A Antropologia Cristã e o Problema Mente - Corpo

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A relação entre o corpo e a alma tem sido tema de muitos debates teológicos. Historicamente na Teologia Cristã há três principais perspectivas sobre a relação alma-corpo: (i) Tricotomia: que vê o homem como constituído de três componentes. (ii) Dicotomia: que entende o homem como constituído de um componente material e outro espiritual e (iii) Holismo: entende o homem como tendo uma substância material (corpo) que é ativada por uma energia vital (espírito). Tais perspectivas buscam explicar quais os componentes que constituem a natureza humana.

Os tricotomistas creem que o ser humano é formado de duas dimensões, uma física (corpo) e outra espiritual (alma e espírito). Para eles, o espírito e alma são distintos, sendo a natureza humana constituída de três componentes, a saber, espírito, alma e corpo. Para os tricotomistas, a alma é definida como os aspectos imateriais da mente, das emoções e da vontade resultantes da união entre o espírito e o corpo. Este último seria o componente mortal do homem, enquanto o espírito pode ser definido como componente imaterial do ser humano em que reside sua faculdade espiritual, inclusive a consciência. Para os tricotomistas, a alma é uma substância que está presente tanto no ser humano, quanto nos animais, estes últimos, porém, não possuem espírito. [1]

Os dicotomistas, por sua vez, acreditam ser a natureza humana constituída de corpo e alma - espírito. Para eles, espírito, alma e mente são termos intercambiáveis, que não diferem em significado. Tanto o termo “espírito”, quanto o termo “alma” se referem a um mesmo elemento imaterial. Para os dicotomistas, a mente do homem é incorpórea, o que significa dizer que ela é de uma substância distinta do corpo. Alma ou espírito é a parte tanto emocional, quanto intelectual e espiritual do homem. Dessa forma, o “coração é intelectual”. Emoção e intelectualidade estão, para um dicotomista, ligadas de forma inextricável. [2]

Por fim, temos a opinião holística sobre o ser – humano. Para os holistas, a alma é o homem enquanto ser vivo e, o espírito é a centelha da vida, a energia vital que vivifica o corpo, assim como a eletricidade acende uma lâmpada. Desse modo, há apenas uma substância ontológica no ser humano, e para que a vida (alma) exista, é necessário que a energia vital (espírito) esteja ativa no corpo humano. Do mesmo modo, alma e espírito não vivem sem um corpo, de modo que a morte é a cessação da existência. Esta posição é adotada por poucos cristãos, sendo mais comum nas seitas como nas Testemunhas de Jeová[3] e no Adventismo do Sétimo Dia[4].

Há na Filosofia da Mente diferentes posições sobre a relação mente/corpo. Os materialistas reducionistas acreditam que mente e cérebro ou mente e corpo são idênticos: estados mentais são estados cerebrais. Para os dualistas de substância mente e corpo são duas substâncias distintas, já para o dualismo de propriedade, eles são duas propriedades de uma mesma substância. O funcionalismo entende que estados mentais são apenas um “modo de funcionamento” que não depende da estrutura na qual ocorre. Até mesmo máquinas podem pensar! O emergentismo entende que a mente emerge do cérebro assim como a solidez emerge do gelo. No entanto, no final das contas, tanto o materialismo reducionista, quanto o dualismo de propriedade, o funcionalismo e o emergentismo são antropologias materialistas, pois não admitem a presença de uma substância imaterial no homem.

O mesmo pode ser dito em relação à antropologia holista. Ao considerar que o homem é apenas matéria (corpo) e energia (espírito), o holismo acaba caindo numa visão materialista da natureza humana. O materialismo, ao reduzir o homem a um amontoado químico e os pensamentos a um fluxo de elétrons, está em forte oposição à antropologia cristã que realça a dignidade humana e sua dimensão espiritual. Os cristãos entendem que o homem é mais do que um mero amontoado de células.

Os materialistas assumem, por fé, uma série de pressuposições anticristãs. Presumem que a mente é material, que o fato de mente e cérebro funcionarem juntos significa que eles são a mesma coisa (ou que a alma é uma propriedade, funcionamento ou energia do cérebro) e supõem que duas substâncias de naturezas diferentes não podem interagir entre si. Quanto a este último ponto, na medida em que o material e o imaterial possuem coisas em comum (a existência, por exemplo), não há motivo para assumir uma postura materialista com base na suposição de que substâncias materiais e imateriais não podem se relacionar. [5]

Enquanto o problema com o holismo é que ele desemboca em materialismo, o problema no tricotomismo está em fazer uma distinção entre a dimensão racional (mente – alma) e a dimensão espiritual. A implicação dessa distinção entre a alma e o espírito é a de que Deus não se relaciona com o homem através da mente racional, mas por meio de uma dimensão não-racional superior ao intelecto. Essa visão é inconsistente com a visão cristã de que a fé é racional. Os tricotomistas geralmente citam Hebreus 4.12 e 1 Tessalonicenses 5.23, mas o intuito desses textos é destacar aspectos do homem, não enumerar as substâncias que compõem a natureza humana.[6]

Assim, a única visão coerente com uma perspectiva bíblica e cristã sobre o assunto, em oposição ao materialismo do holismo e à divisão fé/razão da tricotomia, é a de que o homem é composto por apenas duas partes, o corpo (a substância material) e a alma ou espírito (o elemento espiritual). Alma e espírito, na Bíblia, são termos que servem para designar o mesmo elemento espiritual sob dois pontos de vistas distintos. [7] 

A dicotomia é o ponto de vista bíblico sobre o assunto. Lemos que a alma sobrevive à morte do corpo (Mateus 10.28), que o espírito se separa do corpo material na morte (Eclesiastes 12.7), que o homem possui corpo e espírito (1 Coríntios 5.5; 7.1, 34) e que sem o espírito o corpo está morto (Tiago 2.26). De igual modo assevera a Confissão de Fé de Westminster: “Os corpos dos homens, depois da morte, convertem-se em pó e vêm a corrupção; mas as suas almas (que nem morrem nem dormem), tendo uma substância imortal, voltam imediatamente para Deus que as deu.” (CFW 32.1)

Além do mais, que somos corpo e alma, é uma verdade arraigada na nossa consciência. Esse é o senso comum dos homens [8]. Todo homem tem um “ego cogito” que transcende a matéria. Materialistas argumentam, no entanto, que a consciência universal do ego puro não passa de uma ilusão produzida pela constituição material do nosso cérebro. Esse argumento é autodestrutivo – se há ilusão logicamente tem de haver um “quem” (ego) a ser iludido. Independente da análise que façamos da matéria, sempre haverá um “ego” que transcenderá o objeto de análise. [9]

Parece claro, a partir deste esboço bíblico e filosófico, que o homem é composto de alma e corpo, o que aproxima a antropologia cristã do “dualismo de substância” ou “dicotomia”. Foge ao escopo deste artigo afirmar mais do que isso, ou especular mais sobre essa natureza antropológica. Apesar da linguagem de “substância”, é necessário que purifiquemos esse conceito do hilomorfismo aristotélico e da ontologia essencialista grega. Embora se faça uso de tal terminologia filosófica, nossa compreensão da natureza humana pode e deve ser entendida com base na antropologia bíblica. Não é necessário retratar “mente” e “corpo” como duas entidades substancialistas que se interagem e é preciso asseverar que o homem é uma totalidade, uma unidade psicossomática.[10] 

Purificados tais conceitos das noções essencialistas da ontologia grega, suficiente será afirmar que o homem é corpo e alma conforme ensina a Escritura e a consciência comum dos homens.

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Notas:
[1] Stamps, D. Bíblia de Estudo Pentecostal. pp. 979-980.
[2] Cheung, V. Teologia Sistemática, pp.97-110. Disponível em:
http://www.monergismo.com/textos/livros/teologia_sistematica_completa_cheung.pdf
[3] Testemunhas de Jeová. O que a Bíblia Realmente Ensina? Cesário Lange: Associação Torre de Vigia de Bíblia e Tratados,  2015. pp.208 – 211.
[4] White, E. O Grande Conflito, p.304.
[5] Geisler, N. Teologia Sistemática 1, pp. 680 - 681.
[6]  Ferreira, F. & Myatt. Teologia Sistemática, pp. 416 - 418.
[7] Berkhof, L. Manual de doutrina cristã, pp 93-94.
[8] Hodge, C. Teologia Sistemática, p. 526
[9] Geisler, N. Teologia Sistemática 2, p.45.
[10] Hoekema, A. A Pessoa Total, Tricotomia ou Dicotomia? Disponível em: http://www.monergismo.com/textos/antropologia_biblica/tricotomia_hoekema.htm

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Autor: Bruno dos Santos Queiroz
Divulgação: Bereianos
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Série Credo Apostólico - Parte 9: A Remissão dos Pecados

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INTRODUÇÃO

“Creio... na remissão dos pecados”

A mensagem de Cristo é boa nova por nos comunicar que somos perdoados por Deus. Mas, a grande questão é: porque precisamos ser perdoados?

Precisamos receber perdão porque somos transgressores da Lei de Deus. Nosso estado de rebeldia teve inicio quando Adão e Eva decaíram do estado de graça, desobedecendo uma ordem expressa do SENHOR. Depois da Queda, a humanidade continuou sendo a imagem de Deus, só que manchada pelo pecado. Como uma folha em branco que depois de amassada ela continua branca, só que toda amarrotada, perdeu sua originalidade, a sua beleza. Em Tiago 3.9 diz sobre a imagem de Deus, e o “Homem” ali no grego é anthropos que quer mostrar que toda a humanidade – logo, toda a humanidade tem a imagem de Deus só que manchada pelo pecado.

