Pena de Morte

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Introdução

Este é um daqueles assuntos que sempre levantam controvérsias. Ainda me lembro do dia em que eu dava aula na Escola Bíblica Dominical na Igreja Presbiteriana de Russas – Ce, onde o assunto abordado era justiça na sociedade. O assunto da pena capital foi ventilado, então eu fiz a seguinte pergunta: “Quem aqui concorda com a pena de morte?” Isso foi suficiente para vermos os ânimos se acirrarem e opiniões das mais diversas serem colocadas.

A importante diferença entre legalidade, moralidade e licitude

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Pode parecer trivial, mas não é. Legalidade, moralidade e licitude são facetas distintas e que nem sempre são intercambiáveis, ainda mais quando colocadas sob o prisma da Escritura. Esta tríade deve ser constantemente levada em conta e ponderada durante nossos afazeres, sejam no cotidiano ou nalguma situação específica.

Vejamos um exemplo típico:

Um cristão se depara com um imóvel à venda. O preço: 30% do valor de mercado. Ou seja, uma casa que normalmente seria vendida por R$200.000,00, está sendo oferecida por R$60.000,00. Parece um excelente negócio, certo?

Do ponto de vista da legalidade, tal venda pode ser legal, isto é, de acordo com a lei que rege a vontade das partes - pacta sunt servanda (o pacto faz lei entre as partes) - não haveria problema algum em se vender pelo preço que se bem entende. Todavia, poderia configurar sonegação de impostos, levando o Ministério Público a averiguar se, embora tenha havido um contrato no valor firmado, não foram pagos os R$140.000,00 restantes "por fora", a fim de "aliviar" o imposto de renda do comprador e vendedor. 

Do ponto de vista da moralidade, tal venda jamais deveria acontecer, supondo que de fato fosse vendida somente por R$60.000,00, pois ninguém em sã consciência vende algo tão abaixo do preço, exceto se estiver extremamente endividado e precisar do dinheiro "para ontem". O comprador cristão, vendo o sufoco em que o vendedor se encontra, não deveria "acabar por puxar a corda" e o enforcar, mas, sim, oferecer um preço justo pela casa - talvez não os 200 mil iniciais, mas algo próximo.

Do ponto de vista da licitude, tal venda é plenamente lícita, afinal, houve acordo entre as partes. Não havendo algum dos tradicionais vícios de consentimento (erro, dolo, coação, estado de perigo, lesão, fraude contra credores e a simulação), o negócio é lícito, não havendo que se arguir coisa alguma.

O que isso nos ensina? Nos ensina que nem sempre porque alguma coisa está na Lei (agora me refiro à lei dos homens), significa que é legal ou moral, ainda que lícita.

Ainda outro exemplo:

Um cristão expondo o evangelho em sua Universidade, é proibido de continuar falando de Cristo.

Do ponto de vista da legalidade dos homens, eles veem o cristão como um transgressor, pois mesmo tendo o direito Constitucional à liberdade religiosa (Art. 5º, CF), essa suposta liberdade não pode ferir a liberdade de outrem em não querer ouvir. Desta forma, o cristão oscila entre a legalidade e ilegalidade dos homens, mas tem a legalidade bíblica ao seu lado.

Do ponto de vista da moralidade, o cristão estará sendo imoral, pois à vista dos homens é alguém que deseja impor suas crenças sob os demais (ainda que não seja isso). Para o cristão, porém, falar da Escritura é a mais reta, pura, justa e desejável moralidade, de maneira que mesmo se tendo por imoral, ele continuará a falar - buscando, dentro do possível, respeitar a legalidade dos homens.

Do ponto de vista da licitude, o cristão está realizando algo plenamente lícito, pois a ninguém está obrigando coisa alguma, mesmo que os homens digam que não é moralmente correto ele continuar com sua anunciação do evangelho. 

O que novamente aprendemos? Que nem sempre algo imoral do ponto de vista dos homens, será, necessariamente, imoral sob o foco da Escritura.

Não desejando soar cansativo, vejamos um último exemplo onde vemos a licitude sendo tolhida.

Um cristão deseja escutar algum grupo musical, mas não tendo dinheiro para adquirir o "CD", se vê tentado à baixar toda a discografia da banda gratuitamente, entretanto, de modo "pirata".

Do ponto de vista da legalidade, ele está diante de uma norma legal sem qualquer eficácia, pois ainda que o comércio pirata seja ilegal, já existem decisões dos tribunais que reconhecem a legalidade dos downloads, desde que para uso pessoal. Ou seja, é ilegal, mas ao mesmo tempo é legal. Como muitas vezes as decisões dos tribunais se sobressaem à norma escrita, passou a ser legal.

Do ponto de vista da moralidade, o cristão se vê diante de um problema: passou a ser legal, mas será que é moral? Caso o cristão estivesse do lado do grupo musical, ele gostaria de ver todo seu trabalho sendo pirateado pela internet? Pode ser que sim, mas pode ser que não. Ele fica, então, em fogo cruzado, pois de um lado a Escritura diz que devemos obedecer aos magistrados, por outro lado, ela também diz que devemos não furtar o próximo. Já a legalidade diz que é moralmente aceito fazer o download, ao passo que o grupo musical pode não ver desta forma.

Do ponto de vista da licitude, se percebe que é lícito baixar, pois é legal (passou a ser, em verdade), no entanto, esta licitude é por demais relativa. Assim, embora o cristão tenha a legalidade e a moralidade do mundo ao seu favor, diante de Deus acaba por se tornar ilícito baixar tais músicas em face da não aceitação desta norma legal pelo grupo musical.

Portanto, amado cristão, verifique muito atentamente todas as ocasiões que se descortinam diante você. Nem sempre porque está na Lei dos homens (Código Civil, Penal...), será moral. Não é porque a Lei condena que também será sempre imoral (como pregar o evangelho, por exemplo). De igual forma, não é porque algo é lícito à luz dos homens, que será moral e legalmente correto diante de Deus.

"Todas as coisas [permitidas no evangelho] me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma" (1Co 6.12).

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Autor: Filipe Luiz C. Machado
Fonte: 2 Timóteo 3:16
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Confessionalidade na cultura da diversidade

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Como ser cristão confessional na cultura da diversidade?


Neste texto, “confessional” significa apegado às confissões doutrinais e, por conseguinte, éticas do Cristianismo que deflui da Reforma Protestante do século 16. Os cristãos reformados abraçam os credos ecumênicos (apostólico, niceno-constantinopolitano e atanasiano), a Confissão de Fé e os Catecismos de Westminster, a Primeira e Segunda Confissões Helvéticas, o Catecismo Belga, o Catecismo de Heidelberg e, mais recente, a Declaração de Cambridge. Incluo também, como “confessionais”, os que abraçam o novo calvinismo holandês preconizado por Herman Bavinck, Geerhardus Vos, Abraham Kuyper, Herman Dooyeweerd e Henderik Rookmaaker, e guardadas as devidas proporções, atualizado por Francis Schaeffer[1] e Nancy Pearcey. Tais confissões e proponentes formularam uma maneira de ler e interpretar a realidade consistente com a Bíblia e com as ciências e a cultura (com a vida prática). Minha convicção é de que, devidamente aplicado, este modo bíblico de lidar com as coisas que existem, abre espaço para a interação edificante com a diversidade.

