Apócrifos e Cânon no Cristianismo Primitivo

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Uma das afirmações mais repetidas pelos críticos do Cânon do NT é a afirmação de que os apócrifos, e em especial os evangelhos apócrifos, eram tão comuns e tão utilizados quanto os escritos do Novo Testamento. Helmut Koester é um bom exemplo dessa tendência. Ele lamenta o fato de que os termos “apócrifo” e “canônico” ainda sejam usados pelos estudiosos modernos, porque, segundo ele, esses termos estão relacionados a “preconceitos de longa data” contra a autenticidade dos textos apócrifos.¹ Koester, em seguida, argumenta: “Se considerarmos o período mais antigo da tradição, veremos que vários evangelhos apócrifos são tão atestados quanto aqueles que mais tarde receberam o status de canônico”.² William Petersen oferece uma abordagem semelhante quando diz que os evangelhos apócrifos eram tão populares que “estavam se multiplicando como coelhos”.³

Mas será que é realmente verdade que os evangelhos apócrifos foram tão populares e difundidos quanto os Evangelhos canônicos? Eles estavam realmente em pé de igualdade? Três conjuntos de evidência sugerem o contrário:

Manuscritos sobreviventes. Os restos físicos dos escritos podem nos dar uma indicação de suas popularidades relativas. Esses restos são capazes de dizer quais livros eram utilizados, lidos e copiados. Quando examinamos os restos físicos de textos cristãos, desde os primeiros séculos (segundo e terceiro), nós rapidamente descobrimos que os escritos do NT eram de longe os mais populares. Atualmente, temos mais de 60 manuscritos existentes (no todo ou em partes) do Novo Testamento a partir deste período, com a maioria das nossas cópias provenientes de Mateus, João, Lucas, Atos, Romanos, Hebreus, e Apocalipse. O Evangelho de João revela-se o mais popular de todos, com 18 manuscritos, alguns dos quais derivam do segundo século (por exemplo, P52, P90, P66, P75). Mateus não está muito atrás com 12 manuscritos, e alguns deles também datam do século II (por exemplo, P64-67, P77, P103, P104).

Durante o mesmo período de tempo, entre o segundo e terceiro século, possuímos cerca de 17 manuscritos de apócrifos, como o Evangelho de Tomé, o Evangelho de Maria, o Evangelho de Pedro, o proto-evangelho de Tiago, e outros. De todos, o Evangelho de Tomé é o que tem mais manuscritos: apenas três.

As implicações dessa disparidade numérica não foram ignoradas pelos estudiosos modernos. Larry Hurtado afirma que o baixo número de manuscritos apócrifos “não justifica qualquer noção de que estes escritos tenham sido particularmente favorecidos” e que quaisquer que fossem os círculos que os utilizavam, eles “eram provavelmente uma minoria clara entre os cristãos dos séculos II e III”.⁴ Da mesma forma , C.H. Roberts observa: “Uma vez que a evidência dos papiros está disponível, indiscutivelmente os textos gnósticos são notáveis por sua raridade.⁵ Scott Charlesworth concorda: “Se o ‘heterodoxo’ estava entre a maioria por tanto tempo, os evangelhos não-canônicos deveriam ter sido preservados em maior número no Egito.

Frequência de citação. Embora os estudiosos geralmente se concentrem em determinar se os livros apócrifos foram ou não citados, eles não prestam atenção o suficiente na frequência em que eles são citados em comparação com os escritos canônicos. Quando esses dados são considerados, a disparidade entre os escritos apócrifos e os canônicos torna-se ainda mais evidente.

Tomemos, por exemplo, Clemente de Alexandria, muitas vezes mencionado como um pai igreja primitiva que tem igual preferência quando se trata de escritos canônicos e apócrifos. No entanto, quando a freqüência das citações é considerada, essa alegação se revela infundada. Clemente prefere vastamente os livros do Novo Testamento à literatura apócrifa ou a outros escritos cristãos. JA Brooks observou que Clemente cita os livros canônicos “cerca de 16 vezes mais do que escritos apócrifos e patrísticos.”⁷ Esta disparidade é torna-se ainda maior se considerarmos apenas os quatro Evangelhos. De acordo com o trabalho de Bernard Mutschler, Clemente se refere ao Evangelho de Mateus 757 vezes, ao de Lucas 402 vezes, ao de João 331 vezes, e ao de Marcos 182 vezes.⁸ Comparativamente, Clemente cita apenas 16 vezes os evangelhos apócrifos.⁹ Aparentemente, Clemente não tinha dúvidas sobre quais livros ele considerava canônicos.

Forma de citação. Se, de fato, os escritos apócrifos eram tão valorizados quanto os escritos canônicos, esperaríamos que isso se refletisse na forma como esses livros são citados. Será que os pais da igreja primitiva citaram os  escritos apócrifos como Escritura? Raramente. Em alguns casos, parece que livros como o Pastor de Hermas ou a Epístola de Barnabé foram considerados como tendo um status de escritura. Mas esse era um ponto de vista minoritário. Quando examinamos quais livros os primeiros cristãos realmente consideravam como Escritura (e não simplesmente aqueles que os cristãos utilizavam de forma geral), então os livros canônicos são, de longe os mais populares. Isso é confirmado pelo fato de que havia um cânon “central” de livros num período próximo à metade do segundo século.

Além disso, um grande número desses escritos apócrifos foi expressamente condenado pelos primeiros cristãos. Tomemos, por exemplo, o tão discutido Evangelho de Tomé. Esse livro nunca foi mencionado em qualquer uma das listas canônica primitivas. Esse livro nunca foi encontrado em qualquer uma de nossas coleções de manuscritos do Novo Testamento. E esse livro nunca entrou como figura de destaque nas discussões canônicas, e muitas vezes foi condenado abertamente por uma variedade de pais da igreja.¹⁰ Assim, se o Evangelho de Tomé foi um relato amplamente lido e amplamente recebido, então ele deixou muito pouca evidência histórica disso.

Todo mundo adora uma boa teoria da conspiração. Certamente seria muito mais divertido se alguém pudesse mostrar que os livros apócrifos realmente eram Escrituras da Igreja Primitiva e que foram reprimidos pelas maquinações políticas da igreja posteriormente (ie, com Constantino). Mas a verdade é muito menos sensacional. Apesar de os livros apócrifos receberem algum status bíblico de vez em quando, a esmagadora maioria dos primeiros cristãos preferiram os livros que estão hoje em nosso cânon do Novo Testamento. Assim, somos lembrados mais uma vez que a igreja não “inventou” o cânon arbitrariamente no quarto ou quinto século. Pelo contrário, as afirmações posteriores da igreja simplesmente refletiram o que já era o caso de muitos e muitos anos.

