Confessionalidade madura também se expressa através de submissão e coerência

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Recentemente vi um vídeo do trecho de uma palestra a respeito de como viver uma confessionalidade madura. Esse tipo de discussão é deveras importante, uma vez que há alguns anos o assunto da confessionalidade era quase que completamente ignorado em nosso meio. Aliado a isso está o fato de que há muitos jovens que, nas redes sociais, discorrem sobre o assunto de modo beligerante e sem qualquer caridade pelas pessoas que pensam de modo distinto.

A minha questão aqui gira em torno de algumas afirmações feitas na palestra, que, possivelmente até de modo inadvertido, esvaziem a autoridade das confissões reformadas de modo geral e, especificamente, dos Padrões de Westminster, símbolos de fé da Igreja Presbiteriana do Brasil, aos quais nós, ministros presbiterianos, juramos submissão.

Antônio Carlos Costa: um protestante em convulsão

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O pastor Antônio Carlos Costa, pastor presbiteriano no Rio de Janeiro, fundador e presidente da ONG Rio de Paz, publicou na manhã de hoje [30/10] um vídeo no qual afirma que as igrejas evangélicas brasileiras necessitam de uma nova Reforma. Abaixo farei um breve resumo do vídeo, seguido de uma crítica às afirmações de Costa.

O amor e o ódio: quem ama, odeia

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Foi realizado hoje, 25/10, um "culto de oração", organizado por um grupo de evangélicos de orientação esquerdista, apoiadores de Fernando Haddad. A programação teve como tema "O Amor Vence o Ódio".

O tema foi escolhido em função do atual clima político do Brasil, e parte do pressuposto que os eleitores de Jair Bolsonaro são apoiadores de alguém que pratica o que, hoje em dia, é chamado de "discurso de ódio". Qualquer afirmação que contrarie o que a agenda esquerdista propõe é, imediatamente, rotulada como "discurso de ódio". Como bem observou o Pr. Augustus Nicodemus, "aquilo em que acreditamos começa a ser rotulado de ódio. Se afirmarmos a família, temos ódio contra os homossexuais; se afirmarmos a vida, somos contra a mulher que tem o direito do aborto; se afirmarmos a defesa própria, é discurso de ódio contra os criminosos, porque deve haver direitos iguais" (Caminhos da Fé. p. 41).

A incoerência do discurso dos evangélicos progressistas está em que, sua mensagem é a de que o ódio é, intrínseca e moralmente, errado. Se alguém diz ser discípulo de Jesus, então, a única coisa que lhe cabe é o amor. Não obstante, qual é o sentimento que, na prática, é nutrido e posto em obras da parte dos progressistas para com aqueles que, de acordo com eles, praticam o "discurso de ódio"? Amor? Tolerância? Não. Longe disso! É ódio! E o ódio se traduz, de modo claro, em agressões, insultos e até mesmo espancamentos. Hoje mesmo, aqui em São Luís, ao tentar apresentar uma palestra sobre o que é o fascismo, um católico conservador foi objeto do ódio de universitários esquerdistas, que o xingaram, cuspiram e pouco faltou para que o agredissem fisicamente.

Um segundo problema com o discurso progressista de que "o amor vence o ódio" é o pressuposto de que amor e ódio são mutuamente excludentes. Quem ama não odeia. E quem odeia não ama. Alguém cheio de ódio é alguém vazio de amor, e vice-versa. Se eu me coloco de modo contrário à ideologia de gênero, é porque eu não amo gays, lésbicas, transsexuais etc. Pelo contrário, eu os odeio. Esta é a lógica da esquerda evangélica.

Há um dito atribuído a Érico Veríssimo, que diz assim: "O oposto do amor não é o ódio, mas a indiferença". Eu sou inclinado a concordar com a afirmação inicial. O oposto do amor não é o ódio. De modo bem interessante, em 1 Coríntios 13, não encontramos a declaração de que o amor não odeia. O apóstolo Paulo diz sobre o amor: "O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta" (vv. 4-7). Perceba, o ódio não figura entre as posturas e sentimentos incompatíveis com o amor.

