As línguas estranhas pentecostais são línguas de verdade?

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Por Yago Martins


Quando eu era pentecostal, algo sempre me deixou intrigado com o falar em línguas, quer fossem as minhas línguas estranhas ou a dos outros: se as línguas estranhas são de fato, idiomas, por qual motivo tantos homens só repetem a mesma sequência de sons vez após vez? Que tipo de idioma era este que possuía nada mais que a repetição das mesmas palavras e sons indefinidamente? Em vários estudos em nível de mestrado e doutorado, temos fato comprovado que a dita língua estranha, que deveria ser falada miraculosamente, é nada mais que uma reprodução dos fonemas da língua-mãe do falante, com as mesmas estruturas de cadência, ritmo, respiração, tom e melodia, análogas ao ato de vocalização livre de qualquer não-religioso do mesmo país, provando que não são idiomas coisa alguma, e que são um subproduto da língua do próprio falante. Esta evidência fenomenológica, se não respondida – como eu acredito que permanece –, fornece evidência para nos fazer crer que as línguas estranhas nada mais são que a livre vocalização que é possível a qualquer pessoa, religiosa ou não, e não há qualquer sobrenaturalidade nisto. Você não pode simplesmente dizer que “milagre não se entende” e deixar isso pra lá. Assista:



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Fonte: Dois Dedos de Teologia - Racionalizando #3
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Batismo no Espírito Santo: uma segunda bênção?

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Por Paulo Ribeiro


A doutrina bíblica do batismo com ou no Espírito Santo é maravilhosa e aponta para uma realidade que sintetiza a mensagem do evangelho: a de que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões (2Co 5.19). Esta doutrina, a do batismo, mostra que Deus opera em seus eleitos a ação de purificá-los do pecado, de uma só vez, aspergindo-lhes o Espírito Santo em uma aplicação individual da obra expiatória de Cristo em favor deles. O resultado pode ser descrito conforme 1Pe 1.2: fomos eleitos...em santificação do Espírito (neste contexto, um termo equivalente à justificação)...para a aspersão do sangue de Jesus Cristo.

Porém, esta doutrina sofreu algumas reinterpretações ao longo dos últimos séculos e, em tempos mais recentes, Charles Fox Parham (1873 - 1929) efetuou uma releitura desta doutrina explicando que ela, na verdade, seria uma segunda bênção, distinta da conversão e justificação do crente. O cristão primeiro se converteria (isso mesmo: o próprio cristão SE converteria, mas deixo este problema para outro artigo) e, então, estaria unido a Cristo e perdoado. Mas, ele precisaria receber uma bênção posterior - o batismo com o Espírito - para receber poder para o testemunho, dons especiais, etc.

Para deixar a doutrina ainda mais confusa, o ramo cristão que se erigiu a partir de Parham, ramo que chamamos de "pentecostalismo", associou o que entenderam como uma segunda bênção ao anacrônico dom de línguas, dizendo que a glossolália, portanto, seria evidência do batismo no Espírito. E o texto bíblico de Atos 2 serviu como o selo de que as coisas são realmente assim. Os discípulos receberam o Espírito Santo no pentecostes; os discípulos falaram em línguas "estranhas" (volto nisso em outro artigo); logo, quem é batizado no Espírito, fala em línguas.

Entretanto, seria realmente o batismo no Espírito Santo uma bênção posterior e distinta da conversão? Quais seriam as implicações de adotarmos esta ideia? Ela teria alguma implicação para a soteriologia? E para a bibliologia? Certamente teria implicações dramáticas para a práxis cristã. Mas o mais importante aqui é: seria esta interpretação correta?

O que diz a doutrina

Frases que mencionam um certo batismo com/no/do Espírito Santo ocorrem poucas vezes no Novo Testamento (Mt 3.11; Mc 1.8; Lc 3.16; Jo 1.33; At 1.5; 11.16; 1Co 12.13), embora diversas outras passagens aludam à esta mesma operação empregando termos diferentes. Algumas vezes a sentença parece indicar que o Espírito é o agente e a igreja é o meio com o qual os crentes são batizados (frases que dizem "batismo do Espírito") e outras a sentença parece mostrar que Cristo é o agente e o Espírito é o meio com o qual as pessoas são batizadas (frases que dizem "batismo com o Espírito"). Contudo, a sadia interpretação deve considerar o princípio da analogia da fé, pelo qual determinado ensino deve ser observado segundo a totalidade da revelação bíblica, e em virtude do qual uma passagem deve lançar luz hermenêutica sobre outra.

Assim, se observarmos todas as passagens que, de alguma maneira, mencionam o batismo no/com/pelo Espírito Santo, constataremos que se trata de uma mesma e única operação divina, que ocorre concomitantemente à regeneração. E três grandes razões nos levam a afirmar isso:

(I) O texto de 1Co 12.13 diz que todos os cristãos foram batizados. Considerando o fato de que na igreja de Corinto havia cristãos em pecado e de que, segundo o ensino pentecostal, uma pessoa, para receber o batismo, precisa santificar-se muito [1], somos levados a constatar que o batismo recebido pelos coríntios não foi o batismo especial e distinto da conversão preconizado pelos pentecostais. Antes, foi a obra de Deus que regenera seus eleitos, os converte e justifica.

(II) Não há, na Escritura inteira, uma só exortação para que os crentes (os que realmente foram salvos) busquem uma bênção posterior e adicional que, supostamente, os capacitaria para o testemunho. Devemos nos perguntar se uma operação paracletológica aparentemente tão importante como esta não deveria ser alvo de constantes (ou ao menos de um!) encorajamento apostólico para que os crentes a buscassem. Se o suposto "batismo pentecostal" fosse realmente algo tão importante e necessário, não deveríamos encontrar nas epístolas alguma exortação do tipo: "Vocês, que já creem, busquem com afinco receber esta outra bênção porque vocês precisam de poder para testemunhar do evangelho!"? Mas não encontramos. Na verdade, o principal texto-base sobre o qual o pentecostalismo se apoia na formulação desta doutrina (o de Atos 2) é um texto descritivo, reconhecidamente o tipo de texto a partir do qual NÃO DEVEMOS formular doutrinas.

(III) O texto de Ef 4.5, aparentemente e quase certamente se refere ao batismo do Espírito. Se isso for certo, temos então uma declaração explícita de que não existe um batismo posterior e distinto, afinal, "há um só Senhor, uma só fé e um só batismo".

Mas e quanto às diferenças nos termos? Às vezes a Bíblia fala em batismo com o Espírito e outras vezes em batismo pelo Espírito. A isso respondemos que, caso acepções rígidas de termos devam ser uma pauta interpretativa, então deveríamos considerar como substâncias distintas os termos "coração", "alma" e "entendimento" em Mateus 22.37; porém, sabemos que esses termos não indicam substâncias diferentes, antes, todos apontam para o aspecto interior do ser humano, sua mente e afeições. Segundo Charles C. Ryrie, é "mais provável que essa frase, usada de maneira pouco frequente e aparentemente técnica, em todas as ocorrências se referisse à mesma atividade [2]". Eu apenas retiraria o "provável" da afirmação de Ryrie para dizer que CERTAMENTE essa frase, em todas as suas ocorrências, se refere à mesma coisa. O literalismo na interpretação bíblica, com efeito, tem conduzido a graves distorções doutrinárias no pensamento cristão.

