Instruções para o Culto Familiar

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Escrita pelos teólogos da Assembléia de Westminster

Aprovado pela Assembléia Geral da Igreja da Escócia para Piedade e
Uniformidade no Culto Individual e Familiar e Edificação Mútua

Ato da Assembléia Geral de 1647 com Relação à sua Observância
Assembléia em Edinburgh 24 de agosto de 1647 Décima Sessão


ATO QUANTO À OBSERVÂNCIA DAS INSTRUÇÕES DA ASSEMBLÉIA GERAL PARA O CULTO INDIVIDUAL E FAMILIAR E EDIFICAÇÃO MÚTUA; E QUANTO ÀS CENSURAS PELA NEGLIGÊNCIA DO CULTO FAMILIAR.

A Assembléia Geral, após madura deliberação, aprova as seguintes Normas e Instruções para promover a piedade, e prevenir divisões e cismas; e designa ministros e presbíteros em cada congregação para tomarem especial cuidado, a fim de que estas Instruções sejam observadas e seguidas; bem como, de igual modo, os presbitérios e sínodos para que verifiquem e julguem se essas Instruções estão sendo observadas em suas fronteiras; e reprovem e censurem (de acordo com a gravidade da ofensa), os que forem achados reprováveis e censuráveis a esse respeito. E, a fim de que estas Instruções não se tornem ineficazes e não proveitosas entre alguns, devido à costumeira negligência à própria substância do dever do culto familiar, a Assembléia determina e aponta ministros e presbíteros para investigarem e averiguarem, nas congregações sob seus respectivos cuidados, se há entre eles alguma família ou famílias que costumam negligenciar este necessário dever; e se for descoberta tal família, o cabeça da família deve ser primeiramente advertido em privado a corrigir sua falta; e, em caso de insistência na falta, deve ser solene e seriamente advertido pela sessão (concílio); após o que, se ele continuar negligenciando o culto familiar, deve ser, por sua obstinação em tal ofensa, suspendido e impedido de participar da ceia do Senhor, visto ser justamente considerado indigno de comungar, enquanto não se corrigir.


INSTRUÇÕES DA ASSEMBLÉIA GERAL, CONCERNENTES AO CULTO INDIVIDUAL E FAMILIAR, E MÚTUA EDIFICAÇÃO; PARA A PROMOÇÃO DA PIEDADE E MANUTENÇÃO DA UNIDADE, E PARA EVITAR CISMAS E DIVISÕES.

Além do culto público em congregação, misericordiosamente estabelecido nesta terra em grande pureza, é apropriado e necessário que o culto individual de cada pessoa à sós e o culto familiar sejam estimulados e organizados, para que, com a reforma nacional, a profissão e o poder da piedade, tanto pessoal como domésticos prosperem.

A Necessidade do Culto Individual

I. Primeiramente, com relação ao culto individual, é extremamente necessário que cada um à parte, e por si mesmo, se dê à oração e meditação. O indizível benefício advindo disso é melhor conhecido por aqueles que são mais exercitados nesta prática. Este é o meio pelo qual, de modo especial, a comunhão com Deus é nutrida, e uma correta preparação para todos os demais deveres é alcançada. Portanto, cabe aos pastores, entre seus diversos deveres, pressionar toda sorte de pessoas a executarem esse dever pela manhã e à noite, e em outras oportunidades. É também dever do cabeça de cada família zelar no sentido de que ele mesmo, e todos os que estão sob sua autoridade, sejam diligentes nisso diariamente.

Ordem para o Culto Familiar

II. Os deveres ordinários compreendidos no exercício da piedade que devem ser realizados em famílias quando reunidas com este propósito são os seguintes: Primeiro, oração e louvores, com referência especial, tanto à condição pública da igreja de Deus neste reino, como à presente situação da família e de cada um dos seus membros. A seguir, leitura das Escrituras e explicação de um modo claro, a fim de que a compreensão dos mais simples possa ser melhor capacitada a tirar proveito das ordenanças públicas e a entenderem melhor as Escrituras; bem como conversas piedosas com vistas à edificação de todos os membros na mais santa fé; assim como, admoestação e repreensão, quando há justa razão, por parte daqueles que estiverem em posição de autoridade na família.

Uso Apropriado das Escrituras no Culto Familiar

III. O ofício de interpretar as Escrituras Sagradas é parte da vocação ministerial, o qual ninguém (embora de outro modo qualificado) deveria atribuir a si mesmo em nenhum lugar, exceto aquele que é chamado para isso por Deus e por sua igreja. Entretanto, em cada família onde houver alguém que possa ler, as Escrituras devem ser lidas ordinariamente para a família; e é recomendável que depois disso confiram, e por meio de conferência (conversas), façam bom uso do que foi lido e ouvido. Assim, se por exemplo, algum pecado for reprovado pela palavra lida, deve-se fazer uso dela no sentido de que toda a família se torne prudente e vigilante contra o mesmo; ou, em se tratando da menção de algum julgamento, deve-se fazer uso do texto lido a fim de que toda a família tema, de sorte que não recaia sobre ela julgamento semelhante ou pior; e finalmente, se algum dever for requerido, ou algum conforto oferecido em uma promessa, deve-se fazer uso disso para estimular a família a buscar força em Cristo a fim de serem habilitados a cumprir o dever requerido, e a aplicar o conforto oferecido. Tudo deve ser dirigido pelo cabeça da família; e qualquer de seus membros pode propor uma pergunta ou dúvida para ser solucionada.

A Responsabilidade do Marido/Pai

IV. A cabeça da família deve zelar a fim de que nenhum membro da família deixe de participar de qualquer parte do culto familiar; e, visto que a realização ordinária de todas as partes do culto familiar pertence propriamente a cabeça da família, o ministro deve estimular os que forem preguiçosos e instruir os que forem fracos, a fim de que se habilitem para estes exercícios. É possível, porém, que pessoas habilitadas, aprovadas pelo presbitério, realizem esta instrução. Nos casos em que o chefe da família for incapacitado, outra pessoa da família, aprovada pelo ministro e pela sessão (concílio), pode ser empregada nesse serviço, devendo o presbitério ser notificado. E se um ministro, pela providência divina, vier a alguma família, ele não deve reunir apenas uma parte dela para o culto, excluindo os demais, exceto em casos especiais que envolvam estas pessoas em particular e quando (pela prudência cristã) os demais não devam tomar conhecimento.

Líderes de Fora Não Permitidos

V. Não permitam que nenhum desocupado, não vocacionado, ou pessoa sem atividade ou com o pretexto de um chamamento, realizem culto nas famílias; visto que pessoas corrompidas, com erros ou que procuram divisão, podem estar prontos para penetrar sorrateiramente nas casas e cativar pessoas néscias e instáveis.

Os Que São Admitidos no Culto Familiar

VI. Um cuidado especial deve ser tomado a fim de que cada família se reúna sozinha para o culto familiar; não requerendo, convidando nem admitindo membros de outras famílias, a menos que se trate de pessoas hospedadas, ou que participem da mesa da família, ou que se encontrem com eles em alguma ocasião legítima.

VII. Por melhores que tenham sido os efeitos e frutos de encontros de pessoas de famílias diferentes, em tempos de corrupção e dificuldades (em cujas circunstâncias muitas coisas tornam-se recomendáveis, embora sejam intoleráveis em circunstâncias normais), ainda assim, quando Deus nos abençoa com a paz e pureza do evangelho, tais reuniões de pessoas de famílias diversas (exceto nos casos mencionados nestas Instruções) devem ser reprovadas, por tenderem a ser um empecilho ao exercício espiritual de cada família por si mesma, por serem prejudiciais ao ministério público, por afastar as famílias das suas congregações, e com o decorrer do tempo, de toda a igreja. Além disso, muitos erros podem advir dessa prática, os quais endurecem o coração dos homens carnais, e entristecem os piedosos.