Existem algumas passagens nas quais amor e ódio são mencionados e, aparentemente, figuram como antagônicos entre si. No Salmo 109.5 está escrito: "Pagaram-me o bem com o mal; o amor, com ódio". Esta passagem é suficientemente clara. Amor e ódio não são antagônicos um ao outro. O que está sendo afirmado aqui é apenas o princípio por trás da conhecida regra de ouro: Faça aos outros aquilo que você quer que façam a você. Se você tem sido beneficiado com o amor de alguém, então, retribua com amor. Se alguém te faz o bem, retribua com o bem, não com mal. Em Provérbios 10.12 está escrito: "O ódio excita contendas, mas o amor cobre todas as transgressões". Nesta passagem, amor e ódio também não devem ser vistos como inimigos. O que o autor está afirmando é o princípio envolvido no ódio pecaminoso, gratuito. Para poder interpretar esta passagem como que ensinando que amor e ódio são absolutamente incompatíveis, eu necessito partir do pressuposto que todo e qualquer ódio é, por necessidade, pecaminoso, mal, vil, perverso, maligno. No entanto, as Escrituras não me permitem fazer isso.

Em Apocalipse 2.6, um dos elogios que Jesus faz à igreja de Éfeso foi o seguinte: "Tens, contudo, a teu favor que odeias as obras dos nicolaítas, as quais eu também odeio". De antemão afirmo que o versículo está traduzido da maneira correta. O verbo grego miséô significa mesmo "odiar". Existem algumas passagens neotestamentárias em que o verbo assume o significado de "amar menos", como em Lucas 14.26. No caso, o verbo faz uma comparação entre nossa afeição a Deus, que deve estar acima de tudo e de todos, e nossa afeição aos nossos pais, irmãos, filhos etc. Mas em Apocalipse 2.6 o objeto do verbo é o pecado. No caso, "as obras dos nicolaítas", que nada mais eram do que a imoralidade, a idolatria e a perversão da verdade, como nos diz Simon Kistemaker (Apocalipse. p. 159). G. K. Beale faz o seguinte comentário sobre "as obras dos nicolaítas": "Provavelmente os nicolaítas ensinavam que os cristãos poderiam participar da cultura idólatra de Éfeso. A cidade fora dominada pelo culto à deusa Artemis, deusa da fertilidade, e seu templo tinha milhares de sacerdotes e sacerdotisas com pesado envolvimento na prostituição" (Revelation: A Shorter Commentary. p. 57). Dessa forma, Jesus não está elogiando a igreja de Éfeso por "amar menos" aquilo que é pecaminoso. Em vez disso, Jesus aprova que aqueles cristão, de modo ativo e intenso, detestem o pecado ensinado e promovido pelos nicolaítas. Ademais, que os evangélicos esquerdistas atentem bem para isto: Jesus diz: "eu também odeio". Jesus odeia. E nem preciso dizer que em Jesus não existe pecado, não é mesmo?

Em 1 João 4.20 a Palavra de Deus diz: "Se alguém disser: Amo a Deus, e odiar a seu irmão, é mentiroso; pois aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê". O princípio é óbvio: quem ama a Deus também ama a seu irmão. Quem odeia a seu irmão, não ama a Deus. Quem odeia a seu irmão também odeia a Deus. A pergunta é: quem é o meu irmão? Não vou entrar na questão da paternidade de Deus, pois aqui já temos informação suficiente para que os evangélicos esquerdistas rilhem os seus dentes por longos anos.

O fato é que o ódio também pode ser compreendido como uma função do amor. Sim, é isto mesmo que você leu. O ódio é uma função do amor. Ora, qualquer coisa que coloque sob ameaça aquilo que é o objeto da minha afeição mais elevada, do meu amor mais intenso, será, automaticamente, objeto do meu ódio, da minha repulsa mais intensa. De igual modo, se eu amo a pureza, então, eu também odiarei a impureza. Se eu amo a santidade, odiarei a iniquidade. Se amo a justiça, odiarei a injustiça. Por amar a Deus acima de todas as coisas, qualquer coisa que ofenda ao objeto do meu amor será objeto do meu ódio. Como Davi, no Salmo 139, pôde dizer que odiava com ódio consumado determinadas pessoas? Ele explica: "Não aborreço eu, SENHOR, os que te aborrecem? E não abomino os que contra ti se levantam? Aborreço-os com ódio consumado; para mim são inimigos de fato" (vv. 21-22). Davi não odiava quem o odiava. Davi odiava quem odiava aquele a quem ele amava de todo o seu coração. Mas nem por isso ele se dava por justificado. Ele, sabendo da inclinação do seu coração, ainda pediu a Deus o sondasse e o livrasse de todo e qualquer caminho mau (vv. 23-24).