Portanto, vemos que o batismo no Espírito é uma bênção comum (1Co 12.13; Ef 4.5), gratuita (1Co 2.12; Ef 2.8,9) e definitiva (2Co 1.21,22; Ef 4.30). Ele posiciona o crente no corpo místico de Cristo e o capacita para o testemunho (At 1.8; 1Co 2.4), para a edificação da igreja (1Co 12.12-20; Ef 2.22) e, gradativamente, restaura no cristão a imagem de Deus para a sua glória (2Co 3.18; Ef 4.24; Cl 3.10).

Implicações da formulação pentecostal da doutrina

Além de a interpretação pentecostal acerca do batismo no Espírito ser essencialmente falha, ela traz algumas implicações perturbadoras para a doutrina cristã.

A primeira delas seria na eclesiologia. Afirmar que existem dois batismos diferentes, um deles comum a todos os crentes e outro reservado a quem o busca com todos os critérios - empíricos - da cartilha pentecostal é pontuar uma linha divisória na única operação divina que visa a união dos que creem em um só corpo. Tendo em mente a figura do Templo de Salomão, Paulo diz:

"Assim, pois, não sois mais estrangeiros, nem forasteiros, antes sois concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, sendo o próprio Cristo Jesus a principal pedra da esquina; no qual todo o edifício bem ajustado cresce para templo santo no Senhor, no qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus no Espírito" (Ef 2.19-22).

O batismo no Espírito é precisamente aquilo que nos une mutuamente como cristãos. Neste ponto, algum defensor do pentecostalismo poderia afirmar que sua doutrina não divide a igreja, pois um dos batismos coloca o crente neste corpo. Entretanto, na visão pentecostal, permanece o fato de que, neste corpo, alguns são receptáculos de uma bênção especial e posterior enquanto todos os outros, ou são carnais porque não estão buscando este batismo, ou são carnais porque o estão buscando mas não o receberam ainda por não estarem suficientemente santificados. E para piorar, os que já receberam este batismo, têm o poder para testemunhar de Cristo enquanto os outros não. Devemos ignorar que o único fundamento legítimo para o testemunho cristão é a ressurreição de nosso Senhor (1Co 15.14), e que, uma vez que quem está lendo este artigo não viu o Cristo ressurreto com os próprios olhos mas crê como se tivesse visto, não tem o poder necessário para evangelizar? Devemos estranhar o apóstolo Pedro dizendo aos seus destinatários que mesmo eles não havendo visto Cristo, eles o amavam e nele confiavam exultando com alegria indizível e cheia de glória (1Pe 1.8)? É certo que não! Mas de acordo com a perspectiva pentecostal eles ainda não receberam a "segunda bênção". Eles creem em Cristo e a ressurreição do Senhor deu novo significado às suas vidas. Mas eles ainda lhes falta algo; eles estão quase lá...!

A segunda implicação desta doutrina pentecostal se dá em uma perigosa afirmação da contemporaneidade dos dons revelatórios ou extraordinários do Espírito Santo. A doutrina pentecostal ensina que, juntamente com o batismo no Espírito, alguns dons são dados ao cristão. E também ensina que dentre esses dons bem podem estar aqueles de natureza revelatória, assim como exibidos pelos apóstolos. Eu deixarei a questão da contemporaneidade para outro artigo, mas aqui é preciso adiantar algo. Ou os dons revelatórios ainda existem e o cânon cristão não está fechado, ou nossa Bíblia está completa, a revelação especial de Deus a nós foi bem-sucedida e, assim, os dons revelatórios cessaram. As duas posições são concorrentes e não podem coexistir. Se Deus, pelo Espírito Santo, ainda fala com seu povo por novas palavras e revelações, então a Escritura não está fechada.

Certo dia, um continuísta, argumentando comigo, disse que as profecias ainda aconteciam, mas consistiam de exortações pessoais e particulares, e jamais traziam novas verdades religiosas ou doutrinais. Ele estava tentando preservar a suficiência da Escritura. Em resposta, eu disse a ele que não importava o conteúdo da profecia, mas o autor. Se é o próprio Deus quem está falando, então as palavras que estamos a ouvir são palavras de Deus. E se são palavras de Deus, então devemos acrescentá-las às nossas Bíblias, e segue-se que nossas Bíblias não estão prontas ainda.

Contudo, a Escritura parece mostrar o contrário. Entre inúmeros textos e uma teologia bem amarrada, eu destaco a passagem de 2Pe 1.3,4:

"Visto como o seu divino poder nos tem dado tudo o que diz respeito à vida e à piedade, pelo pleno conhecimento daquele que nos chamou por sua própria glória e virtude; pelas quais ele nos tem dado as suas preciosas e grandíssimas promessas, para que por elas vos torneis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que pela concupiscência há no mundo."

Portanto, uma vez que o testemunho de Jesus Cristo é dado pela Escritura (Jo 5.39), é justo dizer que ela é suficiente para a nossa vida e, por consequência, cessaram aqueles dons revelatórios amplamente necessários no primeiro século, quando o cânon cristão não estava ainda fechado.

Finalmente, uma terceira implicação da doutrina pentecostal dos dois batismos, e talvez a mais grave delas, é de natureza soteriológica. No exato momento em que preconizarmos a necessidade de uma segunda bênção, estamos afirmando a insuficiência da obra de nosso Senhor. Observe isto: a obra de Cristo foi determinada na eternidade (Ap 13.8). Na eternidade, Deus se agradou em glorificar seu nome decretando a salvação de alguns por causa dos seus pecados. Deus quis salvar pecadores de sua própria ira escatológica e foi isso que, soberanamente, ele fez, e o fez por meio de Cristo. Isso faz com que o sacrifício de Cristo e sua glória resultante seja nada menos que o CENTRO DA MENTE E DOS PROPÓSITOS ETERNOS DE DEUS! Pela obra expiatória de Cristo um eleito seria salvo. Ele seria salvo! Isso não é pouca coisa! A magnitude da obra de Cristo e a grandeza incontornável da consequência dessa obra para o pecador que foi salvo deveria nos fazer rejeitar qualquer ensino que pregue a necessidade de algo a mais para cristão. Um pecador que foi salvo e, assim, batizado no Espírito Santo, já recebeu tudo! Não há mais nada para ele pelo simples fato de que não há nada maior a ser recebido do que o perdão de Deus e sua amizade. Justamente por isso o apóstolo Paulo foi capaz de dizer aos efésios: "Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nas regiões celestes em Cristo" (Ef 1.3). Deus não apenas nos abençoou em Cristo, mas [já] abençoou com TODAS as bênçãos espirituais naquele que nos comprou para sermos seus.

Isso significa que não há uma "segunda bênção" a ser desejada pelo cristão. Que outra bênção ele poderia querer além da amizade com Deus? Dizer que fomos regenerados, mas precisamos de algo a mais é escarnecer da obra de Cristo, que foi toda suficiente. Nele recebemos todas as bênçãos espirituais. Não há outra a ser almejada.

Assim, podemos concluir que a doutrina pentecostal do batismo no Espírito como uma segunda bênção deve ser enfaticamente rejeitada. É certo que o pentecostalismo não fere nenhuma doutrina cardeal do cristianismo. É certo que há muitos pentecostais (entre os quais alguns são amigos meus) piedosos e verdadeiramente servos de Cristo. É também certo que o pentecostalismo está, gradativamente, gerando expoentes inteligentes, canais para a promoção de uma perspectiva mais saudável e cristocêntrica de sua fé [3]. Mesmo assim, a doutrina pentecostal dos dois batismos é deveras débil e, visto que trás implicações ruins para a teologia cristã, deve ser rechaçada.

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Notas
1. Bíblia de Estudo Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p. 1627
2. RYRIE, Charles C. Teologia Básica. São Paulo: Mundo Cristão, 2004. p. 422
3. Um destes expoentes, que alegremente menciono, é o Gutierres Fernandes Siqueira, do site Teologia Pentecostal.

