Deus não é o autor do pecado

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Esta ideia pode nos ocorrer como consequência de que tal cooperação [Deus e homem] se daria na seguinte forma: há apenas uma causa para todos os movimentos e atividades. Sendo assim, Deus seria o único agente ativo, ao passo que o homem e todas as demais criaturas seriam inteiramente passivas, sendo colocados em movimento como as cordas de um instrumento musical, que são inteiramente passivas e cujo movimento é causado somente pelo músico.

Minha resposta a isto é: “De modo nenhum!” Pois ainda que as criaturas atuem como meios em relação umas às outras, quando Deus as utiliza na execução de Sua obra e propósitos, não obstante elas são a causa primária de seus movimentos e atividades. Isso não quer dizer que, com relação a Deus, fossem independentes dEle, mas, sim, com relação a outras causas subordinadas, bem como às consequências de suas atividades. Não há inconsistência no fato de que duas causas de uma ordem diferente possuem o mesmo resultado, especialmente visto que o resultado é o mesmo, procedendo de ambas as fontes de um modo diferente.

A designação de Deus como a única causa de todos os movimentos, fatos e atividades, e a proposição de que o homem é consequentemente passivo e inativo é o resultado da cegueira e ignorância concernente ao poder e sabedoria de Deus. É um erro refutado tanto pelas Escrituras quanto pela natureza.

Primeiro, uma vez que Deus impôs uma lei sobre o homem, a qual apresenta tanto promessas quanto ameaças, o homem não é, portanto, passivo, mas é, em si mesmo, a causa movente de seus atos. Deus não pode impor uma lei sobre Si mesmo, nem fazer promessas a Si mesmo, nem ameaçar a Sua própria pessoa. Visto que a lei com suas promessas e ameaças foi dada ao homem para o propósito de reger sua conduta, o homem, por conseguinte, deve ser o elemento ativo para, então, receber as promessas ou ameaças.

Em segundo lugar, se o homem fosse meramente passivo em todos os seus movimentos, ele não poderia ser sujeito à punição, pois esta é a execução da justiça, em resposta à transgressão da lei. Se o homem não tivesse infringido nada, mas fosse simplesmente um objeto passivo da atividade de Deus, ele não teria cometido mal algum, e, portanto, com base na justiça, não poderia ser punido ou condenado.

Em terceiro lugar, se o homem fosse unicamente passivo e Deus fosse o único agente ativo em seus movimentos e atos, todos eles – tanto naturais quanto os pecaminosos (longe de nós esta afirmação de que Deus cometeria iniquidade) – teriam sido cometidos por Deus e seriam, pois, atribuídos a Ele. Então seria Deus, e não o homem, quem estaria andando, falando, escrevendo ou lendo. Destarte, o homem não oraria nem teria fé, mas Deus estaria orando para Si mesmo, e crendo em Si mesmo por meio de Jesus Cristo. O homem não seria culpado de forjar ídolos; o homem não usaria o nome de Deus em vão; não transgrediria o Sábado; o homem não desobedeceria aos seus pais; não seria culpado de ódio, ira, porfia com relação ao seu próximo, etc. Não odiaria a Deus, dado que seria apenas passivo e, assim, inativo. Tudo isto seria atribuído a Deus – o que seria a blasfêmia, em seu último grau.  

Em quarto lugar, as Escrituras claramente afirmam que o homem anda, vê, escuta, fala, crê e ora. Semelhantemente afirma que o ser humano peca e está sujeito, com justiça, à condenação. Não é necessário citar todos os textos que mencionam isso. Paulo observa: “porque somos cooperadores de Deus” (1 Co 3:9). Tal verdade é corroborada também quando ele afirma: “desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” (Fp 2:12-13). Deus é a causa eficiente desta atividade, mas o homem é a causa subjetiva dessa mesma obra (a salvação), produzindo essas atividades a partir do interior de si mesmo. Essas atividades devem, portanto, ser atribuídas ao homem de acordo com este princípio: O nome é atribuído à causa formal. Em Filipenses 2:12-13, o homem é exortado a ser ativo com relação à sua salvação, sendo convencido e incentivado com respeito ao seu dever. Entretanto, ele é simultaneamente instruído acerca de sua pecaminosidade e incapacidade espiritual, para que não venha a entreter nenhuma noção de bondade de sua vontade, nem ser encorajado a ser ativo na salvação pautando-se em sua própria força. Por outro lado, não deve ser desencorajado quando percebe sua fraqueza, pelo contrário, deve ser exortado pelo fato de que Deus o auxilia, sendo Ele o iniciador de sua (do homem) ação, trabalhando poderosamente nele para que tome posse desse poder e aja em virtude dele.

Objeção #1: Tal cooperação faz de Deus o autor do pecado?

Resposta: De modo nenhum! É preciso distinguir entre a atividade em si, tal como o entender, o desejar, o ver, escutar, falar, trabalhar, e o contexto no qual essa atividade necessariamente se dá: isto é, a lei de Deus. A atividade em si mesma é natural e não é boa nem má; contudo, quando vista dentro do contexto da lei, de acordo com o qual deve ser julgada, na medida em que o sujeito, o tempo e a modo estão relacionados, essa atividade se torna boa ou má. Quando discutimos a cooperação de Deus, compreendo que ela se refere às dimensões naturais dessas atividades ou movimentos em si mesmos. Todavia, não é verdade no que se refere ao mau uso dessa atividade, à falta de conformidade com a lei, nem ao mal porventura realizado nela. Um indivíduo pode ser a acusa de atividade em outra pessoa, mas não do mal que a acompanha. O governo é a causa do carrasco açoitar o prisioneiro, mas não é a causa do modo cruel com o qual o algoz aplica o castigo. Um músico é a causa da corda do instrumento produzir o som, mas não a dissonância, que procede da corda. Um condutor pode conduzir seu cavalo e assim avançar. Eis o nosso caso em questão. A atividade em si procede de Deus, mas o homem a corrompe devido à sua corrupção interna. Consequentemente, não é Deus – mas o homem – a causa do pecado.

Objeção #2: Essa cooperação inicial e definitiva de Deus não elimina a vontade humana?

Resposta: De modo nenhum! A liberdade da vontade não é uma liberdade da neutralidade; isto é, da indiferença quanto a realizar ou não algo, mas, sim, de consequência necessária, vindo à tona a partir da própria escolha, inclinação ou prazer do indivíduo em fazer ou não determinada coisa. A cooperação de Deus permite o homem ser ativo em harmonia com sua natureza, isto é, mediante o exercício de sua vontade. Há, pois, harmonia entre a cooperação de Deus e a vontade humana. Deus ativa a vontade, e o homem, então, a exerce.   

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Autor: Wilhemus à Brakel
Fonte: The Christian’s Reasonable Service
Tradução: Fabrício Tavares
Divulgação: Bereianos
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Uma crítica ao libertarismo

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Por John Frame


O libertarismo tem uma longa história na teologia cristã. A maioria dos pais da igreja sustentava mais ou menos essa posição, até que Agostinho a questionou, durante a controvérsia pelagiana. Desde aquele tempo, então, tem havido contenda entre as concepções agostinianas e pelagianas de liberdade, resultando, às vezes, em oscilantes misturas das duas. Tanto Lutero como Calvino sustentavam um compatibilismo agostiniano, mas os socianos e, mais tarde os arminianos, apresentavam vigorosas defesas do libertarismo. Hoje em dia, o conceito libertário prevalece em grande parte do cristianismo evangélico e entre os filósofos cristãos. Teologicamente, é defendido pelos arminianos tradicionais, pelos adeptos do teísmo aberto, pelos pensadores do processo, e muito outros. Poucos teólogos se opõem a esse conceito atualmente, exceto alguns calvinistas envergonhados, e até mesmo alguns pensadores da tradição reformada gravitam em direção ao libertarismo ou falam sobre o assunto de modo obscuro. 

No entanto o libertarismo está sujeito a severas críticas:

1. Os dados bíblicos citados no capitulo 4 (A eficácia do controle exercido por Deus) acerca do controle de Deus sobre as decisões humanas, até mesmo sobre os pecados humanos, são incompatíveis com o libertarismo. A Escritura deixa claro que as nossas escolhas são governadas pelo plano de Deus, apesar do fato de que somos totalmente responsáveis. 