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Notas:
[1] H. Koester, “Apocryphal and Canonical Gospels,” Harvard Theological Review 73 (1980): 106.
[2] Koester, “Apocryphal and Canonical Gospels,” 107.
[3] W. L. Petersen, “The Diatesseron and the Fourfold Gospel,” in The Earliest Gospels (ed. C. Horton; London and New York: T&T Clark International, 2004), 51.
[4] Larry Hurtado, The Earliest Christian Artifacts, 21-22.
[5] C. H. Roberts, Manuscript, Society and Belief, 52.
[6] Scott Charlesworth, “Indicators of “Catholicity” in Early Gospel Manuscripts,” in The Early Text of the New Testament (ed. C. E. Hill and M. J. Kruger; Oxford: Oxford University Press, 2013).
[7] J. A. Brooks, “Clement of Alexandria,” 48.
[8] Bernard Mutschler, Irenäus als johanneischer Theologe (Tübingen: Mohr Siebeck, 2004), 101.
[9]  Brooks, “Clement of Alexandria,” 44.
[10] E.g., Hippolytus, Ref. 5.7.20; Origen, Hom. Luc. 1; Eusebius, Hist. eccl. 3.25.6.

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Autor: Michael Kruger
Fonte: The Gospel Coalition
Tradução: Erving Ximendes
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É Possível que o Cristão Idolatre a Bíblia?

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Alguns meses atrás, li o seguinte em um artigo por um autor que se auto-identifica como um evangelical: “Embora a Bíblia seja um guia importante e autoritativo para a fé e prática Cristã, ela não é o fundamento ou centro da nossa fé – Jesus é… Estudar as Escrituras é valioso, mas nem de longe tão valioso quanto cultivar um relacionamento diário com o Deus encarnado”.

Este autor tem várias visões que o fazem um ponto fora da curva no movimento evangélico como tem sido tradicionalmente definido. Entretanto, tenho percebido que sua visão das Escrituras está se tornando cada vez mais comum. Cada vez mais eu ouço sentimentos na Igreja como:

  • “Muitos cristãos estão colocando ênfase demais na Bíblia em vez de em Cristo e o Espírito Santo.”
  • “A Trindade não é Pai, Filho e Escritura Santa.”
  • “Cuidado para não fazer da Bíblia um ídolo.”

Daí a questão: É possível ao cristão idolatrar a Bíblia?

A Importância da Pergunta

Não devemos dispensar esta pergunta rápido demais. Me parece que quem expressa os sentimentos acima tem tido uma experiência ruim com a igreja ou com cristãos quando o assunto é a Bíblia. Eles encontraram vários cristãos que, embora conheçam bem a Bíblia, parecem “inflados” pelo seu conhecimento, tendo pouco amor por Cristo ou pelo próximo. A preocupação é que colocar tanto foco na Bíblia apenas repita estas experiências.

A Escritura diz que há um tipo de conhecimento que “infla” (1 Coríntios 8.1) mas outro tipo que é intimamente entrelaçado com o amor (Filipenses 1.9). Então, precisamos testar a nós mesmos: O meu estudo das Escrituras está gerando o Fruto do Espírito ou o fruto da arrogância? A Bíblia tem sido amplamente mal usada ao longo da história, então certamente devemos tomar cuidado para não a usarmos mal, nós mesmos, tornando-a em um veículo para o orgulho sobre quanto nós sabemos, em vez de sermos corretamente desafiados por ela a uma vida amável e humilde de serviço a Deus e ao próximo.

Além disso, Cristo repreendeu os fariseus em João 5.39-40 por conhecer as Escrituras e ainda assim não recebê-lo e crer nele como o Cristo. Então, novamente, precisamos testar a nós mesmos: O meu estudo das Escrituras é meramente acúmulo de conhecimento, como estudar um livro qualquer, ou está me ajudando a seguir Cristo como meu Senhor e amá-lo como meu Salvador? Em outras palavras, devemos compreender que é possível conhecer as Escrituras e ainda assim ignorar Jesus. Temos ainda que admitir que muitos cristãos têm tido interações com crentes e igrejas que tratam a Bíblia exatamente como os fariseus faziam.

Não devemos ficar surpresos com essa pergunta, mas devemos ser desafiados e ajudados por ela.

A Imprecisão da Pergunta

Ainda assim, tão importante e desafiador quanto a pergunta possa ser, ela está enraizada em um entendimento impreciso das Escrituras. Considere as descrições primárias da Escritura a partir da própria Bíblia:

Toda a escritura é inspirada por Deus” (2 Timóteo 3:16)
Porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo.” (2 Pedro 1:21)

Acrescente a isso que um dos nomes favoritos de Jesus Cristo é “O Verbo”, e você tem um testemunho trinitário de que a Bíblia não é divorciada da Trindade, mas é a obra tangível do Trino Deus em perfeita harmonia falando conosco.

Colocando de maneira simples, a Bíblia é a voz de Deus. O Pai inspira (sopra) a Palavra. O Filho é o Verbo encarnado. O Espírito Santo moveu os autores bíblicos para que eles falassem “da parte de Deus”. A Bíblia é a voz de Deus – não apenas as letras vermelhas – toda a Bíblia. Assim, a pergunta “É possível ao cristão idolatrar a Bíblia?” é imprecisa, porque ela nos leva a uma falsa dicotomia entre Deus e sua voz. Priorizar a voz de Deus é priorizar Deus, portanto priorizar sua voz não pode ser visto como idolatria.

Por favor, saiba, eu compreendo. As Escrituras e Jesus Cristo são entidades diferentes. A Bíblia e o Espírito são distintos um do outro. Mas isso não significa que nós possamos tratá-los assim, divorciando-os um do outro.

A Ilustração da Pergunta

Considere seu melhor amigo. Como, precisamente, você se relaciona com ele ou ela? Vocês podem trabalhar juntos, e ter hobbies em comum mas, primariamente, você conhece seu amigo por meio das palavras dele. Suas conversas e todas as interações verbais são essenciais para sua amizade.

Claro, tem muito mais a respeito dele que é não verbal – seu caráter, talentos personalidades – mas ainda assim, a maior parte do que você conhece sobre seu caráter, talentos e personalidade é conhecido por você por causa do que ele tem dito a você ao longo dos anos.

Você não tentaria separar seu amigo das palavras dele. Eles são entidades distintas, sim. Mas eles vêm juntos.

A Importância da Pergunta, Revisitada

Então voltamos à pergunta, “É possível idolatrar a Bíblia?” A resposta é um ressonante “Não”. Priorizar a Bíblia em nossas vidas está longe da idolatria. Priorizar a Bíblia é priorizar a voz de Deus para nós, e assim priorizar o próprio Deus.

Você pode usar mal a Bíblia, como descrevemos antes, mas se a Bíblia se descreve de maneira precisa, ela é a voz de Deus falando conosco. Conhecer a Bíblia é conhecer Deus – sua voz, seu caráter, seus atributos, seu reino, seu plano para nos salvar!

Aqui eu gostaria de perguntar ao autor da questão anterior: Como você e eu “cultivamos um relacionamento diário com o Deus encarnado” separados das Escrituras? Como podemos separar Cristo e sua voz de tal forma que nós possamos colocar um contra o outro ou clamar que ouvir sua voz pode tornar-se um ídolo? Se a Bíblia é como Jesus fala conosco, como podemos crescer num relacionamento com Cristo sem enfatizar ouvi-lo por meio de sua própria Palavra?

