O Ministério Pastoral e a Tarefa Apologética

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Pastorear não é uma tarefa simples. Estar num contexto em que várias pessoas estão inseridas com suas experiências de vida, variedade de formação educacional, intelectual, acadêmica é algo no mínimo complexo.


O trabalho do pastor, de fato, deve contemplar a exposição da Bíblia, ensino sólido da teologia, aconselhamento, instrução individual, disciplina eclesiástica e visitação aos membros da igreja. No entanto, o pastor além de ter que obrigatoriamente ser versado em teologia deve ler o mundo com as lentes do Sagrado Evangelho. Diante de tantas ideologias, que de forma subversiva seduz cristãos moldando sua cosmovisão a algo completamente oposto ao Evangelho de Cristo.

O Areópago nosso de cada dia

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A forma como a Bíblia Sagrada narra a passagem de Paulo por Atenas nos ensina muito sobre a relação entre o anúncio do Evangelho e a apologética. Atos dos Apóstolos, capítulo 17, expõem detalhadamente como a apresentação do Evangelho em um ambiente hostil é possível e necessária, bem como apresenta um proclamador devidamente instruído e capacitado pelas ferramentas do conhecimento humano e a sensibilidade de evangelizar diante de pontos de contato.

A cidade de Atenas já não tinha mais a mesma glória de tempos passados, porém como grande cidade dominada pelo Império Romano, era tida como um centro referencial de cultura. Era um polo intelectual – em especial no quesito filosófico – e cidade de passagem obrigatória para universitários. Localizada em posição estratégica na cidade estava a Acrópole, com imponentes templos dedicados aos mais variados deuses do nada modesto panteão grego.

Paulo, diante de seu contexto missionário, havia passado – com a companhia de outros irmãos – pelas cidades de Tessalônica (At 17.1) e Beréia (At 17.11). Entretanto, ao ingressar na idólatra Atenas fez tal empreitada sozinho – leia todo o contexto em At 17.16-34.

Chegando a Atenas, as Escrituras mostram que Paulo não se impressiona com a cultura local ou mesmo com a grandeza das edificações, algo que possivelmente impressionaria a muitos em nossos dias, mas pelo contrário, “se comoveu vendo a cidade entregue a idolatria” At 17.16 (KJA e A21 traduzem como “indignado”). A idolatria era tamanha que Paulo não podia se conter em si e esta indignação o levou a imediata proclamação do Evangelho. Afirma-se que algo em torno de 30 mil estátuas de deuses-ídolos povoavam a cidade de Atenas [1]:

Alguns historiadores antigos escreveram que era possível encontrar em Atenas, nessa época, mais esculturas em louvor a deuses mitológicos do que em toda a Grécia. Pausânio estimava que houvesse mais de 30.000 dessas imagens espalhadas pela cidade. Petrônio afirmou, ironicamente, que em Atenas era mais fácil encontrar-se com um deus do que com outro ser humano.

Em termos gerais os atenienses eram extremamente religiosos e supersticiosos, porém ainda não conheciam Aquele que careciam conhecer. Contexto não muito diferente de nossos dias em que observamos a multidão correndo atrás de todo tipo de idolatrias (estátuas, patuás, ícones, pessoas mortas ou vivas) em detrimento ao relacionamento direto e exclusivo com Deus. E mais que isso, os atenienses além de muito religiosos e mesmo supersticiosos, eram do tipo ávido por novidades (At 17.21) – esta postura é algo estranho ao que podemos ver em cada esquina em nossos dias?

Vivemos num tempo que mistura a antipatia pela crença em nível de completa rejeição (ateísmo), bem como aqueles que estão compromissados com a religiosidade cheia de superstição ao ponto de abraçar qualquer coisa que se apresente como novidade.

Como de costume Paulo passa a ensinar em lugares públicos na cidade, tanto na sinagoga como em praça pública. Desta forma chamou a atenção de um público ainda mais “exigente”: duas correntes filosóficas presentes naquele tempo, sendo uma os Epicureus e a outra os Estóicos.

Os Epicureus eram uma escola filosófica que seguia os ensinos de Epicuro (341-270 a.C.). Por sua vez os Estóicos eram os seguidores de Zeno (ou Zenão, 340-265 a.C.). Sendo assim caracterizados [2]:

Os epicureus eram seguidores do filósofo Epícuro, de acordo com o qual o fim supremo da vida era o prazer, e não a busca pelo conhecimento. Os estóicos eram panteístas e acreditavam que uma pessoa só podia obter sabedoria ao se libertar das emoções intensas, permanecer indiferente à alegria e à tristeza e sujeitar-se voluntariamente à lei natural.

Enquanto falava sobre Jesus e a ressurreição, Paulo era taxado com palavras que variam entre tagarela, paroleiro, repetidor, bicador de sementes e até mesmo vadio e vagabundo. Como não respeitavam a doutrina ensinada pelo apóstolo, o levaram ao Areópago. Este nome designa tanto o local como o conselho ali reunido. Na ocasião, o público veio a entender que estava sendo proclamado um casal de deuses: “Jesus” e “Ressurreição” (anaistasis – palavra grega de gênero feminino).

A religiosidade profunda deste povo – traduzida também por superstição – era tamanha que o significado para a palavra (no grego “deisidaimonia”), remete a “piedoso, supersticiosos ou religiosos”, porém havendo um significado ainda mais profundo cujo sentido é “temor aos demônios, aos espíritos malignos ou as divindades pagãs”. Portanto, o vocábulo “superstição” designa um sentimento religioso fundamentado na ignorância. Tamanha ignorância que erigiram altares destinados “AO DEUS DESCONHECIDO”. Veja o que Alan Myatt acrescenta [3]:

Era muito comum eles terem altares aos deuses desconhecidos, para o caso de um deus ficar irado por não ter recebido sacrifícios. Paulo não identificou o Deus verdadeiro com nenhum dos deuses gregos, mas com franqueza disse que eles estavam ignorantes desse Deus. O propósito de Paulo foi anunciar este Deus. O que segue, pois, deve ser entendido como uma exposição do verdadeiro Deus. Paulo não adaptou o seu conceito de Deus às ideias dos filósofos, mas colocou perante eles a antítese completa entre o paganismo e o cristianismo.

Não devemos, portanto, cair no erro de imaginar que o Deus adorado pelos judeus e cristãos estava sendo proclamado e cultuado naqueles altares gregos, mas Paulo em sua inteligência, perspicácia e direção pelo Espírito Santo, conduz a proclamação por este ponto de contato, anunciando a Cristo Jesus aos gregos, usando até mesmo citações de poetas e intelectuais (Epimênides, Arato e Cleanto) para dizer que Aquele que eles não conheciam estava ali, sendo anunciado por Paulo, e que poderia ser adorado e conhecido por todo aquele que crê.

Por fim, ao concluir sua explanação aos membros do Areópago, Paulo sofre o deboche de muitos que ignoram e rejeitam a mensagem, muito embora a Palavra tenha alcançado corações, como Dionísio (membro do conselho do Areópago), Dâmaris e algumas outras pessoas (At 17.34).

Uma realidade também em nossos dias

A verdade é que o encontro de Paulo com a cidade e os moradores de Atenas fala muito aos nossos dias e a realidade de nossa missão como igreja e cristãos espalhados nas mais variadas esferas sociais. A igreja está presente através de seus membros em variados locais que são verdadeiros “Areópagos de nossos dias”.

A religiosidade, a superstição, a idolatria e o “medo de demônios” se apresentam em todos os lugares e das mais variadas formas. O hedonismo e o panteísmo das correntes filosóficas gregas também estão por todos os lugares. Este ambiente cria a facilidade em apegar-se em variados tipos de crenças e isso não é exclusividade do meio não cristão, pois mesmo dentre aqueles que professam a “fé evangélica” é possível encontrar valores tortos e desviados do Evangelho (assim como os estóicos e os epicureus) que não enxergam a vida a não ser pela busca do prazer ou que não conseguem entender ou buscar a Deus. O cardápio é variado neste meio, e a proclamação da mensagem da cruz é urgente.

Os atenienses tinham os altares “AO DEUS DESCONHECIDO” como um meio de prevenção, ou seja, tomavam medidas religiosas para evitar a punição por alguma divindade que estive esquecida e não chamada pelo nome. Para muitos hoje em dia é o medo de Deus e do diabo que os movem, fazendo do ditado uma máxima: “vamos acender uma vela para Deus e outra pro diabo”. É o medo que os move, a esperança cega, o tatear na escuridão – ainda que Deus não esteja longe (At 17.27)!

Deus é grande em paciência – Salmos 90.1-4; Rm 3.25 – e através da mensagem poderosa do Evangelho é possível alcançar vidas sedentas pela Verdade. Somente pela pregação do Evangelho e pela mensagem da Graça de Deus é que vidas podem ser alcançadas e transformadas.