A Família no Dia do Senhor

VIII. No dia do Senhor, após cada membro da família à parte, e toda a família reunida haverem buscado o Senhor (em cujas mãos está a preparação do coração do homem), para prepará-los para o culto público e abençoar as ordenanças públicas, o cabeça da família deve zelar a fim de que todos os que estão sob seus cuidados estejam presentes no culto público e se unam aos demais membros da congregação; e, terminado o culto público, após a oração, devem considerar o que ouviram, e gastar o restante do dia livre em estudos e conversas familiares sobre a palavra de Deus; ou então, cada um à parte, deve aplicar-se à leitura, meditação e oração, a fim de que possam confirmar e aumentar sua comunhão com Deus; de modo que os benefícios adquiridos por meio das ordenanças públicas sejam desenvolvidos e promovidos, e eles sejam mais edificados para a vida eterna.

Oração Familiar

IX. Todos os que podem conceber a oração, devem fazer uso deste dom de Deus. Embora os rudes e mais fracos possam começar com orações fixas, não devem fazê-lo de modo a se tornarem lerdos em estimularem em si mesmos (de acordo com suas necessidades diárias) o espírito de oração, o qual é conferido em alguma medida a todos os filhos de Deus. Para isso, eles devem ser mais fervorosos (sinceros) e freqüentes na oração em secreto a Deus, pedindo que seu coração seja habilitado a conceber, e sua língua a expressar desejos apropriados por sua família. Enquanto isso, para o maior encorajamento dessas pessoas, elas devem meditar e fazer uso dos seguintes assuntos em suas orações:

Confessem a Deus o quão indignos são para virem à Sua presença, e quão despreparados estão para cultuar Sua Majestade; e, conseqüentemente, supliquem diligentemente que Deus lhes confira espírito de oração.
Confessem seus pecados, e os pecados da família, acusando, julgando e condenando a si mesmos por isso, até que suas almas experimentem alguma medida de verdadeira humilhação.
Derramem suas almas diante de Deus, em nome de Cristo, por intermédio do Espírito, suplicando pelo perdão dos pecados, por graça para arrepender-se, para crer e para viver sóbria, reta e piedosamente; e para servir a Deus com alegria e prazer, andando na Sua presença.
Agradeçam a Deus por Suas muitas misericórdias para com o Seu povo, e para com vocês mesmos, especialmente por seu amor em Cristo, e pela luz do evangelho.
Orem pedindo os benefícios particulares, espirituais e temporais, que estejam necessitando no momento, na saúde ou na doença, na prosperidade ou na adversidade.
Intercedam pela Igreja de Cristo em geral, por todas as igrejas reformadas, e por sua igreja em particular, e por todos os que estão sofrendo pelo nome de Cristo; por todas as nossas autoridades superiores, pelo rei, pela rainha e seus filhos; pelos magistrados, ministros, e por todo o corpo da congregação da qual são membros, bem como por seus vizinhos ausentes envolvidos com os seus afazeres legais, bem como por todos os que estejam em casa.

A oração pode ser encerrada com a expressão de um sincero desejo que Deus seja glorificado na vinda do reino do Seu Filho, do cumprimento da Sua vontade, e da convicção de que vocês são aceitos, e de que o que pediram de acordo com a Sua vontade será feito.

A Urgência do Culto Familiar

X. Estes exercícios devem ser realizados com grande sinceridade, sem procrastinação, colocando de lado todas as atividades seculares ou impedimentos, a despeito da zombaria dos homens ateus e profanos, em respeito às grandes misericórdias de Deus para com esta terra, e às severas correções às quais Ele anteriormente fez vir sobre nós. Com vistas ao cumprimento desses exercícios, pessoas eminentes (e todos os presbíteros da igreja), não apenas devem estimular-se a si mesmos e suas famílias a serem diligentes nesse dever, mas também devem agir efetivamente, no sentido de que em todas as outras famílias sob seus cuidados ou influência, estes exercícios sejam conscientemente realizados.

Ocasiões Especiais para o Culto Familiar

XI. Além desses deveres familiares ordinários, mencionados acima, deveres extraordinários, tanto de humilhação como de agradecimento, devem ser cuidadosamente levados a efeito nas famílias, sempre que o Senhor os requeira, por meio de ocasiões extraordinárias privadas ou públicas.

A Necessidade de Edificação Mútua

XII. Visto que a Palavra de Deus requer que nos consideremos uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras, em todas as épocas, e especialmente nesta, quando a impiedade abunda, e os escarnecedores, andando em suas próprias concupiscências, estranham que outros não concorram com eles ao mesmo excesso de devassidão; cada membro desta igreja deve estimular-se a si mesmo e uns aos outros aos deveres de edificação mútua, pela instrução, admoestação, repreensão, exortando uns aos outros a manifestar a graça de Deus, renegando a impiedade e as paixões mundanas, e vivendo sensata, justa e piedosamente neste presente século, confortando os fracos, e orando uns pelos outros. Estes deveres devem ser levados a efeito especialmente em ocasiões especiais oferecidas pela providência Divina; como, por exemplo, quando ocasiões de calamidade, adversidade ou grandes dificuldades, exigem conselho e conforto; ou quando um ofensor precisa ser admoestado privadamente, e, não sendo isso suficiente, a presença de mais uma ou duas pessoas se faça necessária, de acordo com a regra de Cristo, a fim de que pela boca de duas ou três testemunhas, toda a verdade possa ser estabelecida.

Aconselhamento

XIII. Visto que não é dado a todos falar de modo apropriado a pessoas que necessitam de aconselhamento, conforto ou repreensão, faz-se necessário que tais pessoas, nessa situação, não encontrando paz após terem feito uso de todos os meios ordinários privados e públicos, dirijam-se ao seu pastor, ou a outro crente experiente. Se, contudo, a pessoa com dificuldade de consciência, for de uma condição ou sexo que a discrição, modéstia ou temor de escândalo requeira que um amigo íntimo, sóbrio e sério esteja presente com eles em tal difícil ocasião, é imprescindível que tal amigo se faça presente.

Casos excepcionais

XIV. Quando pessoas de famílias diferentes forem reunidas pela providência Divina, seja devido à vocação comum, ou por qualquer outra circunstância necessária, visto que devem ter sempre a presença do Senhor deles consigo aonde quer que forem, tais pessoas devem falar com Deus, e não negligenciar o dever da oração e da ação de graças. Devem, contudo, ter prudência para que a oração seja feita por aquele que, dentre o grupo, for julgado capacitado para tal. Devem, de modo semelhante, ter prudência para que conversas corrompidas não lhes saiam da boca, mas apenas o que for bom para a edificação, e para ministrar graça aos ouvintes.

As Principais Razões destas Instruções

O propósito e escopo destas Instruções não é outro senão, por um lado, nutrir e promover o poder e a prática da piedade entre ministros e membros desta igreja, de conformidade com suas diversas posições e vocações; e reprimir toda impiedade e fingimento dos exercícios religiosos. E, por outro lado, impedir que, sob o nome e pretexto de exercícios religiosos, seja permitida qualquer reunião ou prática que possa degenerar em erro, escândalo, divisão, desacato ou desconsideração para com as ordenanças públicas e ministros, ou negligência dos deveres dos chamados particulares, ou quaisquer outros males, os quais são obras não do Espírito, mas da carne, e são contrárias à verdade e à paz.

