Os perigos de uma igreja que não te disciplina

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Disciplina eclesiástica (Mateus 18.15-20) é muitas vezes confusa, custosa e danosa. Quando um crente tem de ser publicamente afastado da igreja local, a dor sentida costuma ser inigualável.

Ainda assim, quando praticada biblicamente, ela é biblicamente consistente com o amor, o cuidado, e a obediência bíblica a Cristo. Mark Dever acertadamente afirmou que a disciplina eclesiástica é “um amoroso, provocativo, atrativo, distinto, respeitoso e gracioso ato de obediência e misericórdia, e ajuda a construir uma igreja que traz a glória de Deus”. Nessa mesma linha, um amigo meu foi biblicamente disciplinado para fora de uma grande igreja, e, até os dias de hoje, admite que isso foi uma das melhores coisas que já aconteceu com ele. Mas, mais importante, isso é uma questão não negociável no tipo de Igreja que Deus deseja.

Porque membresia é importante

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“Por que se preocupar com a membresia da igreja?”

Já me fizeram essa pergunta antes. Às vezes, ela é feita com uma genuína curiosidade: “Explique-me o que ser membro significa”. Outras vezes, ela é feita com um quê de suspeita: “então, diga-me, mais uma vez, porque eu devo me tornar um membro” – como se fazer parte da igreja colocasse a pessoa automaticamente na lista de dízimos por débito automático.

Para muitos cristãos, membresia soa como algo rígido, algo que você tem em um banco ou em um clube de campo, mas que é formal demais para a igreja. Mesmo quando se aceita que o Cristianismo não é uma religião solitária e que nós precisamos de uma comunidade e de comunhão com outros cristãos, nós, ainda assim, receamos nos tornar oficialmente parte de uma igreja. Para que isso? Por que encaixotar o Espírito Santo em categorias de membro/não membro? Por que se dar ao trabalho de pertencer a uma igreja local quando eu já sou membro da Igreja universal?

Alguns cristãos – por causa da tradição da igreja ou da bagagem que possuem – podem não ser convencidos sobre a membresia, não importa quantas vezes a palavra “membro” apareça no Novo Testamento. Mas muitos outros estão abertos a ouvir sobre algo que eles não conhecem direito.

Aqui vão algumas razões pela qual a membresia importa.

1. Ao fazer parte de uma igreja, você demonstra visivelmente seu compromisso com Cristo e com seu povo

Membresia é uma das formas de se levantar a bandeira da fé. Você assume perante Deus e os outros que você é parte desse corpo local de crentes. É fácil falar em termos quentinhos sobre a igreja invisível – o corpo de crentes que estão perto ou longe, vivos ou mortos –, mas é na igreja visível que Deus espera que você viva a sua fé.

Às vezes eu acho que nós não ficaríamos clamando por viver em comunidade se já tivéssemos realmente experimentado passar por isso. A verdadeira comunhão é algo difícil, pois temos de lidar com pessoas muito parecidas conosco: egoístas, mesquinhas e orgulhosas. Mas é para esse corpo que Deus nos chama.

Quantas cartas Paulo escreveu para apenas uma pessoa? Apenas um punhado, as quais, em sua maioria, foram voltadas para pastores. A maior parte de suas epístolas foram escritas a um corpo local de crentes. Nós vemos a mesma coisa em Apocalipse. Jesus falou com congregações individuais, como a de Esmirna, Sardes e Laodicéia. No Novo Testamento, não há cristãos flutuando na terra do “só eu e Jesus”. Crentes pertencem a igrejas.

2. Fazer um compromisso é uma declaração poderosa, em uma cultura de poucos compromissos

Muitas ligas de boliche exigem mais de seus membros do que a igreja. Onde isso é algo real, então a igreja é um triste reflexo da sua cultura. A nossa cultura consumista faz com que tudo seja feito com o fim de atender as nossas preferências. Quando essas necessidades não são atendidas, nós sempre podemos experimentar um outro produto, trabalho ou esposa.

Juntar-se a uma igreja, nesse tipo de ambiente, é uma afirmação contracultural. É dizer: “estou comprometido com esse grupo de pessoas e eles estão comprometidos comigo. Estou aqui mais para dar do que para receber”.

Mesmo que você vá ficar na cidade por apenas alguns anos, não é uma má ideia participar de uma igreja. Isso faz com que a sua igreja de origem (se você está estudando longe de casa, por exemplo) saiba que você está sendo cuidado e faz com que a sua igreja atual saiba que você quer ser cuidado por ela.

Mas a questão não é apenas sobre ser cuidado, é sobre fazer uma decisão e ser fiel a ela – algo que a minha geração, com a sua variedade de opções, acha difícil. Nós preferimos namorar a igreja – tê-la por perto em eventos especiais, chamá-la para sair quando nos sentimos sozinhos ou mantê-la por perto em dias chuvosos. A membresia é a única forma de parar de namorar igrejas e se casar com uma.

3. Nós podemos ser excessivamente independentes

No ocidente, isso é uma das melhores e piores coisas sobre nós. Nós somos livres e pensadores críticos. Nós temos uma ideia, e corremos em direção a ela. Mas quem está correndo conosco? E será que estamos todos correndo na mesma direção? A membresia afirma formalmente: “eu sou parte de algo maior do que eu. Eu não sou apenas um dentre três mil indivíduos. Eu sou parte de um corpo”.

4. A membresia nos coloca sob supervisão

Quando participamos de uma igreja, estamos nos oferecendo uns aos outros para sermos encorajados, repreendidos, corrigidos e servidos. Estamos nos colocando sob líderes e nos submetendo a sua autoridade (Hebreus 13.7). Estamos dizendo: “Estou aqui para ficar. Eu quero ajudá-lo a crescer em santidade. Você me ajuda a fazer o mesmo?”.

Mark Dever, no livro Nove Marcas de uma Igreja Saudável (Editora Fiel, páginas 12 e 13), escreve:

Identificando-nos com uma igreja particular, permitimos que os pastores e demais membros daquela igreja local saibam que nós pretendemos manter um compromisso na frequência, na oferta, na oração e no serviço. Nós ampliamos as expectativas de outros em relação a nós mesmos nessas áreas, e tornamos claro que estamos sob a responsabilidade desta igreja local. Nós asseguramos a igreja quanto ao nosso compromisso com Cristo ao servir com eles, e pedimos o compromisso deles quanto a nos servir em amor e nos encorajar em nosso discipulado.

5. Juntar-se à igreja ajudará seu pastor e os seus presbíteros a serem pastores fiéis

Hebreus 13.7 diz: “Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles”. Essa é a sua parte como “leigo”. E essa é a nossa parte como líderes: “pois velam por vossa alma, como quem deve prestar contas”. Como pastor, eu levo muito a sério minha responsabilidade perante Deus de cuidar das almas. Em quase todas as reuniões de presbíteros o Manual de Instruções das Igrejas Reformadas da América RCA Book of Church Order – nos orienta a “procurar descobrir se qualquer membro da congregação está em necessidade de cuidados especiais em relação a sua condição espiritual e/ou não tem feito o uso adequado dos meios de graça”. Isso já é algo bem difícil de se fazer em uma igreja como a nossa, onde há uma constante rotatividade. Mas é ainda mais difícil quando nós não sabemos quem realmente é parte desse rebanho.

