O conhecimento que Deus tem das contingências: Conhecimento Médio

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Por John Frame


Entre o conhecimento necessário e o livre, alguns teólogos definem uma terceira categoria do conhecimento divino a que chamam conhecimento "médio". William Lane Craig distingue as três formas de conhecimento divino como segue:

1. Conhecimento natural: o conhecimento que Deus tem de todos os mundo possíveis. O conteúdo desse conhecimento é essencial para Deus.
2. Conhecimento médio: o conhecimento que Deus tem do que toda possível criatura livre faria em qualquer possível conjunto de circunstâncias e, daí, o conhecimento dos possíveis mundos possíveis que Deus pode tornar reais. O conteúdo desse conhecimento não é essencial para Deus...
3. Conhecimento livre: o conhecimento que Deus tem do mundo real. O conteúdo desse conhecimento não é essencial para Deus. [69]

Essas distinções foram criadas primeiramente pelo jesuíta espanhol Luis Molina (1535-1600), e foram adotadas por outros jesuítas, pelos socianos, pelos arminianos, por alguns luteranos e pelos calvinistas de Saumur, seguidores de Amiraldo. Os tomistas e a corrente principal dos reformados em geral têm rejeitado essa ideia. Em anos recentes, vários filósofos cristãos, entre eles Craig e Alvin Plantinga adotaram esse conceito. [70]

Dada a definição de Craig, é difícil ver, de início, por que os teólogos reformados fazem objeção a esse conceito. É certo que Deus sabe o que toda criatura livre fará ou faria em todas as circunstâncias possíveis.[71] Os exemplos bíblicos mais frequentemente citados são apropriados. Em 1 Samuel 23.7-13, Davi estava numa cidade chamada Queila, quando Saul chegou querendo mata-lo, Davi perguntou ao Senhor se, caso ele ficasse em Queila, os habitantes dali o entregariam a Saul. Deus respondeu que sim (v.12), e então Davi retirou-se daquela cidade. Nesse caso, Deus expressou seu conhecimento, não do que realmente aconteceria (pois os moradores de Queila nunca tiveram oportunidade de trair Davi), mas do que aconteceria em outras circunstâncias. Portanto, Deus sabia o que os habitantes daquela cidade fariam se as circunstâncias fossem diferente das que prevaleceram. Como os filósofos às vezes expressam, ele conhecia a verdade de um fato contrário condicional: Se Davi permanecesse ali, os habitantes de Queila o traíram.

A outra passagem frequentemente citada quanto a isso é Mateus 11.2-24. Nessa passagem, Jesus declara que, se os habitantes de Tiro, Sidom e Sodoma tivessem visto os milagres de Jesus, ter-se-iam arrependido.[72] De fato, eles não viram os milagres, e portanto, não tiveram oportunidade de arrepender-se. Mas Jesus sabia que eles teriam feito em outras circunstâncias. Vê-se, pois, que Jesus, nesse caso, expressou conhecimento de um fato contrário condicional.

É evidente que essas passagens não têm o propósito de defender pontos teológicos técnicos acerca do conhecimento eterno de Deus. Talvez não devamos insistir em interpretações precisamente literais. Mas, dando por aceitos os argumentos anteriores presentes neste livro, fica claro que Deus, governando todas as coisas pelo seu decreto eterno, sabe do que cada coisa é capaz e qual seria o resultado de qualquer alteração que se fizesse em seu plano.

Na verdade, na Escritura Deus fala muitas vezes do que aconteceria em condições diferentes das que realmente ocorrem. Deus diz repetidas vezes, de diferentes maneiras, que, se Israel fosse fiel, receberia todas as bênçãos de Deus na terra da promessa. Essa declaração é verdadeira; mas é fato contrário condicional. O certo é que Israel nunca demostrou essa fidelidade (exceto, é claro, na pessoa do remanescente, Jesus Cristo). Também é certo que, digamos, se Paulo não se arrependesse e não cresse, ele se perderia. Frequentemente a Escritura descreve a possibilidade contrária aos fatos a fim de manifestar a graça e a justiça de Deus. [73]

De um ponto de vista reformado, porém, é difícil ver por que esse tipo de conhecimento divino deva ser isolado como um terceiro tipo de conhecimento, ao lado do conhecimento necessário e livre. Observem que, na definição de Craig, o conhecimento necessário é um "conhecimento de todos os mundos possíveis que Deus pode vir a tornar reais". Qual a diferença entre esses tipos? Haverá mundos que são genuinamente possíveis, mas que Deus não pode tornar reais? Que é um "mundo possível", se não um mundo que Deus pode tornar real?

E por que não deveríamos incluir os possíveis atos de criaturas livres (na definição 2) como ingredientes dos possíveis mundos da definição 1? Quando Deus conhece mundos possíveis, não conhece ele também, em virtude desse conhecimento, todas as possíveis criaturas livres e seus possíveis atos? Assim, de um ponto de vista reformado, não há razão pela qual devamos considerar o conhecimento que Deus tem das contingências sob a categoria do conhecimento necessário.

Devemos, pois, rejeitar a afirmação de Craig de que esse conhecimento "não é essencial para Deus". Claro está que esse conhecimento trata de criaturas, e as criaturas não são necessárias para Deus. Mas trata com criaturas possíveis, não reais, e de seus atos em possíveis circunstâncias, não ato reais. Portanto, esse conhecimento não depende do decreto divino de criar um mundo real. Deus sabe quais criaturas e quais atos próprios da criatura são possíveis, simplesmente porque ele conhece a si mesmo. Ele sabe o que ele pode fazer. Deus conhece essas possibilidades simplesmente por conhecer a sua natureza. E o seu conhecimento de sua própria natureza é necessário.

Mas essa abordagem do conhecimento que Deus tem das contingências não foi satisfatória para Molina e para outros expoentes do conhecimento médio. Para entender a razão disso, devemos observar que o termo livre na definição 2 de Craig refere-se à liberdade libertária. E, na verdade, a maioria dos defensores do conhecimento médio como uma categoria teológica distinta tem sustentado ideias libertárias. A verdade é que muitos do entusiasmo deles pelo conhecimento médio deve-se ao fato de que ele fornece um vocabulário para falar do conhecimento que Deus tem dos atos próprios da criatura que são livres no sentido libertário.

Assim, se o libertarismo é verdadeiro, seguir-se-ia que o conhecimento médio seria de fato distinto do conhecimento necessário de Deus. Isso porque, segundo essa visão, Deus não conhece os possíveis atos livres das criaturas por meramente conhecer a si próprio. Desde que ele não causa os livres atos delas, não pode conhecer seus atos livres, ou seus possíveis atos livres, sem conhecer as cristuras propriamente ditas.

No capitulo 8, argumentei que o libertarismo é falso -  e até mesmo incoerente. Aqui devo acrescentar que o libertarismo introduz incoerência nessa discussão também. Para vermos isso, sigamos mais um pouco a argumentação de Craig:

Pelo seu conhecimento médio, Deus conhece todos os mundos possíveis que ele poderia criar e o que cada criatura livre faria em todas as várias circunstâncias desses mundos possíveis. Por exemplo, Deus sabe que Pedro, se ele existisse e fosse colocado em certa circunstância, negaria a Cristo três vezes. Por uma livre decisão de sua vontade, Deus então escolheu criar um desses mundos possíveis... Assim, Deus consegue saber os atos futuros livres com base no seu conhecimento médio e a sua vontade criativa. [74]

De acordo com a visão de Craig, Deus considera todos os mundos possíveis pelo seu conhecimento médio e, então, ele escolhe criar um deles. No mundo que ele escolhe criar, alguém chamado Pedro existe, e este, nessas circunstâncias criadas, negará Cristo três vezes. Observem que eu disse "negará", não "poderia negar" ou "talvez negasse". Uma vez que Deus cria um mundo (incluindo uma história do mundo), isso inclui a negação de Pedro, e essa negação é inevitável.


Sendo assim, que lugar há nesse cenário para a liberdade libertária? Uma vez que Pedro foi criado, sua negação é inevitável - é determinada, pode-se dizer. Craig, empregou o conceito do conhecimento médio a fim de sustentar a liberdade libertária junto com o conhecimento divino. Mas no momento da terrível decisão de Pedro, como se pode dizer que ele teve liberdade libertária? Antes, ele só pôde negar Jesus porque vivia num mundo no qual essa negação é um ingrediente. Deus determinou, antes de Pedro nascer, que ele trairia Jesus.

Craig não vê isso desse modo. Ele acredita que Deus decidiu criar este mundo baseado no seu conhecimento do que o criável Pedro escolheria livremente (no sentido libertário), e em seu conhecimento de outras criaturas criáveis neste mundo criável. Mas, como pode Pedro fazer uma livre escolha libertária quando faz parte de um mundo no qual os acontecimentos de sua vida, inclusive a sua negação de Jesus, foram decididos antes do seu nascimento?