O nosso grande perigo é odiarmos aquilo que deve ser objeto do nosso amor e amarmos aquilo que devemos odiar. Quando o Senhor inicia em nós o processo de santificação, ele está nos moldando segundo a imagem de Jesus (Romanos 8.29), a fim de amarmos cada vez mais aquilo que é amável e odiarmos cada vez mais aquilo que é odioso. Por amarem tanto uma ideologia, esquerdistas odeiam aqueles que defendem a fé cristã histórica.

Quem ama a Deus, odeia o pecado.

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Autor: Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima
Fonte: Perfil do autor no Facebook
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Uma pequena nota sobre a Perseverança dos Santos

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A DOUTRINA DA PERSEVERANÇA DOS SANTOS diz respeito à preservação da salvação do eleito. Trata-se de uma afirmação de que o que Deus começa, ele completa. Louis Berkhof definiu a perseverança dos santos como segue: "A perseverança pode ser definida como a contínua operação do Espírito Santo no crente, pela qual a obra da graça divina que é iniciada no coração, é continuada e levada à conclusão" (Systematic Theology).

Registre-se que tal perseverança é na graça de Deus e na fé, e fé definida em termos de fiducia, de confiança na suficiência dos méritos de Cristo, de descanso quanto à perfeição do seu poder para levar a salvação da pessoa à sua plena realização. A Confissão de Fé de Westminster, Padrão doutrinário presbiteriano, no capítulo 17.1, afirma de maneira suficientemente clara: "Aqueles a quem Deus aceitou em seu Amado, chamou eficazmente, e santificou por seu Espírito, nunca podem cair total nem finalmente DO ESTADO DE GRAÇA, mas, certamente perseverarão até ao fim, e serão eternamente salvos". James Montgomery Boice e Philip Graham Ryken definem a perseverança dos santos da seguinte maneira: "Ela é a verdade de que aqueles que foram levados à fé em Jesus Cristo - conhecidos de antemão e predestinados à fé por Deus desde a eternidade passada, tendo sido chamados, regenerados e justificados nesta vida e de tal modo colocados no caminho para a glorificação final que se pode falar nessa glorificação como algo já concluído - nunca serão e jamais poderão ser perdidos" (As Doutrinas da Graça. p. 177).

A doutrina da perseverança trata da imperecibilidade do relacionamento de amor, iniciado pela livre graça, entre Jesus Cristo e a pessoa. A doutrina da perseverança dos santos não ensina que, por causa da obra do Espírito Santo no coração do pecador, este está isento ou imune a cometer pecados específicos. A bem da verdade, o único pecado do qual o eleito é preservado e, por essa razão, jamais o cometerá, é a blasfêmia contra o Espírito Santo, definido pelo próprio Jesus como o único pecado, a única blasfêmia sem perdão (Mateus 12.31). Mais uma vez citando Boice e Ryken, eles fazem algumas observações a respeito do que a perseverança dos santos não significa: "1. Perseverança não significa que os cristãos são imunes a todo perigo espiritual só por serem cristãos [...] 2. Perseverança não significa que os cristãos são sempre impedidos de cair em pecado, só por serem cristãos" (op. cit., p. 178). Dessa maneira, é preciso compreender que "perseverança não significa que os cristãos não cairão, mas apenas que eles não se perderão" (op. cit., p. 178).

