1ª Semana Teológica de 2015 - JMC

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Aconteceu nos dias 18 a 22 de maio, na Igreja Presbiteriana Ebenézer em São Paulo, a 1ª Semana Teológica de 2015 do Seminário Teológico Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição, com o tema "O Evangelho e a Transformação Integral". Confira todas as palestras ministradas:


Palestra 1: A Justiça Social à luz da Escritura Sagrada - Rev. Gildásio Reis.



Palestra 2: Introdução à Ética Social de João Calvino - Rev. Hermisten M.P. Costa.



Palestra 3: Calvino e a Responsabilidade Transformadora do Cristão e dos Governantes na Esfera da Política. - Pb. Solano Portela.



Palestra 4: Abraham Kuyper e a Transformação Social - Rev. Heber Campos Jr.




Palestra 5: A Teologia da Missão Integral: Uma Reflexão Crítica à Luz da Teologia Reformada - Rev. Filipe Fontes.


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Fonte: Seminário JMC
Divulgação: Bereianos
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Comentário de Gênesis 1:1-2

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Por João Calvino


No princípio criou Deus os céus e a terra. E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.

No princípio.
Interpretar o termo “princípio” relacionando-o a Cristo não nos é de maneira alguma útil, pois Moisés, neste ponto, simplesmente pretende afirmar que o mundo não havia sido aperfeiçoado em seus primórdios do modo como agora vemos, mas que foi criado um caos vazio de céus e terra. A linguagem mosaica deve, portanto, ser explicada. Quando Deus, no princípio, criou os céus e a terra, a terra era sem forma e vazia.[1] Ele, ademais, nos ensina mediante o termo “criada” que aquilo que antes não existia foi agora feito; ora, ele não utilizou a palavra יָצַר (yatsar), que significa moldar ou formar, mas sim בָּרָ֣א (bara’), que significa criar.[2] Consequentemente, sua intenção é dizer que o mundo foi feito a partir do nada. Logo, refuta-se, assim, a insensatez daqueles que imaginam que existia, desde a eternidade, uma matéria informe, bem como daqueles que nada absorvem da narrativa de Moisés a não ser que o mundo foi provido de novos ornamentos e recebeu uma forma da qual antes se encontrava destituído.


De fato, tal ideia era, em tempos antigos, uma fábula comum entre os pagãos,[3] que tinham recebido apenas uma descrição obscura da criação, e que, segundo o hábito, adulteraram a verdade de Deus em invencionices esdrúxulas. Todavia, para os cristãos, laborar (como o faz Steuchus)[4] para manter esse erro grosseiro é absurdo e intolerável. Assim, tenhamos em mente primeiramente o seguinte ponto: o mundo não é eterno, mas foi criado por Deus. Não há dúvida que Moisés dá o nome de céus e terra àquela massa desordenada que ele, logo em seguida (Gênesis 1:2), denominada “águas”. A razão disso é que tal matéria estava para ser a semente de todo o mundo. Além disso, essa é a divisão do mundo generalizadamente reconhecida.[5]  

Deus. Moisés utiliza o termo Elohim, um substantivo no plural, donde se faz a inferência de que as três Pessoas da Divindade são aqui percebidas; contudo, como evidência de um assunto assim tão grandioso [A Trindade], não me parece apresentar muita solidez, de modo que não insistirei nesse termo. Porém, que isso nos sirva de alerta, de modo que tenhamos todo cuidado com miragens bruscas desse tipo.[6] Alguns pensam que o termo em pauta constitui um testemunho contra os arianos, uma prova da Deidade do Filho e do Espírito Santo; contudo, ao mesmo tempo, eles se envolvem no erro de Sabélio,[7] porque Moisés subsequentemente ajunta que Elohim tinha dito e que o Espírito de Elohim se movia sobre as águas. 

Caso venhamos a supor que as três Pessoas estão aqui denotadas, então não haverá distinção entre elas, pois se concluiria que tanto o Filho é gerado por Si mesmo e que o Espírito não é do Pai, mas de Si mesmo. Para mim, é suficiente entender que o número plural do substantivo expressa aqueles poderes que Deus exerceu ao criar o mundo. Ademais, reconheço que a Escritura, embora liste vários poderes da Divindade, todavia, sempre nos traz à memória o Pai, a Sua Palavra e o Espírito, como veremos em breve. Porém, aquelas absurdidades às quais aludi nos proíbem com sutileza de distorcer aquilo que Moisés simplesmente declara com relação ao próprio Deus, aplicando separadamente às Pessoas da Divindade. Isto, contudo, percebo como estando além de quaisquer controvérsias, que da circunstância peculiar dessa passagem, inscreve-se aqui um título atribuído a Deus, que expressa aqueles poderes que estavam anteriormente incluídos de certa forma em Sua essência eterna.[8]   

E a terra era sem forma e vazia. Não seria demasiadamente solícito com relação à interpretação destes dois epítetos תֹ֙הוּ֙ (tohu) e בֹ֔הוּ (bohu). Os hebreus os utilizavam para designar aquilo que era vazio e confuso, ou vão, ou destituído de qualquer valor. Indubitavelmente, Moisés colocou ambos em oposição a todos aqueles objetos criados que pertencem à forma, ao ornamento e à perfeição do mundo. Tendo nós excluído da terra tudo aquilo que Deus acrescentou posteriormente ao tempo aqui aludido, então teremos um caos bruto e ainda não trabalhado, ou, antes, um caos amorfo. Consequentemente, entendo aquilo que Moisés acrescenta logo em seguida, isto é, que “havia trevas sobre a face do abismo”, como uma parte daquele vazio desordenado: porque a luz começou a dar alguma aparência externa ao mundo. Por algum motivo, o autor chama isso de abismo e águas, uma vez que naquele amontoado de matéria, nada era sólido ou estável, e nada se podia distinguir. 

E o Espírito de Deus. Os intérpretes já lutaram com essa passagem de várias maneiras. A opinião defendida por alguns, de que essa expressão se refere ao vento é demasiadamente frígida para exigir de nós uma refutação. Aqueles que por ela entendem o Espírito de Deus estão corretos, todavia, não contemplam o sentido pretendido por Moisés em conexão com todo seu discurso; logo, surgem várias interpretações do particípio merachepeth. Em primeiro lugar, expressarei o que, segundo meu entendimento, Moisés pretendia com isso. Já ouvimos que, antes de Deus aperfeiçoar o mundo, este era um amontoado não organizado; porém, Moisés agora ensina que o poder do Espírito foi necessário para sustentá-lo. Pois, afinal, tal dúvida pode nos assolar a mente: como um amontoado desordenado poderia subsistir, uma vez que agora vemos o mundo preservado pelo governo ou ordem. 

Portanto, Moisés afirma que esse amontoado, embora confuso, foi tornado estável naquele momento pela eficácia secreta do Espírito. Ora, há dois sentidos possíveis para a palavra hebraica que se encaixam aqui: o Espírito Se movia e Se agitava sobre as águas a fim de produzir robustez; ou o Espírito chocava tais águas a fim de acalentá-las. Dado que pouca diferença faz ao fim e ao cabo a escolha por qualquer uma dessas explicações, deixemos livre o juízo do leitor. Mas se tal caos exigiu a secreta inspiração de Deus para prevenir sua célere dissolução, como poderia a presente ordem, tão clara e distinta, subsistir por si mesma, a não ser que derivasse sua força de outro lugar? Portanto, que se cumpra a Escritura: “Envias o teu Espírito, eles são criados, e, assim, renovas a face da terra” (Sl 104:30), por outro lado, tão logo o SENHOR retira Seu Espírito, todas as coisas retornam ao pó e se desvanecem (Sl 104:29). 