Na verdade, quando Deus "escolheu criar um daqueles mundos possíveis", não estava preordenando tudo o que viria a suceder nesse mundo? Craig pode dizer que a escolha de Deus foi motivada pelo conhecimento que ele tinha das livres escolhas libertárias de Pedro, mas que a escolha de Deus propriamente dita limitou necessariamente as livres escolhas libertárias de Pedro, de modo que ele não tinha mais esse tipo de livre-arbítrio.

As livres escolhas libertárias, como vimos no capítulo 8, são escolhas com absolutamente nenhum empecilho. Os defensores do libertarismo frequentemente mostram que não entendem a diversidade que existe entre os tipos de liberdade, dependendo dos diferentes tipos de objetivos, habilidades e empecilhos. Eles tendem a pensar que as únicas alternativas são "algum empecilho" e "nenhum empecilho". Vê-se que Craig, aqui, não compreende que a criação de Deus de um mundo possível é de fato um empecilho às livres escolhas libertárias das criaturas. Se Deus escolheu criar um mundo de certa maneira, nenhuma criatura pode, depois, escolher fazer um mundo diferente. Pode haver outros empecilhos não presentes na situação de Pedro, mas a preordenação divina de um mundo em particular o impede de tomar quaisquer outras decisões que não as que ele toma.

Craig gostaria de acreditar que o conhecimento médio concilia a soberania divina com a liberdade libertária.[75] A verdade é que isso não acontece. Se a criação divina com base no conhecimento médio significa alguma coisa, significa que o libertarismo está excluído. Craig é incoerente ao afirmar tanto o libertarismo como o ato divino de concretizar um completo mundo possível, incluindo todas as escolhas feitas pelas criaturas.

Se abandonarmos o libertarismo, abandonaremos o sentido tradicional do conhecimento médio, e então, como eu disse anteriormente, não haverá razão para distinguir o conhecimento de Deus das contingências do seu necessário conhecimento de si mesmo. Contudo, continua sendo importante afirmarmos o conhecimento de Deus dos possíveis atos das criaturas possíveis e reais, e do que elas farão ou fariam em todas as circunstâncias. No capitulo 8, sugeri que esse conhecimento é, na verdade, parte da base racional da criação. Deus cria o mundo de acordo com seu plano eterno, mas esse plano pressupõe o seu conhecimento de mundo criáveis e possíveis e, realmente, o seu pré-conhecimento do mundo real. Deus preordena tudo o que vem a acontecer, mas ele não preordena na ignorância. Ele sabe e entende o que preordena e o que escolhe não preordenar. Portanto, a integridade das criaturas (cap.8) é parte integrante do plano de Deus desde o princípio.

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Notas:
[69] William Lane Craig. The only wise God (Grand Rapids: Baker, 1987), 131.
[70] Plantinga, The nature os necessity (Oxford: Clarendon Press, 1974), 169-80
[71]Heppe registra Gomarus, Walaeus, Crocius e Alsted como teólogos reformados que sustentavam o conhecimento médio nesse sentido. Ver RD [Reformed dogmatics] Ver também DG [The doctrine of God - Herman Bavinck], 192.
[72]Eles estão sendo comparados com os habitantes das cidades de Corazim, Betsaida e Cafarnaum, que viram as obras realizadas por Jesus, e, todavia, não creram.
[73]Talvez seja possível inferir da Escritura o que teria acontecido com a humanidade, se Adão e Eva não tivessem caído em pecado; em decorrência disso, tem havido muitas discussões teológicas sobre esse fato condicional.
[74]Craig, The only wise God, 133
[75]Ibid., 133-138.

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Fonte: FRAME, John. A doutrina de Deus; São Paulo; Cultura Cristã, 2013. Págs. 381-384.
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O Problema do Conhecimento Médio [ou do Molinismo]

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Por Herman Bavinck


Mas os jesuítas, entrando na discussão [sobre o pré-conhecimento de Deus], fizeram mudança. Com o intuito de articular a onisciência de Deus com a liberdade humana, seguindo a linha semi-pelagiana, eles introduziram o chamado conhecimento médio (media scientia) entre o conhecimento “necessário” e o conhecimento “livre” de Deus. Com esse conhecimento médio eles se referem a um conhecimento divino de eventos contingentes que é logicamente antecedente aos seus decretos. O objeto desse conhecimento é o meramente possível que nunca será realizado, nem aquilo que, em virtude de um decreto divino, é certo de acontecer, mas as possibilidades de que dependam, para sua realização, de uma ou outra condição. Ao governar o mundo, Deus faz que muitos resultados possíveis dependam de condições e sabe, com antecedência, o que fará, caso essas condições sejam ou não cumpridas pelos seres humanos. Em todos os casos, portanto, Deus está pronto. Ele antevê e conhece todas as possibilidades e toma suas decisões e providências levando em conta todas essas possibilidades. Ele soube, com antecedência, o que faria se Adão caísse e também se ele não caísse; se Davi fosse ou não até Queila; se Tiro e Sidom se arrependessem ou não. Portanto, o conhecimento que Deus tem de eventos contingentes precede seu decreto a respeito de eventos futuros “absolutos”. Embora os seres humanos, a cada momento, tomem suas decisões livres e independentes, nunca poderão surpreender Deus com as decisões que tomam ou desfazer seus planos, pois, em seu pré-conhecimento, Deus levou em conta todas as possibilidades. Essa teoria do conhecimento mediado foi apoiada por numerosos textos da Escritura que atribuem a Deus conhecimento daquilo que aconteceria em um dado caso se alguma condição fosse ou não fosse cumprida (e.g.,  Gn 11.6; Êx. 3.19; 34.16; Dt. 7.3, 4; 1Sm 23.10 – 13; 25.29ss; 2Sm 12.8; 1Rs 11.2; 2Rs 2.10; 13.19; Sl 81.14 – 16; Jr. 26.2, 3; 38.17 – 20; Ez 2.5 – 7; 3.4 – 6; Mt. 11.21, 23; 24.22; 26.53; Lc. 22.66 – 68; Jo. 4.10; 6.15; At. 22.18; Rm. 9.29; 1Co 2.8).

Embora, de fato, tenha recebido oposição dos tomistas e agostinianos (e.g., Bannez, os salmanticenses [carmelitas de Salamanca, Espanha] e Billuart), essa teoria do conhecimento médio também foi fervorosamente defendida pelos molinistas e congruístas (Suárez, Belarmino, Lessius, etc). O temor do Calvinismo e do jansenismo favoreceu essa teoria na Igreja Católica e, de maneira mais ou menos pronunciada, ganhou aceitação expressa por parte de quase todos os teólogos católicos. Desse modo, a linha de pensamento expressa por Agostinho foi abandonada e a de Orígenes foi recuperada. Ainda que a teologia grega tenha tomado essa posição desde o princípio, a teologia católica romana agora a seguiu. Os luteranos e os remonstrantes também não se mostraram indispostos com essa teoria. Em tempos modernos, muitos teólogos afirmaram, aproximadamente da mesma forma, que, para Deus, também, o mundo é um conhecimento médio. Ele, de fato, pré-conhece os eventos contingentes futuros como possíveis, mas descobre, com o mundo, se eles serão realizados ou não. Para todos os casos, porém, ele conhece “uma ação que se encaixará precisamente na ação da criatura, seja o que for que possa acontecer”. Ele estabeleceu o esboço do plano do mundo, mas deixa o enchimento desse esboço por conta das criaturas”. Em contraste com essa linha de pensamento, seguindo o exemplo de Agostinho, os reformados rejeitaram a teoria de um “pré-conhecimento nu” (nuda praescientia) e o “conhecimento médio” (media scientia).

Ora, com respeito a esse conhecimento médio, a pergunta não é se as coisas [ou eventos] não estão frequentemente relacionadas umas às outras por um tipo de conexão condicional, que é conhecida e desejada pelo próprio Deus. se isso fosso tudo o que ele quer dizer, ele seria aceito sem qualquer dificuldade, assim como Gomarus e Walaeus o entenderam e reconheceram nesse sentido. Entretanto, a teoria do conhecimento tem um objetivo diferente: se propósito é harmonizar a noção pelagiana da liberdade da vontade com a onisciência de Deus. Nessa interpretação, a vontade humana é, por sua natureza, indiferente. Ela tanto pode fazer uma coisa quanto outra. ela não é determinada nem por sua própria natureza nem pelas várias circunstâncias nas quais é colocada. Embora as circunstâncias  possam influenciar a vontade, no fim das contas ela permanece livre e escolhe conforme desejar. É claro que a liberdade da vontade assim concebida não pode se harmonizar com um decreto de Deus, aliás, ela consiste essencialmente em independência do decreto de Deus. Em vez de determinar essa vontade, Deus a deixou livre. Ele não podia determinar a vontade sem destruí-la. Com relação a essa vontade de suas criaturas racionais, deus tem de adotar uma postura de espera vigilante. Ele observa para ver o que elas farão. Ele, porém, é onisciente. Por isso ele conhece todas as possibilidades, todas as contingências e também pré-conhece todos os eventos futuros reais. Nesse contexto e conservando-o, Deus tomou todas as suas decisões e criou seus decretos. Se uma pessoa, em certas circunstâncias, aceitará a graça de Deus, ele escolheu essa pessoa para a vida eterna; se essa pessoa não crer, ela foi rejeitada.