É aqui que eu acho a pergunta e os sentimentos descritos no começo bem perigosos. Na melhor das hipóteses, esses sentimentos nos avisam do mal uso, como nós vimos. Mas na pior hipótese, esses sentimentos nos dão uma razão massiva para nos afastarmos das Escrituras, assim nos distanciando da voz de Deus falando em nossas vidas.

A Bíblia não pode ser suficientemente enfatizada em nossas vidas, em nossos grupos pequenos, em nossas igrejas, pois ela é como nós ouvimos a própria voz de Deus falando conosco! Para cultivar um relacionamento diário com o Deus encarnado, precisamos ouvir sua voz. Que bizarro seria se preocupar com uma priorização excessiva com as palavras do seu melhor amigo? Se você quer conhecer seu melhor amigo, você vai ouvir as palavras dele.

Não perca a encorajadora verdade no meio desta discussão: Se a Bíblia é a voz de Deus, isso significa que você pode ouvir de Deus!

Então, amigo, vamos atender ao importante desafio que vem com essa pergunta, “É possível idolatrar a Bíblia?”. Vamos ser cristãos que crescem em amor e fé por meio das Escrituras. Mas não vamos nos confundir: Deus tem falado conosco por meio das Escrituras, então se nós formos realmente conhecê-lo e amá-lo, devemos fazer com que ouvi-lo seja uma prioridade apaixonada em nossas vidas.

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Autor: Tom Olson
Fonte: Unlocking The Bible
Tradução: Daniel TC
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Um pequeno ensaio sobre o Sola Scriptura

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Em comemoração aos 499 anos da Reforma Protestante, neste vídeo Erving Ximendes ilustra um pequeno ensaio sobre o Sola Scriptura. Assista:


Transcrição:

Em 2016 completamos 499 anos de Reforma Protestante. No entanto, ainda hoje existem controvérsias relacionadas aos princípios que os reformadores resgataram. Dentre eles, o Sola Scriptura é provavelmente o mais debatido e boa parte disso se deve, na verdade, a definições errôneas do Sola Scriptura.

Sola Scriptura literalmente significa “Somente as Escrituras”. Isso não quer dizer que consideramos as Escrituras como algo isolado da obra do Espírito de Deus dentro da Igreja.  Nada poderia estar mais longe da verdade pois sabemos que a Palavra é divina, e o Espírito que a deu não irá separá-la de sua obra-prima. Até mesmo as verdades mais claras contidas na Bíblia, que para a mente renovada e para o coração regenerado parecem tão convincentes, continuam sendo “loucura” e “pedra de tropeço” para aqueles que não tiveram a obra regeneradora do Espírito Santo em seus corações.

Sola Scriptura mais precisamente significa que “Somente as Escrituras são a única regra de fé infalível para a Igreja” e por “regra de fé” entendemos aquilo que governa e guia o que acreditamos assim como as razões pelas quais acreditamos.

É muito fácil entender o porquê as religiões dos homens negam essa verdade, pois o corolário do Sola Scriptura é que tudo aquilo que uma pessoa precisa acreditar para ser um crente em Jesus está contido na Bíblia (e em nenhuma outra fonte). Logo, se as Escrituras nos foram dadas pelo Espírito Santo, então elas são obrigatórias ao coração e à consciência do crente. Nós não podemos escolher aquilo que vamos ou não acreditar. Como bem afirma a Confissão de Fé Batista de Londres de 1689, uma das muitas Confissões Reformadas que são extremamente claras sobre o assunto:

“A autoridade da Sagrada Escritura, razão pela qual deve ser crida e obedecida, não depende do testemunho de qualquer homem ou igreja, mas provém inteiramente de Deus, sendo Ele mesmo a verdade e o seu autor. A Escritura, portanto, tem que ser recebida, por ser a Palavra de Deus”. (CFBL 1689 1:4)

Ou seja, uma vez que sabemos que Deus é Seu Autor, não existe autoridade mais alta que possa atestar a verdade das Escrituras. Afirmar a necessidade de uma autoridade terrena para estabelecer tanto a veracidade quanto o conteúdo da Bíblia é como dizer que o testamento de um homem só é legítimo se tiver o consentimento de seus filhos. No entanto, sabemos muito bem que o fator determinante naquilo que se trata da legitimidade de um testamento não é a recepção do documento por parte de seus filhos, mas sim a assinatura do homem em questão.

Sendo um pouco mais específica sobre o princípio do Sola Scriptura, a Confissão prossegue dizendo:

“A Sagrada Escritura é a única regra suficiente, certa e infalível de conhecimento para a salvação, de fé e de obediência. A luz da natureza, e as obras da criação e da providência, manifestam a bondade, a sabedoria e o poder de Deus, de tal modo que os homens ficam inescusáveis; contudo não são suficientes para dar conhecimento de Deus e de sua vontade que é necessário para a salvação. Por isso, em diversos tempos e por diferentes modos, o Senhor foi servido revelar-se a si mesmo e declarar sua vontade à sua igreja. E para a melhor preservação e propagação da verdade, e o mais seguro estabelecimento e conforto da Igreja, contra a corrupção da carne e a malícia de Satanás e do mundo, foi igualmente servido fazer escrever por completo todo esse conhecimento de Deus e revelação de sua vontade necessários à salvação; o que torna a Escritura indispensável, tendo cessado aqueles antigos modos em que Deus revelava sua vontade a seu povo”. (CFBL 1689 1:1-4)

Essas palavras foram escolhidas com muito cuidado, então preste muita atenção: suficiente, certa e infalível. Três atributos das Sagradas Escrituras que nada mais nesse mundo pode possuir. Teste qualquer outro candidato ao trono de fidelidade da igreja, e você vai descobrir que ele não é suficiente em seu âmbito e matéria, não é certo em sua natureza e conteúdo nem é infalível em sua consistência e autoridade.


A confissão também reconhece a existência de uma revelação geral presente na natureza, mas, ainda assim, ela corretamente afirma que tal revelação é insuficiente para transmitir o evangelho e que ao invés disso Deus escolheu colocar sua verdade na escrita. Porquê? “para a melhor preservação e propagação da verdade, e o mais seguro estabelecimento e conforto da Igreja”.

Esteja também atento ao que a Escritura é suficiente para revelar: o conhecimento para a salvação, de fé e de obediência. Obviamente, aqui não estamos afirmando que a Bíblia é o depósito completo de todo o conhecimento humano e divino. Ela é manifestamente limitada a partir do lado divino, uma vez que “as coisas encobertas pertencem a Deus” (Deut. 29:29), assim como do lado humano, isto é, a Bíblia não contém tudo o que é necessário saber para realizar uma cirurgia cerebral ou para entender física quântica. Logo, os argumentos que demonstram que a Bíblia não é capaz de fazer essas coisas não são argumentos contra o Sola Scriptura mas contra um espantalho criado por seus oponentes.

Outro argumento feito pelos opositores desse princípio é pronunciado mais ou menos da seguinte maneira:

“Existe apenas uma igreja verdadeira: a Igreja Católica Apostólica Romana! Agora, eu desafio você a olhar para o protestantismo e contar quantas denominações existem. Não parece óbvio que o Sola Scriptura só causou confusão?”