2. A Escritura não ensina explicitamente a existência de uma liberdade libertaria. Não há nenhuma passagem que possa ser interpretada como dizendo que a vontade humana é independente do plano de Deus e dos demais componentes da personalidade humana. Geralmente os libertários nem sequer tentam estabelecer sua posição mediante exegese direta [...]. Antes, eles tentam deduzi-la de outro conceito bíblico, tais como a responsabilidade humana propriamente dita e os mandamentos, exortações e declarações do divino que implicam responsabilidade humana. No entanto, nessa tentativa, eles aceitam um grande ônus de prova, que os argumentos não confirmam. O libertarismo é, na verdade, uma noção filosófica técnica, que faz várias pressuposições sobre causalidade, sobre a relação da vontade com a ação, a relação da vontade como caráter e com desejo, e a limitação da soberania de Deus. É um esforço tremendo derivar todos esses conceitos técnicos da ideia bíblica da responsabilidade humana, e vou procurar mostrar abaixo que as tentativas dos libertários de fazer isso estão longe de obterem sucesso. E, se eles falham em fazer face a esse ônus de prova, então temos que abandonar ou o libertarismo ou a sola Scriptura

3. A Escritura nunca baseia a responsabilidade humana (no sentido de obrigação de prestar contas) na liberdade libertária, ou, quanto a essa questão, em nenhum outro tipo de liberdade. Somos responsáveis porque Deus nos criou, é nosso dono e tem direito de avaliar a nossa conduta. Portanto, de acordo com a Escritura, a autoridade de Deus é a base necessária e suficiente da responsabilidade humana. Às vezes, a nossa capacidade ou incapacidade é relevante para o juízo de Deus e, portanto, para a nossa responsabilidade no sentido de arcar com as consequências, como vimos. Mas a Escritura nunca sugere que a liberdade libertária tem alguma relevância, nem mesmo para a questão de arcar com as consequências. 

4. Tampouco a Escritura indica que deus dá algum valor positivo à liberdade libertária (mesmo que admitamos que ela exista). Esse é um ponto significativo, porque a defesa do livre arbítrio contra o problema do mal argumenta no sentido de que Deus dá tão alto valor à livre escolha humana que a deu às criaturas até com o risco de que elas poderiam trazer mal para o mundo. Pode-se imaginar, então, que a Escritura teria inúmeras declarações demonstrando que atos livres, sem causa, praticados pelas criaturas, são tão tremendamente importantes para Deus, que lhe dão glória. Mas a Escritura nunca sugere que Deus honra escolhas sem causa, de modo nenhum, ou sequer reconhece a sua existência. 

5. Na verdade, ao contrário, a Escritura ensina que no céu, o estado consumado da existência humana, não seremos livres para pecar. Logo, o mais elevado estado da existência humana será um estado sem liberdade libertária. 

6. A Escritura nunca julga a conduta de ninguém referindo-se à sua liberdade libertária. E Escritura nunca declara alguém inocente porque a sua conduta não era livre no sentido libertário; também jamais declara alguém culpado apontando para a sua liberdade libertária. Nós já vimos que, às vezes, a Escritura se refere implicitamente à liberdade ou à capacidade no sentido compatibilista. Mas nunca se refere à liberdade num sentido demonstravelmente incompatibilista. 

7. A verdade é que a Escritura condena algumas pessoas por atos que, claramente, não eram livres no sentido libertário. Esses atos mencionados no capitulo 4 sob o titulo “Pecados, encaixam-se nesta categoria, como a traição de Jesus por Judas. Até mesmo o adepto do teísmo aberto, Gregory Boyd, admite que o ato de traição de Judas não foi livre no sentido libertário. 

8. Nos tribunais civis, nunca se presume que a liberdade libertária é condição para que haja responsabilidade moral. Consideremos Hubert, assaltante de banco. Se a culpa pressupusesse liberdade libertária, então, para mostrar que Hubert era culpado, o promotor teria que mostrar que a decisão de roubar um banco foi sem nenhuma causa. Porém, que prova o promotor poderia apresentar para mostrar isso? Provar algo negativo é sempre difícil, e, evidentemente, seria impossível mostrar que a decisão interior de Hubert foi completamente independente de um decreto divino, ou de uma causa natural, ou do caráter, ou de algum motivo O mesmo se aplicaria a qualquer processo criminal. O libertarismo tornaria impossível provar a culpa de quem quer que fosse. 

9. De fato, os tribunais civis normalmente presumem o oposto do libertarismo, ou seja, que a conduta dos criminosos provém de motivos. Por conseguinte, muitas vezes os tribunais passam muito tempo discutindo se o acusado tinha um motivo adequado para cometer o crime. Se fosse possível mostrar que o ato de Hubert não dependeu de motivos, nesse caso, provavelmente, ele seria julgado insano e, portanto, não responsável, em vez de ser julgado culpado. Na verdade, se o ato de Hubert fosse completamente independente do seu caráter e dos seus desejos e motivos, poder-se-ia muito bem perguntar em que sentido esse ato foi realmente de Hubert. E, se não foi ato de Hubert, como pode ele ser responsável pelo mesmo? Vemos, pois, que, em vez de ser o fundamento da responsabilidade moral, o libertarismo a destrói. 

10. A Escritura contradiz a proposição segundo a qual somente decisões não causadas são moralmente responsáveis. Como vimos no capitulo 4, Deus, na Escritura, muitas vezes suscita ações livres, e até mesmo atos pecaminosos, dos seres humanos, sem diminuir nem um pouco a responsabilidade deles. No presente capítulo, temos visto que o controle soberano de Deus sobre os atos humanos e a responsabilidade do homem pelos mesmos atos são frequentemente mencionados na mesma passagem.

11. A Escritura nega que temos a independência requerida pela teoria libertária. Não somos independentes de Deus, pois ele controla as livres ações humanas. Tampouco podemos escolher agir independentemente do nosso caráter e do nosso desejo. Conforme Mateus 7.15-20 e Lucas 6.43-45, a boa árvore produz bom fruto, e a árvore ruim produz fruto ruim. Se o coração da pessoa está certo e é reto, seus atos serão certos e retos; do contrário, seus atos serão maus. 

12. Segue-se, pois, que o libertarismo viola o ensino bíblico concernente à unidade da personalidade humana no coração. A Escritura ensina que os corações humanos, e, portanto, as nossas decisões, são ímpios por causa da Queda, mas que a obra redentora de Cristo e o poder regenerador do Espirito Santo purificam o coração para que os nossos atos possam ser bons. Somos seres humanos caídos e renovados como pessoas completas. Essa integridade da personalidade humana não é possível numa construção libertária, porquanto, com base nessa ideia, a vontade sempre terá que ser independente do coração e de todas as outras faculdades. 

13. Se a liberdade libertária fosse necessária para a responsabilidade moral, Deus não seria responsável pelos seus atos, uma vez que ele não tem liberdade para agir contra seu caráter santo. Do mesmo modo, os santos glorificados no céu não seriam moralmente responsáveis, uma vez que não podem cair novamente em pecado. Se eles tivessem a liberdade libertária, poderiam cair em pecado, como Orígenes especulou, caso em que a redenção realizada por Jesus seria insuficiente para dar o devido tratamento ao pecado, pois não poderia alcançar a inconstância inerente do livre arbítrio humano. 

14. Essencialmente, o libertarismo é uma generalização altamente abstrata do principio segundo o qual a incapacidade limita a responsabilidade. Os libertários dizem que, se as nossas decisões padecem de algum tipo de incapacidade, significa que não somos verdadeiramente livres e não somos verdadeiramente responsáveis por elas. Já vimos que a incapacidade limita a responsabilidade até certo ponto, mas que esse princípio nem sempre é válido, que sempre padecemos de alguns tipos de incapacidade e, portanto, que o citado princípio deve ser utilizado com grande cautela. O libertarismo lança a cautela aos ventos. 

15. O libertarismo é inconsistente, não apenas com a preordenação divina de todas as coisas, mas também com o seu conhecimento dos acontecimentos futuros. Se Deus sabia que em 1930 eu usaria uma camisa verde no dia 21 de julho de 1998, isso significa que eu não sou livre para evitar usar tal camisa nesta data. Pois bem, os libertários defendem a tese de que Deus conhece os acontecimentos sem causá-los. Mas, se em 1930, Deus conhecia os acontecimentos de 1998, sobre que base os conhecia? Os calvinistas respondem que Deus os conhece porque conhece os próprios planos para o futuro. Mas como, sobre uma base arminiana, Deus poderia saber do meu ato livre a ocorrer 68 anos depois? Minhas decisões são governadas por uma cadeia deterministas de causas e efeitos finitos? Haverá alguma força ou alguma pessoa, que não Deus, que torna certo os acontecimentos futuros – um ser que Deus observa passivamente? (Essa é uma possibilidade assustadora, dificilmente consistente com o monoteísmo.) Nenhuma dessas respostas, nem qualquer outra na qual posso pensar, é consistente com o libertarismo. Por essa razão, os defensores do teísmo aberto, como os proponentes socinianos de Calvino, negaram o elemento-chave do arminianismo tradicional, ou seja, o pré-conhecimento exaustivo de Deus. Esse passo é drástico, como veremos em nossa posterior discussão sobre o conhecimento de Deus [conhecimento médio]. Parece-me que els seriam mais sábios se rejeitassem o libertarismo, em vez de reconstruírem drasticamente a sua teologia para torna-la consistente o libertarismo. 

