Confessionalidade madura também se expressa através de submissão e coerência

image from google

Recentemente vi um vídeo do trecho de uma palestra a respeito de como viver uma confessionalidade madura. Esse tipo de discussão é deveras importante, uma vez que há alguns anos o assunto da confessionalidade era quase que completamente ignorado em nosso meio. Aliado a isso está o fato de que há muitos jovens que, nas redes sociais, discorrem sobre o assunto de modo beligerante e sem qualquer caridade pelas pessoas que pensam de modo distinto.

A minha questão aqui gira em torno de algumas afirmações feitas na palestra, que, possivelmente até de modo inadvertido, esvaziem a autoridade das confissões reformadas de modo geral e, especificamente, dos Padrões de Westminster, símbolos de fé da Igreja Presbiteriana do Brasil, aos quais nós, ministros presbiterianos, juramos submissão.

Subscrição Confessional

image from google

Uma afirmação credal ou confessional é uma afirmação daquilo que um indivíduo ou uma denominação confessa ser sua crença. Que afirmações credais são bíblicas é visto nas fiéis palavras que o apóstolo cita nas Epístolas Pastorais. Por exemplo: “Fiel é a palavra e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” (1Timóteo 1.15). A PCA [Presbyterian Church of America], logo quando surgiu, declarou-se comprometida com a Confissão e os Catecismos de Westminster, como sustentados pelas igrejas presbiterianas americanas desde 1789.

A ideia de subscrição é a do compromisso formal de si mesmo com aquilo que subscreve. O segundo voto de ordenação da PCA é um voto no qual o ordenando afirma a sua fé. Envolve a sua subscrição à Confissão e aos Catecismos de Westminster como a sua confissão de fé. Ele diz:

Você recebe e adota, sinceramente, a Confissão de Fé e os Catecismos dessa Igreja, como contendo o sistema de doutrina ensinado nas Sagradas Escrituras; e você promete também que, se em qualquer época você se encontrar em desacordo com qualquer dos fundamentos desse sistema de doutrina, por sua própria iniciativa fará conhecida ao seu presbitério a mudança ocorrida em suas opiniões, a partir do momento em que você assume este voto de ordenação? (BCO 21-5, 24-5) 

Antes de prosseguir, seria bom definir como entendemos os termos subscrição “estrita” e “ampla” significam. Em primeiro lugar, as duas palavras “estrita” e “ampla” não são os melhores termos pata descrever as duas visões em jogo no “debate sobre subscrição”. Essa terminologia remonta ao século XIX. De certa forma, os dois termos são caricaturas das posições que levam esses nomes. Em vez de “subscrição estrita”, a melhor descrição é “subscrição integral”. Podemos substituir a expressão “subscrição ampla” por “subscrição do sistema de teologia”, que será abreviada como “subscrição do sistema” ao longo deste texto.

Subscrição estrita ou integral leva em conta a pergunta citada acima: “Você recebe e adota, sinceramente, a Confissão de Fé e os Catecismos dessa Igreja, como contendo o sistema de doutrina ensinado nas Sagradas Escrituras...”. Ela sustenta que o ordenando está subscrevendo nada mais nada menos que a inteireza da Confissão e dos Catecismos como contendo o sistema de doutrina ensinado nas Escrituras. Não significa dizer que aquele que subscreve integralmente uma confissão não reconhece que alguns ensinamentos da Confissão e dos catecismos são mais fundamentais que outros, mas, sim, que ele acredita que ao professar que a Confissão e os Catecismos da sua igreja são a sua confissão, ele está subscrevendo todas as doutrinas na Confissão e nos Catecismos. Todas elas são parte do sistema de doutrina, embora, admitidamente, algumas sejam mais essenciais que outras. Note que subscrição integral não exige subscrição em termos de adotar cada palavra da Confissão e dos Catecismos, mas, sim, em termos de cada doutrina ou ensinamento da Confissão e dos Catecismos.

Subscrição ampla – ou do sistema –, por outro lado, sustenta que subscrevemos
um sistema de doutrina que não é definido especificamente, mas que está contido na Confissão e nos Catecismos da igreja. A subscrição do sistema sustenta a adoção de todas as doutrinas fundamentais e essenciais do sistema. Outras expressões das confissões e catecismos, que são julgadas como não essenciais ao sistema de doutrina são uma questão de indiferença, quer o ordenando as adote ou não. 

Envolvido em ambas as visões está o conceito de “doutrina”. Essencialmente, a palavra significa um ensinamento. Quando alguém que subscreve uma confissão de maneira integral insiste no fato de que a nossa subscrição inclui todas as doutrinas  nos Padrões Confessionais, ele não está insistindo em cada afirmação a respeito de cada uma daquelas doutrinas, mas, em vez disso, que cada uma das áreas do ensinamento tratado pelos Padrões está incluída em sua subscrição. Por outro lado, aquele que subscreve o sistema afirma que apenas as doutrinas que compõem o sistema são ordenadas na subscrição. Aquelas proposições ou expressões, e mesmo aquelas doutrinas que não são uma parte do sistema, não estão incluídas. A definição do que está incluído no sistema é algo que deve ser determinado pelos tribunais da igreja, na medida em que a ocasião surge.

Vamos ilustrar os tipos de diferenças que surgem. Aquele que subscreve uma confissão integralmente acredita que está comprometido todas as posições doutrinárias elencadas na Confissão e nos Catecismos. Ele está assim comprometido com a visão de casamento e divórcio ensinada na Confissão. Se um membro da sua igreja deseja casar com um católico romano, contra quem a Confissão fala de modo bem específico, aquele que subscreve integralmente a Confissão não sente que tem liberdade para realizar tal casamento. Em vez disso, deve advertir o seu paroquiano contra o mesmo. Aquele que subscreve o sistema de doutrina pode entender que parte do capítulo sobre casamento não faz parte do sistema, e pode sentir que possui perfeita liberdade para realizar tal casamento.

Um número de outras ilustrações poderia ser apresentado, tais como: visões a respeito do Sabbath, da condução dos serviços de culto, etc. Quem subscreve a Confissão de maneira integral defende o Sabbath como está expresso nos catecismos, enquanto quem subscreve o sistema pode sentir que tem liberdade para fazer um número de coisas proibidas pelos Catecismos. Tal é o caso com o Princípio Regulador do Culto. O subscritor integral enxerga isso como a posição da Igreja Presbiteriana, e não quer cruzes ou imagens de Cristo, no lugar do culto. Ele também deseja ser capaz de apontar diretamente, a partir da Escritura, tudo aquilo que é feito no serviço de culto.

O subscritor do sistema pode achar que o uso de cruzes, ou mesmo de imagens de Cristo, é permitido. Ele julga essa parte do Catecismo como uma a respeito da qual uma exceção pode ser tomada, uma vez que ele pode sentir que o sistema de doutrina bíblico não a exige. Quando observamos como as nossas visões da subscrição se aplicam à nossa prática pública, vemos o porquê de existir tanta tensão entre os dois grupos.

A pergunta que deve ser respondida é como as exceções devem ser tratadas. Vamos agora tentar estabelecer as implicações de cada um desses pontos de vista.

Primeiro, pode-se afirmar que nenhuma exceção deve ser permitida. Quando alguém subscreve a Confissão de uma igreja, ele adota aquela confissão como a sua própria, e não ensinará ou praticará o que é contrário a essa confissão. Ele decide, com a ajuda de Deus, que procurará ser verdadeiro à essa Fé tanto em seu ensino como em sua vida. Essa é a posição que o subscritor integral prefere. Entretanto, ela não é a única posição compatível com a posição da subscrição integral.

Do primeiro Ato de Adoção da Igreja Presbiteriana Americana (1729), foi feita provisão para homens afirmarem os seus escrúpulos diante do presbitério que os examinava. Então, o presbitério tinha o dever de determinar se o ponto de exceção era de natureza tal que excluía o candidato do ministério presbiteriano ou não. A pergunta acerca do que essa aprovação permitia permanecia para aqueles aprovados para ordenação com exceções. Era permitido que ele ensinasse essa visão, contrária aos Padrões da Igreja, ou era exigido que ele ensinasse a posição da Igreja?