6. Juntar-se à igreja lhe dá a oportunidade de fazer promessas

Quando alguém se torna membro da University Reformed Church, a igreja que eu pastoreio, ele promete orar, ofertar, servir, comparecer aos cultos, aceitar a liderança espiritual da igreja, obedecer aos ensinamentos e procurar as coisas que trazem unidade, pureza e paz. Nós não devemos fazer essas promessas de qualquer jeito. Elas são votos solenes. E nós devemos ajudar uns aos outros a nos mantermos fiéis a elas. Se você não faz parte de uma igreja, você perde a oportunidade de fazer essas promessas publicamente, convidando os presbíteros e o resto do corpo a ajudarem você a se manter firme nessas promessas. Isso fará com que você, seus líderes e toda a igreja percam grande benefícios espirituais.

Membresia é mais importante do que muita gente pensa. Se você realmente quer ser um revolucionário contracultural, aliste-se em uma classe de membresia, encontre-se com seus presbíteros e junte-se a uma igreja local.

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Autor: Rev. Kevin DeYoung
Fonte: The Gospel Coalition
Tradução: Victor Bimbato
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Imunidade tributária para os templos: taxação ou supressão?

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Da recente controvérsia

Conforme o artigo 150, VI, “b”, da Constituição Federal de 1988, “é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: instituir impostos sobre: templos de qualquer culto”. No mesmo dispositivo, em seu parágrafo 4º, é disposto que tal imunidade compreende “somente o patrimônio, a renda e os serviços, relacionados com as finalidades essenciais das entidades nelas mencionadas”.

A expressão “templos”, interpretada lato sensu, indica Igrejas, conventos, Seminários, veículos para atividades eclesiásticas, anexos, etc, da religião cristã e de outras. Já “patrimônio” aponta para rendas e serviços aplicados finalisticamente ao templo.

O motivo, em tese, é que, como aponta Pimenta (2017), “as religiões podem ser consideradas como de interesse social e que, na qualidade de organizações sem fins lucrativos e que, teoricamente, não comercializam produtos ou vendem serviços”.

Em sentido contrário, em 2015, por meio de uma Sugestão Popular (SUG 2/2015), a Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (ATEA) defende que, como o Estado é laico, não é razoável que se dê imunidade tributária a entidades religiosas. Outro problema apontado é que os escândalos financeiros que líderes religiosos protagonizam levam adiante a ideia de se banir a Imunidade Tributária.

Desse modo, dizem os defensores da SUG 2/2015, como os líderes enriquecem, é preciso que haja tributação. Ainda pontua que “quando certos líderes religiosos abusam do conceito de liberdade religiosa, exigindo mais e mais dinheiro dos fiéis para enriquecimento próprio, isso mostra que o único combate que deve ser feito é o do bolso”.

A matéria em pauta aguarda um parecer da Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH), tendo, até o momento, recebido mais de 279 mil votos, aproximadamente 141 mil votos a favor e 138 mil contrários, no site Consulta Pública, do portal e-Cidadania do Senado.

Do papel social das Igrejas

A referida Sugestão Popular (SUG 2/2015) coloca que “do ponto de vista do Estado, a igreja deve ser vista como uma empresa como outra qualquer, que luta com os concorrentes (...) para obter o maior número de clientes (fiéis) e, com isso, ter a maior receita”.

Essa acusação pode, de fato, ser aplicada em alguns casos, mas não a todos. As Igrejas e templos em geral prestam um serviço social notável, tanto assistencialmente quanto na formação e recuperação psicológica de milhares de pessoas. Não é difícil encontrar, em tais instituições, pessoas socialmente reabilitadas. Nem o Estado nem as ONG’s, historicamente, recuperam pessoas como os templos religiosos o fazem.

Essa discriminação é desconhecedora da ampla realidade religiosa do país. Por exemplo, a SUG 2/2015 argumenta que “as igrejas não podem ser consideradas associações não lucrativas”, pois, conforme o texto dirá, quer “monopolizar a crença”.

Mas quem determina ou julga isso? Na verdade, esses juízos desconsideram o papel histórico que os templos têm no país. Religiosos lutaram por liberdade de expressão, de crença, de culto, de limitação estatal, e são parte essencial da tradição nacional. Todas as instituições podem vir a manipular crenças, mas não cabe ao Estado determinar o conteúdo que cada instituição pode pregar e as pessoas acreditarem.

Desse modo, o papel social dos templos é histórico, cultural e tradicional. A permissividade dada a qualquer governo de taxar, limitar, e suprimir a atuação das entidades religiosas pode acarretar dificuldades financeiras e extinguir instituições que são memórias vivas da sociedade.

Isenção tributária?


Muitas pessoas argumentam que os templos não deveriam ter imunidade tributária, mas sim isenção. Silva Junior (2014) diferencia os institutos: “Imunidade é a proibição constitucional propostas às entidades políticas que detêm a competência tributária, de tributar determinadas pessoas (...) Já a isenção, não é a vedação, mas sim a dispensa legal do pagamento do tributo”. Ou seja, enquanto o primeiro conceito está ligado a uma vedação feita pela Constituição, o segundo pode ser previsto em lei infraconstitucional. Além disso, com a imunidade tributária não há incidência de imposto, mas com a isenção gera-se o imposto e, por previsão legal, seu crédito é excluído.

Pois bem, essa diferenciação é de vital importância. Se os templos passassem a ter isenção tributária, determinados grupos religiosos, especialmente os majoritários que têm mais apelo político, poderiam atuar pressionando por leis infraconstitucionais que assegurassem a isenção para seus templos. Consequentemente, os grupos minoritários seriam, de pronto, prejudicados devido à taxação.

Além disso, é preciso que se perceba que os contribuintes de templos já têm suas rendas tributadas, por exemplo, o Imposto de Renda. Como são as entradas de contribuições que sustentam essas instituições, “bitributar” – cobrando impostos dos templos sobre os mesmos montantes doados e já tributados – é inconstitucional.

Das Garantias Constitucionais

A liberdade de culto é uma extensão de outros mandamentos da Constituição, como a liberdade de crença e expressão. Com isso, a garantia de imunidade tributária aos templos assegura o efetivo exercício desses direitos sem ingerência estatal. Em um Estado laico, há de se respeitar tais garantias. Aliás, tal configuração de Estado não adota oficialmente nenhuma religião oficial, mas não é ateu, tentando suprimir as vozes religiosas.