16. Os libertários, como Pinnock e Rice, tendem a fazer da sua visão do livre arbítrio uma verdade central, inegociável, com a qual todas as outras declarações teológicas têm de ser forçada a ser compatíveis. Assim é que a liberdade libertária assume uma espécie de posição paradigmática ou pressuposicional. Mas, como vimos, o libertarismo é anti-escriturístico. Já seria suficientemente ruim adotar o libertarismo. Mas fazer dele uma verdade central ou uma perspectiva governante é realmente muito perigoso. Um erro incidental pode ser corrigido sem muita dificuldade. Mas quando esse erro se torna um principio importante, uma grelha pela qual todas as outas declarações doutrinárias são filtradas, significa, nesse caso, que é um sistema teológico que corre grave perigo de sofre naufrágio. 

17. As defesas filosóficas do libertarismo frequentemente recorrem à intuição como a base para a crença do livre arbítrio. Isto é, toda vez que nos defrontamos com uma escolha, achamos que poderíamos fazê-la de um modo ou de outro, até mesmo contra o nosso desejo mais forte. Às vezes temos consciência, dizem eles, de que estamos combatemos os nossos desejos mais fortes. Mas, seja o que for que alguém diga, em geral, sobre recorrer à intuição, essa jamais pode ser a base para uma negativa universal. Quer dizer, a intuição nunca pode revelar a ninguém que as suas decisões não têm causa. Nunca temos nada que possa ser descrito como um sentido de falta de causação. 

Tampouco a intuição pode revelar-nos que todos os nossos atos têm uma causa exterior. Se todos os nossos atos fossem determinados por algum meio alheio a nós, não poderíamos identificar essa causação nem por intuição nem por sensação ou percepção, pois não teríamos nenhum modo de comparar uma percepção de causação com uma percepção de não causação. Podermos identificar influencias que às vezes prevalecem sobre nós e às vezes não - forças às quais resistimos com êxito, mas nem sempre. Porém, não podemos identificar forças que constante e irresistivelmente determinam os nossos pensamentos e a nossa conduta. Logo, a intuição nunca nos revela se somos determinados por causas alheias a nós ou não. 

18. Se o libertarismo é verdadeiro, então de alguma maneira Deus teria limitado a sua soberania de modo que não faz tudo o que acontece. Porém, a Escritura não contém nenhuma alusão a que Deus tenha limitado em algum grau a sua soberania. De Gênesis 1 a Apocalipse 22, Deus é o Senhor. Ele é sempre totalmente soberano. Ele faz tudo quanto lhe apraz (Sl 115.3). Ele realiza tudo de acordo com o conselho da sua vontade (Ef 1.11). Além disso, é da própria natureza de Deus ser soberano. Soberania é seu nome, o real significado do nome Yahweh, em termos de controle e de autoridade. Se Deus limitasse a sua soberania, ele se tornaria algo menos que Senhor de tudo e de todos, algo menos do que Deus. E se Deus se tornasse algo menos do que Deus, ele se destruiria. Deixaria de existir. Podemos ver que as consequências do libertarismo são realmente graves. 

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Fonte: FRAME, John. A doutrina de Deus; São Paulo; Cultura Cristã, 2013. Págs. 121-124.
Imagem: St Augustine debating against the Donatists at the Council of CarthageCarle Van Loo (1705-1765). Arte: Bereianos
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Deus é o autor do mal? O que dizem as nossas Confissões?

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Por Rev. Adriano Gama


Quando falamos do Mal não é sobre as catástrofes, doenças, guerras, desastres, crises, a morte física, etc. O Mal que consta na pergunta é o Mal Moral, ou seja, de onde veio os pecados tanto de Satanás como dos homens.

O tema sobre a questão da autoria do Mal foi levantado dentro de nossas congregações devido ao anúncio da suspensão de um dos nossos oficiais do exercício do seu ofício. Este oficial, dentre outras coisas, professou que cria que Deus é o Autor do Mal. A suspensão deixou a igreja triste e suscitou na mente de alguns irmãos indagações sobre a origem do Mal.

Esta palavra que coloco no Boletim não deve ser tomada como um estudo profundo sobre a origem do Mal e defesa da Fé Cristã. Mas, são orientações aos membros da Igreja, a fim de acalmar seus corações e estimulá-los a buscarem consolo e paz naquilo que eles professam à luz da Escritura.

De onde veio o Mal é uma pergunta que tem intrigado a mente de muitos cristãos há séculos. E as igrejas de Cristo na História tem tratado essa questão de modo cuidadoso e humilde.

E a Igreja de Cristo com cuidado e humildade buscou na Escritura responder as perguntas: Deus é soberano e sustenta e comanda tudo segundo Sua vontade? Então, como fica a questão das Quedas do diabo e do homem? Foi Deus o Autor destas quedas? De onde veio o orgulho, mentira e ódio de Satanás? De onde veio a ganância e insubmissão de Adão? Estas criaturas não foram criadas boas?

As igrejas de Cristo souberam responder essas indagações. E um exemplo muito lindo desse cuidado e da humildade bíblicos são as nossas Confissões de Fé. Essas Confissões não são a Palavra de Deus, mas ecoam a fiel doutrina da Escritura, incluindo o que a Palavra de Deus diz sobre a Origem do Mal.

Onde em nossas Confissões podemos aprender sobre a origem do Mal? Nos seguintes lugares (É de suma importância que você veja as bases bíblicas nas notas de suas Confissões):

         • Confissão de Fé Belga – Artigos: 1, 2, 7, 12, 13, 14, 15, 16, 17.
         • Catecismo de Heidelberg – Dias do Senhor 3 e 4.
         • Cânones de Dort  Cap I, Arts. 5-7; 15; Cap II, Art. 6; Caps. III/IV, 1,             2, 9, 16.

Estude estas passagens. Mas, é importante destacarmos a Confissão de Fé Belga no seu Artigo 13 sobre a Providência de Deus:

“Cremos que o bom Deus, depois de haver criado todas as coisas, não as abandonou nem as entregou ao destino ou acaso, mas segundo a Sua santa vontade Ele as rege e governa de tal modo que no mundo nada acontece sem a Sua determinação. Deus, contudo, não é autor nem é culpável dos pecados que se cometem, pois Seu poder e bondade são tão grandes e incompreensíveis que Ele ordena e faz Sua obra de modo mais excelente e justíssimo, ainda que os demônios e os ímpios ajam com injustiça. E quanto àquilo que ele faz que ultrapassa o entendimento humano, não queremos investigar curiosamente além de nossa capacidade de entender. Mas adoramos com toda humildade e reverência os justos juízos de Deus, que nos estão ocultos. Contentamo-nos em ser discípulos de Cristo, que devem aprender apenas o que Ele nos ensina em Sua Palavra, sem transgredir esses limites. …”.

O Artigo 13, com base na Palavra de Deus, fala da Doutrina da Providência. Nele a Igreja confessa a Bondade e Soberania de Deus que sustenta e domina todas as coisas da sua criação “segundo a Sua santa vontade, Sua determinação”. E note que, ao mesmo tempo, na mesma doutrina, temos o cuidado de não fazer Deus o “autor e nem culpável dos pecados que se cometem pelos demônios e dos ímpios”. Na Confissão a Igreja justifica esta afirmação com base na grandiosidade do poder e da bondade de Deus revelada na Escritura, que mostra que Deus ordena e faz a “Sua obra de modo mais excelente e justíssimo, ainda que os demônios e os ímpios ajam com injustiça”.

Outro detalhe é que a nossa Confissão também manifesta a humildade cristã de se submeter a revelação da Escritura, quando nossas mentes limitadas não conseguem entender como se combina as ações soberanas, bondosas, excelentes, santas e justas de Deus e a responsabilidade dos demônios e pecadores quanto a Queda e seus pecados.

Saiba que muitos cristãos são mortos na Fé, pois são levados pelo diabo e por homens soberbos a usarem a lógica humana como um submarino que conseguirá levar o homem até às profundezas dos mistérios de Deus. A lógica tem o seu lugar como instrumento para aprofundar nosso conhecimento sobre Deus e suas obras. Porém, a lógica como um submarino pode falhar e tem um limite de profundidade para nos manter seguros no estudo dos mistérios de Deus. Esse limite é a Revelação da Escritura.