O problema nesse argumento é que ele falha miseravelmente em cada nível possível. Em primeiro lugar, como é que o apologista católico romano pode demonstrar que o
Sola Scriptura é a real causa dessas divisões? Por exemplo, quando vemos divisões nas diversas classes da igreja romana, encontramos fortes divergências em relação a questões-chaves. Será que podemos concluir então que o magistério romano é o culpado pelas diferenças de ponto de vista? Creio eu que não. Como é que se pode então chegar à conclusão de que um abuso das Sagradas Escrituras pode ser usado como um argumento contra sua suficiência? Isso não é nem um pouco lógico. As Escrituras podem ser perfeitamente suficientes, mas ainda assim os homens são pecadores. Ainda assim os homens são imperfeitos. Ainda assim os homens ainda são ignorantes. E, mais importante, ainda assim os homens possuem tradições.

Talvez isso fique um pouco mais claro com uma ilustração. Se você tem alguns anos de experiência com computadores, provavelmente já passou pela experiência de trocar de impressora. A maioria de nós apenas abre a caixa, lê as primeiras frases do manual e começa a conectá-la para ver se funciona. Uma vez impresso o primeiro documento, assumimos que ela funcionará da mesma maneira que nossa impressora antiga. O problema é que mais cedo ou mais tarde iremos nos deparar com situações complicadas. E isso tudo porque assumimos que nossa experiência era suficiente para fazer a impressora funcionar corretamente e porque não deixamos o manual falar por si mesmo.

De maneira semelhante, ir até as Escrituras com nossas tradições é como transferir nossa experiência com a impressora antiga para a nova. O fato de você assumir que a impressora funcionaria de uma determina maneira obviamente não torna o manual de instruções culpado. Tampouco ele seria responsável por esses problemas se você escolhesse a dedo as seções do manual que iria ler. Ou seja, é possível ter um manual de instruções perfeitamente claro e conciso e ainda assim haver consumidores que utilizem a impressora incorretamente. E aí está o cerne da questão, quem professa o Sola Scriptura sabe que Deus escreveu o manual de instruções com clareza. Os que abraçam uma autoridade externa à Bíblia não. E isso e bem refletido nas seguintes palavras do escritor católico Gilbert Chesterton, “a Bíblia por si mesma não pode ser a base do acordo quando ela é a causa do desacordo”.

Em segundo lugar está a observação (dolorosamente óbvia) de que apenas uma pequena porcentagem das igrejas “protestantes” de hoje conscientemente se interessam em professar a doutrina do Sola Scriptura. Para falar a verdade, um grande número de igrejas não-católicas abraçam diversos tipos de conceitos que claramente violam o Sola Scriptura. Alguém que consistentemente se professa como Protestante acredita não somente que Deus falou através dos profetas e apóstolos mas também que Ele falou com suficiência e clareza. No momento em que alguém abandona um desses pontos, esse alguém não pode ser considerado um protestante coerente. O alto número de denominações existentes não se dá por causa do Sola Scriptura, mas apesar dele. Sendo assim, como é que se pode responsabilizar o princípio pelas ações daqueles que sequer acreditam nele? Obviamente, não podemos! Na realidade, as igrejas que procuram de fato professar, confessar e aplicar o Sola Scriptura são significativamente mais próximas em sua teologia do que aquelas igrejas que procuram uma fonte externa e inspirada de interpretação e revelação.

Tendo em vista tudo o que temos dito até então, eu espero que esse curto ensaio venha a ser um pequeno passo em direção a um melhor debate sobre a natureza, suficiência e necessidade das Escrituras dentro da comunidade cristã brasileira. 

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Autor: Erving Ximendes
Fonte: Olhai e Vivei
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Pequenos detalhes que todo cristão deveria saber (Parte 2)

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Seguindo nossa série de posts, desta vez trataremos, através de uma adaptação de um artigo produzido pelo Dr. Michael Kruger, da questão da compilação do Cânon do Novo Testamento.

Ao investigar esse assunto, os estudiosos gostam de destacar a primeira vez que encontramos uma lista completa de 27 livros. Sem nenhuma surpresa, a lista contida na famosa Carta Pascoal (367 d.C) de Atanásio é mencionada como a primeira vez que algo assim aparece na história da Igreja Cristã.

Como resultado, frequentemente ouvimos que o Novo Testamento foi um fenômeno tardio e que os cristãos não possuíam o Novo Testamento até o final do quarto século. No entanto, esse tipo de raciocínio é problemático em vários níveis. Em primeiro lugar, nós não avaliamos a existência do Novo Testamento apenas através da existência de listas. Se examinamos a maneira que certos livros foram usados pelos pais da igreja primitiva, fica evidente que existia um cânon operante muito antes do quarto século. De fato, lá pelo segundo século já existia uma coleção central de livros do Novo Testamento funcionando como Escrituras.

Em segundo lugar, existem razões para acreditar que a lista de Atanásio não é a mais antiga lista completa que possuímos. O Dr. Michael Kruger argumenta que, por volta de 250 d.C., Orígenes produziu uma lista completa contendo os 27 livros do Novo Testamento (mais de 100 anos antes de Atanásio). Em sua maneira tipicamente alegórica, Orígenes usou a história de Josué para descrever o cânon do Novo Testamento:

“Mas quando o Senhor Jesus Cristo veio – cuja chegada o filho de Num havia designado – ele enviou Seus sacerdotes, Seus apóstolos, carregando “trombetas de obra batida”, a instrução celestial e magnífica da proclamação. Primeiramente Mateus soou a trombeta sacerdotal em seu Evangelho; Marcos também; Lucas e João tocaram cada um suas trombetas sacerdotais. Até mesmo Pedro clama com trombetas em suas duas epístolas, assim como Tiago e Judas. Adicionalmente, João também soa a trombeta através de suas epístolas [e Apocalipse], e Lucas ao descrever os Atos dos Apóstolos. E por último vem aquele que disse “Porque tenho para mim, que Deus a nós, apóstolos, nos pôs por últimos” e que em catorze de suas epístolas, retumbando com trombetas, derruba as muralhas de Jericó e todos artifícios de idolatria e dogmas de filósofos…” (Hom. Jos. 7.1)

Como se pode ver na lista acima, todos os 27 livros do Novo Testamento são computados (Orígenes claramente identifica Hebreus como uma carta de Paulo). A única ambiguidade está numa questão de crítica textual e a citação a Apocalipse, no entanto temos grande evidência, provinda de outras fontes, de que Orígenes aceitava Apocalipse como Escritura (Eusébio, Hist. Eccl. 6.25.09).

Orígenes (185 – 253 d.C), teólogo e filósofo neoplatônico patrístico.