O subscritor integral defende que a aprovação da exceção não é um acordo para
o indivíduo ensinar contra as doutrinas da Igreja. Se o candidato deseja ser um ministro presbiteriano, de boa vontade, ele deve se submeter aos irmãos, e ensinar apenas o que a Igreja adotou como sua posição. Se ele não pode fazer isso com boa consciência, então, ele deve buscar uma comunhão onde ele não esteja debaixo de tal restrição. Samuel Miller (1769-1850) escreveu a respeito dessa questão:

Definindo, então, como um primeiro princípio de honestidade, bem como da verdade cristã, essa subscrição dos Artigos de Fé é uma transação de peso, que realmente significa o que ela professa significar; que nenhum homem tem a liberdade de subscrever artigos nos quais não acredita verdadeira e plenamente; e que, ao subscrever, ele se coloca debaixo de um compromisso solene e pactual com a igreja em que entra, para andar com ela ‘em unidade de fé’, e ‘no vínculo da paz e do amor’. Se ele não pode fazer isso de maneira honesta, não permita que ele professe isso de maneira alguma.¹

O ordenando que toma exceções a um ensinamento particular da Confissão ou dos Catecismos, pode ser ordenado pelo presbitério, se este achar que a exceção não afeta o sistema básico de doutrina contido nos Padrões. Ele não está autorizado a ensinar de modo contrário aos Padrões. Ele deve ensinar a visão dos Padrões, a fim de não perturbar a Igreja por ensinar contrários aos padrões dela. Se não puder se submeter aos irmãos, ele deve buscar outra comunhão, onde ele tenha maior liberdade.

A Confissão e os Catecismos da Igreja são seu credo, não algum indefinido sistema de doutrina – nem mesmo um indefinido sistema reformado de doutrina.

Teólogos liberais na principal Igreja Presbiteriana no início do século XX, todos os quais eram subscritores amplos, afirmavam sustentar o sistema de doutrina, mas não a Confissão e os Catecismos em si. Por não definirem o sistema, eles eram capazes de afirmar isso, e não serem disciplinados quando ensinavam algo contrário à Confissão ou aos Catecismos. Se permitirmos que homens tomem exceções à Confissão e aos Catecismos e, então, permitirmos que ensinem essas exceções, a Igreja se tornará cada vez menos unificada em sua posição doutrinária. E se tornará cada vez mais difícil disciplinar aqueles que ensinam o erro. Em seu credo, a Igreja declara o que ela crê ser a interpretação correta de várias doutrinas contidas ali. Essa é a visão que a Igreja espera que o seu ministro ensine e defenda. Se um homem deseja ser um ministro numa denominação confessional, de boa vontade ele deve submeter o seu ensino e práticas pessoais à Igreja, mesmo que ele sinta que a Igreja não está correta naquele ponto em particular. Se ele não puder fazer isso, então, ele deve procurar outra comunhão.

Os escritores da Confissão e dos catecismos foram bastante sábios ao não estabelecerem todas as possíveis questões teológicas a respeito das quais a Bíblia não é explícita. Por exemplo, os Padrões não estabelecem as questões em torno do supra ou infralapsarianismo, ou da natureza da imputação do pecado de Adão, ou do milenialismo. Felizmente, os teólogos de Westminster deixaram essas questões para a consciência individual, e não estamos vinculados a uma visão em particular sobre essas por ocasião da nossa subscrição aos Padrões.

O espírito da nossa subscrição é aquele de submissão aos nossos irmãos, e muito mais aquele de submissão à Palavra de Deus. Historicamente, esse tem sido o espírito expresso nas confissões reformadas e presbiterianas. A Confissão Escocesa de 1560 declara em seu prefácio:

Se qualquer homem notar em nossa Confissão qualquer capítulo ou sentença contrária à Santa Palavra de Deus, ele deve, por gentileza e por amor da caridade cristã, informar-nos por escrito; e nós, por nossa honra, prometemos que pela graça de Deus daremos satisfação a partir da boca de Deus, isto é, pela Sagrada Escritura, ou então, alteraremos o que ele provar estar errado.

Para encerrar, cabe a nós aprender as lições da história, e procurar resolver esse problema que tem causado não pouca perturbação da “paz e da unidade” da Igreja Presbiteriana Americana.

_______________
Nota:
[1] Samuel Miller. The Utility and Importance of Creeds and Confessions: addressed particularly to candidates for the ministry. (Greenville, SC: 1987), 102.

***
Autor: Morton H. Smith
Fonte: Morton H. Smith. “Confessional Subscription”. In: Zachary Groff (Ed.). Equipping Preachers, Pastors, & Churchmen: Selected Articles by the Faculty of Greenville Presbyterian Theological Seminary. Taylors, SC: Presbyterian Press, 2017. pp. 77-82.
Tradução: Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima 
Via: Seminário JMC
.

Sete marcas de um ministério do púlpito puritano

image from google

Os membros da Assembleia em sua reforma do ministério da pregação na Inglaterra, concordaram com um rígido delineamento do que seria o perfil dos pregadores e a natureza da pregação. Este estudo final resume sete pontos de uma visão puritana dominante acerca do púlpito como articulado pela Assembleia de Westminster e seus membros.

1. Os embaixadores de Deus: pregadores ordenados

A primeira marca do púlpito puritano é que ele seja ocupado por um homem, ordenado para o Ministério do Evangelho, pela Igreja de Cristo. George Gillespie (1613-1648) teve a ordenação em mente quando recordou uma importante questão feita pelo apóstolo Paulo: “como eles pregarão, a menos que sejam enviados”? Com isso, ele inferiu que os pregadores recebem um chamado especial e um ofício especial. Nem toda ovelha é um pastor. Nem todo cidadão é um embaixador.

Gillespie estava respondendo aos contemporâneos que achavam que não havia “um chamado sagrado, nem a separação solene dos homens para o ministério”, uma visão que ele achava impraticável e não bíblica. Ele retrata o caos se todos fossem pregadores, e ele retorna à palavra do apóstolo Paulo: alguns são separados; apenas eles são “enviados”. Esse é o núcleo da doutrina da ordenação.

2. Pregadores treinados

Os ministros precisavam ser ordenados e igualmente serem treinados. John Lightfoot (1602-1675) argumentou que o estudo era necessário para que alguém fosse um pregador, pois ele foi necessário até mesmo para os apóstolos. Eles se comprometeram a “ouvir, estudar, conferir e meditar”, e estavam com o próprio Cristo por um ano inteiro, antes de serem enviados para pregar.

Alguns “criticam aprender e estudar”. Mas Thomas Goodwin (1600-1680) observa que se exigiu de Timóteo que estudasse. Goodwin argumenta que a pregação extemporânea apenas, sem estudo, é realmente contrária à Escritura. Ele também comenta (perceptivamente) que aqueles que argumentam contra o estudo ainda dependem muito do que ouviram e discutiram. Ninguém entra no púlpito como uma lousa em branco.

Mas isso não significava que a sua erudição sempre fosse exibida no púlpito. Em um longo debate na Assembleia de Westminster, alguns homens argumentaram contra citar autores ou usar frases estrangeiras no púlpito. John Arrowsmith (1602-1659) era daqueles que discordava. Exibições de aprendizagem seriam permitidas e ele não resistiria em citar Agostinho (em latim) para mostrar que esta não é uma nova opinião na igreja.

3. Pregadores piedosos

Os pregadores precisavam ser ordenados e treinados, mas também precisavam ser “piedosos”, uma palavra que resume muito do que se diz sobre os presbíteros em 1 Timóteo e Tito. Na verdade, à Assembleia de Westminster foi dada a responsabilidade de identificar os ministros envolvidos em escândalos para que fossem removidos dos púlpitos, e substituídos por ministros instruídos e piedosos.

Inicialmente, o Parlamento exigiu que a Assembleia examinasse os candidatos acerca da sua instrução e piedade. Na primavera de 1646, o parlamento mudou de opinião sobre o critério da piedade e exigiu que a Assembleia examinasse os pregadores somente se eram instruídos.