Reforma, Calvino e Economia

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A influência da Reforma Protestante para o desenvolvimento do capitalismo é alvo de não pequena controvérsia no mundo acadêmico. Ela tem servido especialmente para enfatizar o papel da religião nas relações econômicas. O debate tende a buscar respostas na polarização entre a história dos países influenciados pela Reforma, mais ao norte da Europa, e os países católicos romanos, mais próximos do mediterrâneo, razão pela qual também é grande a tentação de reduzir o debate a uma briga de torcidas, quando os interessados são influenciados pelo denominacionalismo estrito. A controvérsia por vezes toma a forma de uma rivalidade mimética, pela qual pressupõe-se que a verdadeira religião cristã é aquela mais afinada às verdades econômicas – um parâmetro que não deixa de ter alguma relevância, visto que o cristianismo, ao contrário de outras religiões, é também uma religião histórica preocupada com uma cosmovisão coerente com a realidade concreta.

Cristianismo e Aborto

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A demanda por aborto não é exclusividade de um único país, mas é comum hoje a todo o mundo ocidental. De um lado, certamente, havemos de reconhecer – e é muito importante que se entenda – que políticas a favor da legalização do aborto têm sido cada vez mais impostas verticalmente, a partir de governantes que seguem agendas políticas conscientemente dentro do processo de subversão cultural do Ocidente; de outro lado, devemos reconhecer que tal demanda é apenas a consequência de um longo processo de entropia cultural do mundo outrora cristão. Falha quem resume o problema apenas ao primeiro aspecto, julgando que tudo não passa apenas de uma militância revolucionária em favor de modelos socialistas; nesse sentido, a igreja muito comumente falha ao negar que exista tal militância, entendendo o problema como exclusivamente cultural. Mas é fato que a agenda revolucionária tem o único propósito de forçar, de impulsionar os resultados desse descarrilamento intelectual e espiritual do Ocidente. Os revolucionários, de certa forma, querem acelerar o processo que muitos deles creem ser a consumação dos tempos do humanismo. A demanda por aborto não surgiu por coincidência: ela é fruto de uma cosmovisão. 

Os Dez Mandamentos e a Ética Cristã

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Antes de tudo, é necessário termos uma coisa em mente: a lei de Deus, os Seus dez mandamentos são divididos em duas tábuas. A primeira diz respeito ao relacionamento do homem com Deus; a segunda nos guia no nosso relacionamento com o próximo. Como os cristãos devem se portar na sua vida diária? O que fazer com as escolhas morais? Como fazê-las e baseada em quê será nossa decisão? Essas são perguntas que, de forma geral, tentaremos responder ao longo do texto. Como os dez mandamentos são bastante extensos e grandemente profundos, não será possível esgotar, de maneira nenhuma, este assunto aqui neste ensaio. A minha intenção, então, será analisarmos a importância deste tema para o cristão, assim como observarmos o mandamento “Não terás outros deuses diante de mim.”

A lei é o reflexo da santidade de Deus, da sua perfeição. Através dela podemos ver o que Deus é, e o que nós somos. Aquele (o decálogo) é o padrão pelo qual o caráter de Deus é composto, e pelo qual o nosso é julgado. Nessas dez regras temos conceitos simples, mas abrangentes. Pequenos, mas complexos. Devemos nos achegar à revelação divina da Sua vontade para o nosso dia a dia de forma humilde, sabendo que nada somos e que Deus nos revelará o que lhe apraz nos momentos certos. Podemos ler dez, vinte ou até trinta vezes o decálogo, mas nunca ele será esgotado. O próprio Cristo, no sermão do monte, desenvolve os dez mandamentos e aplica-os ao povo e a nós, através das Escrituras. Devemos então nos curvar de forma humilde, reconhecendo a grandiosidade e santidade do nosso Senhor descrita no Decálogo.

Tiago Santos coloca sabiamente a definição da palavra “ética cristã”, ele diz: “é o 'modus vivendus' do povo de Deus.” Ou seja, o modo pelo qual o povo de Deus deve se guiar. Salmo 119:105 afirma que a palavra de Deus é lâmpada para os pés e luz para o caminho. Precisamos entender que é extremamente necessário e de tamanha importância que o cristão saiba como viver. A primeira pergunta do Catecismo Maior de Westminster diz: “Qual o fim supremo e principal do homem?” imediatamente ele responde: “O fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus e alegrar-se nele para sempre [Rm 11:36; 1Co 10:31; Sl 73:24-26; Jo 17:22-24].” A pergunta é: como viveremos para glorificar e alegrar-se em Deus? Observando a Sua Santa Palavra e vivendo de acordo com a Sua Santa vontade [o modus vivendus do homem].

Podemos também observar o texto de Romanos 12:2, que diz: “E não vos conformeis a este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.” Como cristãos, devemos não apenas fazer o correto, mas pensar correto. Não devemos nos moldar ao modelo deste mundo, e muito menos às regras morais deste mundo. Pelo contrário, não podemos nos deixar ser influenciados e nem nos conformar com este mundo, mas devemos renovar nossa mente, dia após dia, para que possamos viver de modo bom, agradável e perfeito, de acordo com a vontade de Deus. Esse é objetivo do homem!

Outro fator importante que devemos saber é que o cumprimento do decálogo não salva, pelo contrário; ele condena! Ele nos mostra quem somos. Essa é uma diferença central do cristianismo bíblico para as outras religiões. A maioria, senão todas as outras religiões, são movidas por boas obras. As pessoas, para alcançarem o “céu” precisam fazer boas obras e etc. Esse é o pensamento que gira no mundo a respeito do homem. Porém, isso não é o que as Escrituras falam. O homem é impuro, corrupto, miserável, condenado, pecador, manchado, depravado, e tudo mais. Por isso, ele não tem a capacidade de cumprir todo o mandamento do Senhor. O cristão não cumpre a lei de Deus para ser salvo, mas por amor! [João 14:23] O que nos move e capacita a cumprir a lei de Deus é o Santo Espírito. Ele, apenas Ele, pode nos capacitar a fazê-lo.

Não terás outros deuses diante de mim.”

Aqui temos um mandamento tão conhecido, e ao mesmo tempo tão negligenciado. Deus diz ao povo de Israel que não tolera diante da Sua face qualquer outro Deus, pois Ele é o único. No contexto da época, o povo estava rodeado de religiões pagãs, onde cada uma reivindicava o seu próprio deus. Na verdade, nesse exato momento, o povo tinha acabado de sair de uma cultura onde vários deuses eram cultuados. Cada um na sua “área”. O sol, o rio, a natureza, a vida, e por aí vai. Cada área do ser humano era governada por um deus diferente. Essa era a ideia.

O povo de Israel, o povo escolhido e separado por Deus, precisava entender que o Deus deles, o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó era o Deus verdadeiro, hoje e sempre. Infelizmente, essa ideia não ficou presa àquela época. Hoje, não só pagãos, como também cristãos, acreditam “mesmo que sem querer” num deus compartimentado; o qual não é o Deus das Escrituras. Michael Horton coloca da seguinte forma: “Podemos ver em nossos próprios círculos cristãos traços dessa mudança de ideia de um Deus Soberano que revelou-se num tempo e espaço reais na História, para a noção de deidades locais que gerenciam os compartimentos separados de nossa vida, garantindo o sucesso e a felicidade em suas esferas respectivas. Isso é raramente declarado, mas frequentemente praticado: Deus está encarregado da área chamada “religião”, mas a própria vida é governada por um panteão de deidades: carreira, posses, ambição, auto-estima, família, amigos, entretenimento, moda. Sempre que tomamos uma decisão de violar a vontade revelada de Deus em favor de uma dessas “deidades”, estamos colocando outros deuses diante do único e verdadeiro Deus vivo.”¹ Quantas “deidades” não existem em nossos corações querendo tomar o trono do Senhor dentro de nós? Simples coisas do dia a dia nos impedem de adorar a um único Deus, o verdadeiro.