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Fonte: The Directory for Family Worship (Greenville, South Carolina: Greenville Presbiterian Theological Seminary, 1994).
Tradução: Rev. Paulo R. B. Anglada
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Creio no Espírito Santo

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Creio no Espírito Santo; na Santa Igreja Universal; na comunhão dos santos; na remissão dos pecados; na ressurreição do corpo; na vida eterna. Amém.


Chegamos à parte final do Credo, que tem como “Creio” a terceira Pessoa da Trindade, o Espírito Santo. O Credo, de forma lógica, após tratar da ascensão de Cristo, mostra agora a pessoa do Espírito Santo no estabelecimento da Igreja, a comunhão dos santos que estão espalhados pelo mundo entre povos, línguas e nações, a remissão de pecados, a nossa ressurreição no último dia e a entrada na vida eterna como parte de sua confissão. 

1. O Espírito Santo

Por que cristãos precisam de confissões

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Por Carl Trueman


Ao contrário do que se diz, o mundo cristão não é dividido entre aqueles que têm credos e confissões e aqueles que têm apenas a Bíblia. É, na verdade, dividido entre aqueles que têm credos e confissões e as tornam públicas, abertas ao escrutínio público e à correção, e aqueles que os têm porém não os tornam públicos. A razão é simples: toda igreja (e, na verdade, todo cristão) acredita que a Bíblia significa algo, e aquilo que se crê que a Bíblia significa é seu credo e sua confissão, quer escolha escrever e formalizar suas crenças ou não.

É claro que aqueles que afirmam não ter credo algum a não ser Cristo e livro algum a não ser a Bíblia estão, geralmente, tentando proteger algo importante e bíblico: a suprema autoridade das Escrituras em todos os assuntos de fé e prática cristãs. Há um temor correto em relação a permitir que ideias e tradições não bíblicas impactem a substância daquilo em que a igreja crê. Mas mesmo com todas as boas intenções que eles provavelmente têm, eu acredito que o que querem proteger – o status único das Escrituras – é, na verdade, melhor protegido por meio de documentos confessionais explícitos, conectados à uma forma cuidadosamente pensada de governo da igreja.

De fato, e até ironicamente, são aqueles que não expressam sua confissão em forma de um documento escrito que estão em perigo de elevar sua tradição acima das Escrituras de maneira que a primeira pode nunca ser controlada pela segunda. Se uma igreja tem um documento dizendo que é dispensacionalista em relação à escatologia, então todos nós sabemos qual é a posição dela em relação ao fim dos tempos, e podemos fazer como os crentes de Beréia e testar a posição dessa igreja de acordo com as Escrituras e ver se é isso mesmo. A igreja que simplesmente fala que a posição dela em relação ao fim dos tempos é a mesma que é ensinada na Bíblia parece estar falando tudo, mas, na verdade, não está falando nada.

Em resumo, credos e confissões, ligados à política eclesiástica bíblica, são uma parte vital da manutenção da vida saudável da igreja do Novo Testamento. Aqui estão sete razões pelas quais toda igreja deveria tê-los.

1) Confissões delimitam o poder da igreja

Numa era em que as palavras, especialmente palavras de afirmações reivindicando a verdade, sempre são tidas como suspeitas de fazerem parte de algum jogo manipulador de poder, então é contra-intuitivo pensar que confissões delimitam o poder da igreja. Porém, um pouco de reflexão torna claro que é exatamente isso que elas fazem. Os oficiais da igreja têm autoridade apenas em relação aos assuntos que a confissão define. Dessa forma, se alguém na igreja declara que a trindade é uma bobagem ou comete adultério, os oficiais tem tanto o direito quanto o dever de intervir. Os dois pontos são tratados nos Padrões de Westminster. Porém, se alguém quiser aparecer na igreja com um terno amarelo fluorescente ou decidir se tornar vegetariano, os oficiais não têm o direito de intervir. Eles talvez tenham reservas pessoais quanto à forma apropriada das pessoas se vestirem ou podem se questionar como alguém poderia viver sem um hambúrguer de vez em quando, mas não é dever da igreja abordar nenhuma dessas questões. De fato, isso é o que impede a igreja de se tornar seita: afirmações claras e abertas sobre onde a autoridade da igreja começa e termina, conectada à processos transparentes de exercitar essa autoridade.

2) Confissões oferecem resumos sucintos da fé

Se você tem em sua estante ou em seu bolso uma cópia dos Padrões de Westminster, então você tem mais teologia de qualidade por página do que qualquer outra coisa a não ser a Bíblia. Tomos teológicos parecem muitas vezes vastos e hostis, e poucos tem tempo para lê-los. O Breve Catecismo de Westminster, entretanto, pode ser carregado no seu bolso, lido em poucos minutos, e facilmente memorizado. É todo um currículo teológico numa forma de fácil digestão. É claro que existem outros livros por aí que fazem a mesma coisa. Mas existe algum que faça isso de forma tão eficiente e de fácil digestão? A igreja que possui uma boa confissão e um bom catecismo já tem uma ferramenta de ensino pronta para ensinar pouco a pouco a verdade para seu povo.

A história provou isso várias vezes. Aqui temos, por exemplo, a afirmação de B. B. Warfield em 1909:

Qual é “a marca indelével do Breve Catecismo”? Nós temos a seguir fragmentos da experiência pessoal de um general oficial do exército dos EUA. Ele estava em uma grande cidade do ocidente num tempo de muita excitação e de revoltas violentas. As ruas eram invadidas diariamente por uma multidão perigosa. Um dia, ele observou que se aproximava dele um homem com uma singular combinação de calma e firmeza no semblante, cujo comportamento inspirava confiança. Ele estava tão impressionado com o porte desse homem em meio ao alvoroço que, quando o homem passou por ele, ele se virou para olhá-lo, apenas para ver que o estranho fez a mesma coisa. Por observar que ele se virou, o estranho veio ao seu encontro, e tocou o seu peito com o dedo indicador, exigiu uma resposta, sem precedentes: “Qual o fim principal do homem?”, e  ao perceber o código, o oficial respondeu: “O fim principal do homem é glorificar a Deus, e gozá-lo para sempre.” – “Ah!”, o homem disse, “eu sabia que você era um garoto do Breve Catecismo só pelo seu olhar!”, “Uau! Isso era justamente o que eu estava pensando de você!”, foi a resposta. (Selecionado de “Shorter Writings”, vol. 1, 383-84).

E o comentário lacônico de Warfield posterior a essa história é: “Vale a pena ser um garoto do Breve Catecismo. Eles crescem para ser homens. E melhor do que isso, eles estão extremamente aptos a crescerem para ser homens de Deus”. A razão, claro, é que o Breve Catecismo é, indiscutivelmente, uma excelente e concisa declaração de todo o conselho de Deus.

3) Confissões permitem uma distinção apropriada entre membros e oficiais da igreja

Há um debate dentro dos círculos reformados sobre qual deve ser exatamente a quantidade de conhecimento doutrinário exigida para se tornar membro de uma igreja. Para mim, acredito que Romanos 10 indica que o limite deve ser ajustado de acordo com o padrão mais baixo e não o mais alto do espectro. Uma confissão básica, a medida que é combinada com espírito humilde e que aceita a repreensão, é o bastante.