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Fonte: Teologia Expressa
Divulgação: Bereianos
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Pentecostalismo, Neopentecostalismo e o Trabalho do Espírito Santo

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Por Pb. Solano Portela

Introdução

O pentecostalismo se fundamenta em alguns pontos essenciais básicos, tais como: (1) a identificação do mover do Espírito Santo de Deus; (2) a aceitação de uma categoria de crentes especialmente agraciada pela graça divina; e (3) a precedência da experiência sobre a revelação objetiva das Escrituras, para a formulação de doutrinas.

Nossa compreensão desses pontos, segundo um exame da Palavra de Deus, determina onde nos posicionamos no confuso quadro eclesiástico contemporâneo: se com a interpretação dada pelos símbolos da fé reformada (Confissão de Fé de Westminster e seus catecismos) ou com o evangelicalismo contemporâneo, cuja maior característica comum parece ser a aceitação da doutrina pentecostal cruzando linhas denominacionais.

O propósito deste artigo não é realizar, individualmente, um estudo sobre línguas, cura ou profecias, mas tratar os conceitos básicos do pentecostalismo e os seus reflexos na igreja local. A compreensão doutrinária dessas questões, pode determinar a ênfase da nossa mensagem; os nossos objetivos de vida como cristãos e até a prática litúrgica das igrejas.

1 - Um pouco de história

Do segundo século até o século dezenove, não existe evidência histórica de que os cristãos fiéis, de teologia ortodoxa falassem línguas estranhas, praticassem a “cura divina” em reuniões ou se guiassem por novas profecias. Todas essas coisas, entretanto, caracterizam o pentecostalismo e o chamado “movimento carismático” contemporâneo, incluindo o neopentecostalismo.

Essa busca pelo inusitado e pelo sobrenatural, fora das prescrições das Escrituras, na história da igreja, sempre foi característica de grupos considerados como heréticos, desde os seguidores de Montanus (montanistas), no segundo século até aqueles liderados por Edward Irving, no século 19 da era cristã.

A história do pentecostalismo moderno é normalmente classificada como tendo ocorrido em três ondas distintas:

a. A primeira onda – Pentecostalismo Clássico. Teve início em 1901, quando a sra. Agnes Ozman, nos Estados Unidos, disse ter recebido o batismo do Espírito Santo e falado línguas. A prática foi incorporada ao movimento Holiness. Um outro evento mais conhecido deu-se em 1906, quando se relatou o falar em línguas em uma igreja na rua Azusa (Azusa Street Mission), estado da Califórnia. Desses dois eventos procede a maioria das igrejas pentecostais históricas, como a Assembleia de Deus e a Igreja do Evangelho Quadrangular.
b. A segunda onda – Pentecostalismo recente ou Renovação Carismática. Semelhantemente ao movimento pentecostal anterior, enfatizou os “dons extraordinários”, com grande ênfase ao “dom de línguas”. A grande diferença é que as linhas denominacionais foram quebradas e a visão doutrinária pentecostal atingiu várias igrejas. O ano de 1960 marca o início desta onda, em uma igreja Episcopal da Califórnia, na qual se observou o falar em línguas. A própria imprensa secular deu destaque ao acontecimento. O movimento, nos Estados Unidos, se espalhou pelas universidades, entre organizações para-eclesiásticas, tais como a ABU. Além de atingir denominações tradicionais, como luteranos, presbiterianos e metodistas, penetrou nos católico-romanos, partindo da universidade de Notre Dame, formando o movimento dos “católicos carismáticos”, que perdura até hoje. A maior característica desse período foi a determinação dos persuadidos pelos ensinamentos pentecostais, a permanecerem nas denominações de origem, “renovando-as”.
c. A terceira onda – O movimento de sinais e maravilhas – o Neopentecostalismo. A designação “terceira onda” foi cunhada por Peter Wagner, em 1983, um dos proponentes do movimento de crescimento de igrejas. Ele escreveu que as duas primeiras ondas continuavam, mas agora o Espírito estaria vindo em uma “terceira onda” com sinais e maravilhas. Temos aqui, também, o surgimento do movimento Vineyard, que conseguiu adeptos e transformou-se em uma denominação, propagando o que ficou conhecido como “evangelismo do poder” (power evangelism) – o evangelho é propagado e demonstrado por sinais e maravilhas sobrenaturais. O dom de línguas, neste estágio, recebeu uma ênfase menor do que o de “profecias”, curas e realização de efeitos especiais e sobrenaturais – muitas vezes sem razão ou conexão aparente – tais como: quedas, risos, urros, dentes de ouro, etc.

No Brasil, essas “ondas” foram quase simultâneas. A Congregação Cristã foi a primeira igreja pentecostal estabelecida, em 1910, seguida da Assembleia de Deus, em 1911. Na década de 1960 tivemos o surgimento do movimento carismático e de renovação, em várias denominações, e, atualmente, vivemos a “terceira onda”, com o neopentecostalismo.

O pentecostalismo e seus derivados contemporâneos se coloca como uma posição doutrinária saudável que sabe identificar o “mover do Espírito Santo de Deus”. Será que essa identificação é bíblica? Será que a fé reformada está deixando de reconhecer o trabalho do Espírito Santo nos dias de hoje?

2 - Existe diferença entre Pentecostalismo e Neopentecostalismo?

O neopentecostalismo tem em comum com o pentecostalismo, a ênfase na experiência, e muitas das doutrinas relacionadas com os dons extraordinários (operação de milagres, falar em línguas, novas revelações). O neopentecostalismo, entretanto, é caracterizado por cruzar os limites das denominações pentecostais, formando novas denominações com peculiaridades mais intensas e penetrando nas demais denominações.

O grande ponto de dissociação, entretanto, entre o pentecostalismo e o neopentecostalismo se dá na compreensão da doutrina das Escrituras. A ênfase na experiência, do pentecostalismo, nunca chegou a soterrar totalmente a importância da Palavra e pontos de tensão foram resolvidos, em muitas ocasiões, com a primazia da própria Palavra. Nesse sentido, por exemplo, a insistência inicial na total ausência de estudo bíblico formal (seminários, institutos bíblicos), uma vez que a pregação viria “por revelação”, deu lugar à visão mais bíblica e mais sóbria, da necessidade do estudo e na aplicação ao aprendizado; as próprias “cruzadas de milagres”, populares na década de sessenta, no Brasil, foram suplantadas por estruturas denominacionais mais comprometidas com a evangelização aos segmentos mais esquecidos da sociedade, ao discipulado e à formação de um caráter cristão nos congregados. De “denominação de vanguarda” os pentecostais foram se revelando conservadores em inúmeras doutrinas e, em não raras ocasiões, exercitam a disciplina eclesiástica de forma coerente e bíblica.

O neopentecostalismo, entretanto, abraçou vários ensinamentos próprios – esses nem sempre com respaldo ou analogia bíblica. No neopentecostalismo, é básica a adesão ao espetacular e extraordinário, como sendo características inerentes ao próprio exercício da fé cristã, mas existem outras peculiaridades doutrinárias, tais como:

a. O culto à prosperidade e a busca ávida dessa, como norma de vida.
b. A operação de maravilhas que não têm valor intrínseco ou lógico em si (como o riso desenfreado, o cair pela passagem de um paletó, ou o aparecimento de dentes de ouro).
c. A necessidade de identificação das entidades demoníacas que controlam a vida e os afazeres de uma determinada localidade ou setor geográfico, como condição básica para se ganhar a batalha espiritual que resultará no crescimento da igreja.
d. A utilização de formas linguísticas e chavões que implicitamente possuiriam valor espiritual inerente, devendo ser utilizados de maneira declaratória, nos cultos e concentrações públicas, como parte desta batalha espiritual (“eu o amarro!”, “declaro esta cidade liberta!”, etc.), muitas vezes acompanhadas de orações pré-fabricadas, apresentadas como poderosas em si.
e. A identificação de doenças e problemas psicológicos como formas veladas de possessão demoníaca. Nessa visão, todo crente é conclamado a ver como fenômeno sobrenatural problemas que a Igreja sempre tratou como consequências naturais do pecado.

