A Benção de ter uma alma atormentada!

.

Por Josemar Bessa

Há textos na Bíblia que nos surpreendem com base no que lemos na Bíblia antes. O apóstolo Pedro diz algo surpreendente em 2 Pedro 2.7 – “E livrou o justo Ló...” – Quando penso em Ló, não me lembro de Ló como alguém especialmente justo na história famosa em que ele aparece em Sodoma e Gomorra.

Ele escolheu habitar nas campinas verdes de Sodoma (Gênesis 13.13). Ainda lembro de algo pior – na hora da fuga, quando as cidades seriam destruídas, Ló demorou (Gênesis 19.16). Depois que escapou da cidade foi embebedado por suas filhas... De fato não é uma grande história.

Mas Pedro ainda consegui chamá-lo de “justo” em algum sentido. E se Deus repetidamente tinha assegurado a Abraão que ele não iria punir o justo com o ímpio (Gn 18.25), então é lógico que o veredicto é o mesmo do de Pedro. Então em que sentido Ló era um homem “justo”? (Não estamos usando o termo como a justiça imputada por Deus quando justifica o homem em Cristo – é óbvio – mas de uma vida que resulta de tudo o que Deus opera no homem por graça – justificação, regeneração...).

Vemos, e Pedro nos mostra, (que com resultado daquilo que Deus faz no coração de um homem por graça ) – viver lá foi um tormento para Ló. Ló não foi um homem que banalizou o pecado e com ele se acostumou. Ló, diz Pedro: “...se afligia, era atormentado... com o procedimento dos que não tinham princípios morais” – em outra versão: “Ló vivia enfadado da vida dissoluta dos homens...” (2 Pedro 2.7). Sua alma justa estava “atormentada” ao contemplar todos os dias a vida dos homens alienados de Deus e expressando seu amor ao pecado – “Pois vivendo entre eles, todos os dias aquele justo se atormentava em sua alma justa por causa das maldades que via e ouvia” - “porque este justo, habitando entre eles, afligia todos os dias a sua alma justa, vendo e ouvindo sobre suas obras injustas”  - 2 Pedro 2.8.

Apesar de todas as falhas que vemos em Ló, ele é um exemplo digno a este respeito: o pecado o incomodava!

Este é um equilíbrio difícil – como ser atormentado pelo pecado, e ainda ser uma fonte de boa notícia para o pecador. É um grande desafio – porque muitos ao dizerem que desejam ser fonte de salvação dos pecadores... missionais... banalizam o pecado, encontram estratégias que não mostram apenas amor, mas sim que não tem uma alma atormentada pelo pecado.

Por um lado queremos mostrar amor e respeito aos nossos vizinhos, amigos de escola, trabalho... queremos que encontrem misericórdia, desejamos vê-los regenerados pela graça soberana de Deus...  Queremos ver pecadores reconciliados com Deus em Cristo, em paz com Deus... no entanto, NUNCA podemos fazer a paz com o pecado do e no mundo.

Tanto quanto queremos mostrar bondade para com nossos vizinhos, amigos, conhecidos... o seu pecado, a sua rejeição a Cristo... sua rejeição a lei de Deus, sua vida como se Deus não existisse... nos atormenta. Não nos opomos ao pecado do mundo simplesmente porque ele é errado, leva o homem a tristes consequências... Em nossos novos corações ( se somos de fato regenerados ) – nos opomos aos seus pecado (pessoas, mundo, sociedade) e nossos, porque o achamos terrível, desagradável, angustiante... para nossos novos corações, e, acima de tudo, porque rouba a glória de Deus.

Aí Ló é um exemplo para nós. Ele não tinha um sentimento frio e morno sobre o pecado, como muitos tem. Não tinha uma familiaridade com o pecado que o deixou insensível e cauterizado ante a hediondez do pecado aos olhos de Deus. Muitas pessoas se chocam com o pecado e a impiedade apenas a primeira vista – nos ambientes em que com ele são obrigados a conviver, mas logo ficam acostumados a vê-lo, que vê-lo já não faz grande diferença, pelo contrário há um indiferença.

Já não temos percebido a estratégia do mundo e do diabo que é fazer com que olhemos o pecado e ao olharmos nos sintamos normais e como algo normal. Mas como alguém disse no passado, “nossa grande segurança contra o pecado está em que o pecado nos choque”. Mas num mundo repleto de sensualidade ( como o que vivemos, como o que Ló vivia) – estamos em grave perigo de nos tornarmos insensíveis ao pecado, e disfarçarmos, o que é pior, essa insensibilidade com a desculpa de estarmos amando os pecadores e tentando salvá-los...

Podemos realmente dizer hoje que como Ló, nossas almas justas são atormentadas todos os dias ( não pelas tristezas humanas) mas pelos pecados, maldades... contra Deus que vemos e ouvimos? Nossas almas ficam atormentadas? Ou seria mais correto dizer que achamos muito disso normal e as vezes até engraçado? O que você tem ouvido e visto tem te atormentado? Ou já fizemos paz com os pecados que um dia nos chocavam? Estamos entretidos com coisas que antes nos fariam recuar de dor na alma pelo quanto tudo aquilo rouba a glória de Deus e o ofende? Temos crescido em nossos corações calos insensíveis ao pecado e que nos torna confortáveis diante dele?

Quando não somos atormentados mais, isso não é evidência de amar o pecador, é evidência de uma coração que se assemelha a eles em seu pecado. Isso não é abrir portas para “ganhá-los, é estar sendo vencido pelo pecado.

A verdade triste é que muitos de nós sente apenas cócegas pelo pecado do mundo, e não tormento. Podemos morrer de rir dos pecados do mundo. Mas poucos de nós podemos dizer honestamente hoje: “Rios de lágrimas correm dos meus olhos, porque a tua lei não é obedecida” – Salmos 119.136.

Deus tenha misericórdia de nossa geração!!!

.

A vida cristã não se reduz a mera profissão de lábios

.
por João Calvino

E este é o lugar apropriado para dirigir-me aos que não têm Cristo além de um título exterior, e com isso já pretendem ser  tidos como cristãos. 130 Afinal, com que despropósito se gloriam de seu sagrado nome quando, na realidade, nada há de intercâmbio com Cristo, a não ser com aqueles que da palavra do evangelho atingiram o reto conhecimento dele! Com efeito, o Apóstolo nega que aprenderam corretamente a Cristo todos aqueles que não foram ensinados que, despido o homem velho, que se corrompe segundo os desejos do erro, têm de vestir-se de Cristo [Ef 4.22-24].


Portanto, por mais eloquente e fluentemente falam acerca do evangelho, são acusados de falsamente, e até com agravo, arrogar-se o conhecimento de Cristo. Ora, esta não é uma doutrina de língua, mas de vida; não é apreendida apenas pelo intelecto e pela memória, como as restantes disciplinas, mas, afinal, é recebida então quando possui toda a alma e acha assento e guarida no afeto íntimo do coração. Logo, ou deixem de jactar-se afrontosamente contra Deus, daquilo que não são, ou se mostrem discípulos não indignos de Cristo, seu Mestre.

Temos dado o primeiro lugar à doutrina, na qual se contém nossa religião, uma vez que nossa salvação tem nela o ponto de partida. Mas, é necessário que ela nos seja penetrada no coração e nos seja traduzida no modo de viver, e nos transforme a tal condição que não nos seja infrutífera. Se com razão os filósofos se inflamam contra aqueles que, em professando uma arte que deva ser-lhes a mestra da vida, a convertem em loquacidade sofística, e os eliminam ignominiosamente de sua clã, com quanto mais razão teremos de detestar esses sofistas fúteis que se contentam em tagarelar o evangelho com os lábios. Evangelho cuja eficácia deveria penetrar nos mais profundos afetos do coração, arraigar-se na alma e afetar o homem por inteiro, cem vezes mais do que as frias exortações dos filósofos.


João Calvino. Institutas da Religião Cristã.
___________________________________________________________________________
130. Primeira edição: “E aqui é o lugar de trazer às falas aqueles que, nada tendo de Cristo senão o nome e a marca, querem, no entanto, ser chamados cristãos.”


Fonte: Orthodoxia

Conselhos de John Frame para seminaristas e teólogos iniciantes

.
Por Daniel Santos Jr. (danielsantosjr.com)

Trinta conselhos de John Frame para seminaristas e teólogos iniciantes. Esses conselhos foram publicados em Inglês no livro Falando a verdade em amor: a teologia de John Frame, após uma entrevista que ele deu a P. Andrew Sandlin. A pergunta feita a John Frame foi a seguinte: “Quais conselhos você daria a um seminarista ou teólogo iniciante enquanto eles se preparam para enfrentar seus desafios?” As repostas foram traduzidas por mim, com pequenas adaptações. Se preferir, veja a versão em inglês no blog de Andi Naselli.