Mesmo que alguns discordem que o limite deve ser baixo, todos devem concordar que deve haver diferença entre o nível de conhecimento requerido de um oficial da igreja e de um novo membro. O nível em que alguém começa sua vida cristã não pode ser o mesmo daquele em que se estará no fim dessa vida. Deve haver crescimento em maturidade, e um aspecto disso é o crescimento do conhecimento doutrinário, e os documentos confessionais de uma igreja oferecem um roteiro ou uma lista de requerimentos daquilo que dá densidade e estrutura a esse crescimento. A igreja sem confissão, ou apenas com o mínimo de afirmações sobre sua doutrina, tem a desvantagem de não ser capaz de, perante  o povo, estabelecer qualquer visão bíblica do que a teologia de um cristão maduro deve ser.

4) Confissões enfatizam o que é mais importante

Talvez fosse possível expressar esse ponto de forma negativa: se não estiver na confissão, vai ser difícil defender que é um ponto de muita importância. Essa é uma das razões pelas quais as confissões devem ser um tanto elaboradas. Se, por exemplo, uma igreja tem uma base doutrinária ou uma confissão de 10 pontos, o problema que os oficiais terão que enfrentar é como convencer o povo de que um décimo primeiro ponto doutrinário é realmente importante. Se algo não está na confissão, então a igreja está funcionalmente permitindo a liberdade de consciência nesse ponto. Por exemplo, se a confissão não faz referência ao batismo, permitem que tanto pedobatistas quanto credobatistas ocupem o cargo de oficial, então o batismo é transformado em um assunto de indiferença prática. O mesmo se aplica para qualquer doutrina – perseverança, santificação, escatologia: se não é mencionado, então a igreja não tem uma posição oficial nisso e é relegado a ser um assunto de menor importância.

Novamente, para voltar ao ponto anterior: o novo convertido ou novo membro não saberá, necessariamente, no momento em que se junta à igreja, o que é importante e o que é indiferente. Uma boa e elaborada confissão provê à igreja não só um ótimo mapa pedagógico, mas também uma boa fonte de ensino para as pessoas sobre aquilo que realmente importa e sobre o porquê.

5) Confissões relativizam o presente e nos conectam ao passado

Todos sabemos que o cristianismo não é reinventado a cada domingo. Todos nós nos firmamos em uma base que foi construída para nós por muito irmãos e irmãs em Cristo que se foram antes de nós. Entretanto, frequentemente somos tentados a viver como se isso não fosse verdade. Isso dificilmente é surpresa, já que vivemos numa era onde as forças anti-históricas da cultura geral são poderosas e invasivas. Seja um comercial nos dizendo que a próxima aquisição irá nos trazer felicidade ou a ciência prometendo algum avanço que irá tornar nossas vidas mais fáceis, tudo a nossa volta aponta para o futuro como o que é mais importante e, certamente, vastamente superior ao passado.

Em contraste, o cristianismo é uma religião enraizada na história. Ele é constituído pelas ações históricas de Deus culminando em Cristo, e ele vem a nós pela articulação fiel e preservação de sua mensagem pela igreja de Deus durante os séculos. Isso é profundamente contracultural e algo do qual precisamos ser constantemente relembrados. Ironicamente, pode ser que aqueles que afirmam não ter credo algum a não ser a Bíblia estejam, na verdade, meramente refletindo o espírito da nossa geração com todo o seu triunfalismo anti-histórico.

Nesse contexto, o uso dos credos e confissões é um dos meios intencionais para nos conectarmos com o passado, nos identificarmos com a igreja das gerações passadas, e, assim, relativizar nosso próprio significado no grande propósito de tudo que existe. Recitar os antigos credos no culto é um exemplo prático disso. A afirmação dos documentos confessionais históricos, como uma expressão dos compromissos dos oficiais da igreja e o conteúdo das ambições pedagógicas da igreja para sua membresia é outro exemplo prático.

6) Confissões refletem a essência da nossa adoração

Quando eu ministro minha disciplina de Igreja Primitiva, sempre enfatizo que a dinâmica dos debates trinitarianos e cristológicos primitivos era doxológica e intrinsecamente conectada à adoração cristã. De forma simples, a afirmação da igreja primitiva “Jesus é o Senhor!” e a conjunção do Pai, do Filho e do Espírito Santo nos dizeres do batismo apontam diretamente para uma fundação de teologia profunda. Eles proveram o contexto para as discussões que acabariam por constituir o Credo Niceno e a Definição de Fé de Calcedônia. A tradição confessional da igreja começou com a reflexão a cerca do significado dos atos de adoração.

Por dois milênios, a adoração da igreja não mudou em seus pontos fundamentais – isto é, a declaração que Jesus é o Senhor e que a salvação é uma ação do Deus triúno: Pai, Filho e Espírito Santo – e nossas confissões explicam o conteúdo desses pontos.

Portanto, não devemos pensar que as confissões e doutrinas são contrárias à adoração vibrante. A posse de uma confissão, é claro, não se igualará à adoração vibrante, nem mesmo a garante, tanto quanto a mera existência de um código legal garante uma sociedade civilizada. Entretanto, as confissões são pré-requisitos para a adoração vibrante e consciente, são o sentido do que fazemos como cristãos.

Essa função confessional provavelmente se tornará mais visivelmente importante nos anos que estão por vir. À medida que outras religiões colidem com o cristianismo e, especialmente, algumas dessas religiões usam o mesmo tipo de vocabulário bíblico que usamos, será mais e mais crucial que entendamos não apenas as palavras que usamos, mas também o que essas palavras realmente significam. O seu amigável vizinho mórmon poderá muito bem concordar com você que Jesus é o Senhor e pode até cantar alguns dos mesmos hinos que você no culto. Assim, você terá que saber exatamente o que sua igreja quer dizer com “Jesus é o Senhor” ou com o batismo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Boas confissões te possibilitam fazer isso com mais facilidade do que qualquer outra coisa.

7) Confissões são uma parte vital do plano de Paulo para a igreja pós-apostólica

Quando Paulo escreveu, quando estava preso, para seu aprendiz, Timóteo, sua mente estava focada em como a igreja iria se virar quando ele e os outros apóstolos saíssem de cena. A resposta dele é composta por duas partes: uma estrutura na qual o governo da igreja fosse colocado nas mãos de homens ordinários, porém fiéis, e a forma de sãs palavras. Ambas eram necessárias. Sem a estrutura, a igreja não teria liderança; sem a forma de sãs palavras, ela iria se desviar por ventos de doutrina, perdendo contato com seu passado e com outras congregações no presente. Uma forma de sãs palavras, uma confissão, era crucial para manter tanto a continuidade com os apóstolos quanto a unidade entre os cristãos do presente. E isso é o que nossos documentos confessionais fazem hoje: eles nos ligam aos nossos irmãos e irmãs crentes do passado e aos do presente.

A exclamação “Nenhum credo, exceto Cristo, e nenhum livro, exceto a Bíblia!” tem uma aparência ilusoriamente piedosa e bíblica, mas não deveríamos nos envergonhar de sermos cristãos confessionais, pois as confissões nos capacitam a manter determinadas prioridades bíblicas. Nós deveríamos ser gratos por isso e, da mesma forma, tentar mostrar aos nossos irmãos e irmãs não confessionais um caminho melhor para preservar as coisas que são valiosas para todos os cristãos.