A Assembleia suspendeu a mudança da redação imediatamente e resolveu não aprovar novos ministros até que o problema fosse resolvido. Depois de alguns dias de deliberação, eles enviaram apenas o Dr. Peter Smith (1586-1653) para uma comissão do Parlamento para pressionar o caso da Assembleia. A Assembleia escolheu seu homem com sabedoria, pois ganhou a sua causa e retomaram a questionar os pregadores sobre a doutrina e a vida deles. A Palavra de Deus não deixa espaço para se comprometer a piedade.

4. A Palavra de Deus

A quarta característica de um ministério do púlpito puritano é frequentemente encontrada nas exortações aos ouvintes dos sermões, e não apenas aos pregadores. Os ministros precisavam ser ordenados, instruídos e piedosos, porque (citando Gillespie novamente) os ouvintes deveriam “receber a palavra da boca dos ministros, como Palavra de Deus”. De acordo com William Gouge (1575-1653), esta é a mensagem de Hebreus 13, que diz: “Lembrai-vos dos que dominam sobre vós, que vos falaram a Palavra de Deus”. Poderia “adequadamente o som da voz de um homem, naquilo que os verdadeiros ministros de Deus pregam, no exercício de seu ofício ministerial, é a Palavra de Deus”.

Jeremiah Burroughs pontuou vinculando à Isaías 66 – “e que tema a minha Palavra” – para promover um pouco de reverência entre seus ouvintes. Um homem, ou mulher, temente à Deus, diz ele, não vem “ouvir a Palavra do modo comum, simplesmente para passar o tempo, ou ouvir o que um homem pode lhe dizer”. Pelo contrário, a Palavra, “lida ou pregada”, é recebida “com reverência”. Ele examina a pregação, mas “não se sofisma contra ela”.

Burroughs apresenta o rei Eglom de Moabe como um exemplo a ser seguido pelos santos, é claro, que não em seus caminhos “pagãos”, nem em sua morte intempestiva e nojenta, mas como alguém que se levantou para receber Ehud como embaixador com “uma mensagem de Deus”. Burroughs então empurra a faca um pouco mais fundo, perguntando a seus ouvintes se seus “corações”... inundam contra a “pregação”, perguntando o que eles realmente pensam sobre a pregação e denunciando a ironia daqueles que pensam que escaparam do mundo, mas ainda mostram o pior orgulho de se rebelar contra a Palavra de Deus.

Essa discussão de irreverência e orgulho é a premissa básica, óbvia para Burroughs, de que a pregação fiel da Palavra de Deus é a Palavra de Deus. Porque a pregação é a Palavra de Deus, a irreverência e o orgulho são escandalosos.

5. Os meios de graça externos e ordinários: a pregação

Se a pregação da Palavra de Deus é a Palavra de Deus, então, qual é o seu lugar na vida e no culto cristão? Não surpreendente que os teólogos respondam que a pregação é o meio comum da graça para os cristãos, que é o meu quinto ponto. Anthony Burgess (falecido em 1664) afirma que o ministério fiel da Palavra é “o caminho certo e comum para a conversão dos homens de seus caminhos perversos”.

Ele afirma isso mais vigorosamente em sua exposição de 1 Co 3: “O ministério é o único caminho comum que Deus designou, quer para o começo ou o auge da graça”. Afinal, “fé é recebida pelo que se ouve”, e em seu próprio texto informa aos corintos que Paulo e Apolo eram os “ministros por meio de quem eles creram”.

Em 1649, William Greenhill (1597/8-1671) dedicou um prefácio a uma parte de seu comentário de Ezequiel para a defesa da primazia da pregação, pois “onde a Palavra de Deus não é exposta, pregada e aplicada” o povo “perece”.

Mas esse é sempre o caso? E se as pessoas não se beneficiarem dos sermões? Alexander Henderson (c. 1583-1646) admitiu em um sermão: “Conheço muitos de vocês que disseram, quando saíram da pregação... que suas almas não foram nada melhoradas por ela”. As pessoas eram, talvez, um pouco mais francas naqueles dias! Uma questão que muitos puritanos perguntariam aos pregadores quando surgisse o problema: eles estavam pregando à Cristo?

6. Pregação centrada no Cristo

Quando ele leu sobre a prática de Ezequiel de proclamar tudo o que o Senhor lhe mostrou, Greenhill teve pouca dificuldade em ver um imperativo aos ministros: eles devem somente pregar e pregar tudo o que eles aprendem na escola de Cristo.

Ecoando sentimentos semelhantes, Obadiah Sedgwick (1599/1600-1658) afirma que o sermão é “um trabalho inútil se expor qualquer coisa, se não for a Cristo”. Os ministros devem “fixar a convicção de pregarem a Cristo”. Novamente, “seus esforços na pregação, resultarão em pouco, talvez em nada, se não for Cristo, ou algo em referência a Cristo, no qual você insiste laboriosamente na pregação”.

Goodwin afirma que os pregadores “acrescentariam mais beleza aos seus próprios pés” se pregassem mais o evangelho e menos “verdades de momentos insignificantes”. Esses sentimentos são tão comuns nos escritos dos teólogos que eu considero a pregação centrada em Cristo como a sexta das sete marcas de um ministério do púlpito puritano.

Como Arrowsmith escreve, os verdadeiros ministros “confirmaram Cristo em seu ministério; eles se contentam em ficar na multidão e levantar Cristo sobre os ombros; conteúdo, não para ser visto, para que Cristo seja exaltado”.

7. “A obra do Espírito”

A última, mas não menos distinta marca de um ministério do púlpito puritano, é a dependência do Espírito Santo. Argumenta-se que a pregação dos puritanos estava sempre pronta para admitir que a pregação não parecia ser um meio sensato de avançar o evangelho. Mesmo no século XVII, a pregação era “muito desprezível e indesejável para a razão humana”.

Mas o chamado “problema” com a pregação é em si a resposta. Deus escolheu deliberadamente um meio humilde que ampliaria a sua própria grandeza e a obra do Espírito Santo. Burgess retoma a figura de 1 Coríntios 3, onde Paulo lembra aos leitores que o pregador pode semear e regar, mas Deus é quem dá o aumento. Como na administração dos sacramentos, a pregação não é automaticamente efetiva. A Palavra, seja visível ou audível, precisa ser recebida pela fé que é dada pelo Espírito. E assim, embora os pregadores sejam descritos como cooperadores da obra de Deus, Burgess nos lembra que mesmo um ministro sendo fiel, pode não ter sucesso porque “o sucesso é a obra de Deus, e não o dever dos ministros”.

Samuel Rutherford (1600-1661) diz o mesmo, e aplica essa verdade muito mais a pregação. Ele nos lembra que o benefício de tudo o que fazemos depende da “obra do Espírito”. E, assim como, às vezes, refletimos sobre nossos pecados e falhas como pregadores, lembremo-nos do poder do Espírito Santo e da graça de Deus através de Jesus Cristo – não apenas pelo bem de nossos ouvintes, mas também por nós mesmos.

***
Autor: Chad Van Dixhoorn
Fonte: Reformation 21 | Este artigo é um extrato e adaptação do livro de Chad Van Dixhoorn, God’s Ambassadors: The Westminster Assembly and the reform of the English pulpit, 1643-1653. Nele são encontradas notas de rodapé, referências e discussões mais completas sobre este assunto.
Tradução: Rev. Ewerton B. Tokashiki
.

A Utilidade e Importância dos Credos e Confissões - parte 2

image from google

2. A necessidade e importância dos credos e confissões se evidenciam a partir da consideração de que um grande desígnio de se estabelecer a Igreja em nosso mundo foi que ela pudesse ser, em todas as épocas, uma depositária, uma guardiã e testemunha da verdade.

Os cristãos, coletiva e individualmente, são representados na Escritura como testemunhas de Deus. São ordenados a manter sua verdade e “preservar a palavra da vida” em toda a sua pureza e brilho ante uma geração perversa, para que outros sejam iluminados e convertidos. São exortados a “comprar a verdade e não a vender”, a “lutar pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos”, a “apegar-se à forma das sãs palavras que receberam” e a “lutar juntos pela fé evangélica”. Esses e muitos outros mandamentos de significado similar claramente fazem o dever de cada igreja cristã detectar e expor as heresias prevalecentes, excluir todos os que abraçam heresias radicais de sua comunhão e “levantar uma bandeira” pela verdade, onde quer que “o inimigo venha como um dilúvio”.