É claro que algumas pessoas tem rejeitado esse argumento e objetado que essa lista apenas reflete as opiniões de Rufino de Aquileia, responsável por traduzir as “Homilias sobre Josué” de Orígenes para o Latim. No entanto, essa é uma suposição questionável. O Dr. Michael Kruger, em um artigo intitulado “Origen’s List of New Testament Books in Homiliae on Josuam 7.1: A Fresh Look” argumenta que Rufino é, como tradutor, muito mais confiável do que os antigos estudiosos supunham. Além disso, a confiabilidade da lista canônica de Orígenes encontra suporte no fato de que ela se encaixa com aquilo que Orígenes diz em outras obras. Por exemplo, Orígenes enumera todos os autores do Novo Testamento em suas “Homilias sobre Gênesis
, e isso coincide com a lista dos livros do Novo Testamento dada acima:

Isaque, portanto, também cava novos poços. Ou melhor, os servos de Isaque os cavam. Esses são: Mateus, Marcos, Lucas, João. Seus servos são Pedro, Tiago, Judas; o apóstolo Paulo é seu servo. Todos esses cavam os poços do Novo Testamento (Hom. Gen. 13.2).

Pode-se ver rapidamente que a lista de autores (novamente em seu clássico estilo alegórico) coincide com a lista de livros. Apesar de Rufino também ter traduzido as Homílias sobre Gênesis, será que devemos realmente pensar que ele mudou ambas passagens precisamente da mesma maneira? Parece bem mais provável que elas combinam simplesmente pelo fato de elas refletirem as verdadeiras opiniões de Orígenes.

Nossas suspeitas são confirmadas quando comparamos as duas passagens de Orígenes com a lista de livros canônicos do próprio Rufino. Se Rufino fosse culpado de adulterar a lista de Orígenes para coincidir com a sua, seria de se esperar que encontrássemos muitas similaridades estruturais entre elas. No entanto, isso é precisamente o que não encontramos. Na verdade, a lista de Rufino difere da de Orígenes em várias maneiras.

No final das contas, temos razões históricas suficientes para aceitar a lista de Orígenes como genuína. E se esse é o caso, então temos evidência de que (a) os cristãos já estavam fazendo listas muito antes do que estávamos supondo (e portanto se importavam com quais livros ficariam “dentro” e “fora”); e (b) que as fronteiras do Novo Testamento eram, ao menos para pessoas como Orígenes, mais estáveis do que tipicamente se supõe.

Além dos ótimos pontos levantados pelo Dr. Kruger, temos outra evidência de que o Cânon de 27 livros é anterior à Carta Pascoal de Atanásio. Everett Ferguson escreve o seguinte:

“No entanto, pode-se notar que, de acordo com Agostinho, os donatistas cismáticos, que surgiram graças a conflitos resultantes de diferentes respostas ao comando de entregar as Escrituras (na perseguição diocletiana do quarto século), não possuiam Cânon diferente das igrejas católicas da África do Norte… Cresc. 1.37; cf. a definição desses em Unit. Eccles. 19:51: ‘As Escrituras Canônicas da Lei e dos Profetas as quais são adicionadas os Evangelhos, as Epístolas Apostólicas, os Atos dos Apóstolos e o Apocalipse de João.'” (Lee McDonald e James Sanders, edd., The Canon Debate [Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 2002])

Portanto, podemos concluir que o Novo Testamento não é um fenômeno tardio como os secularistas querem que seja. Orígenes não oferece sua lista como uma inovação ou como algo que poderia ser considerado como controverso. Para falar a verdade, ele menciona essa lista no contexto de um sermão de uma maneira bem natural. Ao menos para Orígenes, parece que o conteúdo do Novo Testamento já estava definido.

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Autor: Michael J. Kruger
Fonte: What is the earliest compilation of the Canon of the New Testament
Adaptação: Erving Ximendes
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Instruções úteis para a leitura e pesquisa das Escrituras

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1. Siga um plano regular de leitura que você esteja familiarizado com o todo, faça essa leitura uma parte de suas devoções particulares. Não que você deva limitar-se apenas a um plano de conjunto, de modo a nunca ler por escolha, mas normalmente isso tende mais para edificação. Algumas partes da Bíblia são mais difíceis, algumas podem parecer muito enfadonhas para um leitor comum, mas se você olhar para elas como a Palavra de Deus, não para serem desprezadas, e lê-la com fé e reverência, sem dúvida, você encontrará vantagem.

2. Defina uma marca especial [versículo chave], no entanto, quando achar conveniente, naquelas passagens que você leu, o que você achar mais adequado ao seu caso, condição ou tentações, ou, como seu coração se mover mais em algumas passagens do que outras. E será rentável, muitas vezes, rever tais passagens.

3. Compare uma Escritura mais obscura com outra que é mais simples, 2 Pedro 1:20. Este é um excelente meio para descobrir o sentido das Escrituras, e é de bom uso se servir das notas marginais nas Bíblias. Mantenha Cristo no seu olho, pois as Escrituras do Antigo Testamento apontam para Ele (em suas genealogias, tipos e sacrifícios), bem como as do Novo Testamento.

4. Leia com atenção santa, decorrente da apreciação da majestade de Deus e a reverência devida a Ele. Isso deve ser feito com atenção, em primeiro lugar, as palavras, em segundo lugar, com o sentido e, em terceiro lugar, com a autoridade divina da Escritura, e a obrigação se estabelece na consciência para a obediência, 1 Ts. 2:13, "Outra razão ainda temos nós para, incessantemente, dar graças a Deus: é que, tendo vós recebido a palavra que de nós ouvistes, que é de Deus, acolhestes não como palavra de homens, e sim como, em verdade é, a palavra de Deus, a qual, com efeito, está operando eficazmente em vós, os que credes."

5. Deixe o seu principal objetivo na leitura das Escrituras ser prático, e não o conhecimento descoberto, Tiago 1:22: "Tornai-vos, pois, praticantes da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos a voz mesmos." Leia o que você pode aprender e fazer, e que, sem qualquer limitação ou distinção, mas que tudo o que você vê que Deus requer, você pode estudar para a prática.

6. Implorar de Deus e olhar para Ele por seu Espírito. Pois é o Espírito que a inspirou, que deve ser entendido para salvação, 1 Coríntios 2:11: "Porque qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o seu próprio espírito, que nele está? Assim, também as coisas de Deus, ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus". E, portanto, antes de ler, é muito razoável que você peça uma bênção daquilo que você está prestes a ler.

7. Cuidado com uma mente carnal e mundana: pois pecados carnais cegam a mente das coisas de Deus, e o coração mundano não pode favorecê-los. Em um eclipse da lua, a terra fica entre o sol e a lua, e assim a luz do sol permanece sob a mesma. Assim, o mundo, no coração, vindo entre você e a luz da Palavra, mantém a luz divina afastada de você.

8. Trabalhe para ser disciplinado em direção à piedade, e observe suas circunstâncias espirituais. Pois uma atitude disciplinada ajuda poderosamente para compreendermos as Escrituras. Tal cristão vai encontrar suas circunstâncias na Palavra, e a Palavra vai dar luz a suas circunstâncias e as suas circunstâncias luz na Palavra.

9. O que quer que você aprenda com a Palavra, tenha o trabalho de colocar em prática. Pois aquilo que pedir, lhe será dado. Não admira que as pessoas tenham pouco conhecimento sobre a Bíblia, que não fazem nenhum esforço para praticar o que sabem. Mas, enquanto o córrego flui em uma vida santa, a fonte será mais livre.