A cultura brasileira está arraigada no catolicismo romano. Cristãos tem repúdio a imagens por causa dessa cultura donde vivemos e viemos, mas às vezes esquecemos que não só existem ídolos físicos (imagens), mas também os do coração. Pessoas estão tão presas a condenar alguém que adora uma imagem – de forma nenhuma estou concordando com a adoração de imagens – que se esquecem que no seu coração, talvez, exista mais ídolos do que todos aqueles os santos da Igreja Católica Romana. O Senhor neste mandamento não condena somente ídolos visuais, mas qualquer coisa que ocupe o lugar Dele em nossas vidas.

Salmos 115:1 diz: “Não a nós Senhor, não a nós, mas ao teu nome dá glória, por amor da tua misericórdia e da tua fidelidade.” O povo de Israel que tantas vezes abandonou a Deus por causa de falsos deuses reconhecem a majestade de Deus. Por que será que no início diz-se 'Não a nós Senhor, mas ao teu nome dá glória […]'? Simplesmente porque o coração do homem tem dois deuses, ou o Deus verdadeiro ou ele mesmo. Como já dizia João Calvino: “O coração do homem é uma fábrica de ídolos”. Calvino, como um perspicaz teólogo, entende exatamente o ponto. Se o deus do homem não é o Deus verdadeiro, é ele mesmo. Ele fabrica, seja: religiões, ele mesmo (ateísmo), trabalho, esposa, namorada, dinheiro, sexo, vícios; qualquer um. Fora do Deus santo e verdadeiro - que é aquele que preenche o vazio que o homem tem – não há verdade. Só há pseudo-deuses, tentando ocupar o lugar que não é para eles, e como não é para eles, eles não vão conseguir preenchê-lo.

No decorrer do Salmos 115:4-8, o salmista descreve como são os deuses das nações ao seu redor: “Prata e ouro são os ídolos deles, obra das mãos de homens. Têm boca, mas não falam; têm olhos e não veem; têm ouvidos, e não ouvem; têm nariz e não cheiram. Suas mãos não apalpam; seus pés não andam; som nenhum lhes sai pela garganta. Tornem-se semelhantes a ele os que os fazem e quantos neles confiam.” Os idólatras se tornam inúteis diante do Deus que está no céu (ver Sl 115:3). Eles são como mortos, são como os deuses que eles adoram.

C. J. Mahaney no seu artigo² observa alguns meios de identificar a idolatria do homem, alguns deles são:

(1) – As Escrituras: como cristãos não só precisamos, como devemos observar toda nossa vida de acordo com as Escrituras Sagradas. Ela é a nossa única regra de fé e prática. É através dela que o Senhor nos ensina como devemos viver. Como disse anteriormente, toda a idolatria do homem flui do seu próprio coração corrupto, e as Escrituras penetra-o e o corta (ver Hb 4:12-13).
(2) – O Espírito Santo: Através da ação divina do Espírito Santo podemos perceber o que está em nosso coração que está tomando o lugar do nosso Deus. Investir tempo em oração clamando a Deus que o ES ilumine nossa mente para identificar e deixar a nossa idolatria.
(3) – Os outros irmãos: através do amor mútuo, da comunhão que desfrutamos através do sangue de Cristo, precisamos confrontar uns aos outros. O nosso coração é orgulhoso e enganoso, e muitas vezes não conseguimos identificar, por nós mesmos, o que está no nosso coração tomando o lugar do Senhor. Portanto, através de humildade precisamos escutar os outros, e através do amor confrontar os outros.

O Catecismo Maior de Westminster, pergunta 104 diz: “Quais são os deveres exigidos no primeiro mandamento?” Como resposta: “Os deveres exigidos no primeiro mandamento são: conhecer e reconhecer Deus como único verdadeiro Deus, e nosso Deus; adorá-lo e glorificá-lo como tal; pensar e meditar nele; lembrar-nos dele, altamente apreciá-lo, honrá-lo, adorá-lo, escolhê-lo, amá-lo, desejá-lo e temê-lo; crer nele, confiando, esperando, deleitando-nos e regozijando-nos nele; ter zelo por ele; invocá-lo, dando-lhe louvor e agradecimentos, prestando-lhe toda a obediência e submissão do homem todo; ter cuidado de lhe agradar em tudo e tristeza quando ele é ofendido em qualquer coisa; andar em humildade com ele.” Na pergunta seguinte é descrito todos os pecados que são condenados com o primeiro mandamento. De forma singular o Catecismo de Westminster explora as Escrituras quanto a esse assunto. Soli Deo Gloria, Sola Fide, Solus Christus, Sola Scriptura e Sola Gratia; esses brados da reforma ecoam como um funil, onde no início têm-se todos eles juntos, mas no fim, lá no fim do funil, temos uma única coisa: a Glória de Deus.

Esse primeiro mandamento – não terás outros deuses diante de mim – é nada mais, nada menos que o Senhor dizendo ao Seu povo: 'Toda a glória seja dada a mim! Eu sou o único e verdadeiro Deus, qualquer outro deus é abominação. A glória que seria dada a ele (o suposto deus) é para ser dada a mim!' A glória é Dele, a salvação é dele, o nosso coração deve repousar somente Nele.

Soli Deo Gloria.
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Referências:

[1] HORTON, Michael, A Lei da Perfeita Liberdade, Ed. Cultura Cristã, pág. 34.
[2] http://www.monergismo.com/textos/pecado_tentacao/idolatria_mahaney.htm

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Autor: Danyllo Gomes
Fonte: Verdade do Cristianismo
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Ética bíblica versus ética cultural

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A proposta da ética do mundo é manter o desfrute dos prazeres pecaminosos, eliminando suas consequências naturais. A pílula do dia seguinte mata o óvulo fecundado antes da nidação, que é sua fixação nas paredes do útero para desenvolvimento (algo que acontece cerca de dez dias após a relação sexual). Dizem que um óvulo nos primeiros dias após a fecundação não é um ser humano. Por conseguinte, não possui dignidade ou direitos humanos.

Biblicamente, o melhor modo de impedir uma gravidez indesejada é resguardar-se sexualmente para o casamento. Nossos atos acarretam resultados, isso se chama responsabilidade.

Quanto à legalização da prostituição, todas as pessoas devem ser tratadas com respeito e jamais rechaçadas por preconceito ou orgulho. Ademais, cabe ao Estado garantir aos cidadãos o acesso à saúde, educação, segurança e inclusão social. Até um criminoso deve ser tratado como gente, criatura de Deus. Mas não se pode concordar com a erotização cultural, a banalização do sexo e a comercialização do corpo. Essas práticas afetam tanto a vida física, quanto espiritual (1Co 6.9-20; 1Ts 4.1-8). Sendo assim, os cristãos discordam do estabelecimento da prostituição como profissão.