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Notas:
[1] Na tradução francesa : « La terre estoit vuide, et sans forme, et ne servoit a rien » –— “A terra era vazia, e sem forma, e sem utilidade alguma”.
[2] O termo possui um duplo sentido – 1 Criar a partir do nada, como se prova mediante a presente passagem – “No princípio”, uma vez que nada havia sido feito antes deles [do céu e da terra]. 2 Produzir algo excepcional a partir de uma matéria preexistente, tal como é dito posteriormente que Ele [Deus] criou os grandes animais marinhos [provavelmente as baleias](Gn 1:21) e o homem – Conferir Fagius, Drusius e Estius, na Sinopse de Poole.
[3] Inter profanos homines (no original latim) – Entre homens profanos.
[4] Steuchus Augustinis foi o autor de uma obra chamada De Perennie Philosophia, Lugfd., 1540, e é provavelmente o autor a quem Calvino se refere. A obra, todavia, é bem rara e provavelmente de muito pouco valor.
[5] A saber, em céus e terra.
[6] Neste ponto específico, o pensamento de Calvino evidencia o candor de sua mente e sua determinação em aderir estritamente àquilo que ele concebe ser o sentido das Sagradas Escrituras, independentemente da relação que possa ter com as doutrinas que ele sustém. Todavia, talvez seja justo direcionar o leitor que deseja examinar com profundidade o sentido da palavra אֱלֹהִ֑ים (Elohim) que se encontra no plural (e que é objeto de tantas controvérsias) e que traduzimos por Deus a algumas fontes de informação, a partir das quais ele, o leitor, pode formar seu próprio juízo a respeito do termo. Cocceius argumenta que o mistério da Trindade na Unidade está contido nessa palavra; vários outros escritores de reputação também adotam essa opinião. Outros, por sua vez, argumentam que, embora não seja dada nenhuma sugestão da Trindade na Unidade, ainda assim a noção de pluralidade das Pessoas está claramente implícita no termo. Para um relatório completo de todos os argumentos a favor dessa hipótese, pode-se consultar a obra do Dr. John Pye Smith acerca do testemunho escriturístico do Messias – uma obra de profunda erudição que se destaca pela dedicação paciente e pela análise que se desdobra de maneira sutil e reflexiva. Deve-se observar, contudo, que esse autor imparcial e diligente não se deparou com a objeção especial apresentada nessa passagem por Calvino, a saber, o risco de se cair involuntariamente no sabelianismo ao se tentar refutar o arianismo. (Nota do Editor).
[7] O erro de Sabélio (de acordo com Theodoret) consistia em sustentar “que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são apenas uma hipóstase e uma só Pessoa com três nomes”, ou, nas palavras do eminente erudito e historiador eclesiástico Dr. Burton, “Sabélio dividiu a Divindade Una em três, mas ele acreditava que o Filho e o Espírito Santo não tinham existência pessoal distinta, exceto quando trazidos à tona momentaneamente pelo Pai” – Cf. Burton’s Lectures on Ecclesiastical History [Palestras de Burton sobre História da Igreja], vol. 2, p. 365; e também sua Bampton Lectures, nota 103. Essas obras talvez irão auxiliar o leitor a entender a natureza do argumento de Calvino apresentado logo em seguida. Supondo que a palavra Elohim denota as Três Pessoas da Divindade no primeiro verso, ela também denota as mesmas Três Pessoas no segundo verso. Todavia, nesta passagem (isto é, o verso 2) Moisés diz que o Espírito de Elohim, isto é, o Espírito das Três Pessoas pairava sobre as águas. Sendo assim, a distinção das Pessoas se perde, pois o Espírito é Ele mesmo uma delas; portanto, consequentemente – segundo essa linha de raciocínio – o Espírito é enviado de Si mesmo. O mesmo raciocínio poderia provar que o Filho foi gerado por Si mesmo, pois Ele é uma das Pessoas de Elohim por meio do qual o Filho é gerado. (Nota do Editor).
[8] A interpretação dada acima com relação ao sentido da palavra אֱלֹהִ֑ים (Elohim) é corroborada pelas profundas investigações críticas do Dr. Hengstenberg, professor de Teologia na Universidade de Berlim, cujo trabalho, composto numa forma de certo modo nova, e intitulado “Dissertations on the Genuineness of the Pentateuco” [Ensaios sobre a autenticidade do Pentateuco], surge numa edição em inglês, sob a superintendência da Sociedade Continental de Tradução, enquanto estas páginas estão sendo editadas. Juntamente com outros críticos eruditos, ele conclui que tal palavra é derivada da raiz árabe “Allah”, que significa cultuar, adorar e ser tomado pelo temor. Hengstenberg, portanto, vê o título como especialmente uma descrição do terrível aspecto do caráter Divino. Com relação à forma plural da palavra, ele cita a afirmação dos rabis judeus segundo os quais o termo significa “Dominus potentiarum omnium”, isto é, “O SENHOR de todos os poderes”. O Dr. Hengstenberg se refere a Calvino e outros como tendo se oposto, ainda que seu efeito imediato, à noção sustentada por Pedro Lombardo relacionada ao mistério da Trindade. O erudito alemão também rejeita a sugestão profana de Le Clerc e seus sucessores da Escola Noológica de que o nome Elohim tem origem no politeísmo; e, em seguida, continua a mostrar que “há na língua hebraica um uso vastamente extenso do plural a fim de expressar a intensidade da ideia contida no singular”. Após numerosas referências, que provam esse ponto, ele dá sequência ao seu argumento: que, “se, em relação aos objetos terrenos, tudo aquilo que serve para representar uma ordem total de seres é trazido à mente mediante a forma plural, podemos antecipar uma aplicação ainda mais extensa desse método de distinção nos nomes de Deus, em cujo ser e atributos há, de maneira total, uma unidade que abrange e compreende toda a multiplicidade”. Ele ainda acrescenta: “o uso do plural possui o mesmo propósito que, em várias partes da Escritura, é realizado por uma acumulação dos nomes Divino; como em Josué 22:22; o triságio em Isaías 6:2 e הָֽאֱלֹהִ֔ים אֱלֹהֵ֣י (Elohey heelohym) e הָאֲדֹנִ֑ים אֲדֹנֵ֖י (Adonay Adonaym) em Deuteronômio 10:17. Este uso nos leva a dirigir nossa atenção às riquezas infinitas e à plenitude inexaurível contida no único Ser Divino, de forma que embora os homens possam conceber inúmeros deuses, investindo-os com uma série de perfeições, todavia, todas elas estão contido no único אֱלֹהִ֑ים (Elohim). Ver o supramencionado Dissertations, p. 268-273. Talvez seja necessário afirmar aqui que independente dos tesouros bíblicos que os escritos desse autor contenha – e, sem dúvida, são grandes tesouros –, ao leitor provavelmente será exigido manter alta a sua guarda quando da leitura da obra. Pois, não obstante a enérgica oposição geral do autor ao anti-supranaturalismo de seus conterrâneos, ele, entretanto, não escapou completamente do contágio daquilo que lutou para resistir. Pode haver ocasiões, portanto, nas quais será propício aludir a alguns de seus equívocos.

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Fonte: Christian Classics Ethereal Library
Tradução: Fabrício Moraes
Revisão: Leonardo Dâmaso
Divulgação: Bereianos
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O calvinismo, a política e a Bíblia

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Por H. Henry Meeter¹


Começaremos o nosso estudo dos princípios do calvinismo quanto à esfera política fazendo uma breve introdução histórica. Afirmam, às vezes, que o calvinismo pode ser bom como sistema teológico, mas que aparte de certas verdades gerais sobre a soberania de Deus em todas as esferas da vida e ao que se acrescente a obediência os cidadãos a seu governo, o calvinismo não tem um programa político a oferecer. Mantém-se que o calvinismo nunca chegou a desenvolver um sistema político próprio. E, em casos em que se chega a admitir tal possibilidade, então, afirma-se que este sistema consiste em teorias meramente abstratas que nunca foram provadas no plano político, de maneira que, não se pode saber se realmente são funcionais.

RESUMO HISTÓRICO DA POSIÇÃO CALVINISTA EM RELAÇÃO À POLÍTICA

Àqueles que sustentam tais opiniões, o estudo da história política do calvinismo lhe reservará grandes surpresas. Assim, não somente o calvinismo desenvolveu princípios políticos próprios, senão que diversas foram as teorias políticas que se estruturaram sobre estes princípios, e igualmente aplicadas em diferentes países da história moderna. Quem se der ao trabalho de examinar, por exemplo, o índice do livro de história das teorias políticas do Dr W.A. Dunning, professor de história e filosofia política na Universidade de Columbia, e que leva o título: Uma História das Teorias Políticas, não tardará em perceber tão importante lugar que estas teorias políticas ocupam e que, em parte ou na sua totalidade, deve a sua origem ao calvinismo. Uma das causas pelas quais hoje em dia não se sabe muito dos pontos de vista calvinista sobre a política, há que busca-la no fato de que ultimamente o mundo inglês mostra pouca simpatia pelas perspectivas políticas que se baseiam na soberania de Deus e nos princípios da Escritura. Consequentemente, se estas perspectivas ocupassem de novo um primeiro plano, pesa sobre os calvinistas a missão de fazê-las conhecidas. 

O Dr A.M. Fairbain, em linhas gerais, resume assim o importante papel que Calvino teve na história política: “O lugar que Calvino merece na História é resultado de seu êxito e talento como legislador. Como teólogo seguiu os passos de outros; como legislador, foi um pioneiro. O seu sistema doutrinário era derivado, enquanto que sua concepção política foi um novo despontar que fundamentava o edifício social sobre novos princípios. Certamente merece que seja reconhecido o estabelecimento de um sistema político e legal próprio, que – direta ou indiretamente – influenciou profundamente todas as instituições democráticas subsequentes.”² O famoso Jean-Jacques Rousseau se refere a Calvino nestes termos tão elogiosos: “Os que falam de Calvino como se este fora tão somente um teólogo, estão longe de apreciar a amplitude de sua genialidade. A sua importante contribuição na estruturação de nossas leis mais sábias lhe honra tanto como as suas Institutas da Religião Cristã. Nestes tempos instáveis não sabemos a sorte que guarda à religião, mas enquanto subsistir entre nós o amor ao país e à liberdade, a memória deste grande homem será sempre reverenciada.”³ Ainda que não atribuamos ao reformador tudo o que Rousseau lhe credita, todavia, é certo que Calvino ocupa um lugar notável na história política, e que o calvinismo foi uma força altamente influente na esfera política.

Ainda que advogasse alguns princípios políticos que com o tempo chegariam “a abrir novos caminhos”, contudo, Calvino não chegou a desenvolver uma teoria completa do Estado. Esta missão foi completada pelas gerações calvinistas seguintes. Talvez, foi o desconhecido autor de Vindiciae Contra Tyrannos – de ampla circulação entre os huguenotes franceses do século XVII – quem pela primeira vez, e sobre uma base calvinista, ofereceu-nos uma teoria bem desenvolvida do Estado. Também num documento que se atribui a Theodore Beza, o sucessor de Calvino em Genebra, e que leva o título: De Jure Magistratum, e no documento de Hotman: Franco-Gallia, encontramos os princípios de uma teoria calvinista do Estado. Ambos documentos adquiriram ampla circulação entre os huguenotes franceses.

Igualmente durante este período da história, Buchanan – reconhecido estadista do reinado de Mary Stuart – escreveu uma obra sob o título: De Jure Regni Apud Scotos, em que desenvolveu uma teoria política fundamentada sobre alguns princípios distintamente calvinistas. O erudito alemão Althusius, ainda que careça de calor dos escritores franceses e escoceses, nos oferece a mais completa e elaborada estruturação da teoria calvinista do estado de seu tempo. No século XVIII cresce um marcado interesse pelos princípios calvinistas sobre o estado. Autores como Hugh Grotius e John Locke, ainda que façam uso de uma terminologia clássica calvinista, em suas ideias se afastam bastante da concepção calvinista. Contudo, o calvinismo continuou exercendo uma marcante influência na história política, especialmente na defesa das liberdades populares, como pode apreciar-se na “gloriosa revolução” de William de Orange e Mary da Inglaterra (1688), bem como na revolução americana (1776).