Quando obtemos o perdão pelos nossos pecados, isso é uma preciosa dádiva, pois, não éramos bons ou amáveis aos olhos do Pai, ao invés disso, nosso estado era de depravação total: Ef 2:3; Rm 3:12; Jo 8:34. Nossa consciência estava cativa aos desejos carnais. Vivíamos acorrentados pelos prazeres mundanos e não dávamos um passo sequer na direção de Deus. Estávamos imundos e nos sujávamos ainda mais.

O objetivo deste texto é demonstrar a preciosidade da remissão de nossa pecaminosidade.

SOMOS TODOS DEPRAVADOS

Na era do politicamente correto, falar que o homem é pecador soa agressivo e ofende os ouvidos sensíveis de uma geração mimada e que tem “fé em si mesma”. Mas devemos ser bíblicos e demonstrar que ninguém é bom. Como diz o texto sagrado: Não há um justo sequer (Rm 3:12).

A teologia reformada cunhou o termo Depravação Total para expressar o miserável estado de pecaminosidade. Todo homem caído é depravado desde o nascimento, e o termo total não quer dizer que ele chegou ao limite desta depravação, acreditem, o poço da iniquidade é bem fundo. A totalidade desta depravação é ensinada pelo apóstolo Paulo em sua, digamos, antropologia.

Paulo utilizou sete termos para descrever os aspectos do homem natural/decaído, são eles: alma (psychç); espírito (pneuma); carne (sarx); corpo (sôma); coração (kardia); mente (nous); e consciência (syneidçsis). Veremos abaixo a forma pela qual o pecado afeta cada uma dessas partes, fazendo com que o ser humano, em sua totalidade, seja depravado ao ponto de ser controlado pela intensa e vibrante vontade de pecar.

- Alma (psych): este é o termo antropológico menos citado por Paulo; existem 13 menções, apenas. Quando usado, psych refere-se à vida humana. Em Romanos 2:9, Paulo vincula a alma humana à prática do mal. No entanto, isto não quer dizer que a alma humana seja má em si mesma, mas, por fazer parte do ser humano, está diretamente envolvida na condição geral pecaminosa do homem. Já em 1 Coríntios 2.14, o termo psychikos (material, natural) é utilizado como referência ao homem não regenerado, contrastando com pneumáticos (espiritual).

- Espírito (pneuma): embora seu uso mais comum seja referente ao Espírito Santo, pneuma, na teologia paulina, também é parte inerente ao ser humano. Quando, em 1 Coríntios 2:11, o apóstolo fala no “espírito do homem”, fica difícil de aceitar que o homem recebe o pneuma após a conversão. Mais coerente, é considerar que o pneuma está desativado pela degeneração, e quem o reativa é o Espírito de Deus, no processo de conversão/regeneração. Assim, podemos entender pneuma como sendo a mais elevada representação da natureza humana. Por si mesma, essa natureza não é boa nem má; ela torna-se boa ou má através da influência dominante. Sendo assim, o cristão regenerado tem a natureza sob influência do Espírito Santo, tornando-se, por fim, bom. Em contrapartida, o não regenerado continua escravo do pecado, sendo mal em sua essência depravada.

- Coração (kardia): Paulo utiliza kardia para descrever o local onde nasce a concupiscência dos homens e sua insensatez (Romanos 1:21 e 24). Não é o coração que é insensato, é o homem, com a sua degeneração moral, que o faz proceder deste modo. Para Paulo, em alguns casos, o coração é o centro das emoções, e, em outros, significa a pessoa, em sua totalidade. Ele dirá, ainda, que é no coração que recebemos a iluminação para enxergarmos, através de Cristo, a glória de Deus (2 Coríntios 2:6 e Efésios 1:18).

- Mente (nous): este termo é sempre associado, nos escritos paulinos, ao homem. Diferentemente dos gregos, que faziam separação entre a mente e o restante do corpo como se ela fosse uma faculdade especial. Paulo utiliza nous de acordo com a tradição hebraica, abrangendo o homem como um todo, sem destacar o intelecto das demais partes. Novamente, nous não é boa e nem má em si mesma; seu posicionamento moral vai sofrer a influência do que for predominante – a carne ou o Espírito Santo. No caso dos crentes, suas mentes não são mais vis e cegas como a dos incrédulos (2 Coríntios 4:4), mas, sim, iluminadas e renovadas (Romanos 12:2 e 2 Coríntios 4:6).

- Consciência (syneidçsis): esta palavra pode ser definida como o conhecimento de uma ação acompanhado de uma reflexão. É uma palavra que apresenta o homem como um ser racional. A consciência sabe o que é certo. Todo homem, então, é extremamente ciente de seus atos. Em 1 Timóteo 4:2, Paulo fala da consciência “cauterizada” entre aqueles que são enganados pelos que ensinam doutrina de demônios. O fato de o homem saber o que é certo e não fazê-lo explicita a sua natureza degenerada.

- Carne (sarx): este é o termo mais empregado pelo apóstolo Paulo, e, também, o mais variado em seu sentido. Contudo, queremos frisar apenas o conceito antropológico, que remonta à fraqueza humana, devido à sua natureza terrena. Sarx e pecado estão ligados na teologia paulina ao ponto de o apóstolo a definir como fonte dos maus desejos (Gálatas 5:16). Indo mais além, a carne é uma produtora de pecados; e, em Gálatas 5:19, temos ideia dos seus produtos. Num contexto não cristão, sarx é predominante e conduz à morte (Romanos 7:5).

- Corpo (soma): finalizamos essa análise da antropologia paulina com soma. Aqui, deve-se fazer distinção entre corpo e carne. Sarx não sofre transformação; o corpo, sim, sendo liberto em Cristo da sua influência carnal. Este é o sentido da santificação na vida do cristão. A finalidade de soma é ser morada do Espírito Santo (1 Coríntios 6:19). A mudança de um corpo carnal para um corpo glorificado é progressiva, do mesmo modo que ocorre com a mente. Todavia, o corpo daquele que não for regenerado por Cristo será destinado à morte. Como está escrito: “Quem me livrará do corpo desta morte?” (Romanos 7:24). Por conseguinte, segundo Paulo, o homem natural não é espiritual. Essa é uma deficiência que só pode ser suprida pelo poder e atuação do Espírito Santo. Não há nada em nenhuma das epístolas paulinas - ou em algum outro ensino bíblico -, que destoe da DT.

PERDÃO VISÍVEL

Ao nos depararmos com esta realidade, passamos a valorizar mais a remissão dos pecados. Até porque ela nos foi oferecida gratuitamente. Não pagamos o preço, mas Cristo sim. Na cruz do calvário, Ele despachou de uma vez por todas o nosso estado de pecaminosidade e rasgou nossa dívida para com o nosso Criador.

“Quando vocês estavam mortos em pecados e na incircuncisão da sua carne, Deus os vivificou juntamente com Cristo. Ele nos perdoou todas as transgressões, e cancelou a escrita de dívida, que consistia em ordenanças, e que nos era contrária. Ele a removeu, pregando-a na cruz”. - Colossenses 2:13,14

Louvado seja Deus, pois por mérito do Cordeiro pascoal nós fomos reconciliados consigo. Ao nos contemplar, Deus nos enxerga lavados e remidos pelo sangue de seu Filho. Isto é uma realidade na qual todos os crentes que compõem a comunhão dos santos vivenciam. Este perdão é real. Devemos com júbilo repetir as palavras de Paulo aos crentes de Roma: “Portanto, agora já não há condenação para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1).

Sempre que a Igreja se reúne, este perdão é celebrado. Devemos então lembrar, que agora temos acesso ao trono da graça e fazer de cada culto uma festa solene, em louvor ao nosso amável Remidor. Além disto, Deus nos deixou dois meios de graça, que são os sacramentos da Ceia e do Batismo, para nos servir como sinais visíveis de nossa redenção. O Batismo, que é o rito de entrada para a Igreja nos comunica que somos lavados, e assim, nosso velho homem morre para que o novo reine por meio do Santo Espírito que habita em nós. Já a Ceia nos faz lembrar do sacrifício que nos conferiu a remissão de nossos pecados.

Ainda sobre os sacramentos, eles não são simples memoriais, vão além disso, nos auxiliando em nossa fé, nutrindo as nossas almas com a presença espiritual de Cristo e nos dando a vívida imagem do perdão que alcançamos pela bendita graça que vem de Deus.

CONCLUSÃO

Mesmo a nossa carne ainda prevalecendo em alguns momentos, devemos ter a noção de que nada muda o nosso status – adquirido por Cristo – perante o SENHOR. Na cruz, nossos pecados passados, presentes e futuros foram remidos. Todavia, isso não quer dizer que não necessitamos de constante confissão.

Nós não confessamos nossos pecados por medo de perder a salvação, pois não a conquistamos por nós mesmos. A confissão é resultado de uma pessoa que está em processo de santificação, e que reconhece, ao pecar contra Deus, que precisa estar em Sua dependência para vencer as tentações e vivenciar uma vida santa em gratidão a Cristo, para o louvor de Sua glória.

O Catecismo de Heidelberg (resposta a questão 56) elucida bem a questão. É com ele que finalizamos:

“Creio que Deus, por causa da satisfação em Cristo, jamais quer lembrar-se de meus pecados e de minha natureza pecaminosa, que devo combater durante toda a minha vida. Mas Ele me dá a justiça de Cristo pela graça, e assim nunca mais serei condenado por Deus”.