Dr. John Frame é professor de teologia sistemática e filosofia no Reformed Theological Seminary em Orlando, após ter servido por 31 anos como professor no Westminster Theological Seminary, Califórnia.


1. Considere a possibilidade de você não ter sido chamado para ser um teólogo. Tiago 3:1 nos lembra de que nem todos os que estão estudando teologia deveriam procurar ser mestres.

2. Valorize seu relacionamento com Cristo, com sua família e com a igreja mais do que a sua carreira. Você influenciará mais pessoas por meio de sua vida do que pela sua teologia. As deficiências em sua vida acabarão negando a influência de suas ideias, mesmo as ideias que são verdadeiras.

3. Lembre-se de que a tarefa fundamental da teologia é entender a Bíblia, a Palavra de Deus, e aplicá-la para as necessidades das pessoas. As demais coisas, sofisticação exegética, histórica e linguística, conhecimento da cultura e filosofias, tudo isso deve estar subordinado à tarefa fundamental acima. Se não estiver, você acabará sendo aclamado como um grande historiador, linguista, filósofo ou crítico da cultura, mas não como um teólogo.

4. No cumprimento da tarefa acima, você tem a obrigação de saber argumentar. Pode parecer óbvio, mas muitos teólogos hoje perecem não ter a menor ideia de como fazer isso. Teologia é uma disciplina argumentativa e, por isso, você precisa ter um conhecimento suficiente de lógica e persuasão a fim de construir argumentos que sejam válidos, sadios e persuasivos. Na teologia, não basta demonstrar que você tem conhecimento da história, da cultura ou de outras áreas do saber.

5. Não basta citar pessoas que concordam com você e criticar aquelas que discordam do seu ponto de vista. Você precisa saber formular um argumento em defesa daquilo que crê.

6. Aprenda a escrever e falar de maneira clara e convincente. Os melhores teólogos são capazes de tomar um assunto complexo e explicá-lo numa linguagem simples. Nunca tente demonstrar que você é especialista numa área por meio de uma linguagem obscura e opaca.

7. Cultive uma intensa vida devocional e ignore aqueles que o acusarem de uma falsa piedade. Ore sem cessar. Leia a Bíblia, não apenas como um texto acadêmico. Valorize todas as oportunidades de participar de cultos e reuniões de oração no seminário e aos domingos na igreja local. Dê atenção à sua “formação espiritual”.

8. Um teólogo é essencialmente um pregador, exceto que ele se envolve ocasionalmente com assuntos mais “misteriosos” do que o pregador. Seja um bom pregador. Encontre uma maneira de fazer sua teologia falar aos corações das pessoas.  Encontre uma maneira de apresentar sua teologia de tal modo, que as pessoas ouçam a voz de Deus nela.

9. Seja generoso com seus recursos. Gaste tempo conversando com seus alunos e aqueles que pretendem ser alunos. Doe livros e artigos. Não seja “mão fechada” no que tange a materiais com seus direitos autorais. Dê permissão para seu material ser copiado, sempre que for solicitado. Ministério em primeiro lugar, dinheiro em segundo.

10. Ao criticar outros teólogos, denominações ou movimentos, siga a ética bíblica. Não chame uma pessoa de herege precipitadamente. Não acuse pessoas com termos do tipo “outro evangelho” (aqueles que pregam  um outro evangelho estão sob a maldição de Deus).  Não destrua a reputação das pessoas por meio de uma citação equivocada, fora do contexto, ou no pior sentido possível. Seja gentil e generoso a menos que você tenha razões fortíssimas para ser severo.

11. Numa controvérsia, nunca se posicione, precipitadamente, de um lado do debate. Faça um trabalho analítico de ambas as partes. Considere estas possibilidades: a) os dois lados podem estar olhando para o mesmo assunto de perspectivas diferentes, mas não pensando de maneira diferente; b) ambos os labos podem estar despercebidamente desprezando um ponto que poderia fazê-los pensar em harmonia; c) eles estão tendo dificuldade de se comunicar um com o outro porque estão usando termos que têm sentidos múltiplos; d) pode haver uma terceira alternativa melhor do que as duas posições que estão sendo defendidas; e) ambas as opiniões na controvérsia, mesmo que genuínas, devem ser toleradas na igreja, assim como as diferenças entre vegetarianos e não vegetarianos em Rm 14.

12. Quando você tiver uma grande ideia, não espere que as pessoas a entendam imediatamente. Não tente promover esta nova ideia a ponto de criar uma facção. Não entre em rivalidade com aqueles que por acaso não vierem a apreciar sua maneira de pensar. Dialogue com eles de maneira gentil, reconhecendo que você pode estar errado e não tem a humildade de reconhecer isso.

13. Não seja impulsivamente crítico com qualquer coisa que venha de outras tradições religiosas. Seja humilde para reconhecer que outras denominações podem ter algo a lhe ensinar. Seja “ensinável” antes de começar a ensiná-los. Tire a trava dos seus olhos.

14. Esteja preparado para avaliar criticamente a sua própria tradição. É uma ilusão pensar que uma tradição religiosa tem todas as verdades ou está sempre certa. Não seja um daqueles teólogos conhecidos por tentar fazer arminianos se transformarem em calvinistas (ou vice-versa).

15. Olhe para os documentos confessionais de sua denominação com a perspectiva correta. Eles são, entre outras coisas, o fruto do trabalho de teólogos e devem ser avaliados e reformados, quando necessário, pela Palavra de Deus. Não assuma que tudo o que está nos símbolos de fé da sua tradição religiosa está decidido para sempre.

16. Não deixe que o ciúme do sucesso de um colega determine as polêmicas nas quais você se envolve, ou o lado que você toma em tais polêmicas. Há muitos que são inclinados a ser completamente críticos de igrejas com mais de cinco mil membros.

17. Não se torne conhecido como um teólogo que atira para todos os lados tentando acertar outros teólogos ou cristãos. Nossos inimigos são: satanás, o mundo e a carne.

18. Mantenha-se vigilante com respeito aos seus instintos sexuais. Mantenha distância de qualquer pornografia na internet e relacionamentos ilícitos. Teólogos não são imunes a nenhum dos pecados nos quais outras pessoas caem.

19. Seja um membro ativo na igreja local. Teólogos precisam dos meios da graça no mesmo tanto que os demais membros da igreja. Isto é especialmente verdadeiro quando você estuda em uma universidade secular ou seminário liberal. Você precisa do suporte de outros crentes para manter uma perspectiva teológica apropriada.

20. Faça seu primeiro curso de teologia num seminário que ensine a Bíblia como Palavra de Deus. Procure familiarizar-se com a teologia das Escrituras antes de se expor (se for o caso) a formas de pensamentos não bíblicas.

21. Aprenda a demonstrar apreciação pela sabedoria, até mesmo a sabedoria teológica, daqueles cristãos totalmente leigos. Não seja um daqueles teólogos que tem sempre algo negativo a dizer quando uma pessoa mais simples descreve sua caminhada com o Senhor. Frequentemente, pessoas simples como estas conhecem a Deus melhor do que você, e você precisa aprender deles, à semelhança do que fez Abraão Kuyper.

22. Não seja um daqueles teólogos que se empolga com toda e qualquer novidade em política, cultura, hermenêutica e até mesmo teologia, e pensa que devemos reconstruir toda nossa teologia para se adequar a cada tendência.

23. Tenha sempre um pé atrás com todas as “tendências” em teologia.  Quando você vir todo mundo entrando no mesmo vagão, seja feminismo, liturgia, pós-modernismo, ou qualquer outro “ismo”, este é o momento para você abrir os olhos e usar sua capacidade crítica. Não embarque em qualquer uma destas tendências antes de fazer a sua sondagem.

24. Ao mesmo tempo, não rejeite uma ideia inovadora apenas por ser inovadora. Mais importante ainda, não rejeite uma ideia simplesmente porque ela não soa como aquilo que você está acostumado a ouvir. Aprenda a discernir entre o “som de uma ideia” e aquilo que a ideia realmente diz.

25. Esteja sempre alerta para argumentos que recorrem a metáforas ou termos técnicos extra bíblicos. Não assuma que todos estes termos têm um sentido perfeitamente claro. Geralmente este não é o caso.

26. Aprenda a ser crítico daqueles que são críticos. Estudiosos liberais ou não cristãos estão propensos a errar como qualquer outro – na verdade, são mais propensos.

27. Respeite os mais velhos. Não existe nada mais prejudicial a um teólogo iniciante do que desprezar aqueles que têm atuado no campo por décadas. Discordar é cabível conquanto você reconheça a maturidade e as contribuições daqueles de quem você discorda. Tenha sempre 1Tm 5:1 no coração.

