Mantendo a Fé numa Época de Incredulidade: A Igreja como a Minoria Moral

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“A questão mais importante de nosso tempo”, propôs o historiador Will Durant, “não é o comunismo versus o individualismo, nem a Europa versus a América do Norte, nem o Oriente versus o Ocidente. É se os homens podem viver sem Deus”. Essa pergunta, conforme parece, será respondida em nosso próprio tempo.

Durante séculos a igreja cristã foi o centro da civilização ocidental. A cultura, o governo, as leis e a sociedade do Ocidente estavam alicerçados em princípios explicitamente cristãos. Preocupação com o indivíduo, compromisso com os direitos humanos e respeito pelo que é bom, belo e verdadeiro – tudo isso se desenvolveu de convicções cristãs e da influência do cristianismo.

Todas essas coisas, apressamo-nos a dizer, estão sob ataque. A própria noção do certo e do errado tem sido descartada por grandes setores da sociedade. Onde ela não é descartada, é frequentemente depreciada. Agindo à semelhança dos personagens de Alice no País das Maravilhas, os secularistas modernos declaram o errado como certo e o certo como errado.

O teólogo quacre D. Elton Trueblood descreveu a nossa sociedade como uma “civilização sem raízes”. Nossa cultura, ele argumentou, está cortada de suas raízes cristãs, como uma flor cortada de seu caule. Embora a flor mantenha a sua beleza por algum tempo, está destinada a murchar e morrer.

Quando esse teólogo falou tais palavras há mais de duas décadas, a flor podia ser vista com algumas cores e sinais de vida. Mas o botão perdeu há muito a sua vitalidade, e agora é o tempo em que as pétalas caídas devem ser reconhecidas.

“Quando Deus está morto”, asseverou Dostoievsky, “qualquer coisa é permissível”. Não podemos exagerar quanto à permissividade da sociedade moderna, mas tal permissividade tem sua origem no fato de que o homem e a mulher modernos agem como se Deus não existisse ou fosse incapaz de cumprir sua vontade.

A igreja cristã encontra-se agora diante de uma nova realidade. Ela já não representa a essência da cultura ocidental. Embora permaneçam focos de influência cristã, eles são exceções e não a regra. Na maior parte da cultura, a igreja foi substituída pelo domínio do secularismo.

Os jornais cotidianos apresentam um transbordamento constante de notícias que confirmam o estado atual de nossa sociedade. Esta época não é a primeira a contemplar horror e mal indescritíveis, mas é a primeira que nega qualquer base consistente que identifica o mal como mal e o bem como bem.

Em geral, a igreja fiel é tolerada como uma voz na arena pública, mas somente enquanto não tenta exercer qualquer influência confiável no estado das coisas. Se a igreja fala com veemência sobre um assunto do debate público, é censurada como coerciva e ultrapassada.

O que a igreja pensa a respeito de si mesma em face desta nova realidade? Durante os anos 1980, foi possível pensar em termos ambiciosos, como a vanguarda de uma maioria moral. Essa confiança foi seriamente abalada pelos acontecimentos da década passada.

Podemos detectar pouco progresso em direção ao restabelecimento de um centro de gravidade moral. Em vez disso, a cultura se moveu rapidamente em direção ao abandono completo de toda convicção moral.

A igreja professa tem de contentar-se agora em ser uma minoria moral, se o tempo assim o exige. A igreja não tem mais o direito de atender à chamada do alarme secular tendo em vista o revisionismo moral e posições politicamente corretas sobre as grandes questões do momento.

Não importa qual seja a questão, a igreja tem de falar como aquilo que ela realmente é: uma comunidade de pessoas caídas mas redimidas, que permanecem sob a autoridade de Deus. A preocupação da igreja não é conhecer a sua própria mente, e sim conhecer e seguir a mente de Deus. As convicções da igreja não devem emergir das cinzas de nossa sabedoria decaída, e sim da Palavra de Deus determinativa, que revela a sabedoria de Deus e os seus mandamentos.

A igreja tem de ser uma comunidade de caráter. O caráter produzido por um povo que vive sob a autoridade do soberano Deus do universo estará inevitavelmente em conflito com uma cultura de incredulidade.

A igreja está diante de uma nova situação. Este novo contexto é tão atual como o jornal matutino e tão antigo como as primeiras igrejas cristãs em Corinto, Éfeso, Laodicéia e Roma. A eternidade mostrará se a igreja está ou não disposta a submeter-se apenas à autoridade de Deus ou se ela renunciará sua chamada a fim de honrar deuses insignificantes.

A igreja precisa despertar para o seu status como minoridade moral e apegar-se firmemente ao evangelho, cuja pregação nos foi confiada. Ao fazer isso, as fontes profundas da verdade imutável revelarão a igreja como um oásis doador de vida em meio ao deserto moral de nossa sociedade.

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Autor: Albert Mohler Jr.
Fonte: Albert Mohler
Tradução: Wellington Ferreira
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A falácia da liderança visionária

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O líder cristão é um visionário — um criador e articulador de visão. Ele é capacitado para formatar e comunicar uma visão com clareza. Ele sabe como motivar os crentes a assumir uma visão rumo a um alvo bíblico e desejável.

Esse é um paradigma difundido na literatura e em congressos cristãos. No contexto episcopal isso é acolhido quase que sem questionamento. O problema é abraçar e tentar implementar essa ideia no contexto de uma liderança bíblica conciliar.

Se a igreja é corpo sacerdotal e o pastoreio do povo de Deus é uma tarefa compartilhada, como imaginar a figura de um líder da visão?

Se, diferentemente dos tempos do Antigo Testamento, Deus “é sobre todos, age por meio de todos e está em todos” (Ef 4.6), por que a igreja precisa de um líder visionário?

Se o Novo Testamento apresenta as igrejas locais sendo governadas por presbíteros eleitos pelo povo, onde encontramos, em Atos ou em qualquer epístola apostólica, a figura do líder da visão — o líder que se sobressai, que está sobre os outros, como canal exclusivo da iluminação e direção divina?

Os colegas pastores concordarão que, enquanto caminhamos com a igreja, é tentador imaginar que podemos nos destacar sobre os demais, considerar o ministério (na Escritura um “ministro” é, literalmente, uma pessoa que trabalha em favor de outras) como uma posição de poder e confundir autoridade espiritual com superioridade hierárquica. Somos inclinados a nos esquecer de que fomos chamados para a cruz, e que a igreja é o instrumento divino para nossa santificação e trabalho humilde.

A igreja é, ainda, corpo comum, a comunhão dos santos. Nela eu sou abençoado pela graça divina ministrada por meus irmãos e irmãs. Nesses termos, os presbíteros regentes são coiguais (uma palavra preciosa, destilada da doutrina da Trindade) e os membros da igreja não são meus subordinados. Fui vocacionado para nutri-los com a Palavra e os sacramentos, enquanto sou por eles ajudado em vários aspectos de minha própria peregrinação cristã. Mais do que um líder genial, eu simplesmente busco discernir o que Deus está realizando em nosso meio, o que ele nos orienta pela Escritura e como devemos responder a ele, aqui e agora. Nesse processo, assumimos alvos e trabalhos juntos. Mais do que uma “liderança visionária”, trata-se de “liderança compartilhada”, orientada pela fé, ancorada na Bíblia e regada pela graça.

Nos negócios, a liderança visionária confere dinamismo às organizações que tem de adaptar-se ao mercado globalizado e mutável. Na esfera religiosa, a liderança visionária constrói estruturas “ministeriais” que crescem explosivamente, da noite para o dia. Atrai os holofotes e conquista espaço na mídia e no imaginário popular. A questão, porém, é se isso, de fato, corresponde à igreja do Novo Testamento.

Compreendo os que, de boa vontade, assumem esse paradigma. Eu mesmo já fiz parte dessas fileiras. Hoje a igreja onde sirvo a Deus busca simplesmente ser “uma família de discípulos de Jesus, fundamentada na Bíblia, comprometida com a Reforma, que proclama as boas-novas da salvação, atua na restauração de pessoas e coopera na edificação do Reino de Deus”. Nada mais. Abandonei de vez a falácia da liderança visionária. Oro para que Deus me mantenha firme, até o fim, ao modelo da liderança pastoral estabelecido pelo Senhor Jesus Cristo.

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Autor: Rev. Misael Nascimento
Fonte: Somente pela graça
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A Disciplina Eclesiástica

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J.MacArthur Jr. afirma: “Durante este século (XX), na maior parte do tempo, o Cristianismo evangélico vem se concentrando na batalha pela pureza doutrinária, e deve fazê-lo, mas estamos perdendo a batalha pela pureza moral. Temos pessoas com a teologia certa, vivendo de modo impuro.  