Em Jesus, verdadeiro Deus, o Filho do Homem – Dn 7.13;  Mt 25.31-46; At 10.42; Ap 20.12-15 – o coração idólatra, religioso e supersticioso pode ser curado. O proclamador desta mensagem coloca-se num campo que exige capacitação, estudo, dedicação e comunhão com Deus. A proclamação da Verdade tem seu preço, e muitos somos expostos ao ridículo por tal postura, mas se o Mestre foi perseguido, se a igreja primitiva foi afligida e martirizada, se ao longo dos séculos hereges e oponentes resistem, por que nos daríamos ao luxo de pensar que em nossos dias seria diferente?

Renove suas esperanças hoje na mensagem da ressurreição (At 17.32-34), valorize o estudo teológico e apologético e pregue a mensagem quando for oportuno e proveitoso, pois mesmo diante dos Aréopagos e resistências deste tempo, haverá Dionísio, Dâmaris e alguns outros que ouvindo, crerão.

Soli Deo Gloria!

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NOTAS:
[1] Bíblia King James – Edição de Estudo – Novo Testamento. São Paulo: Abba Press. p. 315
[2] MACDONALD, William. Comentário Bíblico Popular do Novo Testamento. São Paulo: Mundo Cristão, 2008. p. 385
[3] MYATT, Alan. Apologética Cristã V: Paulo em Atenas. Site Monergismo, consulta em 01 de agosto de 2015: http://www.monergismo.com/textos/apologetica/Alan_Myatt_Apologetica5.pdf

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Autor: João Rodrigo Weronka
Fonte: NAPEC

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Sugestões para Apologetas

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Defender a fé cristã é parte do Cristianismo desde o seu nascimento. Homens e mulheres do presente e do passado dedicaram suas vidas para apresentar a fé cristã de modo compreensível e acessível especialmente para aqueles que são críticos da mesma. Foi Priscila e Áquila que defenderam e apresentaram a fé cristã a Apolo (At.18-19); foi Paulo quem defendeu a fé em Atenas entre filósofos (At.17); foi Pedro que defendeu e apresentou a fé cristã entre os judeus (At.2). Diferentes métodos e abordagens foram usadas nas escrituras, mas o objetivo era sempre o mesmo: Defender a Jesus Cristo como o centro da fé cristã.


Historicamente o ministério apologético foi entregue a homens e mulheres preparados para defender a fé. Eram cristãos que conheciam a Cristo e a mensagem cristã e que poderiam abordar as críticas ao cristianismo e defendê-lo de modo adequado. Era uma forma acadêmica de expressão, apresentação e defesa do evangelho. O resultado disso é que o cristianismo histórico tem centenas de livros, argumentos e propostas apologéticas que continuam valiosos para os nossos dias.

Infelizmente, entretanto, com o recente advento da blogsfera, o ministério apologético foi usurpado por cristãos que não tem condições de assumir tal ministério. São homens e mulheres absolutamente despreparados para essa tarefa. São cristãos imaturos, neófitos e normalmente mal preparados para tal tarefa. Em algumas ocasiões, o teor e o conteúdo dos artigos publicados são ruins e equivocados. É assustador a quantidade de artigos mal escritos, mal fundamentados e equivocados são produzidos na internet dos nossos dias. Esse tipo de apologética é desnecessária, porque envergonha o evangelho. Aquele ministério que no passado deu ao cristianismo orgulho, nos nossos dias tem demonstrado nossa vergonhosa situação de despreparo.

Tal despreparo não é apenas acadêmico, é também religioso e pessoal. Apologetas dos nossos dias se esquecem que em primeiro lugar eles devem santificar a Cristo como Senhor em seus corações (1Pedro 3:15). A defesa da fé que não nasce do relacionamento pessoal com nosso Senhor não pode ser ser bem sucedida. Além disso, o modo como alguns fazem apologética viola a moral cristã. Foi Paulo que nos ensinou: “Sejam sábios no procedimento para com os de fora; aproveitem ao máximo todas as oportunidades. O seu falar seja sempre agradável e temperado com sal, para que saibam como responder a cada um.” (Colossenses 4:5,6). O ministério apologético tem que ser fundamentado na sabedoria cristã e na sensatez do uso das nossas palavras. O ministério apologético que viola esses princípios envergonha a igreja e o evangelho.

Por isso, nós precisamos que homens e mulheres maduros em sua fé se aventurem na defesa pública da fé cristã. Precisamos de homens e mulheres que estejam dispostos a conhecer mais do Senhor, de Sua palavra e deste mundo, para que aprendam a como apresentar as verdades do evangelho do modo claro e convincente. No artigo Cheque Sempre suas Fontes, eu terminei o artigo com algumas sugestões de natureza mais prática no que se refere a pesquisa, que acredito podem ser repetidas aqui:

(1) Cheque sempre suas Fontes: Na pesquisa teológica é fundamental que o apologeta conheça suas fontes. É impressionante o quanto da apologética online é feita a partir de um recorte de frases de teólogos ‘famosos’. Em algumas ocasiões é possível perceber que o autor nunca leu os livros que cita. Esse tipo de pesquisa é vergonhosa! Nós temos que modelar a excelência na metodologia de pesquisa por que nosso objetivo é mais do que apenas apresentar um bom argumento, mas é apresentar evidências que auxiliem cristãos duvidosos a firmarem sua fé, ou a críticos a repensarem sua oposição ao cristianismo. Honestidade acadêmica é fundamental, bem como a excelência.

(2) Conheça as evidências primárias da sua pesquisa: Um dos equívocos recorrentes entre apologetas é o uso exclusivo de literatura apologética como base para suas pesquisas. Observe que no livro Não Tenho Fé Suficiente para ser Ateu, Geisler basicamente cita seus próprios livros no capítulo 9 e outros livros igualmente apologéticos. O problema desse tipo de prática é que o apologeta é um especialista em defesa da fé e não um especialista em todas as áreas do conhecimento necessárias para se fazer a defesa da fé. Ao fazer isso, ele passa longe da evidência primária de sua pesquisa e apresenta apenas a evidência digerida por outros apologetas. Foi esse tipo de método de pesquisa que levou Geisler a publicar repetidas vezes dados equivocados sobre a quantidade de variantes textuais conhecidas no NT.

Um excelente modelo para a apologética é dada por Lee Strobel no livro Em Defesa de Cristo, no qual entrevista especialistas de diferentes áreas do conhecimento para apresentar a defesa da doutrina de Cristo. Por isso, é importante que o apologeta tenha conhecimento das evidências primárias de sua pesquisa, mesmo que seja pela instrumentação de teólogos e pesquisadores nas áreas do conhecimento nas quais são especialistas. É fundamental que o apologeta saiba onde buscar tais referências para sua pesquisa.

(3) Conheça bem os argumentos em oposição: Outro problema recorrente é que muitos apologetas não profissionais, não conhecem exatamente o que pensam aqueles que discordam de nós. Não há como fazer uma boa defesa da fé sem saber onde estão os ataques a nossa fé. É por isso que a tarefa da defesa da fé não pode ser entregue a cristão imaturos e despreparados. É necessário que o apologeta seja um cristão consciente, capaz de pesquisar em nível acadêmico com excelência e habilitado a compreender os argumentos da oposição. A intenção do apologeta não é publicar muitos artigos, mas publicar bons artigos. No submundo da internet o que menos se precisa são artigos mal escritos e mal pesquisados. É hora dos apologetas cristãos implementarem um padrão exemplar na pesquisa acadêmica para que possam ser considerados como dignos no tratamento da evidência, mesmo por aqueles que discordam do cristianismo. Que não seja nossa inabilidade de pesquisa a razão da rejeição de Cristo, mas a exclusiva volição daqueles que a Cristo se opõem.

(4) O Apologeta deve ser propagador do melhor da academia cristã: Infelizmente, nem tudo que se publica em defesa da fé é digno dessa tarefa. Existem na academia cristã excelentes livros de referência para a pesquisa teológica e o apologeta deve ser capaz de tornar público o melhor desse material. Para fazer isso, o apologeta deve desenvolver o hábito de se expor ao conhecimento teológico para aprender a diferenciar um livro ruim de um livro bom. É fundamental que a igreja brasileira tenha acesso a materiais bem escritos, bem pesquisados e que tenham contato com a produção cristã de nível acadêmico. Como defensores da fé, nós precisamos tornar público e acessível aquilo que a academia tem produzido de melhor.

(5) Reconheça e corrija seus erros: Ninguém é infalível! Nem mesmo Norman Geisler. Apesar da qualidade dos materiais apologéticos que escreveu, Geisler reconheceu vários dos erros que cometeu no livro e prontamente os corrigiu. Na defesa da fé cristã, esse tipo de humildade é fundamental. É necessário que os homens e mulheres de Deus que estão defendendo a fé cristã tenham esse tipo de atitude. Mais do conhecer as evidências, mais do que excelência e honestidade na pesquisa, humildade para lidar com as diferentes opiniões e disposição para reconhecimento e correção dos equívocos.

A tarefa da apologética é necessária no Brasil, e por isso, aqueles que se dedicam a ela devem realizar tal tarefa com excelência acadêmica. Nós precisamos que homens e mulheres que levem o cristianismo a sério se dediquem a pesquisa em nível acadêmico para defender aquilo que consideramos fundamental: A nossa fé em Cristo.