Resumindo, não é bom ou certo, aquilo que a Bíblia diz que é ruim e errado. Além disso, evitamos até mesmo aquelas coisas que não são necessariamente pecaminosas, mas podem gerar obstáculos ao testemunho e evangelização (1Co 9.16-27; 1Ts 55.22).

Dito de outro modo, há um sentido em que a fé bíblica é contracultural e parece antiquada. Orientados pela noção de que o ser e a autoridade de Deus devem ser percebidos em todas as áreas da vida, nos posicionamos a favor de qualquer proposição que, ao mesmo tempo, beneficie o ser humano e honre devidamente a Deus.

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Autor: Rev. Misael Nascimento
Fonte: IPB Rio Preto
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Dois Reinos, “Dois Amores”

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Esse é um dos reductio ad absurdums com os quais os teonomistas contrapõem seus críticos, particularmente os dispensacionalistas, mas também os proponentes da versão radical dos “dois reinos” (doravante R2R). Gary North chamou essa teologia [dos dois reinos] de “hermenêutica da bestialidade”. Respondendo à crítica de Dan McCartney acerca das sanções do Antigo Testamento, North escreveu:

“Em primeiro lugar, ele [McCartney] ignora a assertiva fundamental de Bahnsen: isto é, uma lei casuística que não foi revogada pelo Novo Testamento ainda se encontra em vigor. McCartney não se importa em mencionar essa tese; antes, assume justamente o oposto: se [uma lei] não é reinvocada, então não está mais em vigor. Denomino isto de “hermenêutica da bestialidade”: Jesus não condenou a bestialidade, nem exigiu a execução do indivíduo e da besta, conforme requeria a Antiga Aliança, de modo que hoje estamos livres para decidir se exaramos, ou não, leis quanto a isso[1].  

McCartney segue uma posição bastante típica da teologia dos dois reinos ao dizer que a ética bíblica se aplica somente no âmbito da igreja, de modo que o cristão não pode utilizá-la como base para a lei civil ou para sanções penais civis:

Conforme notamos, o Novo Testamento não apresenta indicação alguma das sanções legais como sendo aplicáveis a qualquer um, exceto Cristo e, por meio dele, seu povo... Com efeito, existe a possibilidade de punição para pessoas dentro da igreja (2 Coríntios 10:6), todavia, isto não envolve autoridade civil ou aqueles fora da igreja (1 Coríntio 5:12), e sua única forma são os graus variáveis de afastamento da comunhão (ser “cortado” do povo)[2].

Desse modo, para o adepto dos dois reinos, as leis civis do Antigo Testamento talvez possuem aplicabilidade somente aos membros da igreja, mas não àqueles que não são membros; mas ainda assim, as sanções penais veterotestamentárias não são aplicadas. Com efeito, eles não podem aplicá-las, visto que as sanções penais civis são, por definição, uma função do Estado civil – e não da igreja.

A posição de McCartney é, basicamente, a mesma defendida por Michael Horton, que analisei ao criticar sua visão sobre o casamento homossexual. Horton afirma:

Cristãos não deveriam buscar promover doutrinas e práticas distintamente cristãs por meio do legítimo poder coercitivo do Estado.

Essa visão extremada significa em essência que os cristãos não podem defender que valor bíblico algum seja promulgado como lei civil, a não ser que um grupo substancial de pagãos concordem com eles. Doutro modo, estaríamos advogando perspectivas “distintamente cristãs”. (Nota: nem mesmo Lutero e Melâncton foram tão longe. Ambos concordavam que o magistrado civil poderia efetivamente aplicar as leis mosaicas caso assim o desejasse, a fim de manter a paz e a ordem. Não se exige do Estado, mas também não se o proíbe de impor leis mosaicas. Evidentemente, embora seja superior em comparação à visão moderna mais radical, tal visão, em si, sujeita a lei revelada de Deus às determinações do homem).

Essa abordagem fornece aos liberais todo o arsenal que necessitam. No momento em que o cristão utiliza o argumento de Horton (e de McCartney), ele essencialmente está dizendo: “Não posso legislar minha moralidade”. Ainda que concorde que toda legislação é inevitavelmente uma expressão da moralidade de alguém – como creio que Horton o faz –, o cristão, todavia, deve (nessa perspectiva) se recusar a defender sua moralidade cristã caso esta seja impopular para com os descrentes na sociedade.

No entanto, isso neutraliza toda a influência cristã na legislação, mesmo que os cristãos constituam a maioria da população. Na verdade, eu diria: especialmente se constituem a maioria da população, visto que, então, eles poderiam ter uma maior influência política. No entanto, nossos proponentes dos dois reinos afirmam que, mesmo nesse caso acima citado, os cristãos deveriam permanecer em silêncio, a menos que os pagãos concordem com eles. Contudo, e no caso de os pagãos não somente não concordarem, mas, pelo contrário, defenderem práticas extremas e abomináveis? Novamente, os cristãos R2R devem permanecer mudos e sofrer o crescimento e prevalecimento dessa sorte de pecados ao seu redor, os quais, por sua vez, serão consagrados nos códigos da lei civil. E, com efeito, isto é o que de fato sucedeu na terra natal da doutrina dos R2R: a Alemanha.   

A hermenêutica da bestialidade na vida real

Devo admitir: até me deparar com um artigo jornalístico esta semana, não tinha conhecimento que a bestialidade havia sido legalizada na Alemanha desde 1969. E o que é mais chocante – é algo aparentemente popular. De acordo com um ativista que “vive com seu cachorro”, há mais de 100.000 zoófilos na Alemanha. Um grupo de interesse atualmente luta para estabelecer sanções penais sobre o ato: uma multa de €25.000 (R$ 93.000). Talvez o fato não nos surpreenda, mas esse grupo se opõe ao sexo com animais não porque tal prática seja iníqua, pervertida, doentia ou algo assim. Antes, é fruto de uma preocupação para com o “bem-estar animal”.

O Dr. Horton possivelmente ficará orgulhoso desse grupo de oposição, já que este não luta por uma posição “distintamente cristã”, porém, pelo contrário, apresenta um argumento “que pode apelar à consciência dos não-cristãos”. Por outro lado, há supostamente um “lobby” ativo a favor da permanência da bestialidade legalizada. Um “lobbyista” exprobou a emenda restritiva à “legislação de bem-estar animal” argumentando que... (bem, provavelmente tu já adivinhaste) ... é errado alguém impor sua moralidade sobre as demais pessoas por meio da lei civil. Conforme suas palavras: “A simples moralidade não tem lugar na lei”.

O mais ferrenho defensor do R2R não teria dito melhor. É quase como se os liberais e pagãos doentios aprendessem a doutrina dos dois reinos e, então, criassem estratégias para usá-la contra os cristãos. Horton e outros argumentam que, para o cristão, “o amor ao próximo” deve substituir as leis veterotestamentárias como a base a partir da qual os julgamentos acerca das questões civis modernas serão realizados. No entanto, também neste ponto a “zoofilia” está mais do que disposta a altercações. A própria organização do ativista, ZETA (Zoophiles for the Ethical Treatment of Animals, Zoófilos em Prol do Tratamento Ético dos Animais), adota a Regra de Ouro como um de seus “princípios”: “1º. Conceder aos animais a mesma bondade que se gostaria de receber”.