Mas, como impedir que a impureza mundana penetre na Igreja? Como impedir que os valores do mundo não sejam assimilados e praticados pelos crentes hoje? Há uma dupla resposta: primeiro, somente Deus, através da sua providência sobrenatural, pode impedir que a sua Igreja se deteriore moralmente (Ef 5.26); segundo, Jesus Cristo autorizou a liderança ordenada da Igreja que use a disciplina eclesiástica como um instrumento de combate ao pecado (Mt 18.15-17).

Estudemos a doutrina bíblica da disciplina eclesiástica. Ela é um instrumento de combate ao pecado dentro da Igreja.

1. JESUS ORDENOU A DISCIPLINA

A disciplina eclesiástica é uma ordem divina. Jesus a instituiu na Igreja ao autorizar os apóstolos a corrigir os membros da Igreja que viviam na prática de determinados pecados. É conforme o texto de Mateus 18, o poder de “ligar” ou “desligar” pecados, isto é, autoridade à liderança ordenada da Igreja para combater o pecado dentro da comunidade. “Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra terá sido ligado nos céus, e tudo o que desligardes na terra terá sido desligado nos céus” (Mt 18.18 cf. Jo 20.23). 

Entende-se que cada pessoa possui o foro íntimo da consciência, a qual escapa à jurisdição da igreja. Contudo, há o foro externo que deve ser observado. Quando um membro da Igreja comete uma falta ou pecado que prejudique a paz e a pureza da mesma, deve ser disciplinado. “Falta é tudo que, na doutrina e prática dos membros e concílios da Igreja, não esteja de conformidade com os ensinos das Sagrada Escritura, ou transgrida e prejudique a paz, a unidade, a pureza, a ordem e a boa administração da comunidade cristã” (CD da IPB).

2. RESISTÊNCIAS À DISCIPLINA

Há uma grande resistência hoje, na Igreja, à prática da disciplina. Alguns argumentos são usados:

  1. Argumento do Amor
    A disciplina eclesiástica é contrária ao amor.
    Resposta: (Rm 13.8-10; He 12.4-12).
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  2. Argumento de Liberdade
    A disciplina eclesiástica opõe-se a liberdade cristã.
    Resposta: (Jo 8.31-36; Tg 1.25).
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  3. Argumento da Felicidade
    A disciplina eclesiástica opõe-se a felicidade do cristão.
    Resposta: (Sl 1; Is 48.22).
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  4. Argumento do Afastamento
    A disciplina eclesiástica afastará as pessoas da Igreja.
    Resposta: (Sl 37.23-24; 1 Jo 2.18-19).
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  5. Argumento da Hipocrisia
    A disciplina eclesiástica é um ato de hipocrisia, pois todos na Igreja são pecadores.
    Resposta: (1 Co 6.1-11; At 5.1-11).
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  6. Argumento da Injustiça
    A disciplina eclesiástica pode ser aplicada injustamente ou ser utilizada como instrumento de perseguição.
    Resposta: (Is 5.20,22; Mt 23.1-36).

3. APLICANDO A DISCIPLINA

Havia na igreja de Corinto, uma pessoa que mantinha um relacionamento incestuoso com a mulher de seu próprio pai. Provavelmente, a sua madrasta. O apóstolo Paulo estranha: “Geralmente, se ouve que há entre vós imoralidade e imoralidade tal, como nem mesmo entre os gentios, isto é, haver quem se atreva a possuir a mulher de seu próprio pai. E, contudo, andais vós ensoberbecidos e não chegastes a lamentar, para que fosse tirado do vosso meio quem tamanho ultraje praticou?” (1 Co 5.1-2). Paulo definiu aquele pecado como uma grande imoralidade e um ultraje.

A partir do texto de 1 Coríntios 5.1-13, podemos estabelecer alguns princípios acerca da disciplina eclesiástica.

3.1. A Sua Necessidade

A necessidade fundamental da disciplina é combater o pecado dentro da Igreja. Não permitir que o sal perca o seu sabor (Mt 5.13). Através dela se define o limite que separa a igreja do mundo.

3.2. Os Seus Objetivos 

A Confissão de Westminster explica: “As censuras eclesiásticas são necessárias para chamar e ganhar os irmãos transgressores, a fim de impedir que outros pratiquem ofensas semelhantes, para lançar fora o velho fermento que poderia corromper a massa inteira, para vindicar a honra de Cristo e a santa profissão do evangelho e para evitar a ira de Deus, a qual, com justiça, poderia cair sobre a Igreja, se ela permitisse que a aliança divina e seus selos fossem profanados por ofensores notórios e obstinados” (Cap. XXX:3). 

Em síntese, podemos afirmar quatro objetivos da disciplina:

  1. Impedir a propagação do mal na Igreja - “Lançar fora o velho fermento” (1 Co 5.6-7).
  2. Vindicar a honra de Jesus Cristo e a boa reputação do Evangelho (2 Co 6.3).
  3. Evitar que o juízo de Deus caia sobre a Igreja (Ap 2.18-29).
  4. Levar ao arrependimento e recuperar a ovelha. (2 Co 2.5-11).

3.3.
A Sua Forma

A forma bíblica da disciplina é baseada na gravidade e notoriedade do pecado. Veja os estágios para tratar o irmão em pecado (Mt 18.15-17) lendo a instrução de Jesus.

Jamais alguém deverá ser penalizado sem a oportunidade de defesa ou explicação. Paulo recomenda a Timóteo a não aceitar denúncia contra presbíteros, senão com o apoio de no mínimo duas testemunhas (1 Tm 5.19). 

Concluindo: “Disciplina eclesiástica é o exercício da jurisdição espiritual da Igreja sobre seus membros, aplicada de acordo com a Palavra de Deus” (Código de Disciplina da IPB). Na jurisdição espiritual, a Igreja exerce o direito de punir os pecados dos seus membros, mesmo que esses pecados sejam práticas permitidas na sociedade em que a Igreja está inserida. 

A Igreja não deve falhar no combate do pecado interno. A sua saúde espiritual depende da sua pureza. “Você pode ter disciplina sem santidade, mas não pode ter santidade sem disciplina”.

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Autor: Rev. Arival Dias Casimiro
Fonte: Resistindo a Secularização, SOCEP 2002. Págs. 55-59.
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As Marcas da Verdadeira Igreja

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Textos: Mt 18.15-17; Rm 11.13-24; 1 Co 1.10-31; Ef 1.22,23; 1 Pe 2.9,10.

Visto que o mundo se acha semeado de milhares de instituições distintas chamadas igrejas e visto ser possível que instituições, assim como indivíduos, se tornem apóstatas, é importante sermos capazes de discernir as marcas essenciais de uma verdadeira e legítima igreja visível. Nenhuma igreja está isenta de erros ou pecados. A igreja só será perfeita no céu. Há, porém, uma importante diferença entre corrupção - que afeta todas as instituições - e apostasia. Portanto, para proteger o bem-estar e crescimento do povo de Deus, é importante definir as marcas da verdadeira igreja.

Historicamente, as marcas da verdadeira igreja têm sido definidas assim:

  1. a genuína pregação da Palavra de Deus, 
  2. o uso dos sacramentos de acordo com sua instituição e 
  3. a prática da disciplina eclesiástica.

(1) A pregação da Palavra de Deus.
Embora as igrejas difiram em detalhes teológicos e em níveis de pureza doutrinária, a verdadeira igreja afirma tudo aquilo que é essencial à vida cristã. Semelhantemente, uma igreja é falsa ou apóstata quando nega oficialmente um princípio essencial da fé cristã, tal como a divindade de Cristo, a Trindade, a justificação pela fé, a expiação ou outras doutrinas essenciais à salvação. A Reforma, por exemplo, não moveu uma guerra sobre trivialidades, mas sobre uma doutrina fundamental da 
salvação. 

(2) A administração dos sacramentos. Negar ou difamar os sacramentos instituídos por Cristo é falsificar a igreja. A profanação da Ceia do Senhor ou o oferecimento deliberado dos sacramentos a pessoas notoriamente não-crentes desqualificaria a igreja de ser reconhecida como igreja verdadeira.

(3) A disciplina eclesiástica. Embora o exercício da disciplina na igreja às vezes erre na direção ou da complacência ou da severidade, ele pode tornar-se tão pervertida a ponto de não mais ser reconhecida como legítima. Por exemplo, se uma igreja - pública e impenitentemente - endossa, pratica ou se recusa a disciplinar pecados grosseiros e hediondos, ela deixa de exibir esta marca de verdadeira igreja.

Embora os cristãos devem ser solenemente advertidos a não nutrirem um espírito cismático ou fomentarem divisões e conflitos, devem ser também advertidos quanto à obrigação de se separarem da falsa comunhão e da apostasia. Toda igreja verdadeira exibe as genuínas marcas de uma igreja, em grau maior ou menor.

A reforma da igreja é uma tarefa interminável. Buscamos mais ser fiéis à vocação bíblica para pregar, ministrar os sacramentos e a disciplina eclesiástica.