Ora, é claro que essa teoria diverge, em princípio, do ensino de Agostinho e de Tomás de Aquino. Certamente, em sua mente, o pré-conhecimento de Deus precede os eventos e nada pode acontecer se não for pela vontade de Deus. “Nada, portanto, acontece, a não ser pela vontade do Onipotente”. Não o mundo, mas os decretos são o meio pelo qual Deus conhece todas as coisas. Portanto, os eventos contingentes e as ações livres podem ser conhecidos infalivelmente em seu contexto e ordem. O escolasticismo, reconhecidamente, às vezes já expressava, nesse ponto, de um modo que diferia de Agostinho. Anselmo, por exemplo, afirmou que o pré-conhecimento não implicava uma “necessidade interna e antecedente”, mas apenas uma “necessidade externa e consequente”. E Tomás de Aquino, de fato, acreditava que Deus eterna e certamente conhece os eventos futuros contingentes de acordo com o estado no qual eles realmente estão, isto é, de acordo com sua própria imediação, mas que, em suas “causas  imediatas”, eles são contingentes e indeterminados. Isso, porém, não altera o fato de que, com relação à sua “causa primária”, esses eventos futuros contingentes são absolutamente certos e, portanto, não podem ser chamados de contingentes. E, em outro ponto, ele novamente afirma que “tudo que existe foi destinado a existir antes que viesse à existência, porque existia por sua própria causa para que pudesse vir à existência”.

A doutrina do conhecimento médio, porém, representa os eventos futuros contingentes como contingentes e livres também em relação a Deus. Isso é feito não somente com relação à predestinação de Deus, mas também com relação ao seu pré-conhecimento, como em Orígenes, em que as coisas não acontecem porque Deus as conhece, mas Deus as conhece porque elas acontecerão. Portanto, a sequência não é conhecimento necessário, conhecimento de visão, o decreto de criar (etc), mas, em vez disso, é conhecimento necessário, conhecimento médio, decreto de criar (etc), e o conhecimento de visão deus não deriva seu conhecimento dos livres atos dos seres humanos de seu próprio ser, de seus decretos, mas da vontade das criaturas.

Deus, portanto, torna-se dependente do mundo, extrai do mundo conhecimento que ele não tinha e não pode obter por si mesmo e, portanto, em seu conhecimento, deixa de ser um, simples, independente – isto é, deixa de ser Deus. Inversamente, a criatura, em grande parte, torna-se independente diante de Deus. Ela, de fato, em um momento, recebe o “ser”(esse) e o “ser capaz”(posse) de Deus, mas, agora, tem a “volição”(velle) completamente em suas próprias mãos. Ela soberanamente toma suas próprias decisões, realiza ou não realiza alguma coisa de forma totalmente independente de um decreto divino anterior. Uma coisa pode, portanto, vir à existência totalmente à parte da vontade de Deus. A criatura é, agora, criadora, autônoma, soberana: toda a história do mundo é tirada das mãos de Deus e colocada em suas mãos. Primeiro os seres humanos decidem, depois Deus responde com um plano que corresponde a essa decisão. Ora, se essa decisão ocorreu – como no caso de Adão – somos capazes de concebê-la. Mas decisões de maior ou menor importância ocorrem milhares de vezes em toda vida humana. O que podemos pensar, então de um Deus que sempre espera todas essas decisões e mantém à mão um estoque de todos os planos possíveis para todas as possibilidades? O que, então, resta até mesmo de um esboço de um plano mundial quando sua execução é deixada nas mãos dos seres humanos? E de que vale um governo cujo executivo é o escravo de seus próprios subordinados?

Na teoria do conhecimento médio, é exatamente isso o que acontece com Deus. Deus é um mero espectador, enquanto os seres humanos decidem. Não é Deus que faz distinção entre as pessoas, mas as pessoas é que se distinguem. A graça é concedida de acordo com o mérito e a predestinação depende das boas obras. As ideias às quais a Escritura, em toda parte, opõe-se e que Agostinho rejeitou em sua polêmica contra Pelágio são transformadas na doutrina católica romana padrão pelo ensino dos jesuítas. Os proponentes do conhecimento médio, de fato, recorrem a muitos textos da Escritura, mas totalmente sem fundamento. Não há dúvida de que a Escritura reconhece o fato de que Deus inseriu as coisas (eventos, etc) em uma rede variada de conexões umas com as outras, e que essas conexões são, frequentemente, de natureza condicional, de modo que uma coisa não pode acontecer se outra coisa não acontecer primeiro. [Por exemplo], sem a fé não há salvação, sem o trabalho não há sustento, etc.

No entanto, os textos citados pelos jesuítas para fundamentar a teoria do conhecimento médio não provam o que precisa ser provado. Reconhecidamente, eles falam sobre condição e cumprimento, obediência e promessa, aceitação e consequência daquilo que acontecerá se um ou outro caminho for escolhido. No entanto, nenhum desses textos nega que, em todos os casos, Deus – embora fale aos seres humanos e lide com eles em termos humanos – conhecia e determinou aquilo que será realizado – presente em Deus somente como uma ideia – e aquilo que é certo e foi decretado por Deus não há uma área que possa ser controlada pela vontade dos seres humanos. Uma coisa sempre pertence a uma área ou a outra. se ela é somente uma possibilidade e nunca será realizada, ela é objeto do conhecimento “necessário” de Deus e se, um dia, ela realmente será realizada, ela é conteúdo de seu conhecimento “livre”. Não há um terreno médio entre os dois, não há conhecimento “médio”.

As teorias do conhecimento médio, além disso, não alcançam seu objetivo. Elas têm o objetivo de colocar a liberdade da vontade humana – no sentido de indiferença – em harmonia com o pré-conhecimento divino. Ora, elas alegam que esse pré-conhecimento concebido como conhecimento médio deixa a conduta humana totalmente livre, não-necessária. De fato, isso está correto, a não ser que, nesse caso, ele deixe de ser pré-conhecimento. Se Deus conhece infalivelmente com antecedência o que uma pessoa fará em determinado caso, ele só pode pré-conhecer isso se os motivos da pessoa determinarem sua vontade em uma direção específica, e isso, portanto, não consistiria indiferença. Inversamente, se essa vontade fosse indiferente, o pré-conhecimento seria impossível, e só existiria um conhecimento post-factum. O pré-conhecimento de Deus a vontade concebida como arbitrariedade são mutuamente excludentes. Pois, como Cícero já dizia, “se ele conhece, isso certamente acontecerá, mas, se isso obrigatoriamente deve acontecer, não existe algo como o acaso”. Portanto, juntamente com Agostinho, devemos procurar a solução do problema em outra direção. A liberdade da vontade não consiste, como descobriremos adiante, em indiferença, arbitrariedade ou acaso, mas em “prazer racional”. Esse prazer racional, em vez de estar em conflito com o pré-conhecimento de Deusa, é implicado e sustentado por ele. A vontade humana – juntamente com sua natureza, antecedentes e motivos, suas decisões e consequências – está integrada à “ordem de causas que é certa para Deus e abrangida por seu pré-conhecimento”. No conhecimento de Deus, as coisas estão relacionadas na mesma rede de conexões nas quais ocorrem na realidade. Não é pré-conhecimento nem predestinação aquilo que intervém, vindo de cima, com força de imposição. Toda decisão humana, todo ato humano é motivado, em vez disso, por aquilo que o precede, e, nessa rede de conexões, está incluído no conhecimento de Deus. conservando sua própria natureza conhecida e ordenada por Deus, os eventos contingentes e as ações livres estão ligados na ordem de causas que, pouco a pouco, nos é revelada na história do mundo.

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Sobre Herman Bavinck: Herman Bavinck (1854-1921) tornou-se sucessor de Abraham Kuyper na cadeira de Teologia Sistemática da Universidade Livre da Holanda, em 1902.

Fonte: BAVINCK, Herman. Dogmática Reformada. Vol. 2. São Paulo: Cultura Cristã, 2012, p. 204 - 209.
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Molinismo - problemas, problemas e problemas.

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Luis Molina
Por Ronald W. Di Giacomo 


Molinistas e Calvinistas concordam sobre a validade do argumento a seguir, onde X é uma escolha pessoal.

1. Necessariamente, se Deus X conhece de antemão, então X acontecerá;
2. Deus conhece X de antemão
3. Então, X acontecerá.

Molinistas e Calvinistas até concordam que o seguinte argumento, como escrito, é falacioso:

1. Necessariamente, se Deus conhece X de antemão, então X acontecerá
2. Deus conhece X de antemão.
3. Então, X acontecerá necessariamente.