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Autor: Thomas Boston (1676 - 1732)
Fonte: Puritan Sermons
Tradução: César Augustos Vargas Américo
Divulgação: Bereianos
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O real sentido de 2 Pedro 1:20-21

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Antes de Pedro iniciar sua longa dissertação acerca dos falsos profetas, ele estabelece as bases da natureza divina da Palavra de Deus:

Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação. Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo. (2 Pedro 1:20,21, Almeida Corrigida e Fiel)

Muitos erroneamente interpretam essa tradução literal como se o foco estivesse sobre a interpretação de um indivíduo ao invés de estar sobre a origem e natureza das profecias em si. […] Pedro não está falando sobre como as pessoas interpretam as palavras de profecia mas sobre a certeza das próprias Escrituras. A NVI apresenta isso de maneira mais clara:

Antes de mais nada, saibam que nenhuma profecia da Escritura provém de interpretação pessoal, pois jamais a profecia teve origem na vontade humana, mas homens falaram da parte de Deus, impelidos pelo Espírito Santo. (2 Pedro 1:20,21, NVI)

Nessa tradução, a relação entre “interpretação” e o resto do verso é percebida mais rapidamente. […] Pedro continua a falar acerca de como as Escrituras vieram a existir (não como elas são interpretadas), logo o sentido de “interpretação pessoal” é decifrado nas palavras que se seguem: “As Escrituras não são as opiniões dos profetas mas as palavras do próprio Deus”. A ênfase de Pedro está em negar a origem humana da palavra profética, pois ele continua a dizer “pois jamais a profecia teve origem na vontade humana. Os homens não acordaram em uma manhã e pensaram: “Acho que hoje vou escrever um pouco de Escrituras”. A constantemente repetida frase: “A palavra do Senhor veio até mim, dizendo” argumenta a favor dessa verdade, pois com essas palavras o profeta está reconhecendo que as palavras do Senhor não vieram de dentro (do homem) mas de fora. Em sua origem primária, a Escritura não é da Terra mas do Céu.

Em contraste ao conceito de Escrituras humanamente originadas, Pedro afirma que os homens falaram por Deus como se, literalmente, tivessem sido “carregados” pelo Espírito Santo. Isso contradiz o que foi dito? Não. Os homens, de fato, falaram. As Escrituras estão em linguagem humana. As Escrituras tiveram autores humanos e eles não eram apenas máquinas de ditado. Eles falavam em suas próprias línguas, a partir de seus contextos, inseridos em suas culturas,  mas o que eles falaram, eles falaram por Deus e apenas na medida em que eles eram “carregados” (ou movidos) pelo Espírito Santo. Aqui está o misterioso (e ainda assim maravilhoso) contato entre o humano e o divino na origem das Escrituras: Enquanto os homens estão falando, eles estão fazendo isso sob o poder e direção do Espírito, para que o resultado desse milagre seja, como Paulo colocou, “respirada por Deus”. Não são os homens em si que são “inspirados” mas as Escrituras, o resultado dessa iniciativa divina de revelação.

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Autor: James R. White
Fonte: Scripture Alone: Exploring the Bible's Accuracy, Authority and Authenticity
Tradução: Erving Ximendes
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Seriam as afirmações de nova revelação compatíveis com o Cânon do NT?

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“Deus falou comigo.

Existem poucas declarações que podem encerrar um debate tão rapidamente como essa. Se os cristãos discordam sobre uma doutrina, uma prática ou uma ideia, em seguida, a grande carta na manga costuma ser “Deus falou comigo acerca disso. Fim da discussão.

Mas, a história da igreja (para não mencionar as próprias Escrituras) demonstra que tais reivindicações de revelações privadas e diretas são altamente problemáticas. Claro, isso não significa que Deus não fala com as pessoas. A Escritura está cheia de exemplos disso. Mas essas pessoas geralmente eram indivíduos com uma vocação fora do comum (por exemplo, profeta ou apóstolo), ou então estavam presentes em um período único na história da redenção (por exemplo, a igreja primitiva em Atos).

Depois do fim do primeiro século, com os apóstolos já mortos, a igreja rejeitou amplamente a ideia de que qualquer pessoa poderia dar um passo a frente e afirmar ter uma revelação direta de Deus. Essa realidade é provavelmente melhor exemplificada no debate da igreja cristã primitiva sobre o Montanismo.

O Montanismo foi um movimento do século II cujo líder, Montano, afirmava receber revelações diretas de Deus. Além disso, duas de suas “profetisas”, Priscila e Maximila, também alegavam recebê-las. As revelações eram muitas vezes acompanhadas de um comportamento estranho. Quando Montano as tinha, “[Ele] se tornava obcecado, e de repente caia em convulsões e frenesi. Ele começava a ficar extático e a falar estranhamente (Hist. Ecl. 5.16.7).

Sem qualquer necessidade de mencionar isso, esse tipo de atividade causou grande preocupação nos líderes ortodoxos do segundo século. Parte dela estava na forma em que essas atividades proféticas estavam ocorrendo. Eles a condenaram, alegando que era “contrário ao costume que pertence à tradição e sucessão da igreja desde o princípio” (Hist. Ecl. 5.16.7).

Mas, a outra preocupação (e talvez a maior delas) era que essa nova revelação era inconsistente com as crenças da Igreja sobre os apóstolos. Os líderes do segundo século compreendiam que os apóstolos foram um canal exclusivo usado por Deus; de tal forma que eles não aceitariam qualquer revelação que não se podia demonstrar ser apostólica.

Como exemplo desse compromisso, a igreja primitiva rejeitou o Pastor de Hermas (um livro que supostamente continha revelações do céu) com base no fato de que ele havia sido escrito “muito recentemente, em nossos tempos” (Cânone Muratori). Em outras palavras, ele foi rejeitado por não ser um livro da era apostólica.

Esta questão chegou a um ponto onde os Montanistas começaram a escrever novas profecias, formando sua própria coleção de livros sagrados. Os líderes ortodoxos viram tal atividade como ilegítima porque, em sua compreensão, Deus já havia falado através de seus apóstolos, e as palavras dos apóstolos já haviam sido registradas nos escritos do Novo Testamento.

Alguns exemplos de como os líderes ortodoxos rejeitaram esses livros contendo “nova revelação”:

  1. Gaio de Roma, em seu diálogo contra o Montanista Proclo, repreendeu “a imprudência e audácia de seus adversários ao compor novas Escrituras” (Hist. Ecl. 6.20.3).
  2. Apolônio se opôs às novas “revelações” com base no fato de que os profetas montanistas estavam colocando suas “palavras vazias” no mesmo nível das palavras de Cristo e dos apóstolos (Hist. Eccl 5.18.5.).
  3. Hipólito reclamou que os montanistas “alegavam ter aprendido mais através desses escritos [os escritos montanistas] do que através da lei, dos profetas, e dos Evangelhos” (Haer. 8,12).
  4. A crítica anônima ao Montanismo registrada por Eusébio revela sua hesitação em escrever uma resposta a eles por medo de ser mal compreendido e visto como se estivesse cometendo o mesmo erro que eles ao “parecer, para alguns, estar acrescentando aos escritos ou injunções da palavra da nova aliança e do Evangelho” (Hist. Ecl. 5.16.3).