Se quisermos ultrapassar com a lógica os limites da Escritura, então, seremos esmagados e arrastados para a mais profunda morte. Por isso, o cristão se limita à Revelação da Escritura. Por esse motivo, humildemente, professamos que Deus “não é o autor nem é o culpável dos pecados que se cometem”. E, além disto, adoramos com toda humildade e reverência os justos juízos de Deus, que nos estão ocultos.”

Esta atitude humilde da Igreja aos limites da Revelação já é manifestada na sua crença que a Escritura é a Palavra de Deus e que ela foi preservada durante séculos, na Santíssima Trindade, na Encarnação do Verbo, no nascimento virginal de Cristo. Isto não pode ser diferente quanto a doutrina da Providência de Deus, que nos leva a ver que Deus é Soberano e ao mesmo tempo não é o autor nem o culpável dos pecados dos demônios e ímpios.

Portanto, com estas palavras chamo você a enfrentar esse momento de tristeza e desafio da Fé Cristã que estamos passando. Firme-se nas nossas Confissões que são Bíblicas. E ore para que você como membro da Igreja se contente em ser um discípulo (aluno) de Cristo, que deve aprender apenas o que Ele nos ensina em Sua Palavra, sem transgredir esses limites.

Sendo assim, continue firme e consolado com a Escritura quando se deparar com a profundidade da doutrina da providência e a questão do Mal, por isso continue confessando que: “Deus … não é autor nem é culpável dos pecados que se cometem, pois Seu poder e bondade são tão grandes e incompreensíveis que Ele ordena e faz Sua obra de modo mais excelente e justíssimo, ainda que os demônios e os ímpios ajam com injustiça.” Que o Senhor abençoe e guarde você em Cristo Jesus pelo poder do Seu Espírito e da Palavra.

Meditação:

Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom Gn 1.31.

Pois Tu não és Deus que se agrade com a iniquidade, e contigo não subsiste o mal” Sl 5.4

Ó profundidade da riqueza, tanto de sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminnhos!” Rm 11.33

Só uma exceção se deve fazer, a saber: que a causa do pecado, as raízes do qual sempre reside no próprio pecador; não têm sua origem em Deus, pois resulta sempre verdadeiro que “A tua ruína, ó Israel, vem de ti, e só de mim o teu socorro” Os 13.9

Leia também: João Calvino - Comentário da Carta Aos Romanos, pág. 71 – Editora Paracletos.

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Fonte: Bandeira da Graça
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A Consistência da Soberania Divina e da Responsabilidade Humana 3/3

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Por Matt Perman


Liberdade Arminiana é impossível

Tendo visto que o compatibilismo tem sucesso em mostrar a consistência da soberania divina e da responsabilidade humana, nós iremos mostrar a inconsistência da visão arminiana. Na verdade, eu espero mostrar que a forma arminiana de liberdade não é apenas impossível, mas irá destruir a responsabilidade moral. Existem três principais afirmações da liberdade arminiana que nós iremos resumidamente examinar:

1. Nós temos poder de autodeterminação de modo que determinamos nossas próprias escolhas.
2. Anterior ao ato de escolha, nossa mente está num estado de indiferença – que é, não há nada necessariamente induzindo a mente em uma das duas direções.
3. Nossas escolhas são contingentes – elas não são necessariamente resultado de conexões acidentais anteriores. Em outras palavras, para qualquer situação dada, nós poderíamos ter escolhido de outra forma. Isso é um corolário lógico do ponto 2, que nossas escolhas são feitas de um estado de indiferença.

O poder de determinação última é impossível

Considerando a primeira suposição, é impossível para a vontade humana ser autodeterminante? Eu penso que não. Nós vimos anteriormente que todas as nossas escolhas têm uma causa. Alguns arminianos poderiam argumentar que nossas escolhas realmente têm uma causa – elas são causadas pelo agente. Mas, eles diriam, não há nada que cause o agente a agir. Porém, suas escolhas são completamente autodeterminadas. Sem serem causadas por qualquer coisa mais, o agente causa suas próprias escolhas. As coisas que nós vimos acima para argumentar pelo compatibilismo são suficientes para refutar a crença arminiana da autodeterminação.

Primeiro, eles estão apenas trazendo o problema um passo para trás. É obvio que a escolha tem uma causa. Mas eles estão dizendo que o agente que fez a escolha não foi causado a fazer isso. Como vimos anteriormente, é impossível, porque tudo que acontece deve ter uma causa.

Segundo, não é o ato do agente de causar sua própria escolha em si mesma uma escolha – a escolha para fazer uma escolha? Se for, isso significa que Ele está fazendo uma escolha antes que Ele faça sua escolha! Terceiro, a visão arminiana contradiz todas as evidências que mostram que nossas escolhas não são autodeterminadas, mas são determinadas por nossas preferências. Quarto, se for afirmado que o agente causa sua própria escolha determinando suas preferências, a inconsistência do que crê nisso também foi mostrada acima.

Em outras palavras, a objeção essencial para o que crê que nós possuímos poder de autodeterminação é similar a objeção que nós vimos anteriormente dada à ideia que nós escolhemos nossos próprios desejos. Sobre a visão arminiana, devemos perguntar: Por que realmente o agente fez a escolha que ele fez? Foi aquela um resultado de suas escolhas também? Se não, então o ato não foi autodeterminado e, logo, isso não é consistente com a agência moral na visão arminiana. Se fosse um resultado da escolha, então, isso apenas volta um passo no problema. Pelo que, por que ele escolheu fazer a escolha que ele fez? Foi aquela escolha também um resultado de uma escolha anterior? Como podemos ver, o problema se mantém voltando para trás para sempre. Pode não haver um fim para isso, mas ao invés disso, isso resulta no absurdo da regressão infinita – uma cadeia de causas que não tem começo.

Frequentemente, um arminiano tentaria sair desse arrazoado dizendo que o agente “simplesmente escolhe”. Mas isso pede a pergunta, por isso ser simplesmente repetição da dificuldade e, então, deixa o buraco da objeção não endereçada. Além disso, a declaração que o agente “apenas escolhe” é equivalente a dizer que ele age sem causa. Mas, como vimos anteriormente, é impossível qualquer coisa acontecer sem uma causa.

Escolher num estado de indiferença é impossível

A próxima suposição da liberdade arminiana é que a vontade é neutra o suficiente para ir em qualquer caminho. Além disso, qualquer decisão feita, nós poderíamos ter escolhido de outra forma (o que é, então, a terceira suposição da liberdade arminiana). Pelo fato de que a segunda e a terceira suposições são tão proximamente relacionadas, refutar uma é necessariamente refutar a outra. Primeiro, nós iremos agora ver que é impossível para a mente escolher em um estado de indiferença.

Enquanto o ponto de vista arminiano realmente reconhece que razões cercam nossos atos de vontade, eles negam que essas razões são fortes o suficiente para “inclinar a vontade decisivamente em um caminho ou outro. Ao invés, a vontade, a despeito de sua inclinação, é neutra o suficiente de tal modo que pode e, às vezes, realmente escolhe contrariamente à direção que a causa a inclina”.

O primeiro problema com essa visão é que contradiz a verdade que nós fazemos escolhas com um objetivo em vista. Isto é, nós agimos com um propósito. Mas, se você tem um propósito para a sua ação, você não está escolhendo de um estado de indiferença.

Segundo, ser indiferente para suas escolhas não é tido pelo senso comum como uma boa coisa – é mau para uma pessoa (em situações morais) não se importar (ou seja, ser indiferente) com que eles estão escolhendo.

Terceiro, se a vontade não tem preferência decisiva que determine a opção a ser selecionada, se A ao invés de B, então a pessoa simplesmente não poderia agir. É a situação proverbial do burro estagnado entre dois baldes de feno que ele tem igual desejo, e ele termina morrendo de fome por ser incapaz de fazer a escolha. A real escolha da opção A ao invés da opção B é o ato de determinar sua preferência por A ao invés de B. Mas, se sua escolha é de um estado de neutralidade, não há preferência a ser determinada, e, então, nenhuma escolha pode ser feita.

Quarto, para pessoa agir de um estado de indiferença é o mesmo que uma pessoa agir sem uma causa. Por que? Porque não há nada que esta necessariamente trazendo a tona a escolha. Ao invés, pode ir para qualquer lado. Mas, uma causa, por definição, é algo que necessariamente trás a tona um efeito. Se não há nada que necessariamente resulte em você escolher uma escolha em particular, então não há, por definição, uma causa para aquela escolha. Isso faz a indiferença impossível porque, como nós vimos anteriormente, nada pode acontecer sem uma causa.