Sumário
  1. A verdadeira igreja tem marcas visíveis que a distinguem de uma igreja falsa ou apóstata. 
  2. A pregação do evangelho é necessária para que uma igreja seja legítima. 
  3. A administração correta dos sacramentos, sem profanação, é uma marca da igreja.
  4. Disciplina contra heresias e pecados grosseiros é uma tarefa necessária da Igreja. 
  5. A igreja é sempre carente de reforma de acordo com a Palavra de Deus.

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Autor: R. C. Sproul 
Fonte: 3º Caderno Verdades Essenciais da Fé Cristã – R.C.Sproul. Editora Cultura Cristã.

Nota do editor: Para uma leitura complementar, leia também: 

A Igreja e sua Confessionalidade

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Para visualizar as palavras em grego neste artigo, instale a fonte grega aqui!

Introdução


Muitos entendem que a ideia de confessionalidade, pelo menos de uma confessionalidade estável, está na contramão do desenvolvimento da igreja, impedindo-a de ser dinâmica e atualizada. Uma confessionalidade “engessada”, para usar o adjetivo da moda, não estaria seguindo o espírito da Reforma que, supostamente, estimula constantes mudanças. É como interpretam a máxima Ecclesia reformata semper reformanda est (igreja reformada sempre se reformando – ou sempre sendo reformada).

Numa época de relativismos de toda natureza, inclusive teológica, não é de se estranhar que a ideia de confessionalidade não seja tão bem-vista. Esta, todavia, não é uma crítica nova. Sempre houve na história da igreja aqueles que não se conformaram com o fato de ser ela identificada e regulada por credos e confissões. O historiador Philip Schaff lembra que a autoridade e o uso desses símbolos doutrinários têm sido questionados por socinianos, quacres, unitarianos e racionalistas, ao longo dos anos. A alegação é de que esses símbolos impedem a livre interpretação da Bíblia e o progresso da teologia; interferem na liberdade de consciência e no direito de juízo individual; geram hipocrisia, intolerância e fanatismo; produzem divisões e transtornos; perpetuam a animosidade religiosa e o sectarismo, além de causarem outros males. 

Você não é a menina dos olhos de Deus! A Igreja é!

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Hoje em dia é comum nos depararmos com a seguinte cena:

Um indivíduo qualquer, falando de si mesmo, diz: “Eu sou a Igreja!” Isso está errado! Trata-se de uma manifestação clara do espírito da nossa época que supervaloriza o individualismo. Uma pessoa só não é a Igreja. Em seu Catecismo Maior, o puritano John Owen apresenta uma excelente definição do que é a Igreja de Cristo: “A completa companhia dos eleitos de Deus, chamados de Deus, pela Palavra e pelo Espírito, da sua condição natural à dignidade de seus filhos e unidos a Cristo, seu cabeça, pela fé, no vínculo do Espírito”.[i] Um indivíduo apenas não é a Igreja. Ele faz parte da Igreja, como um de seus membros. A Igreja é a “completa companhia dos eleitos de Deus. é uma coletividade. É um corpo específico de pessoas.

Digo isso, porque outra forma muito comum de se afirmar tal individualismo é olhar para uma pessoa em específico e dizer: “VOCÊ é a menina dos olhos de Deus!” Eu até tento compreender a intenção por trás desta fala, mas também tenho aprendido que, ao lidarmos com proposições temos de nos esforçar ao máximo para sermos precisos naquilo que queremos expressar. Teologia é isso!

A Bíblia não ensina que uma individualidade é a “menina dos olhos” de Deus. Esta expressão aparece 5 vezes na  Bíblia, todas elas no Antigo Testamento. Em Provérbios 7.2 a Sabedoria faz um pedido a um jovem, para que ele guarde a lei como se guarda a menina dos olhos: “Guarda os meus mandamentos e vive; e a minha lei, como a menina dos teus olhos”. A única ocorrência em que a expressão está relacionada a um indivíduo é uma oração, uma súplica do salmista Davi: “Guarda-me como a menina dos olhos, esconde-me à sombra das tuas asas” (Salmo 17.8). Davi não afirma ser a menina dos olhos de Deus. Ele suplica a Deus que o proteja como se ele fosse a menina dos seus olhos. Davi toma a expressão por empréstimo de Deuteronômio 32.10: “Achou-o numa terra deserta e num ermo solitário povoado de uivos; rodeou-o e cuidou dele, guardou-o como a menina dos olhos”. De quem Moisés está falando neste texto? O verso 9 nos dá a resposta: “Porque a porção do SENHOR é o seu povo; Jacó é a parte da sua herança”. No caso, a menina dos olhos de Deus neste texto é o povo de Israel, é a comunidade da aliança, a coletividade. O mesmo pode ser visto em outras duas passagens do Antigo Testamento: “O coração de Jerusalém clama ao Senhor: Ó muralha da filha de Sião, corram as tuas lágrimas como um ribeiro, de dia e de noite, não te dês descanso, nem pare de chorar a menina de teus olhos!” (Lamentações 2.18); “Pois assim diz o SENHOR dos Exércitos: Para obter ele a glória, enviou-me às nações que vos despojaram; porque aquele que tocar em vós toca na menina do seu olho” (Zacarias 2.8). Em Lamentações o povo deve chorar por causa da ruína de Jerusalém. Já em Zacarias o povo é declarado ser a menina dos olhos de Deus.

O salmista Davi, ao orar ao Senhor, pede para si o mesmo cuidado, a mesma proteção que o Senhor tem pelo povo de Jerusalém. Davi estava enfrentando perigos. Perversos o oprimiam e inimigos o assediavam de morte (Salmo 17.9). Então, lembrando da maravilhosa declaração do Senhor acerca do seu povo, Davi pede para si o mesmo cuidado e a mesma proteção. Acredito ser esta uma oração válida. E eu também acredito que o Senhor tem um cuidado especial por cada um dos membros do seu povo. Todavia, isso não quer dizer que podemos afirmar, de maneira categórica, que cada um de nós, individualmente, é a menina dos olhos de Deus. Da mesma forma, é o povo de Deus, a Igreja, que é “raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus” (1Pedro 2.9). É o povo, a sua coletividade, de Deus que é a sua delícia: “Nunca mais te chamarão Desamparada, nem a tua terra se denominará jamais Desolada; mas chamar-te-ão Minha-Delícia; e à tua terra, Desposada; porque o SENHOR se delicia em ti; e a tua terra se desposará” (Isaías 62.4). Deus está falando de Sião. É por amor de Sião que ele diz estas palavras. Deus diz isso de todo o seu povo. Temo que no afã de exaltar o ego humano acabemos direcionando ao indivíduo uma alcunha que pertence ao povo da Aliança.

A Igreja é a menina dos olhos de Deus. Se você está em Cristo Jesus de verdade, então, você faz parte da sua Igreja. E se você faz parte da Igreja de Cristo, bem, então, você é alvo do cuidado do Senhor para contigo. Você faz parte daquela que é a menina dos seus olhos.

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Nota: 
[i] John Owen. “The Greater Catechism”, In: Works of John Owen: The Glory of Christ. Vol. 1. Edinburgh, UK: The Banner of Truth Trust, 2008. p. 485.

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Autor: Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima
Fonte: Perfil do autor no Facebook
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A Relação entre Igreja e Estado

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Nota do editor: Nas últimas três décadas, tanto políticos conservadores como políticos liberais escreveram uma grande quantidade de perigosas besteiras sobre a igreja e o Estado. Esta estupidez está começando a afetar a política de governo e os gastos das rendas de impostos. Recentemente, William Bennett, Secretário da Educação, defendeu o suporte financeiro governamental para escolas Católicas Romanas, e os conservadores defenderam programas de fiação para canalizar fundos governamentais para escolas religiosas. Este escritor esteve presente em uma conferência nacional de diretores de escolas Cristãs em Washington, D. C., no início deste ano e ouviu um orador (que não era um Cristão, nem um diretor de escola) opor a legislação ante o Congresso baseando-se em que os subsídios federais sob a legislação não poderiam ser canalizados para creches religiosas. Dentro dos últimos meses, William F. Buckley, Jr. foi convidado para se dirigir em uma grande convenção do Conselho Internacional de Inerrância Bíblica quanto ao assunto da impossibilidade de separar a igreja do Estado. E por último, mas não menos importante, a agenda de pelo menos alguns dos “Cristãos Reconstrucionistas” pareciam incluir o uso da autoridade civil para manter a ortodoxia entre a população.

No meio desta confusão contemporânea, nós apresentamos Charles Hodge, que foi chamado de “O príncipe dos Teólogos Americanos.” Hodge foi talvez o mais influente teólogo Presbiteriano do século dezenove, um instrutor no Seminário de Princeton por décadas, e o autor de muitos livros, incluindo seus três volumes de Teologia Sistemática.[1] Seus ensaios apareceram originalmente na Princeton Review em 1863. São agora tomados de um livro recentemente relançado de ensaios por uma variedade de autores e editado por Iain 
Murray, A Reforma da Igreja.[2]

Crescimento numérico é evidência do favor de Deus?