Soli Deo Gloria

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Autor: Pr. Thiago Oliveira
Divulgação: Bereianos


Leia também:
Série Credo Apostólico - Parte 1: Um Símbolo da Fé Cristã
Série Credo Apostólico - Parte 2: Pai, Todo Poderoso, Criador
Série Credo Apostólico - Parte 3: Jesus Cristo é o Senhor
Série Credo Apostólico - Parte 4: O Redentor no Espaço-Tempo
Série Credo Apostólico - Parte 5: O Padecimento do Cristo
Série Credo Apostólico - Parte 6: A Vitória do Cristo
Série Credo Apostólico - Parte 7: O Espírito Santo em Ação
Série Credo Apostólico - Parte 8: A Santa Igreja Universal 

Como lidar com sentimentos de culpa pelo pecado?

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Ultimamente vivi um período difícil no que diz respeito a sentimentos de culpa. Isso exigiu de mim uma busca por respostas nas Escrituras. Tais respostas trouxeram conforto ao meu coração. Assim, resolvi redigir este artigo a fim de compartilhar aquilo que aprendi para que outras pessoas também encontrem na graça alívio para a consciência pesada. Vou discutir alguns versículos e algumas doutrinas que são de grande relevância ao se lidar com sentimentos de culpa.

A Metapsicologia Ateísta de Freud

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Existem, pelo menos, três grandes teorias ateístas que têm moldado fortemente a cultura contemporânea em oposição à cosmovisão cristã: o marxismo, o darwinismo e o freudianismo. Já tratei da sangrenta e herética ideologia marxista aqui e também fiz pontuações sobre o cientificismo do evolucionismo (neo)darwinista aqui, cabe agora fazer algumas considerações sobre a psicanálise freudiana.

PRESSUPOSTOS DA PSICANÁLISE FREUDIANA

O freudianismo se sustenta sobre três pressupostos básicos[1]:

1. Ontologia materialista: Segundo a metapsicologia freudiana, a natureza do mental é material. Os estados mentais inconscientes são, em última instância, estados cerebrais.
2. Epistemologia naturalista: A psicanálise freudiana está alinhada com o naturalismo científico. O homem é concebido a partir de um ponto de vista antropológico naturalista como uma espécie biológica e a psicanálise é entendida como uma ciência natural.
3. Metodologia pessimista: A técnica utilizada pela psicanálise é a associação livre, na qual o sujeito articula livremente a fala e o analista fica em atenção flutuante atento, não à fala em si, mas as manifestações do inconsciente. O pessimismo terapêutico do freudianismo questiona a possibilidade da felicidade, pois há uma tendência natural no psiquismo (a pulsão de morte) para a autodestruição.

Ao assumir uma ontologia materialista e uma epistemologia naturalista, a psicanálise freudiana se coloca em contradição com a antropologia cristã, que concebe o homem como dotado de uma alma racional e imortal. O materialismo freudiano destrói o fundamento da dignidade humana ao conceber o homem como um mero amontoado de células. Além disso, por seu materialismo mecanicista, Freud compreende um determinismo psíquico segundo o qual as “escolhas” humanas em Freud são vistas como determinadas pela rede de conexões causais dos processos do inconsciente:

“Notarão desde logo que o psicanalista se distingue pela rigorosa fé no determinismo da vida mental. Para ele não existe nada insignificante, arbitrário ou casual nas manifestações psíquicas. Antevê um motivo suficiente em toda parte onde habitualmente ninguém pensa nisso; está até disposto a aceitar causas múltiplas para o mesmo efeito, enquanto nossa necessidade causal, que supomos inata, se satisfaz plenamente com uma única causa psíquica” [2]

Era de se esperar que dessa antropologia naturalista viesse um pessimismo terapêutico. A morte é o único destino que resta ao homem. Não há esperança de cura para as patologias psíquicas e os desejos do homem são insaciáveis. Com base na insaciabilidade desses desejos, Freud argumentava contra a existência de Deus dizendo que Ele era apenas uma projeção dos fortes desejos internos do coração humano. O indivíduo se sentiria impotente na idade adula criando uma figura paterna semelhante aquela que lhe protegeu na infância:

“A psicanálise dos seres humanos de per si, contudo, ensina-nos com insistência muito especial que o deus de cada um deles é formado à semelhança do pai, que a relação pessoal com Deus depende da relação com o pai em carne e osso e oscila e se modifica de acordo com essa relação e que, no fundo, Deus nada mais é que um pai glorificado.”[3]

O argumento de Freud poderia ser colocado assim: (1) Uma ilusão é uma projeção dos nossos desejos sem bases no real; (2) Deus é uma projeção dos nossos desejos sem bases no real; (3) Logo, Deus é uma ilusão. A verdade, por outro lado, é que a paternidade de Deus na Trindade é o arquétipo das paternidades humanas, não o contrário. [4] Freud comete uma falácia genética por querer invalidar a verdade de uma crença com base em sua possível origem.

Além disso, como o próprio Freud reconhece, a relação com o pai reserva uma ambivalência de amor/ódio em que a criança deseja a proteção do pai e ao mesmo tempo deseja a morte do pai. Neste caso, mesmo o ateísmo poderia ter alguma base no desejo. A rejeição de uma Autoridade Última poderia ter bases no desejo de que ninguém interferisse nas nossas vidas. Podemos observar também, como disse C.S. Lewis, que a existência em nós de um desejo que não pode ser saciado neste mundo indica a existência de uma Satisfação além mundo para esse desejo [5].      

COMPLEXO DE ÉDIPO E MORALIDADE

O freudianismo busca fornecer uma solução para o problema da moralidade no ateísmo. Se não existe Deus, como explicar a culpa que o homem sente por suas transgressões da lei? Nesse sentido, a psicanálise desenvolveu a ideia de um conflito universal chamado “Complexo de Édipo”.

Freud acreditava que existiram hordas primitivas nas quais o patriarca detinha sob o seu poder todas as mulheres da horda. Isso levou a uma revolta por parte dos filhos que mataram o pai. A morte do pai deu origem ao sentimento de culpa, pois os filhos alimentavam um sentimento ambivalente de ódio/amor pelo pai, visto que o patriarca também era fonte de proteção.

Ninguém teve coragem de substituir o lugar do Pai. O Pai foi substituído, então, por um símbolo religioso (totem) e foram instauradas duas leis: “Não matar o pai” (proibição do parricídio) e “Não tomar as mulheres da horda” (tabu do incesto). Essas duas proibições fundaram a civilização humana, de modo que essas leis estão presentes em todas as culturas: “A cultura totêmica baseia-se nas restrições que os filhos tiveram de impor-se mutuamente, a fim de conservar esse novo estado de coisas. Os preceitos do tabu constituíram o primeiro ‘direito’ ou ‘lei’.” [6]

Essa ocorrência fundante da cultura ocorre também em cada homem individualmente. Para Freud, a criança, desde o nascimento, experimenta vários prazeres sexuais. Primeiro ela se excita oralmente com o seio materno, depois com o prazer anal da defecação, até chegar a uma fase em que começa a teorizar sobre o pênis.

Toda criança acreditaria, a princípio, que o pênis é universal. Para o menino, tudo e todos possuem pênis, até que ele descobre que meninas não o possuem. Essa descoberta geraria uma angústia na criança que, imaginando que as meninas perderam seu pênis, teme perder o seu também. O menino teme ser castrado pelo pai e por isso passa a desejar que o pai morra para que ele possa ficar com a mãe.

A percepção e aceitação das diferenças sexuais anatômicas pela criança seria o que proporcionaria a formação de uma agência psíquica moral reguladora (superego) possibilitando que a criança se converta de um pequeno selvagem para um adulto civilizado. Civilizar-se, no entanto, exige o recalcamento dos desejos incestuosos pela mãe e do desejo da morte do pai, o que torna o homem civilizado um neurótico angustiado.

A consciência moral (superego), portanto, seria formada com a dissolução do complexo edípico. A agência de censura psíquica se construiria na infância a partir da relação com os pais:

“O longo período da infância, durante o qual o ser humano em crescimento vive na dependência dos pais, deixa atrás de si, como um precipitado, a formação, no ego, de um agente especial no qual se prolonga a influência parental. Ele recebeu o nome de superego. Na medida em que este superego se diferencia do ego ou se lhe opõe, constitui uma terceira força que o ego tem de levar em conta.” [7]

O Cristianismo, por outro lado, defende que todos já nascem com a lei gravada em seus corações. E, novamente aqui, a psicanálise freudiana está em oposição à antropologia cristã: “Os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os” (Romanos 2.15). 

Paulo está respondendo à pergunta: “Como os gentios poderiam ser culpados de negar o Deus verdadeiro e de quebrar a Lei, se Deus e sua Lei não foram revelados a eles como o foi a Israel?” Paulo responde isso dizendo que eles conhecem Deus e a Lei por meio da natureza, tanto externa, quanto interna. Portanto, eles são condenados com base na Lei objetiva de Deus gravada no coração humano. Paulo não tem em mente uma consciência subjetiva construída durante o desenvolvimento psíquico, ele tem em mente a consciência judiciosa que Deus implantou na natureza humana. 

Além disso, o pecado não pode ser reduzido a uma noção psicologista de “id”, nem a culpa deve ser entendida como um desprazer ocasionado pelo acúmulo de energias no aparelho psíquico. Biblicamente os pecadores são real e verdadeiramente culpados pelos seus pecados. 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A psicanálise freudiana é uma teoria materialista, naturalista, determinista e reducionista, cujos pressupostos estão em evidente oposição à Cosmovisão cristã. A concepção de moral da Psicanálise, como baseada numa instância psíquica formada com a dissolução do complexo edípico, é oposta ao ensino bíblico de que Deus imprimiu a lei na natureza do homem. Sendo assim, a metapsicologia freudiana, assim como a ideologia marxista e o darwinismo cientificista, é uma teoria ateísta.