A falácia em vista é aquela de transferir a necessidade da inferência para a conclusão. Todavia, o Molinista não aceitará que a falácia possa desaparecer em um número de modos diferentes. Um modo é por estabelecer que uma condição necessária para a presciência de Deus sobre X é a necessidade de X. Os Molinistas afirmam que X ocorrerá, não necessariamente, mas contingentemente. Claro, um X contingente, por definição, possivelmente pode não ocorrer.  Então, os Molinistas são deixados com Deus conhecendo que X pode não ocorrer enquanto sabe que X ocorrerá – mas estas são verdades contraditórias e, então, impossível para Deus conhecer. Assim, a presciência de Deus de X pressupõe a necessidade de X pela simples razão que pode e será semanticamente antitético e é verdade que X ocorrerá. Conseqüentemente, se X ocorrerá, então é falso de que [talvez] possa ocorrer.

1. Necessariamente, se Deus conhece X de antemão, então X acontecerá
2. Necessariamente, Deus conhece X de antemão
3. Então, X necessariamente acontecerá.

O Molinistas negam que Deus necessariamente conhece X de antemão. De fato, o papa do Molinismo, Willian Lane Craig, afirma que “a Teologia Cristã sempre tem mantido que a criação do mundo é um ato livre de Deus, que Deus poderia ter criado um mundo diferente – no qual X não ocorre – ou até nem [criado] um mundo. Dizer que Deus necessariamente conhece um evento X de antemão implica que este é o único mundo que Deus poderia ter criado e, assim, nega-se a liberdade divina”.

Apenas de passagem, observe que os Molinistas não são tipicamente bem vistos nas áreas de Teologia Reformada Sistemática e Histórica, do Protestantismo Reformado. Na parte IV, seção VII do Clássico de Jonathan Edwards, The Freedom of the Will, Edwards tem muito a dizer sobre este assunto sob o título “Acerca da Necessidade da Vontade Divina”.[1] Edwards, eloqüentemente, afirma que “ninguém discute qualquer dependência da vontade de Deus, que sua suprema sábia volição é necessária, que isto infere uma dependência de seu ser, que sua existência é necessária. Se for alguma coisa muito insignificante para o Supremo Ser ter sua vontade determinada pela necessidade moral, assim [será] tão necessária em todo caso a vontade santa e ditosa em mais alto grau. Então, por que também não é insignificante para ele ter sua existência, e a perfeição infinita de sua natureza, e sua infinita felicidade, determinada por necessidade. Não é mais desonra para Deus ser necessariamente sábio do que ser necessariamente santo... e, em todo caso, agir mais sabiamente ou fazer as coisas mais sábias de todas; pois a sabedoria é, também, em si mesmo excelente e honorável... mais uma coisa a ser observada antes de concluir esta seção. Que, se isto em nada invalida da glória de Deus necessariamente determinada pela condição superior em alguma coisa; então, também não deve ser assim determinada em todas as coisas".

Meu apelo a Edwards como um representante da Teologia Reformada Ortodoxa é simplesmente mostrar que a observação de Craig é, no mínimo, injustificável. Pensadores reformados consideram as escolhas livres libertárias uma irracionalidade filosófica, da mesma forma que a noção metafísica boba pertencente ao homem, mas como também pertencente a Deus. Não apenas Molinistas como Craig não percebem que a necessidade da vontade divina é sustentada por um vasto número de Calvinistas, [mas] observam também a imprecisão das observações de Craig onde ele fala de liberdade. Molinistas não fazem distinção alguma entre a liberdade (ou seja, a capacidade de escolher como se quer) e o poder de escolha contrária, que é a alegada capacidade de agir de forma contrária à forma como se queria (livre-arbítrio libertário). Os dois [tipos] são os mesmos para o Molinista; no entanto, a primeira ideia é pertencente à responsabilidade moral, enquanto a última é uma noção metafísica que no fim destrói a responsabilidade moral. É triste ter que perguntar, mas alguém já leu um Molinista que tenha interagido como a noção de liberdade, que é a própria sede da responsabilidade moral? Por que a habilidade de escolher como se quer não é uma condição suficiente para responsabilidade moral? O Molinista nos diz por que a liberdade é insuficiente? Não, eles simplesmente ignoram a questão da liberdade e fazem afirmações brutas de que nós somos capazes de escolher contrário ao que nós queríamos, a fim de ser agentes moralmente responsáveis. O que é, afinal, ser capaz de escolher X, quando nós pretendemos escolher não-X? Se isto é uma caricatura da liberdade libertária, então [como] um Molinista explicará esta noção metafísica à luz do problema do regresso infinito que é inerente à noção?

Insistente, deveríamos ver que a premissa menor, que “necessariamente, Deus conhece de antemão  X” é, de fato, verdadeira. Se a presciência de Deus sobre X não era necessária, então ela era contingente. Esqueça por um momento que os futuros contingentes – sendo verdadeiramente contingentes – desafiam os verdadeiros valores eternos com respeito ao seu resultado, (como os Teístas Abertos têm demonstrado). Qual a simples verdade de que todas as coisas eternas (Deus e seus pensamentos) devem ser necessárias? Afinal, Deus deliberou? Ele moveu-se do não-saber para o saber? Além disso, onde está fundamentado “X acontecerá” se não na determinação eterna de Deus? E caso contrário, o que significa determinar X sem determinar a causa de X? Será que causas contingentes determinam o decreto eterno de Deus, o que inclui a noção arminiana de “certezas contingentes”?

Uma terceira maneira de se livrar da falácia é utilizar fatos que estão gramaticalmente no passado [e] contemplá-los como no futuro. A progressão abaixo não toma atalhos, então pode parecer um pouco entediante, mas cada passo é apropriado.

Estabelecer a necessidade de crença de Deus sobre a escolha de Tom:

1. 100 anos atrás, Deus sabia que Tom escolheria X amanhã
2. Se X é crido no passado, então agora é necessário que X seja crido então.
3. Então, agora é necessário que 100 anos atrás Deus acreditava que Tom fará X amanhã.

Estabelecer a necessidade da escolha de Tom, dada a necessidade da crença de Deus.

4.  Necessariamente, se 100 anos atrás, Deus sabia que Tom faria X amanhã, então Tom fará X amanhã.
5. Se p (i.e, a crença histórica de Deus sobre a escolha de Tom) agora é necessária (3), também necessariamente se p, então q; então q (i.e, a escolha de Tom de X amanhã; [consequente de 4]) agora é necessário [transferido do princípio da necessidade].
6. Então, agora é necessário que Tom fará X amanhã [3, 4 e 5]

Estabelecer que Tom não agiu livremente, dado a necessidade da escolha de Tom.

7. Se agora é necessário que Tom fará X amanhã, então Tom não pode fazer outra coisa.
8. Então, Tom não pode fazer outra coisa que não X amanhã.
9. Se [Tom] não pode fazer outra coisa, então [Tom] não age livremente.
10. Então, quando Tom fizer X amanhã, ele não fará livremente.

Molinistas novamente aceitarão a validade do argumento, mas terão problemas com algumas premissas, ou seja, 5 e, possivelmente também 2. Com respeito a 2, um Molinista pode querer afirmar que a necessidade do passado não se aplica ao passado todo, mas isso é uma censura arbitrária. Um Molinista pode também objetar a premissa 5, onde uma mudança de modalidade ocorre segundo necessidades acidentais (necessidades sobre o passado) são mescladas com necessidades metafísicas que têm a ver com as ações de escolher. Isso, no entanto, representa um caso clássico de distinção sem diferença relevante. A objeção Molinista é a transferência do princípio da necessidade, ainda que eles permitam o mesmo princípio da lógica quando tratam com a validade do argumento 3. Realmente, suas objeções deveriam ser apenas às premissas 2 do argumento 4, mas eles estão preparados para argumentar que o passado é contingente e não necessário?

Dado a objeção de transferência do princípio da necessidade, a posição Molinista reduz-se a: a escolha de Tom de X necessariamente ocorrerá, mas contingentemente. O que significa X ocorrer necessariamente por meios contingentes? Em outras palavras, o que significa uma ocorrência necessária ocorrer contingentemente!? (novamente, “vontade=poder” para o Molinista)

Em suma, o lamento de Craig com o argumento 3 é que ninguém pode provar a necessidade do conhecimento de Deus. Se alguém puder provar a necessidade, então sou conduzido a crer por sua palavra que ele aceitaria a conclusão do argumento 3 acima, que afirma a natureza não-contingente da escolha. Consequentemente, o problema com Craig e seus discípulos durante a prova de 10-passos não deveria ser superior a qualquer alteração na modalidade no passo-5, desde que o mesmo tipo de mudança na modalidade ocorre no argumento 3 sem objeção! A objeção de Craig ao argumento 3 não é uma objeção de mudança de modalidade, mas sim, estritamente uma objeção metafísica pertencente à liberdade de Deus. Não tendo nenhuma objeção modal ali, os Craiguitas não deveriam encontrar nenhum argumento em 4 também. Consequentemente, Craig e seus discípulos deveriam ao menos começar a conceder que, com o tempo, o pré-conhecimento de Deus torna-se necessário (passo 3 – argumento 4), que os conduziriam a abraçar todos os argumentos válidos como sendo sólido dado que não há objeção modal para o argumento 3. Então, por que eles não fazem? Porque o assunto é ético, não intelectual. Essa é a razão. Deus ocultou dos Arminianos as gloriosas doutrinas da graça e é por isso que eles dizem coisas tais como “como Deus pode encontrar culpa, pois quem pode resistir à sua vontade?”. Temo que os Arminianos não reconheçam que Romanos 9 está falando a eles.[2]

Notas: 
[2] A objeção ao Dr. Craig, bem como a crítica ao Arminianismo, em nada diminui as contribuições que ambos têm prestado ao Cristianismo, nem tampouco venho a considerá-los como “não-Cristãos”. Mantenho meu respeito e admiração pela irmão Dr. Craig e pelos irmãos Arminianos. As palavras do Dr. Cornelius Van Til são-me úteis e diretivas: "Somos gratos e nos alega o trabalho feito por arminianos no testemunho do evangelho. Alegres, por causa do fato de que, a despeito da inconsistência de sua apresentação o testemunho cristão, algo, com muita frequência, da verdade do evangelho brilha para os homens, e eles são salvos"(VAN TIL, Cornelius. O Pastor Reformado e o Pensamento Moderno. São Paulo: Cultura Cristã, 2010. p.55)[Nota do Tradutor]

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Traduzido por Rev. Gaspar de Souza
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Conhecimento médio - Parte 3/3

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Fontes de explanação.