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A mentalidade de que crescimento numérico é evidência do favor de Deus domina o meio evangélico há várias décadas. Tanto é assim, que a qualidade do ministério de um pastor ou o suposto grau de aprovação de uma igreja diante de Deus são medidos, muitas vezes, exclusivamente com base nesse critério. Por causa disso, se a gente apontar para os desvios doutrinários absurdos, o mundanismo, a falta de real devoção e os escândalos tão comuns nas megaigrejas que há por aí, logo aparece um "santarrão espiritualóide" dizendo: "Se esse pastor e essa igreja são tão ruins como você fala, por que Deus os tem abençoado tanto? Você já viu como seus cultos são lotados?".

É evidente que falta a muitas dessas pessoas o discernimento espiritual necessário para aprovar as coisas excelentes (Fp 1.9-10). Falta-lhes também o conhecimento bíblico que realça que nos últimos dias, os homens buscariam mestres "segundo as suas próprias cobiças" (2Tm 4.3). Esse versículo, diga-se de passagem, deixa evidente porque quem prega e velha e apodrecida doutrina do sucesso financeiro sempre tem seguidores aos milhares!

Falta, porém, algo mais àqueles que associam crescimento numérico à bênção de Deus. Desculpem a sinceridade, mas, a meu ver, falta-lhes também capacidade de percepção ou de raciocínio. Digo isso porque não é preciso ter um cérebro de Einstein para perceber que muitos movimentos absolutamente contrários à fé crescem numericamente num ritmo assustador. Isso é tão evidente que eu fico até com medo de dar alguns exemplos e ser acusado de gastar tempo dizendo obviedades. Mesmo assim, vou citar alguns...

Observem o crescimento do nazismo na primeira metade do século 20. Praticamente toda a Alemanhã abraçou essa "idelologia" que se expandiu além de sua "pátria mãe", encontrando apoio em diversos países. Aliás, o nazismo, que alguns pensam ingenuamente estar morto, continua ativo e crescerá ainda mais, especialmente agora que o livro de Hitler, o Mein Kampf (Minha Luta), caiu em domínio público. Acaso isso prova que o nazismo é aprovado por Deus?

Observem ainda o islamismo. Todos percebem claramente a ameaça que essa crença representa para a liberdade religiosa ou para qualquer outro tipo de liberdade. Quanta tolice é crer que somente os "radicais islâmicos", com seus atos de terrorismo, são perigosos para a sociedade ocidental! Muçulmanos em geral coisificam as mulheres, são favoráveis à pena de morte aplicada aos homossexuais, aprovam o casamento de garotinhas de dez anos com marmanjos de quarenta... Mesmo assim, essa religião cresce numericamente. Na verdade, algumas estatísticas afirmam que é a religião que mais cresce no mundo! Será que esse crescimento decorre da bênção de Deus? Ora, por favor!

Considerem finalmente o movimento LGBT. A Bíblia condena expressamente o homossexualismo e é contrária à ideia de que os homossexuais "nascem assim". Segundo as Escrituras, a responsabilidade pelos atos homossexuais são da própria pessoa que os pratica, sendo certo que essa pessoa prestará contas desses atos ao próprio Deus. Ademais, o simples senso natural repugna a prática e a "filosofia" homossexual. É, de fato, um grande agravo ao decoro e à decência tudo o que se vê, por exemplo, numa "Parada Gay". Zombarias grosseiras dirigidas contra a fé cristã, atos indecorosos praticados em público sob a luz do dia, exibições de corpos mutilados ou modificados por chocantes protuberâncias artificiais... Tudo isso é o que se vê nesses desfiles. No entanto, ainda que o número de pessoas que comparecem às paradas gays tenha caído vertiginosamente, segundo alguma pesquisas, o fato é que o movimento LGBT cresce a cada dia em número de indivíduos que o apoiam. Até crianças hoje em dia defendem o homossexualismo! Seria esse crescimento numérico uma prova do favor de Deus. Óbvio que não.

A grande realidade que se depreende das Escrituras é que o crescimento numérico em si não significa muita coisa. Na verdade, conforme visto, o mero crescimento numérico de um partido ou mesmo de uma igreja pode ter como causa fatores ruins, capazes de atrair um número imenso de homens maus. Por isso, é necessário que o crescimento de uma igreja esteja associado a outros elementos para que seja considerado saudável e também seja visto como resultado da ação graciosa de Deus. Que outros elementos são esses? A resposta a essa pergunta está em Atos 9.31: "A igreja, na verdade, tinha paz por toda a Judéia, Galiléia e Samaria, edificando-se e caminhando no temor do Senhor, e, no conforto do Espírito Santo, crescia em número".

Note que o crescimento saudável da igreja primitiva era uma bênção de Deus associada ao viver digno e santo de crentes que andavam no temor do Senhor e que eram edificados enquanto viviam assim. Ora, é evidente que a vida vivida sob o temor do Senhor se afasta de escândalos, imoralidades, palavreado sujo, desonestidades, mentiras, fraudes e hipocrisias. O texto indica, portanto, que a igreja primitiva em geral tinha um testemunho maravilhoso, sendo encorajada pelo Espírito Santo (a palavra traduzida como "conforto" pode significar também encorajamento ou assistência) que lhe dava ousadia, direção, sabedoria e disposição para o serviço. Então, como resultado disso tudo, a igreja "crescia em número".

Eis aí o crescimento numérico desejável, decorrente da aprovação de Deus. Por isso, é preciso destacar que, se uma igreja cresce enquanto seus membros não andam e nem são edificados no temor do Senhor, há, sem dúvida, algo muito errado com essa igreja. Talvez ela esteja oferecendo coisas ruins e, por isso, esteja atraindo homens ruins; talvez esteja proclamando ideias e realizando programações que se harmonizam com as expectativas perversas dos incrédulos; talvez tenha mestres que anunciam doutrinas em total sintonia com a cobiça dos iníquos; ou talvez esteja usando meras estratégias de marketing, adotando técnicas que nada têm a ver com a construção de uma igreja realmente bíblica. Lembrem-se: Onde estiverem os cadáveres do falso ensino e dos artifícios humanos, aí se ajuntarão os abutres, saltando alegremente em meio à carniça.

Tenhamos, pois, cuidado. Avaliemos as coisas com mais precisão e inteligência. Também supliquemos ao Senhor que sua igreja aumente mais e mais suas fileiras. Peçamos, porém, que esse aumento não ocorra a qualquer custo. Que o santo cordeiro da verdade e da pureza não seja sacrificado no altar do crescimento numérico. Que os salões lotados durante os cultos sejam reflexos de igrejas que andam no temor do Senhor e não de comunidades que criam atrações mundanas. Se não for assim, então que continuemos a ser, nas palavras de Jesus, um "pequenino rebanho", tentando ajustar a vida ao que ele quer, a fim de que o aumento saudável e verdadeiro aconteça no tempo devido.

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Autor: Pr. Marcos Granconato
Fonte: Perfil do autor no Facebook
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A falta de confessionalidade como razão do caos teológico contemporâneo

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Organizar a fé em sistematizações ou resumi-la em credos não é algo somente dos séculos XVI em diante, os judeus usavam a Shema (duas primeiras seções da Torá) para professar a sua fé (exemplo encontrado em Deuteronômio 6:4-9). As várias declarações de fé encontradas no Novo Testamento (João 4:42 , 6:14, 6:69), além do Credo Apostólico datado dos primeiros séculos da igreja cristã que tinha função pedagógica para o batismo dos novos na fé e para combater as heresias da época.

Após o marco da Reforma Protestante, em 31 de Outubro de 1517, o cristianismo teria a sua principal divisão em função dos abusos encontrados em diversos pontos da doutrina da Igreja Católica Romana e, embora Lutero inicialmente não tivesse a intenção se fundar uma nova religião, mas sim purificar a igreja de tais desvios e para que ficassem claras as intenções de Lutero, as 95 teses constituíam a exposição pública e escrita dos desvios. Contudo, a resposta protestante aos abusos da ICAR gradualmente foram copilados nos Cinco Solas e também no moto Ecclesia Reformata et Semper Reformanda Est. Posteriormente as confissões de fé Belga (1561), Catecismo de Heidenberg (1563), Segunda Confissão Helvética (1566), Cânones de Dort (1618-1619), Confissão de Fé de Westminster (1647) e seus Catecismos Maior e Menor (1648).