É o Arminianismo, não o compatibilismo que destrói a responsabilidade moral. Neste ponto somos capazes de ver que a liberdade arminiana destrói a responsabilidade moral. Por que? Porque se nossas escolhas acontecem sem uma causa, é o mesmo que elas acontecerem aleatoriamente. Eventos sem causa são por definição eventos aleatórios. Como disse o filósofo Moritz Sclicke, não há “outra oposição à casualidade” além da chance. Mas, se nossas escolhas são eventos do acaso, então como poderíamos ter responsabilidade sobre elas? Se nossas escolhas são meramente “acidentes” aleatórios que ocorrem sem nenhuma causa, criminosos poderiam se livrar das algemas porque eles não pretenderam quebrar a lei – isso apenas aconteceu sem razão alguma. Como disse um filósofo: “se uma decisão é sem causa, ela seria inteiramente se conexão com nossos traços de caráter e nossa personalidade… como podemos ser responsáveis por uma decisão que está dissociada de nós mesmos dessa forma?”. “Um acontecimento sem causa é o idêntico a um acontecimento por acaso, e consequentemente uma vontade (não causada) destrói toda responsabilidade”. 

É verdade que os arminianos irão negar que eles acreditam que escolhas são aleatórias. Mas então, o dilema incorre nisso: “Como alguém vem a agir? Se não há condições o suficiente (causa), a pessoa não irá agir, ou, se ela agir, o ato é aleatório. Se há uma condição suficiente, então ela irá agir, mas o ato será causadamente determinado. Em qualquer caminho, indeterminismo (Arminianismo) está em problemas. indeterminismo frequentemente diz que o agente “apenas agiu”. Porém, essa afirmação simplesmente repete sua visão; isso não explica como o agente vem a agir sem ser causadamente determinado ou sem fazer uma escolha aleatória, nenhuma das quais é liberdade de incompatibilismo”.

Habilidade para fazer de outra forma

A inconsistência do Arminianismo. Em último lugar, o indeterminismo argumenta que um ingrediente necessário à responsabilidade moral é que o agente poderia ter feito de outra forma. No preceito de ser responsável por uma ação, você deve ter a habilidade de ir em ambas as direções. Se há alguma coisa fazendo uma certa decisão inevitável, sua escolha não foi livre.

Deve ter ficado evidente acima que a habilidade de fazer de outra forma é impossível em qualquer escolha. O único caminho que nós poderíamos fazer de outra forma seria também escolher contrário a nossa grande preferência ou escolher de um estado de indiferença – o que vimos ser ambos falsos. Em segundo lugar, a habilidade de fazer de outra forma significaria a habilidade de fazer escolhas sem uma causa: “Dizer que um ocorrido pode ser diferente mesmo que se todas as condições primárias imediatas sejam as mesmas, é o mesmo que dizer que o ocorrido é sem causa”. Como vimos anteriormente, é impossível qualquer coisa acontecer sem uma causa. Porém, a habilidade de fazer de outra forma também não é possível.

Além disso, nós vimos em nossa análise do compatibilismo que a habilidade de fazer de outra forma não é necessária para responsabilidade moral. Tudo que é necessário para responsabilidade moral é que você está fazendo o que você quer fazer, a parte de qualquer compulsão externa (isto é, força). Liberdade é a habilidade de tomar uma decisão não forçada que está de acordo com suas preferências.

Incapacidade moral e incapacidade natural. Neste ponto, uma distinção feita por Jonathan Edwards (e muitos outros compatibilistas, mas Edward parece ser o mais claro e profundo) irá, além de tudo, mostrar a consistência entre soberania divina e a responsabilidade humana. A distinção é entre incapacidade moral e incapacidade natural. Incapacidade moral significa a lacuna do desejo de fazer alguma coisa. Um exemplo seria se eu estivesse tão satisfeito na livraria que eu simplesmente não poderia me levantar e ir à aula. Eu não tenho o desejo de estar presente na aula e, por isso, era moralmente incapaz de ir. Incapacidade natural seria se eu fosse fisicamente impedido de ira a aula. Isso seria se eu fosse amarrado a uma cadeira e, então, eu era incapaz de ir a aula mesmo que eu quisesse.

O ponto é que a incapacidade moral não exime da culpa “conforme o julgamento quase que universal dos homens, por mais forte que o desejo de um homem seja de fazer o mal, mais incapaz ele está de fazer o bem, e ainda mais enfraquecido ele é julgado ser pelos homens. Se homens realmente acreditam que incapacidade moral exime um homem da culpa, a fraqueza de um homem iria decrescer na proporção da intensidade de seu amor pelo mal. Mas isso é contrário à sensibilidade moral de quase todos os homens”.

Porém, o compatibilismo reconhece que alguém deve ser capaz de fazer de outra forma na ordem de ser moralmente responsável. Mas isso é apenas uma habilidade natural de fazer de outra forma que é necessário, não uma habilidade moral para fazer de outra forma. Nós nunca tivemos a habilidade moral de escolher outra coisa do que escolhemos, ainda assim (como vimos) isso não remove a responsabilidade. Todas as nossas escolhas são feitas pela necessidade moral porque elas são causadas por nossas maiores preferências.
Isso nos leva à próxima distinção: necessidade moral e necessidade natural. Elas estão no outro lado da moeda. Algo é moralmente necessário se é minha grande preferência. Não posso escolher diferente do que eu mais quero. Algo é naturalmente necessário se eu sou forçado a fazer isso. Animais de estimação, por exemplo, são controlados pela necessidade natural. O guia simplesmente manipula a coleira que está presa neles e por meios físicos força-os a fazerem a ação. Se fazemos algo fora da necessidade natural, nós somos responsáveis por isso. Mas necessidade moral não remove responsabilidade.

Por exemplo, quando Martinho Lutero levantou-se foi dito pela igreja Católica Romana para desmentir seus ensinos, ele disse que ele não iria desmentir e que não poderia fazer de outra forma. Ele acreditou tão fortemente no que estava ensinando que ele necessariamente recusou desmentir. É claro que não seria razoável argumentar que, então, Lutero não estava fazendo uma escolha genuína!

O ponto é: “Na intenção de ver como a soberania de Deus e a responsabilidade humana são perfeitamente coerentes, a pessoa precisa apenas perceber que o caminho que Deus trabalha no mundo não é impondo necessidade natural nos homens e, então, tomá-los por responsáveis pelo que eles não podem fazer, mesmo apesar deles quererem fazê-lo. Burt prefere dizer que Deus dispôs todas as coisas (Efésios 1.11) de tal modo de acordo com nossa necessidade moral que todos os homens tomam apenas aquelas escolhas ordenadas por Deus na eternidade”.

Conclusão e aplicações

Concluindo, não estou declarando conhecer tudo (ou a maioria) dos caminhos de Deus nesta área. Nosso conhecimento é muito, muito pequeno. Mas eu acredito que Deus tem dado informações suficientes disponíveis para nós, para, ao menos, vermos como sua soberania é consistente com a responsabilidade moral. Nós temos visto que o compatibilismo tem êxito em mostrar sua consistência. Nós também vimos como a visão que nega a absoluta soberania de Deus e tenta preservar nos humanos um livre-arbítrio não é apenas impossível, mas parece realmente destruir a responsabilidade humana.

É sempre importante aplicar o que nós conhecemos. As coisas que vimos aqui devem nos capacitar a nos aventurar na maravilhosa sabedoria de Deus, pela qual Ele pode determinar todas as coisas sem violentar a vontade de Suas criaturas. Isso deve nos prender sob Deus, através de Cristo, em grande confiança, por sermos inteiramente dependentes de Deus para todo bem. Esta informação também deve nos ajudar a nos apoiar na grande verdade da soberania de Deus com grande confiança, e eu oro para que isso ajude a fixar muitas mentes no descanso de ambas as verdades: absoluta soberania de Deus e responsabilidade humana. É uma coisa verdadeiramente gloriosa que o Reinado Soberano de Deus não é inconsistente com Seu governo moral de Suas criaturas.

Antes de terminar, nós estamos numa boa posição para usar o que nós aprendemos a responder umas das mais frequentes questões sobre a soberania de Deus sobre todas as coisas: Por que a soberania de Deus não nos faz marionetes? Eu ofereço nove razões porque não somos marionetes (apesar de que existem muitas outras):

1. Humanos são autoconscientes, marionetes não.
2. Humanos fazem escolhas, marionetes não.
3. Humanos usam a lógica, marionetes não.
4. Humanos têm emoções, marionetes não.
5. Humanos têm preferências, marionetes não.
6. Humanos agem de acordo com suas preferências, marionetes não.
7. Humanos conscientemente fazem o que é determinado para eles, marionetes inconscientemente fazem o que é determinado para elas.
8. Humanos entendem por que eles estão fazendo o que eles estão fazendo – eles agem por alguma razão, marionetes não.
9. Marionetes são determinadas por necessidade física, humanos por necessidade moral.