XV. 1 Samuel 23.11,12 não pode favorecer esse conhecimento intermediário, porque não é tanto uma predição de coisas futuras que são ainda uma futurição (como uma revelação de coisas que então existiam, ainda que secretas, a saber, dos planos discutidos entre os homens de Queila sobre a entrega de Davi caso ele permanecesse ali). Pois quando Davi ficou em dúvida sobre o desígnio de Saul e a intenção dos homens de Queila em relação a ele, e por isso inqueriu do Senhor se Saul estava para descer contra os homens de Queila e se o entregariam nas mãos de Saul (caso ele ficasse entre eles), Deus respondeu que Davi devia esquivar-se e fugir de sua fúria, e que Saul desceria e os homens de Queila o entregariam (caso permanecesse ali), porque de fato tanto Saul se cingiu para a jornada como os homens de Queila estavam mesmo planejando secretamente entregar-lhe Davi. "Pois eles te entregarão", isto é, pretendem agir assim como reza o comentário interlinear. Então as palavras "descer" e "entregar" não se referem ao ato em si como hipoteticamente futuro, mas (como amiúde em outros lugares) expressam o propósito e a intenção, isto é, ter em mente agir assim (como At 12.6 e 16.27).

XVI. As palavras de Cristo: "Porque, se em Tiro e em Sidom se tivesse operado os milagres que em vós se fizeram, há muito que elas se teriam arrependido com pano de saco e cinza" (Mateus 11.21), não devem restringir-se à letra como se referindo a algo que, numa certa condição, seria determinantemente futuro. Pois é um tipo de linguagem hiperbólica e proverbial, em que Cristo (por uma comparação odiosa para os judeus) deseja exagerar a contumácia e a rebelião de suas cidades (as quais se tornaram ilustres por seus milagres), as quais, como aquele que sonda os corações (kardiognostes), ele bem sabia que eram maiores e mais obstinadas que a perversidade dos habitantes de Tiro e Sidom. E assim Cristo não fala da presciência de coisas condicionais futuras, mas deseja, pelo uso de uma hipérbole, repreender os judeus por sua ingratidão e impenitência mais graves que as do tírios e sidônios; como se um mestre (dirigindo-se a um estudante moroso e obtuso) dissesse: se eu tivesse instruído um asno por tanto tempo, ele teria aprendido; ou um juiz inexorável: se eu tivesse batido nas rochas e nas pedras por tanto tempo, certamente as teria quebrados; não temos em mente nem que as rochas amoleçam nem que um asno aprenda, mas apenas que a morosidade do estudante e a dureza do juiz são extremas. No mesmo tom, Cristo diz: "Se estes se calarem, as pedras clamarão" (Lc 19.40); não que as pedras possam clamar, mas para mostrar que sua pessoa, doutrina e obras eram tão claras e indubitáveis que era impossível que continuassem ocultas. Há uma passagem semelhante em Ezequiel 3.6: "Não és enviado... a muitos povos de entranho falar e língua difícil, cujas palavras não possas entender; se eu aos tais te enviasse, certamente te dariam ouvidos".

XVII. Em 2 Samuel 12.8 o profeta enumera as bençãos de Deus derramadas sobre o ingrato Davi, às quais teria adicionado maiores ainda que se Davi continuasse na obediência (não com base em algum decreto condicional ou no conhecimento intermediário, mas em conformidade com a promessa feita aos piedosos). Assim no Salmo 81.14,15 temos uma promessa condicional com uma reprovação contra a ingratidão, porém nada lemos concernente à presciência de uma coisa condicional futura antes do decreto. No mesmo teor se devem entender as palavras de Eliseu a Joás: "Cinco ou seis vezes a deverias ter ferido; então, feririas os siros até os consumir; agora, porém, só três vezes ferirás os siros" (2Rs 13.19); não que ele tivesse disso conhecimento intermediário, mas porque o profeta inferiu isso pessoalmente de uma revelação divina feita indefinidamente. 

XVIII. Uma coisa é Deus prever ou conhecer a conexão de uma coisa com a outra (por exemplo, do pecado com a morte e da justiça com a vida); outra é conhecer a conexão como futura num tal objeto posto neste ou naquele estado. Isso requer que algum decreto determine o que deve fazer com esse objeto; mas o primeiro caso pode fundamentar-se somente na possibilidade e no hábito mútuo das coisas. 

XIX. Uma coisa é Deus conhecer as conexões de todas as coisas como necessárias e as causas das coisas a se concretizarem por meio delas antecipadamente ao decreto; outra é conhecer as conexões contingentes de eventos e de todas as coisas possivelmente futuras. Se a primeira fosse admitida, favoreceria o conhecimento intermediário, porém é falso que Deus conheça as conexões de todas as coisas como necessárias e para produzir infalivelmente a concretização das coisas (especialmente em atos livres) antecedentemente ao decreto do qual depende a futurição das coisas. A segunda, porém, a qual admitimos, não aprova o conhecimento intermediário, porque conexões contingentes desse gênero só pertencem ao conhecimento natural quando considerado antecedentemente ao decreto, determinando a futurição certa de suas conexões ou de seus meios.

XX. O que se concebe como provindo determinantemente de Deus também pode ser pronunciado como determinante; mas o que se concebe como possivelmente provindo dele, só pode ser pronunciado como possível. Ora, nega-se que a coexistência de um ato livre hipoteticamente possa ser concebida como determinante e antecedente ao decreto; admiti-se que seja possível. Assim é verdade que Pedro possivelmente pecaria se posto numa dada ordem de coisas antecedendo ao decreto; mas não determinantemente tornaria verdadeiro que Pedro realmente e de fato pecaria se posto nessa ordem das coisas. Isso não poderia ser certo, a não ser em decorrência de um decreto permissivo de Deus.

XXI. Necessidade e contingência têm uma relação diferente em termos simples da que têm em termos complexos. No primeiro caso, a existência é dividida em necessária e contingente, e necessidade e contingência não podem pertencer ao mesmo modo; mas, no segundo (visto que elas surgem de hábitos ou de relação diversa de causas a seus efeitos), até aqui coincidem em que, o que com respeito à causa primária é necessário, com respeito à causa secundária pode ser contingente, desde que a causa primária assim o disponha. Isso não só garante a existência da coisa, mas, à sua própria maneira, que ela é algo necessariamente necessário, contingentemente contingente. Não obstante, essa necessidade da causa primária não elimina a liberdade do livre arbítrio, porque não é uma necessidade de coação, mas de consequência ou infalibilidade, que concorre melhor com a liberdade. 

XXII. Embora Deus, anteriormente ao seu decreto, tivesse conhecimento dos vários meios que podem ser utilizados para mover a vontade (que este ou aquele pode ter uma maior influência do que outros, se empregados), não poderia saber se realmente persuadiriam antecipadamente a vontade a fornecer esses meios e a mover eficazmente a vontade a produzir o efeito. Tampouco tem alguma força a ilustração extraída do fogo, o qual Deus sabe que possui a propriedade de produzir calor, anteriormente à vontade de criar o fogo que realmente produzirá calor. Pois a razão pela qual os agentes naturais se determinam, por sua natureza, uma coisa é diferente da dos agentes livres, os quais podem ser inclinados a uma ou a outra coisa oposta. 

XXIII. A causa da existência das coisas difere da causa de sua futurição. As causas secundárias podem concorrer com Deus para produzir a existência das coisas, porque elas existem e são ativas ao mesmo tempo com Deus. Mas nenhuma causa secundária pode concorrer com ele para produzir a futurição das coisas, porque a futurição foi feita desde a eternidade, ao passo que todas as causas secundárias só existem no tempo. Daí ser evidente que a futurição das coisas de nada depende senão ao decreto de Deus, e por isso só podem ser conhecidas de antemão com base no decreto. 