Augustus Nicodemus fala que, comumente, alguns dos lemas reformados são usados e entendidos de maneira diferente em nossos dias, por exemplo, o moto Ecclesia Reformata et Semper Reformanda Est (A Igreja é reformada e está sempre se reformando). Nicodemus diz que o holandês calvinista Gisbertus Voetius (1589-1676), que escreveu tal moto na época do Sínodo de Dort, dificilmente estava se referindo a ‘igreja estar sempre mudando’, de forma que a voz passiva do “Ecclesia Reformata” lembra que o agente da reforma não é a igreja, mas sim o Espírito Santo, que leva os cristãos às Escrituras, entendendo que a verdade não muda.[1] Mas em nossos dias não é bem assim que acontece. Evocando para si a justificativa de que a igreja “está sempre se reformando”, as mais variadas aberrações entraram na igreja com a interpretação errônea que isto significava novas interpretações que não tem nenhum comprometimento com as Escrituras.

Toda falsa doutrina tem como principal argumento o recebimento de novas revelações da parte de Deus, ou seja, começam então a negar o Só a Escritura e, assim, ao contrário do que pensam ser o progresso da igreja, voltam às práticas da ICAR e regressam a uma situação de obscuridade, da qual contrasta fortemente com a iluminação do Verdadeiro Espírito que nos chama à Palavra e somente a ela. A falta de apego confessional deságua na livre interpretação pessoal dos textos bíblicos e não na livre consulta (CFW cap. 1. V), porém é necessário não menosprezar a história da Igreja, onde os Pais da Igreja se esmeraram para explicar passagens e fundamentar a fé cristã, inclusive não rejeitando a doutrina apostólica, mas se apoiando nela.

É obvio que subscrever uma confissão não é incoerente, a Bíblia é infalível, as confissões não. A autoridade das confissões é vinda da própria Bíblia, por isso, ser confessional significa entender que tal confissão é a interpretação mais harmoniosa do Sagrado Texto e isto não coloca a confissão acima das Escrituras, nem deixa de lado o lema Só a Escritura. Joel Beeke cita que os primeiros reformadores reconheciam o serviço que as confissões prestavam à igreja na adoração (tarefa doxológica), o testemunho (tarefa proclamadora), o ensino (tarefa didática) e a defesa da fé (a tarefa disciplinadora), ou seja, nas confissões a igreja declara no que ela crê.[2]

Sérios desvios doutrinários como o arminianismo, adventismo, mormonismo, liberalismo, neopentecostalismo e etc. tem aparecido pela falta de apego às confissões reformadas. Os Cânones de Dort, por exemplo, foram os cinco artigos escritos contra os seguidores dos ensinos de Armínio. Eles foram elaborados em 154 sessões durante sete meses, rejeitando os ensinos dos remonstrantes. Uma volta ao arminianismo, em função do pentecostalismo, não teria ocorrido se fosse levado em conta o trabalho do Sínodo de Dort. Talvez fosse possível evitar a força que o neopentecostalismo tem desde Charles Finney. Não obstante, Ellen G. White não teria influenciado com seus escritos a volta às praticas da lei cerimonial e civil de Israel por parte do adventismo, quem sabe Joseph Smith Jr. tivesse suas dúvidas sanadas antes das mesmas o levar a fundar a religião mórmon, ou talvez ainda mais importante nos nossos dias, o liberalismo teológico fosse apenas uma clara blasfêmia contra Deus.

Claramente o abandono das confissões da época da reforma constitui um perigo que nos fez chegar até o atual quadro de caos no meio evangélico. Somos filhos de um retorno efetivo às Escrituras, principalmente com Lutero e Calvino, mas claramente a ausência literal ou funcional do apego as confissões reformadas, como o trabalho da vida dos reformadores e dos Pais da Igreja, nos tem feito perceber a necessidade da ‘igreja ser reformada e sempre se reformar’. Não nesse sentido em que a Palavra é diluída nos achismos das seitas, mas no sentido de volta às Escrituras guiada pelo Espírito Santo.

É importante frisar que não se trata de tornar qualquer confissão um ídolo, mas sim tentar abandonar o ídolo da interpretação particular das Escrituras, ou seja, o ídolo do “eu”. Não há dúvidas que o espírito deste século tem usado de estratégias que se valem do argumento da comparação das confissões com a tradição romana, para diminuir a obra do Espírito ao longo da história da igreja. Confissão alguma tem caráter igual ou superior às Escrituras, inclusive as próprias confissões claramente expressam a inerrância bíblica, algo que, tanto a tradição católica nega (igualando-se a Palavra), quanto os líderes carismáticos que negam efetivamente com suas novas revelações e interpretações a autoridade bíblica.

Um cristianismo confessional, sem dúvida, expõe mais do que um credo aos de fora da comunhão, o cristianismo confessional tem contribuído para que os próprios cristãos sejam mais conhecedores da Palavra e não sejam levados por qualquer vento de doutrina que se proliferam aos montes, à medida que a volta de Cristo se aproxima. Que Deus nos dê a graça de poder encontrar na Sua Palavra a verdadeira espada do Espírito!

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Notas:
[2] BEEKE, Joel R. Vivendo para a glória de Deus. Capítulo 2: pág. 35. Editora Fiel, 2010.

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Autor: Felipe Medeiros
Fonte: UMP da quarta
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As chaves do Reino de Deus

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Você já ouviu a história de que Pedro era um velhinho de barbas brancas com um molho de chaves nas mãos, as quais são das portas de entrada do céu? Daí que surge o ditado popular de que Pedro é o manda chuva, porque é ele quem abre e fecha o céu.

Na verdade o texto de Mateus 16.19[1] não concorda com essa historieta, mas é algo distinto. E é isso que o Catecismo de Heidelberg vai nos mostrar no 31º Dia do Senhor, concluindo a segunda parte[2] do Catecismo a qual começou mostrando que, no 5º Dia, a nossa redenção se deu por intermédio de Jesus Cristo, sendo Ele verdadeiro homem e verdadeiro Deus, e agora, encerrando essa parte, o Catecismo nos mostra que a pregação abre e depois fecha e que a disciplina fecha e depois abre o Reino.

83. Que são as chaves do reino dos céus?
R. A pregação do santo Evangelho e a disciplina cristã. É por estes dois meios que o reino dos céus se abre para aqueles que crêem e se fecha para aqueles que não crêem (1).
(1) Mt 16:18,19; Mt 18:15-18.
84. Como se abre e se fecha o reino dos céus pela pregação do santo Evangelho?
R. Conforme o mandamento de Cristo, se proclama e testifica aos crentes, a todos juntos e a cada um deles, que todos os seus pecados realmente lhes são perdoados por Deus, pelo mérito de Cristo, sempre que aceitam a promessa do Evangelho com verdadeira fé. Mas a todos os incrédulos e hipócritas se proclama e testifica que a ira de Deus e a condenação permanecem sobre eles, enquanto não se converterem (1). Segundo este testemunho do Evangelho Deus julgará todos, nesta vida e na futura.
(1) Mt 16:19; Jo 20:21-23.
85. Como se fecha e se abre o reino dos céus pela disciplina cristã?
R. Conforme o mandamento de Cristo, aqueles que, com o nome de cristãos, se comportam na doutrina ou na vida como não-cristãos, são fraternalmente advertidos, repetidas vezes. Se não querem abandonar seus erros ou maldades, são denunciados à igreja e aos que, pela igreja, foram ordenados para este fim. Se não dão atenção nem a admoestação destes, não são mais admitidos aos sacramentos e, assim, excluídos da congregação de Cristo, e, pelo próprio Deus, do reino de Cristo. Eles voltam a ser recebidos como membros de Cristo e da sua igreja, quando realmente prometem e demonstram verdadeiro arrependimento (1).
(1) Mt 18:15-18; 1Co 5:3-5,11; 2Co 2:6-8; 2Ts 3:14,15; 1Tm 5:20; 2Jo :10,11.

Abre, depois fecha

Como o próprio Catecismo responde, a primeira chave do Reino é a pregação da Palavra de Deus. Nós não devemos cair no engano de que, se Deus já predestinou alguns para a salvação, nós não devemos pregar o Evangelho. Spurgeon certa vez disse que pregava o evangelho porque os eleitos não possuem listras amarelas nas costas. Ou seja, não há nenhuma identificação no eleito – o qual não ouviu o Evangelho. Devemos anunciar o Evangelho a todos e Deus, a Seu tempo, trará o eleito à Cristo. No entanto, o não eleito, ao ouvir o Evangelho, não aceitará a mensagem de salvação, pois para ele a mensagem da cruz é loucura. Porque “para estes certamente cheiro de morte para morte; mas para aqueles cheiro de vida para vida” (2Co 2.16).

Deus quer que anunciemos as boas novas em Cristo Jesus, mostrando a nossa condição espiritual diante de Deus, condição esta, sem a intercessão de Cristo, faz com que fiquemos debaixo da ira de Deus a qual será manifesta no juízo vindouro.