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Notas:
[1] Pressupostos de algumas abordagens da Psicologia. Compactação que eu fiz do capítulo “Freud e a Psicanálise: Uma visão de Conjunto – Richard Theisen Simanke & Fátima Caropreso” do livro “História e filosofia da psicologia: perspectivas contemporâneas. Juiz de Fora: Editora da UFJF, 2012” organizado por Saulo de Freitas Araújo.
[2] 5 Lições de Psicanálise – Sigmund Freud.
[3] Totem e Tabu e outros trabalhos – Sigmund Freud.
[4] Teologia Sistemática I – Norman Geisler, CPAD, 2015, página 533.
[5] Deus em Questão: C.S.Lewis e Sigmund Freud debatem Deus, amor, sexo e o sentido da vida – Armand M. Nicholi Jr, páginas  55 e 56..
[6] O mal estar na civilização – Sigmund Freud.
[7] Esboço de Psicanálise – Sigmund Freud.

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Autor: Bruno dos Santos Queiroz
Divulgação: Bereianos
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Entre Calvino e Rousseau: O Ocidente e Sua Fragmentação no Multiculturalismo

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Há poucos dias, P. Andrew Sandlin escreveu um ensaio em seu blog argumentando corretamente que o problema americano não é a imigração, mas o multiculturalismo. De fato, os EUA é uma nação de imigrantes. Antes do marcusianismo[1] (que Sandlin chama de "marxismo libertário") e da Escola de Frankfurt, porém, todos os imigrantes, com maior ou menor dificuldade, sujeitavam-se à cultura e às leis americanas, enraizadas, nas palavras do teólogo, em um "protestantismo conservador genérico".

A imagem que se construiu daquele país no resto do mundo é falsa em grande medida. Vemos o comportamento de suas celebridades, as opiniões de seus jornais e o caráter de seus filmes como os verdadeiros representantes da cultura daquele povo, quando a realidade é outra muito diferente. Erik von Kuehnelt-Leddihn, austríaco, monarquista e católico conservador, enxerga uma essência muito peculiar do povo americano dentro da modernidade. Para ele, trata-se de um povo profundamente influenciado pelo calvinismo, que foi, por sua vez, uma espécie de "bote salva-vidas" do medievalismo. Em seu artigo "The Western Dilemma: Calvin or Rousseau?" [O Dilema Ocidental: Calvino ou Rousseau?], ele escreveu:

"Se nós chamarmos os estadistas do fim do século XVIII de Founding Fathers of The United States [Pais Fundadores dos Estados Unidos], então os Peregrinos e Puritanos são os avôs e Calvino, o bisavô. Dizendo isso, ninguém precisa excluir a Virginia, porque o anglicanismo tem fundamentos essencialmente calvinistas ainda reconhecíveis em seus Trinta e Nove Artigos, e os Pais Peregrinos, como os puritanos em geral, representavam um tipo de anglicanismo re-reformado. Embora a moda deísta oitocentista possa ter penetrado em alguns círculos intelectuais, o espírito predominante dos americanos antes e depois da Guerra de Independência era essencialmente calvinista em ambos os aspectos brilhantes ou feios. Eles eram um povo trabalhador, sóbrio, sincero, intensivamente nacionalista, conscientes e orgulhosos de seus padrões morais, que incluíam a "ética protestante do trabalho". Como uma nação de tais virtudes eles despertaram a admiração do mundo e em sua própria auto-estima foram convencidos de que sua nação tinha uma missão messiânica de salvar o mundo através de uma 'novus ordo seclorum'."

Para alguns intelectuais, entre eles o próprio Erik von Kuehnelt-Leddhin, mas também R. J. Rushdoony, uma das razões que conduziram os Peregrinos para o Novo Mundo foi o desejo de fugir da modernidade e do Iluminismo. Para Kuehnelt-Leddihn, mesmo os católicos americanos são culturalmente calvinistas. Ele relata que imigrantes católicos irlandeses e italianos, quando chegavam aos EUA, eram vistos pelos outros católicos como pagãos. O austríaco acredita que a Reforma preservou o espírito medieval genuíno, enquanto o catolicismo amalgamou-se com o Renascimento. O Racionalismo e o Iluminismo seriam netos do Escolasticismo e do Renascimento, respectivamente, e ambos teriam sido gerados nas entranhas do mundo católico, só posteriormente atacando de forma mais agressiva o mundo afetado pela Reforma na Europa. Mas o mesmo não aconteceu nos EUA. Nas colônias, os puritanos encontraram liberdade religiosa e política, marcante em suas leis até hoje. Mesmo que o humanismo, e mesmo a Maçonaria, tenham desempenhado um papel relevante em sua história, o espírito calvinista é o seu espírito original. Para Erik, o americano médio talvez nunca tenha sido um homem moderno no sentido completo. Foi apenas depois da Guerra Civil, e muito mais consistentemente no século XX, há uma mudança radical de perspectiva.

Fora dos EUA, contudo, a visão que se alimenta dos EUA é a pior possível. Não apenas por causa da agenda anti-americana da esquerda nas escolas, mas também, por causa dos filmes, os próprios cristãos acabam alimentando uma ideia muito equivocada daquela nação. Quando Alexis de Tocqueville esteve nos EUA, ele viu que a grandeza daquela nação estava sobretudo na vitalidade das igrejas. De fato, há nos EUA hoje uma força crescente e cada vez mais radical de anti-cristianismo. Por outro, há ainda um cotidiano completamente maquiado e desprezado por Hollywood e pela imprensa. A arte e a comunicação hoje são dominados por humanistas que, agindo segundo uma agenda própria, tentar descaracterizar a história daquela nação. Os historiadores humanistas, semelhantemente, têm feito um esforço considerável para amenizar a influência cristã na história americana, omitindo, inclusive, a participação de cristãos durante a Guerra Civil. O fato é que apenas poucas áreas – consideravelmente populosas, é verdade – a cultura cristã está mais enfraquecida. E esses têm sido os porta-vozes daquela nação. "Hollywoood" vende "Californication", cantou Anthony Kiedis. O humanismo americano tem recebido uma conotação igualmente escatológica e quer tomar aquela nação inteira de assalto. Há uma mentalidade religiosa que quer livrar aquela grande nação de sua herança.

O multiculturalismo tem exatamente esse propósito, a saber, a destruição da influência cristã no Ocidente. Divorciar a América de seu passado cristão é negar que a unidade daquele povo fosse cultural e entregar essa unidade a um quadro político vazio, a ser preenchido por qualquer conteúdo. No fim das contas, trata-se de conceder ao Estado aquela força que provém antes de uma religiosidade comum, o que, na prática, é impossível de ser feito sem que haja um desastre a longo prazo. Como Rushdoony assevera, o primeiro conflito é antes de tudo religioso – entre cristianismo e humanismo. Sem entendermos as forças antitéticas agindo no Ocidente depois do fim do mundo medieval, i.e., a Reforma e o humanismo, nascidas do cristianismo medieval e do Renascimento, é impossível falar do Ocidente de forma realista, e haveremos, como os islâmicos que odeiam esse legado, de entender que a escatologia do mundo ocidental segue rumo a uma "californização" e que isso seria de alguma forma culpa do cristianismo. Para Rushdoony, a origem do anti-cristianismo que vemos hoje está no Renascimento e no uso de Aristóteles por aqueles que queriam livrar-se da religião cristã. A secularização, em grande medida, é apenas a substituição paulatina de Agostinho pelo Estagirita, pela cosmovisão e noética de ambos.

Sandlin conclui que a solução realmente sólida para o problema que aquele país enfrenta hoje é a reeducação do povo em sua verdadeira herança, no resgate de seu espírito calvinista. Para ele, a causa da crise é que eles "falharam como uma cultura para preservar sua herança" e Trump possivelmente não está preparado para resolver essa questão. A mesmíssima solução é a apontada por Erik von Kuehnelt-Leddihn: o dilema do mundo ocidental há de ser resolvido com o retorno ao pensamento de João Calvino, especialmente no que se refere à sua antropologia.

"A Nova Esquerda continuará seu jogo até que seu tempo finde, e isso será quando a dissolução rousseauniana engolfar-nos ou – como deveríamos esperar – quando dos profundos recessos do subconsciente americano aquelas memórias do outro genebrino [no caso, Calvino] levantarem-se para uma nova vida" (Erik von Kuehnelt-Leddihn, "The Western Dilemma: Calvin or Rousseau?").

O futuro do mundo será resolvido entre Calvino e Rousseau.

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Nota:
[1] A referência aqui é a Herbert Marcuse. 

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Autor: Antonio Vitor
Divulgação: Bereianos
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Antropologia e Política sob Perspectiva - Uma Avaliação Teológica

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É um erro supor que todos os homens, ou ao menos todos os ingleses, queiram ser livres. Ao contrário, se a liberdade acarretar responsabilidade, muitos não querem nenhuma das duas. Felizes, trocariam a liberdade por uma segurança modesta (ainda que ilusória). Mesmo aqueles que dizem apreciar a liberdade ficam muito pouco entusiasmados quando se trata de aceitar as consequências dos atos. O propósito oculto de milhões de pessoas é ser livre para fazer, sem mais nem menos, o que quiserem e ter alguém para assumir quando as coisas derem errado.[1] — Theodore Dalrymple

Revelação e Futuro

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Excerto da palestra X, "Revelação e Futuro", do livro A Filosofia da Revelação, de Herman Bavinck, a ser publicado em breve pela Editora Monergismo. Tradução de Fabrício Tavares de Moraes, co-editor do blog Bereianos.