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Fonte: The Orthodox presbyterian Church
Tradução: Fernanda Vilela
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O culto cristão na perspectiva de Westminster

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Por Rev. Anderson Borges

Introdução

A Confissão de Fé de Westminster em seu vigésimo primeiro capítulo que trata sobre o culto religioso e do domingo, nos apresenta a seguinte afirmação:

A luz da natureza mostra que há um Deus que tem domínio e soberania sobre tudo; que é bom e faz bem todas a todos; e que, portanto, deve ser temido, amado, louvado, invocado, crido e servido de todo coração, de toda a alma e de toda a força; mas o modo aceitável de adorar o verdadeiro Deus é instituído por ele mesmo e tão limitado pela sua vontade revelada, que não deve ser adorado segundo as imaginações e invenções dos homens ou sugestões de Satanás, nem sob qualquer representação visível ou de qualquer outro modo não prescrito nas Santas Escrituras. (WESTMINSTER, 2007).

Ainda tratando do mesmo assunto supracitado a Confissão de Westminster também nos diz:


O culto religioso deve ser prestado a Deus - Pai, Filho e Espírito Santo – e somente a ele; não deve ser prestado nem aos anjos, nem aos santos, nem a qualquer outra criatura; nem, depois da queda, deve ser prestado a Deus pela mediação de qualquer outro, senão Cristo. (WESTMINSTER, 2007).

O princípio fundamental do culto reformado de Westminster repousa nestas duas afirmações que acabamos de ler. O que podemos extrair resumidamente destas é que o culto deve ser prestado somente por meio das Escrituras Sagradas e que somente o Deus triuno é digno de receber a nossa adoração, sem a mediação de nenhuma criatura, apenas por meio de Cristo.


O pensamento reformado de Westminster em relação ao culto é bem simples. O conceito de culto geral dos reformados é que o culto é prestado a Deus e a ele somente, sem a mediação humana e guiado somente pela Escritura. Porém cultuar a Deus de forma pura e simples é bastante complicado, principalmente após a queda, onde todas as nossas faculdades físicas e mentais foram manchadas pelo pecado, logo, o nosso culto também é falho. Temos então o grande desafio de cultuar a Deus de forma aceitável, partindo de um coração pecador e egoísta.

Princípios fundamentais do culto de Westminster

A quem deve ser o culto

O objeto do culto reformado é e sempre será o Deus triuno prescrito nas Escrituras sagradas. Quanto a este assunto, a Confissão de Fé de Westminster nos diz o seguinte:

O culto religioso deve ser prestado a Deus o Pai, o Filho e o Espírito Santo - e só a ele; não deve ser prestado nem aos anjos, nem aos santos, nem a qualquer outra criatura; nem, depois da queda, deve ser prestado a Deus pela mediação de qualquer outro senão Cristo. (WESTMINSTER, 2005 p.169)

Conforme o conceito de Westminster o culto não pode ser prestado a ninguém senão o Deus trino revelado nas Escrituras. Este conceito está totalmente de acordo com o que a Palavra de Deus ensina em várias passagens. Além disso, após a queda, que é o nosso caso, este culto não deve ser prestado por intermédio de nenhum outro que não seja Cristo que é o único mediador da aliança divina. No período medieval, a igreja dominante deixou-se levar por princípios humanos e o culto passou a ser oferecido por intermédio de homens não autorizados pelas Escrituras Sagradas.


Os reformados, entendendo que o pensar da igreja católica medieval estava desviado dos padrões estabelecidos pelas Escrituras, buscaram modificar o culto que até então era oferecido a Deus, por um culto puro e simples conforme proposto nas Escrituras. Estas nos ensinam o quanto Deus é zeloso pelo seu culto, e podemos perceber isto no estabelecimento do primeiro e segundo mandamentos relatados no livro de Êxodo:

Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não as adorarás, nem lhes darás culto; porque eu sou o SENHOR, teu Deus, Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem e faço misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos.” (Ex. 20.3-6).

Quanto a este assunto o teólogo Geerhardus Vos, comentando a pergunta 105 do Catecismo Maior de Westminster, nos diz o seguinte:

... Dividir a nossa devoção religiosa e dar parte dela ao verdadeiro Deus que nos criou e parte a alguma outra pessoa ou objeto de culto é extremamente ofensivo a Deus... Prestar culto a santos, anjos e quaisquer outras criaturas por que: (a) Não foram eles que nos criaram e por isso não têm direito à nossa devoção religiosa. (b) não foram eles que nos redimiram do pecado, e por isso a nossa gratidão pela salvação não lhes é devida, mas somente a Deus. (c) eles não são os mediadores entre Deus e nós, por que só existe um único mediador: o senhor Jesus Cristo. Por isso todo e qualquer culto religioso prestado a santos, anjos e quaisquer outras criaturas subtrai inevitavelmente o culto e honra que são devidos exclusivamente a Deus. (VOS, 2007, p.315, 326).

O reverendo Onézio também afirma:


A afirmação confessional de que o culto deve ser prestado exclusivamente a Deus procedeu da necessidade, nos tempos da reforma, de estabelecer nítida diferença entre o protestantismo emergente e o catolicismo dominante, não somente quanto ao endereçamento da adoração, mas também, e principalmente, ao teocentrismo monolátrico da fé reformada. Há um só Deus subsistente em três pessoas igualmente divinas: Pai, Filho e Espírito Santo, em quem cremos e a quem adoramos em espírito e em verdade. (FIGUEIREDO, p.218).

Podemos ver que o culto deve ser somente prestado a Deus e a mais nenhum outro. E nem deve ser pela mediação de qualquer pessoa ou criatura que não seja Cristo, o único mediador entre Deus e os homens. Portanto o culto jamais será aceitável se não for oferecido ao Deus verdadeiro revelado nas santas Escrituras na mediação do Seu Filho.


Como deve ser conduzido o culto
  
O culto reformado diferente do que temos visto em muitas denominações protestantes nos dias atuais, tem como princípio regulador da sua adoração as Escrituras Sagradas. Para os reformados é impossível oferecer um culto aceitável a Deus sem que este não seja conduzido pela sua Palavra. Eis ai um princípio inegociável para os reformados, a Confissão de Westminster nos diz que:

A luz da natureza mostra que há um Deus que tem domínio e soberania sobre tudo, que é bom e faz bem a todos, e que, portanto, deve ser temido, amado, louvado, invocado, crido e servido de todo o coração, de toda a alma e de toda a força; mas o modo aceitável de adorar o verdadeiro Deus é instituído por ele mesmo e tão limitado pela sua vontade revelada, que não deve ser adorado segundo as imaginações e invenções dos homens ou sugestões de Satanás nem sob qualquer representação visível ou de qualquer outro modo não prescrito nas Santas Escrituras. (WESTMINSTER, 2005, p. 168).

Este conceito expresso pelos teólogos de Westminster mais uma vez se mostra em perfeita harmonia com o ensino escriturístico, vejamos o evangelho de João no capítulo 4:


Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus. Mas vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores. Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade. (Jo 4.22-24).

Neste texto, conforme vimos no segundo capítulo deste trabalho, Jesus mostra que o modelo da antiga aliança está prestes a ser substituído por um novo modo de adorar, o culto deve ser prestado em espírito e em verdade, ou seja, deve partir de uma sincera disposição interior do ser humano e deve ser baseado na verdade que é a Palavra de Deus. Qualquer outra forma estará automaticamente descartada, pois, o princípio foi estabelecido pelo próprio Deus porque deste é o culto, então quem somos nós para adorarmos ao Senhor de outra forma? Ou será que as nossas idéias são melhores do que a de Deus? Ou pensamos melhor que Deus?