Fecha, depois abre

Infelizmente não é muito comum nós ouvirmos falar sobre disciplina na igreja. No entanto, o assunto é bíblico e sério. A disciplina exercida pelo governo da igreja não deve ser entendida como algo retrogrado ou desnecessário para os nossos dias. Não obstante, não devemos disciplinar sem amor, pois o próprio Catecismo diz que eles devem ser “fraternalmente advertidos”, pois não deve ser motivo de vanglória disciplinar alguém, mas deve ser algo amoroso, não só da parte do governo da igreja, como também dos irmãos da igreja à este faltoso.

Portanto, o propósito da disciplina não é castigar, mas servir de exemplo para a igreja local e de animosidade pessoal. Exemplo para a igreja, para que ela não se manche com o pecado, e animosidade ao disciplinado porque Deus corrige a quem ama (Hb 12.5-11).

Mas aqueles que insistem em pecar, incessantemente, não dando ouvido às advertências e se recusando a abandonar o pecado, são excluídos da comunhão da igreja, comprovando ser uma árvore má que só dá frutos maus.

Assim como a porta para o reino é fechada pela disciplina na igreja, também a porta é aberta novamente com alegria pela confissão do pecado e pela evidência de um verdadeiro arrependimento.

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Notas:
[1] E eu te darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus.
[2] A primeira parte (Os nossos pecados e miséria) do 1º Dia ao 4º Dia; A segunda parte (Nossa salvação) do 5º Dia ao 31º Dia; E a terceira parte (nossa gratidão) do 32º Dia ao 52º Dia do Senhor.

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Autor: Denis Monteiro
Fonte: Bereianos
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A Santa Ceia na Liturgia Cristã Reformada

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Resumo

Este artigo tem a intenção de fomentar a análise do momento apropriado para a celebração da Santa Ceia na igreja. Visa também tratar do modo incomum da celebração da Santa Ceia somente nas Escolas Bíblicas Dominicais, mostrando seus prejuízos aos membros, à igreja local e à proclamação do Evangelho aos visitantes da igreja. Por razão de não ser este modo claramente fiel ao que a História da Igreja nos mostra, também quanto às doutrinas bíblicas e teológicas reformadas, quanto a nossa Constituição Presbiteriana, nossos Princípios de Liturgia, Confissão de Fé (CFW), Catecismo Maior e Breve Catecismo etc., busco levar a liderança da igreja a uma análise mais aprofundada do tema, demonstrando que a Ceia deve estar presente em Culto Solene a Deus, sendo esta a correta ocasião para sua celebração, assim como o Sacramento do Batismo.

1. Introdução

Do Culto Religioso:

[...]“A leitura das Escrituras com o temor divino, a sã pregação da palavra e a consciente atenção a ela, em obediência a Deus, com inteligência, fé e reverência; o cantar salmos, com graças no coração, bem como a devida administração e digna recepção dos sacramentos instituídos por Cristo - são partes do culto comum oferecido a Deus, além dos juramentos religiosos; votos, jejuns solenes e ações de graças em ocasiões especiais, tudo o que, em seus vários tempos e ocasiões próprias, devem ser usados de um modo santo e religioso.”[2]

A Santa Ceia é uma parte importantíssima do culto cristão e é tido pelas igrejas reformadas como sendo um dos dois Sacramentos da igreja. Deste modo, ele é vital na doutrina cristã. Temos visto isso desde os tempos da reforma protestante com as grandes controvérsias, debates e confissões que têm sido desenvolvidas quanto a eucaristia. Por sua centralidade, não podemos deixar de lado tão grande doutrina na Igreja, e lidar com ela de modo impróprio no culto a Deus.

O Culto a Deus não é uma inovação, como muitas igrejas contemporâneas tem o tratado, modificando sua liturgia de acordo com suas vontades e concupiscências para agradar o maior número possível de pessoas. Deus mesmo é quem instituiu como deve ser feito o Culto e Adoração a Ele, não só no período neotestamentário, mas desde a Igreja no Éden[3]. As inovações e mudanças da ortodoxia da liturgia na Igreja devem ser fundamentadas profundamente na palavra de Deus, pois é a Deus que rendemos culto. Assim sendo, devemos tomar muito cuidado com as inovações que têm tomado lugar quanto a celebração da Ceia nos cultos de diversas igrejas no Brasil.

2. Memória do Sacrifício no Culto

O culto, como instituído por Deus, é memória do sacrifício vicário de Cristo, e nele o momento oportuno de louvor e adoração. Os sacrifícios no Antigo Testamento foram devidamente regulados por Deus na Antiga Aliança, assim como o é na Nova, em Cristo, sendo Jesus o verdadeiro e único sacrifício por nossos pecados. Seu corpo e sangue, na Santa Ceia do Senhor, como representação ou sinal, é parte integrante do Culto Solene a Deus e explícito nos Princípios de Liturgia da IPB:

O sacrifício no culto. Sem sacrifício não havia culto em Israel. O mesmo acontece com a Igreja e nela: A ideia de que o povo de Deus é fruto do sacrifício vicário de Cristo tem de, necessariamente, estar presente na liturgia comunitária, não somente na celebração da Santa Ceia, mas no culto em geral, mesmo quando não houver o ritual eucarístico. O culto existe porque, pelo derramamento de seu sangue expiador, o Cordeiro rasgou o véu do velho templo, dando acesso a todos os seus eleitos resgatados ao Santo dos santos, isto é, à adoração direta, sem intermediação, de seu augusto e inefável nome. Em nenhuma reunião cúltica autenticamente cristã o adorador pode olvidar a presença do efeito eficaz da imolação do Cordeiro imaculado em seu lugar e, como resultado desse reconhecimento, confessar os seus pecados. Culto sem contrição e confissão é incompleto e ineficaz como meio da graça. [...] [4]

Deste modo, a celebração da Ceia do Senhor não pode ser feita sem que seja em forma de Culto Solene a Deus, separando os elementos do vinho e do pão do uso comum, como comida ordinária, para o uso sagrado em Culto ao Senhor, em memória de Cristo e anunciando sua morte até que Ele volte:

“Nesta ordenança o Senhor Jesus constituiu seus ministros para declarar ao povo a sua palavra de instituição, orar, abençoar os elementos, pão e vinho, e assim separá-los do comum para um uso sagrado, tomar e partir o pão, tomar o cálice dele participando também e dar ambos os elementos aos comungantes e tão somente aos que se acharem presentes na congregação. Ref. Mar. 14:22-24; At. 20:7; I Cor. 11:20.”[5]

Assim sendo, a Santa Ceia deve ser um momento solene e sagrado, tendo sua devida explicação e compreensão daqueles que estão participando da mesa do Senhor. O pão e vinho não podem ser mal compreendidos, por exemplo, como sendo fisicamente o corpo e sangue de Cristo, como é feito na Igreja Romana. Tendo nosso país uma maioria Católica Romana, esta heresia é muito comum entre o povo, e se não for devidamente explicada e extirpada, leva a condenação divina e a contaminação da igreja de Deus. Do mesmo modo, a banalização da Santa Ceia é também condenável. Quando este Sacramento toma parte em ocasião qualquer sem a devida solenidade, ou tendo-a em pouca frequência, concedendo a Ceia do Senhor ao povo sem o devido culto a Deus, ou sem o devido caráter sagrado do sacramento, sem a compreensão de todo o seu caráter especial, também não é desejável na igreja.

Em nosso Culto a Deus na IPB, temos elementos que são essenciais e devem estar sempre presentes, como nos mostra os Princípios de Liturgia e o Catecismo Maior de Westminster. Entre eles está claramente delineado a presença “essencial” da Santa Ceia no Culto a Deus:

Elementos do culto. O culto tem elementos essenciais, estruturais, e constitutivos.
Elementos essenciais: A) - Palavra de Deus: lida e proclamada com autenticidade e fidelidade. B) - Oração comunitária, [...] C) - Santa Ceia, celebrada conforme instituída por Cristo Jesus, sem acréscimos e sem inovações. [...]” [6]
“P. 108. Quais são os deveres exigidos no segundo mandamento? R. Os deveres exigidos no segundo mandamento são - o receber, observar e guardar, puros e inalterados, todo o culto e todas as ordenanças religiosas que Deus instituiu na sua Palavra, especialmente a oração e ações de graças em nome de Cristo; a leitura, a prédica, e o ouvir da Palavra; a administração e a recepção dos sacramentos; [...]” [7]

Assim, o Culto Solene, como sacrifício agradável a Deus, tem como parte essencial e integrante a Santa Ceia, a qual deve ser celebrada com toda reverencia no Culto, e somente extraordinariamente em outras reuniões:

“Resumo: Todo culto deve conter basicamente:
[...] c - Sacrifício, memorizado e recapitulado cerimonialmente na Santa Ceia. [...]” [8]