Mas isso tudo não implica em tomar medidas efetivas para distinguir a verdade do erro? Isso tudo não implica necessariamente no dever de esboçar e publicamente manifestar uma linha entre os que, enquanto professam, de modo geral, crer na Bíblia, negam realmente todas as suas doutrinas essenciais, e os que simples e humildemente recebem “a verdade segundo é em Jesus”? Mas como essa distinção há de ser feita, visto que os que abraçam as doutrinas essenciais do evangelho igualmente professam receber a Bíblia? Pode apenas ser feito ao cuidadosamente averiguar e explicitamente declarar como a própria igreja e como aqueles que ela suspeita laborarem em erro entendem e interpretam a Bíblia; ou seja, extraindo certos artigos de fé das Escrituras, de acordo com o entendimento da igreja a respeito deles, e comparando esses artigos com a crença professa daqueles que ela supõe sejam hereges. E o que é isso senão extrair das Escrituras uma Confissão de Fé – um Credo – e aplicá-lo como um teste de princípios sadios? 

Realmente parece-me que aqueles irmãos ortodoxos, que admitem que a igreja está obrigada a levantar sua voz contra o erro e a lutar pela verdade e, apesar disso, denunciam os credos e confissões são extremamente incoerentes. Eles reconhecem a obrigação e importância de um grande dever, mas rejeitam o único meio pelo qual essa obrigação pode ser realizada. São tão insensatos, sou obrigado a dizer, quanto “os feitores do Egito”: exigem que a obra seja feita, sem fornecer a matéria-prima para sua realização. Antes que a igreja possa, como tal, detectar hereges e lançá-los fora de seu seio; antes que possa levantar sua voz, em um “dia de angústia, de castigo” [Is 37.3], contra os erros prevalecentes, seus oficiais e membros devem concordar quanto ao que é a verdade. A menos que se entreguem, em seu julgamento oficial, a todos os caprichos e efervescências febris do sentimento ocasional, devem ter algum documento reconhecido e permanente, exibindo o que concordaram em considerar como verdade. Não há, na realidade, outra alternativa. Ou terão uma “forma das sãs palavras”, que voluntariamente adotaram e fizeram juras de “apegar-se” a elas, ou não poderão ter segurança alguma que duas ou mais decisões sucessivas relativas à fidelidade na fé possam ser iguais. Em outras palavras, não podem alcançar, de uma forma contínua, uniforme e consistente, um dos grandes propósitos para o qual a igreja visível foi estabelecida.

Certamente não será dito por qualquer pessoa ponderada que a igreja ou quaisquer de seus membros individuais podem suficientemente cumprir o dever em questão simplesmente proclamando, de tempo em tempo, em meio ao erro circundante, sua aderência e sua ligação à Bíblia. Todos podem ver que isso seria, de fato, nada fazer como “testemunhas da verdade”, pois não seria fazer nada peculiar, nada distinto, nada que qualquer herege na Cristandade não esteja pronto a fazer, ou melhor, não esteja fazendo diariamente, tão ruidosa e tão frequentemente como a mais ortodoxa das igrejas. A própria ideia de “dar testemunho da verdade” e de separar aqueles que são tão corruptos que a comunhão cristã não pode ser mantida com eles necessariamente implica algum ato de discriminação pública, no qual a igreja concorda e expressa sua crença nas grandes doutrinas do cristianismo, em contraste com os que creem erroneamente. Agora supor que algo desse tipo possa ser realizado fazendo-se uma profissão, a mesma, em todos os aspectos, que o pior herege faria, é muito palpavelmente absurdo para satisfazer qualquer inquiridor sóbrio. 

Que valor, permitam-me perguntar, teriam os valdenses e albigenses como testemunhas da verdade – como luzeiros no mundo, em meio às trevas da corrupção circundante –, especialmente que valor teriam tido para a igreja nas épocas subsequentes e para nós no tempo presente, se não tivessem formulado e transmitido para a posteridade aquelas celebradas confissões de fé, tão preciosas como memoráveis, das quais lemos em sua história, e que permanecem como tantos outros testemunhos monumentais para o verdadeiro “evangelho da graça de Deus”? Sem isso, como jamais saberíamos de que forma interpretavam a Bíblia ou em que diferiam dos mais grosseiros hereges, que viveram na mesma época e professaram receber a mesma Bíblia? Sem isso, como jamais teremos visto tão clara e satisfatoriamente, como o vemos, que mantiveram a verdade e a ordem da casa de Cristo, em meio a todas as assoladoras desolações do “homem da iniquidade”, e assim cumpriram a promessa de que sempre haveria “uma semente para servi-lo e para falar do Senhor à geração vindoura”?

3. A adoção e publicação de um credo é um tributo à verdade e franqueza, que cada igreja cristã deve a outras igrejas e ao mundo ao seu redor.

Toda pessoa sábia desejará se unir no dever e privilégio religiosos com aqueles que mais intimamente concordam consigo em suas posições sobre doutrina e ordem; com aqueles em cujas relações ela pode ser mais feliz e mais bem edificada. É claro que desejará, antes de juntar-se a qualquer igreja, saber algo a respeito de sua fé, governo e características gerais. Tenho em mente um indivíduo piedoso e inteligente, prestes a formar suas conexões religiosas para o restante da vida. Ele olha em volta para as igrejas as quais tem maior acesso e deseja decidir em qual delas pode ficar mais confortável. Vamos supor que, em sua pesquisa, volta seus olhos para a verdadeira igreja bíblica e primitiva a qual é nossa felicidade pertencer. Ele anseia conhecer tanto a doutrina como a ordem que pode esperar encontrar em conexão com nosso ajuntamento. Como pode conhecer essas coisas? Certamente não é indo de igreja em igreja, por todos os nossos limites, e aprendendo o credo de cada pastor individual de seus próprios lábios. Isso seria fisicamente impossível, sem que se concedesse à tarefa um grau de tempo e esforço que dificilmente alguém pode dar. Ele não conseguiria, na realidade, ouvir por si mesmo as doutrinas ensinadas em vinte por cento de nossos púlpitos. E se pudesse, ainda seria incapaz de decidir, somente dessa fonte, até onde o que ouviu poderia ser considerado como o uniforme e universal e, especialmente, como o caráter permanente da igreja, e não, antes, uma exibição acidental. Mas quando esse investigador descobre que temos um credo publicado, declarando a maneira como entendemos as Escrituras, e explicitamente declarando em detalhe as grandes verdades que concordamos em nos unir para manter, então ele pode verificar em algumas horas, e sem deixar sua própria casa, o que professamos crer e praticar e até onde pode esperar estar em casa em nossa comunhão. E enquanto é capacitado a assim entender o sistema ao qual professamos aderir, nos permite entender seus pontos de vista, ao verificarmos até onde estão de acordo com nosso credo publicado.

Ademais, o que é devido a esses indivíduos inteligentes, que desejam conhecer o caráter verdadeiro de nossa igreja, também é devido às igrejas vizinhas, que podem ter não menos desejo de verificar os princípios que abraçamos. É prazeroso para as comunidades eclesiásticas, que se aproximam umas das outras em fé e ordem, manifestar sua afeição mútua ao cultivar algum grau de relacionamento cristão.

Mas que igreja que valoriza a preservação de sua própria pureza e paz se aventuraria em tal relacionamento com um corpo que não tenha um sistema definido, seja de doutrina ou de governo, ao qual permaneça ligado por juramento, e que poderia, portanto, provar-se uma fonte de poluição e desordem a cada outra igreja com a qual tivesse o menor relacionamento de cultos? Um dos pastores dessa denominação, quando convidado ao púlpito de um irmão ortodoxo, poderia dar inteira satisfação, enquanto outro, a quem uma marca similar de afeição e confiança cristã fosse mostrada, poderia pregar as mais corruptas heresias. Credos e confissões, então, longe de ter a tendência de “alienar” e “amargar” aquelas denominações cristãs que têm pensamentos parecidos, e devem manter relacionamento fraternal, tendem, na realidade, a familiarizá-las umas com as outras; a lançar um fundamento para o relacionamento regular e cordial; a gerar confiança mútua e assim promover a harmonia da igreja de Deus. 