Com efeito, contra o controle dos opositores, deve-se preservar a imunidade tributária em equidade para todas as entidades religiosas, sem se prever privilégios para templos específicos, a fim de haver isonomia. O fim de tal instituto poderia levar a um maior desequilíbrio, visto que religiões majoritárias, com um “lobby” político mais poderoso, podem dispor de mais recursos para se sustentar e se proteger, enquanto as mais simples podem ser solapadas em não suportar tributos, caindo na ilegalidade e na clandestinidade. Não se pode nivelar por cima (templos abastados) e solapar as instituições menores.

Das diferentes esferas

Para conservação dos direitos fundamentais, é importante que se entenda que o Estado e as instituições religiosas são esferas sociais diferentes que não podem suprimir-se, um ao outro. Isto é, o Estado tem seu papel, assim como, as instituições religiosas, o seu. Cada um deve respeitar a esfera de atuação do outro.

Com efeito, não há uma teoria social no Brasil que possa discriminar as instituições que deixaram de atuar de modo religioso e filantrópico, para agirem, estritamente, como uma organização empresarial. Ora, ligar a televisão e ver pedidos de dinheiro por religiosos não pode ser uma teoria social para tal empreendimento.

Desse modo, sem a clara delimitação dos limites entre essas esferas pode ocorrer uma atuação de resistência e acirramento. O Estado, por meio da Lei Constitucional, deve continuar limitando-se em não imiscuir-se nas atividades religiosas, atuando apenas em casos de gravames sociais e de ilegalidades.

Considerações finais

Primeiramente, é preciso que se reconheça que, no Brasil, várias instituições eclesiásticas deixaram seu papel, de administração de seu culto religioso e ação social, passando a exercer um papel empresarial. Nem por isso, é recomendável que se meça todos os templos religiosos como tendo assumido essa via. Se toda instituição que deixa de exercer sua atuação precípua levasse a uma mudança legal, talvez o Congresso Nacional também precisasse ser taxado.

Para além disso, a questão principal é perceber que o Estado, por meio da taxação de templos, pode assumir uma política de supressão da liberdade religiosa, já vista em tantos países. Deve-se, então, respeitar a esfera de atuação dos entes religiosos, sendo que, em casos de gravames legais, aja-se para a normalização das relações sociais.

Não há, como em qualquer política estatal, uma solução perfeita. Mas rever a previsão constitucional no sentido contrário à imunidade tributária pode levar a um mal maior, em permitir que governos de viés antirreligioso atuem contra a tradição e cultura nacionais historicamente consolidadas. Talvez por isso, uma instituição como a Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (ATEA) tenha um interesse mais religioso do que de política de Estado.

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Referências bibliográficas:
MOREIRA, Roberta. Qual a abrangência da imunidade tributária aos templos de qualquer culto? Disponível em: https://lfg.jusbrasil.com.br/noticias/40791/qual-a-abrangencia-da-imunidade-tributaria-aos-templos-de-qualquer-culto-roberta-moreira. Acesso em 10 de agosto de 2017.
PIMENTA, Luciana. Imunidade tributária: por que igrejas são isentas de pagar impostos? 2017. Disponível em: http://www.migalhas.com.br/dePeso/16,MI254436,51045-Imunidade+tributaria+por+que+igrejas+sao+isentas+de+pagar+impostos. Acesso em 10 de agosto de 2017.
RIBEIRO, Bianca. Imunidade tributária: por que entidades religiosas não pagam impostos no brasil? 2016. Disponível em: http://www.politize.com.br/imunidade-tributaria-entidade-religiosa/. Acesso em 10 de agosto de 2017.
SILVA JUNIOR, Agenor da. Distinção entre isenção e imunidade tributária. 2014. Disponível em: http://www.oab-sc.org.br/artigos/distincao-entre-isencao-e-imunidade-tributaria/1535. Acesso em 15 de agosto de 2017.

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Sobre o autor: Anderson Barbosa Paz é seminarista do Seminário Teológico Betel Brasileiro. Bacharelando em Direito pela Universidade Federal da Paraíba. Congrega na Igreja Presbiteriana do Bairro dos Estados em João Pessoa-PB. Atua na área de Apologética Cristã, debatendo e ensinando.
Divulgação: Bereianos
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Série Credo Apostólico - Parte 8: A Santa Igreja Universal

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INTRODUÇÃO

“Creio... Na santa Igreja universal, a comunhão dos santos”.

Depois de firmar o credo na Trindade, o símbolo de fé passa então a falar da obra do Deus triúno, começando por afirmar a crença de que a Igreja é universal, palavra que passamos a usar para substituir o termo “católica”. Mas, embora muitos evangélicos torçam o nariz para a palavra, devemos reafirmar o conceito de catolicidade, algo que os próprios reformadores reafirmaram. Assim sendo, o que devemos ter em mente quando dizemos crer na Igreja católica ou universal?

O conceito de catolicidade evoca a união da igreja que transcende o tempo e a geografia. Esta Igreja por quem Cristo morreu é composta de pessoas de todos os tempos e vindas de muitos lugares distintos, vinculadas uns aos outros pelo sangue de Jesus. Nesta massa de gerações e culturas diferentes, por uma ação sobrenatural do Espírito, existe unidade, que devemos nos esforçar para preservar, como nos diz o texto sagrado:

Façam todo o esforço para conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz. Há um só corpo e um só Espírito, assim como a esperança para a qual vocês foram chamados é uma só; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos”. - Efésios 4:3-6

Outro aspecto da catolicidade - ou universalidade – da Igreja é que a sua membresia é diversificada no que diz respeito a idade, gênero e posição socioeconômica, mesmo assim, o Espírito de Cristo produz unidade na diversidade, operando em nós a fé salvífica depositada no Filho de Deus. “Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus” (Gálatas 3.28). Portanto, é de extrema importância pôr em prática este postulado do Credo, pois, a Igreja é o povo de Deus, comprado e remido por Cristo, que se ajunta solenemente em adoração ao seu SENHOR. É neste ajuntamento que Deus se manifesta, e por meio dele opera neste mundo caído.

DESIGREJADO, ISSO PODE?

Existe um movimento que está crescendo nos últimos anos. São os desigrejados, ou os “sem-igreja”. Estes saíram da Igreja por focarem nos problemas institucionais, por terem sido machucados em alguma congregação e até mesmo por nutrir uma visão romântica (e deturpada) da igreja primitiva. Eles parecem não se dar conta de que uma igreja como a que havia em Corinto também faz parte deste período, e nem por isso estava isenta de problemas.

Não devemos deixar de congregar (Hb 10:25). Como disse o teólogo Michael Horton: “A igreja não é apenas para onde vão os discípulos; é o lugar onde são feitos os discípulos”. É na convivência com pessoas diferentes – e algumas delas até não cristãs, embora pareçam ser (lembre-se da parábola do joio e do trigo), que exercitamos a ética do reino: amando o próximo, servindo-o com nossos dons, perdoando quando somos ofendidos e confessando nossos pecados uns aos outros, na disposição de sermos mentoriados. Também é na igreja que recebemos os sacramentos (batismo e ceia) e a partir deles somos identificados como o povo da aliança, desfrutando da fidelidade do Senhor, estando debaixo de suas bênçãos pactuais.