3. A Importância da Ceia do Senhor

A Santa Ceia. A Santa Ceia deve ser celebrada com simplicidade, mas reverência. Ao pastor compete levar a Igreja a um estado de contrição e introspecção, para que haja ambiente propício ao pleno entendimento do seu conteúdo e significado. O ritual da Ceia do Senhor emana da sua instituição por Jesus Cristo, conforme narrada nos evangelhos. Nada de inovação, de querer “melhorar” o que o divino Mestre deixou em atos e termos claríssimos. O pão previamente partido e o vinho distribuído em cálices individuais, atendendo às necessidades atuais de higiene e praticidade, não devem levar a Igreja ao entendimento de que a Ceia de Cristo seja individualizada. Ela é uma “refeição espiritual comunitária” tanto quanto sua antecessora, a Páscoa, o foi: uma comunhão da família de Cristo. No contexto da comunidade ou corpo de Cristo, cada comungante recebe das mãos de um presbítero o pão, deglutindo-o reflexiva e reverentemente, com a mente voltada para o Calvário, onde Cristo foi sacrificado por ele. O mesmo fazendo com o cálice, contendo o vinho, ingerindo-o com o pensamento voltado para o pacto da graça, realizado pelo Cordeiro mediante o derramamento de seu sangue.” [9]

A importância a Santa Ceia é indiscutível em todo o cristianismo e presente em toda sua história, e principalmente em nossa igreja. Mas seu significado para cada membro e visitante da igreja é muitas vezes superestimado.

A Ceia do Senhor tem grande significado e importância, como vimos, não sendo simples sua compreensão. Dada sua grande importância espiritual para cada participante da mesa, não se pode esquecer da grande oportunidade de, por meio da pregação da Palavra e da explicação do sacramento, declarar e expor detalhadamente o caráter e doutrinas presentes neste sacramento. Como por exemplo a morte de Cristo; o novo pacto em Seu sangue; os beneficiários desta expiação; a nova aliança; a operação do Espirito Santo sobre os crentes para sua salvação. Todas estas doutrinas são importantíssimas e vitais ao crente e inerentes à este sacramento, e devem ser pregadas, não só para os que participam da mesa do Senhor, (para que não participem indignamente), mas também para os não-crentes e visitantes. Assim neste sacramento pastor tem ocasião oportuna e devida de pregar o evangelho em sua completude.

Vemos também que por meio dos Sacramentos, o Senhor Jesus nos deixou novas leis cerimoniais que substituem antigas leis para a Igreja de Cristo. Eles são símbolos valiosos que exteriormente mostram os que são da família da fé e também anunciam a fé em Cristo Jesus e sua morte até Ele volte. Assim sendo, todos estes símbolos servem não somente à Igreja de Cristo, mas também ao mundo todo, à todas as pessoas, como testemunho. Assim sendo eles não devem ser celebrados em secreto, vetando a presença de pessoas de fora, (a não ser em caso de perseguição que impossibilitem sua realização), mas antes devem ser meios da pregação do Evangelho de Cristo ao mundo. Sua importância é evidente e declarada em nosso Princípio de Liturgia quanto a Santa Ceia:

Importância da Santa Ceia. A Ceia do Senhor é um poderoso “meio de graça”, quando entendida e avaliada corretamente. Ela representa, rememora ou revive os dois fundamentos mais importantes da fé cristã: A morte vicária de Cristo (o pão partido), e o novo pacto selado pelo imaculado sangue do Cordeiro (o cálice de vinho). Quem é beneficiário da expiação e da nova aliança tem de, necessariamente, estar à Mesa do Senhor, não por imposição do Conselho, mas por impulso do Espírito Santo. Deus não afasta da Mesa Eucarística o verdadeiro crente, pois a sua “alimentação espiritual” é imprescindível ao crescimento na fé e na graça.” [10]

Fica clara a importância da Ceia do Senhor na vida dos crentes, e como é essencial para o conselho assegurar que ninguém seja omitido neste Sacramento. É aconselhado que a Ceia esteja disponível aos enfermos e idosos, levando da Ceia celebrada no Culto anterior a eles.


3.1. A Solenidade da Ceia e do Culto

Na distribuição da Santa Ceia é necessária solenidade, que aqui é relacionada diretamente a própria solenidade do Culto a Deus. Sem a necessária solenidade, perde-se facilmente o foco da importância da Santa Ceia, o que incorre necessariamente em uma possível banalização do Sacramento, que deve rigorosamente ser evitado. Para isso se requer a exortação pastoral, que está presente no Culto a Deus pela pregação da Palavra, e em seguida havendo a distribuição solene dos elementos da Ceia, de modo que não faça perder o grande valor teológico e significativo deste Sacramento, como fica claro na Constituição da IPB:

Distribuição da Ceia. Um dos momentos mais sublimes e de maior visibilidade do Presbítero é o da distribuição da Santa Ceia. O pastor ministra e o presbítero distribui, devendo cumprir tal ato ministerial com solenidade, reverência, dignidade e respeito. A Igreja precisa sentir o valor teológico, o peso significativo e o sentido místico da eucaristia.” [11]

3.2. Participação na Ceia do Senhor

“Art. 14 - O Conselho deve cuidar de que os membros professos da Igreja não se ausentem da Mesa do Senhor e velar para que não participem dela os que se encontram sob disciplina.” [12]

Neste artigo 14 do Princípio de Liturgia da IPB, vemos que o Conselho deve assegurar que os membros em plena comunhão não se ausentem da Ceia do Senhor. Fica também implícito que o conselho não pode dificultar ou negar esse Sacramento aos membros professos e que não estão sob disciplina e que tem comunhão no Culto Solene a Deus. Deste modo, um possível argumento de tentar usar a Santa Ceia como meio de “coagir” os membros a participarem de reuniões (EBD), que não o próprio Culto Solene[13] a Deus na Igreja, não é correto. Esta ação acaba sendo puramente pragmática, não tendo base bíblica, teológica, nem mesmo em nossa Constituição, Princípio de Liturgia e Símbolos de fé da IPB, mas aparentemente visaria somente números, prejudicando a devida celebração do Sacramento.


Em nosso Catecismo temos as exigências para que um crente participe da mesa da Ceia do Senhor, e o modo que ele deve ser celebrado. Também nos mostra a importância da correta administração do Sacramento e da necessidade da exposição da Palavra de Deus quanto às implicações da Ceia. Tendo em vista a vastidão das doutrinas presentes nela e a compreensão dos ouvintes, não se pode negligenciar a ponto de que a Ceia e as doutrinas não sejam Pregadas Expositivamente pelo Ministro do Evangelho pelo menos na ocasião de sua celebração, uma vez ao mês, educando assim o povo de Deus e evitando que a Ceia seja tomada indignamente:

“P. 97. Que se exige para participar dignamente da Ceia do Senhor?
R. Exige-se daqueles que desejam participar dignamente da Ceia do Senhor que se examine sobre o seu conhecimento em discernir o corpo do Senhor, sobre a sua fé para se alimentarem dele, sobre o seu arrependimento, amor e nova obediência; para não suceder que, vindo indignamente, comam e bebam para si a condenação. Ref. 1Co 11.27; 31-32; Rm 6.17-18.”[14]

Já quanto aos visitantes, e quanto ao argumento de que eles possivelmente não podem participar da Ceia do Senhor, tendo no Brasil várias seitas que doutrinariamente diferem de nossa igreja, o pastor deve ser prudente em oferecer a estes a Ceia, mas de forma alguma significa que o pastor ou o conselho deva evitar que a Santa Ceia seja celebrada no Culto Solene, (pensando haver no culto alguns visitantes não-crentes, o que não é caso comum na EBD), simplesmente pela presença de visitantes. O Santa Ceia deve sim ser celebrada no Culto Solene; e o pastor deve levar a igreja a um estado de contrição e introspecção, para que assim não incorra o pastor, a igreja e os visitantes em pecado. Não por meio da limitação da Ceia do Senhor para que ocorra somente na EBD:

Ceia a visitantes. Diante da promiscuidade de seitas supostamente evangélicas, o mais prudente é o pastor não oferecer a Ceia a visitantes de outras igrejas, para não correr o risco da oferta a indignos, que não saibam distinguir o verdadeiro significado comunitário e espiritual, não apenas ritual, da Ceia do Senhor. Além do mais, a Ceia é comunitária, não individual. Visitante, embora membro de outra denominação, não se integra na comunidade, não se arrola na família comungante específica. ‘Plena comunhão’ em outra denominação, qualquer delas com divergências doutrinárias com a nossa, não equivale à ‘plena comunhão’ na Igreja Presbiteriana do Brasil. Se o visitante estender a mão, apropriando-se da Ceia, a responsabilidade é dele, não do ministro oficiante ou do presbítero distribuidor. Se o faz indignamente, responderá por sua indignidade, segundo 1 Co 11. 27-29).” [15]

4. As Origens da EBD


A EBD é uma inovação da Igreja Protestante, não tendo sido parte da vida da Igreja por mais de 17 séculos. [16] Sua função principal é educar o povo e em seus primórdios tinha intenção de ensinar crianças a ler e escrever junto com instruções bíblicas. No modelo atual, há somente a intenção de preparar os neófitos no conhecimento das verdades bíblicas, tanto doutrinárias como teológicas, para que possam conhecer a Deus por meio das Escrituras, e estarem aptos para fazerem a boa confissão de fé, pura e verdadeira, e para adorarem a Deus de modo aceitável.