Soli Deo Gloria!

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Autor: Marcelo Berti
Fonte: Teologando
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Apologética e martírio

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Por Felipe Wieira


Com o Mar Mediterrâneo ao fundo, 21 cristãos coptas caminham algemados, no vídeo mais chocante que já assisti em toda minha vida: Todos uniformizados, postos de joelhos na areia, são brutalmente degolados, com uma “mensagem assinada com sangue ao Povo da Cruz”. Uma ameaça feita pelo grupo autodenominado “Estado Islâmico” (ISIS) contra toda a cristandade, que traz à nossa mente uma realidade com a qual não tendemos a nos preocupar muito: o martírio.

Talvez a preocupação da igreja ocidental com relação ao martírio se restrinja à vida de nossos missionários em países nos quais a morte em nome da Fé é um inimigo constante, sempre à espreita. Comumente, essa preocupação é tratada com orações para que o Senhor livre nossos missionários dos ataques, que os proteja e os guarde. Essa é uma abordagem justa e, sem dúvida, uma oração que devemos fazer constantemente, mas ainda assim, fica aquém do padrão que a Escritura nos fornece, não nos preparando para aquilo de que o Senhor Jesus nos deixou avisados: “…de fato, virá o tempo quando quem os matar pensará que está prestando culto a Deus.” (Jo 16.2)

No livro de Atos, vemos que, diante da perseguição, os primeiros cristãos oravam pedindo mais coragem para permanecer firmes e anunciar o Evangelho (At 4.29). Especialmente na carta aos Hebreus, o autor se dirige a um povo perseguido com algo que vai na contramão do senso comum: apologética. À vista de uma realidade de opressão, em que os leitores eram tratados pelos judeus como traidores e pelos romanos como rebeldes, o autor de Hebreus não faz discursos motivacionais ou orações pelo fim da perseguição, mas defende a supremacia de Cristo sobre todas as coisas e a natureza da verdadeira fé. Ou seja, ele faz apologética em seu mais alto grau!

Nesse momento de dor, nossos irmãos coptas precisam de apologética. Eles precisam de alguém que defenda a superioridade de Cristo sobre a dor, a morte, o sofrimento e sobre o Estado Islâmico. Precisam ouvir que todas as coisas, incluindo o martírio, “cooperam para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8.28), sendo encorajados a, se preciso for, derramar o próprio sangue em sua luta contra o pecado (Hb 12.4).

A apologética corretamente aplicada traz esperança e coragem para enfrentar as mais tenebrosas adversidades. Isso porque ela defende a natureza da verdadeira fé. Uma fé que olha para as coisas não vistas (Hb 11.1), que se apoia na fidelidade da promessa de um Deus absolutamente soberano (Hb 11.10) e que caminha pela terra em peregrinação, desejando a cidade que ainda há de vir. Se essa fé for devidamente defendida e impregnada nos corações dos cristãos, a perseguição será uma realidade superável.

Nossos irmãos coptas precisam de apologética. Eu e você precisamos de apologética. Precisamos ter em nossa mente a certeza de que Cristo é superior a todas as coisas e que, nessa posição, ele é totalmente digno de que “saiamos até ele fora do acampamento, suportando a desonra que ele suportou, pois não temos aqui nenhuma cidade permanente, mas buscamos a que há de vir.” (Hb 13.13-14). Ore por nossos irmãos perseguidos, ore para que o Senhor lhes dê intrepidez diante do martírio, mas, acima de tudo, dedique-se a defender a verdadeira Fé e a supremacia daquele que a concedeu. Diante da morte, faça apologética!

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Fonte: Tuporém
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Pastores, líderes e editoras: precisamos de uma teologia apologética tupiniquim

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Por Leonardo Gonçalves


A apologética cristã – um discurso em defesa das doutrinas cristas - é talvez um dos tópicos mais negligenciados pelos nossos estudiosos. Raramente consta no currículo de algum seminário e comumente se confunde com a heresiologia. No entanto, o atual quadro do cristianismo me faz pensar que poucas vezes ela foi tão necessária. Em tempos difíceis como os nossos, em que evangélicos estão dando as mãos aos católicos, espíritas e budistas em nome do “diálogo inter-religioso” e em que despontam novas espiritualidades, algumas estranhas e avessas ao evangelho de Jesus, é preciso que a liderança séria do nosso país se desperte para a necessidade de elaborarmos uma sólida apologética com a qual possamos combater as doutrinas modernas, geralmente diluídas entre filosofias ocas e relativizantes.

Uma das razões porque defendo que a teologia brasileira deve ter ênfase apologética, vem do nosso contexto histórico-cultural. Os portugueses trouxeram o catolicismo romano. Os africanos arribaram suas crenças em espíritos orixás. Os nativos contribuíram com suas crenças animistas. Isso sem falar no êxodo que houve por ocasião das guerras mundiais, quando japoneses, italianos, poloneses, alemães aportaram por aqui, cada grupo trazendo sua própria cultura religiosa, a qual se misturaria com as crenças já diluídas dos brasileiros. A verdade é que vivemos em uma nação continental onde credos e raças se confundem e exercem influência sobre a sociedade e a religião, demandando dos pastores e pesquisadores um constante raciocínio apologético.

A segunda razão porque defendo a tese de que a teologia brasileira deve ser apologética, é a nossa obstinação em importar tendências. Historicamente acostumados a toda sorte de crenças estrangeiras, o povo brasileiro tem como praxe a “tolerância”. Na verdade, a nossa cultura se parece mais com uma grande esponja, a qual tudo absorve e incorpora, e esta tendência também pode ser vista nas igrejas. Assim, em um mesmo segmento evangélico é possível encontrar conceitos que variam da Teologia da Prosperidade ao Teísmo Aberto, e do Neopentecostalismo ao Liberalismo Teológico. É necessário que a liderança séria do nosso país seja revestida de uma percepção apologética e através de meditação e submissão à Palavra, comece a separar os alhos dos bugalhos.

A terceira razão porque defendo a elaboração de uma teologia apologética nacional é que ninguém conhece melhor a igreja brasileira do que os crentes brasileiros. Obviamente que, como muito do que acontece no cenário teológico é um déjà vu de alguma teologia que surgiu lá fora, a produção de apologistas estrangeiros é de grande importância para nós. Não podemos, porém, negligenciar o fato de que nosso país tem uma problemática própria e muitas das nossas inquietudes não perturbam os grandes mestres da apologia internacional. Lá, fala-se muito em ateísmo e evidências da ressurreição, mas aqui no Brasil o numero de ateus e de pessoas que não creem na ressurreição é consideravelmente menor, sendo este assunto, em certo sentido, menos relevante para nós. Por outro lado, o brasileiro convive com espiritismo, reencarnacionismo e ritos africanos que se misturam com crenças cristãs, mas pouca gente lá fora está preocupada com isso. Assim, ao importar todos os livros de apologética estrangeira, memorizar seus jargões e despejar aquele “grande conhecimento” sobre nossos ouvintes, corremos o risco de ser supérfluos ao ponto de responder perguntas que ninguém está fazendo.

Creio que o momento é oportuno para implantar a apologética em nossas escolas teológicas, dando a ela não um papel secundário, mas essencial na formação dos nossos teólogos e líderes eclesiásticos. Também penso que as editoras evangélicas não perderiam em investir em apologistas nacionais tanto ou até mais do que investem na tradução de obras estrangeiras, pois o que percebo é uma grande carência de estudos especializados voltados para nossa realidade nacional. Penso ainda que a popularidade dos blogs e sites que se dedicam à defesa do cristianismo em um contexto tupiniquim é a prova cabal de que jamais houve momento melhor para se investir nos apologistas nacionais.

É tempo de investir numa teologia com sotaque nordestino, mineiro, paulista e paraibana; uma teologia verde-amarela, indígena, mameluca, curiboca, teologia mulata, robusta, com cara de Brasil.

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Fonte: Púlpito Cristão
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Seis Inimigos do Ideal Apologético

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Por Douglas Groothuis

Introdução

O mundo evangélico hoje sofre de uma anemia apologética. Apesar do fato das Santas Escrituras convocarem os Crentes a dar razão da esperança que nós temos em Cristo (1 Pedro 3.15; veja também Judas 3), falta-nos uma voz pública no mercado de ideias para a verdade e a razão.[1] Nós não temos uma presença intelectual forte na cultura popular ou acadêmica (embora algumas áreas, tal como a filosofia, sejam mais influenciadas por evangélicos que por outros). As razões para esta anemia são multidimensionais e complexas.

Três livros recentes exploram a falta de uma “Mente Cristã” no evangelicalismo contemporâneo, e eu fortemente recomendo tais livros. O livro de Mark Noll, The Scandal of the Evangelical Mind (Eerdmans, 1994), explora as raízes históricas do antiitelectualismo evangélico. O livro Fit Bodies, Fat Minds (Baker Books, 1994), de Os Guinness, discute alguns dos problemas históricos e também esboça o que a mente cristã deve ser. Por fim, o livro Love Your God with all of Your Mind (Navpress, 1997), de J.P. Moreland, explica porque os Cristãos não pensam, não desenvolvem uma teologia bíblica da mente,[2] e oferecem argumentos e estratégias apologéticas úteis para capacitar intelectualmente a igreja.