Não hesito, portanto, em afirmar que, assim como cada pastor individualmente deve a todos à sua volta uma confissão franca de sua fé cristã, também cada igreja deve ser igualmente franca e explícita em publicamente declarar seus princípios a suas igrejas irmãs. Essa igreja sem dúvida crê que esses princípios sejam puramente bíblicos. Ao publicamente confessá-los, portanto, realiza o duplo dever de prestar testemunho à verdade e de se esforçar para atrair de denominações menos puras e do mundo circundante novo apoio ao que ela conscientemente crê sejam sentimentos mais corretos que os deles. Ela pode incorrer em erros nessa expectativa, mas não deixa de fazer o que pode e o que sinceramente crê seja correto, e o que, é claro, enquanto essa convicção persistir, é seu dever fazer. Ademais, não hesito em defender que, em todas as épocas, aquelas igrejas cristãs que têm sido mais honradamente distinguidas por sua piedade, zelo e apego à simplicidade do evangelho têm sido não apenas notáveis por seu cuidado em formular seu credo doutrinário, mas também por sua franqueza em confessá-los, bem como sua disposição em permitir que todos à sua volta distintamente compreendam o que ela professa considerar como as doutrinas fundamentais de nossa santa religião.

Continua...

***
Autor: Rev. Samuel Miller
Tradução: Tiago Cunha (Seminarista do Seminário JMC)
Divulgação: Bereianos

Leia também: A Utilidade e Importância dos Credos e Confissões - parte 1

A Utilidade e Importância dos Credos e Confissões - parte 1

image from google

O caráter e situação de alguém que está se preparando para o Ofício Sagrado são interessantes além da capacidade de expressão. Essa pessoa, como o Mestre a quem professa amar e servir, está “destinada tanto para a ruína como para levantamento de muitos em Israel”. Em tudo o que é e em tudo o que faz, o bem-estar temporal e eterno, não apenas de si mesmo, mas de milhares pode estar envolvido. Ele é assaltado por perigos de todos os lados. Quaisquer que sejam seus talentos e conhecimento, se não tiver genuína piedade, provavelmente será não uma bênção, mas uma maldição para a Igreja. Mas esse não é o único perigo ao qual está exposto. Ele pode ter genuína piedade, bem como talentos e conhecimento, e, ainda assim, devido à indiscrição habitual, a algum defeito na sobriedade de mente – que é tão preciosa a todos os homens e especialmente àquele que ocupa uma posição pública –, ao amor pela novidade e inovação, ou ao amor pela distinção, que é tão natural aos homens, enfim, por isso tudo, em vez de edificar o “corpo de Cristo”, pode-se tornar um perturbador de sua paz e um corruptor de sua pureza. De modo que poderíamos quase dizer, qualquer que seja o desfecho com respeito a ele próprio, que “seria melhor para a Igreja se ele jamais tivesse nascido”. 

Honestidade e Honra Denominacional

image from google

A honestidade é tão importante na teologia como nos negócios e no comércio, numa denominação religiosa como em um partido político. A honestidade confessional consiste, em primeiro lugar, em uma clara e inequívoca declaração de uma Igreja acerca de sua crença doutrinária; e, segundo, numa adoção inequívoca e sincera por parte de seus membros. Ambas as coisas são necessárias. Se uma denominação particular faz uma declaração ampla de sua crença, que é possível de ser interpretada em mais de um sentido, ela é desonesta. Se o credo da denominação é bem estruturado e elaborado, mas os membros que subscrevem com reserva mental e falta de sinceridade, a denominação é desonesta. 

A honestidade e a sinceridade são fundamentadas numa clara convicção e uma clara convicção é firmada no conhecimento e no reconhecimento da verdade. A heresia é um pecado e é classificada por são Paulo entre as “obras da carne”, juntamente com “adultério, idolatria, assassinato, inveja e ódio”, que excluem do reino de Deus (Gl 5:19-21). Mas a heresia não é um pecado tão grande quanto a desonestidade. Pode existir uma heresia honesta, mas não uma honesta desonestidade. Alguém que reconhece ser um herege, é um homem melhor do que aquele que finge ser ortodoxo enquanto subscreve um credo que despreza, e que ele finge sob pretexto de melhorá-lo e adaptá-lo ao tempo presente. O herege honesto deixa a igreja com a qual ele não concorda, mas o subscritor insincero permanece dentro dela para realizar o seu plano de desmoralização.

As discussões recentes na Igreja Presbiteriana revelaram uma diferença de sentimento em relação ao valor da honestidade denominacional. Alguns dos jornais seculares atribuem intolerância e perseguição aos presbiterianos, quando os desvios do credo da igreja são objeto de inquérito judicial e quando indivíduos são exigidos a conformar o seu ensino do púlpito ou da cátedra com os padrões denominacionais. Desta forma, uma parte da imprensa pública está em consonância com a desonestidade confessional. Isso permitiria aos oficiais da igreja subscreverem um credo e obter as vantagens da subscrição sob a forma de reputação ou benefícios, enquanto trabalham contra ele.

O credo de uma igreja é um contrato solene entre os membros da igreja, muito mais do que a ideologia de um partido político é entre políticos. Parte da imprensa parece não perceber a imoralidade de violar um contrato quando se trata de uma denominação religiosa, mas quando um partido político é o grupo a ser afetado pela violação de uma promessa, ninguém é mais preciso do que ela em discernir e nenhum deles é mais veemente em denunciar a dupla negociação.

Deveria surgir um grupo dentro do Partido Republicano, por exemplo, e se esforçar para alterar a plataforma, mantendo os escritórios e os salários garantidos por professar fidelidade ao partido e prometendo adotar os princípios fundamentais sobre os quais foi fundado, e pelos quais difere do Partido Democrático e demais partidos políticos, a acusação de desonestidade política poderia prejudicar a posição social e histórica do Republicanismo. Quando esses divergentes se desviam do cargo, sendo disciplinados pelo partido, e talvez, sejam expulsos da organização política, se a queixa de heresia política e a perseguição fossem oferecida, a única resposta concedida pela imprensa republicana seria a do desprezo. Quando alguns políticos desonestos reivindicam a tolerância, sob a desculpa de políticas mais “liberais” do que as aceitas pelo partido, preservando-se o pagamento do partido, enquanto defende diferentes sentimentos da maioria do partido, o fato é que ninguém é obrigado a unir-se ao Partido Republicano, ou permanecer nele, mas se uma pessoa se juntar a ele ou ficar nele, deve adotar estritamente o credo do partido e não fazer tentativas, seguras ou abertas, de alterá-lo. Que um credo republicano pertence aos republicanos e a nenhum outro, parece ser a concordância por todos. Mas que um credo calvinista é para calvinistas e de nenhum outro, parece suscitar dúvidas de alguns.

Há defensores de uma visão de igreja confessional e de uma subscrição confessional que argumentam que é apropriado introduzir melhorias num credo denominacional. Que o progresso na física e no espírito da nossa época exigem novas declarações de ética e religião. E isso justifica o surgimento dentro de uma denominação de um grupo para fazê-los, e exige que a denominação atente e analise com calma. Isto significa, por exemplo, que uma igreja que adota a escatologia histórica é obrigada a permitir que os seus membros pensem que o restauracionismo  é uma melhoria, e que poderiam introduzi-lo nos artigos de fé. Ou que uma igreja que adota o arminianismo wesleyano é obrigada a permitir que seus membros pensem que a eleição incondicional seja preferível a eleição condicional, esforçando para torná-la calvinista, introduzindo esse princípio doutrinário.