28. Teólogos iniciantes geralmente se veem como o próximo Lutero. Olhe, é muito provável que Deus não o tenha escolhido para ser o líder de uma nova reforma, como nos dias de Lutero. Mesmo se este for o caso, nunca se intitule como “o reformador”; deixe que os outros decidam se isso é realmente o que você é.

29. Decida cedo em sua carreira (após ter experimentado algumas vezes) no que você irá focar e no que não irá focar. Quando você começar a ter que considerar oportunidades, o saber quando dizer não é muito mais importante do que saber quando dizer sim.

30. Nunca perca seu senso de humor (não apele). Perder o senso de humor é perder o senso de proporção. Nada é mais importante em teologia do que o senso de proporção.

Seu comentário e/ou crítica pode ajudar outros a refletir melhor sobre estes conselhos de John Frame.

- Sobre o autor: Daniel Santos é professor de Antigo Testamento no Centro de Pós-Graduação Andrew Jumper em São Paulo, Brasil. Tem um Ph.D. em Estudos Teológicos no Antigo Testamento pela Trinity Evangelical Divinity School (Chicago, 2006). Atualmente ele desenvolve estudos pós-doutorais na literatura sapiencial do AT sob a orientação de Kevin Vanhoozer, patrocinado pela Langham Partnership International. 

Fonte: danielsantosjr.com
.

Carta Aberta aos Grupos de Louvor



Por James K.A. Smith

Querido Grupo de Louvor,

Eu aprecio muito a sua disponibilidade e desejo de oferecer seus dons a Deus em adoração. Aprecio sua devoção e celebro sua fidelidade — arrastando-se para a igreja cedo, domingo após domingo, separando tempo para ensaiar durante a semana, aprendendo e escrevendo novas canções, e tantas coisas mais. Assim como aqueles artistas e artesãos que Deus usou para criar o tabernáculo (Êxodo 36), vocês são dispostos a dispor seus dons artísticos a serviço do Deus Triuno.

Portanto, por favor, recebam esta pequena carta no espírito que ela carrega: como um encorajamento a refletir sobre a prática de “conduzir a adoração”. A mim parece que vocês frequentemente simplesmente optaram por uma prática sem serem encorajados a refletir em sua lógica, sua “razão de ser”. Em outras palavras, a mim parece que vocês são frequentemente recrutados a “conduzir a adoração” sem muita oportunidade de parar e refletir na natureza da “adoração” e o que significaria “conduzir”.

Especificamente, minha preocupação é que nós, a igreja, tenhamos involuntariamente encorajado vocês a simplesmente importar práticas musicais para a adoração cristã que — ainda que elas possam ser apropriadas em outro lugar — sejam prejudiciais à adoração congregacional. Mais enfaticamente, usando a linguagem que eu empreguei primeiramente em Desiring the Kingdom¹, às vezes me preocupo de que tenhamos involuntariamente encorajado vocês a importar certas formas de execução que são, efetivamente, “liturgias seculares” e não apenas “métodos” neutros. Sem perceber, as práticas dominantes de execução nos treinam a relacionar com a música (e os músicos) de certa maneira: como algo para o nosso prazer, como entretenimento, como uma experiência predominantemente passiva. A função e o objetivo da música nestas “liturgias seculares” é bem diferente da função e o objetivo da música na adoração cristã.

Então deixe-me oferecer apenas alguns breves conceitos com a esperança de encorajar uma nova reflexão na prática da “condução da adoração”:

1. Se nós, a congregação, não conseguimos ouvir a nós mesmos, não é adoração. A adoração cristã não é um concerto. Em um concerto (uma particular “forma de execução”), nós frequentemente esperamos ser sobrepujados pelo som, particularmente em certos estilos de música. Em um concerto, nós acabamos esperando aquele estranho tipo de privação dos sentidos que acontece com a sobrecarga sensorial, quando o golpe do grave em nosso peito e o fluir da música sobre a multidão nos deixa com a sensação de uma certa vertigem auditiva. E não há nada de errado com concertos! Só que a adoração cristã não é um concerto. A adoração cristã é uma prática coletiva, pública e congregacional — e o som e a harmonia reunidos de uma congregação cantando em uníssono é essencial à prática da adoração. É uma maneira “desempenhar” a realidade de que, em Cristo, nós somos um corpo. Mas isso requer que nós na verdade sejamos capazes de ouvir a nós mesmos, e ouvir nossas irmãs e irmãos cantando ao nosso lado. Quando o som ampliado do grupo de louvor sobrepuja às vozes congregacionais, não podemos ouvir a nós mesmos cantando — então perdemos aquele aspecto de comunhão da congregação e somos encorajados a efetivamente nos tornarmos adoradores “privados” e passivos.

2. Se nós, a congregação, não podemos cantar juntos, não é adoração. Em outras formas de execução musical, os músicos e as bandas irão querer improvisar e “serem criativos”, oferecendo novas execuções e exibindo sua virtuosidade com todo tipo de diferentes trills e pausas e improvisações na melodia recebida. Novamente, isso pode ser um aspecto prazeroso de um concerto, mas na adoração cristã isso significa apenas que nós, a congregação, não conseguimos cantar junto. Então sua virtuosidade desperta nossa passividade; sua criatividade simplesmente encoraja nosso silêncio. E enquanto vocês possam estar adorando com sua criatividade, a mesma criatividade na verdade desliga a canção congregacional.

3. Se vocês, o grupo de louvor, são o centro da atenção, não é adoração. Eu sei que geralmente não é sua culpa que os tenhamos colocado na frente da igreja. E eu sei que vocês querem modelar a adoração para que nós imitemos. Mas por termos encorajado vocês a basicamente importar formas de execução do local do concerto para o santuário, podemos não perceber que também involuntariamente encorajamos a sensação de que vocês são o centro das atenções. E quando sua performance se torna uma exibição de sua virtuosidade — mesmo com as melhores das intenções — é difícil opor-se à tentação de fazer do grupo de louvor o foco de nossa atenção. Quando o grupo de louvor executa longos riffs, ainda que sua intenção seja “ofertá-los a Deus”, nós na congregação nos tornamos completamente passivos, e por termos adotado o hábito de relacionar a música com os Grammys e o local de concerto, nós involuntariamente fazemos de vocês o centro das atenções. Me pergunto se há alguma ligação intencional na localização (ao lado? conduzir de trás?) e na execução que possa nos ajudar a opor-nos contra estes hábitos que trazemos conosco para a adoração.

Por favor, considerem estes pontos com atenção e reconheçam o que eu não estou dizendo. Este não é apenas algum apelo pela adoração “tradicional” e uma crítica à adoração “contemporânea”. Não pense que isto é uma defesa aos órgãos de tubos e uma crítica às guitarras e baterias (ou banjos e bandolins). Minha preocupação não é com o estilo, mas com a forma: O que estamos tentando fazer quando “conduzimos a adoração?” Se temos a intenção que a adoração seja uma prática congregacional de comunhão que nos traz a um encontro dialógico com o Deus vivo — em que a adoração não seja meramente expressiva, mas também formativa² — então podemos fazer isso com violoncelos, guitarras, órgãos de tubos ou tambores africanos.

Muito, muito mais poderia ser dito. Mas deixe-me parar por aqui, e por favor receba esta carta como o encorajamento que ela foi feita para ser. Eu adoraria vê-los continuar a oferecer seus dons artísticos ao Deus Triuno que está nos ensinando uma nova canção.

Sinceramente,

Jamie

________________

Notas:

¹ Desiring the Kingdom – Worship, Worldview, and Cultural Formation (Desejando o Reino – Adoração, Cosmovisão e Formação Cultural) [N. do T.]
² De acordo com o The Colossian Forum, a despeito de a adoração ser encarada hoje em dia apenas como algo que se vai em direção a Deus (expressão), ao longo da história ela sempre foi encarada também como a causadora de algo em nós (formação). “A adoração cristã é também uma prática formativa justamente porque a adoração também é um encontro ‘descendente’ no qual Deus é o atuante primário” (Fonte: http://www.colossianforum.org/2011/11/09/glossary-worship-expression-and-formation/). [N. do T.]

.

Kurios e douloi – Deus não é seu colega de debates!


Por Josemar Bessa

Após a conversão, quando um homem de fato foi regenerado, a motivação para tudo na vida deve ser o desejo de agradar a Cristo, que, como Kurios (Senhor), tem direitos de propriedade sobre a sua vountade – douloi (Escravo) – “Paulo, escravo de Cristo Jesus...” (Romanos 1.1) - “E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou.” - 2 Coríntios 5:15

Este é o ponto crucial se estamos falando de uma doutrina, casamento, membresia ou frequência à igreja... ou qualquer outra área da vida cristã. Quando respondemos a mandamentos divinos com um “mas” ou uma série de desculpas, nós exibimos a Serpente (questionando com Eva a clara ordem de Deus), e tratamos a Deus como nosso colega de debates. Isso não é pensar como um escravo. E não se engane, se não somos escravos de Deus, então somos escravos do pecado (Romanos 6.15-23). Mas nós somos escravos! Então, o que você faz quando confrontado com um mandamento claro, com o claro ensino das Escrituras.