Em tudo isto podemos ver uma boa atitude da igreja, buscando educar o povo para serem fieis e sãos na fé ortodoxa. Mas fica claro também que a EBD de forma alguma substitui o Culto Solene a Deus ou pode ser igualado a ele, pois os dois têm funções totalmente diferentes. Assim sendo, uma pessoa não pode deixar de ter comunhão no Culto Solene tendo em vistas que participou da EBD anteriormente. Antes, deve participar do Culto Solene pois participou também da EBD, e entendeu a importância do Culto a Deus. O que as Escrituras claramente nos ensinam é a importância do Culto Solene a Deus, em comunhão com os santos, para louvor e adoração a Deus, proclamação da Palavra de Deus e seus Sacramentos.

Rev. Alderi Souza de Matos deixa muito claro as origens da EBD, seu foco principal inicial, tirando qualquer dúvida de que a EBD tenha a mesma importância solene do Culto a Deus ou que possa ser tida como meio principal de celebração da Santa Ceia:

“A moderna instituição conhecida como “escola dominical” teve como seu principal fundador o jornalista inglês Robert Raikes (1735-1811). Ele era natural da cidade de Gloucester e em 1757, aos vinte e dois anos, sucedeu o pai como editor do Gloucester Journal, um periódico voltado para a reforma das prisões. Nessa época, estava ocorrendo na Inglaterra o extraordinário avivamento evangélico, com sua forte ênfase social. Inspirado por outras pessoas, Raikes iniciou uma escola em sua paróquia em 1780. Ele ensinava crianças pobres de 6 a 14 anos a ler e escrever e dava-lhes instrução bíblica. [...]”. “Os primeiros dirigentes em geral eram leigos e líderes comunitários; o texto usado era a Bíblia e as matérias incluíam leitura, redação e valores cívicos e morais. Essas escolas dominicais prepararam o caminho para a criação de escolas públicas. [...]”. “A partir de 1800, os propósitos das escolas dominicais americanas passaram a ser instrução e evangelismo; elas transmitiam valores cristãos e o espírito democrático da nova nação. Era um trabalho não-denominacional ou, como se dizia na época, uma “associação voluntária”, reunindo pessoas de diferentes igrejas. [...]”. “Um evento comum em muitas igrejas presbiterianas brasileiras nas primeiras décadas do século 20 era o ‘Dia do rumo à escola dominical’, quando se fazia um esforço especial para trazer um grande número de visitantes. [...]” [17]

5. Conclusão – Momento Apropriado para Celebração da Santa Ceia


Depois de tudo isso, não se pode ver qualquer outra razão para a celebração da Santa Ceia do Senhor, se não em caráter extraordinário, em reuniões, EBDs etc., que não no próprio Culto Solene a Deus. Ocasião esta a mais correta para a sua celebração, pois a Ceia é parte integrante do Culto a Deus.

Assim, argumentos que sejam somente pragmáticos, que visem somente obter resultados numéricos em reuniões na igreja, ou somente motivados pelo número de presentes na Escola Bíblica, ou mesmo para fazer com que os crentes participem mais das atividades, não pode de forma alguma ocorrer por meio de coação, principalmente usando-se do Sacramento da Santa Ceia.

A igreja não pode se deixar seduzir, buscando inovações e métodos pragmáticos, comuns em muitas igrejas evangélicas, para obter seus resultados. O resultado vem de Deus; cabe a nós sermos fieis a Deus e à Sua obra. Pois como é óbvio a todos nós que estamos em Cristo, não se pode haver coação pragmática sobre os membros da igreja em nenhum sentido, mas antes oração e o convencimento do coração dos crentes que vem como obra do próprio Espirito Santo, operando também pela pregação do evangelho e pela admoestação. Além disso, nosso Princípio de Liturgia também deixa bem definida a ocasião correta para a celebração da Santa Ceia:

Quando celebrar. O Conselho determinará um domingo fixo do mês para a celebração da Ceia do Senhor, que tanto pode ser no culto público matinal como no vespertino. Algumas igrejas das grandes metrópoles celebram-na duas vezes por mês, uma de manhã e outra à noite, porque muitos irmãos, que podem frequentar os cultos matinais, não podem estar presentes nos vespertinos.”[18]

Logo, a Ceia do Senhor deve ser parte integrante do Culto Solene, não só por seu simbolismo e espiritualidade; sua solenidade, sacralidade e importância; mas também por ela ser inseparável do Culto a Deus, símbolo da morte vicária de Cristo, que nos deu vida, e um poderoso “meio de graça”[19] ao povo de Deus, (assim como para os visitantes, que não tomando parte na mesa, ainda assim podem ver Cristo neste Sacramento), pois em Cristo nos tornamos aptos a render Culto que agrade a Deus.


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Bibliografia:
• SANTOS, Daniel. A Plantação da Igreja no Éden, FIDES REFORMATA, v. XIX, No. 1, p. 49, Editora Mackenzie, 2014.
Confissão de Fé de Westminster, Cap. XXVIII, parágrafo III., Capítulo XXI, parágrafo V.
Catecismo Maior de Westminster, pergunta 108.
• Catecismo Breve de Westminster, pergunta 97.
• IPB, Constituição da Igreja Presbiteriana do Brasil, p. 40, Art. 31, a)., p. 71, Art. 54, a).
• IPB, Princípios de Liturgia, Cap. 7, Art. 14., Art. 17., Art. 13, Cap. 3 (Culto Público) Art. 8, p. 
• 165., Apêndice (Praticas Ministeriais), Pastoreio da Igreja, XV. 15.
• Sunday School, Autor: Anônimo. Disponível em:
<http://en.wikipedia.org/wiki/Sunday_school>. Acessado em: 9 de dez. 2014.
• Pequena História da Escola Dominical. Autor: Rev. Alderi Souza de Matos. 
Disponível em: <http://www.mackenzie.br/6980.html>. Acesso em: 30 de nov. 2014.

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Notas:
[1] Escola Bíblica Dominical, o mesmo para todas as outras siglas EBD.
[2] Confissão de Fé de Westminster, Capítulo XXI, V. (Ênfase minha)
[3] Cf. SANTOS, Daniel. A Plantação da Igreja no Éden, FIDES REFORMATA, v. XIX, No. 1, p. 49, Editora Mackenzie, 2014.
[4] IPB, Princípios de Liturgia, Cap. 3 (Culto Público) Art. 8, p. 165.
[5] Confissão de Fé de Westminster, Cap. 28, parágrafo III. (Ênfase minha)
[6] IPB, Princípios de Liturgia, Cap. 3 (Culto Público) Art. 8, p. 165. (Ênfase minha)
[7] Catecismo Maior de Westminster, pergunta 108.
[8] IPB, Princípios de Liturgia, Apêndice (Praticas Ministeriais), Pastoreio da Igreja, XV. 15.
[9] IPB, Constituição da Igreja Presbiteriana do Brasil, p. 40, Art. 31, a).
[10] IPB, Princípios de Liturgia, Cap. 7, Art. 13, p. 174.
[11] IPB, Constituição da Igreja Presbiteriana do Brasil, p. 71, Art. 54, a).
[12] IPB, Princípios de Liturgia, Cap. 7, Art. 14.
[13] IPB, Princípios de Liturgia, p. 175, Art. 17.
[14] Catecismo Breve de Westminster, pergunta 97.
[15] IPB, Princípios de Liturgia, Cap. 7, Art. 13, p. 175
[16] Sunday School, Autor: Anônimo. Disponível em:
<http://en.wikipedia.org/wiki/Sunday_school>. Acessado em: 9 de dez. 2014.
[17] Pequena História da Escola Dominical. Autor: Rev. Alderi Souza de Matos. Disponível em: <http://www.mackenzie.br/6980.html>. Acesso em: 30 de nov. 2014.
[18] IPB, Princípios de Liturgia, p. 175, Art. 17.
[19] IPB, Princípios de Liturgia, Cap. 7, Art. 13, p. 174.

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Autor: Bruno Luiz Silva Rodrighero é Seminarista pela Igreja Presbiteriana do Brasil, no Seminário Presbiteriano Brasil Central – Extensão Rondônia. Está cursando seu segundo ano e faz estágio na 2ª IPB de Ji-Paraná, RO.
Divulgação: Bereianos
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