3- Como reconhecer o trabalho e o mover do Espírito Santo?

O trabalho do Espírito Santo segue diretrizes bíblicas claras e coerentes com as tarefas da Trindade e isso nos dá uma maneira de reconhecer o Espírito de Deus. O ponto chave, que encontramos na Palavra de Deus é que o trabalho do Espírito Santo é revelar o Filho.

Nesse sentido, temos várias declarações explícitas de Jesus Cristo. Em Jo 14.26 Jesus diz: “o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar tudo o que vos tenho dito”. A atividade aqui descrita do Espírito Santo é, portanto, ensinar e fazer lembrar as coisas que Jesus Cristo disse, isto é: testemunhar da pessoa e obra de Cristo.

Em Jo 16.14 lemos: “Ele me glorificará porque há de receber do que é meu, e vo-lo há de anunciar”. A glorificação é à pessoa de Cristo. A anunciação que o Espírito Santo faz é da obra e da mensagem de Cristo. Disso faz parte, também, o trabalho regenerador do Espírito Santo na conversão dos descrentes.

O Espírito Santo não trabalha, portanto, independentemente da obra de Cristo, como pregam todos aqueles que enfatizam o culto ao Espírito Santo e acabam por desviar os olhos dos fiéis da pessoa de Cristo. O Espírito Santo não vem como “uma segunda bênção”, nem vem realizar fenômenos sem sentido ou fora do contexto revelador de Cristo, tais como curas espetaculares, risos santos, quedas, urros, dentes de ouro ou quaisquer outras maravilhas glorificadoras dos homens que as realizam. Ele vem selar o trabalho de Cristo na vida do crente, abrindo-lhe o coração à conversão, batizando-o com a abençoada regeneração, fazendo morada no coração de todos os salvos, promovendo a comunhão cristã, edificando o Corpo de Cristo, iluminando o entendimento e operando o crescimento em santificação.

Semelhantemente às heresias do montanismo, do segundo século, muitas distorções contemporâneas são fruto de ideias de pessoas, querendo “melhorar” o que Deus estabeleceu em sua perfeição e em Sua Palavra. Assim fazendo, elas superenfatizam a terceira pessoa da Trindade, praticamente tornando a pessoa e o trabalho de Cristo secundários às ações do Espírito Santo.

Logicamente, queremos ter muito cuidado, pois nenhum crente deseja atribuir o poder do Espírito Santo em Jesus Cristo a demônios (Mc 3.22-30). Como reconhecer o trabalho do Espírito Santo de Deus? Três critérios nos auxiliarão:

(1) O fim principal do trabalho do Espírito é a glória de Deus. Cristo, cheio e liderado pelo próprio Espírito, assim especificou – Jo 4.34; 5.19; 5.30; 5.43; 6.38; 17.4. No que diz respeito aos demônios, estes procuram a auto-adoração e própria glorificação (Jo 4.24).
(2) A suprema autoridade do Espírito é a Palavra de Deus: Dt 29.29. Demonstrar mais estima e procura por “revelações ocultas” do que pela revelação bíblica, é um insulto ao Deus todo-poderoso, que nos criou em amor para que o adorássemos e o servíssemos.
(3) A mensagem principal do Espírito é o Evangelho de Deus (At 1.2 e 8).

4 - Existe uma hierarquia dos salvos?

O movimento pentecostal trouxe à cena evangélica o inusitado e o extraordinário como sendo não apenas parte da realidade existencial, histórica e religiosa da Igreja, mas como objeto de anelo e desejo na vida individual de cada crente. Os ensinamentos do pentecostalismo deixaram a expectativa de que sem estas experiências algo estaria a faltar na vida do cristão. Era necessário se atingir um patamar superior, obter-se uma segunda bênção, elevar-se acima do nível do crente comum. Gerou-se assim uma hierarquia de crentes: os batizados vs. os não-batizados pelo Espírito Santo, ou, utilizando uma outra terminologia: os recebedores vs. os “ainda-carentes-de-uma-segunda-bênção”.

A questão da cura divina, trazida pelo pentecostalismo, segue ao longo de linhas paralelas. Ela coloca os crentes em uma escala hierárquica, qualificando o seu cristianismo, fazendo uma divisão entre os que atingiram já um patamar de fé que é suficiente a torná-los recebedores de curas milagrosas vs. aqueles cuja fé é insuficiente ao recebimento destas bênçãos, que estariam reservadas aos mais aquinhoados espiritualmente.

O pentecostalismo, prega essa hierarquia dos salvos estranha à Palavra de Deus, tanto na questão do batismo pelo Espírito Santo, como na cura divina, como no “falar em línguas” – áreas às quais os fiéis são direcionados a procurarem como marca de uma espiritualidade genuína. Aqueles que não experimentaram tais experiências são levados a avaliar suas vidas como “fria” ou distanciada do “fogo” saudável do Espírito de Deus.

O movimento carismático e de renovação foi propagado como sendo uma reação sadia à ortodoxia morta das igrejas tradicionais. Inegavelmente, muito fervor real foi despertado no meio de denominações que estavam consideravelmente afastadas da Palavra de Deus e de suas confissões e credos originais. Muitas haviam abraçado ideias heréticas e humanistas do racionalismo teológico. Mesmo considerando a existência de uma guinada positiva em denominações liberais, pela promoção do estudo das esquecidas Escrituras, a procura pelas experiências, estendida a denominações fiéis à Palavra de Deus, teve efeito devastador. Divisões, polarizações, discussões infrutíferas, desprezo aos padrões confessionais, têm sido resultados comumente observados em igrejas atingidas pelo abraçar de doutrinas pentecostais.

A divisão das pessoas, encontrada na Palavra de Deus, com relação ao posicionamento perante o Criador, nos mostra que todos estão subdivididos em salvos ou perdidos; crentes ou incrédulos; os que receberam a fé como dom de Deus ou aqueles sem fé que se encontram no caminho da perdição. Os movimentos, dentro da Igreja, que acrescentam uma terceira categoria de pessoas, no que diz respeito ao status espiritual delas perante Deus: os sobrenaturalmente agraciados com um fenômeno fora do comum, que difere e está além do ato soberano de Deus da salvação, não encontra base bíblica e representa uma carga injusta lançada sobre os fiéis.

O apóstolo Paulo nos ensina, em 1 Co 12.13, que “em um só espírito todos nós fomos batizados”. Note que ele se refere: (1) genericamente, a todos os crentes – sem distinguir uma casta específica (todos nós); (2) no passado – todos nós, que cremos, fomos batizados; (3) esse batismo do espírito Santo caracteriza todos que formam “o corpo” – ou seja, a igreja de Cristo – ele não vem como uma “segunda bênção”. Isso está em harmonia com Ef 4.5 – que nos ensina que há “um só batismo” e Rm 8.9 – que diz: “se alguém não tem o Espírito de Cristo, este tal não é dele”. Todos os eleitos de Deus, como salvos, são chamados das trevas para a maravilhosa luz – essa é a divisão encontrada na Palavra de Deus. Não existe uma hierarquia dos salvos e, muito menos, salvos não batizados pelo Espírito Santo de Deus.