E AS DENOMINAÇÕES?

Dando uma volta a pé ou de carro pela avenida de qualquer cidade grande no Brasil, veremos mais de uma igreja, algumas quase coladas umas às outras. E cada uma portando um nome diferente. A pergunta é: o denominacionalismo não fere a catolicidade da Igreja?

Em algum sentido, as muitas denominações demonstram mais divisão do que união, e isso deve ser lamentado. Pois, as explosões de novas igrejas surgiram de questões que são secundárias (isso entre os séculos XVII e XIX), e o espírito sectário fez com que o caminho mais fácil, queé a divisão ao invés da reconciliação, promovesse esta enxurrada de igrejas distintas. Mas não advoguemos o fim das denominações. Ao invés disso, vejamos como pode ser possível manter a unidade em meio desta miscelânea de igrejas que pensam diferente em algumas questões.

VISÍVEL E INVISÍVEL

A Igreja católica, que é una, geralmente é chamada de igreja invisível. Este termo reflete a questão de que somente Deus conhece aqueles que são seus e os mantém perseverantes até o dia final. Desta igreja há gente de toda língua, tribo e nação (Ap 5.9), todos arrebanhados por Cristo, ligados uns aos outros como membros de um só corpo. Veremos esta igreja, tal como ela é, apenas no Reino dos Céus, após a volta de Cristo que vem para julgar as nações, mas também buscar a sua amada igreja para estar com ele na eternidade.

Já o que chamamos de igreja visível é esta que vemos atuando na terra. As congregações locais e as várias denominações contêm pessoas que são verdadeiramente cristãs e outras não. Lembremos da advertência de Jesus ao dizer que "Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos céus” (Mt 7:21). Na parábola do trigo e do joio, ambos crescem juntos e serão separados apenas na colheita. Quando Jesus explica a parábola, vemos que a colheita refere-se ao dia do juízo final, assim, só neste evento que serão separados os verdadeiros dos falsos membros da Igreja.

Na presente era, a igreja será imperfeita e as pessoas vão se deparar com pessoas dentro dela que nem regeneradas são. E até mesmo os cristãos, ainda em processo de santificação irão falhar nas relações interpessoais. Mas lembremos que o laço que nos une vem do SENHOR. Por isso podemos superar as nossas diferenças e, mesmo com nossas particularidades, alcançamos a unidade por estarmos debaixo do mesmo pacto.

Engraçado é que olhando para a história, vemos que todo o grupo que se levantou contra as denominações acabou criando uma nova, logo, não é a abolição do denominacionalismo que vai nos garantir unidade, mas podemos nos aproximarmos cientes de que aquilo que nos une é maior do que o que nos separa. Batistas, Presbiterianos, Anglicanos, Congregacionais, Livres e outros podem somar esforços para promover os valores cristãos que são inegociáveis, evitando que questões secundárias sirvam de empecilho para trabalharmos juntos na promoção do Reino.

BASTA DE IGREJAS SEGMENTADAS

Outra frente de batalha para manter firme a catolicidade da Igreja de Cristo é evitar segmenta-la. Recentemente, influenciados pelo modelo de mercado, muitos líderes acabam desmembrando suas igrejas, focalizando determinados nichos para tentar alavancar o número de membros. Com isso surgiram diversas igrejas que focalizam os jovens e fazem com que a sua agenda gravite em torno de muito entretenimento para seduzir o seu público alvo. Outros segmentam o que já está segmentado, e daí temos a igreja dos surfistas, dos skatistas, dos universitários, dos tatuados, dos solteiros e etc.

A Igreja é a composição de velhos e novos, ricos e pobres, homens e mulheres, com tantas diferenças que se não fosse obra divina, seria impossível de se conviver. Todavia, é assim que Deus quer que nos ajuntemos para adorá-lo. Basta de igrejas segmentadas, sejamos unidos em meio as nossas peculiaridades.

UM POVO SANTO

Um dos papéis distintivos da Igreja nesse mundo é que ela remete a santidade de Deus. A Igreja é santa e esta santidade não é propriamente nossa. Assim como a luz que faz a lua brilhar vem do sol, somos santos porque o Deus que nos arregimentou é santo. Pedro nos diz, em carta:

Vocês, porém, são geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo exclusivo de Deus, para anunciar as grandezas daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz”. - 1 Pedro 2:9

Portanto, é necessário nos portarmos de maneira digna, como requer a nossa vocação para a santidade. A Igreja precisa manter a distinção do mundo e deve perseverar para manter-se pura em meio a uma geração corrompida. A santidade aqui não significa perfeição, ela é gradativa, embora, posicionalmente, já somos santos em Cristo, pois Ele nos santificou quando nos lavou com seu sangue na cruz.

Deus em sua infinita sabedoria, fez da Igreja o local ideal para o desenvolvimento de nossa santificação. Os meios de graça, que são a pregação da Palavra mais a administração dos sacramentos, nos santificam. E na administração destes meios, o nosso Sumo Pastor separou co-pastores para servir as suas ovelhas diligentemente. É dever destes pastores inculcar nos fiéis, pela pregação e pelo exemplo, o estilo de vida santificado. Daí a importância de fazer parte de uma igreja local, se submetendo a liderança que o próprio SENHOR instituiu para dar conta da disciplina na Igreja.

CONCLUSÃO

A Igreja é o Israel de Deus, seu povo santo, que não é mais uma etnia, como na antiga aliança. As fronteiras foram enlanguescidas e não há mais a distinção entre judeus e gentios, pois dos dois povos o Senhor fez um só rebanho (Ef 2.14).

Por sermos povo, não caiamos na tentação da individualidade. A igreja é como se fosse o ecossistema de Deus. É preciso uma relação de interdependência, de modo que todo cristão individualmente precisa estar inserido numa igreja local para desenvolver a sua fé. Assim como determinados seres não se reproduziriam se não houvesse os elementos que compõem o seu ecossistema, não há desenvolvimento de fé no cristão que se exclui - por vontade própria - do ajuntamento dos santos.

O reformador João Calvino costumava dizer que a Igreja é a mãe de todos os crentes, visto que pela Palavra de Deus, ela nos conduz ao novo nascimento, nos educando e nutrindo, através no ministério pastoral ordinário. A Igreja é a coluna da verdade (1 Tm 3.15), pois por meio de seu trabalho evangelístico no mundo, chegamos a conhecer a Cristo, verdadeiro Deus e salvador dos que nele depositam sua fé.