No século XIX ocorre um avivamento da atividade política calvinista. Na Inglaterra o estadista anglicano William E. Gladstone engajou na restauração do conceito do estado sobre um amplo fundamento calvinista. Um movimento similar ocorreu nos círculos luteranos nos dias de Bismarck, e sob o impulso do grande jurisconsulto luterano Julio Stahl. Baseando-se na soberania de Deus, Julio chegou a estruturar uma filosofia política cristã do estado que, em muitos aspectos, se identifica com a teoria calvinista. Todavia, e por falta de apoio necessário, o seu intento fracassou; contudo, os princípios mais importantes de sua teoria continuam exercendo influência. É na Holanda, de um modo muito especial, onde a teoria calvinista do estado floresceu novamente através da obra de Groen Van Prinsterer, Abraham Kuyper e Savornin Lorman. A obra destes homens, no século XIX, continua através do Dr H. Colyn, primeiro ministro da Holanda, dos professores P.A. Diepenhorst e A. Anema da Universidade Livre de Amsterdã, e outros. Conforme é enfatizado pelo professor K.W. Kolfhaus, em seu livro Christusbekenntniss und Politik, publicado em 1933, também na Alemanha estes pontos de vista exercem influência.

Esta breve referência histórica demonstrou que, contrariamente ao que se pressupõe, o calvinismo exerceu uma grande influência na história política moderna. Todos que desejam adquirir uma visão mais ampla das teorias políticas calvinistas podem consultar as obras de escritores não calvinistas tais como: Social Teachings of the Christian Churches and Groups por E. Troeltsch, Political Theories of the Calvinists up to the time of the Puritan Exodus to America escrito pelo professor Herbert D. Foster em seus Collected Papers; ou, também consultar a obra calvinista do Dr Abraham Kuyper, Antirevolutionaire Staatkunde (vol. 1).

Apresentaremos um esboço dos princípios básicos do calvinismo com referência à política. Ao fazê-lo notaremos as posições mais importantes que se opõe a esta concepção; e que nada aclarará melhor os pontos de vista calvinistas como uma referência às concepções opostas. Estudaremos estes temas na seguinte ordem: a Bíblia e a política, o estado, os cidadãos e as relações internacionais.

A BÍBLIA E A POLÍTICA

Para o calvinista a Bíblia é a sua regra de fé e prática; daí, pois, que também o seja na esfera da política. Isto é fácil de compreender. Para o calvinista, Deus é soberano em todas as coisas; consequentemente, a Sua Palavra vem a ser também a norma a seguir na esfera política. Por ser a Bíblia a Palavra de Deus e princípio de sua fé e conduta, o calvinista recorre a ela para se conduzir as suas atividades políticas.

Não caiamos no erro de supor que os calvinistas pretendem extrair todas as suas ideias da Bíblia, pois não é este o caso. Ao estudar o lugar que a Bíblia ocupa no sistema calvinista, vimos que Deus tem dois livros através dos quais se revela: o livro da natureza – com seus objetos, história, biografia humana, etc – e, o livro da Escritura Sagrada. Da natureza e da história o cristão aprende muitos fatos que satisfatoriamente incorporará em sua teoria política. Em seu estudo o cristão investigará a história política dos impérios e terá em consideração o que os jurisconsultos pensaram e enfatizaram acerca do estado. Mas, como o livro da natureza somente pode nos oferecer uma visão imperfeita de Deus e da verdade, nos vemos na necessidade de um corretivo, e este o calvinista o acha na Bíblia. A Escritura além de ser o corretivo do livro da natureza, também contém aqueles princípios eternos que guiam a conduta humana. Consequentemente, a Bíblia se torna no livro de autoridade última e, num sentido especial, também o fundamento da visão política do calvinista.

Ao fazer da Bíblia o fundamento da ciência política, o calvinista adota uma posição que poderíamos considerar como única. A maioria dos sistemas políticos não pretende basear-se na Bíblia. Para fundamentar a autoridade estatal, longe de apelar para a Bíblia, recorrerão a outras fontes, tais como a vontade das massas, o sentido individual de justiça, ou aos direitos naturais; em outros casos farão do estado uma corporação autônoma com suficiente autoridade para decidir o que estime conveniente. Em todos estes casos, descobrimos um fundamento humano. Naturalmente os adeptos destes sistemas políticos sempre se oporão àqueles que defendem perspectivas religiosas em sua concepção política do estado. O ateu, tal como ocorre no governo soviético, se oporá decididamente a ele; outros são tolerantes quanto às opiniões religiosas, mas defendem que estas opiniões deveriam confirmar-se na esfera privada e não ter transcendência política. Outros irão ainda mais longe, e permitirão que a religião conceda colorida a certas atividades políticas; aberturas de reuniões políticas com uma oração, alusões ocasionais a Deus nos discursos públicos, etc; mas, quanto à formulação dos princípios políticos cristãos sustentarão que não podemos recorrer à Bíblia como critério, ou norma. Argumenta-se na política que as opiniões e teorias humanas decidem tudo. Todavia, o calvinismo começa com a ideia de Deus. A vontade divina se converterá no critério regulador de sua concepção do estado.

Em que sentido a Bíblia é o fundamento da teoria política do calvinista? Crê o calvinista que a Bíblia lhe oferece um programa político completo? Seria tolice pretender tal coisa. Nos Estados Unidos da América os partidos políticos mudam o seu programa a cada quatro anos; considerando estas mudanças tão frequentes, não é tarefa fácil confeccionar um programa político do agrado de todos. Há, pois, base racional para supor que a Bíblia contém um programa político completo para todas as épocas e para todos os grupos? Na realidade a Bíblia não possui um sistema político organizado – muito menos oferece um sistema teológico unificado -. A chamada teocracia mosaica, com todo o cerimonialismo que nos detalha nos primeiros cinco livros da Bíblia, vem a ser algo como um esboço de programa político. Mas, este sistema, segundo as próprias palavras de Calvino, não tem vigência em nosso tempo: tanto os tempos como as circunstâncias são distintas. De fato, o calvinista não que a Bíblia advogue por um sistema de governo definido e definitivo. A Bíblia não nos diz se o governo de uma nação deve ser monárquico, aristocrático ou democrático. O que a Bíblia nos oferece são uma série de princípios eternos sobre os quais deve fundamentar-se todo sistema político. Estes princípios, como todos os demais, não envelhecem: são imutáveis, eterno e de vigência para todos os tempos e sob todas as condições. Uma vez assumindo estes princípios, então, poderemos estruturar sistemas e decidir programas para afrontar as condições do dia.

Em que lugar da Bíblia estes princípios podem ser encontrados? Alguns afirmam que estes princípios se encontram em passagens dispersas da Bíblia; mas, na dificuldade de não encontrar facilmente estes textos chegaram à conclusão de que a Bíblia não tem muito que dizer-nos com respeito à política. O calvinista, pelo contrário, crê que a Bíblia contém sólida base para a sua política, sua teologia e suas ideias sociais, e que esta não se encontra em meras passagens dispersas. Na regra de fé que impregna toda a Escritura, e que às vezes dá a conhecer em determinados textos – como sucede com Rm 13:1: “toda alma se submeta às autoridades superiores” e, Pv 8:15: “por Mim reinam os reis” – o calvinista chega a descobrir estes princípios. Mas estes de modo algum se circunscrevem a um determinado número de textos isolados.

Estes princípios, não apenas se relacionam com outros conceitos mais gerais, tais como a soberania de Deus e a obrigação de obedecer as autoridades, como também têm a ver com uma ampla gama de problemas políticos: a relação do indivíduo com o grupo, a relação das igrejas e outras organizações sociais com o estado, os limites do poder governamental, o direito dos indivíduos, etc.. Calvino ao desenvolver o seu conceito político, frequentemente recorre aos princípios bíblicos de justiça, equidade e bem-estar do povo.

O calvinista insiste em que os princípios da Palavra de Deus são válidos tanto para ele como para os demais cidadãos. Assim, sendo Deus soberano, aceitando ou não o indivíduo, a Bíblia – a palavra deste Rei soberano – há de ser norma para tudo e todos, especialmente para o cristão. O calvinista crê que na política também deve ser guiada por estes princípios, sendo que sua confissão é de que “pertence ao seu fiel Salvador Jesus Cristo, não somente com sua alma e para toda a eternidade, como também em tudo o que concerne a seu corpo e enquanto durar a sua peregrinação.” Em todas as esferas de sua vida deve obedecer ao seu Senhor.

A grande vantagem que pressupõe adotar a Bíblia como regra positiva e incondicional de fé, inclusive na política, adquirirá mais realce à medida que avançaremos em nosso estudo dos diferentes aspectos da teoria política calvinista.

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Notas:

[1] H. Henry Meeter, Doutor em Teologia, foi presidente durante 30 anos do Departamento Bíblico do Calvin College, Grand Rapids, MI. Nota do tradutor.
[2] A.M. Fairbain, Modern History (New York, Cambridge University Press, 1918), vol. 2, p. 364.
[3] Jean-Jacques Rousseau, Du Contrat Social, livro II, cap. 7, nota citada por Georgia Harkness, John Calvin, the Man and His Ethics (New York, Henry Holt & Co., 1931), p. 221.

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Fonte: Extraído de H. Henry Meeter, La Iglesia y el Estado (Grand Rapids, TELL, 1963), pp. 93-101. Este livro originalmente foi publicado sob o título de THE BASIC IDEAS OF CALVINISM.
Tradução: Rev. Ewerton B. Tokashiki, em 2 de Junho de 2015.
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João Calvino orou a Philip Melanchton após a morte deste?

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Por Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima


Hoje me deparei com um texto num blog católico romano, que afirmava que o reformador francês João Calvino, num determinado momento da sua vida, fez uma súplica a outro reformador que já se encontrava morto naquela ocasião, a saber, Philip Melanchthon (Aqui). O que chamou a minha atenção foi o fato de tal texto ter sido compartilhado no Facebook por um pastor protestante de orientação soteriológica arminiana. O que parece é que, neste caso, vigorou o princípio do "o inimigo do meu inimigo é meu amigo". Lamentavelmente, na ânsia de se opor ao calvinismo há muitos que recorrem a subterfúgios escusos, a ataques à pessoa do reformador francês, mesmo que tais ataques tenham a sua origem nos romanistas. O que importa é se há um texto falando mal de Calvino ou "revelando" algo negro da sua história e do seu pensamento teológico. Destoam estes da postura do próprio Jacobus Arminius que, não obstante a rejeição do calvinismo, sabia reconhecer os pontos positivos do pensamento de João Calvino, a ponto de recomendar aos seus alunos a leitura dos comentários de Calvino, pois, de acordo com Arminius:

"Depois da leitura das Escrituras, e mais do que qualquer outra coisa, eu recomendo a leitura dos comentários de Calvino, pois afirmo que na interpretação das Escrituras Calvino é incomparável, e que seus comentários são mais valiosos do que qualquer coisa que nos tenha sido legada nos escritos dos pais - tanto assim, que atribuo a ele certo espírito de profecia no qual ele se encontra numa posição distinta acima de outros, acima da maioria, na verdade, acima de todos" (Em carta enviada a Sebastian Egbertsz).