Sem argumentação bíblica, argumentamos como ímpios. O ensino das Escrituras muitas vezes atravessa a nossa vontade natural, sobre casamento, igreja, trabalho, lazer... mas grande parte das argumentações se opondo a verdade não partem de textos bíblicos. Pessoas dizem: “não faço parte de nenhuma igreja – não congrego... porque há muitos erros...” – Esse não é um raciocínio bíblico. Não flui de nenhum texto e ensino das Escrituras, que na verdade, ensinam o oposto: “"Não deixando a nossa congregação, como é costume de alguns..." - Hebreus 10.25

Deus instituiu o casamento. Você crê nesta instituição? O homem pode argumentar da mesma forma – como se quisesse vencer Deus num debate. Nós precisamos de argumentos bíblicos - mas grande parte dos argumentos nem são lógicos e nem bíblicos.

Por exemplo - Deus criou a instituição do casamento - o casamento de muitas pessoas é um fracasso - Aí alguém dirá - "eu não acredito na instituição do casamento!" - Mas isso o coloca em rota de colisão com Deus que instituiu o casamento - o argumento (muitos casamentos são um fracasso) em nada justifica sua rebeldia contra o claro ensino de Deus sobre o casamento, nem anula o que Deus instituiu.

A mesma coisa se aplica a igreja e a todas as coisas que Deus instituiu - quando argumentamos sem argumentação bíblica, argumentamos como ímpios!! Se não cremos em Cristo no que diz respeito a igreja, casamento...não podemos tê-lo como Senhor e salvador...

Repito, o que você faz quando é confrontado com um claro ensino bíblico? Tomamos um caminhão de desculpas e justificativas e racionalizações (argumentando sem a Bíblia ) em “lógicas” ímpias... para não nos submetermos? Argumentação pífia e que racionaliza qualquer mal – Deus instituiu a família, a maioria das famílias são uma fracasso – eu não acredito na instituição da família – Essa é a ‘lógica’ do diabo! Não pode haver argumentação mais ímpia.

Quando recebemos orientação clara da bíblia, devemos abandonar racionalizações, devemos dizer: “sim, eu vou precisar de ajuda”, e então tomar a nossa cruz, nos contarmos como mortos para nós mesmos e nossas opiniões e “lógicas” ímpias, suplicarmos por graça para que em tudo Deus nos leve a obediência.

Abandonamos assim o “mas” – Muitos insistem: “Deus disse para eu obedecer, mas eu tenho estas desculpas, desafios e dificuldades – eu não consigo aceitar...” – Não! Pare! Se você insiste em argumentos não bíblicos sobre família, casamento, igreja... você coloca o seu juízo sobre Deus. O que quer dizer que não importando o que sua boca professe sobre o evangelho, suas escolhas dizem que você acha o juízo de Deus deficiente e inapropriado, se coloca como seu superior. Você não é escravo, Ele não é Senhor... Significa que você é um tolo, e de fato blasfemo, quer você tenha pretendido ou não ser.
 
Cristo preparou a igreja local, ministérios, comunhão, disciplina... Diz que você precisa dessa comunhão, crescer com todos os santos... “E ele designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, com o fim de preparar os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja edificado... até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da plenitude de Cristo.” - Efésios 4:11-13 – Cristo diz que você é parte do corpo que precisa de ministério, comunhão, disciplina... numa igreja local... congregando... Você diz: não! Você ou Jesus? Você ou Jesus? Kurios (Senhor) ou  douloi (Escravo)?

A confissão de Jesus como Senhor é fundamental para a fé cristã (Romanos 10.9; 1 Coríntios 12.3; Filipenses 2.11). Em fé e verdadeiro arrependimento, nós dobramos os joelhos ao senhorio de Cristo. O problema de nossa geração – os arroubos anti-igreja nada tem do Novo Testamento.  Slogans de panfleto e não a Bíblia tem guiado grande parte das pessoas hoje. Muitos não querem ser simplesmente cristãos - querem se ver como revolucionários - "Ches Guevaras" -Mas a verdade é: O Novo Testamento não conhece nada sobre cristianismo sem igreja. A igreja invisível é para os cristãos invisíveis. A igreja visível é para você e para mim. Tire a camiseta de Che Guevara, pare a "revolução", e se junte ao resto dos discípulos de Cristo: "Não deixando a nossa congregação, como é costume de alguns..." - Hebreus 10.25.

Eu não sou a igreja e você não é a igreja. Você é parte da igreja. A palavra κκλησία ( ekklesia ) significa "assembléia", e não, você não é realmente uma assembléia. Você é um cristão. De todos os 112 casos em o Novo Testamento onde "ekklesia" se refere à instituição fundada por Cristo, em todos, exceto em cinco (por exemplo, se referindo a igreja - "ekklesia" - se referindo a uma assembléia futura Efe. 5:25-32 e Heb. 12:23) - refere-se a uma igreja particular, concreta, local, ou a uma pluralidade de igrejas semelhantes, como "a igreja que estava em Jerusalém" (Atos 8:1); "todas as igrejas dos gentios" (Rom. 16:4); "as igrejas da Macedônia" (2 Cor. 8:1); "a igreja em tua casa" (Filemon 2); e "as igrejas de Deus" (2 Tess. 1:4).

A raiz do problema hoje não é falta de clareza bíblica, a raiz é um problema de autoridade. Não gostar de se sentar e escutar enquanto outra pessoa fala. Não gostar da ideia de liderança. Ânsia por ser um “rebelde revolucionário”. Não gostar do comprometimento, do compromisso, de ser responsável... Não há nada de bíblico nisso, mas exatamente o oposto do ensino bíblico.

Nossa raça foi infectada por um a vírus anti-autoridade quando nossos pais ouviram no Jardim do éden: “Sereis como deuses”. Mas conversão, conversão verdadeira trata e extermina este vírus.

Arrependimento bíblico não é pedir desculpas a Deus e depois tentar "cristianizar" todos os seus gostos, desejos, tribo...

O arrependimento bíblico consiste em uma transformação radical de pensamento, atitude, perspectivas e direção .... Arrependimento bíblico é uma mudança do pecado para Deus e seu serviço, Cristo o Senhor, eu o escravo. É a morte do Eu, do viver para mim - para tomar a cruz e negar a mim mesmo.

Arrependimento é uma revolução no que é mais determinante na personalidade humana e é o reflexo na consciência de a mudança radical operada pelo Espírito Santo na Regeneração.

Mas o homem natural é – Só você, só você... como você quer... exatamente por ser livre disso o homem regenerado se torna um membro do corpo de Cristo que é a igreja – Você prefere ficar em casa, ser cristão virtual, assistindo vídeos, quando quiser, onde quiser... nenhum povo “chato” no qual você tenha que exercer a paciência, longanimidade, amor... sem necessidade de se ajustar... Só você, você, você... Mas Jesus – O Senhor – ordena estar uma igreja local, juntar-se a igreja, participar da igreja, congregar ( em Corinto, Galácia, Éfeso, Colossos, Tessalônica, Laodicéia... Seu bairro, outro bairro...), ter uma liderança humana como ( Timóteo, Tiago, João, Silas, Barnabé... pastores, presbíteros...) – Esse é o problema, Cristo é o Senhor! A igreja lhe pertence, ele determina o que e o como da igreja... Ele é o Senhor em realidade ou teoria? Ele é apenas um colegar de debates? Ele é Senhor quando é conveniente, ou não? É o nosso Ego que controla os limites do Senhorio de Cristo.

Eu posso falar com confiança, Deus não permita que alguém use o meu blog, os textos, os sermões postados em vídeo... como um substituto da ordem de Cristo, como um substituto para não obedecer a Cristo envolvendo-se na comunhão da igreja local de Cristo.

Os quatro evangelhos e a cruz

.

Por Silas Alves Figueira

Quando lemos os Evangelhos encontramos algo comum em todos eles a crucificação de Jesus e todos os evangelistas trouxeram palavras que o Senhor proferiu enquanto esteve naquela cruz. Ao todo o Senhor proferiu sete palavras ou sete brados que para nós tem uma grande importância, pois foram as suas últimas palavras num dos momentos mais importantes da história do cristianismo. Foram palavras de dor, de solidão, mas também foram palavras de graça e perdão. Podemos dizer que todo o ministério de Jesus se resumiu naquela cruz. Aquela cruz onde Ele levou sobre si todos os nossos pecados. Aquela cruz que era minha e também sua, no entanto Ele a tomou em nosso lugar. Aquele que não conheceu pecado se fez pecado por nós, como nos fala Paulo em 2Co 5.21.