Soli Deo Gloria

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Autor: Pr. Thiago Oliveira
Divulgação: Bereianos


Leia também:
Série Credo Apostólico - Parte 1: Um Símbolo da Fé Cristã
Série Credo Apostólico - Parte 2: Pai, Todo Poderoso, Criador
Série Credo Apostólico - Parte 3: Jesus Cristo é o Senhor
Série Credo Apostólico - Parte 4: O Redentor no Espaço-Tempo
Série Credo Apostólico - Parte 5: O Padecimento do Cristo
Série Credo Apostólico - Parte 6: A Vitória do Cristo
Série Credo Apostólico - Parte 7: O Espírito Santo em Ação
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A tolerância que Jesus não tolera

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Cristãos não devem ser tolerantes com tudo, uma vez que Deus não o é. Nós podemos respeitar opiniões diferentes e tentar entendê-las, mas não devemos afirmar incondicionalmente e sem avaliação toda crença e comportamento, por que Deus não faz isso. Nós devemos amar o que Deus ama. Foi aí que Éfeso falhou. E devemos odiar o que Deus odiou. Aí que Tiatira falhou.

Das sete cidades de Apocalipse, Tiatira é a menos conhecida, a menos impressionante e a menos importante. E, ainda assim, é a maior carta das sete. Havia muita coisa acontecendo nessa igreja – algumas ruins e outras boas.

Vamos começar com as boas. O verso 19 do capítulo 2 diz: “Conheço as tuas obras, o teu amor, a tua fé, o teu serviço, a tua perseverança e as tuas últimas obras, mais numerosas do que as primeiras”. Éfeso foi louvada por suas benfeitorias e seu forte trabalho ético. Tiatira é ainda melhor. Ela tinha os mesmos feitos que Éfeso teve e o amor que faltou a esta. A igreja em Tiatira não era sem virtudes genuínas. Era um grupo unido que amava, servia, cria e perseverava.

Talvez Tiatira fosse o tipo de igreja que você entra e já se sente parte: “Prazer em conhecê-lo. Venha, deixa-me apresentá-lo aos meus amigos. Vou lhe mostrar como você pode participar, usar seus dons, seguir seu ministério. Somos muito gratos de tê-lo conosco.” Era uma igreja que se importava, que se sacrificava e amava.

Essa era a parte boa. E a parte ruim? O amor dela podia ser sem discernimento e cegamente afirmativo. O grande problema de Tiatira era a tolerância. As pessoas de lá toleravam falsos ensinamentos e comportamentos imorais, duas coisas com as quais Deus é ferozmente intolerante. Jesus diz: “você é amorosa de diversas formas, mas a sua tolerância não é amor. É infidelidade.”

O pecado específico de Tiatira era a tolerância com Jezabel. Este não era o nome real da mulher. Mas essa falta profetisa agia como Jezabel – guiando o povo em adultério e em idolatria. Nós não sabemos se sua influência era formal – se ela ia à frente das pessoas e falava esse tipo de coisa enganosa – ou se era informal – em conversas corriqueiras e no “boca a boca”. Contudo, isso estava acontecendo. Essa mulher era um perigo espiritual, como sua xará do Antigo Testamento.

Jezabel foi a filha de Etbaal, rei dos sidônios. Ela adorava Baal e Aserá e levou seu marido Acabe para o mesmo caminho. Foi ela quem planejou matar o inocente Nabote por causa de sua vinha. Ela foi chamada de “maldita” (2 Reis 9.34) e, como punição por sua malícia, eventualmente foi empurrada pela janela, pisoteada por cavalos e comida por cachorros. Ela era uma mulher má, que levou muitos israelitas para o mau caminho.

Jesus disse a Tiatira: “vocês estão permitindo que uma mulher como aquela guie seu povo. Por que vocês a toleram? Não a sigam. Não dialoguem com ela. Não esperem para ver o que vai acontecer. Livrem-se dela… ou eu farei.” Aparentemente, de alguma forma, Deus já a havia alertado para que se arrependesse, mas ela se negou. Então, agora, o Senhor Jesus promete jogá-la na cama doente e fazer com que seus seguidores também sofram, a não ser que se arrependam. “Eu vou atacar mortalmente os seus filhos espirituais”, disse o Senhor. Jesus não está brincando. Isso não é algo secundário, mas um sério pecado digno de morte.

Havia também um pecado arraigado. Havia uma série de cooperativas comerciais em Tiatira. Imagine que você participasse da APT, a Associação de Pedreiros de Tiatira, e, certa noite, a corporação se reunisse para uma festa. Você está sentado em sua mesa, pronto para participar dessa grande celebração com seus amigos e colegas. Então o anfitrião diz algo como: “Que bom que vocês vieram. Que ocasião feliz para a APT. Nós temos uma grande festa preparada para vocês. Mas, antes de começar, nós gostaríamos de reconhecer que o grande deus Zeus, que cuida dos pedreiros, tornou esse jantar possível. Zeus, cuja estátua está ali no canto, nós comemos por você, por sua honra e para adorá-lo. Vamos começar.”

O que você faria nessa situação? Ficaria ou iria embora? O que a sua participação significaria para seus companheiros cristãos, para o mundo e para Deus? Cristãos do mundo antigo não precisavam procurar por idolatria. Ela permeava toda a sua cultura. Não participar desses rituais pagãos chamaria a atenção como um torcedor do Corinthians no Palestra Itália. Essas festas, com sua idolatria e folia sexual, que muitas vezes as seguiam, eram parte normal da vida do mundo Greco-romano. Ficar de fora poderia ser algo social e economicamente desastroso.

Esse é o motivo pelo qual os falsos mestres, como essa Jezabel em Tiatira ou os nicolaítas em Pérgamo, eram tão ouvidos. Eles tornavam o ser cristão em algo muito mais fácil, menos custoso e muito menos contracultural. Mas era um cristianismo diluído e vendido, e Jesus não iria tolerá-lo. Ele iria usar Tiatira como exemplo para mostrar a todas as igrejas que Jesus tem olhos de fogo, puros demais para ver o mal, e pés de bronze polido, santos demais para caminhar entre a maldade. Ele queria que todas as igrejas soubessem que ele é quem perscruta as mentes e corações e que irá punir todo mal não arrependido.

O erro de Jezabel era um pecado sério, arraigado e sutil. Provavelmente ela havia dito às pessoas que os “segredos profundos” não iriam prejudicá-los. Nós não sabemos exatamente o que aprender os chamados segredos profundos de Satanás significava para a igreja. Nós não sabemos se os falsos profetas chamavam eles assim ou se Jesus é quem os está chamando assim. Mas o que está acontecendo é, provavelmente, algum tipo de falso ensinamento que desvalorizava o mundo material. Essa Jezabel poderia estar falando: “O mundo físico não importa. O espiritual é o que conta. Então participem das festas aos ídolos e façam o que vocês quiserem sexualmente. Essas coisas são materiais. Deus não liga para isso”. Ou talvez ela estivesse falando: “Veja, se você é espiritual, então a sua relação com Deus será forte o suficiente para você aguentar as coisas profundas de Satanás. Então vá em frente. Participe das coisas do diabo. Você pode lidar com isso e, além disso, provavelmente aprenderá mais sobre sobre o inimigo durante o processo.” Independentemente do que ela estivesse falando, era uma mentira e estava levando o povo ao pecado. E a igreja era mais tolerante do que Jesus, o que nunca é uma boa ideia.