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Fonte: The Consistency of Divine Sovereignty and Human Accountability
Tradução: Rev. Ricardo Moura Lopes Coelho
Revisão: Ruy Marinho
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A Consistência da Soberania Divina e da Responsabilidade Humana 2/3

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Por Matt Perman


Como nossas escolhas são determinadas

Desde que nós escolhemos a opção que nós encontramos preferência, então, é claro que nossas escolhas são determinadas – elas são determinadas por nossas preferências. Mas, desde que esta é uma determinação para escolher a opção que nós queremos mais, isso não destrói de forma alguma nossa ação moral.

Tendo entendido isso, não é difícil ver como Deus pode controlar todas as coisas sem violar nossa ação moral. Ele simplesmente arranja a situação de forma que a opinião que nós encontramos maior apelo é a escolha que ele havia ordenado para fazermos. Em outras palavras, se Deus quer que escolhamos a opção A ao invés da opção B, ele trabalha as coisas para que a opção A seja aquela que nós encontramos preferência. Assim, Deus está no soberano controle, ainda que escolhamos o que nós queremos mais e estamos, então, fazendo escolhas reais e genuínas.

Mas, algumas pessoas objetam nesse ponto: “Espere um minuto. Desde que nós não somos a causa última que determina nossas preferências, como podemos sustentar responsabilidade por escolhas que necessariamente vêm dessas preferências?”.

Essa é uma boa questão, pois nos permite clarear um importante ponto: não importa que nós não determinemos nossas preferências. Tudo que importa é que nós estamos escolhendo as coisas que nós mais queremos. Em outras palavras, responsabilidade moral não depende se nossas escolhas são determinadas (causadas), mas como nossas escolhas são determinadas. Este é um ponto muito importante, então deixe-me repetir em palavras um pouco diferentes: autodeterminação não é necessária para nós sermos justamente responsáveis por nossas más escolhas e não é necessária para fazer de nossas boas escolhas genuínas. O que essas coisas levantam é que nós escolhemos as coisas que queremos.

Este fato é o que vemos nas Escrituras acima. De acordo com as Escrituras, Deus é a causa última de todas as nossas escolhas, e ainda sustenta nossa responsabilidade por nossas escolhas. Desta forma, determinismo não destrói responsabilidade moral. Um não necessita do poder de autodeterminação necessariamente para ser moralmente responsável por suas ações. Além disso, as Escrituras parecem ensinar compatibilismo, que argumenta que nossas escolhas são genuínas simplesmente porque nós estamos fazendo o que é concordável para nós.

Não apenas é o compatibilismo assumido e ensinado nas Escrituras, como também consistente com o senso comum. Nosso próprio senso comum mostra que tão logo nós estamos escolhendo de acordo com nossas preferências, nossa ação moral não é destruída em nenhum grau. Quem poderia honestamente dizer: “minha escolha de dar dinheiro ao pobre não foi genuína porque eu estava fazendo a opção que minha preferência indicava”?! Iria um juiz perdoar o criminoso que disse: “você não pode me responsabilizar por meu crime porque eu queria fazer isso! Na verdade, eu queria tanto fazer que eu não poderia ter feito de outra forma”? Claro que não! O criminoso poderia realmente compor sua culpa pelo fato que ele queria muito fazer isso, não eximir-se disso.

Então, é perfeitamente aceitável ao senso comum, mesmo apesar de todas as nossas escolhas serem pré-determinadas, que elas são genuínas e nós podemos arcar com a responsabilidade por elas, porque elas são as escolhas que nós consideramos mais razoáveis a serem feitas. É importante reconhecer, porém, que Deus não faz uma escolha pecaminosa ser razoável da mesma forma que ele faz com as boas escolhas serem razoáveis. Deus causa as boas escolhas por uma ação positiva, mas está por trás do mal por meios de causa negativa. Qual a diferença?

O sol causa o dia na terra pela produção de luz. Isso é o quero dizer por causa positiva. Deus causa o bem por produzir o bem. Deus causa o bem pela produção da bondade no coração de alguém, e, assim, isso é sua causa positiva. Mas, exatamente como a escuridão da noite não é algo que é produzido pelos raios solares – mas, ao invés disso, é causado por sua ausência – de igual modo, Deus direciona os desejos maus no coração de uma pessoa retendo sua graça em restringir até o nível que eles desejam pra fazer o que Deus havia ordenado. Nós devemos afirmar com veemência que Deus não tenta a ninguém (Tiago 1.13) porque ele não produz os desejos pecaminosos no coração de uma pessoa, mas determina e os controla por meio das circunstâncias e o grau ao qual ele segura sua graça sobre o coração da pessoa. Além do mais, humanos nascem em pecado. Então, a causa negativa que Deus pratica é simplesmente fazer com que nós ajamos de acordo com nossa própria natureza. Desse modo, Deus não pode ser culpado por pecar porque ele controla o mau por meios de causa negativa – ele direciona isso pela ausência da boa preferência, não pela produção do mal.

John Piper dá uma conclusão para o caminho que Deus traz as preferências (motivação) para causar as ações das pessoas: “sempre tenha em mente que tudo que Deus faz ao homem – seu comando, seu chamado, seu aviso, sua promessa, seu lamento sobre Jerusalém – tudo é sua forma de criar situações que funcionarão como motivos para aliciar os atos de desejo que Deus havia ordenado para virem acontecer. Dessa forma, ele é a causa última que determina todos os atos e volições (apesar de nem todos serem da mesma forma) e ainda responsabiliza o homem apenas por aqueles atos que eles querem mais fazer”.

Para resumir, nossa responsabilidade moral não depende do se nossas escolhas são determinadas, mas depende de como elas são determinadas. Tão logo nossas escolhas são causadas pelos nossos desejos e motivos razoáveis, elas são atos responsabilizáveis. Desde que Deus controla nossas escolhas pelo controle de nossas preferências, sua soberania não viola nossa ação moral. Além do que, enquanto Deus é a causa última das coisas, ele está por trás do bem e do mal de formas diferentes. Deus controla as circunstâncias e o grau de sua graça para trazer à tona as preferências que irão aliciar as escolhas que ele havia ordenado. A falácia do Arminianismo é em pensar que não se pode responsabilizar por algo, a menos que isso seja um ato inteiramente livre e não determinado.

Considerando algumas objeções

Nós escolhemos nossas preferências? Talvez um Arminiano irá admitir que nós escolhemos de acordo com nossas preferências, mas, então, objetaria que aquelas preferências são, por si mesmas, resultados de nossas escolhas. Essa objeção, porém, é ilógica. Preferências devem, em última instância, serem dadas e não escolhidas. Por que? Porque se nós podemos escolher nossas preferências, nós teremos de perguntar: “Como nós escolhemos aquelas preferências em particular e não as outras?”. Se foi por um ato de escolha, isso apenas leva a um passo adiante: não deveria aquela escolha por si mesma ter sido baseada sobre uma preferência também? Então, não deveriam aquelas preferências também serem escolhidas baseadas sobre outras preferências? Como você pode ver, isso iria resultar num ciclo vicioso, sem jamais encontrar a primeira causa.

Por outro lado, se nós não obtemos nossos desejos por atos de escolha, então, essas preferências não tinham causa (o que nós já vimos ser impossível), ou ainda, eles seriam, então, um resultado último da predestinação do plano de Deus – o que nos traria de volta para a visão calvinista.

Além disso, é importante entender que nós não fazemos algo preferível a nós. Nós não escolhemos nossas preferências. Particularmente, elas são, em última instância, trazidas à tona por Deus por meio das circunstâncias, nosso caráter, e outras coisas. Por exemplo, eu estudo para o teste umas poucas semanas atrás porque isso era mais razoável para mim que não estudar. Agora, eu não fiz "estudar" ser a coisa mais razoável. Particularmente, eu considerei a situação e reconheci que estudar era a coisa mais apelativa para mim. Como um resultado, eu escolhi estudar. Claramente essa era uma escolha genuína. Todavia, isso era também causa determinada (e assim não poderia ter sido de outra forma) por que eu necessariamente escolho a opção que eu encontro mais razões. Então, tanto o determinismo quanto à responsabilidade moral são compatíveis.