Jesus não só foi até a cruz, mas Ele ensinou sobre ela. Jesus ensinou que se alguém quisesse ser seu discípulo deveria negar-se a si mesmo e tomar a cruz todos os dias (Lc 9.23). Para um homem “negar a si mesmo” totalmente, deverá renunciar completamente sua própria vontade. A atitude do cristão é, “Para mim, o viver é Cristo” (Fl 1.21 — honrá-Lo, agradá-Lo, servi-Lo. Renunciar sua própria vontade significa atender à exortação de Filipenses 2.5, “Que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus”, o qual é definido nos versos que imediatamente seguem como de abnegação. É o reconhecimento prático de que “não sois de vós mesmos, porque fostes comprados por bom preço” (1 Co 6.19,20). É dizer com Cristo, “Não seja, porém, o que eu quero, mas o que tu queres” (Mc 14:36). Negar-se a si mesmo é deixar Cristo reinar em nossas vidas e aceitar a cruz que nos está imposta.

Tomar minha “cruz” significa uma vida voluntariamente rendida a Deus. Como o ato dos homens ímpios, a morte de Cristo foi um assassinato; mas como o ato do próprio Cristo, foi um sacrifício voluntário, oferecendo a Si mesmo a Deus. Foi também um ato de obediência a Deus. Em João 10.18 Ele disse, “Ninguém a [Sua vida] tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou”. E por que Ele o fez? Suas próximas palavras nos dizem: “Este mandato recebi de meu Pai”. A cruz foi a suprema demonstração da obediência de Cristo. Nesta Ele foi o nosso Exemplo. Uma vez mais citamos Filipenses 2.5: “Que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus”. E nos versos seguintes nós vemos Jesus tomando a forma de um Servo, e tornando-Se “obediente até a morte, e morte de cruz”. Agora, a obediência de Cristo deve ser a obediência do cristão — voluntária, alegre, sem reservas, contínua. Se esta obediência envolve vergonha e sofrimento, acusação e perda, não devemos nos acovardar, mas por o nosso rosto “como um seixo” (Is 50.7). A cruz é mais do que o objeto da fé do cristão, ela é o sinal de discipulado, o princípio pelo qual sua vida deve ser regulada. A “cruz” significa rendição e dedicação a Deus: “Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional” (Rm 12.1).

Mas nos dias atuais, a cruz tem sido bastante mal interpretada. Isso pode ser comprovado pelo fato de ser quase impossível achar alguém que diga algo negativo a respeito dela. A cruz é usada como pingente por atletas, adeptos do Movimento de Nova Era e astros de rock. Esse indescritível instrumento de morte e crueldade é agora símbolo de união, tolerância e espiritualidade de todos os gêneros. O “escândalo da cruz”, como diz Paulo, há muito desapareceu, quando a mensagem foi reinterpretada para se adequar à mente moderna. Muitos dos que usam a cruz no pescoço ficariam horrorizados se compreendessem seu verdadeiro significado [1].

Imagine alguém trazendo no pescoço como enfeite uma guilhotina, uma forca ou quem sabe um dos instrumentos de tortura da Idade Média. Para muitos isso seria uma grande loucura, mas essas mesmas pessoas não pensam isso a respeito da cruz.

Gostaria de fazer uso de um texto de A. W. Tozer que nos fala da velha e nova cruz, ele faz uma análise do tipo de mensagem que se tem pregado hoje em dia a respeito da cruz. Vejamos:

Sem fazer-se anunciar e quase despercebida uma nova cruz introduziu-se nos círculos evangélicos dos tempos modernos. Ela se parece com a velha cruz, mas é diferente; as semelhanças são superficiais; as diferenças, fundamentais.

Uma nova filosofia brotou desta nova cruz com respeito à vida cristã, e desta nova filosofia surgiu uma nova técnica evangélica – um novo tipo de reunião e uma nova espécie de pregação. A velha cruz não fazia aliança com o mundo. A nova cruz não se opõe à raça humana; pelo contrário, é sua amiga íntima e, se compreendermos bem, considera-a uma fonte de divertimento e gozo inocente. Ela deixa Adão viver sem qualquer interferência.

A nova cruz encoraja uma abordagem evangelística nova e por completo diferente. Busca a chave para o interesse do público, mostrando que o cristianismo não faz exigências desagradáveis; mas, pelo contrário, oferece a mesma coisa que o mundo, somente num plano superior.

A nova cruz não mata o pecador, mas dá-lhe nova direção. Ela o faz engrenar em um modo de vida mais limpo e agradável, resguardando o seu respeito próprio. A mensagem de Cristo é manipulada na direção da moda corrente a fim de torná-la aceitável ao público.

A filosofia por trás disso pode ser sincera, mas na sua sinceridade não impede que seja falsa. É falsa por ser cega, interpretando erradamente todo o significado da cruz.

A velha cruz é um símbolo da morte. A cruz não fazia acordos, não modificava nem poupava nada; ela acabava completamente com o homem, de uma vez por todas. Não tentava manter bons termos com sua vítima. Golpeava-a cruel e duramente e quando terminava seu trabalho o homem já não existia.

O evangelismo que traça paralelos amigáveis entre os caminhos de Deus e os do homem é falso em relação à Bíblia e cruel para a alma de seus ouvintes. Ao nos aproximarmos de Cristo não elevamos nossa vida a um plano mais alto; mas a deixamos na cruz.

Nós, os que pregamos o evangelho, não devemos julgar-nos agentes ou relações públicas enviados para estabelecer boa vontade entre Cristo e o mundo. Não somos diplomatas, mas profetas, e nossa mensagem não é um acordo, mas um ultimato.

Deus oferece vida, embora não se trate de um aperfeiçoamento da velha vida. A vida por Ele oferecida é um resultado da morte. Ela permanece sempre do outro lado da cruz. Quem quiser possuí-la deve passar pelo castigo. É preciso que repudie a si mesmo e concorde com a justa sentença de Deus contra ele.

O que isto significa para o indivíduo, o homem condenado quer encontrar vida em Cristo Jesus? Ele não deve encobrir nada, defender nada, nem perdoar nada. Não deve procurar fazer acordos com Deus, mas inclinar a cabeça diante do golpe do desagrado severo de Deus e reconhecer que merece a morte.

Feito isto, ele deve contemplar com sincera confiança o salvador ressurreto e receber dEle vida, novo nascimento, purificação e poder. A cruz que terminou a vida terrena de Jesus põe agora um fim no pecador; e o poder que levantou Cristo dentre os mortos agora o levanta para uma nova vida com Cristo.

Ousaremos nós, os herdeiros de tal legado de poder, manipular a verdade? Ousaremos nós com nossos lápis grossos apagar as linhas do desenho ou alterar o padrão que nos foi mostrado no Monte? Que Deus não permita! Vamos pregar a velha cruz e conhecermos o velho poder [2].
Precisamos com urgência reavaliar a nossa mensagem para não cairmos nesse mesmo erro que A. W. Tozer está nos alertando que anda ocorrendo por aí. A velha cruz dá ideia de ultrapassada, de retrógrada, mas a sua mensagem é exatamente o contrário de tudo isso. A Velha Cruz nos oferece vida transformada pelo poder do Evangelho.

A cruz, como evento histórico necessário, marca o ponto mais alto da História da Redenção, e tem lugar especial na vida do cristão. Observe alguns aspectos referentes a morte de Jesus: 

  • É na morte que a Obra Messiânica de Cristo é encerrada (Jo.19.30). 
  • É o cumprimento do Antigo Testamento (1Co.15.3). 
  • A morte de Cristo é a garantia da pureza do cristão, bem como das suas boas obras (Tt.2.14). 
  • É na morte que ocorre o derramamento de sangue necessário para a perdão dos pecados (Hb.9.15, 22; cf. Mt.26.28; Ef.1.7; Cl.1.14). 
  • É por meio do sangue de Cristo que temos Eterna Redenção (Hb.9.12). 
  • É através da morte de Cristo que temos acesso a redenção (Rm.3.24) 
  • Em nome de Cristo deveria ser pregada a redenção de pecados a todas as nações (Lc.24.27)

De acordo com as colocações supracitadas, não podemos deixar de reconhecer a centralidade da Cruz na vida e expectativa cristã. De fato, é impossível ser cristão sem render-se a cruz de Cristo, que representa Sua Morte em nosso favor. Aliás, cristianismo sem a cruz é mera ideologia ética sem valor. Portanto, o verdadeiro cristianismo depende intrinsecamente da cruz, pois esta é o cerne de sua ideologia e fé. Se o que foi dito é verdadeiro, e o símbolo que deveria representar tal ideia deve ser compatível a tal colocação, segue-se que a Cruz é a representação gráfica ideal para o Cristianismo.