5 - O interesse pelos fenômenos sobrenaturais e a precedência dada à experiência

Existe um grande interesse na igreja contemporânea nas manifestações sobrenaturais. Na maioria das vezes esse interesse pelos fenômenos sobrenaturais não procede do sério estudo da palavra de Deus, mas de sentimentos carnais presentes na fraca visão do homem natural. Quando Jesus foi pressionado para que realizasse algum sinal sobrenatural fora do contexto e do propósito soberano de sua missão, apenas para atender o desejo pelo extraordinário, presente na multidão (Mt 12.39), Ele dá o seguinte direcionamento aos solicitantes:

a. primeiro, indica que devem examinar as suas vidas (chama os interlocutores de “geração má e adúltera”)
b. depois, manda que eles se dirijam às Escrituras, à história previamente revelada e escriturada, (devem considerar “o sinal do profeta Jonas”) para obtenção do conhecimento teológico e prático que diziam procurar.

O segmento pentecostal e neopentecostal, ao enfatizar um interesse primário pelas manifestações sobrenaturais, tira o foco da doutrina da providência divina no governo soberano de todas as atividades. Vemos a tendência, na realidade, de abraçar o misticismo característico das massas. A Igreja recebe, então, uma visão destorcida das prioridades de vida, que coloca as questões físicas do homem como alvo de maior preocupação, do que os problemas metafísicos existentes entre o homem pecador e o Deus Santo que o criou. além do físico, do visível, do palpável, do perceptível. Estamos utilizando o termo metafísico como descritivo do campo das questões eminentemente espirituais (como a salvação, o andar em justiça e santidade), em contrapartida às questões físicas (doenças, enfermidades) que, mesmo sendo importantes, estão hierarquicamente abaixo das anteriores (Mt 10.28).

Onde impera o ávido desejo pelo inusitado e pelo extraordinário, as Escrituras vão ficando para trás. Na Confissão de Fé de Westminster (Cap. 1) temos uma das formulações mais completas, detalhadas e fiel, sobre as doutrinas das Sagradas Escrituras. Ainda assim, encontramos pastores, oficiais e membros de igrejas que abraçam esta Confissão, ansiosos pela manifestação de fenômenos sobrenaturais, desejosos de diretrizes fornecidas por novas revelações, como se algo estivesse faltando à própria Palavra de Deus para a expressão plena de suas religiosidades.

Não devemos desejar um cristianismo racional no qual o sobrenatural é ignorado, nem gerar um ceticismo às atividades das hostes das trevas. Mas devemos procurar manter o sobrenatural dentro da perspectiva que a própria Palavra nos ensina. A maior ação sobrenatural de Deus é o milagre da salvação: seu Espírito regenerador, criando uma nova vida dentro de nós. O governo soberano de Deus, pelo qual ele cumpre os seus propósitos na história, é o grande alicerce de magnifica espiritualidade e sobrenaturalidade da nossa religião – por que desprezar esse conhecimento e essa convicção (Is 8.16-20)? Por que a busca pelo inusitado, pelas intervenções solicitadas ao nosso serviço e por nossas necessidades?

Na parábola do mendigo Lázaro, (Lc 16.19-31) o rico, após tomar pleno conhecimento das realidades espirituais, entre elas a do fogo eterno, da condenação e das tormentas, pede uma maravilha ao reino dos céus, representado na pessoa de Abraão. Ele quer um fenômeno extraordinário – gostaria que o mendigo Lázaro, agora com Abraão, fosse ressuscitado e pessoalmente voltasse à terra dando testemunho daquelas realidades espirituais aos seus cinco irmãos.

Na sua perspectiva, um depoimento advindo de uma manifestação tão espetacular certamente faria com que seus parentes acreditassem na mensagem da verdade. Abraão responde que eles têm as Escrituras (Moisés e os profetas) e se, com os corações endurecidos, não respondem ao claro e objetivo ensinamento delas, não será o grande fenômeno da ressurreição que gerará a credibilidade necessária à salvação.

Essas palavras eram também proféticas. Deus operou um fenômeno impossível às suas criaturas, ressuscitando Jesus Cristo ao terceiro dia, mas as pessoas submersas em seus pecados continuam a rejeitar a mensagem das Escrituras, mesmo após a ressurreição.

Por que a nossa geração deve retratar a própria atitude, condenada pela parábola – que os fenômenos extra-naturais é que conduzirão as pessoas à Cristo – quando ele próprio nos aponta para as Escrituras (Jo 5.39)? Por que desprezarmos o grande fenômeno, bíblico e historicamente comprovado, da ressurreição de Cristo, procurando manifestações duvidosas contemporâneas?

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Livros sugeridos:

Fé Cristã e Misticismo, Matos, Portela, Lopes, Campos.
Religião de Poder, Michael Horton.

Leituras bíblicas sugeridas:

• Lc 16.19-31 – O Rico e Lázaro. Os estudos das Escrituras está acima dos milagres.
• Jo 14.16-26 – O Filho envia o Espírito da Verdade. Jo 16.7-14 – O Espírito Santo não fala de si mesmo, mas revela o Filho.
• 1 Co 12.12-27 – Já fomos batizados em um só corpo.
• Ef 4.1-6 – Participamos de um só batismo.
• Is 8.16-20 – O grande sinal e maravilha: o Povo de Deus resgatado.
• Jo 5.36-47 – A grande importância do testemunho das Escrituras, acima da experiência.

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Fonte: Revista O Pensador Cristão - Edição de Ano IV – Nº 16 – Dez/03.
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Atos simbólicos do Espírito?

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Por Rev. Augustus Nicodemus Lopes


Não faz muito tempo Ana Paula Valadão provocou uma polêmica no meio evangélico ao se colocar de quatro no palco, durante um show em Anápolis, e começar a andar tentando imitar um leão. Enquanto isto, os membros da banda faziam gestos de “leão” ou de olhos fechados e mãos erguidas “abençoavam” a plateia, que gritava em delírio. O vídeo está no Youtube. Não quero voltar a este episódio, já tão batido, mas usá-lo como gancho para entender o quadro maior.

Isto de se imitar animais no palco sob a "unção" do Espírito Santo parece ter começado em 1995, na igreja do Aeroporto de Toronto, famosa por ter sido o berço da “bênção do riso santo”. Escrevi um artigo sobre isto em 1996. Naquele ano, um pastor chinês, líder das Igrejas chinesas cantonesas de Vancouver, Canadá, durante o período de ministração na Igreja do Aeroporto, começou a urrar como um leão. O pastor da Igreja, John Arnott, estava ausente do país, e foi chamado às pressas de volta, para resolver o problema. A liderança que havia ficado à frente da Igreja lhe disse que entendiam que o comportamento bizarro do pastor chinês era do Espírito Santo.

Arnott entrevistou o pastor chinês diante da congregação durante uma reunião, e para surpresa de todos, ele caiu sobre as mãos e os pés, e começou a rugir como um leão na plataforma, engatinhando de um lado para o outro, e gritando "Deixem ir meu povo, deixem ir meu povo!". Ao voltar ao normal, o pastor chinês explicou que durante anos seu povo tinha sido iludido pelo dragão, mas agora o leão de Judá haveria de libertá-los. A igreja irrompeu em gritos e aplausos de aprovação, e Arnott convenceu-se que aquilo vinha realmente do Espírito de Deus. Isto acabou provocando o desligamento desta igreja da sua denominação, a Vineyard Fellowship, que discordou que aquilo vinha de Deus. Mas, parece que a moda pegou.