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Autor: Kevin DeYoung
Fonte: The Gospel Coalition
Tradução: Victor Bimbato
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Honestidade confessional e denominacional

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Honestidade é de suma importância tanto em teologia quanto em transações comerciais, tanto em uma denominação religiosa quanto num partido político. Honestidade denominacional consiste, em primeiro lugar, de uma clara declaração pela Igreja de suas crenças doutrinárias; e , em segundo lugar, de uma inequívoca e sincera adoção pelos seus membros. Ambos são requisitos.

Se uma denominação em particular faz declarações soltas de suas crenças que são passíveis de mais de um sentido, o credo é bem desonesto. Se o credo de uma denominação é bem elaborado e claro, mas a membresia subscreve a ele com reservas mentais e insinceridade, a denominação é desonesta. Honestidade e sinceridade são encontradas na convicção clara, e convicção clara é encontrada no conhecimento e reconhecimento da verdade. Heresia é um pecado, e é classificado por Paulo entre 'as obras da carne', junto com 'adultério, idolatria, assassinato, inveja e ódio' que excluem do reino de Deus (Gal. 5.19-21). Mas a heresia não é tão grande pecado quanto a desonestidade.

Um herege que se reconhece como tal é um homem melhor do que aquele que pretende ser ortodoxo ao subscrever a um credo que antipatiza, o qual enfraquece no pretexto de adaptá-lo aos novos tempos. O herege honesto deixa a Igreja com a qual não mais concorda; mas o subscritor permanece dentro dela de modo a seguir adiante o seu plano de desmoralização.

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Autor: William G.T. Shedd
Fonte: Calvinism: Pure & Mixed (Edinburgh, The Banner of Truth, 2000), p. 152.
Tradução: Emerson Costa
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O que eu perco quando perco o culto?

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Você pode imaginar a sua vida sem culto? Você consegue imaginar a sua vida sem se reunir regularmente com o povo de Deus, para adorá-lo em conjunto? O culto corporativo é um dos grandes privilégios da vida cristã. E talvez ele seja um daqueles privilégios que, ao longo do tempo, tomemos como certo. Quando eu paro para pensar a respeito, não consigo imaginar a minha vida sem culto. Eu nem mesmo desejo pensar nisso. Mas eu acho que vale a pena considerar: O que eu perco quando eu perco o culto?

Vivemos numa cultura consumista onde temos a tendência de avaliar a vida através de meios muito egoístas. Fazemos isso com o culto. “Hoje o sermão não falou comigo. Eu simplesmente não consegui apreciar as canções que cantamos nesta manhã. A leitura da Escritura foi demasiado longa”. Quando falamos dessa maneira podemos estar dando provas de que estamos indo à igreja como consumidores, como pessoas que desejam ser servidas em vez de servir.

No entanto, o ponto primário e o propósito de cultuar a Deus é a sua glória, não a satisfação das nossas necessidades sentidas. Nós adoramos a Deus, a fim de glorificar a Deus. Deus é glorificado no nosso culto. Ele é honrado. Ele é magnificado à vista daqueles que se juntam a nós.

Dessa forma, o culto rompe completamente com a corrente do consumismo e exige que eu cultue por amor da sua glória. Tenho ouvido dizer que o culto “é a arte de perder o ego na adoração de outro”. E é exatamente este o caso. Eu esqueço de tudo sobre mim e dou toda honra e glória a Ele.

O que eu perco sem o culto? Eu perco a oportunidade de crescer através de ouvir um sermão e de experimentar alegria por meio do cântico de grandes hinos. Eu perco a oportunidade de me unir a outros cristãos em oração e para recitar grandes credos com eles. Mas, mais que isso, eu perco a oportunidade de glorificar a Deus. Se eu parar de cultuar, estarei negligenciando um meio através do qual eu posso glorificá-lo.

Você vê? O culto não é sobre você ou sobre mim. O culto é sobre Deus. E, realmente, isso muda tudo.

Quando vejo o culto como algo que, em última análise, existe para o meu bem e para a minha satisfação, fica fácil tirar um dia de folga e pensar que a minha presença não faz nenhuma diferença. Mas quando eu venho para glorificar a Deus, eu entendo que ninguém mais pode tomar o meu lugar. Deus espera o levantar das minhas mãos, o erguer do meu coração e o levantar da minha voz a Ele.

Quando vejo o culto como algo que é todo sobre mim, fica fácil pular de igreja em igreja e estar sempre à procura de algo que se ajuste melhor a mim. Mas quando eu vejo a igreja como algo que é verdadeiramente sobre Deus, me pego procurando por uma igreja mais pura e melhor em adorar do modo exato como a Bíblia ordena – Eu procuro por uma igreja através da qual eu possa glorificá-lo cada vez mais.

Sem dúvida, o culto é um privilégio. Mas também é uma exigência, uma responsabilidade. E a maior responsabilidade, bem como o maior privilégio no culto, é trazer glória a Deus.

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Autor: Tim Challies 
Fonte: What Would I Lose if I Lost Worship?
Tradução: Rev. Alan Renê Alexandrino Lima
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Como Manter a Igreja Viva

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Uma das passagens mais dramáticas da Bíblia é Isaías 1:10-20, em que o profeta repreende a Igreja do A. T., chamando seus líderes de príncipes de Sodoma e Gomorra, cidades famosas pela iniquidade. O povo de Deus havia se corrompido ao ponto de Deus não mais ter prazer em receber o culto dele.

Infelizmente, esse quadro de decadência da Igreja de Deus neste mundo se repetiu por muitas vezes. O povo de Deus esfria em sua fé, endurece o coração, persevera no pecado e serve de péssimo testemunho ao mundo. Devemos evitar que a decadência espiritual entre em nossa vida. Existem quatro coisas que podemos fazer para evitar o declínio espiritual da Igreja, com a graça de Deus:

(1) Tratar o pecado com seriedade. Nada arruína mais depressa a vida espiritual de uma comunidade do que permitir que os pecados dos seus membros permaneçam sem ser tratados como deveriam. Lemos na Bíblia que, quando Acã desobedeceu a Deus, toda a comunidade sofreu as consequências. Nossos pecados ocultos, escondidos, não confessados e arrependidos constituem-se num tropeço espiritual que entristece o Espírito de Deus, e acaba se espalhando pela Igreja e envenenando os bons costumes e a fé.