Isto nos faz retornar mais uma vez à necessidade para critérios objetivos para o “amor”, tanto no que diz respeito: 1) às ações que deverão ser consideradas como crimes civis; quanto 2) aqueles crimes civis que deverão ser punidos na sociedade. Nenhuma hermenêutica, a não ser a teonomia, pode responder essas questões objetivamente a partir do ponto de vista da Palavra de Deus. A recusa em consentir à própria possibilidade da teonomia permitiu, e justificou, que as maiores perversões e tiranias governassem no domínio civil desde a introdução das doutrinas do R2R na época da Reforma[3]. Voltaremos a isto num futuro artigo...

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Nota:
[1] Gary North, Westminster’s Confession: The Abandonment of Van Til’s Legacy (Tyler, TX: Institute for Christian Economics, 1991), página 211.
[2] Citado em: Gary North, Westminster’s Confession, página 213.
[3] Não levo em conta aqui as perspectivas precursoras à versão de Lutero, embora praticamente as mesmas objeções pudessem ser levantadas contra a maior parte delas (Nota do Autor).

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Autor: Joel McDurmon
Fonte: American Vision
Tradução: Fabrício Tavares de Moraes
Divulgação: Bereianos
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Desfazendo Alguns Discursos Progressistas (Parte 2)

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Uma resposta ao artigo: Dez Coisas Que Você Jamais Poderia Votar a Favor Enquanto Segue a Jesusparte 8 – “Pena de Morte”.

O autor trabalha esse ponto com um grande problema teórico: Busca desenvolver argumentos contra a pena de morte, a partir de uma ética cristã, mas não apresenta nenhum baseado na mesma. Ora, a ética cristã, diferente da secular[1], não é apenas baseada na conduta humana, mas "harmoniza-se com um padrão absoluto, divino[2]". Se a ética cristã é baseada em um padrão divino, a consequência lógica é encontrar esse padrão onde ele foi revelado: As Sagradas Escrituras[3]. Com isso, é claro que, para uma ética cristã coerente, a revelação divina deve ser usada como base e padrão.

Para entender o que a Bíblia diz sobre o tema, analisemos três textos chaves, dois do Antigo Testamento e um do Novo Testamento[4]:

"Se alguém derramar o sangue do homem, pelo homem se derramará o seu; porque Deus fez o homem segundo a sua imagem" - Gênesis 9.6

O versículo diz respeito ao pacto planejado, estabelecido e confirmado por Deus com Noé, que não exigia nenhum ato do mesmo para permanecer firme, pois foi imposto soberanamente pelo Senhor. Esse pacto tem duração eterna[5] e universal, pelo fato de ter sido feito com Noé e seus descendentes[6]. O arco-íris é a maior prova dessas qualidades citadas.

Ideologia de Gênero: Uma Questão Teológica e Biopolítica

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Em toda história da Igreja Cristã podemos pontuar vários ensinos contrários ao que a igreja professa. Isso é um fato inegável. O Cristianismo sempre sofreu oposição ideológica. A Ideologia de Gênero que tem sido pauta para os últimos debates sócio-educacionais é um assunto que precisa ser refletido com seriedade pela igreja e não pode ser ignorado, pelo simples fato de ser uma proposta alteradora do modelo bíblico para a sexualidade humana, a saber, homem e mulher (Gn 1.26-28). Ao me referir ao discurso hipermoderno sobre gênero, estabeleço uma ligação própria com a heresia, o termo usado por heresia é o que a Igreja tem professado no decorrer dos séculos, uma distorção da verdade declarada nas Escrituras de forma axiomática. A heresia é um desfoque da fala divina, é uma corrupção do ensino bíblico; e questão do gênero defendida por correntes psicológicas, antropológicas e sociológicas é uma distorção clara e confrontadora do que diz a Bíblia a respeito do homem e da mulher e de seu comportamento sexual[i].

De fato e de verdade, as teorias relativas à ideologia de gênero (também conhecidas como teoria queer ou gender) são desdobramentos de ideologias sociais referentes ao feminismo[ii], homossexualidade e demais distorções do comportamento sexual humano. O processamento de tal ideologia na sociedade é desastrosa e extremamente prejudicial. Crianças de ambos os sexos usarem o mesmo banheiro na escola? Deixar que a criança descubra suas inclinações sexuais sem nenhum molde – seja da religião, seja da moral vinda dos pais, seja de um padrão social ocidental – é uma violação da liberdade e não uma proclamação da liberdade. A intenção claramente é destruir a autoridade estabelecida, e isso é quebra do quinto mandamento descrito no decálogo. É força empregada por ideologias de gênero, obviamente ligadas a questões de hegemonia nas ideias biopolíticas. É um poder ideológico que dá cabo a uma guerra cultural para erradicação da moralidade cristã estabelecida no Ocidente. É um desmonte cultural em relação à função do homem e da mulher na sociedade e uma nova formulação da ideia de família, obviamente contrária a Palavra de Deus.

De um ponto de vista teológico podemos dizer que a ideologia de gênero é uma negação da realidade, uma negação da verdade e uma negação da autoridade. A realidade de que a criança nasce com um sexo e gênero é o sinônimo e não algo a ser escolhido, essa negação da realidade é uma violação do mandato social descrito em Gênesis 1. Onde lemos que o homem e a mulher deveriam procriar, assim a humanidade só se multiplicaria pelo cumprimento do mandato social, e para que isso acontecesse a sexualidade criada por Deus deveria ser cumprida como no plano original do Criador e não no exercício da homossexualidade ou na neutralidade do sexo. Deus criou o homem para se relacionar sexualmente com a mulher e não com outro homem (Rm 1.24-27). O feminismo em seu formado agressivo de desestabilização da autoridade masculina e exaltação da independência da mulher de toda opressão do sexo oposto também é uma distorção do que dizem as Escrituras sobre o papel da mulher no casamento e o papel do marido (veja Ef 5. 22-33), a submissão da mulher ao marido é estabelecida pelo próprio Deus em sua Palavra e todo ensino contrário é uma afronta a vontade do Criador.

É triste observarmos quietos a invasão diabólica de tal ideologia, que em muitos casos é inserida em materiais didáticos e paradidáticos aprovados pelo MEC. A ideologia de gênero tem sido subliminarmente colocada nestes materiais, demonstrando o tamanho da covardia e sordidez de gente que se diz educador e implanta monstruosamente na mente de crianças, padrões de reconstrução moral e social[iii]. Obviamente, nosso objetivo aqui não é examinar historicamente e exaustivamente a questão da ideologia, mas, direcionar para uma pesquisa mais ampla, diga-se de passagem, urgente principalmente para pastores, pais e professores cristãos.

A urgência e a importância de refletirmos a partir de uma visão teológica sobre o assunto é sem precedentes, nenhum cristão que esteja envolvido nos campos de conhecimento está autorizado pela Palavra de Deus a pensar autonomamente sobre quaisquer assuntos envolvendo a criação de Deus. Com isso não estou defendendo a falta de liberdade científica, mas, pontuando um princípio cristão (1 Co 10.31) que tudo que fazemos deve ser para a glória de Deus. Nossa teologia deve atender a questões sociais e devemos cultivar uma mente bíblica para o exercício de uma cosmovisão redentora, uma percepção de mundo que aponte para Cristo, o Cristo total, o Cristo que é um cerne da teologia, da revelação, da Criação e da ordem devida ao mundo criado.