E o que significa essa cruz senão nossa liberdade? Nossa Redenção? A remissão dos nossos pecados? Comunhão com Deus? É por meio dela que nós somos completamente libertos de nossa medíocre vida sem significado e passamos a participar da Vida Eterna que Deus nos concede por meio de Jesus Cristo. Cruz nos lembra a morte de Cristo, que nos garante a Redenção do pecado, que nos proporciona a perfeita vida eterna com Deus[3]

A lei de Deus não foi dada a nós para nos justificar, mas para nos condenar. Deus queria mostrar como era o homem perante Ele: maldito. Todo homem! Pois “maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las” (Gl 3.10). Isso é a lei do Antigo Testamento. O Antigo Testamento nos mostra que somos malditos pecadores; não somos capazes para salvar-nos; o Antigo Testamento nos mostra que precisamos de um Salvador. E o Novo Testamento nos mostra quem é este salvador: Jesus Cristo.

Jesus Cristo nos salvou. Ele foi o nosso substituto. Ele se colocou em nosso lugar para tomar a maldição de Deus. Nós somos malditos, mas Cristo tomou a nossa maldição. Cristo sofreu por causa dos nossos pecados; Cristo foi castigado em nosso lugar. Paulo fala sobre isso, quando ele escreve: “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro” (Gl 3.13). Veja o que nos diz a Lei: “Se alguém houver pecado, passível da pena de morte, e tiver sido morto, e o pendurares num madeiro, o seu cadáver não permanecerá no madeiro durante a noite, mas, certamente, o enterrarás no mesmo dia; porquanto o que for pendurado no madeiro é maldito de Deus; assim, não contaminarás a terra que o SENHOR, teu Deus, te dá em herança” (Dt 21.22,23).

A nossa salvação está ligada com a cruz de Cristo. A crucificação de Jesus Cristo não foi um castigo qualquer. A crucificação foi uma morte maldita. Quem morreu assim foi maldito por Deus e pelos homens. Pendurada no madeiro, entre o céu e a terra. Isso quer dizer: maldito pelos homens e por Deus; nem os homens o aceitam, nem Deus. Cristo foi maldito e a morte dele mostra isso.

Mas assim Ele devia morrer. Ele devia tomar esta maldição para nos livrar da maldição. Pois Cristo estava pendurado na cruz, não por causa de um pecado pessoal dele; Cristo estava pendurado na cruz por causa do oficio dele. Sendo mediador entre Deus e os homens, representando o povo de Deus, Cristo aceitou voluntariamente o seu destino. Ele foi mandado para esta terra para realizar este sacrifício na cruz. Isso foi o seu destino. Os profetas já falaram sobre isso; os salmos já falaram sobre isso. Veja o Salmo 22, 35 ou salmo 69. Estes salmos já profetizaram sobre a morte do Cristo na cruz. Jesus devia morrer assim para nos salvar. Devemos nos lembrar sempre disso. 

Notas:
1 – Lutzer, Erwin. Os Brados da Cruz. Ed. Vida, São Paulo, SP, 2002: p. 16.
2 – Tozer, A.W. O Melhor de A. W. Tozer. Ed. Mundo Cristão, São Paulo, SP, 2007: p. 151 a 153.
3 – Berti, Marcelo. Conceito de redenção nas Escrituras. http://www.napec.net/reflexoes-teologicas/conceito-de-redencao-nas-escrituras/, acessado em 26/03/12.

Fonte: NAPEC

Qual o sentido da vida, universo e tudo mais?

.
 

Por Thiago Ibrahim

Dia desses um grande amigo meu, com o qual cresci na igreja, me fez uma pergunta que levou-me a refletir sobre o propósito de sermos salvos e de vivermos nesse mundo negando a nossa própria natureza e seguindo os ensinamentos de Cristo. A pergunta foi a seguinte: “qual é o propósito de existirmos?”

Após pensar um pouco, respondi-lhe, contudo não fiquei satisfeito com a minha própria resposta, apesar de correta, e então resolvi parar para pensar um pouco mais sobre o assunto e desse “pensar” nasceu esse texto.

Há algum tempo li um livro chamado “O Guia do Mochileiro das Galáxias” no qual uma das grandes referências é uma pergunta feita no desenrolar da história e que todos vivem atrás de entender: “Qual o sentido para a vida, o universo e tudo mais?”. Essa pergunta é bastante parecida com a pergunta que o meu amigo Názaro me fizera, e é a partir dela que busco respostas na Bíblia, já que a resposta (42) dada no “Guia” não é lá muito satisfatória.

Na Bíblia, Paulo falando a igreja de Éfeso expõe o plano de salvação e no decorrer da explicação diz o seguinte:
“Nele fomos também escolhidos, tendo sido predestinados conforme o plano daquele que faz todas as coisas segundo o propósito da sua vontade, a fim de que nós, os que primeiro esperamos em Cristo, sejamos para o louvor da sua glória.” Efésios 1:11-12
Paulo quer dizer aqui que o sentido da existência da humanidade é o louvor da glória do Deus soberano criador de todo o universo. E que nós, os salvos, fomos escolhidos e predestinados para isso, de acordo com a vontade de Deus. Pra nós que somos salvos, louvar a Deus não é uma obrigação, mas uma atitude de gratidão, é uma forma de demonstrarmos ao nosso criador que entendemos a razão de termos sido criados.

Durante o capítulo 1 da epístola aos Efésios Paulo fala 3 vezes sobre o “louvor da gória de Deus”, nos versículos 6, 12 e 14. Em todos eles o apóstolo explica o nosso objetivo como salvos.

Em outra carta Paulo fala sobre o propósito da nossa existência (e até da nossa não existência), dessa vez vemos esse assunto sendo abordado pelo apóstolo na 2ª epístola aos Coríntios:
“Temos, pois, confiança e preferimos estar ausentes do corpo e habitar com o Senhor. Por isso, temos o propósito de lhe agradar, quer estejamos no corpo, quer o deixemos.” 2 Coríntios 5:8-9
De acordo com o que Paulo escreve aos coríntios, o sentido do cristão, vivendo ou morrendo é agradar ao Deus soberano.

Agora, voltando a Efésios 1, podemos ver claramente que esse mistério – “qual o sentido da nossa existência” – não foi revelado a todas pessoas, mas apenas a quem está ligado a Cristo, em quem todas as coisas irão convergir na “dispensação da plenitude dos tempos”, conforme Efésios 1:9 e 10.
“E nos revelou o mistério da sua vontade, de acordo com o seu bom propósito que ele estabeleceu em Cristo, isto é, de fazer convergir em Cristo todas as coisas, celestiais ou terrenas, na dispensação da plenitude dos tempos.”
Portanto, nós que somos salvos e que recebemos a revelação do propósito de Deus estabelecido em Cristo antes da fundação do mundo, somos convocados a viver para o louvor da glória de Deus. Assim, vivamos uma vida santa e agradável a Ele. Façamos de nossa vida um hino de louvor a gloriosa Graça do Deus que nos escolheu pra vivermos de acordo com o propósito da nossa criação.

E você, quer experimentar ter uma vida com propósito? É simples, basta unir-se a Cristo por meio da fé Nele e viver debaixo da gloriosa Graça do Deus soberano e Criador de todas as coisas, a quem todos nós, os santos entoamos honras e louvores.

Soli Deo Gloria

Fonte: NAPEC

Fé, Ideologia e Impiedade

.

Por Jairo da Matta

Frequentemente me deparo com artigos que, independente da pertinência de seu teor bíblico, da fidelidade com o Evangelho e a coerência de princípios cristãos, escorregam em banais e desnecessárias acusações ideológicas.  Com a preocupação, talvez, de desqualificar o oponente, para além da interpretação e a refutação dos argumentos destes, buscam identificar no espectro ideológico o posicionamento de seu autor como um atributo característico de sua pessoa.

Via de regra, dentre outros rótulos demarcadores de estigma, estes são classificados na consigna de “esquerdistas”. Ora, desconheço esta categoria entre os escritos bíblicos ou de teologia. Sua origem é histórica e política, datando de 1789, na França, à época em que os Estados Gerais foram transformados em Assembleia Nacional Constituinte, quando os deputados, representantes do clero e da nobreza, favoráveis ao rei, ocuparam os lugares à direita da sala e os contrários a suas prerrogativas sentaram-se à esquerda. Desde então se consagrou a dicotomia entre os favoráveis a manutenção do status quo (direita) e os partidários das mudanças (esquerda).