Mas se uma liberdade correspondente fosse exigida na esfera política, não haveria nenhuma aceitação. Se dentro do Partido Democrata surgisse um grupo que reivindicasse o direito, enquanto membros no partido, para converter o corpo em princípios e medidas republicanas, se diria que o lugar apropriado para tal projeto está fora do Partido Democrata, e não nele. O direito do grupo divergente às suas próprias opiniões não seria contestado, mas seria negado o direito de mantê-las e espalhá-las com os recursos financeiros e a influência do Partido Democrata. Os democratas poderiam usar a ilustração de Lutero num exemplo semelhante: “Não podemos evitar que as aves voem sobre nossas cabeças, mas podemos impedir que elas façam seus ninhos nos nossos cabelos”. Eles diriam aos mal-intencionados: “Não podemos impedir que vocês tenham suas próprias visões peculiares e indesejáveis, mas vocês não têm o direito de ventilá-las em nossa organização”. Se os executivos da Alfândega de New York ou dos Correios insistissem em usar os salários dessas grandes instituições na transformação da política do partido que os colocou lá, nenhuma acusação de “perseguição” impediria o partido de cobrar imediatamente a sua coerência. No entanto, alguns da imprensa secular, bem como alguns religiosos, afirmam que é apropriado para os subscritores da Confissão de Westminster fazerem uma alteração radical na teologia denominacional dentro da denominação, e que estão reprimindo o livre pensamento e o direito de juízo privado, quando o sete-oitavos de representantes da Igreja Presbiteriana vetou sobre tal tentativa em seu tribunal da Assembleia Geral.

Nesta ação eclesiástica não há negação do direito de juízo privado e de livre pensamento sobre qualquer sistema de doutrina. Apenas afirma que aqueles que discordam do credo aceito pela denominação, se forem minoritários, devem sair dela, se desejarem construir um novo esquema doutrinário. A maioria satisfeita tem o direito de exercer o livre pensamento e o juízo privado, bem como a minoria insatisfeita, mas na sua prática permanece o credo como está. Consequentemente, se o descontentamento com o padrão denominacional surgir na mente de alguns, o lugar apropriado para seus novos experimentos em teologia, está dentro de uma nova organização e não na antiga que não concorda com as suas especulações. Por esta razão, desde tempos imemoriais, uma denominação religiosa sempre reivindicou o direito de expulsar pessoas que são hereges, conforme julgados pelo credo denominacional. Só assim pode uma denominação viver e prosperar. Não seria útil para a sociedade ou a religião derrubar os limites doutrinários da denominação e convertê-la numa “terra de ninguém” para que todas as variedades de crenças divaguem.

Aqui surge a questão: quem deve interpretar o credo da igreja e dizer se um esquema proposto de doutrina concorda com ele, ou o contradiz? Quem poderia dizer o que é heresia do ponto de vista do sistema denominacional? Certamente a denominação, e não o indivíduo ou o grupo que é acusado de heresia. Este é um ponto de grande importância. Para aqueles que são acusados de heterodoxia, comumente definem a ortodoxia a seu modo e afirmam não se afastarem do que eles consideram como os elementos essenciais do sistema denominacional. O partido arminiano na controvérsia do Sínodo de Dort alegou que as suas modificações na doutrina eram moderadas e não antagônicas aos credos reformados. Os semiarianos na Igreja Inglesa afirmaram que a sua concepção da Trindade não diferia essencialmente da dos pais nicenos. Em cada uma dessas instâncias, o acusado queixou-se de que suas declarações foram erroneamente interpretadas por seus oponentes, afirmando que a Igreja estava equivocada ao supor que sua heterodoxia não poderia ser harmonizada com a fé herdada. A mesma afirmação de ser mal interpretada e a mesma reivindicação de ser ortodoxa, marca o julgamento existente na Igreja Presbiteriana.

Ao determinar qual é o verdadeiro significado da fraseologia em uma proposta de alteração do credo denominacional, e qual será a influência natural dela se for permitido ensiná-la, é óbvio de que é a denominação quem decide. No caso de uma diferença na compreensão e interpretação de um documento escrito contendo mudanças propostas no credo da igreja, a regra da lei comum aplica-se, que o acusado não pode ser o juiz final do significado e disposição do seu próprio documento, mas sim o tribunal. A denominação é o tribunal. Não há dificuldades ou injustiças nisso. Um julgamento denominacional é correto para ser equitativo, ocorra ele na Igreja ou no Estado. A história da política mostra que as decisões dos grandes partidos políticos respeitando o verdadeiro significado de suas ideologias e a conformidade dos indivíduos a elas, geralmente, foram corretas. A história da religião também mostra que os julgamentos dos grandes grupos eclesiásticos agiram corretamente em relação aos ensinos de seus padrões, e o acordo ou desacordo das escolas particulares de teologia com eles. Os indivíduos e os partidos foram declarados heterodoxos, política ou teologicamente, pelo voto deliberado do corpo ao qual pertenciam. É raro que a maioria estivesse errada e correta minoria.

A honestidade confessional é intimamente relacionada com a honra denominacional. As igrejas que foram as mais francas em anunciar o seu credo, bem como as mais rigorosas em insistir numa interpretação honesta e a sua adoção por parte de seus membros, caracterizaram-se por uma escrupulosa consideração pelos direitos de outras igrejas. Estando satisfeitos com sua própria posição doutrinária e confiantes da verdade de seus artigos de fé, eles não invadiram outras denominações para alterar seu credo ou obter seu prestígio. A este respeito, os calvinistas da cristandade se comparam favoravelmente com alguns de seus oponentes que os acusam de obscurantismo e intolerância. É verdade que, nos tempos em que a união da Igreja e do Estado era universal, e a propagação de qualquer outra religião, exceto a do Estado, era considerada ameaçadora para o bem político, os calvinistas como todos os outros partidos religiosos tentaram suprimir todos os credos senão o estabelecido.

Mas os calvinistas estavam na vanguarda a favor da separação da Igreja e do Estado e pela tolerância religiosa que resultaria naturalmente. Desde que a tolerância religiosa se tornou o princípio da cristandade e tornou-se dominante o direito protestante do juízo privado, o calvinismo não foi intolerante ou disposto a interferir nos credos, instituições e benefícios de outros grupos. A este respeito temos um bom exemplo. Não há exemplos registrados, que nos lembremos, de que calvinistas secretamente adulteraram o credo de outro corpo eclesiástico e tentaram seduzir os seus membros de sua lealdade aos artigos de crença por eles adotados publicamente. De sua própria posição calvinista aberta e declarada, eles, naturalmente, criticaram e se opuseram a outros credos, porque acreditavam que eles eram mais ou menos errôneos, mas nunca adotaram a estratégia de se infiltrar noutra denominação, subscrevendo os seus artigos e, em seguida, a partir dessa posição, revolucionar o grupo que professou sinceramente se juntar. Nenhuma parte da cristandade foi mais livre de hipocrisia e dissimulação do que as igrejas calvinistas.

____________________________
Notas:

[1] Os parágrafos foram subdivididos para facilitar a compreensão dos argumentos. Nota do tradutor.
[2] O termo em seu uso teológico pode referir-se a premissa histórico-teológica de que o cristianismo se apostatou em pontos essenciais de sua identidade doutrinária, sendo necessário restaurá-lo. Steven L. Ware, de modo confuso, define “restauracionismo é um complexo de ideias que, implícito e comum a todo o protestantismo (...) é essencialmente sinônimo de primitivismo”. Veja “Restorationism in Classical Pentecostalism” em New Dictionary of Pentecostal and Charismatic Movements (Grand Rapids, Zondervan, 2002). Neste sentido, em parte, a reforma protestante foi restauracionista, mas a sua reivindicação é de um retorno ao ensino da Escritura Sagrada e não ao modelo da igreja primitiva. A igreja no primeiro século passou pela transição da aliança, dentro dum processo que culminou na cessação dos agentes e modalidades revelacionais, bem como da transmissão de novas revelações. A igreja primitiva não foi o modelo final, tanto pelos diferentes problemas e imperfeições Sitz im Leben que evidenciava, como também ela não poderia ser considerada madura até que se consumasse a transição. O fechamento do cânon do Novo Testamento, o fim do apostolado e a consumação da estrutura da nova aliança, somente ocorreram no fim do primeiro século. Por isso, o modelo de igreja é determinado por princípios bíblicos e não por um exemplarismo histórico. Shedd usa o termo restauracionismo, em seu sentido negativo, para se referir a grupos heréticos que surgiram em sua época como o adventismo, o mormonismo e as testemunhas de Jeová. O pentecostalismo surge no início do século XX como uma proposta restauracionista. Nota do tradutor.
[3] J. De Witt, “William Greenough Thayer Shedd,” PRR 6:295–332. Traduzida por: Felipe Sabino de Araújo Neto e revisada por Ewerton B. Tokashiki.
[4] Encontra-se disponível uma nova edição com notas, num único volume. Alan W. Gomes, ed., William G.T. Shedd, Dogmatic Theology (Phillipsburgh, P&R Publishing, 3ª ed., 2003). Nota do tradutor.
[5] Publicada pela Editora Hagnos. Nota do tradutor.