Fonte: Turretini, François. Compêndio de teologia apologética: vol 1, 3º tópico, 13º pergunta, pags 293-295. Ed. CEP.
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O conhecimento médio - Parte 2/3




Estabelecimento da questão.

V. A questão não é se Deus conhece as contingências futuras (pois todos concordamos que Deus conhece desde a eternidade não só as coisas em si, mas todas as suas combinações e conexões, quer presentes, passadas e futuras, quer necessárias e contingentes). Antes, a questão é se elas pertencem a um tipo de conhecimento intermediário distinto do natural e soberanos. Isso negamos.

VI. A questão não diz respeito a coisas condicionais futuras necessárias, as quais nesta ou naquela dada condição só podem ocorrer (como: se o sol nascer, será dia; se Pedro se arrepender sinceramente será salvo), pois como são necessariamente enfeixadas com base na natureza da coisa ou na hipótese do decreto divino, estão sob o conhecimento natural de Deus (se a condição é apenas possível) ou sob o soberano (se é futura e decretada por ele). Antes, a inquirição se relaciona com as coisas contingentes condicionais futuras, as quais (sendo estabelecidas a condição) podem ocorrer e não ocorrer; por exemplo, se João fosse de Lutécia, ele falaria ou pecaria, etc. A pergunta é se podem ser certa e determinantemente conhecidas por antecipação em relação ao decreto de Deus; isso negamos.

VII. A questão não é se o conhecimento de coisas condicionais futuras está em Deus antecedendo o próprio decreto (pois nossos adversários não negam que determinado decreto geral preceda, pelo qual ele prescreveu produzir as causas secundárias e está pronto a propiciar à criatura pelo menos uma cooperação geral e indiferente, sempre que ele quis que aquela se determinasse a agir). Antes, a questão é se um decreto especial concernente a certa futurição desta ou daquela coisa precede de modo que Deus pode ver aquela coisa antecedendo esse decreto (nela própria ou em suas causas). Isso eles mantêm; nós negamos.

VIII. Portanto, a questão é se, além do conhecimento natural (que é apenas de coisas possíveis) e o conhecimento de visão (que é apenas de coisas futuras), pode-se admitir um certo conhecimento terceiro ou intermediário, concernente às coisas condicionais futuras, pelo qual Deus sabe o que os homens ou os anjos farão livremente, sem um decreto especial precedente (se posto com estas ou aquelas circunstâncias, numa certa ordem de coisas). Os jesuítas, os socinianos e os remonstrantes o afirmam; os ortodoxos negam.

Prova de que não se pode admitir o conhecimento intermediário.

IX. As razões são: (1) O conhecimento natural e o soberano abarcam todas as coisas e entidades conhecíveis, e não devem ser multiplicados desnecessariamente. Não há nada na natureza das coisas que não seja possível ou futuro, nem podem as coisas condicionais futuras constituir uma terceira ordem, pois são tais com base num condição apenas possível ou poderosa, ainda que nunca ocorra, ou numa condição certamente futura e decretada. Na primeira maneira, não retrocedem da natureza coisas possíveis e pertencem ao conhecimento natural; na segunda, são futuras e decretadas por Deus e vêm sob o conhecimento soberano.

X. (2) Coisas inverídicas não podem ser previstas como verídicas. Ora, as coisas condicionais futuras não podem ser verídicas à parte da determinação da vontade divina; por exemplo, os sidônios teriam se arrependido se os poderes lhes fossem supridos, pois teriam ficados dispostos indiferentemente em sua natureza para arrepender-se ou não, caso tais poderes lhes fossem dados; por isso deve vir de outra fonte a verdade de que se arrependeriam caso tais poderem fossem impostos, se absolutamente verídicos. Mas não se pode imaginar como causa dessa coisa exceto a vontade de Deus. Nada houve desde a eternidade que pudesse ser a causa da determinação de uma coisa indiferente a não ser a vontade de Deus; não sua essência ou seu conhecimento, pois nenhum deles pode operar ad extra separadamente da vontade. Portanto assim como nenhum efeito pode ser entendido como futuro (absolutamente ou hipoteticamente  sem o decreto divino (porque nenhuma criatura pode estar no mundo sem a causalidade divina), nenhuma coisa condicional futura pode ser conhecível antes do decreto.

XI. (3) Se todos os atos de vontade criada estão sob a providência divina, de modo que nenhum deles é independente e indeterminado, não se pode admitir um conhecimento indeterminado (que se supõe ter por objeto a livre determinação da vontade, não dependendo de nenhuma causa superior). Ora, que há tal sujeição da vontade criada é evidente à luz da dependência entre a causa primária e as causas secundárias, entre o Criador e as criaturas. Nem seria suficiente, para evitar essa dependência, dizer que ela é criada, e sua liberdade dada por Deus, pois não cessaria de ser esse o princípio de sua determinação se seus atos não dependessem de algum decreto. Não seria deveras o primeiro a existir, mas ainda serio o operador primário (nem de modo algum a causa secundária, mas a primária, porque, se dependesse de Deus no ser, não dependeria dele na operação). 

XII. (4) Não se deve atribuir a Deus nenhum conhecimento incerto. O conhecimento intermediário não pode ter certeza porque se ocupa de um objeto incerto e contingente (ou seja, a indiferença [adiaphorian] da vontade). Pergunto, pois, de onde pode Deus saber com certeza o que vai ou não vai acontecer? Isso pode ser feito com base na natureza das próprias coisas, quando ele as considera (em suas causas ou em si mesmas) como atos livres numa vontade criada (o que agrada a Belarmino [Roberto Belarmino (1542-1621), cardeal]) - mas como é possível uma coisa incerta propiciar fundamento ao conhecimento certo - ou com base na infinitude do conhecimento divino, que se sabe antecipadamente e com certeza em que direção a persuasão moral inclinará a vontade (de outra forma livre) para o oposto ( o queVasquez e Suarez sustentam); mas, como poderia a fragilidade do conhecimento mudar a natureza das coisas a ver uma coisa se concretizar como certeza sendo contingente? Uma vez mais, o conhecimento torna o evento certo ou o prevê como certo. Se o faz assim, como pode conhecê-lo de antemão como tal, e onde está então a indiferença da vontade? Se o prevê como certo, como pode a previsão de uma coisa incerta e indiferente ser em si mesma certa? Ou com base na existência eterna das coisas, pela qual se diz que elas são presentes para Deus (como outros preferem). Visto, porém, que não podem ter existência real desde a eternidade (mas somente intencional), não se pode dizer que existiram desde a eternidade senão em razão do decreto, no, qual obtêm sua futurição. Visto, pois, que a necessidade certa do evento não pode fundamentar-se na conexão contingente dos fins ou no conhecimento que reconhece, porém não faz a coisa, segue-se que é somente com base no decreto eficaz daquele que estabelece a conexão. Tomás de Aquino diz com mais acerto: "Aquele que conhece um efeito contingente apenas em sua própria causa, e não em alguma causa superior que certamente o determina, apena tem um conhecimento conjetural concernente a ele; visto que, de uma causa indiferente, enquanto indiferente, não pode fluir um determinado ato; e, pela mesma razão, de uma antecedente contingente, enquanto contingente, não pode fluir uma conclusão necessária antes do decreto da vontade divina" (ST, I, Q. 14, Art 13, p. 83).

XIII. (5) Esse conhecimento intermediário elimina o domínio de Deus sobre os atos livres, porque, segundo ele, supõe-se que os atos da vontade são anteriores ao decreto, e por isso têm sua futurição, não em Deus mas em si próprios. Aliás, Deus parece antes depender da criatura, não podendo decretar ou dispor nada, a não ser que uma determinação da vontade humana postule o que Deus veria em tal conexão das coisas. Não se deve responder que o domínio de Deus nem por isso é desfeito, porquanto ele pode remover aquela conexão ou alguma circunstância dela; por exemplo, na presciência pela qual Deus sabia que Pedro negaria a Cristo, se colocado em certa condição, Deus poderia impedi-lo de negar a Cristo eliminando alguma circunstância prevista (por exemplo, o temor da morte) ou adicionado maior luz ao intelecto e maior inclinação na vontade para confissão, e tudo mais. Pois não seria suficiente, para sustentar o domínio de Deus, que ele pudesse impedir Pedro negar a Cristo, pois poderia ter privado Pedro da vida antes da apreensão de Cristo (mas isso seria ter domínio sobre a vida de Pedro, não sobre seu livre arbítrio); porém requer-se que os atos livres de Pedro, de negar ou não a Cristo, dependem dele (o que se nega na suposição desse conhecimento). Enfim, se Deus pode eliminar uma circunstância prevista, pode mudar a concretização da coisa; se ele pode, por um decreto, mudar a concretização de uma coisa, também pertence ao decreto fomentá-la; pois aquele que impede o evento pela remoção de alguma circunstância deve causá-la pelo suprimento das circunstância.