Meu modesto propósito neste texto é fornecer brevemente seis fatores que inibem ilegitimamente o compromisso apologético hoje. Se estas barreiras forem removidas, nosso testemunho apologético poderá se transformar naquele que seria de Cristo.

1. Indiferença

Muitos cristãos não parecem se importar que o Cristianismo seja rotineiramente ridicularizado como ultrapassado, irracional e tacanho em nossa cultura. Eles podem queixar-se que isto os “ofende” (assim como todo mundo reclama que uma coisa ou outra os “ofendem”), mas eles fazem pouco para combater as acusações por oferecer uma defesa da cosmovisão cristã em uma variedade de ambientes. No entanto, a Escritura ordena que todos os Cristãos têm uma razão para a esperança que está dentro deles e ordena apresentá-la com mansidão e respeito ao incrédulo (1 Pedro 3.15). Nossa atitude deveria ser aquela do Apóstolo Paulo que ficou “muito angustiado” quando viu a sofisticada idolatria em Atenas. Este zelo pela verdade de Deus levou-o a um encontro apologético frutífero com os pensadores reunidos para debater novas ideias (Cf. Atos 17). Deve também ser para nós. Assim como Deus “amou o mundo” e que enviou Jesus para nos reconciliar com Deus (João 3.16), os Discípulos de Jesus também deveriam amar o mundo que eles se esforçam para alcançar os perdidos apresentando-lhes o Evangelho e respondendo objeções à Fé Cristã (João 17.18).

2. Irracionalismo

Para alguns Cristãos, fé significa crer na ausência de evidência ou argumentos. Pior ainda, para alguns fé significa crer apesar da prova em contrário. [Quanto mais] irracionais nossas crenças, melhor – mais “espirituais” elas são. Embora Paulo ensine em 1 Coríntios 1 e 2 que Deus tornou tolice “a sabedoria deste mundo” (porque ela é falsa sabedoria), a Revelação de Deus não é irracional; nem deve a crença nela ser sustentada irracionalmente.[3] Deus não exige de nós a suspensão de nossas faculdades críticas a fim de crer naquilo que tem dado a conhecer. Por meio do profeta Isaías, Deus declara a Israel: “Vinde e arrazoemos” (Isaías 1.18). Jesus nos ordenou a amar a Deus com toda a nossa mente (Mateus 22.37). Quando Cristãos optam pelo irracionalismo, eles apenas se tornam mais uma “opção religiosa” e são classificados ao lado [de religiões] como Heaven’s Gate [Portão do Céu] ou a Flat Earth Society [Sociedade da Terra Plana] e outros grupos intelectualmente deficientes. No rastro do suicido de Heaven’s Gate, as mais importantes revistas como a Esquire, Newsweek e US News and World Report afirmaram que a fé daqueles que acabaram com suas vidas de acordo com a religião da ficção científica Marshall Applewhite não seria estranho para Cristãos que também acreditam em coisas ridículas. Infelizmente, o comportamento de alguns Cristãos dá impulsos a tais acusações.

3. Ignorância

Muitos Cristãos não estão conscientes dos enormes recursos intelectuais disponíveis para defender a “fé que uma vez foi dada aos santos” (Judas 3). Isso porque muitas das principais igrejas e organizações paraeclesiásticas praticamente ignoram a Apologética. Um dos principais ministérios no campus [universitário], com uma ótima história e um excelente programa, de qualquer forma não oferece material para auxiliar aos estudantes a lidar com a descrença que emana de seus professores seculares. Poucos sermões evangélicos quase nunca abordam temas sobre as evidências da Existência de Deus, a Ressurreição de Jesus, a Justeza do Inferno, a Supremacia de Cristo ou os problemas lógicos com as visões não-Cristãs. Bestseller Cristãos, com raras exceções, entram em especulações apocalípticas infundadas, exaltam celebridades cristãs (cujos personagens frequentemente não se encaixam com tal notoriedade) e deleitam-se com métodos “faça você mesmo”. Você pode dizer muito sobre um movimento pelo que lê e pelo que não lê.

4. Covardia

Em uma cultura pluralista, uma atitude “viva e deixe viver” é a norma, e ceder a apelos da pressão social assombra o evangelicalismo, drenando as suas convicções. Muitos evangélicos também estão mais preocupados em serem “bacanas” e “tolerantes” do que serem bíblicos ou fiéis ao Evangelho exclusivo encontrado em suas Bíblias. Não basta aos evangélicos estarem dispostos a apresentar e defender sua fé em situações difíceis, seja na escola, trabalho ou ambiente público. A tentação é de privatizar a fé, separá-la e isolá-la inteiramente da vida pública. Sim, somos Cristãos (em nossos corações), mas temos dificuldades de envolver alguém no que cremos e por que cremos. Isto não é nada menos que covardia e traição do que dizemos crer. Considere a exigência inspirada de Paulo para a oração e sua admoestação a nós: “Perseverai em oração, velando nela com ação de graças; orando também juntamente por nós, para que Deus nos abra a porta da palavra, a fim de falarmos do mistério de Cristo, pelo qual estou também preso; para que o manifeste, como me convém falar. Andai com sabedoria para com os que estão de fora, remindo o tempo. A vossa palavra seja sempre agradável, temperada com sal, para que saibais como vos convém responder a cada um” (Colossenses 4.2 – 6).

Nós podemos esperar rejeição, mas Jesus chama a aqueles que são perseguidos por amor de seu nome de “bem-aventurados”: “Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós” (Mateus 5.11, 12).

O Apóstolo Pedro ecoa as palavras de seu Mestre: “Se pelo nome de Cristo sois vituperados, bem-aventurados sois, porque sobre vós repousa o Espírito da glória e de Deus” (1 Pedro 4.14)

Por outro lado, quando o Espírito Santo abençoa nossos esforços, as pessoas respondem com interesse e, até mesmo, com fé salvadora (Romanos 1.16). Nunca devemos esquecer que Jesus tem toda autoridade no céu e na terra, e que ele nos comissionou a declarar e defender seu Evangelho (Mateus 28.18 – 20).

5. Arrogância e Vaidade Intelectual

No outro extremo do espectro de erro, está a arrogância do “apologista sabe-tudo” que está mais interessado em mostrar seu arsenal de argumentos do que defender a verdade de maneira piedosa.

O pecado que assedia a apologética é o orgulho intelectual, e deve ser evitado a todo custo. A verdade que defendemos é um dom da graça, não de nossa conquista intelectual. Desenvolvemos nossas habilidades apologéticas para nos santificar na verdade, conquistar almas para Jesus, e glorificar a Deus. Nós devemos “falar a verdade em amor” (Ef. 4.15). Verdade sem amor é arrogância; amor sem verdade é sentimentalismo.[4] 

Arrogância também ocorre quando alguns apologistas acusam outros crentes sem prova suficiente. Paulo disse aos líderes da igreja que eles deveriam esperar heresias no meio da igreja e estarem em guarda contra elas (Atos 20.28 – 31). Deveríamos fazer o mesmo. Todavia, devemos estar atentos para não difamar companheiros Cristãos ou assumir o pior sobre eles. Sei deste erro na própria pele, tendo sido acusado uma vez de ser um adepto da Nova Era porque um crítico horrivelmente interpretou mal uma porção de um de meus livros anti-Nova Era, Unmasking the New Age! Não vamos gastar nossas energias apologéticas atacando outros crentes quando hereges reais e incrédulos clamam por refutação e correção.

6. Técnicas Superficiais e Apologética Capenga

Alguns que ficam animados com apologética podem se tornar contentes com respostas superficiais às questões intelectuais difíceis. Nossa cultura se contenta com respostas rápidas a muitas coisas, e a técnica está dominando. Alguns Cristãos memorizam respostas prontas para questões apologéticas – tais como o problema do mal ou a controvérsia Criação-Evolução – que eles dispensam sem um tratamento adequado das questões e sem uma preocupação empática pela alma que levanta a questão. Uma vez vi um pequeno livro com um título como algo do tipo “The Handy, Dandy Evolution Refuter”. Sim, a macro-evolução é falsa, e bons argumentos têm sido trazidos contra ela, tanto da Natureza, quanto das Escrituras, mas o assunto não é tão simplista como o título do livro faz parecer.[5] Apologética deve ser feita com integridade intelectual.

O moto apologético de Francis Schaeffer era que deveríamos dar “respostas honestas para questões honestas”. Primeiro, devemos realmente ouvir a questão perguntada ou a objeção levantada. Devemos entrar na mente daqueles que estão apresentando razões para não seguir a Cristo. Cada pessoa é diferente, não importa o quão comum algumas objeções céticas possam parecer. Não reduza as pessoas a clichês.