***
Sobre o autor: William G.T. Shedd foi o maior sistematizador, depois de Charles Hodge, da teologia calvinista americana entre a Guerra Civil e a Primeira Guerra Mundial. O seu pai foi um ministro congregacional que encorajou a sua educação na Vermont University e no Andover Theological Seminary. Em Vermont, Shedd estudou aos pés de James Marsh, que o encorajou a ler Platão, Kant e Coleridge, um trio de autores que mantiveram uma influência em sua teologia pelo resto de sua vida. Shedd serviu, por um breve período, como ministro congregacional em Vermont. Ensinou inglês na Vermont University, retórica sagrada no Auburn Theological Seminary e história da igreja em Andover, antes de assumir o serviço ministerial, como pastor-auxiliar na Brick Presbyterian Church, em Nova Iorque. Em 1863 ele se tornou um professor de Bíblia e teologia no Union Theological Seminary, em Nova Iorque, onde permaneceu por mais de trinta anos.
A obra mais conhecida, dentre as muitas de Shedd, foi a Dogmatic Theology,  publicada originalmente em três volumes, entre 1888 a 1894. Como a Teologia Sistemática  (1872–73) de Hodge, o manual de teologia sistemática de Shedd defende o “alto Calvinismo” da Confissão de Westminster contra o arminianismo, o catolicismo romano e o racionalismo moderno. Shedd não foi tão abrangente quanto Hodge no tratamento das várias divisões da teologia, mas ele incorporou aspectos do pensamento moderno em sua obra mais do que Hodge ou quase qualquer outro conservador de sua geração, especialmente ideias de desenvolvimento histórico. Novamente ele foi incomum em sua confiança sobre a história do Cristianismo como um antídoto para os ensinos medíocres, quer antigos, quer modernos. Para ele, Atanásio sobre a Trindade, Agostinho sobre a natureza do pecado, Anselmo sobre a existência de Deus e os reformadores sobre a salvação, eram mais do que capazes de delinear os contornos da ortodoxia. Ele sabia que a tradição agostiniana-calvinista carregava amplos recursos bíblicos, teológicos e filosóficos para suportar o teste do tempo.
Os interesses de Shedd se estenderam bem além da teologia, abrangendo a literatura, a história da igreja, a homilética e o comentário bíblico. Ele publicou obras em cada uma dessas áreas. Testificou o seu interesse na ideia do desenvolvimento histórico orgânico ao publicar Lectures on the Philosophy of History, em 1856, e editando as obras completas de Samuel Taylor Coleridge, publicada em sete volumes, em 1853.

Fonte: Calvinism: Pure and Mixed – A Defense of the Westminster Standards (Edinburgh, The Banner of Truth Trust, 1986), pp. 152-158.
Tradução: Rev. Ewerton B. Tokashiki
Divulgação: Bereianos

Pra que confissão de fé se temos a Bíblia?

image from google

Um questionamento muito comum que muitas pessoas que são membros de uma igreja confessional fazem é: por que precisamos de uma confissão de fé se temos a bíblia? O motivo desse questionamento é porque se entende que jurar fidelidade a um símbolo de fé implica diretamente em infidelidade a Bíblia ou tê-los como iguais em autoridade a Palavra de Deus. Geralmente os confessionais são acusados de colocarem o seu documento confessional no mesmo patamar que a Bíblia, é fato que realmente alguns poucos chegam a este ponto, mas de forma geral essa acusação é equivocada. Sou pastor da igreja Presbiteriana do Brasil que é uma igreja confessional em seus documentos oficiais, e em sua constituição no artigo 1 ela nos diz o seguinte:

“A Igreja Presbiteriana do Brasil é uma federação de igrejas locais, que adota como única regra de fé e prática as Escrituras Sagradas do Velho e Novo Testamentos e como sistema expositivo de doutrina e prática a sua Confissão de Fé e os Catecismos Maior e Breve; rege-se pela presente Constituição; é pessoa jurídica, de acordo com as leis do Brasil, sempre representada civilmente pela sua Comissão Executiva e exerce o seu governo por meio de concílios e indivíduos, regularmente instalados.”

Além de ser uma igreja confessional, a IPB exige que seus ministros e oficiais também o sejam, o Art. 119 da referida constituição também nos diz:

“O candidato, concluídos seus estudos, apresentar-se-á ao Presbitério que o examinará quanto à sua experiência religiosa e motivos que o levaram a desejar o Sagrado Ministério, bem como nas matérias do curso teológico. Parágrafo único. Poderá o Presbitério dispensar o candidato do exame das matérias do curso teológico; não o dispensará nunca do relativo à experiência religiosa, opiniões teológicas e conhecimento dos Símbolos de Fé, exigindo a aceitação integral dos últimos.”

A IPB não somente entende e adota os padrões de fé de Westminster como a exposição fiel da doutrina bíblica como exige aceitação integral por parte da sua liderança. Mas por que nós afirmamos o Sola Scriptura ao mesmo tempo que juramos fidelidade aos símbolos de fé, não seria isto uma contradição? Ainda restam dúvidas tanto por parte dos ministros e oficiais como dos membros da IPB, do porque a mesma exigir dos seus líderes que aceitem os símbolos de fé de forma integral e que jure fidelidade aos mesmos assim como o fazem com a Bíblia. Se a Bíblia está acima dos padrões de fé, por que devemos aceita-los de forma integral e jurar fidelidade a eles? Meu intuito com este artigo não é de esgotar o assunto, mas de tentar esclarecer alguns pontos que podem nos ajudar a entender melhor esse tema, a saber:

1. A confissão de fé nos leva para Bíblia.

A Confissão de Fé de Westminster está subordinada as Escrituras, em nenhum momento aquela a sobrepõe, muito pelo contrário, a exalta. No capítulo 1 nas sessões IV, V, VI e X a Confissão de Fé de Westminster afirma:

IV. A autoridade da Escritura Sagrada, razão pela qual deve ser crida e obedecida, não depende do testemunho de qualquer homem ou igreja, mas depende somente de Deus (a mesma verdade) que é o seu autor; tem, portanto, de ser recebida, porque é a palavra de Deus.
V. Pelo testemunho da Igreja podemos ser movidos e incitados a um alto e reverente apreço da Escritura Sagrada; a suprema excelência do seu conteúdo, e eficácia da sua doutrina, a majestade do seu estilo, a harmonia de todas as suas partes, o escopo do seu todo (que é dar a Deus toda a glória), a plena revelação que faz do único meio de salvar-se o homem, as suas muitas outras excelências incomparáveis e completa perfeição, são argumentos pelos quais abundantemente se evidencia ser ela a palavra de Deus; contudo, a nossa plena persuasão e certeza da sua infalível verdade e divina autoridade provém da operação interna do Espírito Santo, que pela palavra e com a palavra testifica em nossos corações.
VI. Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dele e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela. À Escritura nada se acrescentará em tempo algum, nem por novas revelações do Espírito, nem por tradições dos homens; reconhecemos, entretanto, ser necessária a íntima iluminação do Espírito de Deus para a salvadora compreensão das coisas reveladas na palavra, e que há algumas circunstâncias, quanto ao culto de Deus e ao governo da Igreja, comum às ações e sociedades humanas, as quais têm de ser ordenadas pela luz da natureza e pela prudência cristã, segundo as regras gerais da palavra, que sempre devem ser observadas.
X. O Juiz Supremo, pelo qual todas as controvérsias religiosas têm de ser determinadas e por quem serão examinados todos os decretos de concílios, todas as opiniões dos antigos escritores, todas as doutrinas de homens e opiniões particulares, o Juiz Supremo em cuja sentença nos devemos firmar não pode ser outro senão o Espírito Santo falando na Escritura. (WESTMINSTER 2007).