A doutrina de que o homem está corrompido pelo pecado, não podendo, portanto, santificar e salvar a si mesmo por meio de sua própria força é comumente considerada o erro mais terrível de todos; a autonomia e a autosoteria rejeitam toda forma de heterosoteria. Mas, ao mesmo tempo, quando toda transcendência e metafísica são negadas, o ser humano é exaltado acima de seu estado habitual, passando a ser identificado com o divino. A tarefa super-humana de transformar a presente sociedade num estado de paz e alegria requer mais do que simplesmente o poder humano; se Deus não opera a mudança, a esperança pode ser cultivada somente quando o poder do homem é divinizado. De fato, essa é a ideia central daquela teoria filosófica que Strauss desenvolveu mais claramente, a saber, que o infinito não é realizado num único homem, mas somente na humanidade; esta, sendo a verdadeira unidade das naturezas divina e humana, o homem transformando-se em Deus, o Espírito infinito descendo à finitude, a criança da visível mãe-natureza e do invisível pai-espírito, o realizador de milagres, o salvador do mundo. Aquilo que a humanidade confessa com relação a Cristo e declara em sua ideia de divindade é simplesmente um símbolo daquilo que ela encontra em si mesma, daquilo que ela é. Teologia é essencialmente antropologia; o culto a Deus é a humanidade adorando a si mesma. Comte, dessa forma, foi bem consistente quando substituiu a adoração a Deus pela adoração ao homem.

Essa deificação do homem prova claramente que nenhuma escatologia é possível sem metafísica. Mas isso é demonstrado ainda mais claramente por outro fato. A cultura, a ética, o idealismo – todos indo atrás de um objetivo – devem sempre buscar uma aliança com a metafísica. Kant reverteu as relações entre esses elementos, e tentou tornar a moral totalmente independente da ciência; mas sobre essa moralidade, o filósofo construiu novamente uma fé prática numa providência divina. De semelhante modo, qualquer sistema ético que aspira ser a verdadeira ética e apresentar um caráter normativo e teleológico, sem se tornar uma simples descrição de hábitos e costumes, se vê forçado a buscar o apoio da metafísica. Se o homem deve se empenhar por um ideal, ele pode ganhar coragem apenas pela fé que tal ideal é o ideal do mundo inteiro e está baseado efetivamente na realidade. Ao banir a metafísica, o materialismo não possui mais um sistema ético, passa a desconhecer a distinção entre bem e mal, não possui mais lei moral, nem dever, nem virtude, nem sumo bem. E quando a filosofia humanista imanentista de Natorp, Cohen e outros procura basear a ética exclusivamente no imperativo categórico, ela perde toda segurança de que o “deveria” irá algum dia triunfar sobre o “é”, e o bem sobre o mal. Independentemente daquilo que se crê ser o bem maior, este é ou uma imaginação, ou é e deve também ser o supremo e verdadeiro ser, a essência da realidade, o sentido e destino do mundo, e, assim, também o vínculo que mantém unidos todos os homens e nações em cada parte do mundo, salvando-os da anarquia.

O cristão, por sua vez, encontra a segurança do triunfo do bem em sua confissão da vontade soberana e todo-poderosa, que, embora distinta e exaltada acima do mundo, cumpre, todavia, por meio dele, Seus santos desígnios, e, de acordo com estes desígnios, conduz a humanidade e o mundo à salvação. Mas aquele que rejeita essa confissão não escapa, contudo, da metafísica. Soa bem chamar o homem de “o rebelde na natureza”, o qual, quando esta diz: “Morra!”, responde: “Eu continuarei vivendo”. Porém, com toda sua sabedoria e força, o homem, ao final das contas, é impotente contra a natureza. Eis o motivo porque, mesmo quando o teísmo é negado, a verdadeira realidade – a vontade do mundo que se encontra oculta por detrás dos fenômenos, manifestando-se muito imperfeitamente – é pensada como análoga àquela do homem, e especialmente como uma vontade eticamente boa. Não obstante toda sua autoconfiança e autoglorificação, o homem está, em toda cosmovisão possível, incorporado num todo maior, sendo, portanto, explicado e confirmado por essa totalidade. A metafísica, que é a crença no absoluto como um poder sagrado, sempre constitui o fundamento da ética.

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Autor: Herman Bavinck
Fonte: A filosofia da revelação
Tradução: Fabrício Tavares de Moraes
Divulgação: Bereianos
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O Papel de Satanás na Queda

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Após um considerável número de anjos terem pecado e tornados em demônios, o diabo conspirou para a queda de Adão e Eva, a fim de impedi-los de glorificar a Deus, O qual odiava com ódio aterrador, visto que Ele rejeitara os demônios, excluindo-os eternamente da graça.

O diabo primeiramente atacou Eva quando ela se encontrava sozinha, provavelmente postada perto da árvore do conhecimento do bem e o mal. Ali ele a enganou, e Eva, tendo sido ludibriada (embora não consciente disso), também enganou a seu marido, Adão. Ora, o primeiro homem não foi enganado devido ao amor que nutria por sua esposa, mas, sim, por seu (de Eva) logro, e somente então os olhos de ambos foram abertos (Gn 3:7). O diabo foi, portanto, a causa sugestiva da Queda, e por isso é chamado de “homicida desde o princípio” e “mentiroso” (João 8:44).

Para alcançar seu objetivo, Satanás se valeu de uma serpente, considerando-a um instrumento apropriado para ele. Ele falou a Eva por meio da serpente. Destarte, não estava invisível quando falou, nem simulou uma voz. Ele não se comunicou pessoalmente com a alma de Eva, mas lhe dirigiu a palavra por meio da serpente, da qual havia tomado posse. Não se deve ver essa questão como uma metáfora, nem uma parábola ou ilusão. De semelhante modo, o diabo não se valeu de uma simples aparência de serpente; trata-se de história genuína – um evento que efetivamente aconteceu. Tanto o diabo quanto a serpente estiveram ativamente envolvidos neste fato. Tratava-se de uma serpente, no verdadeiro sentido da palavra, isto é, um animal real – o que é evidente a partir dos seguintes pontos:  

(1) Da própria narrativa: “Mas a serpente, mais sagaz que todos os animais selváticos que o SENHOR Deus tinha feito, disse à mulher: É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim?” (Gn 3:1)

(2) Também do verso 14, no qual isto é afirmado com relação à serpente: Visto que isso fizeste, maldita és entre todos os animais domésticos e o és entre todos os animais selváticos”. Não se pode negar que a serpente era uma criatura irracional, e, portanto, incapaz de proferir um discurso inteligente e inteligível. Desse modo, é certo que uma criatura racional falou por meio da serpente, e que tal criatura inteligente era má e pecaminosa. Consequentemente, não poderia ser ninguém mais a não ser o diabo, que, por essa razão, é frequentemente chamado, nas Escrituras, de “serpente”, “dragão” ou “a antiga serpente”. “Ele segurou o dragão, a antiga serpente, que é o diabo, Satanás” (Ap 20:2). Foi ele quem enganou Eva: “…Mas receio que, assim como a serpente enganou a Eva com a sua astúcia...” (2 Co 11:3). Sua cabeça foi pisada por Cristo, “que, por sua morte, destruiu aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo” (Hb 2:14)

Visto que Moisés narra de maneira extremamente concisa os eventos do primeiro mundo (isto é, o mundo antes da Queda), o método através do qual se efetuou o engano não foi documentado. Destarte, toda conjectura neste caso é apenas especulação vazia, tais como a indagação se o diabo falou com Eva em apenas uma ou em várias vezes ocasiões; se ele lidou com Eva de uma maneira diferente; se veio como um mensageiro de Deus, declarando que o tempo da provação do casal havia chegado ao fim, e, portanto, estavam então livres para comer do fruto; se ele veio como amigo e mestre para aconselhar e apresentar os benefícios resultantes do comer da árvore; ou se o diabo veio como um inimigo de Deus, desejando privá-la daquilo que lhe traria felicidade e a tornaria semelhante a Deus. Tudo isto são conjecturas. É também possível que o diabo tenha apresentado outros pretextos ou argumentos lógicos enganosos. É melhor nos calarmos quanto a essas questões e outras questões similares do que desencaminhar o leitor com aquilo que apenas aparentemente é racional. Aquilo que não aprouve ao maior e mais sábio Mestre nos revelar, não devemos almejar conhecer. Este é um exercício seguro por meio do qual podemos nos afastar de várias tentações.

Estou convencido de que Eva estava bem ciente do fato de que animais, incluindo evidentemente a serpente, não possuíam intelecto racional nem eram dotados de linguagem. Embora ela desconhecesse a queda dos anjos, não obstante, ela poderia ter deduzido que aquele acontecimento (a fala da serpente) não era algo comum. Estou convencido de que se permitiu a Eva anelar por um nível maior de conhecimento e comunhão com Deus, já que isso lhe fora prometido no pacto das obras. Também lhe foi permitido aspirar por um conhecimento mais profundo com relação ao reino da natureza, que ela poderia obter por meio da experiência – assim como a multiforme sabedoria de Deus pode ser conhecida aos anjos por meio da igreja (Ef 3:10).

Estou convencido de que ela não comeu ignorantemente da árvore, antes, sabia muito bem que não lhe era permitida comer dela nem tocá-la. Tendo desejo de crescer no entendimento, Eva foi seduzida a comer da árvore. Não foi coagida, mas fez isso por sua própria vontade. Num primeiro momento, Eva não teve consciência desse logro, mas se tornou consciente disso apenas após ter enganado Adão. Ademais, Adão não foi o primeiro a ser enganado, nem foi enganado pela serpente, mas, sim, como diz o Apóstolo em 1 Timóteo 2:14, enganado por uma Eva enganada – e logo em seguida a ela. Estou convencido de que se Adão tivesse se mantido firme, Eva teria que sofrer sozinha o castigo.