Qual função nosso caráter e as circunstâncias têm em nossas escolhas? Como vimos anteriormente na citação de John Piper, a resposta parece ser que Deus usa a eles para trazer a tona nossas preferências. Assim, num nível secundário, nossas preferências são um resultado de nosso caráter e da presente circunstância. Em outras palavras, o tipo de coisas que preferimos depende do tipo de pessoas que somos. Porque nossas preferências estão de acordo com quem nós somos, elas são genuinamente nossas preferências.

Nós escolhemos nosso caráter? Se alguém objeta que nós escolhemos nosso caráter (e então, em última instância, nossos desejos), eu respondo que enquanto nós podemos e realmente afetamos nosso caráter pela escolha, isso é completamente contraditório pensar de nossas vontades como a causa última de nosso caráter. Nosso caráter não é algo que existe independentemente de nós, ele é nós. Além disso, na ordem de escolher nosso próprio caráter, nós precisaríamos existir, na verdade, antes de nós existirmos.

Isso nos traz a outra importante verdade. Por criar você, Deus determinou seu caráter. Desde que nosso caráter num grande nível determina as preferências que temos, Deus num grande nível determina as coisas que nós escolheríamos porque ele, em última instância, planejou nosso caráter. Alguém poderia dizer que Deus nos trás à existência, mas de tal forma que ele não determina nosso caráter. Mas “como Deus pode trazer X à existência sem através disso definir X, que irá ser determinante de como isso irá funcionar? Se Deus não o definiu controlando sua natureza, em que sentido Deus trouxe X à existência (particularmente, então, não-X)?”.

A possibilidade que Deus freqüentemente direciona nossos desejos direcionando nosso caráter deve também nos ajudar mais tarde, a ver a consistência entre a soberania divina e a responsabilidade humana. Como vimos anteriormente, seu caráter não é algo que existe separado de você. Isso não é uma rede que jogam sobre você. Antes, isso é você. Obviamente, você não pode ser livre de você mesmo. Suas preferências (deste modo, escolhas) são verdadeiramente suas e são genuínas porque elas estão de acordo com quem você é. A soberania de Deus no mínimo não muda isso, mas, particularmente, parece trabalhar através disso e, então, preserva a responsabilidade moral. O único caminho para escapar da soberania de Deus seria escapar de ser uma criatura. Deus, o criador, é sempre soberano sobre o que ele cria porque, na criação, ele determina o plano e forma disto trabalhar.

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Continua nos próximos dias...

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Fonte: The Consistency of Divine Sovereignty and Human Accountability
Tradução: Rev. Ricardo Moura Lopes Coelho
Revisão: Ruy Marinho
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A Consistência da Soberania Divina e da Responsabilidade Humana 1/3

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Por Matt Perman


No último artigo, nós vimos como pode ser que o Deus de toda eternidade ordenou “tudo quanto acontece” e ainda assim não é “o autor do pecado” (Confissão de Fé de Westminster III.I). Tendo mostrado isso, o assunto que nós iremos focar nesse artigo é: como o controle de Deus sobre todas as coisas não destrói a responsabilidade humana. Como a Confissão de Fé de Westminster prossegue dizendo, a soberania de Deus não violenta a “vontade da criatura”.

Muitas coisas que nós dizemos no último artigo lançam luz nesse assunto da responsabilidade humana sob a providência de Deus. Por exemplo, o fato que o pecado não é um resultado de Deus injetar o mal no coração de alguns, mas mais um problema dele conter sua graça que impediria a pessoa de pecar, é uma coisa que preserva nossa responsabilidade moral e torna claro que Deus não é o autor do pecado. Nós iremos, agora, olhar mais de perto como Deus determina a vontade, que irá primariamente mostrar por que sua soberania não destrói a responsabilidade moral, e secundariamente dar adiante prova do fato que Deus não é o autor do pecado.

Para ser específico, esta análise irá responder duas perguntas para nós. Primeira, como nós podemos sustentar a responsabilidade por nossas ações pecaminosas quando elas são pré-determinadas por Deus? Segunda, como podem nossas escolhas boas serem genuínas quando elas todas foram pré-determinadas e trazidas a tona por Deus?

O Ensino das Escrituras

A primeira coisa que eu gostaria de ressaltar é que as Escrituras vêem a soberania divina como consistente com a responsabilidade moral. Elas ensinam tanto que nós somos responsáveis por nossos atos e que Deus, no final das contas, determina nossas escolhas. Como nós iremos ver em breve, isso nos dá um princípio que é essencial para resolver o mistério.

Em Êxodo 7.2-4 Deus diz a Moisés: “Tu falarás tudo o que eu te ordenar; e Arão, teu irmão, falará a Faraó, para que deixe ir da sua terra os filhos de Israel. Eu, porém, endurecerei o coração de Faraó e multiplicarei na terra do Egito os meus sinais e as minhas maravilhas. Faraó não vos ouvirá; e eu porei a mão sobre o Egito e farei sair as minhas hostes, o meu povo, os filhos de Israel, da terra do Egito, com grandes manifestações de julgamento.” Esta é uma passagem incrível! No verso 2, Deus diz que Moisés e Arão estão, na autoridade de Deus, para comandar ao faraó que deixe Israel ir. Mas no verso 3, Deus diz que ele irá endurecer o coração do faraó tanto que ele não deixasse Israel ir. No verso 4, nós lemos que Deus irá julgar o faraó e o Egito por sua desobediência. Desta forma, não vemos nas Escrituras a soberania de Deus destruindo a responsabilidade moral de faraó ao endurecer o coração dele, por Deus julgar faraó por sua desobediência. Nós sabemos que o faraó merecia este julgamento porque todos os julgamentos e caminhos de Deus são justos; “todos os seus caminhos são juízo; Deus é fidelidade, e não há nele injustiça; é justo e reto” (Deuteronômio 32.4). de fato, mais tarde na história, o próprio faraó reconheceu sua culpa: “Esta vez pequei; o SENHOR é justo, porém eu e o meu povo somos ímpios” (Êxodo 9.27).

Igualmente, no livro de Atos nós lemos que o ato pecaminoso dos judeus, gentios, Heródoto e Pôncio Pilatos que resultaram na morte de cruz de Cristo, foram todos predestinados por Deus (Atos 4.28). Todavia, eles foram considerados moralmente culpados por esses pecados (2.23; 7.52). Jesus parece afirmar no mesmo sentido que a soberania de Deus sobre sua traição e a culpa moral daquele que o traiu: “Porque o Filho do Homem, na verdade, vai segundo o que está determinado, mas ai daquele por intermédio de quem ele está sendo traído!” (Lucas 22.22). Em 2 Tessalonicenses 2.9-12 nós lemos de um tempo quando, para aqueles que rejeitaram o Evangelho, “Deus lhes manda a operação do erro, para darem crédito à mentira, a fim de serem julgados todos quantos não deram crédito à verdade; antes, pelo contrário, deleitaram-se com a injustiça”. Muitas outras instâncias poderiam ser dadas, mas esta é suficiente para mostrar que as Escrituras crêem que a soberania de Deus é consistente com o fato que ele nos atribui toda responsabilidade por nossos pecados.

As Escrituras também crêem que nossas escolhas boas são genuínas, tanto quanto elas são trazidas por Deus. Em 2 Coríntios 8.16, Paulo diz que o amor e a solicitude de Tito pelos corintos foram colocadas por Deus em seu coração. Desse modo, Paulo considera a solicitude de Tito como genuína, dizendo “partiu voluntariamente para vós outros” (v.17). Ezequiel 33.27 ensina que a obediência dos cristãos é causada pelo Espírito de Deus: “Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos …”. Assim, quem ousaria dizer que sua obediência não é genuína! Igualmente, da fé é dita ser dada a nós vinda de Deus (Filipenses 1.29), ainda assim nossa fé agrada a Deus (Hebreus 11.6).

As Escrituras parecem claramente negar a crença comum que humanos são a causa última que determina suas próprias escolhas (“livre-arbítrio”). Jeremias 10.23 diz: “Eu sei, ó SENHOR, que não cabe ao homem determinar o seu caminho, nem ao que caminha o dirigir os seus passos”.

De tudo isso, devemos concluir que de acordo com a Escritura, o controle de Deus não destrói a responsabilidade moral em considerar nossos atos pecaminosos, e nem destrói a genuinidade das boas escolhas que os cristãos fazem. Desde que as Escrituras ensinam, nós deveremos acreditar nisso, mesmo que não entendamos como isso se encaixa na lógica. Em outras palavras, nós deveremos acreditar que a soberania de Deus é consistente com nossa ação moral porque Deus diz que isso é assim, e Deus sempre fala a verdade.