Segundo, responda o que você ouviu. Não responda questões que não foram perguntadas. Tal abordagem superficial não vai impressionar o incrédulo que pensa. Se no momento você não pode oferecer uma resposta sólida para a objeção, não tente ocultar sua ignorância ou incapacidade. Honestamente admitir suas limitações é melhor que dar uma resposta fajuta. Fale para a pessoa que este é um bom ponto e que você precisa pensar mais sobre isso. O Cristianismo é absolutamente verdadeiro; mas isto não implica absolutamente que qualquer Cristão possa tratar com toda objeção levantada contra ele. Deveríamos evitar técnicas apologéticas e, em lugar disso, desenvolver recursos intelectuais e cultivar um diálogo real com os descrentes.[6]

Walter Martins disse corretamente que a igreja evangélica era um gigante adormecido e ele esforçou-se poderosamente para despertar todo o seu potencial dado por Deus para apresentar o Evangelho e defendê-lo contra objeções céticas e cultuais. Com seu legado em mente, possamos reavivar esta visão e encontrar paixão e sabedoria para por em prática por meio do poder do Espírito Santo (Atos. 1.8).

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Notas:

[1] Se o autor fala isso de seu contexto, o que diremos de nosso contexto brasileiro? [Nota do Tradutor]
[2] Em compasso com a filosofia da mente, área de interesse do Dr. Moreland, com livros e artigos acadêmicos publicados. [Nota do Tradutor]
[3] Para explicação das passagens bíblicas que, supostamente, ensinam que a fé não é racional, veja J.P. Moreland, Love God With All of Your Mind (Colorado Springs, CO: NavPress, 1997), 57-61.
[4] Sobre isto, veja Douglas Groothuis, "Apologetics, Truth, and Humility," Christian Research Journal (Spring 1992), p. 7.
[5] Para uma forte introdução a este assunto, veja Philip Johnson, Defeating Darwinism by Opening Minds (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1997). Nota do Tradutor: Este livro encontra-se em português, Como Derrotar o Evolucionismo com as Mentes Abertas (Editora Cultura Cristã, 2000).
[6]  Veja Dialogical Apologetics by David Clark (Grand Rapids, MI: Baker Books, 1993).

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Sobre o Autor: O Dr. Douglas Groothuis (N.T – pronuncia-se Grote–Hice) é um filósofo Cristão, Professor de Filosofia no Denver Seminary. Também é pregador do Evangelho e Escritor. Autor de onze livros, sendo um deles Christian Apologetics – A Comprehensive Case for Biblical Faith (InterVarsity Press, 2011). Suas áreas de especialização em Filosofia são Ética e Cultura Contemporânea, História da Filosofia Moderna e Filosofia da Religião. Especialista em Blaise Pascal, Dr. Groothuis possui muitos outros livros sobre Cultura, Filosofia, Tecnologia e Apologética. Atualmente ele é o responsável pelo programa de Apologética Cristã e Ética no Denver Seminary. Visite seu site: The Constructive Curmudgeon.

Fonte: Six Enemies Of Apologetic Engagement
Traduzido por: Rev. Gaspar de Souza. (Agradeço ao Dr. Groothuis a autorização para tradução desta importante advertência aos apologistas.) 
Via: Eis nosso Tempo!
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Apologética da gentileza

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Por Jonas Madureira


Antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós, fazendo-o, todavia, com mansidão e temor, com boa consciência” (1Pedro 3.15-16a).

Quando paramos para pensar em apologética, a imagem que mais se assimila é a de alguém beligerante que discorda de todos. Porém, a palavra “apologética” na tradição cristã tem origem jurídica. Os primeiros apologetas do cristianismo não ficariam o dia inteiro no Facebook respondendo a perguntas que as pessoas fazem sobre teologia. Eles iriam para o contexto de uma defesa jurídica porque, se fizessem uma boa defesa de que o cristianismo é razoável, que não é uma religião ateísta – como eram acusados os cristãos –, que não praticavam canibalismo – isto por conta da ceia – evitariam a morte. Esses apologetas, portanto, entram no cenário porque estão diante de alguns cristãos que serão lançados aos leões e a defesa que farão pode salvá-los.

A apologética, no início, tem o tom de mostrar a relevância do evangelho, mas com a finalidade de defendê-lo, pois a defesa dele garantiria a prática cristã, a vida baseada no evangelho. O contexto de uma vida baseada no evangelho, na ocasião, era uma vida marginalizada. A ideia era defender o evangelho para mostrar que os cristãos não eram nocivos à sociedade, que não deveriam ser tratados como estavam sendo tratados.

Curvar-se diante de Cristo não significava que eles não obedeciam às leis. Eles queriam ter o direito de dizer que somente Cristo era o Senhor, mas isso não significava que César não tinha que ser respeitado. Ao não se curvarem diante do imperador, não significava que não respeitavam César com toda autoridade que lhe era concedida.

A tarefa do apologista, então, era a de um advogado, de fornecer as peças de um argumento para mostrar que aquele que está sendo acusado é inocente.

Do que estamos sendo acusados hoje? Do que a igreja está sendo acusada? Diante de uma acusação, nossa primeira reação pode ser a reação de simplesmente responder com a mesma medida, de odiar aqueles que nos odeiam, de responder com perseguição, com aspereza.

Pedro, ao escrever essas palavras, escreve-as para forasteiros, para pessoas que estão no contexto que não é o habitat natural delas. É um mundo diferente. Diante disso, eles ainda vivem debaixo do evangelho. O evangelho exige que eles, por natureza, adotem padrões que a cultura rejeita. Pedro sabe que aquela comunidade está sofrendo.

Ao defendermos o evangelho, não precisamos falar grosso ou gritar para que ele mexa com as estruturas de alguém. Mesmo que falemos com toda gentileza, o evangelho tem garras. Ele vai mexer com a estrutura de toda e qualquer cultura. Pedro sabe que não conseguiremos evitar o confronto do mundo. Os primeiros defensores enfrentavam essa oposição. Lutero dizia que sempre que o evangelho fosse pregado geraria conflito. Nesse contexto é que apresentaremos o evangelho. Irão nos perguntar a razão da esperança que há em nós e o desafio de Pedro é que estejamos preparados para isso.

Para que possamos responder, precisamos aprender a ouvir e a perguntar. O que as pessoas à nossa volta estão nos perguntando? As pessoas querem saber se somos inteligentes ou que, no fundo, quando entram num debate, querem saber o porquê você acredita naquilo que você diz ser o evangelho? Esta é a pergunta mais importante que o apologeta deve responder. Quando perguntamos por que acreditamos no evangelho, fazemos um exercício de reflexão, para saber o porquê acreditamos. Refletimos na razão de nossas atitudes, e no por que cremos naquilo que cremos.

Pedro usa palavras que tentam despertar em cada um a resposta da esperança que há em nós. Para isso, temos que fazer uma reflexão sobre aquilo que cremos. Vivemos num contexto onde aquilo que chamamos de evangelho está diluído, é superficial. As pessoas não sabem o que significa o evangelho. Eu acho que esperamos que o evangelho seja algo simples, mas confundimos algo simples com algo simplista, de tal forma que não queremos mais mastigar o evangelho, queremos que alguém o mastigue por nós. Não queremos pensar. O evangelho só vai transformar você se você mastigá-lo. Se você não entendeu o evangelho e não tem convicção dele, não há como você defendê-lo. Como você defende algo do qual não acredita? Se você não acreditar naquilo que está pregando, terá que defender a técnica do cinismo, como vendedores que não acreditam na qualidade do produto. Não dá pra fazer isso com o evangelho. Ou acreditamos no evangelho ou não conseguiremos defendê-lo. O evangelho deve ter o padrão que toca o seu coração e faz você admirá-lo. Para sustentar o evangelho, precisamos admirá-lo e, para admirá-lo, precisamos nos aprofundar nele.

Lewis e o cristianismo “água-com-açúcar”

Quero apresentar um apologeta da gentileza por excelência. C. S. Lewis.

Em seu livro “Cristianismo Puro e Simples”, Lewis explica porque o ateísmo é simplista. Mas ele diz que há também o cristianismo simplista, que é o cristianismo água-com-açúcar, aquele cristianismo de respostas prontas, que não nos faz pensar. Ele diz:

“Pois bem, então o ateísmo é simplista. E vou lhes falar de outro ponto de vista igualmente simplista que chamo de ‘cristianismo água-com-açúcar’. De acordo com ele, existe um bom Deus no Céu e tudo o mais vai muito bem, obrigado – o que deixa completamente de lado as doutrinas difíceis e terríveis a respeito do pecado, do inferno, do diabo e da redenção. Os dois pontos de vista são filosofias pueris.”

Ele compara esse tipo de cristianismo com o ateísmo porque é o tipo de cristianismo que tenta tirar do evangelho a força de desestabilização de estrutura de nós mesmos. É o tipo de cristianismo que, quando você estiver passando por dificuldades, lhe dirá coisas do tipo: “Menino vai orar, você está em pecado”.