Os nossos símbolos de fé em nenhum momento arrogam para si a prerrogativa de igualdade com as Escrituras, mas faz exatamente o oposto, reconhece que a Palavra de Deus está acima de qualquer coisa e que esta é a palavra final sobre qualquer assunto.

2. Ela nos ajuda a mantermos a paz e a unidade na igreja.


Outra coisa que os confessionais são muito acusados é de serem divisionistas. Na verdade, um dos objetivos dos credos e confissões durante toda história da igreja era o de manter a unidade e a paz. Sempre houve quem discordasse de uma ou outra interpretação bíblica dada por algum credo ou confissão. A questão é que muitas vezes os opositores discordavam de pontos essenciais da fé cristã defendida pelos símbolos. Heresias como o Arianismo, o Sabelianismo, Unitarismo, livre-arbítrio pós queda e tantas outras foram defendidas por homens que tiveram suas ideias rechaçadas pela igreja através de sínodos e concílios, que serviram de base para a igreja posterior se defender contra as mesmas, mantendo assim a unidade doutrinária e a paz no meio da igreja. Em seu capítulo XX sessão IV a CFW afirma o seguinte:

IV. Visto que os poderes que Deus ordenou, e a liberdade que Cristo comprou, não foram por Deus designados para destruir, mas para que mutuamente nos apoiemos e preservemos uns aos outros, resistem à ordenança de Deus os que, sob pretexto de liberdade cristã, se opõem a qualquer poder legítimo, civil ou religioso, ou ao exercício dele. Se publicarem opiniões ou mantiverem práticas contrárias à luz da natureza ou aos reconhecidos princípios do Cristianismo concernentes à fé, ao culto ou ao procedimento; se publicarem opiniões, ou mantiverem práticas contrárias ao poder da piedade ou que, por sua própria natureza ou pelo modo de publicá-las e mantê-las, são destrutivas da paz externa da Igreja e da ordem que Cristo estabeleceu nela, podem, de justiça ser processados e visitados com as censuras eclesiásticas. (WESTMINSTER 2007).

Ainda tratando sobre o assunto também nos afirma a confissão de fé no capítulo XXXI sessões II e III:

II. Aos sínodos e concílios compete decidir ministerialmente controvérsias quanto à fé e casos de consciência, determinar regras e disposições para a melhor direção do culto público de Deus e governo da sua Igreja, receber queixas em caso de má administração e autoritativamente decidi-las. Os seus decretos e decisões, sendo consoantes com a palavra de Deus, devem ser recebidas com reverência e submissão, não só pelo seu acordo com a palavra, mas também pela autoridade pela qual são feitos, visto que essa autoridade é uma ordenação de Deus, designada para isso em sua palavra.
III. Todos os sínodos e concílios, desde os tempos dos apóstolos, quer gerais quer particulares, podem errar, e muitos têm errado; eles, portanto, não devem constituir regra de fé e prática, mas podem ser usados como auxílio em uma e outra coisa. (WESTMINSTER 2007).

Podemos perceber claramente que os nossos padrões de fé entendem que estes não estão acima das santas Escrituras e que até mesmo reconhecem que os concílios podem errar, sim, a confissão de fé não é infalível e nem inerrante. Portanto, afirmar que quem jura fidelidade aos símbolos de fé está os colocando em igualdade com as Escrituras, na verdade não os conhecem e cometem um grande engano. Chamar os confessionais de divisionistas é não entender que, para que haja paz é necessário ordem, submissão e disciplina. Não defendemos paz a qualquer preço, mas sim, unidade na verdade. Como nos ensina nosso Senhor no Evangelho de João no capítulo 17.

3. A nossa confissão de fé nos guia contra erros do passado.

Outro dos objetivos dos credos e confissões era o de evitar que a igreja caísse nas mesmas heresias do passado. De tempos em tempos sempre aparece alguém trazendo de volta antigos erros doutrinários em roupagem nova, com um novo linguajar, mas a raiz é sempre a mesma de outrora. Daí a necessidade de nos voltarmos para o passado para buscar em documentos elaborados por homens que foram grandemente usados por Deus para a instrução da Sua igreja, o apóstolo Paulo nos ensina sobre isso na carta aos Efésios no capítulo quatro quando diz:

E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo, para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro.” (Efésios 4. 11-14).

O caso do eunuco também tem muito a nos ensinar, a Escritura nos diz:

Um anjo do Senhor falou a Filipe, dizendo: Dispõe-te e vai para o lado do Sul, no caminho que desce de Jerusalém a Gaza; este se acha deserto. Ele se levantou e foi. Eis que um etíope, eunuco, alto oficial de Candace, rainha dos etíopes, o qual era superintendente de todo o seu tesouro, que viera adorar em Jerusalém, estava de volta e, assentado no seu carro, vinha lendo o profeta Isaías. Então, disse o Espírito a Filipe: Aproxima-te desse carro e acompanha-o. Correndo Filipe, ouviu-o ler o profeta Isaías e perguntou: Compreendes o que vens lendo? Ele respondeu: Como poderei entender, se alguém não me explicar? E convidou Filipe a subir e a sentar-se junto a ele. Ora, a passagem da Escritura que estava lendo era esta: Foi levado como ovelha ao matadouro; e, como um cordeiro mudo perante o seu tosquiador, assim ele não abriu a boca. Na sua humilhação, lhe negaram justiça; quem lhe poderá descrever a geração? Porquê da terra a sua vida é tirada. Então, o eunuco disse a Filipe: Peço-te que me expliques a quem se refere o profeta. Fala de si mesmo ou de algum outro? Então, Filipe explicou; e, começando por esta passagem da Escritura, anunciou-lhe a Jesus. (Atos 4.26-35).

As Escrituras nos ensinam que o próprio Deus é quem levanta homens para a instrução do seu povo, com o objetivo de não deixar que este não caia no erro e nas astúcias dos homens e que possam chegar a salvação. O etíope estava lendo as Escrituras, mas não conseguia compreender, foi necessário Deus enviar Felipe para que o mesmo pudesse entender a Bíblia e ser salvo. O que precisamos é abandonar a nossa soberba espiritual e entender que Deus usou homens no passado e ainda os usa hoje para que sua igreja seja protegida do erro. Sendo assim, subscrever um símbolo de fé é reconhecer que Deus capacitou através do Espírito Santo homens para instruir a Sua igreja contra os erros, mostra também a nossa humildade em reconhecer que houve homens mais capacitados do que nós que podem nos ajudar a entender melhor o conteúdo das Santas Escrituras.

Conclusão

Que possamos amar os nossos símbolos de fé sem medo de que estejamos sendo infiéis as Escrituras, que possamos nos sujeitar as autoridades pelas quais o Senhor Jesus exerce o seu governo na igreja conforme nos ensina o Catecismo Maior em sua pergunta 45:

Como exerce Cristo as funções de rei?
Cristo exerce as funções de rei chamando do mundo um povo para si, dando-lhe oficiais, leis e disciplinas para visivelmente o governar; dando a graça salvadora aos seus eleitos; recompensando a sua obediência e corrigindo-os por causa dos seus pecados; preservando-os por causa dos seus pecados; preservando-os e sustentando-os em todas as tentações e sofrimentos; restringindo e vencendo todos os seus inimigos, e poderosamente dirigindo todas as coisas para a sua própria glória e para o bem do seu povo; e também castigando os que não conhecem a Deus nem obedecem ao Evangelho. (WESTMINSTER 2007).

Que possamos entender que ser confessional não é ser antibíblico ou ter a Bíblia subordinada aos símbolos de fé, mas que antes, nos submetemos a eles por que os mesmos se submetem a Bíblia. Que Deus tenha misericórdia de nós e nos ajude nessa tarefa.

Soli Deo Glória!

***
Autor: Rev. Anderson Borges
Fonte: Teologia que Reforma
.