De acordo com a postagem, a "súplica" de Calvino a Melanchthon foi a seguinte:

"Ó, Philip Melancthon, pois eu apelo a ti, que estais agora vivendo no seio de Deus, onde tu esperas por nós até que nós estejamos reunidos contigo no Santo Descanso. Uma centena de vezes tu dissesse, fadigado com o trabalho, e oprimido com a tristeza, tu deitastes em meu peito como um irmão, ‘Que eu possa morrer neste peito!’ Desde então eu tenho milhares de vezes desejado que isso fosse nosso destino para estarmos juntos" (Clear Explanation of the Holy Supper, in Reid’s Theological Treatises of John Calvin, S.C.M., London, p. 258).

Visando apresentar uma refutação a tal acusação, compartilho um texto escrito por James Swan, editor do Blog Beggars All: Reformation & Apologetics, intitulado John Calvin Prayed to Philip Melanchthon?

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Aqui está um daqueles boatos estranhos que tem circulado pela Internet já há alguns anos. É dito que Calvino orou a Melanchthon após a morte deste. Calvino declarou: “Ó Philip Melanchthon!... Eu apelo a você que vive na presença de Deus, com Cristo, e aguarda por nós ali até que estejamos unidos a você no abençoado descanso... Eu tenho desejado mil vezes que nosso destino fosse estarmos juntos!” Um contexto para esta citação pode ser encontrado
aqui.

O livro retratado é intitulado Melanchthon in Europe: His Work and Influence Beyond Wittenberg (Melanchthon na Europa: Sua Obra e Influência Além de Wittenberg). Um dos capítulos mais fascinantes é o de Timothy Wengert, “We Will Feast in Heaven Forever: The Epistolary Friendship of John Calvin and Philip Melanchthon” (“Nós Festejaremos no Céu para Sempre: A Amizade Epistolar de João Calvino e Philip Melanchthon”). O capítulo de Wengert desafia o paradigma popular que diz que Calvino e Melanchthon eram amigos, apesar das suas diferenças. Wengert analisa a correspondência entre esses dois Reformadores dentro do contexto da etiqueta da escrita de cartas no período do Renascimento, concluindo que esses homens não eram tão amigos como parece. Ele argumenta que a amizade entre eles era “uma ficção literária imposta pelos próprios autores, especialmente Calvino, que tinha uma rede muito complexa de interações, as quais nem todas eram amigáveis” (p. 22).

A respeito dessa alegada oração de Calvino a Melanchthon, Wengert afirma:

Mesmo a reminiscência frequentemente citada de Calvino sobre a recente partida de Melanchthon deve ser vista estritamente dentro do contexto do Renascimento e da Reforma, onde ela apareceu. Calvino escreveu:
Ó Philip Melanchthon! Eu apelo a ti que agora vives com Cristo, no seio de Deus, e ali esperas por nós, até que sejamos reunidos contigo no abençoado repouso. Umas cem vezes, quando desgastado com labores e oprimido com tantos problemas, quiseste repousar familiarmente tua cabeça no meu peito, e dizer: “Que eu possa morrer neste peito!” Desde então, durante mil vezes, tenho desejado que seja concedido a nós viver juntos, pois certamente tu querias, então, ter tido mais coragem para as inevitáveis lutas, e terias sido mais forte para desprezares a inveja, e para reputares como nada todas as acusações. Assim, também a malícia de muitos, que com audácia reuniram para seus ataques, teria sido restringida pela tua gentileza, que eles chamam de fraqueza.
De fato, Calvino estava aludindo a certas tensões em seu relacionamento: a suposta tendência de Melanchthon a capitular e seu fracasso em apoiar Calvino diretamente. Calvino presumia força, e a maldade dos acusadores de Melanchthon. No entanto, vindo como veio, dentro de um tratado sobre a Eucaristia, também era uma tentativa de Calvino de descrever Melanchthon como um defensor da teologia eucarística do genebrino, algo que Melanchthon nunca foi durante a sua vida (p. 23).

Como demonstrado acima, ignorar contextos históricos pode levar a distorções. Eu apontei casos semelhantes deste tipo de erro há alguns anos: Carta de Lutero ao Papa Leão: “Eu reconheço a tua voz como a voz de Cristo” e a carta imaginária de Lutero ao Papa Leão X, em 6 de janeiro de 1519. Devemos lembrar de considerar a política e as polêmicas da Reforma quando mergulhamos profundamente na história. Aquilo que pode parecer dizer algo pode, na verdade, estar dizendo algo bem diferente.

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Comento: É lamentável que, na ânsia de se opor ao pensamento teológico de Calvino haja quem apele para leviandades. Como observei em outro lugar:

1. É interessante a citação que o próprio blog católico compartilha de um texto de Francis Nigel Lee: "Sobre a morte de Philipp, Calvino comoventemente LAMENTOU". Acredito que este lamento - não oração - pode ser entendido nos moldes da minha segunda observação:

2. O lamento de Davi por Absalão (2Samuel 18.33): "Meu filho Absalão, meu filho, meu filho Absalão! Quem me dera que eu morrera por ti, Absalão, meu filho, meu filho!"

Ambos os lamentos expressam um desejo:

1. "Desde então eu tenho milhares de vezes desejado que isso fosse nosso destino para estarmos juntos" (Calvino).

2. "Quem me dera que eu morrera por ti, Absalão, meu filho, meu filho!" (Davi).

Acredito que, em relação à segunda, ninguém vá afirmar que trata-se de uma oração. Por que fazer diferente em relação à primeira?

O historiador Philip Schaff, na sua obra History of the Christian Church, Vol. 8, § 90, reporta-se ao episódio não dando evidência alguma de entender que aqui Calvino estava orando a Melanchthon. Ele diz:

No dia 19 de abril de 1560, Melanchthon foi libertado da "fúria dos teólogos" e de todas as suas angústias. Um ano após a sua morte, Calvino, que ainda lutaria a batalha da fé por mais quatro anos, durante a fúria renovada da controvérsia eucarística com o fanático Heshusius, dirigiu este tocante apelo ao seu amigo santo no céu:
Ó Philip Melanchthon! Eu apelo a ti que agora vives com Cristo, no seio de Deus, e ali esperas por nós, até que sejamos reunidos contigo no abençoado repouso. Umas cem vezes, quando desgastado com labores e oprimido com tantos problemas, quiseste repousar familiarmente tua cabeça no meu peito, e dizer: “Que eu possa morrer neste peito!” Desde então, durante mil vezes, tenho desejado que seja concedido a nós viver juntos, pois certamente tu querias, então, ter tido mais coragem para as inevitáveis lutas, e terias sido mais forte para desprezares a inveja, e para reputares como nada todas as acusações. Assim, também a malícia de muitos, que com audácia reuniram para seus ataques, teria sido restringida pela tua gentileza, que eles chamam de fraqueza.
Quem, tendo em vista essa amizade, que era mais forte que a morte, pode acusar Calvino de falta de coração e de terna afeição?

Para Schaff, não se trata de uma oração, mas de tocante apelo feito em tom de lamento. 

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Fonte: Cristão Reformado
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O Calvinismo enfraquece a obra missionária? Um levantamento histórico

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Por Thomas Magnum


Ao ensinar sobre as doutrinas da graça, comumente sou questionado com algumas perguntas que são motivo de confusão na mente daqueles que não tem um devido conhecimento do que chamamos de Calvinismo. Ao usar aqui o termo Calvinismo preciso esclarecer de imediato que, por ser aderente dessa linha teológica - que para mim é a que melhor se coaduna com as Escrituras Sagradas - não sou por isso obrigado a concordar com a totalidade da teologia de Calvino ou Calvinista, embora o reformador genebrino seja para mim um dos maiores nomes da história da teologia e o maior nome da reforma protestante, sendo o seu legado para posteridade de valor inestimável. No entanto, a teologia de Calvino não é a Escritura Sagrada, por isso me denomino calvinista no que se coaduna com as Escrituras. Bem, feitos esses esclarecimentos, prossigamos.

Dentre muitas questões levantadas para um correto entendimento do Calvinismo uma delas é: Se o Calvinismo está correto em seus cinco pontos, então, para que evangelizar? Por que a igreja deve se esforçar na obra missionária se Deus tem seus eleitos, se a expiação é particular, se a graça é eficaz? Ora, se o Calvinismo está certo não precisamos evangelizar!? Errado! Neste artigo procuraremos trazer alguns dados históricos sobre o trabalho da igreja reformada e seu empenho em evangelizar as tribos, povos e nações. Procurarei traçar uma linha histórica desde a reforma até o presente ponto histórico e os esforços da igreja para levar as boas novas de salvação a todos os homens.

De forma alguma o objetivo deste texto é atacar os irmãos arminianos, mas, esclarecer que a reforma também foi um movimento histórico voltado para missões no que se refere a seus desdobramentos, embora inicialmente tenha sido um movimento voltado para a eclesiologia e não para a missiologia. Esclarecer esses fatos é importante para uma mais larga compreensão das contribuições do Calvinismo nos vários movimentos missionais ocorridos na história da igreja. Ao fim deste texto listarei alguns livros que ajudarão numa pesquisa complementar para aqueles que desejarem se aprofundar no assunto. É importante dizer também que houve movimentos importantes relacionados as missões cristãs que partiram da influencia de Moody e Wesley.