Não conseguimos aprofundar uma questão, queremos respostas simplistas. Não queremos pensar na profundidade. Ser simples é uma coisa, ser simplista é outra. O evangelho é simples como a luz, mas isso não significa que seja fácil de entender. A luz é entendida tanto como uma onda como uma partícula e nenhum dos dois entendimentos está errado. É algo que não se resolve, é complexo. Você quer que Deus seja assim simples? Você acredita que, por causa dessa simplicidade de Deus, você está diante de algo simplista? A riqueza de Deus está no fato de Ele ser simples, mas isso demanda profundidade. O evangelho exige profundidade de mim e de você. Vivemos num contexto hoje onde as pessoas pagam dobrado para fazer coisas em vez de pensar. Por isso passamos tanto tempo no videogame. É legal, mas não dá em nada. Você sai de uma partida depois de várias horas e deve se perguntar: “Legal, e aí? Puxa, quanta coisa poderia ter feito nesse tempo!”

Por que passamos horas em frente ao videogame ou no shopping? Sabe por quê? Porque pensar dói. Porque pensar exige um movimento doloroso.

A alegoria da caverna de Platão

Todos nós conhecemos a alegoria da caverna. O que Platão dizia que aconteceria se aqueles prisioneiros fossem libertos de suas correntes e vissem a luz, se vissem o sol brilhando? O que aconteceria se vissem que o mundo deles não se resume àquela “caixinha”, mas que existe um mundo superior e que aquilo são apenas sombras? Eles sofreriam. Ficariam cegos por causa da luz, sentiriam dor porque não estão acostumados a fazerem isso.

Similarmente, você somente irá se sentir à vontade quando começar a estudar o evangelho. No início, terá sono. Só quando começarmos a praticar é que não irá doer. Isso exige de nossa parte um movimento que dói. Temos que ler o texto bíblico várias vezes. Dói. Com o passar do tempo, porém, esse movimento se torna comum e deixa de doer, você se acostuma.

Quando o prisioneiro fica cego, isto é o símbolo da ignorância. Quando alguém se converte e se depara com o evangelho, fica cego, ignorante. Isto acontece, por exemplo, com pessoas que vão à igreja pela primeira vez. Não sabem o que fazer. A constatação da ignorância não é algo gostoso. Temos dificuldade de reconhecer nossa ignorância.

Como podemos resumir o evangelho em três minutos? Isso diz muito sobre se compreendemos ou não o evangelho. No momento de olharmos para a luz, podemos ficar cegos. Mas a cegueira passa com o tempo.

O texto da caverna é a alegoria de que todos estão presos. Platonismo e cristianismo se parecem bastante, mas possuem muitos contrapontos. No caso da caverna, é o homem que se liberta. Basta que ele reflita sobre a realidade à sua volta. Em contrapartida, no cristianismo, nós é que somos libertos pelo Espírito Santo. Somente Ele liberta nosso coração para enxergarmos o evangelho.

Para pregarmos o evangelho, para que possamos defendê-lo e o anunciarmos, temos que nos aprofundar. As pessoas se aproximarão não por causa de argumentos, mas por causa de nosso testemunho. Somente pelo Espírito Santo seremos libertos. Não adianta explicarmos através da lógica que o evangelho é a verdade se não aceitarmos a Bíblia na cabeça. A obra é do Espírito Santo.

Quando alguém enxerga a realidade, porém, ele volta para a caverna para tentar libertar os demais. Fazemos a mesma coisa quando conhecemos o evangelho. Nasce em nós o desejo de ir à caverna para proclamá-lo. Isso, no entanto, só irá acontecer quando admirarmos o evangelho. Antes de desenvolvermos qualquer argumento, o que você e eu precisamos é da experiência do evangelho. Ele não é um folheto evangelístico, é o fundamento da igreja. Também não é apenas uma mensagem para ganhar pessoas para Cristo, é o fundamento da igreja. Enquanto não nos aprofundarmos nesse evangelho e fizermos dele nossa reflexão diária e o tema de nossa vida, não conseguiremos falar da Palavra de Deus ao mundo.

O que é o evangelho?

Gostaria de encerrar pensando no evangelho.

O que é o evangelho? Imagine um artista que está focado em sua obra e nada desvia sua atenção dela. Ele é perito na obra. Ele é o ser criador. Ele não falha. É da natureza do barro estragar, mas é da natureza do oleiro criar. Embora o barro esteja estragado, o oleiro não o joga fora, ele pega o mesmo barro e cria novamente. Isso é redenção.

Deus criou o mundo de uma maneira perfeita e maravilhosa e estragamos tudo. Mas não é o fim. A natureza do Criador também é a natureza do redentor. Temos a natureza da destruição, mas Ele tem a natureza da redenção. Eu e você podemos estragar histórias lindas que Deus está criando, mas não temos o poder de estragar a história eterna que Deus prepara para nós. Não podemos destruir Deus. Enquanto Deus existe, há redenção dos estragos.

Não é bonito o evangelho, a história de Deus? Ele cria tudo de maneira perfeita porque Ele é perito. Ele não desiste. Esta é a história do evangelho. Você não pode fazer um estrago tão grande para o qual não haja redenção. Para defender o evangelho, temos que amá-lo, admirá-lo. Como está nossa admiração pelo evangelho pela obra de redenção? O peso de nossa admiração representa o peso de nosso amor às respostas que são feitas ao nosso tempo. Não só apresentando e defendendo o evangelho de uma maneira lógica, mas, sobretudo, fazendo com carinho e gentileza, que só os seres dóceis podem ter diante dos seres brutos. Que o evangelho seja dito de uma forma dócil, mas não de uma forma domesticada, ou seja, uma forma que não desestabilize. Não espere que a pregação do evangelho não mexa com as estruturas das pessoas. Não temos que ficar de chateados quando alguém nos ofende. Isso irá acontecer sempre quando pregarmos o evangelho. O que não pode faltar em mim e em você é o amor. Amor por Deus e por pessoas, ou seja, que não iremos humilhá-las. Não temos que mostrar que somos inteligentes. Estamos aqui para pregarmos o evangelho e mostrar o que ele tem feito conosco.

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Fonte: Este artigo é um sermão pregado pelo pastor Jonas Madureira no dia 24/05/14 no culto “Inter Jovens” realizado na Igreja Batista Maranata em São José dos Campos, SP. Não se trata de uma transcrição integral do sermão, embora grande parte dele tenha sido transcrita. Alguns trechos foram adaptados para a linguagem formal e a essência da mensagem não foi alterada.

Via: Tuporém

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Acautelai-vos da Apologética!

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Por Rev. Gaspar de Souza


O título acima é uma paródia do artigo do dr. Greg Bahnsen sobre a vã filosofia.[1] Naquele texto, expondo Colossenses 2.8, o dr. Bahnsen alerta contra “um determinado tipo de filosofia” que não é “segundo Cristo”, pois rouba você de todos os tesouros da sabedoria e da ciência que estão depositados em Cristo. 

Porém, contrário que possa parecer, o dr. Bahnsen não está se posicionando contra o estudo da filosofia. Pelo contrário, ele está defendendo que a melhor maneira de acautelar-se da filosofia é estudando-a. Em razão disto é que Paulo “adverte contra o potencial destrutivo da filosofia”. Para tanto, contra a má filosofia, apenas a boa filosofia, e esta é segundo Cristo “em quem estão todos os tesouros da sabedoria”(Cl 2.3). Em outras palavras, o melhor remédio contra uma “vã filosofia” é aquela em que Jesus Cristo seja não apenas a conclusão, mas também o ponto de partida do pensamento. 

Ora, o cristão não deve ter outro compromisso exceto o de submeter-se ao Cristo revelado nas Escrituras. Jesus Cristo é a autoridade primeira em matéria de filosofia cristã. Assim, ao estudarmos filosofia, fazemo-lo para cumprir a ordem paulina com maior clareza e eficiência. Nas palavras do dr. Bahnsen:

Estudamos filosofia para certificarmos de que nossos pressupostos sobre a realidade, conhecimento e ética são verdadeiramente pressupostos que honram de Cristo. Estudamos filosofia para identificar quais tipos de pensamento podem nos tornar presas fáceis em nossa cultura. Em suma, estudamos filosofia acautelando-nos de pensar equivocado e comprometermo-nos a pensar a verdade sobre o homem e o mundo.

Apologética Segundo Cristo: suaviter in modo, fortiter in re

Agora, no tocante à Apologética, tenho a dizer o mesmo. Na iminência de concluir um mestrado Teologia Filosófica, com ênfase em Apologética e Exegese, fui descobrindo como é necessário ter cuidado com a Apologética. Em contato com autores de renome na área da Teologia Filosófica, Exegese e Apologética, descobri inúmeras advertências para que a nossa apologética seja “segundo Cristo”. E embora  não tenha conhecido pessoalmente quase nenhum dos autores que li, pude presenciar a aplicação destes princípios na postura de meu próprio orientador, o dr. Davi Charles Gomes, e de meus mestres – Prof. Fabiano Oliveira, Filipe Fontes, Tarcízio Carvalho, João Alves e outros. 

O  dr. Davi Gomes, orientador de outros mestres, encarnou a máxima do dr. Cornelius Van Til, suaviter in modo, fortiter in re (gentil na maneira de agir, mas forte na resposta). E penso que esta frase reflete exatamente as palavras do apóstolo Pedro no texto que é considerado a base da apologética (1Pe 3.15). Aliás, ouvi no Seminário Presbiteriano do Norte (novembro de 2008), o dr. Davi fazer uma exposição deste texto e, como aplicação, ter trabalhado os “seis inimigos da Apologética”.

