E todos os homens e cavalos do Rei
Não conseguiram junta-lo outra vez.

[7] No original, o autor utiliza um neologismo “dusteating" defeat, o qual traduzido literalmente soaria algo como “a derrota comedora de pó”, fazendo alusão à maldição proclamada em relação à serpente: “sobre o teu ventre andarás, e pó comerás todos os dias da tua vida.” (Gênesis 3:14).
[8] O autor faz menção aqui ao livro Gênesis no Espaço-tempo, do Dr. Francis Schaffer, excelente apologista cultural. No livro, recentemente publicado pela Editora Monergismo, Schaffer demonstra como a narrativa de Gênesis, longe de ser uma mitologia fundacional (como creem os teólogos liberais), é um relato fiel às origens (do universo, da vida, e do homem como ser pessoal), constituindo-se como base sólida para o homem moderno.
[9] Tal como Paulo asseverou em sua carta aos Romanos, nos ensinando que a criação não será destruída, mas, sim, restaurada por Cristo: “Porque a criação aguarda com ardente expectativa a revelação dos filhos de Deus. Porquanto a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que também a própria criação há de ser liberta do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação, conjuntamente, geme e está com dores de parto até agora; e não só ela, mas até nós, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, aguardando a nossa adoção, a saber, a redenção do nosso corpo.” (Romanos 8: 19-23). 

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Autor: David K. Naugle
Fonte: 
Cardus

Tradução: Fabrício Tavares
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