A Reforma e Missões

A historiadora de missões Ruth Turker nos diz acerca de Calvino:

"Calvino por si mesmo, entrementes, fora pelo menos exteriormente o espírito mais missionário de todos os reformadores. Ele não só enviou dezenas de evangelistas de volta à sua terra natal, a França, mas também comissionou quatro missionários, juntamente com um bom número de huguenotes franceses, para estabelecer uma colônia e evangelizar os índios no Brasil." [1]

Calvino acreditava que os missionários tinham que ser preparados para ler a Bíblia nas línguas originais e ser cuidadosamente preparados para o campo e profundamente habilitados em teologia. Michael Horton, falando da preocupação de Calvino com a preparação de obreiros para o campo, diz: "O campo missionário não merecia menos do que qualidade de ministros esperados em sua terra de origem".

Em seu comentário de 1 Timóteo 2.3-5 Calvino fala:

"Assim podemos ver o significado que São Paulo pretende quando diz: Deus deu a conhecer a todo mundo, e seu evangelho pregado a todas as criaturas. Portanto, devemos procurar, tanto quanto possível, convencer aqueles que são estranhos à fé, e parecem estar totalmente privados da bondade de Deus, a aceitar a salvação. Jesus Cristo não é apenas um Salvador de poucos, mas ele se oferece a todos."

Calvino ainda diz em um outro sermão sobre 1 Timóteo 2.3-5 : "Temos de trabalhar, tanto quanto possível para levar a salvação aqueles parecem estar distantes."

Michael Horton ainda nos diz em seu livro A favor do Calvinismo, p. 208:

"Calvino não era indiferente em seu zelo missionário. O Catecismo de Heidelberg (1564), por si mesmo era uma ferramenta evangelística, foi traduzido para o holandês, saxão, húngaro, inglês, grego, francês, polonês, lituano e italiano. No período de vinte e cinco anos de sua publicação inicial."

Vale ainda frisarmos aqui que o catecismo na era pós-reforma foi traduzido em malaio, javanês, português, espanhol, cingalês, tâmil, chinês e japonês. Algum tempo depois em navajo, zuni, tiv e hausa. Essa preocupação demonstra a intensificação da atividade missionária do calvinismo na era da reforma e pós-reforma. Essa preocupação está fundamentada no ensino de Jesus e dos apóstolos sobre a evangelização das nações e, como lemos correntemente no livro do Apocalipse, que adorarão ao Cordeiro gente de toda tribo, povo, raça e nação. O fato de o Calvinismo pregar a eleição dos santos e a expiação limitada não empobrece o ímpeto missionário provindo do ensino teológico de expoentes do pensamento reformado. A exemplo disso podemos citar o avivamento de Princeton com as preleções de Charles Hodge, que futuramente foi responsável por impelir jovens a vários lugares do mundo como veremos mais adiante.  

Portanto, ao nos depararmos com a questão que ronda a mente daqueles que não conhecem bem o calvinismo, nem sua história, vemos que as doutrinas da graça não invalidam a obra missionária, antes, a intensifica. Se Deus elegeu homens e mulheres de todas as tribos, povos e nações, e o soberano Deus decretou que essas pessoas seriam salvas ao ouvirem a pregação, esse é o maior incentivo para a igreja de Cristo, existem eleitos nesses povos e o Senhor quer que cheguemos lá com a mensagem do evangelho para que eles sejam salvos. O empenho missionário das igrejas reformadas é a demonstração do zelo do povo de Deus pela ordem que lhes foi dada, Ide, e não somente em um tempo histórico, mas, indo, indo por todas as nações e fazendo discípulos.

O Movimento Missionário Moderno

Ao chegarmos aos tempos modernos temos grandes nomes a citar nessa visão panorâmica que estamos estabelecendo aqui. Aconselho o leitor a ampliar a leitura sobre esses dados históricos.

A Sociedade Missionária de Londres, que foi organizada em 1795, era um celeiro do movimento missionário e confessionalmente Calvinista. Na primeira reunião do grupo, George Burder discursou:

“... espírito apostólico revivido nos gloriosos reformadores seguindo a ‘longa e terrível noite’ da superstição e do declínio medieval. Lutero, Calvino, outras grandes luzes da Reforma recuperaram o evangelho em seus dias. ‘Mas, oh! Onde está o zelo primitivo? Onde estão os heróis da igreja – homens que voluntariamente entregaram e se dissiparam por Cristo, onde? Que a ambição não trilhe em uma linha já preparada por eles, mas que preguem a Cristo, onde, ainda ele não foi invocado.

Vale citar aqui também David Brainerd (1718-1747), ministro calvinista, notável por sua missão entre os índios no Oeste de Massachusetts, e Jhonatas Edwards (1749) que foi missionário entre os índios também. Edwards é conhecido pelo memorável sermão – Pecadores nas mãos de um Deus irado – teólogo, escritor, ainda um filosofo influente no pensamento americano.

Não podemos deixar de citar também William Carey, conhecido como o pai das missões modernas, tradutor da Bíblia, pregador do evangelho de Cristo na índia. Os esforços de Carey são um exemplo para a igreja. A morte de duas esposas e de um filho não foram impedimentos para Carey atender o chamado para levar o evangelho a Índia. Sapateiro, com pouco estudo, aprendeu sânscrito, hebraico e grego, Carey foi um dos grandes, se não o maior tradutor das Escrituras Sagradas. Carey foi muito influenciado pelos escritos de Jhonatas Edwards, também de confissão calvinista.  

Os calvinistas também olharam para a África, Robert Moffat (1795-1862) e David Livingstone (1813-1873) foram nomes chaves na evangelização da África. A escocesa Mary Stessor, missionária pioneira na África Ocidental em 1876 com apenas 27 de idade. Ela era vice-cônsul do império Britânico e abriu mão para ser missionária tomando a missão como superior, morreu aos sessenta e seis anos de idade na sua cabana de barro.

Jonathan Goforth, conhecido como o mais notável evangelista da China, foi um presbiteriano canadense. Chegando em tempos recentes, temos a chegada de Robert Reid Kalley ao Brasil em 1855. Kalley chegou ao Brasil e um tempo depois fundou a primeira congregação de nativos brasileiros, a Igreja Evangélica Fluminense. Depois de assistir uma palestra do Dr. Charles Hodge em Princeton, o jovem Ashbel Green Simonton também veio para o Brasil e, após sua chegada oito anos depois (1867), fundou o primeiro presbitério no Rio de Janeiro e o primeiro seminário presbiteriano. Claro que poderíamos citar muitos outros nomes e trazer mais provas históricas do empenho dos calvinistas para a evangelização do mundo, mas, concluiremos citando alguns nomes contemporâneos que tem se empenhado em esforços a evangelização de povos não alcançados, temos o conhecido pastor John Piper, que segundo Russel Shedd é um dos maiores evangelistas do nosso tempo, temos também Paul David Washer, que tem percorrido o mundo pregando o evangelho de Cristo. Não poderíamos deixar de citar dois nomes importantes, o Dr. Russel Shedd, fundador das edições Vida Nova, que tem se dedicado por décadas a evangelização do Brasil e preparação de líderes da nação brasileira. O último nome que gostaria de mencionar é do missionário Ronaldo Lidório, que também tem empreendido grandes esforços na evangelização de povos não alcançados, fundador do Instituto Antropos.

Dentro desse escopo que discorremos temos reformados das mais variadas denominações como Presbiterianos, Anglicanos, Congregacionais, Reformados, Episcopais, Batistas e muitas outras denominações que professam os princípios e ensinos da Reforma do século XVI. Portanto, é um erro afirmar que o Calvinismo não promove o zelo missionário nas igrejas. Historicamente vimos que é o oposto, Calvino enviou missionários ao Brasil e a evangelização posterior do Brasil também se deu pelo trabalho Calvinista. Os Estados Unidos são frutos de uma peregrinação e colonização cristã, e aí é valioso um estudo da vida e obra dos Puritanos. O zelo por missões está em nossas raízes e deve arder em nosso coração, como foi com nossos irmãos no passado. Que esse breve texto venha servir como uma simples introdução ao estudo missiológico. 

Mas receberão poder quando o Espírito Santo descer sobre vocês, e serão minhas testemunhas em Jerusalém, em toda judeia e Samaria, e até os confins da terra. NVI Atos 1.8

Esperemos grandes coisas de Deus, façamos grandes coisas para Deus. - William Carey

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Nota:
[1] – Missões até os confins da Terra – Ruth Tucker, ed. Vida Nova

Livros indicados:

Missões até os confins da Terra – Ruth Tucker, ed. Vida Nova.
A Favor do Calvinismo – Michael Horton, ed. Reflexão.
 A Igreja Missional na Bíblia – Michael Goheen, ed. Vida Nova.
 A Missão de Deus - Christopher J. H. Wright, ed. Vida Nova.
 A Missão do Povo de Deus - Christopher J. H. Wright, ed. Vida Nova.
 Evangelização – Fundamentos Bíblicos – Russel Shedd, ed. Vida Nova.
 Igreja Centrada – Timothy Keller, ed. Vida Nova.
 História e Teologia da Evangelização – Fabio Henrique Caetano, ed. Arte Editorial.
 História da Evangelização no Brasil, dos Jesuítas aos neopentecostais – Elben César, ed. Ultimato.

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Fonte: Electus
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Uma breve História do Movimento Reformado

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Neste vídeo o Rev. Dorisvan Cunha faz uma breve palestra a respeito da História do Movimento Reformado, ou Calvinista. Ao contrário do que alguns pensam, o movimento não começou com João Calvino. Na realidade, começou com Zuínglio, em Zurique, na Suíça. Assista:


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Fonte: Guerra pela Verdade
Divulgação: Bereianos
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Missão Integral ou Neocalvinismo: em busca de uma visão mais ampla da missão da Igreja

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Por Rev. Filipe Costa Fontes


Há algum tempo a Missão Integral (MI) tem sido objeto de controvérsia nos círculos conservadores do evangelicalismo brasileiro. De um lado estão aqueles que a rejeitam e a criticam, alegando que ela seria uma versão protestante da Teologia da Libertação. Isto é, para eles a MI seria uma tentativa de compreensão da missão da igreja por um viés filosófico-sociológico marxista, razão pela qual, na prática, desviaria o foco da missão da igreja para o engajamento político-social. De outro lado, existem aqueles que a defendem e aderem a ela, principalmente sob a alegação de que a igreja teria passado por uma espécie de achatamento em sua concepção de missão, reduzindo o alcance da missão da igreja ao aspecto espiritual da vida humana, e a MI permitiria uma ampliação necessária. Ou seja, ela possibilitaria uma visão da missão da igreja como um movimento em direção à integralidade da vida humana.