Contudo, dado que Adão também pecou, toda raça humana se tornou culpada, como Paulo disse: “assim como por um só homem o pecado entrou no mundo...” (Rm 5:12). Ele não se refere somente ao pecado de Eva, mas ao pecado de toda raça humana, que se compreende plena e completamente em Adão e Eva, os quais eram um só em virtude de seu casamento. Na verdade, Paulo se refere especificamente ao pecado de Adão, que era o primeiro homem, a primeira e única fonte, tanto de Eva quanto de toda raça humana.  

O comer dessa árvore não foi um pecado menor, ainda que o ato de ingestão do fruto em si seja uma questão de somenos importância. Pelo contrário, foi um crime hediondo no qual se inclui a transgressão de toda a lei. Tratou-se de uma violação do amor, obediência e da aliança, resultando na perdição de si mesmo (Adão) e de seus descendentes. Esse pecado é agravado pelos seguintes fatos:

(1) Foi cometido contra o próprio Deus, que o primeiro casal conhecia em Sua majestade e glória – o Deus que, mediante sua bondade multiforme, os uniu a Si mesmo;
(2) Foi cometido por uma pessoa santa que tinha a habilidade necessária de se abster disso, e de resistir a toda tentação;
(3) Ora, abster-se de comer dessa única árvore configurava-se como uma exigência mínima e exequível, visto que o casal possuía tudo em abundância naquele belo jardim;
(4) A felicidade ou condenação de si mesmo e de seus descendentes dependia disso. Destarte, em Romanos 5, o comer do fruto é corretamente denominado de “pecado” (Rm 5:12), “transgressão” (Rm 5:14), “ofensa” (Rm 5:15) e “desobediência” (Rm 5:19).

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Autor: Wilhelmus à Brakel
Fonte: The Christian’s Reasonable Service
Tradução: Fabrício Tavares
Divulgação: Bereianos
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A existência eterna do homem - imortalidade

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Introdução

O conceito de “imortalidade da alma” surgiu nas religiões de mistério na Grécia antiga, sendo desenvolvido e recebendo grande expressão nos escritos de Platão (427-347 a.C), que foi um dos maiores filósofos da história. No século XVIII, todavia, a ideia de imortalidade da alma foi rigorosamente defendida pela elite intelectual que compunha o iluminismo europeu. Apesar de não ser uma doutrina distintivamente cristã, a imortalidade da alma foi considerada uma doutrina superior e distinta do Cristianismo, na época. Contudo, mesmo assim, ela se adentrou tenazmente nos recônditos da fé cristã e influenciou, de certa forma, o pensamento de muitos teólogos que trataram deste tema em seus epítomes teológicos. 

PLATÃO E A IMORTALIDADE DA ALMA


Segundo o filósofo, a alma e o corpo são substâncias que diferem entre si. A alma é a parte imortal do homem. Sua origem é divina e desceu do céus onde desfrutava, em sua pré existência, de uma alegria indizível para vir habitar no corpo, especificamente na “cabeça”. O corpo, por sua vez, é constituído de matéria e, sendo assim, é uma substância inferior e de valor pífio em relação à alma. Na morte, o corpo se desintegra, mas a alma, que é a parte racional do homem, retorna ao céu, caso suas ações, enquanto esteve presente na terra vivendo num corpo tenham sido honoráveis. Do contrário, com a morte do corpo na qual habitava, a alma, que é indestrutível, retorna para habitar em outro homem ou em um animal.  

Para Platão, a imortalidade da alma está ligada à metafísica  racionalista que enfatiza aquilo que é racional como algo verdadeiro e superior, e o que não é racional é reputado como algo inferior. Desse modo, a alma é considerada como uma substância superior, indestrutível e, portanto, imortal, enquanto o corpo é uma substância inferior, mortal e passível de ser destruído. Platão considerava o corpo como um túmulo para a alma que, indubitavelmente, é mais feliz sem ele.

Portanto, de acordo com esse conceito, a ressurreição e a glorificação do corpo, que acontecerão no último dia, na segunda vinda de Cristo, não são necessários, uma vez que o próprio Platão não acreditava neste evento final. 

Explanação


Não obstante, será que vemos nas Escrituras o conceito de "imortalidade da alma"? As Escrituras utilizam a expressão “imortalidade da alma”? Vejamos, pois:

1) As distinções de significado do termo imortalidade

Nas Escrituras, o termo imortalidade aparece somente no Novo Testamento por três vezes. Esse termo é usado exclusivamente por Paulo, e aparece duas vezes em 1 Coríntios 15.53-54 e uma vez em 1 Timóteo 6.16. Todavia, devemos observar que o termo imortalidade não tem o mesmo sentido em cada uma dessas duas passagens em que aparece. Em cada uma delas há um sentido diferente. 

No grego, existem duas palavras que são traduzidas pela maioria das versões Bíblicas por imortalidade, que são αθανασια (athanasia) e αφθαρσια (aphtharsia). Athanasia é a palavra grega utilizada  em 1Coríntios 15.53-54. Dese modo, vejamos, então, o significado do termo imortalidade baseado no contexto de cada uma das passagens supramencionadas.

a) A IMORTALIDADE EM RELAÇÃO AO HOMEM

Análise do texto 

1 Coríntios 15.53-54 - Pois é necessário que aquilo que é corruptível se revista de incorruptibilidade, e aquilo que é mortal, se revista de αθανασια (athanasia) imortalidade. Quando, porém, o que é corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal, de αθανασια (athanasia) imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: A morte foi destruída pela vitória! (NVI)

Paulo ressalta o que vai acontecer não com todos os homens, mas especificamente com os cristãos que estiverem vivos bem como os cristãos que já haviam morrido por ocasião da segunda vinda de Cristo (vs.52), que é um evento designado para o futuro. O apóstolo se refere necessariamente ao efeito da transformação que ocorrerá não somente nos corpos dos cristãos [vivos e mortos] em virtude da glorificação, mas na natureza constitucional deles num todo; tanto a parte material [corpo] bem como a imaterial [espírito] serão transformadas e revestidas da imortalidade pelo poder Deus.

Embora o foco da passagem esteja na ressurreição do corpo, ainda assim, não há qualquer alusão sobre a imortalidade da alma. Paulo não descreve a imortalidade aqui como uma característica isolada, restrita a alma do cristão; antes, ele enfatiza a imortalidade da pessoa completa do cristão.  

Se Adão não tivesse pecado contra Deus, viveria para sempre. Não que ele possuísse em sua natureza a imortalidade, mas que Deus o conservaria pelo seu poder no estado de imortalidade (Gn 2.16-17). Nessa linha de pensamento, Berkhof escreve:

O termo “imortalidade” é empregado na teologia para destacar o estado do homem no qual ele está inteiramente livre das sementes da decadência e da morte. Nesse sentido, o homem era imortal [conservado por Deus nesse estado - minha ênfase] antes da Queda. Esse estado evidentemente não excluía a possibilidade do homem se tornar sujeito à morte. Embora o homem, no estado de retidão não estivesse sujeito à morte, todavia, estava propenso a ela. Era inteiramente possível que, mediante o pecado, ele se tornasse sujeito à lei da morte; e o fato é que ele caiu vítima dela.[1]

É importante ressaltarmos que o homem é uma totalidade, isto é, uma unidade psicossomática, um ser unipessoal, e não um ser dividido em duas ou três partes, conforme a dicotomia e a tricotomia atestam. 

Não obstante, a outra palavra grega que geralmente é traduzida por imortalidade é aphtharsia, que denota “ausência de morte, e se refere a plenitude de vida”.[2] Traz a ideia de algo que é imperecível. Essa palavra aparece sete vezes em todo o Novo Testamento. Em Romanos 2.7, aphtharsia é usada para indicar o alvo e o motivo da perseverança dos cristãos em buscar viver uma vida piedosa que glorifica a Deus.

Em 2 Timóteo 1.10, essa mesma palavra mostra que a obra da redenção dos pecadores eleitos já estava planejada antes da criação, na eternidade (vs.9), e que em sua primeira vinda, Cristo a executou trazendo a salvação e a imortalidade ou αφθαρσια (aphtharsia) “imperecibilidade” a todos quanto o Pai escolheu nele. Em 1 Coríntios 15, aphtharsia aparece quatro vezes nos versículos 42, 50, 53-54.  Porém, em nenhuma dessas passagens, essa palavra é usada como se referindo a parte imaterial do homem, alma.     

O adjetivo grego derivado da palavra aphtharsia αφθαρτος (aphthartos), é também usado sete vezes no Novo Testamento. Aphthartos é usado na maioria dos casos por Paulo. Em Romanos 1.23 e 1 Timóteo 1.17, essa palavra é usada para descrever Deus; em 1 Coríntios 15.52 para descrever a ressurreição do corpo e a sua glorificação, que o tornará incorruptível ou, numa tradução mais exata, αφθαρτος (aphthartos) – “impericível ou indestrutível”. Em 1 Coríntios 9.25, a mesma palavra grega é usada para descrever a coroa incorruptível, a saber, a vida.

Nas três ocasiões restantes, αφθαρτος (aphthartos) aparece em 1 Pedro 1.4, onde se refere a herança incorruptível ou  “imperecível” da salvação, que é sem mácula, imarcescível e está guardada nos céus para os eleitos. Em 1.23, esse adjetivo realça a semente incorruptível ou “imperecível”, da qual os eleitos nasceram de novo. Em 3.4, aphthartos salienta a beleza interior “imperecível” de um espírito manso e tranquilo, que é de grande valor perante Deus. Portanto, concluímos, então, que as Escrituras não utilizam o termo “imortalidade da alma”.