Mais uma vez recorremos a Geerhardus Vos que nos diz o seguinte:

Porque Deus é zeloso de Seu culto, isto é, Ele não está disposto a nos deixar fazer o que bem quisermos quando se trata de adorá-Lo. Deus é soberano, é supremo acima de todos, por isso somos obrigados a obedecer Sua vontade e Ele tem revelado na Escritura que é o seu desejo ser adorado estrita e unicamente conforme as Suas ordenanças, e não de outra forma qualquer. (VOS, 2007, p.335).

O reverendo Onézio Figueiredo também nos acrescenta com a seguinte afirmação:


O culto ao Deus revelado pelas Escrituras não é produto de invenção humana, como acontecia com a idolatria ou iconolatria dos povos pagãos, polilátricos por natureza... A lei possuía princípios gerais de comportamento, sem especificar particularidades e circunstâncias. O culto, porém, foi dado com minuciosidade de detalhes, tanto na forma física do templo, na escolha e especificação dos objetos sacros, na qualificação e indumentária dos ministrantes sacerdotais, na seleção dos animais destinados aos sacrifícios, como na operação dos ofícios litúrgicos (Ex, caps. 25 a 30). Deus não quis que o culto ficasse à mercê de preferências, desejos, escolhas e projetos humanos... O culto, portanto, não pode fugir aos parâmetros estatuídos na Palavra de Deus, pois não é realização humana, mas divina. (FIGUEIREDO, p. 216 – 217).

Para o pensamento reformado, um culto que não seja guiado pela Palavra de Deus, nunca em qualquer tempo ou época será aceito por Deus, não porque os reformados determinaram que assim fosse, mas porque a Bíblia nos ensina este princípio de forma muito transparente.


Os elementos do culto
  
O culto oferecido no Novo Testamento, apesar de estar mais “livre” quanto às questões ritualísticas do Antigo Testamento, aquele não é oferecido de forma aleatória, ele segue uma ordem, uma liturgia. As Escrituras nos trazem elementos que eram utilizados nas reuniões da Igreja neotestamentária que regiam o culto comunitário. O modelo litúrgico apresentado por Westminster nos mostram cinco elementos que faziam parte do culto público segundo as Escrituras, são eles: leitura da Bíblia, pregação da Palavra, oração, cânticos e administração dos sacramentos.
  
Leitura da Bíblia
  
A leitura do Antigo Testamento, nas reuniões da Igreja primitiva, nunca é mencionada de forma direta, mas apenas indiretamente. Mas, se a leitura do Antigo Testamento, não diretamente referida, o extenso uso e citação do mesmo no Novo Testamento, o conhecimento que os crentes primitivos demostravam ter daquelas Escrituras, bem como durante o período pós-apostólico, e nos escritos dos pais da igreja, nos faz crer que o Antigo Testamento era tão lido e estudado quanto o Novo Testamento. O alto valor conferido pelos primeiros cristãos às Escrituras é outro fato que precisa ser considerado. Assim, a leitura do Antigo Testamento, e cada vez mais, do Novo Testamento, certamente era uma porção constitutiva da adoração cristã primitiva.

No culto reformado seleciona-se os textos da Bíblia adequados a cada momento da liturgia, o mesmo pode ser lido pelo dirigente, quando se tratar de textos proclamatórios, imperativos ou exortativos. Alternadamente, quando um versículo é lido pelo dirigente e o seguinte pela comunidade; e assim, sucessivamente. Ou pode ser lido de forma responsiva: O dirigente lê um texto (com um ou vários versículos) e a comunidade responde com outro. Pode, por exemplo, o dirigente ler um salmo e a congregação responder com a leitura de outro. Esta leitura responsiva pode ser também do mesmo texto em que uma parte pergunta ou afirma e a outra responde. Exemplos: Salmo 136, em que o dirigente lê a primeira parte do versículo e a comunidade responde com a segunda. O mesmo se pode fazer com Mt 5.1-12. Não se deve confundir “leitura responsiva” com “leitura alternada”, que ocorre com versículos consecutivos ou sucessivos. Em muitos casos usa-se a leitura uníssona, esta é feita pelo dirigente e a comunidade concomitantemente. Neste caso, e para que a comunidade inteira participe, e a leitura seja realmente uníssona, deve-se adotar uma única versão das Escrituras para a Igreja toda.

Pregação da Palavra
  
Em contraste com a leitura da Bíblia, o ato de pregar é solidamente confirmado no Novo Testamento. Em Corinto, por exemplo, transparece a pregação sob a forma de exortação. Seguindo o exemplo deixado pelo Senhor Jesus; e ante a necessidade de evangelizar, de instruir e edificar, o ministério da Palavra sem dúvida era incluído em todos os encontros dos cristãos. Os apóstolos foram chamados especificamente para o ministério da Palavra, conforme o registro no livro de Atos no capítulo 6. Após este período, aprende-se que os pastores deveriam ser aptos para ensinar, conforme 2 Tm 3.2. Assim a pregação combinava vários aspectos da adoração, a saber: a declaração das obras de Deus, a confissão de fé, a oração subjacente a todas as atividades dos cristãos, o clímax atingido nos louvores e etc. Embora essa pregação não fosse exclusivamente expositiva, a maior parte era feita desta forma. Entre os cristãos gentios, especialmente, muita informação precisava ser transmitida a eles através da pregação da Palavra, pois, entre aqueles não havia a mesma familiaridade com as Escrituras como os crentes judeus tinham. 

A prédica jamais deixou de ocupar papel de destaque nas reuniões dos cristãos evangélicos através dos séculos. Todo período de reavivamento espiritual é antecedido por intensa e firme pregação do Evangelho.

Eis ai um princípio ao qual os reformados nunca abrem mão, a fiel pregação da Palavra de Deus. A pregação tem de ser estritamente da Palavra de Deus, conformada com a teologia bibliocêntrica dos nossos símbolos de fé. A mensagem bíblica é cristocêntrica por natureza, pois Cristo é o centro das Escrituras. A pregação não deve ser alegórica nem recheada de frases humorísticas, historietas inverídicas, lendas e mitologias. Analogias e comparações com fatos da vida real são permissíveis, desde que usadas com critério e bom senso. O pregador precisa ser um bom hermeneuta e um eficiente exegeta da sacra revelação.

Oração

A oração, no sentido mais específico de petição, naturalmente era um dos elementos mais básicos da adoração cristã primitiva. Entre a ascensão do Senhor e o derramamento do Espírito, a Igreja recebeu ordens para dedicar-se à oração cheia de expectação. As perseguições sofridas também levaram os crentes a caírem de joelhos diante do Senhor. E todas as necessidades que foram surgindo também proveram motivo e material para intercessão. Todavia, não há nenhuma descrição de como essas orações eram feitas. Talvez um líder orasse por todos ou indivíduos orassem um por vez. O que é surpreendente é que não há qualquer menção da recitação da oração do Pai Nosso, o que parece indicar que os cristãos primitivos usavam orações espontâneas, e não fórmulas fixas. O “amém” devido ao exemplo dado pelo Senhor Jesus, adquiriu um sentido ainda mais profundo do que tinha no Antigo Testamento. As “Bênçãos” também se fizeram presentes desde o começo, conforme vemos em 2 Co 13.14 e Ap 22.21. E as epístolas testificam o aparecimento de um distinto vocabulário cristão, nas orações. O que é importante não esquecer é que essas orações eram consideradas parte integrante da adoração neotestamentária, o que não sucedia no Antigo Testamento.