Devemos considerar a legitimidade da preocupação que tem levado algumas pessoas a aderirem à MI. De fato, não são poucas as igrejas que nutrem uma perspectiva dualista da realidade, sobretudo da pessoa humana. E, por consequência, vivenciam sua missão de modo reducionista, negligenciando oportunidades de aplicação do evangelho a outras esferas de nossa existência, que não a relativa à fé. Parece mesmo faltar a muitos pastores e igrejas uma compreensão da abrangência do impacto da missão da igreja. Contudo, o que tem acontecido recentemente com a MI no Brasil não é muito diferente e parece fortalecer o argumento daqueles que a tem rejeitado. Muitos pastores e igrejas que aderiram à MI parecem também estar sofrendo de uma prática reducionista.

Eles ficam tão fascinados com o engajamento político-social que acabam por atribuir a essa tarefa um caráter de centralidade, para não dizer de exclusividade.

A percepção desse reducionismo tem sido compartilhada até mesmo por alguns dos proponentes da MI, como é possível verificar no texto a seguir:

O paradigma da missão integral, movimento da missão integral, ou teologia da missão integral, popularizado após o Congresso Internacional de Evangelização Mundial realizado em Lausanne, Suiça, em 1974, ganhou as ruas no Brasil somente depois que o Pacto de Lausanne foi publicado em português, dez anos após sua elaboração. Desde então a expressão missão integral ficou restrita ao debate a respeito da relação entre evangelização e responsabilidade social, e chegou aos nossos dias tão reduzido que qualquer igreja que tem uma creche acredita estar “fazendo missão integral”. (...) Observe que alguém facilmente diria que um projeto social está relacionado com missão integral, mas dificilmente consideraria um encontro de casais realizado num hotel 5 estrelas como um projeto de missão integral. A organização de um centro comunitário é imediatamente percebida como ação de missão integral, mas um sarau com muita música e leituras de Fernando Pessoa e Adélia Prado exigiria muita explicação para que fosse associado à missão integral. O senso comum diria que o médico que dedica um final de semana para trabalho voluntário numa comunidade da periferia da cidade está fazendo missão integral, mas diria que o mesmo médico, cobrando R$ 700,00 por uma consulta em seu consultório, está realizando seu trabalho secular (não religioso), ou, no máximo, ganhando dinheiro para financiar projetos de missão integral. É urgente ampliarmos o horizonte de reflexão.
Extrapolar os limites definidos pelo debate evangelização /responsabilidade social e mergulharmos nas implicações das relações sagrado/profano e religioso/não religioso para a vivência da espiritualidade cristã pessoal e comunitária.[1]

É curioso perceber, no entanto, que esse reconhecimento não acontece sem que a suposta integralidade original da MI seja defendida. Geralmente, ele vem acompanhado do argumento de que esse reducionismo seria, para usar as palavras do autor acima, “uma distorção do conceito em seus termos originais”.[2]

Mas, afinal, o reducionismo verificado na prática de igrejas brasileiras que têm
aderido à MI seria de fato um desvio da proposta original ou um desdobramento natural originalmente gestado? Essa é a pergunta que pretendemos responder na parte inicial deste artigo, e que possui uma importante implicação para o debate inicialmente mencionado. Caso a segunda alternativa seja verificada, nossa hipótese é a de que teremos razões para questionar a contribuição da MI para a efetiva ampliação de nossa concepção de missão. O propósito do artigo, contudo, não se limita a esse movimento reativo. Além de levantar este questionamento queremos sugerir que a tradição calvinista, mais especificamente tal qual expressa no neocalvinismo holandês, oferece melhores condições para a compreensão da missão da igreja. Apresentar as razões desta sugestão é o que pretendemos fazer na segunda parte do texto.

1. missão integral?

A expressão Missão Integral foi cunhada por volta da década de 1970 por membros da Fraternidade Teológica Latino-Americana (FTL, na sigla em espanhol), para descrever uma compreensão da missão cristã que abrange tanto a proclamação quanto a demonstração do evangelho por meio da ação social.[3]

Geralmente a MI é apresentada como um chamado à integralidade; uma defesa da missão da igreja como um movimento em direção à “pessoa toda, com todo o evangelho, em todo o seu contexto social e cultural”.[4] É este chamado que tem atraído muitos evangélicos conservadores, mesmo no círculo reformado. É também ele que pretende ser, de alguma forma, assegurado pelo argumento de que o reducionismo prático da MI seria um desvio do propósito original.

Contudo, há razões para questionar este chamado à integralidade. Isso, por que a apropriação do adjetivo “integral” pela perspectiva que estamos analisando não parece estar relacionada ao significado semântico do termo – todo, inteiro, completo – mas à tentativa de superação de um dualismo específico, que se refere ao exercício da missão da igreja enquanto instituição: o dualismo evangelização/ação social. Oliva, citando Nóbrega, afirma que o uso do qualificativo integral tem como objetivo “lembrar as igrejas de que elas não devem optar por um dos polos opostos – salvação pessoal/espiritual ou responsabilidade social”.[5] Para Carvalho, esse dualismo teria sido o ponto central de discussão do Congresso de Lausanne, importante marco da MI, e também o responsável pela elaboração do conceito.

Entre as questões que o congresso de Lausanne procurou responder, talvez a mais importante seja a que focalizou a relação entre evangelização e responsabilidade social. O debate sobre essa relação levou à formulação de um conceito mais amplo de missão cristã, expresso no conceito de missão integral, englobando tanto a evangelização quanto a responsabilidade social, sendo ambas inter-relacionadas e essencialmente distintas. A partir daí, todas as discussões em torno da missão integral passaram a focalizar sua fundamentação e aplicação à luz da prática pastoral e missionária.[6]

Como é possível verificar, embora se utilize de um adjetivo cujo significado semântico aponta para a abrangência, a discussão da MI gira em torno de uma questão específica: o engajamento da igreja com a ação social e a relação entre este engajamento e a evangelização. A interpretação e referência ao engajamento social como um movimento voltado à integralidade revela sua semente reducionista.

É provável que esse reducionismo seja fruto da construção dialética da MI, o que a teria conduzido, pelo menos em parte, a uma síntese[7] com um paradigma filosófico-sociológico reducionista: o materialismo histórico – que reduz a dinâmica da realidade ao aspecto socioeconômico.[8] Descrevendo o ambiente intelectual que teria forjado a MI, Gondim afirma claramente seu caráter dialético, argumentando que ela teria se originado do desejo dos evangélicos de “fazer nascer uma teologia que se aventurasse em dialogar com as ciências e a filosofia”.[9] E sugere seu caráter sintético ao relacioná-la à Teologia da Libertação e ao apontar as Fraternidades Teológicas Latino-Americanas como fermentadoras do pensamento que lhe deu origem.[10] Mais que uma simples sugestão pode ser encontrada na argumentação de Sanches, que relaciona as origens da MI a um movimento denominado ISAL (Igreja e Sociedade na América Latina), fundado na década de 60, e que, em suas próprias palavras, “elaborou uma síntese entre o protestantismo e o marxismo, por meio de um fecundo diálogo entre a Teologia e as Ciências Sociais, a fim de interpretar o contexto de crise política vivida pelo povo latino-americano”.[11]

Se, por um lado, esses apontamentos não são suficientes para afirmar um compromisso original generalizado da MI com o projeto ideológico marxista, por outro, eles nos oferecem fortes indícios da influência do materialismo histórico na atmosfera intelectual que forjou tal pensamento. É ilustrativa dessa influência certa ênfase exclusivista nos impactos socioeconômicos do evangelho. Em palestra ministrada no Fórum Jovem de Missão Integral, Ramos sustenta:

Então o que foi que mudou com a chegada do reino? Mudou a economia. Agora, a proposta é a solidariedade e o alvo é a igualdade. Mudou a relação de trabalho. Porque agora, o trabalhador tem de ser o primeiro a desfrutar do resultado do seu trabalho. Mudou a relação política. Agora, o “sujeito” não é eleito para assumir o poder, o “sujeito” é eleito para assumir o serviço. Se a Igreja ganha essa consciência, a Igreja se torna profeta dos profetas, se torna o grande arauto da justiça.[12]

É também ilustrativa desta relação a apropriação e aplicação de conceitos próprios do materialismo histórico à obra de Cristo. Na palestra anteriormente citada, por exemplo, a vinda do reino de Cristo por ocasião de sua primeira vinda é descrita em termos de “ruptura” e “revolução”.[13] Finalmente, esta relação e influência podem ser percebidas pela constante crítica da MI à tradição teológica de pensamento e sua consequente defesa de “uma teologia legitimamente continental”,[14] o que se assemelha ao caráter antitradicionalista do materialismo histórico.[15]

O resultado dessa relação é não apenas a falta de um conceito de integralidade, mas de lastro histórico-teológico para localizar a questão da missão da igreja dentro de um escopo maior de pensamento,[16] o que culmina na impossibilidade de superação do dualismo inicialmente verificado: o dualismo evangelização/ação social na missão institucional da igreja. Carlos Antônio Barro sustenta que a partir de Lausanne é possível verificar três posições mais definidas dentro da MI sobre a relação entre os polos desse dualismo: uma mais conservadora, que enfatiza a evangelização como tarefa principal; uma mais moderada, que começa a pensar em integrar a busca pela justiça social à missão da igreja, e uma terceira que elimina prioridades e vê evangelização e ação social como tarefas complementares.[17] Esta última é a posição mais comumente defendida pela MI na atualidade, e mesmo ela não promove a superação do dualismo evangelização/ação social. Pois a defesa de que a igreja deve fazer uma coisa e outra, embora promova uma aproximação dos dois polos, os mantém separados, o que significa, no fim das contas, a manutenção da dualidade.