A partir daí, os sons de animais passaram a fazer parte da "bênção de Toronto." Houve casos de pessoas rugindo como leão, cantando como galo, piando como a águia, mugindo como o boi, e gritando gritos de guerra como um guerreiro. Para Arnott, estes sons eram "profecias encenadas", em que Deus fala uma palavra profética à Igreja através de sons de animais. Arnott passou a admitir e a defender este comportamento como parte do avivamento em andamento na Igreja do Aeroporto.

Acredito que o argumento para “profecias encenadas” ou “atos proféticos” tão em voga hoje nos shows e cultos do movimento gospel e do pentecostalismo sincrético é que, no passado, Deus mandou seus servos transmitirem mensagens ao povo usando objetos e dramatizando a mensagem. Não é difícil achar exemplos disto no Antigo Testamento. Deus mandou que Jeremias atasse canzis (cangas) ao pescoço como símbolo do cativeiro do povo de Israel (Jer 27:2); mandou que comprasse um cinto de linho e o enterrasse às margens do Eufrates até que apodrecesse, como símbolo também da futura deportação dos judeus para a Babilônia (Jer 13:1-11); determinou que ele comprasse uma botija de barro e quebrasse na presença do povo, para simbolizar a mesma coisa (Jer 19:1-11). O Senhor mandou que Isaías andasse nú e descalço por três anos, como símbolo do castigo de Deus contra o Egito e a Etiópia (Is 20:3-4). Há outros exemplos de profetas que poderiam ser citados.

No Novo Testamento, o único exemplo de um profeta falando a Palavra de Deus e ilustrando-a com um ato simbólico é o do profeta Ágabo, que usando um cinto, amarrou seus próprios pés e mãos para simbolizar a prisão de Paulo (At 21:10-11).

Ao tentarmos entender a “teologia” dos atos proféticos da Bíblia percebemos alguns traços comuns a todas as ocorrências.

  • Elas foram determinadas a profetas de Deus, como Isaías e Jeremias, os quais foram levantados por Deus para profetizar sobre o futuro da nação de Israel e a vinda do Messias. Ou seja, tais atos tinham a ver com a história da salvação, o registro dos atos salvadores de Deus na história.
  • Estes atos simbólicos ilustravam revelações diretas de Deus para o seu povo através dos profetas. No caso de Ágabo, tratava-se de uma revelação sobre a vida do apóstolo Paulo, homem inspirado por Deus, que o Senhor haveria de usar para escrever a maior parte do Novo Testamento. Portanto, a mensagem de todos aqueles atos proféticos se cumpriu literalmente, como os profetas disseram que haveria de acontecer.
  • Sem revelação direta, infalível e inerrante da parte de Deus, não há atos simbólicos. Eles eram ilustrações destas revelações. Uma vez que não temos mais profetas e apóstolos, que eram os canais destas revelações infalíveis, não temos mais estes atos proféticos que acompanhavam ocasionalmente tais revelações.
  • Nesta compreensão vai o autor de Hebreus, que relega ao passado aqueles modos de Deus falar ao seu povo. Agora, Deus nos fala pela sua dramatização maior e suprema, a encarnação em Jesus Cristo (Hb 1:1-3).
  • Tanto assim, que os únicos atos simbólicos que o Senhor Jesus determinou ao seu povo, e cuja mensagem é fixa e imutável, foi que batizassem os discípulos com água e comessem pão e bebessem vinho em memória dele. Tais atos ilustram e simbolizam nossa união com o Salvador. Fora disto, não encontramos qualquer outra recomendação do uso de atos simbólicos para transmitir a mensagem do Senhor.

Portanto, para mim, estes “atos proféticos” atuais e profecias encenadas nada mais são que uma tentativa inútil – para não ser crítico demais - de imitar os profetas e apóstolos, na mesma linha destes que hoje reivindicam, em vão, serem capazes de fazer a mesma coisa que aqueles fizeram.

Após Deus ter se revelado em Jesus Cristo, ter estado entre nós e transmitido ao vivo a sua Palavra, após os apóstolos terem registrado esta mensagem de maneira infalível e suficiente nas Escrituras, pergunto qual a necessidade de profecias encenadas e atos simbólicos para que Deus nos fale através deles. Se alguém não entende a fala de Deus registrada claramente na Bíblia vai entender através do simbolismo ambíguo de gestos e encenações de gente que alega falar no nome dele? Sola Scriptura!

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Fonte: O Tempora! O Mores!
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Louvor e teologia: uma união inseparável

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Por Fabio Correia


1 - Quando cantamos cânticos de louvor e adoração a Deus, qual nossa intenção? Reconhecemos seus atributos, sua divindade; dizemos o quanto Ele é grande e majestoso. Em fim, o que queremos, em última análise, AGRADAR a DEUS. Agradar a Deus: esse é o objetivo do louvor.

2 - Conseguiremos agradar a Deus dizendo ou cantando coisas que são contrárias ao que Ele diz sobre Si mesmo, sobre o homem e sobre o mundo, nas Escrituras?

3 - Há pelo menos três grandes cosmovisões acerca do entendimento sobre Deus, sobre o homem e sobre o mundo, que influenciará, necessariamente, no que se dirá a Deus nos louvores, sempre com a intenção de AGRADÁ-LO. São elas: a) Calvinismo; b) Arminianismo; c) Pentecostalismo e suas variantes neopentecostais.

4 - Esses pressupostos teológicos se contradizem em muitos pontos. Ou seja, não existe possibilidade lógica de todos eles estarem certos, ao mesmo tempo, em determinados assuntos, pois são opiniões autoexcludentes. Por exemplo: o arminiano diz que o homem tem livre-arbítrio. O Calvinismo diz que o homem não tem mais livre-arbítrio. O pentecostal, que é arminiano por natureza, acredita em novas revelações, sonhos, dons de línguas, etc, os calvinistas e arminianos tradicionais, não.

5 - Então, como Calvinistas, Arminianos e Pentecostais podem AGRADAR a Deus com seus louvores? Dizendo ou cantando aquilo que consideram correto acerca de Deus, do mundo e do homem. Ora, se o arminiano entende que a doutrina da eleição é errada, como poderá cantar louvores que ensinam essa doutrina? Se o calvinista entende que a doutrina do livre-arbítrio é errada, como poderá cantar louvores que tenham essa conotação? Se tanto arminianos tradicionais quanto calvinistas entendem que os dons revelacionais cessaram, como poderão cantar louvores que falam e sugerem a existência de novas revelações?

6 - Não existe neutralidade em louvores ou afirmações religiosas. Necessariamente elas estarão defendendo uma dessas três grandes cosmovisões, em suas características peculiares;

7 - Cantar louvores é cantar doutrina, inevitavelmente, como sugeria Lutero.

8 - Se o objetivo do louvor congregacional é AGRADAR a Deus, sua igreja só pode cantar aquilo que, no entendimento dela, representa a interpretação correta do que Deus disse acerca de Si mesmo, do homem e do mundo;

9 - Todos que são diretamente ligados ao louvor da igreja, especialmente os líderes, devem conhecer, de forma muito clara, qual é o entendimento doutrinário da sua igreja, sob pena de estar levando a congregação a cantar coisas que DESAGRADAM a Deus, do ponto de vista da cosmovisão doutrinária assumida por esta igreja. Por isso, os responsáveis pelo louvor no VT eram, via de regra, sacerdotes; portanto, conhecedores do entendimento doutrinário.