Quando você olha para essas respostas, alguns pontos importantes se tornam bastante claros. Em primeiro lugar, e isso é crítico, é óbvio que esses autores já tinham recebido e já conheciam uma série de escritos do Novo Testamento como Escrituras dotadas de autoridade. Assim, eles já tinham um cânone do NT (ainda que alguns livros permanecessem sob discussão). De fato, é a existência desses livros que formam a base para as suas principais queixas contra os Montanistas.


Em segundo lugar, e igualmente importante, a resposta desses escritores mostra que eles não aceitaram essas “novas revelações” na época. Para eles, o tipo de revelação que poderia ser considerada como “palavra de Deus” cessou no período apostólico.

Tratando da igreja moderna, há grandes lições a serem aprendidas aqui. Por um lado, devemos ser igualmente cautelosos sobre alegações extravagantes de pessoas recebendo nova revelação do céu. E, ainda mais do que isso, o debate montanista é um grande lembrete para irmos sempre de volta às Escrituras como orientação e padrão definitivo para a verdade. É na palavra de Deus escrita que a igreja deve permanecer firme.

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Autor: Michael J. Kruger
Fonte: Canon Fodder
Tradução: Erving Ximendes
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A Doutrina Reformada acerca da Revelação

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Ainda que a luz da natureza e as obras da criação e da providência manifestam de tal modo a bondade, a sabedoria e o poder de Deus, que os homens ficam inescusáveis, todavia não são suficientes para dar aquele conhecimento de Deus e da sua vontade, necessário à salvação; por isso foi o Senhor servido, em diversos tempos e diferentes modos revelar-se e declarar à sua Igreja aquela sua vontade; e depois, para melhor preservação e propagação da verdade, para o mais seguro estabelecimento e conforto da Igreja contra a corrupção da carne e malícia de Satanás e do mundo, foi igualmente servido fazê-la escrever toda. Isto torna a Escritura Sagrada indispensável, tendo cessado aqueles antigos modos de Deus revelar a sua vontade ao seu povo (Confissão de Fé de Westminster, 1:1).

O primeiro capítulo da Confissão de Fé de Westminster começa tratando da bibliologia, a doutrina das Escrituras. Isto é apropriado. Não porque a doutrina das Escrituras seja mais importante do que outras doutrinas, como a pessoa e obra de Deus (a teologia propriamente dita) e de Cristo (a cristologia). Mas porque a doutrina das Escrituras é a base, a fonte de todas as demais doutrinas.

Com o princípio reformado resumido na expressão latina Sola Scriptura, os reformadores rejeitaram a autoridade das tradições eclesiásticas e das supostas novas revelações do Espírito. E restabele­ceram as Escrituras como única regra de fé e prática, como única fonte autoritativa em matéria de doutrina e prática eclesiástica.

DIVISÃO DO ASSUNTO

As seguintes doutrinas são tratadas neste capítulo da Confissão de Fé:

        • Doutrina da Revelação (parágrafo I)
         O Cânon e a Inspiração das Escrituras (parágrafos II e III)
         Autoridade das Escrituras (parágrafos IV e V)
         Suficiência das Escrituras (parágrafo VI)
         Clareza das Escrituras (parágrafo VII)
         Preservação e Tradução das Escrituras (parágrafo VIII)
         Interpretação das Escrituras (parágrafo IX)
         O Juiz Supremo das Controvérsias Religiosas (parágrafo X)


REVELAÇÃO NATURAL

A Confissão de Fé de Westminster começa professando a doutrina da revelação natural: Deus se revela por meio das obras que foram criadas e da própria consciência do homem, na qual está impregnado um padrão moral, ainda que imperfeito por causa da queda.

Biblicamente falando, o universo físico é uma pregação. O cosmos proclama os atributos de Deus. O macrocosmos (as estrelas, os planetas, os satélites, com sua imensidão, grandeza e leis), o cosmos (a terra, os mares, as montanhas, os vegetais, os animais, o homem), e o microcosmos (os micro-organismos, a constituição dos elementos, etc.) revelam muita coisa a respeito da pessoa e da obra de Deus. O Autor de tal obra tem de ser infinitamente sábio e poderoso.

O próprio ser humano, como criatura de Deus, independente­mente do aprendizado, já nasce com uma consciência, uma versão da lei de Deus impregnada no seu ser que o habilita a discernir entre o bem e o mal e com um instinto que o induz à adoração da divindade. Este é o ensino bíblico do Antigo e do Novo Testamento:

Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras das suas mãos. Um dia discursa a outro dia e uma noite revela conhecimento a outra noite. Não há linguagem, nem há palavras, e deles não se ouve nenhum som; no entanto, por toda a terra se faz ouvir a sua voz, e as suas palavras até aos confins do mundo” (Sl 19:1-4).

Porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas” (Rm 1:19-20).

Quando, pois, os gentios que não têm lei procedem por natureza de conformidade com a lei, não tendo lei, servem eles de lei para si mesmos. Estes mostram a norma da lei gravada nos seus corações, testemunhando-lhes também a consciência, e os seus pensamentos mutuamente acusando-se ou defendendo-se” (Rm 2:14-15).

Ao estudar a criação, o homem deveria procurar ver Deus nela, pois é obra dele, e revela os seus atributos. As ciências podem até ser consideradas departamentos da teologia, especializações que estudam a criação e a providência. O estudo da química, da física, da matemática, da biologia, da geografia, da política, da antropologia, da história, etc., deve ter por fim último a glória de Deus. Não é sem razão que muitos dos primeiros cientistas dignos do nome eram cristãos sinceros, como Isaac Newton e Faraday.

Ao se estudar a criação, em qualquer esfera, deveria se descobrir nela as mãos de Deus e as mãos do diabo. Por um lado, observa-se nela impressionante e substancial lógica, ordem, harmonia, sabedoria e poder. Por outro lado, pode-se também perceber na natureza os traços da corrupção, desordem, conflito e degeneração decorrentes da queda. Mas a educação do nosso século, especialmente no nosso país, embora, em geral, reivindique ser cristã, tornou-se na verdade materialista. Onde, nas escolas e universidades, essas disciplinas são estudadas com essa perspectiva e com esse propósito?!

A CULPA HUMANA

Se o homem não houvesse caído, a revelação natural seria suficiente para que ele compreendesse as verdades com relação a Deus, à criação, ao próprio homem, etc.; de modo a submeter-se a Deus e a adorá-lo, rendendo-lhe a graça, o louvor e a honra que lhe são devidas.

Mesmo caído, a revelação natural ainda é suficiente para torná-lo indesculpável, pois o homem natural deturpa a revelação natural. Ele não dá ouvidos à pregação da natureza que o convida a glorificar a Deus. Ele não se submete à proclamação do cosmo, nem reconhece a origem divina das leis que regem o universo. O homem natural também não se submete às leis da sua própria consciência, transgredindo-as constante e deliberadamente. Recusando-se rebeldemente a reconhecer a soberania do Criador e a adorá-lo, o homem natural prefere adorar a criatura.