Na igreja reformada, durante o culto, as orações são feitas em voz uníssona, pronunciando com a alma, o coração e a mente, lembrando que as suas palavras estão sendo colocadas nos lábios da comunidade pelo Senhor. Quando a Igreja ora a oração que Jesus ensinou, o Espírito Santo vitaliza e sentimentaliza cada petição, inserindo-as na realidade vital do povo de Deus e de cada um de seus membros. Na liturgia comunitária, ora-se pelo pronunciamento de um de seus membros; ele, no momento da prece, é a “boca” da comunidade, que responde com o assentimento e a aprovação do “Amém” coletivo.

A oração comunitária, diferentemente da individual, enquadra-se nas partes do culto: Adoração, confissão, perdão, gratidão, louvor, consagração, intercessão ou súplica. Uma das marcas da oração reformada é a profunda reverência postural de quem ora e de quem acompanha, bem como dos termos e linguagem oracionais da pessoa que a pronuncia. Conversar com Deus, o Pai celeste, requer mais respeito e solenidade que falar com um Ministro do Supremo Tribunal.

Cânticos

Muitos hinos cristãos e cânticos espirituais louvam a Deus. Paulo alude ao cântico de Salmos, durante a adoração, em uma de suas epístolas aos Coríntios, e a hinos e cânticos espirituais em Efésios 5.19. Os estudiosos têm percebido possíveis fragmentos de hinos primitivos cristãos em trechos como Filipenses 2.6 ss e 1 Timoteo 3.16. Os hinos constantes no apocalipse mostram que, tanto na adoração terrestre, quanto na adoração celeste, são entoados hinos de louvor, embora outros pensem que Apocalipse 4 e 5 podem estar baseados na adoração da congregação. É bem possível que o saltério fosse o hinário da igreja primitiva.

O Rev. Herminsten Maia na sua obra “O Culto Cristão na Perspectiva de Calvino: Uma Análise Introdutória” nos diz que “para os reformadores, o cântico tem um grande apelo didático, objetivando, inclusive, a fixação das Escrituras”.

A música não pode ser esquecida durante o culto, e a sua execução não pode ser desequilibrada, ao ponto do culto ser afetado em seu conteúdo. Tanto no A.T., como no N.T., a música esteve presente no culto de Israel e da Igreja primitiva (Nm 10:1-10; Jz 7:22; Jô 38:7; Ef. 5:19; 1 Tm 3:16; At 16:25). Não é por acaso que o maior livro da Bíblia é um hinário (Salmos).

Administração dos sacramentos

O senhor Jesus instituiu dois sacramentos na nova aliança, a Ceia e o Batismo. Ambos, desde o tempo da igreja primitiva, foram entendidos como elementos constituintes do culto cristão, e os reformados assim também entenderam. Há uma exceção apenas no Batismo, pois este é administrado apenas uma vez sem a necessidade de repetição.

Batismo 

No Antigo Testamento, embora a recitação do “Ouve, ó Israel..” fosse um mandamento, também servia de confissão de fé: o Senhor, nosso Deus, é uma unidade. Por essa razão, o shema achou caminho até a adoração nas sinagogas. Todavia, tal recitação não encontrou eco na Igreja primitiva. E a razão disso não é que essa confissão básica tivesse sido abandonada, mas antes, é que agora fora adicionada a confissão distintamente cristã: Jesus é o Senhor, ou seja, é Yahweh. A fé da Igreja primitiva era a fé em Jesus como Salvador e Deus. Pedro fez essa afirmação primária em Mt. 16:16. E isso pode ser visto novamente na confissão de Tomé em Jo 20:28.

O evangelho de João foi escrito tendo em vista mostrar exatamente esse fato, conforme Jo 20:31. A obra do Espírito Santo faz com que os crentes afirmem e confessem que Jesus é o Senhor (I Cor. 12:3). Finalmente, essa verdade será reconhecida em todas as línguas (Fl. 2:11). Sobre essa crença repousa a plena confissão do Deus triuno (Mt. 28:19). Essa crença é especificamente confessada por ocasião do batismo em água, o qual pode ser ministrado em nome de Jesus (At. 2:38). O eunuco professou fé no Senhor (At. 8:37). Cornélio foi batizado em nome de Jesus (At. 10:48). O carcereiro filipense foi batizado quando creu no Senhor e foi salvo (Atos 16:30 ss).

Ceia do Senhor 

Não somente o batismo, mas especialmente a Ceia do Senhor, constituíam adendos à adoração nas sinagogas. Tanto os escritos do Novo Testamento, como o testemunho patrístico, mostram que a Ceia fazia parte integrante da adoração cristã primitiva, semana após semana. Cada reunião dos cristãos incluía não somente oração, louvor, leitura das Escrituras e pregação, mas também uma santa refeição com a celebração da Ceia. A Ceia do Senhor veio substituir não somente a páscoa, mas também as ofertas do templo. Por essa razão é que uma linguagem própria dos sacrifícios veio a ser usada em relação à Ceia. Todavia, não há apenas um elemento de substituição. A Ceia do Senhor tanto rememora o grande e único sacrifício de Cristo pelos pecados, para sempre, como também anuncia a sua segunda vinda (Ver I Cor. 11:26).

O fato de que Cristo é o sumo sacerdote para sempre, obviou um ministério sacerdotal. E essa é a razão pela qual os ministros da Ceia do Senhor, não importando se apóstolos, profetas, pastores ou diáconos, são todos verdadeiros ministros “servos”, e não sacerdotes. O ponto enfocado na Ceia é a morte e a ressurreição de Jesus Cristo. Essa é a base da comunhão desfrutada pelos crentes com Deus Pai e uns com os outros. Portanto, em última análise, a Ceia do Senhor é cristológica, e não litúrgica no sentido veterotestamentário mais estreito. Classificá-la como quinta-essência da liturgia é perder de vista o seu verdadeiro significado. A Ceia serve de memorial perene do fato de que a adoração autêntica só é possível com base na expiação no sangue de Cristo

Conclusão 

Entendemos que o culto reformado na perspectiva de Westminster é, sem dúvida, a melhor forma de cultuar a Deus. Não que ele seja perfeito (por que onde há humanidade há imperfeição), mas sim porque o modelo confessional busca um culto teocêntrico e dirigido pelas Escrituras, não busca novidades no intuito de agradar os fieis. Porque os reformados entendem que o culto é de Deus e, por isso, Ele é que deve receber todo o nosso louvor. Nós somos abençoados no culto por misericórdia divina, em resposta a nossa adoração. Na visão de Westminster o culto não é um espetáculo onde nós somos espectadores que precisam ser entretidos, muito pelo contrário, nós é que devemos buscar agradar a Deus o máximo possível.

E, por fim, estamos vivendo em dias em que muitas igrejas têm adotado práticas que não encontram apoio nas Escrituras em busca de não ver os salões dos templos vazios ou com pouca gente. Infelizmente o “sucesso” do ministério pastoral é medido pelo número de pessoas e não pela fidelidade a palavra de Deus. O sistema de culto defendido pelos símbolos de fé de Westminster não pretendem encher os templos das igrejas, porém, aqueles que o adotam terão a certeza de que oferecerão um culto saudável para a igreja e agradável ao Senhor.

Soli Deo glória!

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Sobre o autor: Anderson Borges é teólogo e pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil em Salvador-BA.


Fonte: Texto extraído da monografia do autor: "O Culto Cristão Reformado na Perspectiva de Westminster".
Via: Teologia que Reforma
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Calvinismo, Socialismo e Propriedade Privada

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Pergunta 141: Quais são os deveres exigidos no oitavo mandamento?