Sendo os dois conceitos, esquerda e direita, sempre relativos a alguma coisa, diante da qual se toma posição, tem-se por referência a possibilidade de mantê-la tal qual ela é (direita) ou de muda-la em outra coisa (esquerda). A bem da verdade, em se tratando da política mais contemporânea, pode-se complicar um pouco mais as coisas, com a utilização do conceito de “reação”, que é um movimento – e até uma mudança – no sentido de preservar as coisas como são, ou retorná-las ao modo em que eram antes.

De qualquer forma, politicamente, remetendo-nos aos partidos existentes em Israel, à época de Cristo, Saduceus, Herodianos e Fariseus compunham a direita e os Zelotes, opositores ao regime, situavam-se a esquerda da estrutura de poder constituída por Roma. O Senhor contou em sua caminhada tanto com pessoas ligadas ao status quo, Mateus (Publicano), como ao extremo oposto, Simão, conhecido como o Zelote. E Jesus veio para mudar, para transformar o homem: "se alguém está em Cristo nova criatura é, as coisas velhas já passaram e eis que tudo se fez novo" (2 Corintios 5;17).

Embora longe de ser um defensor do estado de coisas na Israel sob o domínio romano e considerando-se sua militante atuação na transformação do homem, classificar Jesus como um esquerdista de seus dias seria no mínimo um crasso equívoco. Ele se situava – e se situa – fora do espectro político de seu tempo – e do atual, inclusive. A política é ação humana; a ação divina é a Redenção: “dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mt. 22.17-21). A política está no campo do devir humano, a Redenção no fruir da Eternidade. 

A mistura entre política e religião é sempre explosiva e são abundantes os exemplos históricos que o comprovam. Confundir discursos, bíblico e político, ideologizando a fé, além de pernicioso é perigoso. Leva a enganos históricos que vão desde a Teologia da Libertação até aos obscuros e, por vezes, obscenos acordos e manipulações protagonizados pelas pretensas bancadas evangélicas, no nosso caso e, em outras situações, suscita guerras e genocídios até. 

O que importa é que tudo isto, à direita e à esquerda, coloca-se no campo do agir humano, necessariamente, limitado e equívoco.  Falar das coisas de Deus não se iguala a isto. Estar à direita do Senhor é ocupar um lugar metafórico, privilegiado ao Seu lado. Não é possível colocar-se em um ponto relativo com referência a um Absoluto, como Deus. Nesse sentido, posso afirmar que não há “esquerdismos” ou “direitismos” teológicos, ou doutrinários, porém enganos e distorções, que devem e precisam ser combatidas, independente do espectro político e, por isso, humano onde seu autor possa estar situado.

É importante sempre lembrarmos as sábias palavras de John Newton, ao aconselhar um pastor que participava de uma contenda doutrinária: “O Senhor tolera igualmente a você e espera que demonstre ternura para com os outros, motivado pelo senso de perdão de que você mesmo tanto necessita”. No mesmo texto, mais adiante ele arremata: “se você o considera uma pessoa não convertida, em um estado de inimizade contra Deus e a graça d’Ele, ele é mais um objeto de sua compaixão do que de sua ira”

Qualificar as verdades não significa desqualificar as pessoas, muitas vezes utilizando nossos próprios preconceitos. Não é demais lembrar que Deus não faz acepção de pessoas, pois somos alertados através do apóstolo para o fato de que “como crentes em nosso glorioso Senhor Jesus Cristo, não faça(mos) diferença entre as pessoas, tratando-as com parcialidade” (Tg. 2;1). Isto vale para ricos e pobres, poderosos e despossuídos, mas, também, para “esquerdistas” e “direitistas”.

- Sobre o autor: Jairo da Matta tem 60 anos, é cristão batizado na Igreja Presbiteriana de Botafogo-RJ, atualmente congregando na Comunidade Cristã S8 também no Rio, Sociólogo de formação, trabalha no Instituto Nacional de Câncer.

Artigo enviado por e-mail ao Blog Bereianos
Divulgação: Bereianos
.

Crentes "teóricos"? - essa não!


 

Por Milton Jr.

É notório o grande crescimento dos interessados no estudo da teologia em nossos dias. Os seminários e faculdades teológicas têm se proliferado; na rede mundial de computadores, com uma rápida pesquisa, percebemos que o número de “debatedores” da doutrina é cada vez maior. São arminianos, calvinistas, liberais, dispensacionalistas, carismáticos, pentecostais, cada um defendendo o seu ponto de vista com veemência.

Em princípio, esse quadro deveria nos causar alegria, afinal de contas é muito bom ver pessoas interessadas nas Escrituras e debatendo sobre a Palavra. Mas uma pergunta tem de ser feita: os que têm discutido com tanta paixão têm experimentado um crescimento em santidade decorrente do conhecimento bíblico que professam?

Há um perigo muito grande em tornar a doutrina um fim em sim mesmo. Há na Palavra de Deus advertências sérias quanto a isso. Na epístola de Tiago a ordem é para que os crentes sejam praticantes da Palavra e não somente ouvintes, pois os que são simplesmente ouvintes enganam-se a si mesmos (Tg 1.22). Em seu ministério o Senhor Jesus repreendeu incontáveis vezes os escribas e fariseus, chamando-os de hipócritas, justamente por falarem e não fazerem. Ele chegou a ensinar a multidão, com respeito aos fariseus, da seguinte maneira: “Fazei e guardai, pois, tudo quanto eles vos disserem, porém não os imiteis nas suas obras; porque dizem e não fazem” (Mt 23.3).

Eis aí o retrato de um “crente” teórico. É aquele que tem a doutrina na ponta da língua, muitas vezes decora vários versículos bíblicos, é capaz de discorrer com propriedade sobre as doutrinas mais complexas, mas não a vive no seu dia-a-dia. Esse tipo de pessoa, como afirma Tiago, engana-se a si mesmo, pois, como bem afirma John Blanchard, “o crescimento cristão requer mais do que conhecimento da Bíblia; ninguém jamais se alimentou decorando cardápios”[1].

Há no Novo Testamento uma igreja que foi elogiada pelo Senhor Jesus pelo seu conhecimento doutrinário. O Senhor chega a afirmar que aqueles crentes colocaram à prova os falsos mestres que se declaravam apóstolos e os acharam mentirosos (Ap 2.2-4). Pelo visto, aqueles irmãos eram bastante preparados no que diz respeito ao conhecimento doutrinário, contudo, Jesus os repreende dizendo que haviam abandonado o primeiro amor.

Infelizmente, isso é mais comum do que se imagina. Mesmo dentro de nossas igrejas, temos membros que foram doutrinados desde a tenra idade, que frequentam regularmente os cultos, mas por mero costume. A doutrina não tem efeito prático em suas vidas e eles demonstram que, à semelhança dos crentes de Éfeso, deixaram o primeiro amor.

Devemos ter muito cuidado para não ser meramente religiosos e também para não cair na cilada de colocar o amor à doutrina à frente do amor ao Senhor, pois fazer isso é incorrer na quebra do primeiro mandamento (Êx 20.3).

É claro que só se pode amar o Senhor tendo um conhecimento correto de sua Palavra, mas nem sempre conhecimento teológico é sinônimo de piedade e amor ao Senhor.

Fujamos, portanto, do farisaísmo procurando conhecer profundamente as Escrituras, mas com a finalidade de amar e honrar, pela sua prática, o Salvador.
__________________________
[1] John Blanchard. Pérolas para a vida. São Paulo: Vida Nova, 1993.


E se Jesus discordasse da sua teologia?

.
Por Erik Raymond


“Eu não estou dizendo que minha teologia é 100% correta, estou apenas dizendo que não sei em que estou errado!”

Eu já ouvi essa declaração muitas vezes. Toda vez a implicação é: se nós soubéssemos em que estamos errados, então mudaríamos.

Sem duvidar de sua sinceridade, frequentemente me pergunto quão abertos à correção teológica realmente estamos. Acho interessante e instrutivo que, enquanto o Senhor Jesus caminhou e ensinou entre os homens, ele estava regularmente desafiando as conclusões teológicas das pessoas. Esse tipo de ataque doutrinário e prático não foi muito bem recebido. Na verdade, poderíamos dizer que Jesus foi rejeitado e, no fim das contas, crucificado por causa de conclusões teológicas inflexíveis.

No Evangelho de Marcos, capítulo 12, lemos sobre esse tipo de sessão. De fato, foi uma longa sessão de perguntas e respostas bíblicas com Jesus. A essa altura, deve ter ficado óbvio para qualquer um que você não entre numa prova de conhecimentos bíblicos com o Filho de Deus. Ainda assim, eles persistiam. Pergunta atrás de pergunta. E, graciosamente, seguem-se repostas atrás de respostas.