Tais homens são por isso indesculpáveis; porquanto tendo conhecimento de Deus não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos, e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis... pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura, em lugar do Criador, o qual é bendito eternamente. Amém” (Rm 1:21-23, 25).

Este diagnóstico é igualmente verdadeiro, quer aplicado à filosofia dos sofistas, epicureus e gnósticos da Grécia Antiga, quer aplicado ao humanismo renascentista, quer aplicado à ciência materia­lista moderna. Onde, insisto, nas escolas e universidades de nosso país, estuda-se a criação pela perspectiva das Escrituras e com o propósito de glorificar a Deus?

O homem natural confunde o Criador com a criação (e crê no panteísmo), isola o Criador da criação (e prega o deísmo), rejeita o Criador (e professa o materialismo), ou dá-se por satisfeito com a criação (dando origem ao naturalismo). Na sua louca cegueira, o homem natural rebelde vai além: ele prefere atribuir os traços de corrupção, desordem e conflito percebidos na criação ao Criador, e explicar a substancial lógica, ordem, harmonia, sabedoria e poder nela percebidos às forças cegas da natureza, à evolução natural, à seleção natural, ou mesmo a mutações genéticas.

Por isso o homem é indesculpável. Por isso é justamente culpado: por se recusar a andar conforme o grau da revelação que recebe, seja da natureza, seja da consciência, e se entregar rebelde e arrogan­temente a todo tipo de impiedade. “Ora, conhecendo eles a sentença de Deus, de que são passíveis de morte os que tais coisas praticam, não somente as fazem, mas também aprovam os que assim procedem” (Rm 1:32).

INSUFICIÊNCIA DA REVELAÇÃO NATURAL

A revelação natural é, portanto, suficiente para condenar, mas não para salvar. Devido ao estado decaído do homem, a revelação natural não é nem clara nem suficiente para que as verdades necessá­rias à sua salvação sejam compreendidas.

A religião natural ensina que a revelação da natureza é suficiente para a salvação do homem. Para os que assim pensam, a mente humana desassistida pode compreender tudo o que é necessário à salvação. Mas tal ensino contradiz frontalmente a revelação bíblica. De acordo com as Escrituras, “o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las porque elas se discernem espiritualmente” (1 Co 2:14). Segundo as Escrituras, “aprouve a Deus salvar aos que crêem, pela loucura da pregação” (1 Co 1:21). É por isso que o apóstolo Paulo exclama: “Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Como, porém, invocarão aquele em que não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue?” (Rm 10:13-14). Qual a conclusão? “Logo, a fé vem pela pregação (pelo ouvir) e a pregação (o ouvir), pela palavra de Cristo” (Rm 10:17).

Deus se revela na criação, sim. Esta revelação é suficiente para tornar a raça humana indesculpável. Mas, por causa da queda, não é suficiente para a salvação de ninguém.

REVELAÇÃO ESPECIAL

Não sendo a revelação natural suficiente para salvar o homem em função da queda, aprouve a Deus revelar-se diretamente à igreja.

Assim, Deus preparou um povo, Israel, na Antiga Aliança, e a igreja, na Nova Aliança, para revelar-lhe diretamente o conhecimento necessário à salvação. De modo direto e sobrenatural, por meio do seu Espírito, através de revelação direta, teofanias, anjos, sonhos, visões, pela inspiração de pessoas escolhidas e pelo seu próprio Filho, Deus comunicou progressivamente à igreja, no curso dos séculos, as verda­des necessárias à salvação, as quais, de outro modo, seriam inaces­sí­veis ao homem.

Foi assim que Deus revelou-se a Noé, a Abraão, a Moisés, aos profetas, a Davi, a Salomão, aos seus apóstolos e, especialmente, em Cristo. É neste sentido que o autor da Epístola aos Hebreus afirma que, “Havendo Deus, outrora, falado muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias nos falou pelo Filho a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo” (Hb 1:1-2). Cristo é a revelação final de Deus.

É este também o sentido das palavras do apóstolo Paulo endereçada aos gálatas: “Faço-vos, porém, saber, irmãos, que o evangelho por mim anunciado não é segundo o homem; porque eu não o recebi, nem o aprendi de homem algum, mas mediante revelação de Jesus Cristo” (Gl 1:11-12).

À igreja de Deus, portanto, foram confiados os oráculos de Deus, uma revelação especial, inspirada, clara, precisa, autoritativa, suficiente para ensinar ao homem o que ele deve conhecer e crer e o que dele é requerido, com vistas à sua própria salvação e à glória de Deus.

REVELAÇÃO ESCRITA

Tendo em vista a insuficiência da revelação natural e a absoluta necessidade da revelação especial, aprouve a Deus ordenar que esta revelação fosse toda escrita, a fim de que pudesse ser preservada e permanecesse disponível, para a consecução dos seus propósitos eternos. Deus conhece perfeitamente a natureza humana corrompida. Ele conhece também a malícia de Satanás, bem como a perversão do mundo. Ele sabe que revelar a sua vontade à igreja não seria suficiente, pois seria fatalmente corrompida e deturpada. Basta observar as tradições religiosas, mesmo as ditas cristãs; como tendem inexoravel­mente para o erro!

Por isso Deus fez com que todas as verdades necessárias à salvação, santificação, culto, serviço e vida do homem, fossem escritas e preservadas, para que pudessem ser conhecidas, cridas e obedecidas. Com este propósito, o próprio Deus, por meio do seu Espírito, inspirou os autores bíblicos, a fim de que pudessem escrever a revelação especial, sem erro algum.

Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2 Tm 3:16).

Temos assim tanto mais confirmada a palavra profética, e fazeis bem em atendê-la, como a uma candeia que brilha em lugar tenebroso, até que o dia clareie e a estrela da alva nasça em vossos corações; sabendo, primeira­mente, isto, que nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação; porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana, entretanto homens santos falaram da parte de Deus movidos pelo Espírito Santo” (2 Pe 1:19-21).

De acordo com este parágrafo da Confissão, portanto, a revelação escrita é expressão da graça de Deus com vistas à preser­vação da integridade da verdadeira religião e à salvação, edificação e conforto do seu povo.

NECESSIDADE DAS ESCRITURAS

Sendo a Palavra escrita o meio escolhido por Deus para revelar a sua vontade ao homem, ela não pode ser dispensada, igualada, acrescentada nem suplantada. Nem o Espírito agiria em detrimento ou à parte dela, mas com e por ela. É neste sentido que as Escrituras são necessárias e indispensáveis para a comunicação das verdades necessárias à salvação. A Igreja Católica têm a tradição oral. Os reformadores radicais tinham a palavra interior. Outras denominações modernas têm novas revelações do “Espírito.” A fé reformada se fundamenta inteiramente nas Escrituras.

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Nota:

[1] Ler Salmo 19:1-4; Romanos 1:19-22; 1 Coríntios 1:21; e Romanos 10:13-14,17.

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Autor: Rev. Paulo R. B. Anglada
Fonte: Paulo R. B. Anglada, Sola Scriptura: A Doutrina Reformada das Escrituras (São Paulo: Editora Os Puritanos, 1998), 25-31.
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