(2) Zelar pela sã doutrina. A verdade salva e edifica a Igreja, mas a mentira é a sua ruína. O erro religioso envenena as almas e desvia o povo dos retos caminhos de Deus. O Senhor Jesus criticou severamente a Igreja de Pérgamo por ser tolerante para com os falsos mestres que a infestavam com falsos ensinos (Ap 2.14-15). Da mesma forma, repreendeu a Igreja de Tiatira por tolerar uma mulher chamada Jezabel, que se chamava profetiza, e que ensinava os membros da Igreja a praticarem a imoralidade (Ap 2:20). Devemos ser pacientes e tolerantes, mas nunca ao preço de comprometermos o ensino claro do Evangelho.

(3) Andar perto do Senhor da Igreja. É Deus quem nos mantém firmes e puros. A Bíblia diz que, se nós nos achegarmos a Deus, ele se achegará a nós. A Bíblia também nos ensina que Deus estabeleceu os meios pelos quais podemos estar em contínua comunhão com Ele. Estes meios são: os cultos públicos, as orações e devoções em particular, a leitura e a meditação nas Escrituras, a participação regular na Ceia do Senhor. Cristãos que deixam de usar estes meios acabam por decair espiritualmente. A negligência destes meios de graça abre a porta para a acelerada decadência espiritual e moral de uma Igreja.

(4) Estar aberta para reformar-se. A Igreja deve sempre estar aberta para ser corrigida por Deus, arrepender-se de seus pecados e reformar-se em conformidade com o ensino das Escrituras. Nas cartas que mandou às igrejas da Ásia Menor através de João, Jesus determinou às que estavam erradas a que se arrependessem (Ap 2.5,16,21; 3.3,19). Elas precisavam ser reformadas e mudar o que estava errado. Estas medidas devem também ser aplicadas a nós, individualmente. Deveríamos procurar evitar a decadência espiritual da nossa prática religiosa, mantendo a chama da fé pela frequência regular aos cultos, pela leitura diária da Bíblia, por uma vida de oração e comunhão.

Queira nosso Deus dar-nos vigor para mantermo-nos e à nossa igreja sempre vivos espiritualmente.

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Autor: Rev. Augustus Nicodemus Lopes
Fonte: Boletim Informativo PIPG - Ano XX - Nº 39
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Mais que um espectador

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Eu amo ver futebol. Acredite ou não, isso é algo que me dá prazer. E antes que você goze de mim, lembre que bilhões de pessoas no mundo gostam também. Eu amo dizer ao técnico do meu time sobre as decisões erradas que ele está tomando. Eu amo compartilhar minha opinião com o juiz sobre suas habilidades de tomar decisões ou sua necessidade de ir ao oftalmologista o mais rápido possível. É muito difícil para mim ficar calado quando estou vendo meu time jogar. O único problema com isso tudo é que ninguém pode me ouvir. Bem, talvez meus vizinhos possam. Mas aqueles realmente envolvidos no jogo não conseguem. O técnico, os jogadores e o juiz não têm a menor ideia que existe um cara, a milhares de quilômetros de distância, gritando com eles por meio da tela da televisão.

Essa mentalidade de espectador é o que vemos muitas igrejas. Muitas pessoas aparecem pensando que a Igreja está lá para servi-las. Na verdade, se formos honestos, admitiremos que  todos nós pensamos assim naturalmente. Todos nós nascemos achando que o mundo existe por nossa causa. Muitos jovens pastores, como eu, realmente encorajam isso. Eles organizam a igreja para que ela pareça um show de rock, com um mini sermão ali no meio, que dificilmente durará mais que 20 minutos. A Bíblia é deixada de lado e o culto parece ter sido feito para que os não crentes se sentissem bem-vindos e confortáveis.

O autor de Hebreus pensava diferente. Ele estava convencido que ser parte da Igreja significa ser mais que um espectador. Na verdade, ele incentiva que todos os crentes sejam participantes ativos. Em Hebreus 10.24-25, nós achamos uma famosa passagem, a qual nós, usualmente, corremos para ela quando achamos alguém que se diz cristão, porém não frequenta a igreja. Apesar de ela ser, certamente, uma passagem que diz “não falte a igreja”, ela é muito mais. Em apenas dois versos curtos, nós temos cinco mandamentos, os quais podem mudar radicalmente o nosso domingo.

A primeira coisa que devemos fazer é nos PREPARAMOS para o domingo

Consideremos-nos…”

A palavra “considerar”, no verso 24, implica que nossa mente precisa estar engajada no domingo. Isso significa que nossas mentes precisam estar alertas. Isso significa que devemos estar em forma. Não acho que seja exagero dizer que nós não estaremos totalmente alertas no domingo de manhã, se não tivermos uma boa noite de sono. É por isso que dizem que o domingo de manhã começa no sábado à noite. Nós precisamos estar descansados. Não só para sermos bons ouvintes do sermão, mas porque estaremos mais alertas e dispostos a servir e a encorajar os outros. Isso implica que devemos estar preparados para a Igreja. Significa que nós não estamos lutando para que tudo esteja pronto na porta no domingo de manhã. Talvez deixar o almoço pronto, as roupas já escolhidas, as bíblias e computadores já no carro, no sábado à noite podem prevenir o drama de manhã. Outro aspecto chave é manter nossa mente pensando no Senhor e nos outros, em vez de pensar nas coisas mundanas. Fazer uma maratona na Netflix antes de ir para a igreja provavelmente não é uma boa escolha. Nós, provavelmente, iremos ficar pensando no que acontecerá com nossos personagens favoritos, em vez de pensarmos em como podemos servir nossos irmãos e irmãs.

Na palavra “considerar”, também está implicado o fato que não pensaremos no próximo naturalmente. Para isso, é preciso preparação. Precisamos nos lembrar de fazer isso. Devemos treinar nossas mentes a pensar sobre o próximo quando vamos à igreja. Isso significa em sobre como Deus pode nos usar. Enquanto estamos dirigindo para o culto, nós devemos pensar e nos relembrarmos de que estamos prestes a fazer algo muito importante. Talvez a coisa mais importante que devemos fazer. Devemos celebrar a ressurreição de Cristo, nos submeter à pregação da Palavra de Deus e participar do crescimento da igreja local. Você pensa em como você pode abençoar seus irmãos e irmãs, enquanto você se dirige à igreja?