XIV. (6) Sobre a suposição de tal conhecimento, pode-se determinar uma razão para a predestinação fora de Deus, além de seu propósito e beneplácito (eudokian), porque o consentimento previsto da vontade de Jacó, posta em tais circunstância, seria pelo menos a condição sem a qual Deus não poderia predestinar a salvação de Jacó em vez de Esaú. Mas não se pode derivar de Paulo nenhuma razão para a eleição, exceto o propósito (eudokian) de Deus - "E ainda não eram o gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal" - não em virtude de um previsto bom uso do livre arbítrio pelo conhecimento intermediário, mas "(para que o propósito de Deus, quanto a eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama), foi dito a ela: o mais velho será servo do mais moço" (Rm 9.11,12). Nem se deve dizer que essa condição é determinada por Deus, que tem o conhecimento, não pelos homens; pois, embora sendo Deus quem conhece de antemão, o que se afirma é que o objeto que ele pré conhece é o bom uso do livre arbítrio previsto antes do decreto, de modo que a razão do decreto é posta não em Deus, mas no homem. E assim a graça pode ser chamada com maior propriedade de serva da inclinação humana do que senhora, e companheira, do que causa, fazendo Deus depender do homem em vez de o homem depender de Deus. 

Fonte: Turretini, François. Compêndio de teologia apologética: vol 1, 3º tópico, 13º pergunta, pags 289-293. Ed. CEP.

O conhecimento médio - Parte 1/3



Por François Turretini

Há em Deus um conhecimento intermediário entre o natural e o livre? Isso negamos contra os jesuítas, os socinianos e remonstrantes.

O duplo conhecimento intermediário.

I. Embora o conhecimento de Deus seja uno e simples intrinsecamente não menos que sua essência, ele pode ser considerado de maneiras diferentes, extrinsecamente, quando aos objetos. Mas comumente é distinguidos pelos teólogos entre o conhecimento da simples inteligência (ou natural e indefinido) e o conhecimento da visão (ou livre e definido). O primeiro é o conhecimento de coisas meramente possíveis, e por isso é chamado de indefinido, porque nada em mãos é determinado por Deus concernente a eles. O segundo é o conhecimento de coisas futuras e é chamado de definido, porque coisas futuras são determinadas pela infalível vontade de Deus. Por isso diferem mutuamente: (1) em objeto, porque o conhecimento natural se ocupa de coisas possíveis, porém o soberano de coisas futuras; (2) em fundamento, porque o natural se fundamenta na onipotência de Deus, porém o soberano depende de sua vontade e decreto, por cujas coisas passa de um estado de possibilidade a um estado de futurição; (3) em ordem , porque o natural precede o decreto, porém o soberano o segue, porque visualiza coisas futuras; agora elas não são futuras, exceto por meio do decreto.

A origem do conhecimento intermediário. 

II. Além dessas duas espécies de conhecimento divino, uma terceira foi engendrada pelos jesuítas Fonseca, Lessuis e Molina. Não há entre eles concordância sobre quem é o pai desse feto (foetus) (cada um o reivindica para si), o qual chamam de "intermediário", porque está entre o natural e o livre e difere de ambos. Difere do indefinido e natural, porque se ocupa do futuro, porém não das coisas possíveis. Difere do soberano, porque se relaciona com as coisas certamente futuras, porém apenas em termos hipotéticos. Os autores explicam esse conhecimento intermediário no sentido da presciência de Deus sobre eventos condicionais futuros, cuja veracidade depende não do decreto soberano de Deus (sendo anterior a este), porém da liberdade da criatura (a qual Deus certamente prevê), seja em si mesma ou na coisa (como se determinará se posta em dadas e certas circunstâncias).

III. O propósito dos jesuítas era defender a heresia semipelagiana da fé e das obras previstas na eleição, e apoiar a ficção do livre arbítrio a fim de mais facilmente livrar-se dos argumentos dos dominicanos, que rejeitavam tal previsão (principalmente por esta razão: visto que não há conhecimento em Deus [a não ser natural - de coisas possíveis - ou soberano - de coisas futuras], toda presciência da fé e do bom uso do livre arbítrio deve depender do decreto, não precedê-lo). Imaginariam que só poderiam escapar desse argumento pela invenção do conhecimento intermediário. Não há necessidade de levar em conta os distúrbios que essa questão suscitou entre os jesuítas e dos dominicanos. O papa, nesse ínterim, a cujo tribunal toda a matéria era frequentemente submetida para seu julgamento infalível, num assunto de tão grande importância cochilou e não ousou determinar coisa alguma. É suficiente fazer essa observação: o que os jesuítas defendiam como sua Helena foi ferozmente assaltado pelos dominicanos como o que há de mais falso (entre os quais se contavam os eminentes Cumel, Ripa, Alvarez, Nugno e outros, com os quais concordam os jansenistas modernos). 

IV. Essa invenção foi posteriormente adotada pelos socinianos e remonstrantes, os quais defenderam corajosamente visando preservar na fortaleza o livre arbítrio; ver Armínio, "Certain Articles to be Diligently Examined and Weighed", "On God Considered According to His Nature", The Weitings of James Arminius (1956), 2:480-81; Vorstius, Tractatus theologicus de Deo (1610); Grevinchovius, Dissertatio theologica de duabus quaestionibus... controversis... inter G, Amesium (1615).

Fonte: Turretini, François. Compêndio de teologia apologética: vol 1, 3º tópico, 13º pergunta, pags 288-289. Ed. CEP.
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A Heresia do Conhecimento Médio

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Dr. C. Matthew McMahon

É interessante para mim ver que erros do diabo vem mantendo vivo durante a nossa época atual em termos das muitas heresias que homens bons colocados para descansar postos no papel por suas canetas ortodoxas. Algumas heresias foram jogados no esquecimento, eles vieram e se foram. Outros ainda estão em plena floração. Aqueles que pensam que têm uma alça sobre a teologia bíblica, foram desviados por esses erros e seus próprios pensamentos torcido por ter ressuscitado algumas novamente. E é igualmente interessante para mim que os erros mais nocivos e heresias cercam a doutrina de Deus ou a doutrina de Cristo. Neste trabalho, a heresia que estou refutando rodeia a própria Teologia, a doutrina de Deus. É especificamente em termos de doutrina do conhecimento de Deus, ou a Sua onisciência. O erro é chamado Molinismo, ou Conhecimento Médio (Teísmo Aberto Hoje é seu irmão mais perto.).

É inseguro quanto a saber se Luis de Molina (1535-1600, foto), na verdade, gerou a doutrina do Conhecimento Médio. Outros, como o Fonseca e Lessius puseram diante as mesmas idéias. Mesmo se Molina começou, é de nenhuma conseqüência. O que é importante é que seja rejeitado pelos cristãos ortodoxos como heresia. Em 1609 a Igreja Católica Romana decidiu permitir que essa ideia como algo aceitável. No entanto, após um exame minucioso, é facilmente distinguida como algo anti-bíblico.

De acordo com Molina (como vamos presumir que era sua ideia desde que o termo foi considerado, assim, pelo seu próprio nome) Deus tem três tipos de conhecimento: natural, médio e livre. O conhecimento natural é o conhecimento de Deus de todos os mundos possíveis, ou seja, tudo o que diz respeito ao necessário e possível no entendimento de Deus (isto é ortodoxo).

Conhecimento livre é o conhecimento de Deus deste mundo real. Por um "ato livre," Ele é capaz de saber o que ele sabe absolutamente (isso também é ortodoxo). Molina, no entanto, disse que esse conhecimento não é algo que é essencial em Deus, o que é ridículo em si mesmo. Por último, os estados de conhecimento do meio que Deus não pode conhecer as futuras ações livres dos homens, da mesma forma Ele sabe outras coisas absolutamente. Assim, este conhecimento médio é dependente dos atos livres do que os homens fazem. Deus, em sua "onisciência", espera para que os homens ajam e, em seguida, irá escolher que eles sejam salvos com base na sua escolha para ser salvo.

A base real para essa doutrina não é a Bíblia, mas uma forma distorcida da lógica. A lógica molinista vai argumentar que uma ação deve ocorrer primeiro antes que possa ser verdade. Deus, então, não pode saber nada dessa maneira como verdadeira e absoluta, a menos que tenha ocorrido primeiro. Deus, então, torna-se dependente dos atos de homens em vez de em Seu eterno e próprios decretos. E uma vez que as ações dos homens são contingentes, o conhecimento de tais atos seria contingente também. As lógicas molinistas também vão discutir isso na forma de algo ser verdadeiro. Os atos livres dos homens não podem ser verdadeiros atos até serem efetivamente. Assim, Deus não pode saber algo como verdadeiro até que os homens, com o tempo, representar as suas escolhas livres. Então, o conhecimento de Deus torna-se verdade.

Certamente é fácil ver o que a doutrina do conhecimento médio é atraente aqui. Os homens são finalmente seus próprios salvadores pequenos, e todo bom católico ama a ideia de trabalhar para a sua própria salvação. Em segundo lugar, parece fornecer respostas para "enigmas teológicos", tais como "inferno" e "o problema do mal." Na realidade, todos os itens acima é apenas parte da fachada molinista.