Desenvolvermos uma reflexão social a partir de bases bíblicas e teológicas é ordem das Escrituras (Êx 20.1-3). O professor Felipe Nery, fundador do Observatório Interamericano de Biopolítica relata em um de seus artigos que “... na Alemanha. Dois pais são presos por não permitirem que seus filhos compareçam às aulas de sexo na escola”. E continua:

O caso dos pais presos na Alemanha por não aceitarem que sua filha fosse doutrinada pela cartilha de “gênero” ilustra bem a índole dos promotores da nova moral mundial. Trata-se de um grupo claramente totalitário. Embora use com frequência termos como “liberdade”, “tolerância” e “diversidade”, aqueles que ousam discordar de suas teorias mirabolantes são imediatamente punidos, ora por meio da mentira e da difamação, ora por sanções legais – como é o caso de Eugen e Luise Martens.
A atitude desse casal, no entanto, não é uma simples “reação”, como se os dois estivessem preocupados apenas em “desmascarar” a ideologia de gênero, ou fossem meros soldados preocupados em matar o inimigo. Talvez, Eugen e Luise Martens, pais de nove filhos, nem se interessassem muito por toda essa discussão, por essa que é realmente uma guerra cultural. A situação com que se depararam, no entanto, obrigou-os a agir. Não por ódio ao adversário, mas por amor àquilo que tinham de mais valioso: os seus filhos[iv].

Felipe Nery completa dizendo:

Algum pai poderia imaginar-se na mesma situação? A escola do próprio filho, que ele criou com tanto amor, dedicação e cuidado, querendo incutir em sua mente toda “variedade” de práticas sexuais... O que fazer? Qual atitude tomar? Ora, o gesto de Eugen e Luise parece bastante compreensível. É o mínimo que qualquer pai e qualquer mãe podem fazer para preservar a integridade e a pureza de seus filhos. Contudo, o Estado quer essas crianças para si, quer educá-las do “seu” jeito, quer implantar nelas as suas ideias, ainda que sejam essas, absurdas, citadas acima. É o que alguns parlamentares também absurdamente defendem, quando trabalham pela implantação da ideologia de gênero em nosso país. Filhos doutrinados, pais encarcerados – é este o futuro de uma nação que mina a célula-base da sociedade, a família, e entrega as suas crianças nas mãos do Estado. Eugen e Luise Martens representam a resistência dos homens de bem de todo o mundo, que não querem ver os seus filhos sequestrados de suas mãos, para serem manipulados por um Estado imoral e por uma ideologia depravada. Eugen e Luise lembram, com sua atitude, que os pais, por serem os transmissores da vida aos filhos, devem ser reconhecidos como seus primeiros e principais educadores, e que essa função é essencial, insubstituível e inalienável. Eugen e Luise não negam a importância da educação sexual, mas recordam que esta deve ser dada fundamentalmente pelos pais, e não em oposição aos seus princípios e valores[v].

Portanto o que nos resta quanto cristãos? Com certeza, não um conformismo com tamanha calamidade moral e social que nos cerca, não um isolacionismo irresponsável para com nossa confissão de fé e para com a missão que nos foi dada (Rm 12.1-2). Finalizo com um grandioso texto da Escritura que me faz refletir sobre nossa postura:

"Destruindo os conselhos, e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo..." (2 Coríntios 10:5)

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Notas:
[i] Recomendo ao leitor para aprofundamento do assunto, principalmente para um alerta sobre a prática de ensino nas escolas sobre a questão gender (gênero), o site do Observatório Interamericano de Biopolítica que tem discutido de forma competente sobre o assunto de gênero (http://biopolitica.com.br/)
[ii] Para esclarecimentos históricos a respeito da origem e desdobramentos da questão recomendo o livro  - Gender, Quem és tu? Sobre a ideologia de gênero, escrito por Olivier Bonnerwijn, editora Ecclesiae.
[iii] Citação do meu artigo no blog Electus – Ideologia de Gênero, a negação da autoridade, da realidade e da verdade. http://blogelectus.blogspot.com.br/2015/10/ideologia-de-genero-negacao-da.html#.V0cL_jUrLIU
[v] Ibdem.

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Autor: Thomas Magnum
Fonte: Electus
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Ética e a pena de morte



Embora o texto [Gênesis 9.6] proíba terminantemente tirar a vida humana e ordene também terminantemente que se tire a vida de qualquer um que derrame sangue, podemos supor que a expressão é uma hipérbole e que o texto fala de tirar a vida de pessoas inocentes. Isso ocorre porque a Lei determina que se tire a vida de alguém em alguns casos, como homicídio doloso (Êx 21.12-16), mas não no caso de homicídio culposo, isto é, sem a intenção de matar (Nm 35.6-34).

O princípio da lei do talião (i.e., vida por vida) fica esclarecido nos mandamentos que Eu Sou dá ao povo da aliança acerca do homicida (Nm 35.16-21) e no ensino paulino sobre o cristão e o Estado. No caso de homicídio culposo, o condenado é banido para uma cidade de refúgio, não para uma penitenciaria, até a morte do sacerdote (Nm 35.22-28). No entanto, no caso de homicídio doloso, aquele cometido com intenção de matar, exige-se a pena de morte. No NT, os cristãos não devem se vingar por nenhum mal que venham a sofrer, mas deixar que a ira de Deus vingue esse mal (Rm 12.19). Por sua vez, Deus estabelece o governo como seu ministro, um vingador que executa a ira sobre aquele que pratica o mal (Rm 13.4). O Senhor e Rei supremo municia as autoridades públicas com a espada, o instrumento de morte, para o castigo do malfeitores. A lei que diz: "Quem derramar sangue de homem, terá seu sangue derramado pelo homem" (Gn 9.6) é prova de que, como ministros de Deus, as autoridades públicas têm a responsabilidade de executar a pena de morte no caso de crime de morte. Essa é uma obrigação, não uma opção. Deus diz três vezes: "Cobrarei" (Gn 9.5).

O sangue inocente derramado no caso de assassinato tem de ser compensador: Deus exige prestação de contas por esse sangue, porque ele é vingador (2Rs 9.26; Sl 9.12; Hb 12.24), mas os textos não especificam como. O sangue inocente contamina o culpado e é expiado pela morte do assassino (1Rs 2.32) ou mediante propiciação (Dt 21.7-9). Mesmo no caso de homicídio culposo, o homicida não pode ser posto em liberdade antes da morte do sumo sacerdote. Se o sangue inocente não for expiado, Deus trará condenação à terra (Dt 19.13; 2Sm 21; 1Rs 2.5, 6, 31-33). Se a pessoa que derramar sangue inocente não for castigada, a comunidade que se recusa a estabelecer a justiça será castigada por esse sangue derramado. Por causa do valor que tem a vida humana, por levar a imagem de Deus, e por causa da justiça exigida por derramar sangue inocente, Deus outorga à humanidade a autoridade judicial de impor a pena de morte. Isso demonstra mais uma vez que ele designou a raça humana para governar essa terra em seu nome. Essa autoridade é a base do governo organizado (Rm 13.1-7). Deus institui o lar antes da Queda, para criar uma sociedade em que o amor pode prosperar. Após o diluvio, ele institui o Estado para evitar o crime. Nahum M. Sarna diz: "A destruição do antigo mundo requer o repovoamento da terra e a correção dos males que trouxeram o Dilúvio. Dai por diante, a sociedade tem de estar firmada em bases morais mais seguras".