Somos instruídos a constantemente PRATICAR o pensar sobre o próximo

consideremo-nos também uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras…”

O autor de Hebreus diz que devemos considerar como devemos estimular uns aos outros. A palavra “como” está carregada. Isso não é simplesmente aparecer na igreja e despejar o que aprendemos durante a semana em nosso tempo com o Senhor. É exatamente essa a consideração que nossos amigos precisam. Isso varia de pessoa para pessoa. Nós realmente devemos conhecer as pessoas ao nosso redor e saber como podemos encorajá-los. Quando o meu time de basquete no ensino médio se preparava para um jogo, nós assistíamos a um jogo gravado e tentávamos encontrar o ponto fraco dos outros times. Se eles eram muito rápidos, nós iríamos passar a bola para nossos jogadores altos. Se eles fossem altos, porém devagar, nós iríamos nos por em guarda e ditar o ritmo do jogo. Se eles fossem altos e rápidos, bem, aí seríamos esmagados. Mas você entendeu o ponto. Nós não tratávamos nossos oponentes da mesma forma. Muitas vezes, como cristãos, nós estamos tão focados em nós mesmos que não temos a menor ideia de como incentivar as pessoas em nossa volta à piedade. Tessalonicenses 5.14 capta essa ideia perfeitamente. Além de nos dizer que devemos ser pacientes sempre, ele também nos ensina a tratarmos as pessoas de maneira diferente, baseados em suas necessidades. Nós devemos estar ativamente estudando e cuidado das pessoas ao nosso redor, para que possamos cuidar apropriadamente de suas almas.

Devemos buscar uns aos outros

consideremo-nos também uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras…”

A palavra “estimular” é normalmente usada no negativo. É algo provocativo. É desafiar alguém a ir a algum lugar onde ele, naturalmente, não quer ir. Na carne, naturalmente nós não fazemos boas obras. Somos todos propensos a vaguear. Nós precisamos procurar uns aos outros e nos incentivarmos a sermos piedosos. Por conta própria, você pode aprender mais sobre Deus, você pode crescer em seu amor por Deus, mas, ao mesmo tempo, você precisa perceber que você não consegue ver tudo sozinho. Todos nós tempos pontos cego. É por isso que ser monge não funciona. Para crescermos na vida cristã, você não deve só gastar tempo com o Senhor, mas, também, estar envolto por crentes. Você precisa deles. E adivinha? Eles precisam de você! Eles precisam que você esteja em forma. Se estamos abrigando pecados em nossas vidas, mesmo em nossas vidas privadas, então, definitivamente, não estamos crescendo em nossa caminhada. E se não estamos crescendo em nossa caminhada, nós não seremos capazes de estimular  o nosso próximo a terem boas obras. Além disso, abrigar pecados faz com que sejamos egoístas e diminuamos as chances de nos apresentarmos prontos para nos reunirmos e servimos uns aos outros.

Somos ordenados a priorizar o encontro

Não deixemos de congregar-nos, como é de costume de alguns…”

Claro, nada disso importa, a não ser que saiamos de nossas camas para irmos à igreja. E parece que a igreja primitiva também lutava com isso. Mas, diferentemente de nós, o impedimento deles não era por besteira, mas por perseguição. Hebreus 10.33-34 nos diz que as pessoas a quem o autor estava escrevendo estavam sofrendo sérias perseguições. Alguns perderam suas casas, outros, a vida. Então a tentação de ficar em casa era algo muito forte. Ainda assim, com esse cenário, o autor de Hebreus os alerta para que não deixem de se congregar. A despeito do fato de estarem sofrendo sérias perseguições, eles eram menos propensos a faltarem a igreja do que a maioria dos americanos! Isso é incompreensível. Devemos lutar por nosso tempo com nossos irmãos e irmãs. É uma loucura faltar a igreja. Você tem um pastor que passou várias horas estudando a passagem da Escritura com o propósito de fazer você mais piedoso! E, espero, você possui vários irmãos indo à igreja considerando as formas pelas quais eles podem estimulá-lo e encorajá-lo a amar e obedecer mais a Cristo! Onde você prefere estar?

Somos chamados a ajudarmos uns aos outros

antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima

É muito interessante como o autor conclui com um chamado a encorajarmos uns aos outros. A palavra “incentivar” não deixa de lado a verdade. Mas ao falar a verdade, faça com mansidão, lembrando-vos uns aos outros sobre as promessas de Deus. É fascinante notar que isso deve crescer com o passar dos dias. É interessante que em Hebreus 10.25 ele conecta isso com a segunda vida. A cada dia que estamos mais perto do dia do retorno do Senhor, devemos crescer no nosso encorajamento mútuo.  O mundo está ficando cada vez mais hostil ao evangelho. A igreja deve ser um oásis para o crente. E nós devemos passar nosso tempo estimulando e exortando uns aos outros a buscarmos Cristo. É interessante como, além de sermos menos propensos a irmos à igreja que os cristãos primitivos, apesar de sofremos menos perseguições, somos menos propensos a pensarmos na volta do Senhor, apesar de estarmos 2 mil anos mais perto disso acontecer. Toda manhã que acordamos, não estamos apenas mais um dia perto de nossa morte, mas, também, estamos um dia mais perto da volta de Cristo.

O autor de Hebreus acredita que pensamos mais no próximo quando vamos à igreja. Ele acredita que se formos fiéis em nossa preparação, prática, busca, priorização e ajuda mútua, seremos fiéis a Cristo e participantes ativos no que Cristo tem feito por meio das igrejas locais de todos os lugares.

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Autor: Jordan Standridge
Fonte: The Cripplegate
Tradução: Victor Bimbato
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Razões pelas quais guardamos o primeiro dia da semana

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Portanto, resta um repouso para o povo de Deus. Porque aquele que entrou no descanso de Deus, também ele mesmo descansou de suas obras, como Deus das suas” (Hebreus 4.9-10).

I – A CONTROVÉRSIA ATUAL

Irmãos, não basta afirmar que ninguém tem mais a obrigação de guardar o sétimo dia da semana. Dizer apenas isso pode dar a impressão de que a obrigação moral do dia de descanso não mais existe. Outro erro que devemos evitar, é o cometido por João Calvino, que afirmou o seguinte: “A tal ponto, contudo, não me prendo ao número sete que obrigue a Igreja à sua servidão, pois não haverei de condenar as igrejas que tenham outros dias solenes para suas reuniões, desde que se guardem da superstição”.[1] O erro de Calvino consiste, em que “nenhum homem ou igreja tem a prerrogativa de estabelecer um dia para outros”.[2] Teólogos contemporâneos têm afirmado que o descanso é apenas um princípio, não existindo mais nenhum dia específico. Para eles, o crente tem o arbítrio de escolher o seu próprio dia. Michael Horton, por exemplo, afirma o seguinte: “Contudo, desejo dizer que a minha convicção é que o quarto mandamento pertence ao que chamamos de parte ‘cerimonial’ da lei em vez de ‘moral’ [...] Sugerir que o quarto mandamento, então, é parte da lei cerimonial em vez de ser parte da lei moral, é dizer que ele não mais obriga os cristãos”.[3] A mesma linha é seguida pelos colaboradores de D. A. Carson, que, em Do Shabbath para o Dia do Senhor afirmam a premissa de que “o domingo é ‘um novo dia de adoração que foi escolhido para comemorar o evento único e histórico-salvador da morte e ressurreição de Cristo”.[4]