Nossa suspeita inicial, portanto, é que o reducionismo observado na prática da MI, ao invés de desvio, seria a consequência natural de sua construção dialética e aproximação sintética de um paradigma reducionista.

Consequentemente, seria possível questionar a contribuição da MI para a ampliação de nossa visão missiológica e promoção de uma concepção efetivamente integral de missão.

2. integralidade e missão no neocalvinismo holandês

Neocalvinismo é o nome comumente usado para se referir ao movimento originado na Holanda, nos séculos 19 e 20, sob a liderança de Abraham Kuyper, cuja proposta básica era aplicar os princípios do calvinismo ao relacionamento do cristão e da igreja com a sociedade e a cultura de sua época.[18] A partir dessa proposta “projetaram-se, no século 20, várias iniciativas de ação cristã transformadora em setores diversos, como filosofia e teologia, política e ação social, artes e ciências, educação e comunicações”.[19]

O neocalvinismo holandês é uma tentativa de contextualização que mantém o compromisso com a tradição teológica de pensamento. Nas palavras de Carvalho, o que Kuyper fez foi refundar o calvinismo, “seguindo de perto os princípios reformados da soberania de Deus e da unidade entre natureza e graça, articulando-os, porém, a um contexto definitivamente moderno (ou até mesmo pós-moderno)”.[20] Por um lado, portanto, o neocalvinismo é uma tentativa de aplicação relativamente recente. Por outro, ele se apresenta revestido de um lastro histórico-teológico que permite a reflexão sobre a missão da igreja dentro de um escopo amplo de discussão que considera os grandes temas da teologia. Esta é a primeira razão pela qual o consideramos uma proposta mais apropriada para a nossa reflexão missiológica. O neocalvinismo se propõe a pensar a missão da igreja em relação à cultura contemporânea sem a necessidade de promover uma revolução paradigmática messiânica, uma vez que ele pensa para além de uma teologia localizada restrita a determinados contextos socioculturais, como é o caso da MI.

Em segundo lugar, é importante destacar que o calvinismo, tradição teológica em que se fundamenta a perspectiva apresentada, é um esforço por construir um edifício teológico a partir da aplicação radical da Escritura Sagrada.

Nas palavras do próprio Calvino:

Eis aqui o princípio que distingue nossa religião de todas as demais, ou seja: sabemos que Deus nos falou e estamos plenamente convencidos de que os profetas não falaram de si próprios, mas que, como órgãos do Espírito Santo, pronunciaram somente aquilo para o qual foram do céu comissionados a declarar. Todos quantos desejam beneficiar-se das Escrituras devem antes aceitar isto como um princípio estabelecido, a saber: que a lei e os profetas não são ensinos passados adiante ao bel-prazer dos homens ou produzidos pelas mentes humanas como uma fonte, senão que foram ditados pelo Espírito Santo.[21]

Ao fazer essa afirmação não defendemos a perenidade do calvinismo enquanto paradigma teológico. Mas desejamos sugerir que existem vantagens em lidar com um edifício teológico que sustente como princípio fundamental a exclusividade de seu compromisso com a Escritura Sagrada, ao invés do diálogo sintético com qualquer pensamento imanente.[22] Foi esse compromisso radical com a Escritura que permitiu ao calvinismo e, consequentemente, ao neocalvinismo holandês, a apropriação da ideia de integralidade no sentido semântico pleno do termo. A posse desse conceito é a terceira razão de nossa sugestão. 

O conceito de integralidade é fundamental à teologia reformada. Uso o termo ‘fundamental’ em seu sentido radical, com a intenção de afirmar que o conceito é, de fato, um dos pilares do que Kuyper denominou “sistema de vida calvinista”.[23] De certa forma, esse conceito também surge no calvinismo como a superação de um dualismo. No entanto, enquanto na MI o conceito de integralidade visa a superação de um dualismo específico, que diz respeito à missão institucional da igreja, no calvinismo ele visa a superação de um dualismo abrangente, que envolve a realidade como um todo. Trata-se do dualismo natureza/graça, construído a partir de uma tentativa de síntese entre elementos do pensamento cristão com a filosofia grega, e impulsionado pelo catolicismo romano.[24] Assumindo o risco de imprecisões, poderíamos defini-lo como uma mentalidade que separava toda a realidade em dois polos distintos, concebendo parte dela em relação a Deus e parte como dotada de autonomia, sem qualquer relação com Deus.[25] Essa pode parecer uma discussão meramente filosófica, mas sua abrangência é ampla:

A relação entre natureza e graça é mais do que um problema teórico. De fato, trata-se de um problema religioso fundamental, pois procura responder como a reconciliação com Deus por meio de sua obra redentora se relaciona com as estruturas espaço-temporais, antropológicas e racionais da vida.[26]

A Reforma Protestante, com maior profundidade João Calvino e a tradição calvinista, encontraram na doutrina da soberania de Deus um caminho para a superação dessa polarização. A tradição calvinista fez isso ao assumir o senhorio absoluto de Cristo sobre a realidade, conforme ilustram as tão conhecidas palavras proferidas por Abraham Kuyper em 20 de outubro de 1880, na Nieuwe Kerk, em Amsterdã: “Não há um único centímetro quadrado em todos os domínios da existência humana sobre o qual Cristo, que é o Soberano sobre tudo, não clame: é meu!”.[27]

Primeiramente, o neocalvinismo fundamenta o conceito da soberania de Deus na doutrina bíblica da criação. Um exemplo de como essa doutrina foi radicalmente considerada no pensamento neocalvinista pode ser encontrado na filosofia da ideia cosmonômica de Herman Dooyeweerd, filósofo e discípulo de Kuyper. Sua ontologia, por exemplo, descreve uma diversidade de aspectos nos quais a realidade se manifesta temporalmente, cada um deles sujeito a uma estrutura de lei divinamente ordenada. De acordo com Dooyeweerd, a lei de Deus seria a condição de possibilidade e o que estabelece os limites de absolutamente toda a realidade, normatizando o funcionamento dela em sua integralidade, desde os aspectos mais básicos como o numérico ou o espacial, passando pelos intermediários como o analítico e o linguístico até aos mais complexos como o estético, o ético e o pístico (relativo à fé).[28] Em segundo lugar, a doutrina da soberania de Deus encontra fundamento também na compreensão radical da doutrina da redenção. As palavras de Kuyper nos remetem a essa doutrina ao se referirem a Cristo. Para o sistema de vida calvinista, a salvação de Deus em Cristo possui uma extensão cósmica, e não diz respeito apenas a parte do homem, mas ao homem todo; e não apenas ao homem, mas a partir dele se estende a toda a realidade.[29]

A partir dessa compreensão radical das doutrinas da criação e da redenção, o neocalvinismo pode empregar o termo “integralidade” em seu sentido semântico – todo, inteiro, completo – e “missão” como o esforço humano de “fazer convergir para Deus toda a criação e toda vida que se desenvolve nela”.[30] Essa superação do dualismo básico natureza/graça permitirá, por fim, a superação do dualismo específico evangelização x ação social na missão da igreja, razão final pela qual sugerimos o neocalvinismo como perspectiva mais apropriada para a promoção da ampliação de nossa visão missiológica.

Filha da concepção neocalvinista de soberania é a ideia de “esferas de soberania” ou “soberania das esferas”.[31] Essa expressão foi cunhada e utilizada por Kuyper para, desafiando o absolutismo do estado moderno, afirmar o entendimento de que a soberania de Deus se manifesta socialmente no estabelecimento de um campo de atuação e de limites para as diversas instituições.

Num sentido calvinista nós entendemos que a família, os negócios, a ciência, a arte e assim por diante, todas são esferas sociais que não devem sua existência ao Estado, e que não derivam a lei de sua vida da superioridade do Estado, mas obedecem a uma alta autoridade dentro de seu próprio seio; uma autoridade que governa pela graça de Deus, do mesmo modo como faz a soberania do Estado. (...) Nesse caráter independente está necessariamente envolvida uma autoridade superior especial, a que intencionalmente chamamos de soberania das esferas sociais individuais, a fim de que possa estar claro e expresso que estes diferentes desenvolvimentos da vida social nada têm acima deles, exceto Deus, e que o Estado não pode intrometer-se aqui e nada tem a ordenar em seu campo.[32]

A partir dessa proposta do neocalvinismo holandês, a missão de sujeitar a realidade ao senhorio de Cristo é vista como uma missão coletiva. Em termos institucionais, ela não seria apenas a missão da igreja, mas a missão de cada instituição, dentro de sua esfera de atuação. Não apenas a igreja, mas “o casamento, a família, as instituições educacionais, o Estado e a sociedade como um todo devem ser organizados de acordo com os princípios cristãos”.[33]

Por consequência, seria correto dizer que a igreja possui um núcleo principal de ação que deve normatizar sua participação nesse esforço de sujeitar a realidade ao senhorio de Cristo. Segundo Kuyper esse núcleo seria promover a fé em Cristo pela pregação da Palavra, congregar os salvos e realizar serviço filantrópico ou diaconal.[34]

Ao definir a missão da igreja Kuyper enfatizou o elemento de proclamação do evangelho. Segundo ele, “para a glória de nosso Deus é necessário haver a regeneração seguida pela conversão, e a Igreja deve contribuir para esta conversão através da pregação da Palavra”.[35] Por isso, os outros dois elementos que compõem a missão da igreja são vistos em subordinação a esta tarefa de proclamação. O propósito da comunhão seria fortalecer esse testemunho. Nas palavras de Kuyper, “atiçar esta chama e fazê-la brilhar”.[36] E o serviço filantrópico ou diaconal teria como propósito manifestar o alcance da proclamação.