R: Os deveres exigidos no oitavo mandamento são a verdade, a fidelidade e a justiça nos contratos e no comércio entre os homens; dar a cada um aquilo que lhe é devido; restituir aos donos legítimos os bens tirados deles ilicitamente; dar e emprestar gratuitamente, conforme nossos recursos e as necessidades dos outros; moderar os nossos juízos, desejos e sentimentos relativos aos bens mundanos; o cuidado e a busca providente para obter, guardar, usar e dispor das coisas necessárias e convenientes à sustentação da nossa natureza e apropriadas á nossa condição; ter um meio de vida lícito e empenhar-se nele; a frugalidade; evitar processos judiciais, fianças ou outras demandas semelhantes; e o esforço, por todos os meios justos e lícitos, de procurar, preservar e aumentar a riqueza e o estado exterior, tanto de outros quanto o nosso próprio.

Comentário:

1. Qual é o alcance geral do oitavo mandamento?

O alcance geral do oitavo mandamento é o respeito à santidade da propriedade, da mesma sorte que o sexto impõe respeito á santidade da vida e o sétimo, à santidade do sexo. A propriedade ou a riqueza é criada por Deus e confiada ao homem para o seu uso na glorificação e no serviço a Deus. É, portanto, um compromisso administrativo atribuído ao homem e por isso tem de ser respeitado. O oitavo mandamento, portanto, requer não apenas que nos guardemos de roubar o bem do nosso próximo, mas que conquistemos e conservemos o nosso.

2. A Bíblia autoriza a propriedade privada?

Sim. A posse da propriedade privada, no estado pecaminoso em que a humanidade existe desde a queda, é necessária para que uma vida possa glorificar e gozar a Deus. A propriedade privada fundamenta-se não na mera invenção ou costume humanos, mas na lei moral de Deus. Está definitivamente autorizada pelo oitavo mandamento – “Não furtarás” – o qual só fará sentido se houver por trás dele uma ordenação divina para a propriedade privada. Mesmo fora da Bíblia, a revelação natural ensina a todos os homens que roubar é errado. Está profundamente equivocado quem hoje pensar que a propriedade privada é maligna. Os males que ele tem em mente procedem não da propriedade privada em si mesma, mas dos abusos da propriedade privada.

3. Á luz da Bíblia, que devemos pensar do comunismo?

Segundo o que a Bíblia ensina, o comunismo é errado a princípio. Não é errado meramente em alguns de seus aspectos ou práticas, ou por causa dos abusos a ele associados, mas é errado e maligno na sua ideia fundamental. Se pudéssemos imaginar um “perfeito” estado de comunismo, em que não houvesse tirania, campos de concentração, policia secreta, propaganda politica, nem censura de informações, ele ainda seria inerentemente pecaminoso e maligno. O capitalismo viola a lei moral de Deus pelos males e abusos a ele vinculados; o comunismo viola a lei moral de Deus por sua própria natureza e ideia fundamental. O principio do comunismo é a posse coletiva da propriedade imposta pelo Estado. Isso pressupõe que a posse particular do indivíduo é um mal que só pode ser tolerado em pequena escala, como uma concessão à natureza humana. Isso é contrário à Bíblia, que ensina que a propriedade privada é um direito dado por Deus. O ser humano individual, como portador da imagem de Deus, deve ter o direito à propriedade conforme o propósito de Deus e para O glorificar plenamente na sua relação com o seu ambiente. A imagem de Deus no homem abrange a implicação de que o homem deve ter o domínio sobre a Terra (Gên. 1.27-28); mas o homem é essencialmente um indivíduo, com alma e consciência individuais, com competência e habilidades individuais, com esperança e desejos individuais. O comunismo procura fundir o indivíduo à massa da humanidade e isso envolve o sacrifício do elemento essencial da personalidade do homem, como portador individual da imagem divina e mordomo de Deus com domínio sobre uma parcela da criação de Deus. O comunismo assume que o indivíduo existe por causa da massa, da sociedade, mas isso é contrário a Palavra de Deus, a qual nos ensina que a sociedade e todas as instituições sociais existem por causa do indivíduo, para que ele possa alcançar o propósito divino da sua vida e assim glorificar a Deus. É o indivíduo quem possui uma alma mortal, uma consciência e a capacidade para a comunhão com Deus. Essas coisas sobreviverão a esse mundo e existem para sempre. Elas é que dão dignidade e valor reais à vida humana. Qualquer sistema que considere o ser humano individual como sem importância e busca amalgamá-lo á massa supostamente pelo bem-estar da “sociedade” é fundamentalmente errado e anticristão. Isso se aplica tanto à propriedade coletiva compulsória quanto às outras subversões da individualidade da personalidade humana.

4. Segundo registra Atos (2.44; 4.32-27), a igreja primitiva não praticava o comunismo?

É verdade que existia um tipo de “comunismo” na igreja de Jerusalém, mas era totalmente diferente do comunismo que existe hoje. Deve-se observar que (a) era voluntária e não compulsória, como mostram as palavras de Pedro a Ananias em Atos 5.4, 9; (b) era parcial e não total, como demonstra o fato de que o caso de Maria, mãe de João Marcos, não fora vendida; (c) logo surgiu uma murmuração acusatória de que as rações de comida não estavam sendo distribuídas de modo justo (At 6.1); (d) isso foi apenas temporário, sendo descontinuado mais tarde, provavelmente no tempo de grande perseguição que se seguiu ao martírio de Estevão, quando os crentes se espalharam a partir de Jerusalém (At 8.1-4); (e) não há menor indicação de que tenha sido implantado algum “comunismo” assim em nenhuma das Igrejas estabelecidas pelos apóstolos, além da igreja em Jerusalém. É claro, portanto, que o “comunismo” temporário da Igreja de Jerusalém não era uma questão de princípios, mas de contingência em face das condições peculiares àquele tempo e lugar. É extremamente insensato, antibíblico e anti-histórico apresentar o estado temporário das ocorrências na Igreja de Jerusalém como análogo ao comunismo moderno, ou como um padrão a ser imitado pelos crentes em Cristo de todos os lugares.

5. O socialismo é contrário ao cristianismo?

A palavra socialismo é usada com uma variedade tão grande de sentidos que é difícil falar categoricamente dela sem primeiro a definir, para sabermos precisamente o que quer dizer. O socialismo marxista, que é raiz do comunismo moderno, é indubitavelmente contrário à religião cristã. Embora haja uma forma limitada de socialismo que não é contrária ao ensinamento da Palavra de Deus. O governo operar serviço postal, em vez de deixa-lo à iniciativa de particulares ou de corporações, é uma forma de socialismo; mas não se pode achar que seja pecaminoso o envolvimento do Estado nesse empreendimento. Na maioria dos países do mundo as ferrovias, os serviços telefônicos e os de comunicação são operados ou majoritariamente ou exclusivamente pelo Estado. Podemos, ou não, achar que isso seja inteligente, mas dificilmente conseguiremos provar que seja contrário à Bíblia; assim mesmo faz-se necessário traçar um limite em algum ponto. Seria errado, com certeza, que o Estado controlasse e operasse todos os negócios e comércios. A operação de negócios pelo Estado deveria limitar-se a atividades como as do serviço postal, que são essenciais para todos os habitantes do país e por questão de economia requerem monopólio de alcance nacional. O Estado deve proporcionar as condições para que os negócios privados sigam adiante, e deve regulamentá-lo em prol da justiça, mas não deve suplantá-lo competindo contra ele. Deus instituiu o governo civil para promover o bem das pessoas pela manutenção da justiça na sociedade humana (Rm 13.4), e não para se firmar como um colossal empreendimento coletivo em concorrência com os seus próprios cidadãos.

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Autor: Johannes G. Vos
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