Nesta posição, parece que os jesuítas estavam simplesmente tentando preservar as doutrinas heréticas reuniu-se pelas semi-pelagianos. Hoje, aqueles que sustentam a Molinismo simplesmente rejeitam os dados bíblicos do eterno decretos de Deus, Sua onisciência e seu onipotente poder exercido na doutrina da criação contínua. Molinismo não é compatível com essas doutrinas. Molinismo deve simplesmente negar a maior parte da Bíblia, a fim de prender essas idéias e, ao mesmo tempo exaltar outras partes das Escrituras que eles acham que tem seu ponto de vista em conjunto. Eles devem simplesmente negam textos como Isaías 46:10-11 , porque é incompatível com a sua "lógica", "anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não foram feitas, dizendo:" O meu conselho subsistirá, E eu farei toda a minha vontade ", chamo a ave de rapina desde o oriente, O homem que executa meu conselho, de um país distante. Na verdade eu falei isso, eu também irá levá-lo a passar. Eu o propus,. Também vou fazê-lo "Sempre que os homens são colocados no banco do motorista do futuro, Deus é diminuído na sua glória e a depravação dos homens parafusam em primeiro plano, então, doutrinas como molinismo até a superfície  À luz dos dados bíblicos, e raciocínio lógico em si, esta doutrina trata de nada. A única razão por que alguém iria continuar a manter esta doutrina é devido a incredulidade - que rejeitam o Deus da Bíblia.

Turretin afirma a heresia e objeções também, "A questão não é se Deus sabe contingências futuras ... Pelo contrário, a questão é se eles pertencem a uma espécie de meio conhecimento distinto do [conhecimento que ele já possui de todas as coisas] natural e livre. Este último negamos..., portanto, a questão é saber se, além do conhecimento natural (que é apenas coisas possíveis) e o conhecimento da visão (que é apenas de coisas futuras), não pode ser concedida em Deus um certo conhecimento terceiro ou médio em relação ao futuro condicional coisas pelas quais Deus sabe o que os homens ou anjos vão livremente fazer sem um decreto especial anterior (se for colocado com a circunstância estes ou aqueles em tal ordem das coisas). Os jesuítas, socinianos, e Remonstrantes afirmar isso, o ortodoxo negar isso "(Instituto, v1, Página 214).

Conhecimento do meio não é uma entidade. As razões para isso são muitas: Primeiro, tanto o conhecimento natural e livre abraçam o conhecimento de todas as coisas para Deus. Não há mais nada a saber após estes. Não há nada na natureza de qualquer coisa que seja, que não é possível ou futuro. O conhecimento de Deus não pode ser dito para sair desses limites. Ele conhece todas as coisas possíveis ou futuras antes da fundação do mundo. Conhecimento médio, então, não é uma entidade. Segundo, nenhuma coisa futura condicional pode ser cognoscível antes do decreto divino. Assim, as coisas não verdadeiras não pode ser previamente conhecido como verdadeiro. Em terceiro lugar, todas as coisas estão sob o poder da providência de Deus, e, portanto, nenhuma coisa pode ser independente de que a providência. Em quarto lugar, a Bíblia não atribuir a Deus qualquer tipo de conhecimento é incerto (o autor tem conhecimento do ressurgimento do "Teísmo Aberto", que é tratada adequadamente por Bruce Ware, em seu livro, "Glória de Deus Menor"). Molina teria confundido Deus sobre todas as coisas desde o conhecimento de Deus é dependente dos atos livres dos homens. Assim, qualquer conhecimento sobre qualquer coisa na ordem criada, seria necessário que todo o conhecimento que Deus tem sobre o universo dependeria das ações livres dos homens em que o universo - o que é um absurdo. Deus, então, seria simplesmente uma espécie de ressuscitado "Zeus" figura da mitologia antiga. Em quinto lugar, o conhecimento médio destrói o domínio de Deus sobre a criação já que todos os atos não são pré-formadas pelo decreto de Deus, mas os atos em si. O homem, então, torna-se "Deus".

Molina não colocou a verdade no contexto apropriado. Conhecimento de Deus de realidade não é baseado naquilo que é contingente, mas a Sua própria natureza. Isto significa que o conhecimento de Deus não depende da condição das coisas conhecidas. É baseada em seu ser necessário. Desde que o ser de Deus é necessário desta maneira, tudo no conhecido a Ele é necessário, não contingente. Se o conhecimento de Deus é dependente das ações livres dos homens, então Deus não é realmente Deus em tudo. Seria igualmente se prostrar a uma imagem de escultura, ou de um ídolo feito a partir de suas próprias mãos. Ele não teria poder de agir independentemente dos homens, nem ele teria o poder de aprovar qualquer mudança, nem mesmo o ato de criação.

Não existe uma posição entre os dois pólos da lógica - Deus é a causa de todas as coisas, meios primários e secundários, (este calvinismo afirma) ou, ele é dependente de outros atos livres (o catolicismo romano e Arminianismo afirma). Deus quer fazer, ou Ele é efeito. A natureza epistemológica do conhecimento de Deus não vai permitir que ele se torne um deus olímpico que espreita sobre as nuvens para ver o que os homens trapaças ter jogado contra ele naquele dia. Salvação eficaz seria impossível com um tal "deus." Como poderia Zeus garantir a salvação de qualquer pessoa, se o indivíduo é o autor e consumador de sua própria fé? Molinismo não só nega as doutrinas fundamentais da teologia, mas também nega a depravação do homem neste ponto (e este objetivo habitual de tais doutrinas - para aliviar o homem de sua verdadeira miséria e colocar em suas mãos uma forma de "poder" que a serpente tentou Eva).

Turretini resume essas idéias muito bem, "A causa da existência de coisa diferente a causa de sua fruição. Causas secundárias podem concordar com Deus para fazer com que a existência de uma certa coisa, porque eles existem e estão ativos ao mesmo tempo com Deus. Mas não segunda causa pode concordar com ele para fazer com que o futuro das coisas porque o futuro foi feita a partir de eternidade, enquanto todas as causas são apenas segundo no tempo. Por isso, é evidente que o futuro das coisas depende de nada, mas do decreto de Deus, e, portanto, pode ser previamente conhecido apenas a partir do decreto. "(Instituto, v1, Página 218)

Apoio bíblico breve para o conhecimento infinito de Deus e Seu poder, e a negação bíblica de Molinismo:

Atos 17:24-25 : "Deus, que fez o mundo e tudo nele, já que Ele é o Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos com as mãos. Nem é servido por mãos humanas, como se precisasse de alguma coisa, uma vez que Ele a todos dá vida, respiração e todas as coisas.

Colossenses 1:17 "Ele é antes de todas as coisas, e nele subsistem todas as coisas".

Atos 17:28 , "... pois nele vivemos, nos movemos e temos o nosso ser ..."

Rom. 11:33-34 , "Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis ​​são os seus juízos e os Seus caminhos últimos descobrir! Para quem conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro? "

Salmo 147:5 "Grande é o nosso Senhor, e de grande poder; Seu entendimento é infinito."

Heb. 4:13 : "E não há criatura alguma encoberta diante dele, mas todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele a quem temos de prestar contas."

Atos 15:18 , "Conhecido por Deus desde a eternidade são todas as suas obras."

Ezequiel 11:05 : "Então, o Espírito do Senhor desceu sobre mim, e me disse:" Fala!"Assim diz o Senhor:" Assim que você disse, ó casa de Israel, porque eu sei que as coisas que vêm em sua mente. "

A Confissão de Fé de Westminster fundamenta a posição ortodoxa sobre este assunto no capítulo 3:1-3 - No decreto de Deus:

I. Deus, desde toda a eternidade, fez, pelo muito sábio e santo conselho da sua própria vontade, livremente, e imutavelmente, ordenou tudo o que acontece: [1] ainda assim, como que nem Deus é o autor do pecado, [2] nem violentada é a vontade da criatura, nem é a liberdade ou contingência das causas secundárias fora, mas sim estabelecido [3].
1. Salmos 33:11, Ef. 01:11, Heb. 06:17
2. Salmos 05:04, Tiago 1:13-14, I João 1:5, ver Hab. 01:13
3. Atos 2:23, 4:27-28, Mat. 17:12, João 19:11, Prov. 16:33 
II. Ainda que Deus sabe tudo quanto pode ou há de acontecer em todas as circunstâncias imagináveis, [4] mas não tem nada, porque ele decretou previu como futuro, ou como coisa que havia de acontecer em tais condições. [5] 
4. I ​​Sam. 23:11-12, Mat. 11:21-23
5. Rom. 9:11, 13, 16, 18 
III. Pelo decreto de Deus e para manifestação da sua glória, alguns homens e anjos [6] são predestinados para a vida eterna;. E outros preordenados para a morte eterna [7]. 
6. I Tm 5:21, Judas 1:6, Matt. 25:31, 41 
7. Ef. 1:5-6, Rom. 9:22-23, Prov. 16:04

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