A lei tinha o cuidado de proteger quem era acusado falsamente. Eram necessárias pelo menos duas ou três testemunhas para se condenar alguém por um crime (Dt 19.15). Se uma testemunha cometesse perjúrio, o juiz responsável pelo processo deveria impor ao perjuro o mesmo que este pretendia fazer com o acusado, até mesmo a vida pela vida (Dt 19.16-21). Por fim, as próprias testemunhas tinham de participar da execução (Dt 17.2-7).

Entretanto, o assassino  que se arrepende de verdade de seu crime, deve ser tratado com misericórdia (Pv 28.13). Embora tenha tirado a castidade de Bate-Seba e assassinado o marido dela, Davi experimentou perdão com base nos atributos divinos e sublimes da graça, do amor inesgotável e da misericórdia (2Sm 12.13-14; Sl 51). O sangue de Cristo fez a propiciação definitiva por todos os pecados de todos os seus eleitos (Hb 7.23-28).

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Autor: Bruce K. Waltke
Fonte: WALTKE, K. Bruce. Teologia do Antigo Testamento: uma abordagem exegética, canônica e temática. São Paulo: Vida Nova, 2015, p.343-4. Adquira aqui!
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Pode uma feminista ser contra o estupro? Uma análise da imoralidade feminista

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Recentemente o feminismo, aproveitando o caso ocorrido com uma menina de 16 anos que foi estuprada, utilizou isso como um meio para se promover. Revoltando-se com o ocorrido e lutando pelo fim de uma suposta cultura do estupro.

E para começar com a resposta, eu diria que não. Uma feminista não pode ser contra o estupro. E acrescentaria dizendo que ela sequer pode ser contra qualquer tipo de banalidade que ocorre no mundo. O feminismo é, por si só, em sua própria origem, imoral, que permite toda e qualquer tipo de atrocidade humana.

Para isso, basta pensarmos nos pressupostos feministas. Pressuposições são as crenças mais básicas e gerais que alguém pode ter sobre Deus, sobre o homem e sobre o mundo. Geralmente elas não são ponderadas conscientemente, mas funcionam como a perspectiva a partir do qual um indivíduo observa e interpreta o mundo ao seu redor.

Ninguém nasce mulher: torna-se mulher.” Essa frase de Simone de Beauvoir pressupõe o existencialismo ateu de seu marido Jean-Paul Sartre. Segundo a visão de mundo de Sartre, Deus não existe. E por essa razão, o mundo e as pessoas não foram criados por Ele. Há aqui uma clara demonstração de suas crenças básicas sobre Deus, homem e o mundo.

Segundo Sartre, o “existencialismo se define como a crença de que a existência precede a essência.”[1] Ele utiliza o exemplo de uma tesoura para ilustrar a contraposição disso. Considere a tesoura como um objeto a ser fabricado; esse objeto foi fabricado por um artífice que se inspirou num conceito. Desse modo o objeto é produzido de certa maneira, visto que ela tem uma utilidade definida: cortar papel. Podemos assim afirmar que, no caso da tesoura, a essência precede a existência.

Ao concebermos um Deus criador, identificamo-lo como um artífice superior, e admitimos sempre que a vontade segue mais ou menos o entendimento e que Deus, quando cria, sabe precisamente o que está criando.”[2] escreveu Sartre. Dessa maneira, se concebermos que a existência precede a essência, teremos que excluir Deus da nossa cosmovisão.

Porque dizer isso “significa que o homem existe e só posteriormente se define. O homem, tal como o existencialista o concebe, só não é passível de uma definição porque, de início, não é nada: só posteriormente será alguma coisa e será aquilo que ele fizer de si mesmo. Assim, não existe natureza humana, já que não existe um Deus para concebê-la. O homem nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo: esse é o primeiro princípio do existencialismo.”[3]

Essas declarações de Sartre são a base, ou o pressuposto, no qual o feminismo se sustenta. Não há um Deus criador que criou e projetou a mulher com determinadas funções e papéis da sociedade. E indo ao ponto que a Behavoir propõe em sua frase: não há Deus para criar uma pessoa e dizer: está é mulher. A pessoa por si mesma decide ser o que quer ser.

Sartre não se satisfaz em eliminar Deus somente. Ele diz “que é necessário levar esse fato às últimas consequências. O existencialista opõe-se frontalmente a certo tipo de moral laica que gostaria de eliminar Deus com o mínimo de danos possível.”[4]

E que “o existencialista pensa que é extremamente incômodo que Deus não exista, pois, junto com ele, desaparece toda e qualquer possibilidade de encontrar valores num céu inteligível; não pode existir nenhum bem a priori, já que não existe uma consciência infinita e perfeita para pensá-lo; não está escrito em nenhum lugar que o bem existe, que devemos ser honestos, que não devemos mentir, já que nos colocamos precisamente num plano em que só existem homens. Dostoievsky escreveu: “Se Deus não existisse, tudo seria permitido”. Eis o ponto de partida do existencialismo. De fato, tudo é permitido se Deus não existe. Com efeito, se a existência precede a essência, nada poderá jamais ser explicado por referência a uma natureza humana dada e definitiva; ou seja, não existe determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade. Por outro lado, se Deus não existe, não encontramos valores ou ordens que possam legitimar a nossa conduta.”[5]

Sartre nos concedeu a resposta para a pergunta. E ela, claramente, é não. Se não há um Deus autoritário e absoluto que cria as pessoas, incluindo as mulheres, com propósitos específicos, então não há um Deus que dita as regras. Um Deus que diz que uma determinada prática é boa ou má. E as consequências dessa ética subjetivista são terríveis.

O subjetivismo nos diz que não temos nenhuma obrigação de concordar com o seu subjetivismo, ao mesmo tempo em que diz que ninguém tem a obrigação moral de fazer qualquer coisa. Se algo é bom porque uma pessoa considera que é boa, então a crueldade de uma pessoa pode ser tão boa quanto a generosidade de outra. As consequências do relativismo moral são absurdas! A existência de Deus é uma precondição para o conhecimento do bem e do mal.

Mas e quanto a sua luta pelo fim de uma suposta cultura do estupro? O termo foi desenvolvido a fim de mostrar como a sociedade culpava as próprias vitimas de abuso sexual e normalizava a violência sexual contra a mulher. O mesmo poderá ser dito aqui. Se não há um Legislador acima dos homens, então toda norma moral é reduzida a preferências pessoais.

As feministas podem se dizer contra essa cultura meramente por preferência pessoal. Mas quando surge um conflito entre aqueles que não têm um padrão absoluto em que se firmar, o conflito se resolve com base no que se mostrar mais forte. Em outras palavras, é a força que diz o que é certo. Isso acontece porque a sua preferência pessoal não tem nenhuma autoridade sobre a preferência pessoal do seu oponente.

Ao adotarmos um padrão relativo, a objeção aos maus tratos que os homens possam fazer às mulheres fica reduzida ao mesmo nível que nosso gosto particular por certos tipos de comida. Alguns gostam de chocolate, outros não; ou, alguns gostam de estupro, outros podem não gostar.