10 - Igrejas Calvinistas não devem cantar louvores com ensinamentos Arminianos. Igrejas Arminianas não devem cantar louvores com ensinamentos Calvinstas. Igrejas Calvinistas e Arminianas tradicionais não devem cantar louvores com ensinamentos Pentecostais. Igrejas pentecostais não devem cantar louvores com ensinamentos calvinistas e/ou tradicionais.

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Fonte: Filosofia Calvinista
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Por que não há mais apóstolos hoje?

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Por Rev. Augustus Nicodemus Lopes


Em sua polêmica contra os escribas e fariseus, Jesus de certa feita se referiu a seus apóstolos como aqueles que, à semelhança dos profetas, sábios e escribas enviados por Deus ao antigo Israel, seriam igualmente enviados, rejeitados, perseguidos e mortos (Lc 11.49 com Mt 23.34). Desta forma, ele estabelece o paralelo entre os apóstolos e os profetas como enviados de Deus ao seu povo.

Tem sido observado que os sucessores dos profetas do Antigo Testamento, como Isaias, Jeremias, Ezequiel, Daniel e Amós, por exemplo, não foram os profetas do Novo Testamento, que tinham ministério nas igrejas locais, mas os apóstolos de Jesus Cristo, mais especificamente os doze e Paulo.[1]

Conforme já vimos acima, os profetas foram diretamente vocacionados e chamados por Deus (cf. Is 6.1-9; Jr 1.4-10; Ez 2.1-7; Am 7.14-15). A palavra mais usada para “profeta” no Antigo Testamento  (nabi), que transmite o conceito de alguém que fala por outro, como “sua boca” (Ex 4.16; 7.1; cf. ainda Dt 18.14-22). O profeta era, então, primariamente, alguém que falava da parte de Deus, inspirado e orientado por ele. Os profetas falaram ousadamente da parte dele sua mensagem ao povo de Israel (Lc 1.70; Hb 1.1-2). Parte destas profecias veio a ser escrita e registrada no Antigo Testamento, que é chamado por Paulo de “escrituras proféticas” (Rm 16.26, cf. ainda 2Pe 1.21; 2Tm 3.16).[2] Notemos que a mensagem dos profetas não consistia apenas da predição de eventos futuros relacionados com a ação de Deus na história, os quais se cumpriram infalivelmente (Dt 18.20-22; cf. 1Rs 13.3,5; 2Rs 23.15-16). A mensagem deles consistia, em grande parte, na exposição desses eventos e sua aplicação aos seus dias. Os profetas introduziam suas palavras com as fórmulas “assim diz o Senhor” e “veio a mim a Palavra do Senhor dizendo,” o que identificava sua mensagem como inspirada e infalível. Como tal, deveria ser recebida pelo povo de Deus como a própria palavra do Senhor.

A literatura intertestamentária produzida pelos judeus nos séculos depois de Malaquias considerava que o ministério desses profetas encerrou-se com Malaquias.[3] Da mesma forma, os escritores do Novo Testamento se referem aos profetas antigos como um grupo fechado e definido (cf. Mt 23.29-31; Mc 8.28; etc.). A pergunta é: através de quem Deus continuou a se revelar? Quem foram os sucessores dos profetas do Antigo Testamento como receptores e transmissores da Palavra de Deus? Resta pouca dúvida de que foram os doze apóstolos e o apóstolo Paulo, e não os profetas cristãos das igrejas locais, como aqueles que haviam em Jerusalém, Antioquia e Corinto, por exemplo (At 11.27; 13.1; 1Co 14.29). Ao contrário do que ocorria no Antigo Testamento, profetizar, na igreja cristã nascente, era um dom que todos os cristãos poderiam exercer no culto, desde que seguindo uma determinada ordem (1Co 12.10; 14.29-32). E, diferentemente dos grandes profetas de Israel, as palavras dos profetas cristãos tinham de ser julgadas pelos demais (1Co 14.29) e eles estavam debaixo da autoridade apostólica (1Co 14.37).

Em contraste com os profetas cristãos, os apóstolos  do Novo Testamento, isto é, os doze e Paulo, receberam uma chamada específica de Jesus Cristo, receberam revelações diretas da parte de Deus, como os antigos profetas (At 5.19-20; 10.9-16; 23.11; 27.23; 2Co 12.1), e assim predisseram futuros eventos relacionados com a história da salvação, entre os quais a segunda vinda do Senhor, a ressurreição dos mortos e o juízo final – isso não quer dizer que sua chamada se deu porque tinham o “dom” de apóstolo. (1Co 15.51-52; 2Ts 2.1-12; 2Pe 3.10-13).[4] Lembremos que o livro de Apocalipse é uma profecia (ver Ap 1.3; 22.18-19) escrita por um apóstolo.[5] Ao contrário dos profetas cristãos das igrejas locais, que não deixaram nada escrito, os apóstolos foram inspirados para escrever o Novo Testamento (1Ts 2.13; 2Pe 3.16) e a palavra deles deveria ser recebida, à semelhança dos profetas antigos, como Palavra de Deus, sem questionamentos, ao contrários dos profetas das igrejas locais (Gl 1.8-9; 1Co 14.37). Os autores neotestamentários que não foram apóstolos, como Marcos, Lucas, Tiago e Judas eram, todavia, parte do círculo apostólico e associados aos apóstolos, escrevendo a partir do testemunho deles.[6]

Como sucessores dos profetas de Israel e canais da revelação, os apóstolos aparecem juntos com eles na base da igreja. Nas palavras de Jesus, “Enviar-lhes-ei profetas e apóstolos, e a alguns deles matarão e a outros perseguirão” (Lc 11.49). Paulo junta os dois grupos duas vezes na carta aos Efésios como aqueles designados por Deus para lançar as bases da igreja; “edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas” (Ef 2.20); “o qual, em outras gerações, não foi dado a conhecer aos filhos dos homens, como, agora, foi revelado aos seus santos apóstolos e profetas, no Espírito” (Ef 3.5). Muitos estudiosos entendem que os “profetas” mencionados nestas duas passagens de Efésios são profetas das igrejas neotestamentárias, que vieram depois dos apóstolos. Todavia, mesmo estando numa sequência temporal invertida, “profetas” se entende melhor como os grandes profetas de Israel, que vieram antes dos apóstolos. A sequência “apóstolos e profetas” não precisa ser entendida como uma sequência temporal. Os apóstolos são mencionados primeiro por estarem no foco do contexto.[7]

Em sua segunda carta, Pedro admoesta seus leitores a se recordarem tanto das palavras que foram ditas pelos “santos profetas” como do mandamento ensinado por “vossos apóstolos” (2Pe 3.2). Alguns entendem que “vossos apóstolos” aqui é uma referência aos missionários pioneiros que haviam fundado as igrejas às quais Pedro escreve. Contudo, a carta de Pedro não foi destinada a igrejas locais específicas e sim aos cristãos em geral (cf. 2Pe 1.1). O único grupo de “apóstolos” que se encaixaria como “vossos apóstolos” seriam os doze, que eram apóstolos para todas as igrejas.[8] A carta de Judas, cuja similaridade com a segunda carta de Pedro tem levado estudiosos a acreditarem numa dependência literária entre elas,[9] ao se referir aos apóstolos neste mesmo contexto, designa-os como “os apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo,” numa clara referência ao grupo dos doze (Jd 17).[10] Estas passagens refletem a consciência de que os apóstolos de Jesus Cristo foram os continuadores dos profetas do Antigo Testamento como canais pelos quais Deus revelou sua vontade.[11]

Uma vez que a revelação de Deus quanto ao plano da salvação foi totalmente escrita e registrada de maneira final, completa e infalível pelos apóstolos, no Novo Testamento, completando assim a revelação dada através dos profetas de Israel no Antigo Testamento, encerrou-se o ministério de ambos os grupos.