É curioso que enquanto muitos envolvidos com apologética consigam recitar com segurança a parte do verso que diz “estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós”, alguns têm imensa dificuldade com o verso seguinte (na ARA): “fazendo-o, todavia, com mansidão e temor, com boa consciência...”(v. 16), isso sem contar que as palavras de Pedro para exercitar tal mandato iniciam como “santificai ao Senhor Deus em vossos corações”(ACF). Assim, Apologética começa com santificação de nossos corações a Cristo e opera respondendo com mansidão e temor aos que nos perguntam de nossa esperança. 

Apologética Humilde, mas não Fraca

John G. Stackhouse,[2] em seu Humble Apologetics, faz a seguinte advertência sobre a Apologética. 

Apologética é um trabalho perigoso. Em uma época em que as vozes de vários lados relembram-nos de qual problemático são as reivindicações humanas para o conhecimento; em uma cultura que resiste cada vez mais e se ressente de que pede a conversão do outro; e em uma atividade cujo estereótipo é de vaidade racionalista e intimidação intelectual – que pessoa consciente e inteligente gostaria de se envolver em apologética? Se estamos a defender e recomendar a nossa fé, devemos fazê-lo em um novo modo: com uma voz diferente e em uma postura diferente. Nossa apologética deve ser humilde. Ela deve ser humilde por diversas razões, mas a principal entre elas é que Deus mesmo veio a nós em humildade, buscando o nosso amor e nos atraindo a ele. O Senhor Jesus Cristo é nosso modelo de humildade; o Espírito Santo de Deus é nosso companheiro humilde que nos ajuda a seguir o exemplo de Cristo como também a proclamarmos a mensagem de Cristo.

Apologética humilde não significa uma apologética fraca, “em que alguém deve, digamos assim, perder um argumento e ganhar uma alma”.[3]  Falamos do reconhecimento que apologética é ferramenta cujo fim não é a vitória sobre outro, mas sim anular sofismas e levar pensamentos cativos a Cristo. Deixe-me apresentar um exemplo que o pastor John Burke conta em seu livro:[4]  

Lembro-me de ter assistido a um debate na Willow Creek entre um conhecido ateísta e um apologista do cristianismo. Havíamos acabado de iniciar o ministério Axis em nossa igreja, e muitos de nossos líderes jovens haviam convidado amigos céticos para o debate. Do ponto de vista intelectual, o cristão destruiu os argumentos do ateísta e venceu claramente o debate. Entretanto, interrogando depois os líderes do Axis, descobrimos que seus amigos céticos concordaram que o cristão havia vencido a discussão, mas a maioria ficou tão desgostosa com sua atitude depreciativa para com o oponente que aquilo os convenceu ainda mais de que não queriam ser cristãos.

Infelizmente, alguns pensam que Apologética é uma ferramenta a ser usada como porrete para bater nos outros. O fato de a apologética servir para responder e atacar o incrédulo não significa que ela seja para brigar com todos. O silêncio, às vezes, é também uma resposta. Se até o tolo, quando se cala, é reputado por sábio, muito mais o experiente que fecha os seus lábios em tempo certo, visto que ao servo do Senhor não convém contender. Joshua Harris e Eric Stanford  acertam o alvo quando afirmam que “precisamos ser corajosos em nossa posição em favor da verdade bíblica. Mas também precisamos demonstrar graça em nossas palavras e em nossas interações com as pessoas [...]. Um dos erros frequentemente cometidos por nós cristãos é que aprendemos a repreender como Jesus, mas não a amar como Jesus”.[5] 

Sempre que a Apologética não cumprir seu papel “com mansidão e temor” ela não estará sendo “segundo Cristo”. Portanto é contra este tipo de apologética que precisamos lutar, porque ela rouba a beleza dos tesouros de Cristo e coloca a Criatura no lugar do Criador, uma vez que a glória de Deus é desviada para outro lugar: para o próprio apologista ou para longe do Evangelho. Francis Schaeffer, magistralmente, encontra o lugar da apologética: “o propósito da ‘apologética’ não é meramente ganhar uma disputa ou uma discussão, mas que as pessoas com as quais estamos lidando tornem-se cristãs que realmente colocam a sua vida sob o senhorio de Cristo, deixando-o tomar conta de toda a sua vida”.[6] Isso  leva-me a considerar que a razão do “porrete apologético” encontra-se na separação da Apologética do Evangelho. Em outras palavras, quando alguns apologistas, especialmente os das novas mídias e redes sociais, veem a apologética como somente, eu disse somente, uma disciplina acadêmica, de vencer debates e demonstrar que têm argumentos, o resultado é um conhecimento que apenas incha. Você pode ver isto, além dos “debates facebookeanos”, também nos compêndios de Apologética. Estes são espécies de “manuais científicos” e, praticamente, voltados para o ambiente acadêmico. Aqueles “manuais Schopenhaureano” de como humilhar o oponente. Pode-se até parecer que a apologética não se aplica realmente ao dia a dia das pessoas comuns. 

Não estou advogando uma apologética simplória, mas uma apologética simples, que o sapateiro ou o aluno na oitava série possam apresentá-la como bons discípulos de Cristos. 

Como expressão desta “apologética academicista”, cito abaixo um exímio apologista cristão. Em seu livro Time and Eternity: Exploring God’s Relationship to Time,[7] o dr. Craig faz a seguinte declaração: 

Alguns dos leitores de meu estudo da onisciência divina, The Only Wise God, ficaram surpresos acerca de minha observação de que alguém que deseje aprender mais sobre o atributo da onisciência de Deus seria mais bem aconselhado ler as obras dos filósofos Cristãos em vez dos teólogos Cristãos. Não apenas essa observação foi verdadeira, mas sustento o mesmo para a eternidade divina (grifos meus).

Em outro lugar, diz o autor: “Se você quiser praticar uma apologética eficaz, precisa ser treinado na filosofia analítica [...]. Seja qual for a área de especialização, você estará mais bem qualificado como apologista se tiver recebido treinamento em filosofia analítica”.[8] Neste sentido, não custa perguntar com Tertuliano: “Quid ergo Athenis et Hierosolymis? (O que tem a ver Atenas e Jerusalém?).

A despeito de sua inquestionável habilidade e piedade, dr. Craig aproxima a Apologética de um campo do saber que está além da maioria dos cristãos. O resultado é que, exceto pelos acadêmicos, a apologética entre os leigos é, na maioria das vezes, péssima caricatura da boa defesa da fé.

Apologética, Teologia e Discipulado

A Apologética é uma disciplina eminentemente bíblica, por isso deveríamos esperar maior interação da disciplina com outras que relacionam com a Teologia ou com a “Enciclopédia Teológica”,[9] onde fica cada vez mais claro que a “Teologia Sistemática tem uma relação mais próxima com Apologética do que com qualquer outra disciplina”.[10] O dr. Oliphint, em uma crítica ao dr. Craig, nos diz que, 

Se alguém quer saber sobre a onisciência de Deus ou sua eternidade; se alguém quer pensar profundamente sobre Deus e seu relacionamento com o Mundo; se alguém quer fazer apologética, o primeiro lugar para olhar é para Escritura, e, depois, para aqueles teólogos que fielmente articularam seus ensinos. A Filosofia, mesmo a filosofia Cristã, tem uma longa e resoluta história de virar suas costas para a consistente Teologia Reformada. Portanto, ela não foi muito positiva com respeito às discussões Teológicas (ou filosófico-teológica).[11] 

Especialmente diante da Grande Comissão (Mt. 28.18–20),[12] o cristão deverá anunciar “todas as coisas” que foram ensinadas pelo Senhor Jesus em sua missão de fazer discípulos. Isso não seria uma tarefa fácil. Pode-se falar dessa tarefa na forma que o Senhor disse: “Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos” (Mt. 10.16).

Os discípulos, em suas idas para transmitir o Evangelho, depararam-se com diversos desafios a fim de comunicar o Evangelho. Pedro e João perante o Sinédrio; Paulo perante os filósofos estoicos e epicureus; Paulo e Barnabé perante os sacerdotes de Listras; Paulo nas sinagogas dos Judeus arrazoando constantemente com eles demonstrando que Jesus é o Cristo etc. Mas também eles encontraram uma Lídia, uma vendedora de púrpura, que estava à beira do rio; responderam à pergunta do Carcereiro; Paulo defendeu a fé perante o povo (At. 21.72 – 22.21); e ensinou a todos que o visitavam na prisão domiciliar.

Pode-se dizer, portanto, que a base da apologética é o mandato de fazer discípulos. Nesse fazer discípulos, estão envolvidas algumas pressuposições: 1) que haveria necessidade de comunicar o Evangelho de modo eficaz; 2) que haveria necessidade de explicar o Evangelho aos contradizentes (Tt. 1.10); 3) que haveria a necessidade de justificar a crença no Evangelho; 4) que haveria a necessidade de confirmar a fé dos já crentes e; 5) que haveria a necessidade de desafiar os incrédulos no confronto com suas crenças.