Em contraposição, alguns teólogos reformados do passado, como Calvino, Charles Hodge, A.A. Hodge, William G.T. Shedd e Berkhof, utilizaram e defenderam a expressão “imortalidade da alma”. Em suma, esses teólogos afirmaram em seus compêndios teológicos a “imortalidade da alma” como um tipo de conceito que não prejudicava em nada o que as Escrituras ensinavam sobre o assunto, mesmo que tal expressão não exista nas mesmas. 

Charles Hodge, por exemplo, ressalta que a doutrina protestante acerca do estado da alma depois da morte inclui, sobretudo, a existência contínua da alma depois da dissolução do corpo. Isso se opõe não só a doutrina de que a alma é meramente uma função do corpo e com ele perece, mas também à doutrina do sono da alma durante o intervalo entre a morte e a ressurreição.[3]

Calvino, por sua vez, mencionou nas Instituas a imortalidade da alma como um tipo de doutrina[4], porém, ele também admite que o estado de imortalidade não provém da própria natureza da alma em si; antes, é Deus quem conserva a alma imortal pelo seu poder.[5] Também, em seu Comentário Bíblico expositivo de 1 Coríntios, Calvino afirma na interpretação dos versículos 45 e 47 do capítulo 15, que o homem [Adão] tem uma alma imortal.[6]
        
Por outro lado, Berkouwer rejeita a imortalidade da alma como um tipo de doutrina cristã defendida por esses teólogos citados. Ele escreve:

As Escrituras nunca se ocupam de um interesse independente na imortalidade como tal, não mencionando a imortalidade de uma parte do homem que despreza e sobrevive à morte sob todas as circunstâncias e sobre a qual podemos refletir bem à parte da relação do homem com o Deus vivo.[7]

Embora não haja certa unanimidade entre os  teólogos reformados do passado acerca da imortalidade da alma, como, então, entender essa questão? A imortalidade da alma é um tipo de doutrina mesmo que tal expressão não apareça nas Escrituras? A ideia de imortalidade da alma está em harmonia com o que as Escrituras ensinam sobre o homem? Em que sentido o homem, no caso o cristão, é imortal? Vejamos a resposta para essas perguntas de forma mais ampla, a seguir:   

b) A IMORTALIDADE EM RELAÇÃO A DEUS

Análise do texto

1 Timóteo 6.16 - O único que possui αθανασια (athanasia) imortalidade, que habita em luz inacessível, a quem homem algum jamais viu, nem é capaz de ver. A ele honra e poder eterno. Amém!” (ARA)

Essa é a segunda passagem em que o termo “imortalidade” aparece em todo o Novo Testamento. Paulo diz que Deus é o único que possui a imortalidade em sua natureza, ou seja, essencialmente, Ele é o único ser imortal que habita em luz inacessível e que nenhum homem o viu e jamais poderá vê-lo. Acerca disso, Hendriksen escreve:

A ideia de vida, implícita na imortalidade, naturalmente leva a ideia de luz. Nele [em Jesus] estava a vida, e a vida era a luz dos homens (Jo 1.4). Esta luz é como o sol. Necessitamos dele para ver, porém, não podemos fitá-lo, porque seu brilho é por demais intenso. Nesse sentido, Deus habita na luz inacessível. A metáfora é ainda mais forte que aquela empregada no Salmo 104.2 (“coberto de luz como de um manto”). Como uma casa que protege os seus moradores e os esconde ainda mais quando a luz é inacessível, assim é a própria essência de Deus em virtude do que ela é, o protege. Daí, o termo luz, como aqui usado, reenfatiza sua incomparável grandeza.[8]  

John Stott ratifica, mas acrescentando que Deus, por ser invisível, está fora da capacidade de visão humana e totalmente além da compreensão dos homens, pois Ele é aquele que ninguém viu nem pode ver. O máximo que seus olhos humanos tiveram a permissão de contemplar foi a sua glória (Ex 24.9-11; Is 6.1-5; Ez 1.28), suas costas, mas não a sua face (Ex 33.18-23), e suas aparições em teofanias (Gn 16.7-14) ou a sua imagem em seu Filho encarnado (Jo 1.18; 14.6, 8-9; Cl 1.15).[9]

Mesmo na eternidade, com os corpos glorificados e livres da presença do pecado, ainda assim os cristãos não verão a Deus (Jo 1.18). No entanto, veremos Deus por meio de Cristo (Ap 22.4; 1Jo 3.2). Quando a terra for restaurada, não haverá templo para cultuarmos, antes, o templo será o próprio Deus (Ap 21.22). Chegará o dia em que não seremos mais habitados pelo Espírito Santo e que o papel de Cristo como o nosso mediador entre Deus cessará, pois abitaremos em Deus. A nova Jerusalém é tanto uma cidade que desce do céu bem como a igreja que habitará dentro do próprio Deus!

Contudo, o fato de que habitaremos em Deus na eternidade, não significa que iremos penetrar ou compartilhar dos seus atributos incomunicáveis que fazem parte da sua natureza singular e que são restritos a Ele. Não teremos a nossa natureza finita transformada em infinita. Mesmo na eternidade e com os corpos transformados pela glorificação, não teremos em nós mesmos a capacidade de nos mantermos neste estado para sempre. Pelo contrário, seremos mantidos ou preservados pelo Espírito Santo [veja Ap 22.1-2] nesse estado de glorificação habitando em Deus. Portanto, habitaremos em Deus no sentido de que Ele irá residir com o seu povo na nova Jerusalém [a terra restaurada] que será um "templo" (Ap 21.22-24).

Simon Kistemaker corrobora que a presença de Deus e de Cristo serve como o templo da nova Jerusalém. Deus será o soberano e Senhor, o todo poderoso, o qual habita com os eleitos na nova Jerusalém. O templo e a cidade são um e o mesmo.[10] Habitaremos em Deus e o veremos mediante a face de Cristo, que é a imagem exata do seu ser (Cl 1.14-15; Hb 1.3).

Retomando ao assunto da imortalidade, todos os seres que Deus criou [homens e anjos] não possuem em sua natureza a imortalidade; antes, são mortais e passíveis de serem separados de Deus, como no caso dos anjos que se rebelaram. No entanto, há um sentido em que o homem é imortal, porém, não no sentido essencial como Deus.

A imortalidade faz parte da natureza de Deus. Logo, a questão da imortalidade deve ser entendida no sentido de que o homem vai existir para sempre. Ele nunca deixará de existir mesmo depois da morte, pois viverá eternamente com Deus, salvo, ou viverá eternamente perdido em condenação. Dessa perspectiva, o homem é imortal.  

Seria um equívoco entendermos a questão da imortalidade no sentido de que o homem não morre literalmente e possui uma natureza imortal, uma vez que o homem morre literalmente devido ao pecado (Rm 6.23). Em vista disso, os homens não são mortais somente porque são separados de Deus por causa de seus pecados, mas são separados de si mesmos, quando o corpo [que é o homem] se separa do espírito [que também é o homem] na morte.

Conforme vimos anteriormente, o homem não é um ser constitucional dividido em duas ou três partes; ele é um ser unipessoal composto de duas partes [material e imaterial] que formam a sua constituição psicossomática. Existem casos de homens mortos espiritualmente que não foram vivificados ou regenerados e morreram fisicamente. Esses, depois da ressurreição [uma vez que os ímpios também ressuscitarão para serem julgados], continuarão mortos espiritualmente para sempre, quando serão lançados no lago de fogo vivos e conscientes para sofrerem a condenação (Ap 20.11-15).

Finalmente, os homens morrem porque recebem vida e a vida lhes é tirada. A imortalidade não faz parte da essência humana. Por outro lado, a vida é essencial em Deus. Se Deus pode morrer, Ele perde a sua própria essência. Por isso Ele é o único que é imortal. A imortalidade de Deus consiste no fato de Ele também ser infinito, espiritual, independente, soberano, etc. 

2) A revelação geral denota a existência eterna do homem

A revelação geral é o meio no qual Deus se revela aos homens através da criação, consciência e história, além de Jesus Cristo pelas Escrituras. Existem várias passagens na Escritura que falam acerca da revelação geral (veja Sl 19.1-4; 1Co 1.21; Hb 1.1-2 dentre outras). Bavinck escreve:

A revelação geral, apesar de estar contida na natureza, é, contudo, extraída da Sagrada Escritura, pois, sem ela, nós, seres humanos, por causa da escuridão de nosso entendimento, nunca teríamos sido capazes de encontrá-la na natureza. Sendo assim, a Escritura lança luz sobre nosso caminho através do mundo, e coloca em nossas mãos a verdadeira compreensão da natureza e da história. Ela nos faz ver Deus onde nós, de outra forma, não o veríamos. Iluminados por ela nós contemplamos as excelências de Deus em toda a expansão das obras de Suas mãos.[11]

A revelação geral não tem o poder de salvar ou gerar a fé salvadora numa pessoa. Por outro lado, alguns teólogos entendem a revelação geral como uma espécie de “graça comum” sobre os ímpios. Contudo, em Romanos 1.18-20, Paulo declara que a revelação geral é meramente uma revelação da ira de Deus sobre o ímpio, cuja função é deixá-lo sem desculpa perante Jesus no dia do julgamento final. 