Isto é, revelar que “para o homem integral e para todos os aspectos da vida ele é o Christus Consolator”.[37]

Alguém pode afirmar que enfatizar a missão proclamatória da igreja seria uma visão limitadora do impacto da igreja na sociedade e na cultura. Contudo, tal afirmação revelaria ou uma visão imanente das causas da desordem social, ou uma visão limitada do poder e alcance redentor do evangelho. Pois, se partirmos da radicalidade da concepção calvinista da queda como causa de toda a desordem social, e de seu consequente apreço pelo evangelho como o poder de Deus para a transformação do homem em toda a sua relação com a realidade, a proclamação da igreja, compreendida em seu sentido amplo de aplicar o evangelho de Cristo a todas as esferas da vida, passa a ser vista como a mais fundamental necessidade para uma efetiva reforma da sociedade e da cultura, e a mais real contribuição da igreja para isso. Neste sentido, a perspectiva neocalvinista permite a superação do dualismo evangelização/ação social na missão da igreja, ao eliminar a polarização entre as duas coisas, apontando uma como efeito da outra. Ele sugere que ao invés de falar em uma coisa ou outra, ou numa coisa e outra, deveríamos falar em uma coisa pela outra.

Na prática, essa perspectiva desloca e aprofunda a questão do debate. Ao invés de nos perguntar: Deve a igreja abrir uma instituição de ensino escolar? Ela deve criar um grupo de artes? Deveríamos nos perguntar: Como uma igreja pode proclamar o evangelho de Cristo de tal modo aplicado à educação e aos relacionamentos que as instituições de ensino sejam levadas a imprimir os valores do Reino de Deus em seu exercício diário? Ou, como uma igreja proclama o evangelho de Cristo de tal modo aplicado à estética que a maneira de se fazer arte seja generalizadamente impactada? Talvez, ao fazer isso, igrejas locais pudessem descobrir vocações específicas e decidir proclamar as implicações do evangelho para determinada área da realidade, de modo especial e prático. Isso seria não apenas legítimo, mas desejável! Contudo o envolvimento da igreja neste caso deveria se dar, ainda, em subordinação à sua missão de proclamação do evangelho. Seu foco deveria ser não apenas a realização de determinadas atividades sociais ou culturais, mas a utilização delas como exemplo de como, pelo evangelho, pessoas e instituições podem trabalhar para “fazer convergir para Deus toda a criação e toda vida que se desenvolve nela”.[38] Neste caso, ela não estaria fazendo apenas evangelização e ação social/cultural, mas transformação social/cultural pela evangelização, aplicando o evangelho a todas as esferas da vida.

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Notas:
[1] KIVITZ, E. R. O evangelho integral. Disponível em: 
http://edrenekivitz.com/blog/tag/missao-integral/. Acesso em: 18 fev. 2014.
[2] KIVITZ, 2014.
[3] REIS, G. J. B. dos. C. René Padilla: introdução à sua vida, obra e teologia. São Paulo: Arte Editorial, 2011, p. 85-86.
[4] GONDIM, R. Missão Integral: Em busca de uma identidade evangélica. São Paulo: Fonte Editorial, 2010, p. 20.
[5] NÓBREGA, E. R. Missão Integral: Fundamentos teológicos e implicações práticas. João Pessoa: Betel Publicações & Ministério Mais que Palavras, 2011, p. 21-22.
[6] CARVALHO, G. V. R. de. A missão integral na encruzilhada: Reconsiderando a tensão no pensamento teológico de Lausanne. In: RAMOS, L.; CAMARGO, M.; AMORIM, R. Fé cristã e cultura contemporânea. Viçosa: Ultimato, 2009, p. 17.
[7] Um pensamento “sintético” é um sistema teórico construído na interação entre elementos original e estruturalmente cristãos e elementos de sistemas teóricos apóstatas, cujo ponto de partida é imanente.
[8] O erro básico do marxismo seria “assumir que é possível explicar as concepções estéticas, jurídicas, morais e písticas em termos de uma reflexão ideológica de um sistema econômico de produção”. DOOYEWEERD. A New Critique of Theoretical Thought. 3ª ed. Paideia: Ontario, 1984, v. 2, p. 293. Minha tradução.
[9] GONDIM, 2010, p. 20.
[10] Cf. GONDIM, 2010, p. 20.
[11] SANCHES, S. de M. A teologia da missão integral como teologia evangélica contextual latino-americana. Revista Caminhando v. 15, n. 1, p. 65-85, jan./jun. 2010, p. 76.
[12] RAMOS, A. Palestra no Fórum Jovem de Missão Integral. Disponível em: http://www.irmaos.com/artigos/?id=2432. Acesso em: 3 abr. 2014.
[13] Cf. RAMOS, 2014.
[14] GONDIM, 2010, p. 20.
[15] Samuel Escobar, sobre a origem da Fraternidade Teológica Latino-Americana: “Existia o convencimento de que fazia falta um ponto de encontro que permitisse aos evangélicos pensantes entender melhor o Evangelho e sua pertinência ante a crítica situação de nossos países. Havia um desejo de unir-se e ajudar-se mutuamente a escutar com clareza a voz do Espírito Santo para seu povo na América Latina. Não nos sentíamos representados pela teologia elaborada na América do Norte e imposta através de seminários e institutos bíblicos dos evangélicos conservadores, cujos programas e literatura eram tradução servil e repetitiva, forjada em uma situação totalmente estranha à nossa. Tampouco nos sentíamos representados pela teologia elitista dos protestantes ecumênicos, geralmente calcada em moldes europeus e distante do espírito evangelizador e das convicções fundamentais das igrejas evangélicas majoritárias do continente americano”. ESCOBAR, S. La fundación de la Fraternidad Teológica Latinoamericana: Breve ensayo histórico. In: PADILLA, C. R. (org). 25 Años de Teologia Evangelica Latino Americana. Buenos Aires: FTL, 1995, p. 16. Mario Vieira de Mello, sobre o antitradicionalismo marxista: “...o que mais impressiona em tal doutrina é a petulância, é a arrogância com que cinco mil anos de existência histórica são assim descartados e reduzidos a uma crônica de acontecimentos sem idoneidade ou transparência. Nenhum outro pensamento do mundo ocidental, seja ele o de Descartes, o criador da dúvida metódica, o de Rousseau, o denegridor da sociedade, ou mesmo o do grande rebelde que foi Friedrich Nietzsche, ousou repudiar a tradição cultural da maneira por que o fez o marxismo. (..) É como se tivéssemos subitamente encontrado um marciano que se risse ou se compadecesse dos nossos pobres esforços intelectuais no sentido de verificar hipóteses por meio de experiências, de conceber a verdade das relações matemáticas, ou mesmo de articular ideias. A ruptura com o passado é, no marxismo, total”. MELLO, M. V. de. Desenvolvimento e cultura: O problema do estetismo no Brasil3ª ed. Brasília: Funag, 2009, p. 55.
[16] Carvalho sustenta que a falta desse lastro teológico conduziria a uma teologia genérica, definida como: “uma teologia de baixo custo, acessível a todos, adaptável aos cristãos de todas as tradições, com apelo suficiente para mobilizá-los à ação”, e localiza sua fonte na “possibilidade de criar soluções teológicas originais, contextualizadas, independentes do debate entre as grandes tradições europeias”. Cf. CARVALHO, 2009, p. 44.
[17] Cf. BARRO, A. C. Revisão do marco da missão integral. In: Congresso Brasileiro de Evangelização, 2. Missão Integral: proclamar o reino de Deus vivendo o evangelho de Cristo. Viçosa: Ultimato, 2004, p. 75-76.
[18] Cf. LIMA, Leandro A. de. O futuro do calvinismo. São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 71-72.
[19] CARVALHO, 2009, p. 53-54.
[20] CARVALHO, 2009, p. 53.
[21] CALVINO, João. As Pastorais. São Paulo: Paracletos, 1998, p. 262.
[22] Pensamento imanente é todo pensamento que procura explicar a realidade ignorando a relação dela com Deus.
[23] Cf. KUYPER, Abraham. Calvinismo. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.
[24] Cf. SCHAEFFER, Francis. A morte da razão. 8ª ed. São Paulo: ABU, 2001, p. 9-10.
[25] Cf. SCHAEFFER, 2001, p. 7.
[26] CARVALHO, 2009, p. 48.
[27] BRATT, James D. Abraham Kuyper: A Centennial Reader. Grand Rapids: Eerdmans, 1998, p. 488.
[28] Cf. KALSBEEK, L. Contours of a Christian Philosophy: An Introduction to Herman Dooyeweerd’s Thought: a supplement to the collected works of Herman Dooyeweerd. Lewiston, NY: Edwin Mellen Press, 2002, p. 100.
[29] Cf. CARVALHO, G. V. R. de. O senhorio de Cristo e a missão da igreja na cultura. In: RAMOS, L.; CAMARGO, M.; AMORIM, R. Fé cristã e cultura contemporânea. Viçosa: Ultimato, 2009, p. 64. [30] KUYPER, 2002. p.62. É importante esclarecer que o neocalvinismo não sustenta uma visão otimista ingênua do impacto do evangelho sobre a realidade nesta atual conjuntura. Kuyper sustenta que uma vida completamente redimida não se manifestará “antes do segundo advento” (KUYPER, 2002, p. 69). Por consequência, o incentivo do neocalvinismo ao esforço para sujeitar a realidade ao senhorio de Cristo não se dá na esperança de que uma transformação completa da realidade aconteça no atual momento, mas de que a conformidade da realidade ao projeto criacional e a antecipação do reino vindouro, promovem a glória de Deus e o bem comum (Cf. KUYPER, 2002, p. 80-81).
[31] Cf. KUYPER, 2002, p. 86.
[32] KUYPER, 2002, p. 98.
[33] VAN TIL, H. R. O conceito calvinista de cultura. São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 155.
[34] Cf. KUYPER, 2002, p. 74-76.
[35] KUYPER, 2002, p. 74.
[36] KUYPER, 2002, p. 75.
[37] KUYPER, 2002, p. 75.
[38] KUYPER, 2002. p. 62.

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Sobre o autor: O autor é ministro presbiteriano formado pelo Seminário Teológico Rev. José anoel da Conceição. É licenciado em Filosofia pelo Centro Universitário Assunção, mestre em Teologia Filosófica pelo CPAJ e em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atua como professor assistente na área de teologia filosófica no CPAJ e professor do departamento de cultura geral do Seminário JMC.

Fonte: Revista Fides Reformata - XIX, Nº 1 (2014), p. 61-72.
Divulgação: Bereianos

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