Ora, na apologética somos, portanto, discípulos de Jesus Cristo. Por isso, devemos refletir seu caráter. O apologista deve ser gentil, paciente, cortês e não beligerante.

Estas qualidades dificilmente aparecem a muitos que sustentam fortes posições doutrinárias e que são prontos a defender suas posições. É fácil tornar-se teimoso e fervoroso para dominar seu oponente. Todavia, é a atitude oposta, que é pacífica e gentil, que demonstra que nossa sabedoria vem de cima (Tiago 3.13 – 17).[13] 

Como  disse acima, na palestra do dr. Davi Gomes  no Seminário Presbiteriano do Norte, sobre “seis inimigos do compromisso apologético”. Ele tomou por base, entre outros, o texto do dr. Douglas Groothius, professor de filosofia e apologética no Denver Seminary, “Six Enimies of Apologetics Engagement”.[14] Ambos concordam que, “no outro extremo do espectro de erro, está a arrogância do ‘apologista sabe-tudo’ que está mais interessado em mostrar seu arsenal de argumentos do que defender a verdade de maneira piedosa”. Certamente, este é o pecado que tenazmente nos assedia: o orgulho intelectual. E ele deve ser evitado a todo custo – lembra-se? Santificai a Cristo em vossos corações... – pois a verdade que temos nos veio como um dom da graça de Deus. “Nós desenvolvemos nossas habilidades apologéticas ao santificarmos na verdade, ao ganhar almas para Cristo e glorificar a Deus. Devemos ‘falar a verdade em amor’ (Ef. 4.15). Verdade sem amor é arrogância. Amor sem verdade é sentimentalismo”.[15] 

Conclusão

Apologética é de suma importância ao cristão e todos os cristãos estão envolvidos, de um modo ou de outro, com apologética. Mas a apologética pode se degenerar em “vã apologética”, a apologética que não é “segundo Cristo”. E contra este tipo de apologética, uma boa apologética bíblica é o remédio. O apologista cristão precisa ter claro diante de si que sua resposta e desafio ao pensamento incrédulo devem ser feitos “com mansidão e temor”, santificando a Cristo em seu coração. Ele deverá oferecer a Deus  seu coração, pronto e sincero, como está escrito no selo de Calvino.

McGrath afirma que a “apologética corre o risco de passar a impressão de que basta mostrar que a fé é racional”.[16] Sim, a fé cristã é racional, mas não basta apenas mostrar isso ao incrédulo. Não basta apresentar todas as premissas, as inferências ou provas, nem mesmo os mais elaborados silogismos e retórica. É preciso oferecer a Cristo o que Ele mesmo tem nos dado. Na construção do Templo do Senhor, todo o povo de Israel, juntamente com seus líderes e príncipes, “voluntariamente contribuíram” para a construção da Casa de Deus. Então, Davi louvou ao Senhor, reconhecendo que Deus mesmo, o Eterno, é o dono de todas as coisas nos céus e na terra. Então, o Rei perguntou: “Pois quem sou eu, e quem é o meu povo, para que pudéssemos oferecer voluntariamente coisas semelhantes? Porque tudo vem de ti, e do que é teu to damos [...]. SENHOR, nosso Deus, toda esta abundância, que preparamos, para te edificar uma casa ao teu santo nome, vem da tua mão, e é toda tua” (1Cr. 29.1 – 16). O que tem o apologista cristão que não tenha recebido?

C.S. Lewis certa vez descrevendo o perigo que o apologista corre, disse: 

Não tenho encontrado nada mais perigoso para a fé de alguém do que a tarefa de um apologista. Nenhuma doutrina da fé parece para mim tão espectral, tão maravilhosa do que aquela que acabei de defender em um debate público. Por um momento, veja você, ela parecia repousar sobre si mesmo: como um resultado, quando você se vai do debate, já não parece tão forte quanto o fraco pilar. É por isto que nós, apologistas, tomamos nossas vidas em nossas mãos e podemos ser salvos apenas por retroceder continuamente das redes de nossos argumentos, de nossa reação intelectual, para a Realidade – da apologética Cristã para o próprio Cristo. Também é por isso que precisamos da ajuda um dos outros – oremus pro invicem (Oremos uns pelos outros).[17] 

O apologista pode até se gloriar por sua brilhante atuação, seus elaborados argumentos irrefutáveis, “mas autoglorificação nunca é uma coisa espiritualmente saudável”,[18] e ele estará colocando-se em terreno escorregadio, uma vez que “a soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda” (Pv. 16.18). E, por absolutizar a própria apologética, o apologista estará reduzindo a própria fé ao argumento em si, fazendo da apologética a sua tábua de salvação, ou seja, um ídolo.

O que disse acima não significa que eu não corra o mesmo risco. Pelo contrário, luto diariamente em apresentar uma defesa da fé cristã que seja tal como os diálogos de Jesus Cristo. Procuro lembrar-me de suas palavras: “sem mim, nada podeis fazer” (Jo. 15.5). De minha maneira de argumentar em algumas ocasiões mais acirradas, alguns amigos cunharam meus argumentos de ad tratorium (risos). Estou sempre ciente de que o Evangelho é sempre ofensivo ao incrédulo. Mas nem por isso devemos fazer de nossa apologética a palmatória, pois a única cruz a ser apresentada é a de Cristo, que é em si mesma escândalos para os incrédulos.

Certa vez, o dr. Van Til, advertindo acerca dos ídolos, disse: 

Pela graça você é salvo. Você não foi mais sábio do que outros homens. Não é você quem tem escolhido a Cristo como seu Salvador. É Cristo, o Salvador, quem tem escolhido você para ser sua testemunha. Não é você, pela psicologia profunda, tem descoberto a verdadeira necessidade do homem; é Cristo que, através de seu servo João, diz a você que o mundo inteiro já no maligno.[19] 

Mais uma vez afirmamos que humildade apologética não quer dizer abrir mãos das questões da verdade que cremos e defendendo dos incrédulos. O dr. Van Til dizia que a apologética deveria ser perseguida com uma “humildade ousada”. O dr. Bahnsen explica isso dizendo que “isto não quer dizer abrir mão nem mesmo um centímetro das questões da verdade sobre as quais discordamos com os incrédulos. Mas, isto quer dizer [...] que nós continuemos a pagar o próximo cafezinho para nosso oponente”.[20]  

Esteja sempre preparado para responder a quem pedir a razão da esperança que há em você. Mas faça-o com mansidão e temor. Continue a pagar o próximo cafezinho. Mas lembre-se: Acautelai-vos da Apologética!

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Notas:
[2] STACKHOUSE, John G. Humble Apologetics: Defending the Faith Today. Oxford University Press, 2002, p. 227.
[3] SIRE, James. W. Why Good Arguments Often Fail: Making a More Persuasive Case for Christ. Downer Grove. Ill: IVP Books, 2006, p. 165.
[4] BURKE, John. Proibida a Entrada de Pessoas Perfeitas – um chamado à tolerância na igreja. São Paulo: Vida Acadêmica, 2007, p. 213.
[5] HARRIS, Joshua; STANFORD, Eric. Ortodoxia Humilde – defendendo as verdades bíblicas sem ferir as pessoas. São Paulo: Vida Nova, 2013, p. 20, 22.
[6] SCHAEFFER, Francis. O Deus que se Revela. São Paulo: Cultura Cristã, 2002, p. 214. 
[7] CRAIG, William Lane. Time and Eternity: Exploring God’s Relationship to Time. Wheaton, Ill: Crossway, 2001, p. 11.
[8] CRAIG, William Lane. Conselhos aos Apologistas Cristãos. Disponível em: http://www.reasonablefaith.org/portuguese/conselhos-aos-apologistas-cristaeos. (grifos meus)
[9] VAN TIL, Cornelius. Apologética Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2011. p.21.
[10] Idem.
[11] OLIPHINT, Scott R.; TIPTON, Lane G. Revelation and Reason – New Essays in Reformed Apologetic. Phillipsburg, NJ: P & R Publishing, 2007. p. 3 (Grifos meus).
[12] Não é por uma preferência apenas do texto da Grande Comissão que ele é tomado aqui, mas por lembrar-nos de que em nossa missão temos a responsabilidade de anunciar “todas as coisas” que o Senhor Jesus tem ensinado.
[13] BAHNSEN, Greg L. Always Ready – directions for defending the faith. Atlanta, Georgia: American Vision, 1996, p. 64.
[15] Idem.
[16] MCGRATH, Alister. Apologética Pura e Simples. São Paulo: Vida Nova, 2013, p. 17.
[17] Apud STACKHOUSE, idem, p. 230.
[18] Idem.
[19] VAN TIL, Cornelius. Keep Yourself from Idols. Presbyterian Guardian, n.34, vo. 6 (jul/ago, 1965).
[20] BAHNSEN, Greg L. Van Til´s Apologetic: Readings and Analysis. Phillipsburg, NJ: P & R Publishing, 1998, p.32.

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