Existem aqueles que param após este ponto, dizendo que o modo para ser entendido de como essas coisas são consistentes é um mistério. Isso é perfeitamente normal. Parece-me, porém, que a simples reflexão revela que as Escrituras resolvem muito desse problema. Como isso? Isso me parece desta forma: o fato que as Escrituras ensinam que nós somos responsabilizados pelo que Deus, em última instância causa em nós, ensina que o livre-arbítrio não é um pré-requisito para a responsabilidade moral. Em outras palavras, você não precisa ter o poder de autodeterminação como regra para ter responsabilidade por suas escolhas.

Você vê, a razão que podemos pensar que a relação entre soberania divina e responsabilidade humana é um mistério, é por causa de uma fixa pressuposição que temos: que responsabilidade moral requer que nós tenhamos autodeterminação – que nós tenhamos a palavra final sobre o que irá acontecer. Mas, desde que as Escrituras mostram que Deus, em última instância, determina o que irá acontecer, e ainda assim nós temos responsabilidade por nossas ações, nós devemos concluir que a crença comum que responsabilidade moral requer livre-arbítrio é falsa. Porém, responsabilidade moral é estabelecida por alguma outra coisa vinda da liberdade de determinação de Deus.

E sobre os versos de “escolha”?

Antes de olhar o que nos faz ter responsabilidade por nossas escolhas, há uma coisa que é importante para entender neste ponto. Muito freqüentemente, pessoas tentam refutar a soberania divina mostrando várias passagens onde humanos são ditos fazerem escolhas. O argumento é como este: “Olhe para todos esses versos que dizem que fazemos escolhas. Por exemplo, João 3.36 diz que quem crê no Filho tem a vida eterna. Isso significa que Deus deu-nos o poder de decisão última sobre o que irá acontecer. Ele não controla todas as coisas porque ele deixou muitas coisas sobre nós”.

Mas esse argumento vai além do texto. Aqueles que acreditam no controle de Deus sobre todas as coisas, reconhecem que nós fazemos escolhas. Eu repito: humanos fazem escolhas. Esse não é o assunto que é debatido. O assunto é este: Por que nós fazemos as escolhas que fazemos? Como nós viemos a fazer nossas escolhas? É Deus, talvez, aquele que, em última instância, causa-nos a escolha do que fazemos? As muitas passagens na Bíblia onde nos é dito escolher certas coisas não interessam a esse assunto, por elas não dizerem como é que nós fazemos as escolhas que fazemos. Tudo o que eles dizem é que fazemos escolhas. Com isso, a predestinação concorda. Mas os textos não dizem que nós temos autodeterminação. Eles não lidam com o assunto de se Deus é ou não a causa última atrás de nossas escolhas. Para esse assunto, nós devemos nos voltar para outros textos das Escrituras, que nós vimos que claramente ensinam o controle de Deus sobre todas as coisas. Assim, nós devemos concluir que humanos fazem, realmente, genuínas escolhas. Mas Deus é a causa última que determina o que nós iremos escolher.

Com esse entendimento, nós iremos agora examinar a visão chamada compatibilismo, que se esforça em explicar como a soberania divina é consistente com a responsabilidade humana. Talvez o melhor defensor desta visão, que largamente influenciou este artigo, é o trabalho de Jonathan Edwards chamado On the Freedom of the Will (Na liberdade da vontade).

Depois de dada evidência para o compatibilismo e mostrar como é consistente com o senso comum (e, como nós vimos acima, que isso é assumido pelas Escrituras), nós iremos, então, ver como a visão oposta da liberdade, chamada Arminianismo (que acredita que os humanos têm poder de autodeterminação), é contraditória e impossível.

Tudo que acontece tem uma causa

Uma causa é uma coisa que faz algo acontecer do jeito que é. X é a causa de Y se X é a razão de Y acontecer. Além disso, causas são necessariamente conectadas aos seus efeitos. Em outras palavras, se X faz certo que Y irá ocorrer, X é dito ser a causa de Y. Se a ocorrência de X não faz certo a ocorrência de Y, nós não dizemos que X causa Y. Particularmente, nós poderíamos meramente dizer que X faz Y possível.

Nós todos sabemos que tudo que acontece tem uma causa. Nós vivemos vidas baseadas sobre esta suposição, sem ela, o mundo poderia não fazer sentido. Se seu carro não quer ligar, você tenta encontrar o porquê. Se você fica extremamente doente, você vai ao médico para encontrar o que está causando sua enfermidade. Ninguém espera um tigre enfurecido vir à existência no meio da sala por nenhuma razão. Isso é absolutamente oposto ao senso comum, pensar que algo pode vir a ser sem alguma causa por de trás disto.

Outro bom argumento é que “se um acontecimento não tem causa, então este pode ter sido diferente na forma que ele aconteceu, mesmo se tudo anterior a ele era exatamente o mesmo. Desde que a observação mostra que não importa o que seja, há formas diferentes no modo como as coisas habitualmente acontecem, há também diferenças nas condições primárias, nós podemos concluir que tudo que acontece tem causas”.

Todas as nossas escolhas têm uma causa – isto é, foram feitas por alguma razão

Se todas as coisas têm uma causa, então está claro que nossas escolhas devem ter causas também. Elas não acontecem sem razão. Isso é, na verdade, a concepção que todos nós temos. Freqüentemente nós dizemos um ao outro: “Por que você fez aquilo?” Isso é o mesmo que dizer: “Qual é a razão por de trás de sua escolha? O que fez você agir dessa forma?” A pessoa irá frequentemente responder: “Eu fiz por causa de x, y e z”.

Todas as nossas escolhas são feitas de acordo com as razões que nós pensamos serem as melhores

Mas não existem frequentemente várias razões a favor de várias escolhas? Por exemplo, que tal quando você está entre fazer o dever de casa e ficar com os amigos? Como nós decidimos, então? A resposta é que em toda escolha nós sempre escolhemos a coisa que é mais apelativa a nós. Em outras palavras, nossas escolhas não são apenas feitas por uma razão, elas são feitas de acordo com a razão que nós pensamos ser a melhor. Agora, isso não significa que nós sempre escolhemos o que é mais lógico. Nossas emoções, bem como nossa lógica, participam de nossas decisões. Assim, talvez seja melhor expressar dessa forma: nós sempre escolhemos a opção que nós temos uma grande preferência por ela. Outros dois caminhos para expressar isso são que nós escolhemos de acordo com nosso grande desejo, ou que nós sempre escolhemos o que nós pensamos ser melhor. Mas parece que o caminho mais claro para expressar esta verdade é dizendo “grandes preferências”, porque isso parece conduzir mais claramente ao fato que há uma combinação da lógica e fatores emocionais nas razões de nossas escolhas.

Eu irei dar três razões para sustentar o fato de que nós sempre escolhemos o que preferimos. Primeiro, isso é auto evidente, negar isso é correr para absurdos. As alternativas seriam: “nós sempre escolhemos o que é pior”, ou “nós freqüentemente escolhemos o que nós não queremos”. Segundo, se escolhermos contrários a nossa grande preferência, então, isso significará que uma influência fraca pode sobrepor a influência mais forte – o que é uma contradição.

Terceiro, escolher contrário a sua grande preferência seria igual a escolher sem razão (o que vimos ser impossível). Por que isso? Porque, então, não há explicação por que a pessoa veio a escolher o que ela escolheu. Deixe-me escrever o dilema dessa forma: se você pode escolher contrário a sua grande preferência, você terá uma razão para agir dessa forma, ou não teria. Se há uma razão para você agir dessa forma, então, isso significa que você está realmente fazendo a escolha porque era mais razoável que outra. Mas, isso é o mesmo que dizer que você escolheu de acordo com sua preferência – sua grande preferência sendo a coisa mais razoável. Mas, se havia razões para essa escolha que eram contrárias a sua grande preferência, então a escolha foi essencialmente feita sem causas porque nenhuma razão poderia ser dada para o porque de você escolher uma coisa ao invés de outra. Nessa situação, você poderia ser inclinado a uma certa escolha, e ainda, sem razão alguma, escolher alguma outra coisa. Como vimos anteriormente, é impossível fazer uma escolha sem uma causa.

Mas o que dizer, por exemplo, quando alguém opta por estudar para um teste quando essa pessoa realmente teria encontrado maior prazer em ir ao cinema? Nesse caso, a pessoa desejou os benefícios de longo alcance através da boa nota que o estudo poderia trazer, mais do que o prazer de curto prazo que um bom filme teria trazido. Em si, o filme teria sido mais agradável. Mas considerando todas as coisas, estudar era mais preferível. 

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Continua nos próximos dias...

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Fonte: The Consistency of Divine Sovereignty and Human Accountability
Tradução: Rev. Ricardo Moura Lopes Coelho
Revisão: Ruy Marinho
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