Ronald Hanko diz:

A manifestação de Deus nas coisas que foram criadas é a razão pela qual ninguém será capaz de se queixar no dia do juízo que não conhecia a Deus. Se considerarmos Romanos 1, não existe nenhum ateu. [...] O único resultado dessa manifestação de Deus, no que diz respeito ao ímpio, é que eles recusam glorificar a Deus, continuam a serem ingratos, e transformam a glória de Deus, manifesta a eles e neles, em imagens de coisas corruptíveis (vs. 21-25). [...] Eles, de acordo com Romanos 1, não estão procurando a verdade, mas suprimindo-a (v. 25). A sua filosofia e religião não representam um pequeno princípio da verdade ou um amor pela verdade, mas a verdade recusada e abandonada. [...] A revelação geral, portanto, serve somente para aumentar a culpa daqueles que não ouvem ou não creem no evangelho.[12]  

Por meio desses aspectos que formam o pilar da revelação geral (criação, consciência, história), Deus não somente revela-se ao homem como um ser superior incriado, supremo, eterno, infinito, mas, sobretudo, que a vida não cessa após a morte; antes, que existe vida após a morte.

Quero analisar cinco argumentos concernentes à revelação geral baseados na criação, consciência e história [com exceção de Jesus Cristo, pelas Escrituras] não apenas acerca da existência de Deus, mas também sobre a existência eterna do homem.    

a) O argumento ontológico

Alguns estudiosos têm argumentado que não existe no mundo pessoas que são céticas ou descrentes. Eles dizem que a noção absoluta da religião é universal. Por mais depravados que sejam diante de Deus, todos os homens , sem exceção, possuem o conhecimento da existência de Deus e da vida após a morte pela consciência, ainda que este conhecimento esteja obscurecido pelo pecado. Para os que não acreditam nisso, existem duas opções: Ou a humanidade está mergulhada numa superstição tola e absurda da existência de Deus e da vida após a morte ou o conhecimento da existência de Deus e da vida após a morte, ainda que distorcido pelo pecado, é presente na consciência de todos homens. A segunda opção parece ser a mais coerente de acordo com a fé Crista.

Bavinck corrobora que há na consciência de todos os homens alguma noção de um ser supremo sobre o qual não se pode conceber algo que seja mais elevado, e que é auto existente. Se tal ser não existe, a maior, mais perfeita e mais inevitável ideia seria uma ilusão, e o homem perderia sua confiança na validade de sua consciência.[13]    

b) O argumento cosmológico

Este argumento parte do pressuposto de que, se algo existe, com base nesse algo concluímos que há uma causa primária e suficiente que causou a existência desse algo. Sendo assim, tudo que tem um começo ou veio a existir tem uma causa primária por detrás. Thomás de Aquino disse que o nada não pode causar a si mesmo, caso contrário teria de conferir existência a si mesmo [isto é, causar a sua própria existência], o que é impossível. Tudo o que é causado, portanto, é causado por alguma outra coisa.[14] 

Sendo assim, o mundo não veio a existir do nada nem tampouco se auto causou. Com base na lógica racional da fé, entendemos e cremos que o mundo foi criado por Deus.   

c) O argumento histórico

Ao longo dos anos, sempre houveram pessoas, eruditos e filósofos descrentes que negavam a existência de Deus e da vida após a morte. Contudo, de forma geral, a crença na existência disso é estabelecida em várias religiões e entre pessoas do mundo todo. Esta “crença comum” na existência de Deus e da vida após a morte é baseada em argumentos históricos que foram passados de geração para geração através de pessoas e da literatura.

d) O argumento teológico

Este argumento acentua que Deus, pela sua providência, poder e sabedoria, governa com equidade toda a sua criação, onde nada acontece fora da sua vontade e sem que Ele tenha predeterminado todas as coisas pela sua Soberania Absoluta. Bavinck enfatiza:

O mundo, em suas leis e ordenanças, em sua unidade e harmonia e na organização de todas as suas criaturas, exibe um propósito cuja explicação seria ridícula na base da casualidade, e que, portanto, aponta para um ser todo abrangente e todo poderoso que com mente infinita estabeleceu esse propósito, e por seu poder infinito e onipresente age para alcançá-lo.[15]

e) O argumento moral

Este argumento é uma conseqüência do argumento ontológico, e trata do homem como um ser racional e moralmente responsável pelos seus atos. O homem “sente em sua consciência que é limitado por uma lei que está acima de si mesmo e que requer obediência incondicional de sua parte. Tal lei pressupõe um Santo e Justo legislador que pode preservar e destruir”;[16] ou seja, fazer o que quiser (Sl 115.3).

Hoekema, em seu livro A Bíblia e o futuro, aduz quatro argumentos acerca do termo “imortalidade da alma”. Senão vejamos:   

1) As Escrituras não utilizam a expressão “imortalidade da alma”. A palavra imortalidade é aplicada a Deus, à existência total do homem na hora da ressurreição, e a coisas tais como a coroa e a semente incorruptível da Palavra, mas nunca para a alma do homem.

2) As Escrituras não ensinam a existência continuada da alma devido a sua indestrutibilidade inerente. Este argumento está relacionado com a visão metafísica do homem. Na filosofia de Platão, por exemplo, a alma é considerada indestrutível porque ela faz parte de uma realidade metafísica superior à do corpo. A alma é considerada como uma substância não criada, eterna e, por causa disso, divina. Mas as Escrituras não ensinam esse tipo de conceito da alma. De acordo com as Escrituras, o homem foi criado por Deus e continua a ser dependente de Deus para sua existência, não podemos indicar no homem nenhuma qualidade ou qualquer aspecto do homem que o faça indestrutível.

3) As Escrituras não ensinam que uma simples existência contínua após a morte seja supremamente desejável, porém, insistem que uma vida em comunhão com Deus é o maior bem do homem. O conceito de imortalidade da alma, como tal, não diz nada acerca da qualidade de vida após a morte; ele simplesmente afirma que a alma continua a existir. Mas isto não é o que as Escrituras enfatizam.

O que a Bíblia salienta, é que viver separado de Deus é morte, e que relação e comunhão com Deus é vida verdadeira. Esta vida verdadeira já é desfrutada por aqueles que creem em Cristo (Jo 3.36; 5.24; 17.3). A vida em comunhão com Deus continuará a ser desfrutada pelos crentes após a morte, conforme Paulo ensina em Filipenses (1.21-23) e em 2 Coríntios (5.8). É esse tipo de existência após a morte que as Escrituras nos apresentam como um estado a ser anelado. Elas ensinam que mesmo aqueles que não têm esta vida verdadeiramente espiritual, continuarão a existir após a morte; sua existência continuada, entretanto, não será uma existência feliz, mas de tormento e angústia (2Pe 2.9; Lc 16.23,25).

4) A mensagem das Escrituras acerca do futuro do homem é a ressurreição do corpo. (...) De acordo com as Escrituras, o corpo não é menos real do que a alma; Deus criou o homem em sua totalidade, corpo e alma. Nem o corpo é inferior à alma, nem é não-essencial à verdadeira existência do homem; se fosse assim, Jesus nunca poderia ter assumido uma natureza humana genuína, com um corpo humano genuíno.

No ensino bíblico, o corpo não é um túmulo para a alma [conforme acreditava Platão e outros], mas um templo do Espírito Santo; o homem não é completo sem o corpo. Por causa disso, o futuro estado da bênção do crente não é simplesmente a existência continuada de sua alma, mas inclui, como seu aspecto mais rico, a ressurreição de seu corpo. Esta ressurreição será, para os crentes, uma transição para a glória, na qual nossos corpos deverão tornar-se semelhantes ao corpo glorioso de Cristo (Fp 3.21).[17]

Conclusão

Diante de tudo, entendemos que o conceito de imortalidade da alma não pode ser considerada uma doutrina legitimamente cristã. Pelo contrário, o ponto central que rege a escatologia bíblica correta é o conceito da ressurreição do corpo. A imortalidade, portanto, deve ser aplicada não a alma de forma isolada, mas ao homem num todo [especificamente ao cristão]. Visto que o ímpio também existirá para sempre condenado ao lago de fogo, os cristãos é que são considerados imortais porque somente eles possuem a vida eterna em Jesus Cristo.

Os corpos dos cristãos ainda serão transformados pela glorificação para o desfrute pleno da imortalidade com Deus na terra restaurada em toda a sua constituição. 

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Notas:

1 Berkhof. Teologia Sistemática, pág 668.
2 William Hendriksen. 1, 2 Timóteo e Tito, pág 260.
3 Charles Hodge. Teologia Sistemática, pág 1547.
4 Calvino. As Institutas I, capítulo XV, 2, pág 186.
5 Ibid. III, capítulo XXV, 6, pág 454-455.
6 Calvino. 1 Coríntios, pág 496-499.
7 Antony Hoekema citando Berkouwer em A Bíblia e o Futuro, capítulo 8.
8 William Hendriksen. 1, 2 Timóteo e Tito, pág 261.
9 John Stott. A mensagem de 1 Timóteo e Tito, pág 163.
10 Simon Kistemaker. Apocalipse, pág 719-720.
11 Herman Bavinck. Teologia Sistemática (Socep), pág 40.  
12 Ronald Hanko. Doctrine according to Godliness. Reformed Free Publishing Association, pág. 8-9.
13 Herman Bavinck. Teologia Sistemática (Socep), pág 42. 
14 William Lane Craig citando Tomás de Aquino em Apologética Contemporânea, pág 93.
15 Herman Bavinck. Teologia Sistemática (Socep), pág 42.
16 Herman Bavinck. Teologia Sistemática (Socep), pág 43.
17 Antony Hoekema. A Bíblia e o futuro, capítulo 8.

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Autor: Leonardo Dâmaso
Fonte: Bereianos
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