Em uma das conversas, lemos sobre os saduceus criando um cenário sobre uma mulher cujo primeiro marido morreu e, então, ela se casa com o irmão dele. Essa história se repete até que ela casou-se e enterrou todos os sete irmãos. A pergunta então é de quem ela será esposa na ressurreição.

A história paralela aqui é que os saduceus não criam na ressurreição dos mortos. Seu questionamento trai alguma pretensão de aprender, ao mesmo tempo em que revela seu verdadeiro motivo de mostrar Jesus como um tolo.

O sempre articulado e eterno campeão de conhecimentos bíblicos os responde com precisão, sem deixar dúvidas sobre o xis da questão:

E Jesus, respondendo, disse-lhes: Porventura não errais vós em razão de não saberdes as Escrituras nem o poder de Deus? Porquanto, quando ressuscitarem dentre os mortos, nem casarão, nem se darão em casamento, mas serão como os anjos que estão nos céus. E, acerca dos mortos que houverem de ressuscitar, não tendes lido no livro de Moisés como Deus lhe falou na sarça, dizendo: Eu sou o Deus de Abraão, e o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó? Ora, Deus não é de mortos, mas sim, é Deus de vivos. Por isso vós errais muito. (Marcos 12.24-27)

A resposta de Jesus mostra que o ponto cego da teologia deles devia-se a conhecimento, entendimento e aplicação insuficientes da verdade bíblica. Jesus põe seu dedo soberano no peito deles e diz: “vós errais muito” (v.27).

Sabemos como eles e outros receberam uma verdade nua e crua como esta; se inflamaram em ira, planejando a destruição de Jesus (Marcos 3.6).

Embora não possamos evitar o fato de que estamos e estaremos errados eventualmente, é possível se preparar para evitar respostas erradas. Aqui vão alguns princípios básicos para estarmos abertos a um autoexame teológico.
Perceba que você não sabe tudo. Isso é tão aceito quanto esquecido. Quantas vezes nos pegamos postulando uma defesa de nossa onisciência ao invés de superar nosso entendimento caído?

Lembre-se de que Deus usa as Escrituras para confronto e crescimento. Esse é o argumento de 2 Timóteo 3.16-17. As Escrituras devem confrontar-nos em nosso pecado e nos conformar à semelhança de Cristo.

Priorize oração e confissão antes de ler e estudar as Escrituras. Em Tiago 1.20,21, somos lembrados sobre a prioridade de examinar nossos corações, arrepender-se do pecado, e então receber as Escrituras.

Resista ao desejo de marcar pontos. Certa ocasião, me peguei num debate teológico sem me importar quase nada sobre a vitória da verdade, mas desejando a vitória do Erik. Nossa incumbência deve ser que todos os homens (e nós mesmos) sejam perfeitos em Cristo (Cl 1.28).

Lembre-se de que Deus usa pessoas para seu crescimento. Quando você observa todas as passagens no Novo Testamento que nos lembram de nossa necessidade dos outros (Hb 3.13), parece tolice tentar calar as pessoas quando elas podem estar caminhando para servir você.

Não tente bancar o espertinho. Acho que era isso que os saduceus queriam. Lembre-se sobre o que e sobre quem você está falando.

Não discuta com Jesus. Não deveria dizer isso, mas acontece.

Lembre-se de ser grato pelo que você sabe. Não há um único grama de conhecimento e entendimento bíblicos ou da verdadeira e duradoura alegria que não venha das mãos da graça soberana e benevolente. Portanto, devemos ser gratos e não orgulhosos por algo que verdadeiramente sabemos.

Que Deus possa nos dar fome de aprender e humildade no aprendizado.

Traduzido por Josaías Jr | iPródigo.com | Original aqui
Fonte: [ Ipródigo
.

Sobre a mídia de massa e a guerra cultural

.

Por Edson Camargo

Ainda que sejam muito comuns os casos em que jovens educados num contexto cristão cheguem às universidades e abandonem sua fé por conta do despreparo ao lidar com os postulados modernos e pós-modernos – o que evidencia a importância do ensino apologético e o desdém das famílias e de muitas igrejas pelo assunto – não acredito que o mantra do “cada um crê no que acha melhor e o importante é ser feliz” possua, de fato, entre outras baboseiras, tantos adeptos quanto a mídia de massa pode levar a crer. Não são poucos, obviamente, aqueles que intoxicaram suas almas na Academia, com o besteirol de pseudo-intelectuais midiáticos ou livros de auto-ajuda, e deve-se levar em conta também esse pelotão de gente vazia e superficial que sempre há, nos quais os telós, gugus e funkeiros da vida encontram seu público e renda. Enfim, o que desejo salientar é que os princípios e interpretações da realidade apresentados pelos intelectuais, classe artística e “especialistas” da mídia não são, de fato, os mesmos da maior parte da população, embora a influência seja, ao que me parece, crescente, ao menos em alguns aspectos.

Tendo em mente que integram um bom contingente as pessoas atentas à malignidade do relativismo moral e a hipocrisia de um pluralismo que, em nome da tolerância, reduz de forma burlesca toda e qualquer convicção, por mais sólida e fundamentada que seja, a meras crendices subjetivas, pode se perceber em muitos momentos, como numa conversa entre colegas de trabalho, o quão acuados podem se apresentar os cristãos quando algo que confronta diretamente sua fé é apresentado de forma taxativa. Fica claro que, por conta do falatório relativista, muito mais barulhento e presente na cultura de massa, não são poucos os cristãos que entraram na Espiral do Silêncio, como a descreve Elisabeth Noelle-Neumann em sua teoria sobre as relações entre os conteúdos apresentados na grande mídia e a opinião pública. Para a teórica, as versões e opiniões apresentadas pela mídia de massa tendem a prevalecer, e os discordantes tendem a se calar.

Enfim, é possível estar repleto de razão e ao lado da verdade, e, por uma série de motivos, sentir-se incapacitado ou desconfortável em expô-la, refutando os sofismas, até mesmo para aqueles entes queridos que visivelmente vivem uma vida confusa e alienada, por terem se deixado levar pelas falácias marteladas dia e noite pelos sacerdotes filisteus das classes tidas com bem pensantes.

É fácil falar que “a mídia manipula o povão”, mas não é nada fácil dizer como, em que termos, em quais temas e com quais intenções. Isso requer estudo sério. Também é difícil para o cidadão comum perceber o quanto e em relação a quais temas deixou-se levar e hoje tem as opiniões e comportamentos bem típicos de quem ficou exposto a fluxos de informação preparados a distância por pessoas desconhecidas, com intenções talvez jamais imaginadas, com métodos dos quais jamais perguntamos algo a respeito. Pelos antivalores presentes na teledramaturgia, programas de entretenimento e boca dos tais “formadores de opinião”, creio  que não se pode ter as melhores expectativas.

Contudo, a igreja avança, mesmo sendo o cristianismo a religião mais perseguida do mundo, e aí está outro fato omitido pela grande mídia que bem evidencia o caráter de seus barões. Além da perseguição física e brutal em países islâmicos e comunistas, como a China e a Coréia do Norte, há a notória perseguição cultural, que rapidamente vai se transformando em perseguição jurídica com a complacência falsamente esclarecida, é claro, dos “progressistas cristãos” e dos liberais teológicos, grupinhos sempre próximos, que vivem às piscadelas.

O fato é que a guerra cultural, a disputa entre as cosmovisões no debate público, é uma das dimensões mais visíveis da batalha espiritual. Para o cristão sério, em busca de crescimento e do cumprimento dos propósitos de Deus para sua vida, dentre os quais está o ser “sal da terra e luz do mundo”, torna-se cada vez mais importante buscar entender de forma mais profunda a mídia de massa, que se apresenta como espelho da realidade mas é, ela mesma, força impulsionadora de muitos fenômenos planejados e o canal da extensão e das conseqüências de outros. O bom soldado conhece o campo no qual luta. Deve conhecer os inimigos, suas armas e suas potenciais vítimas.

Por isso acredito que este tema deva ser muito mais debatido. Até porque a mídia de massa tem imposto com maestria os temas que a sociedade tem discutido, omitindo pautas e fatos fundamentais para uma adequada compreensão da época em que vivemos. E aos cristãos cabe não se deixarem manipular, e se antecipar aos ataques do inimigo. Para a glória do nosso Senhor Jesus.

- Sobre o autor: Jornalista e músico, é editor-executivo do site de opinião e análise de conteúdo midiático "Mídia Sem Máscara". Estudioso da filosofia, com ênfase nas áreas de teoria do conhecimento, história das idéias e filosofia política, é um amante dos grandes temas da teologia e um entusiasta da educação clássica.
Fonte: [ Gospel+ ]
.