Já que os apóstolos foram os sucessores dos profetas do Antigo Testamento, não há, pois, hoje, possibilidade de haver apóstolos como os doze e Paulo, pois eles foram recipientes e transmissores da revelação final de Deus para seu povo, que se encontra registrada no Novo Testamento.

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Notas:
[1] Cf. Heber Carlos de Campos, “Profecia Ontem e Hoje” em Misticismo e Fé Cristã (São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2013), pp. 63-126; Christiaan J. Beker, Paul the Apostle - The Triumph of God in Life and Thought (Philadelphia: Fortress Press, 1980), p. 113.
[2] Alguns estudiosos, como E. E. Ellis, sugerem que “escrituras proféticas” é uma alusão de Paulo a escrituras que haviam sido produzidas por profetas neotestamentários, escritos estes que haviam circulado pelas igrejas, mas nunca foram preservados (E. Earle Ellis, The Old Testament in Early Christianity em WUNT, 54 [Tübingen: Mohr/Siebeck, 1991], 4-5; E. Earle Ellis, Pauline Theology: Ministry and Society [Grand Rapids: Eerdmans; Exeter: Paternoster Press, 1989], 138 n. 79). Todavia, Cranfield corretamente considera esta interpretação de Ellis como “desesperada” (C. E. B. Cranfield, A Critical and Exegetical Commentary on the Epistle to the Romans, 2 vols, em International Critical Commentary [Edinburgh: T. & T. Clark, 1979], 2:811, n.8).
[3] “Desde que os últimos profetas Ageu, Zacarias e Malaquias morreram, o Espirito Santo cessou em Israel” (T. Sota, 13, 2). Cf. πνε?μα no TDNT.
[4] O livro de Atos registra duas ocasiões em que Ágabo, um profeta de Jerusalém, anunciou acontecimentos futuros, relacionados com uma fome que veio a acontecer nos dias do imperador Cláudio (At 11.27-30) e com a prisão de Paulo em Jerusalém (At 21.10-11). O fato de que somente estes dois casos de profecias predictivas (e feitas por um único profeta) estão registrados pode indicar que a previsão do futuro não era comum fora do círculo apostólico, especialmente ainda se considerarmos que ambas as profecias de Ágabo estavam relacionadas com o ministério de Paulo. White tenta colocar estas profecias de Ágabo no mesmo nível daquelas revelações fundacionais que foram dadas aos apóstolos (Ef 3.5; cf. R. Fowler White, "Gaffin and Grudem on Eph 2:20: In Defense of Gaffin's Cessationist Exegesis," em Westminster Theological Seminary, 54 [1992], 309-310), mas é evidente que elas estavam relacionadas com a vida pessoal do apóstolo Paulo, tanto sua em ida a Jerusalém levando ajuda para os crentes da Judeia, como em sua posterior prisão naquela cidade.
[5] Assumimos aqui que foi o apóstolo João quem escreveu o livro de Apocalipse.
[6] Marcos escreveu a partir do testemunho de Pedro. Lucas foi companheiro de Paulo. Tiago era o irmão de Jesus, líder da igreja de Jerusalém e próximo do círculo (Gl 1.19). Judas era outro irmão de Jesus e também relacionado com o círculo apostólico. Lembremos por fim que Hebreus entrou no cânon porque sua autoria era atribuída ao apóstolo Paulo, como até hoje é defendido por vários estudiosos.
[7] Que Ef 3.5 se refere aos profetas do Antigo Testamento é também defendido por F. Mussner, Christus, das All und die Kirche: Studien zur Theologie der Epheserbriefes (Trierer: Paulinus, 1955), 108. Deve-se admitir, contudo, que grande parte dos comentaristas pensa que Paulo está se referindo aos profetas neotestamentários, como Andrew T. Lincoln, por exemplo. (Ephesians em Word Biblical Commentary, vol. 42, eds. D. Hubbard, et al. [Dallas, TX: Word Books, 1990], 153. Tanto Gaffin (Richard B. Gaffin, Jr. Perspectives on Pentecost: New Testament Teaching on the Gifts of the Holy Spirit [Grand Rapids: Baker, 1979], 93) quanto Grudem (Wayne Grudem, The Gift of Prophecy in 1 Corinthians [Washington: University Press of America, 1982], 47) entendem que “profetas” em Efésios 2.20 se refere aos do Novo Testamento, mas eles fazem esta defesa no contexto do debate cessacionismo-continuismo. Um dos principais argumentos contra o entendimento de que Paulo aqui se refere aos profetas do Antigo Testamento é a ordem “apóstolos e profetas,” o que tornaria isto cronologicamente impossível. Entretanto, a menção que Paulo faz dos profetas do Antigo Testamento, depois de Jesus em 1Ts 2.15, “os quais não somente mataram o Senhor Jesus e os profetas, como também nos perseguiram” certamente inverte a sequência histórica dos eventos e mostra que Paulo nem sempre está preocupado com a cronologia, como estudiosos modernos estão. Cf. F. F Bruce, 1 & 2 Thessalonians, WBC, vol. 45, eds. D. Hubbard, et al. (Dallas, TX: Word Books, 1982), 47; Robert Jamieson, A. R. Fausset, e David Brown, Commentary Critical and Explanatory on the Whole Bible (Oak Harbor, WA: Logos Research Systems, Inc., 1997).
[8] Cf. A. T. Robertson, Word Pictures in the New Testament (Nashville, TN: Broadman Press, 1933) in loco; D. A. Carson, R. T. France, J. A. Motyer, e G. J. Wenham, orgs. New Bible commentary: 21st century edition. 4th ed. (Leicester, England; Downers Grove, IL: Inter-Varsity Press, 1994) in loco.
[9] Veja Augustus Lopes, II e III de João e Judas (São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã, 2009).
[10] Cf. Jamieson, Commentary, in loco.
[11] É preciso observer que a declaração de Jesus de que “todos os Profetas e a Lei profetizaram até João” (Mt 11.13) significa o encerramento do ministério dos profetas do Antigo Testamento, mas não o término da revelação que começou a ser dada através deles. Os apóstolos do Novo Testamento – e não os profetas do Novo Testamento – foram os canais pelos quais esta revelação continuou a ser dada. É neste sentido que os consideramos como sucessores dos profetas de Israel.

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Fonte: Trecho do livro “Apóstolos”, futuro lançamento da Editora Fiel.
Via: Ministério Fiel
Imagem: Valentin de Boulogne (ca 1594-1632), Saint Paul Writing His Epistles (c. 1618-20), oil on canvas, 39-1/8 x 52-3/8", Blaffer Foundation Collection, Museum of Fine Arts, Houston, TX. Adaptada ao blog Bereianos.
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Doze verdades sobre os falsos apóstolos

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Por Rev. Antônio dos Passos Pereira


Em recente pesquisa sobre o movimento apostólico no Brasil, o Rev. Augustus Nicodemus Lopes[1] afirmou que já existem mais de 12 mil apóstolos no país, reconhecidos nas últimas duas décadas. A grande questão é se os tais, de fato, são apóstolos nos termos apresentados pela Palavra de Deus. As Escrituras Sagradas, como nossa única fonte de autoridade dada à Igreja pelo próprio Deus, deve ser o instrumento por meio do qual podemos discernir o que é falso e verdadeiro. Somos, portanto, impelidos pelo Espírito Santo a mantermos nossas interpretações sempre submissas à Verdade de Deus, deixando que a própria Bíblia verse sobre o assunto, nos atendo apenas à exposição fiel daquilo que o Senhor revelou pelos seus santos profetas e apóstolos.