Segundo os pressupostos feministas, eu poderia neste momento me tornar uma mulher e querer ser uma estupradora de outras mulheres. E não há nada que me diga que isso é errado ou que eu não deva ser uma estupradora. Pois sou livre e não há valor algum que possa deslegitimar a minha conduta.

Somente se Deus existir será errado o maltrato de mulheres em todas as culturas e em todas as épocas, e Deus, no último dia, julgará esse pecado. É óbvio que chocolate e estupro não podem ser comparados. Mas quem não tem tal padrão não tem condições de negar esta comparação.

Por essa razão, toda vez que as feministas dizem que o estupro é errado, ou lutam contra a tal cultura do estupro, elas refutam a si mesmas. Porque pra isso é necessário pressupor um Deus que nos criou e que nos deu normas objetivas.

E se Deus nos criou, como reconheceu Sartre, sabia precisamente o que e para que estava criando, logo as próprias feministas se auto-refutam ao dizerem que temos obrigação de fazer ou não fazer determinada coisa. Portanto, o feminismo está refutado pela sua incongruência prática.

Na tentativa das feministas em dizer que a mulher não tem um papel definitivo na sociedade conferido por Deus, a consequência é tal que conseguem tirar a justificativa de ver o estupro como algo terrivelmente mal. Somente se não formos criados por Deus, poderemos dizer que eu é quem decido a minha essência. E caso isso aconteça, como bem reconheceu Sartre, não há valor ou ordem alguma para que eu possa condenar algo como mal.

Portanto, se você é uma feminista, submeta-se à finalidade para o qual Deus te criou. Pois Deus quando te criou sabia exatamente para o que estava te criando. Você foi criada a imagem e semelhança de Deus; e por essa razão, é incapaz de viver a sua ética subjetivista no mundo criado por Deus.

O fato é que os resultados do feminismo em querer excluir Deus da sociedade são desastrosos. Eles precisam pressupor Deus para manter a distinção de práticas certas e erradas. Elas lutam contra algo que necessitam para se manterem consistentes no que afirmam! Não que elas não afirmem a distinção de bem e mal, mas que elas só podem afirmar porque os pressupostos delas são falsos; e elas foram criadas por Deus para propósitos e fins específicos no mundo. Dessa maneira, eu me alegro toda vez que as vejo se revoltando contra algum ato de imoralidade; porque isso constitui como uma refutação de si mesmas e a afirmação da criação de Deus.

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Notas:
[1] ”O existencialismo é um humanismo”, SARTRE, p.4.
[2] Ibid, p.4.
[3] Ibid, p.4.
[4] Ibid, p.6-7.
[5] Ibid, p.7.

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Autor: Gabriel Reis
Fonte: Gospel Prime
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Revelação e Futuro

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Excerto da palestra X, "Revelação e Futuro", do livro A Filosofia da Revelação, de Herman Bavinck, a ser publicado em breve pela Editora Monergismo. Tradução de Fabrício Tavares de Moraes, co-editor do blog Bereianos.

A doutrina de que o homem está corrompido pelo pecado, não podendo, portanto, santificar e salvar a si mesmo por meio de sua própria força é comumente considerada o erro mais terrível de todos; a autonomia e a autosoteria rejeitam toda forma de heterosoteria. Mas, ao mesmo tempo, quando toda transcendência e metafísica são negadas, o ser humano é exaltado acima de seu estado habitual, passando a ser identificado com o divino. A tarefa super-humana de transformar a presente sociedade num estado de paz e alegria requer mais do que simplesmente o poder humano; se Deus não opera a mudança, a esperança pode ser cultivada somente quando o poder do homem é divinizado. De fato, essa é a ideia central daquela teoria filosófica que Strauss desenvolveu mais claramente, a saber, que o infinito não é realizado num único homem, mas somente na humanidade; esta, sendo a verdadeira unidade das naturezas divina e humana, o homem transformando-se em Deus, o Espírito infinito descendo à finitude, a criança da visível mãe-natureza e do invisível pai-espírito, o realizador de milagres, o salvador do mundo. Aquilo que a humanidade confessa com relação a Cristo e declara em sua ideia de divindade é simplesmente um símbolo daquilo que ela encontra em si mesma, daquilo que ela é. Teologia é essencialmente antropologia; o culto a Deus é a humanidade adorando a si mesma. Comte, dessa forma, foi bem consistente quando substituiu a adoração a Deus pela adoração ao homem.

Essa deificação do homem prova claramente que nenhuma escatologia é possível sem metafísica. Mas isso é demonstrado ainda mais claramente por outro fato. A cultura, a ética, o idealismo – todos indo atrás de um objetivo – devem sempre buscar uma aliança com a metafísica. Kant reverteu as relações entre esses elementos, e tentou tornar a moral totalmente independente da ciência; mas sobre essa moralidade, o filósofo construiu novamente uma fé prática numa providência divina. De semelhante modo, qualquer sistema ético que aspira ser a verdadeira ética e apresentar um caráter normativo e teleológico, sem se tornar uma simples descrição de hábitos e costumes, se vê forçado a buscar o apoio da metafísica. Se o homem deve se empenhar por um ideal, ele pode ganhar coragem apenas pela fé que tal ideal é o ideal do mundo inteiro e está baseado efetivamente na realidade. Ao banir a metafísica, o materialismo não possui mais um sistema ético, passa a desconhecer a distinção entre bem e mal, não possui mais lei moral, nem dever, nem virtude, nem sumo bem. E quando a filosofia humanista imanentista de Natorp, Cohen e outros procura basear a ética exclusivamente no imperativo categórico, ela perde toda segurança de que o “deveria” irá algum dia triunfar sobre o “é”, e o bem sobre o mal. Independentemente daquilo que se crê ser o bem maior, este é ou uma imaginação, ou é e deve também ser o supremo e verdadeiro ser, a essência da realidade, o sentido e destino do mundo, e, assim, também o vínculo que mantém unidos todos os homens e nações em cada parte do mundo, salvando-os da anarquia.

O cristão, por sua vez, encontra a segurança do triunfo do bem em sua confissão da vontade soberana e todo-poderosa, que, embora distinta e exaltada acima do mundo, cumpre, todavia, por meio dele, Seus santos desígnios, e, de acordo com estes desígnios, conduz a humanidade e o mundo à salvação. Mas aquele que rejeita essa confissão não escapa, contudo, da metafísica. Soa bem chamar o homem de “o rebelde na natureza”, o qual, quando esta diz: “Morra!”, responde: “Eu continuarei vivendo”. Porém, com toda sua sabedoria e força, o homem, ao final das contas, é impotente contra a natureza. Eis o motivo porque, mesmo quando o teísmo é negado, a verdadeira realidade – a vontade do mundo que se encontra oculta por detrás dos fenômenos, manifestando-se muito imperfeitamente – é pensada como análoga àquela do homem, e especialmente como uma vontade eticamente boa. Não obstante toda sua autoconfiança e autoglorificação, o homem está, em toda cosmovisão possível, incorporado num todo maior, sendo, portanto, explicado e confirmado por essa totalidade. A metafísica, que é a crença no absoluto como um poder sagrado, sempre constitui o fundamento da ética.

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Autor: Herman Bavinck
Fonte: A filosofia da revelação
Tradução: Fabrício Tavares de Moraes
Divulgação: Bereianos
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