A perseverança dos santos não imuniza o crente de cometer determinados pecados nem estabelece um index de causa mortis inaplicáveis aos crentes. Esta bendita e gloriosa doutrina ensina que o pecado não terá a vitória final sobre o crente, a saber, quebrar a sua comunhão, o seu vínculo de amor com o doce Redentor. Jesus afirmou algo belo, em João 10.27-29: "As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão. Aquilo que meu Pai me deu é maior do que tudo; e da mão do Pai ninguém pode arrebatar". Algumas expressões nesse texto precisam saltar aos nossos olhos: "JAMAIS perecerão", "NINGUÉM as arrebatará da minha mão", "aquilo que o Pai me deu é maior do que TUDO" e "e da mão do Pai NINGUÉM pode arrebatar". A metáfora utilizada nos proporciona uma terna imagem pastoral da verdade de que o próprio Cristo, que nos salvou, assume a responsabilidade de me guardar da danação eterna. Ninguém pode me arrebatar da sua mão. Nem mesmo eu. Ainda que eu abra as minhas mãos, na tentativa de me soltar, ele me sustentará firme. Eu nunca me apartarei definitiva e completamente do meu Salvador. E mais, a segurança retratada na passagem é dupla, por assim dizer. Somos agarrados pelo Pai e pelo Filho.

A mesma verdade é afirmada pelo apóstolo Paulo numa passagem clássica sobre a segurança da salvação e o caráter absoluto da justificação pela fé: "Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas? Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós" (Romanos 8.32-34). Nos versículos seguintes, o apóstolo assevera, de maneira enfática, que ninguém, absolutamente ninguém, pode separar um eleito do amor de Deus em Cristo Jesus: "Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada? Como está escrito: Por amor de ti, somos entregues à morte o dia todo, fomos considerados como ovelhas para o matadouro. Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor" (vv. 8.35-39). Chamo a atenção para dois detalhes importantes dessa passagem.

O primeiro deles é que é muito interessante a referência à "morte" no versículo 38. O apóstolo Paulo fala de morte (thánatos) de modo generalizado, ou seja, a morte, em suas mais variadas formas, não é capaz de nos apartar do amor de Deus em Cristo Jesus. O segundo detalhe é a afirmação de Paulo, no sentido de que ninguém pode nos condenar, uma vez que Jesus morreu por nós, ressuscitou por nós e está à direita de Deus intercedendo por nós (v. 34). Precisamos dar o devido peso, a devida importância à continuidade da obra sacerdotal de Jesus no céu. Ele não apenas morreu por nós na cruz do Calvário. Ele não apenas levantou da sepultura para a nossa justificação, mas ascendeu aos céus e, como coloca o autor aos Hebreus: "também pode SALVAR TOTALMENTE os que por ele se chegam a Deus, vivendo SEMPRE PARA INTERCEDER POR ELES" (7.25). Podemos contar com a intercessão do nosso precioso Redentor, inclusive no momento em que, à semelhança de Cristão, tivermos que atravessar o caudaloso rio da morte. Não podemos fazer outra coisa, senão bradar juntamente com o apóstolo Paulo: "Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?" (1Coríntios 15.55).

Você que lê esta nota precisa se firmar nesta verdade: "O Salvador que ordenou a tua salvação antes da fundação do mundo, que enviou seu Filho para viver e morrer por você na cruz do Calvário, que enviou o seu Espírito reivindicar você como seu filho, nunca deixará você. E nem mesmo a aproximação da morte pode agora apartar você de Cristo, pois é Cristo quem te sustenta. Ele manterá você seguro no caminho para casa" (Michael A. Milton. What Is Perseverance of the Saints? p. 31).

Ah, como precisamos resgatar a devida compreensão desta bendita verdade. Na verdade, a saúde das nossas igrejas passa pela recuperação das antigas doutrinas da graça. O puritano Thomas Watson percebeu a importância dessa bendita doutrina: "O principal conforto de um cristão depende dessa doutrina da perseverança" (A Body of Divinity. p. 279).

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Autor: Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima
Fonte: Perfil do autor no Facebook
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A Parábola da Cordeirinha e os Padrinhos dos “Pais de Pets”

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Introdução

Há exatamente uma semana publiquei um pequeno artigo a respeito da atual prática de dispensar aos animais de estimação o mesmo tipo de tratamento e afeto destinados aos nossos filhos.[i] Homens e mulheres que se denominam “pais e mães de pets” e que, com base nisso, praticam as coisas mais absurdas, desde aniversário do bichinho de estimação até a concessão do sobrenome da família ao animal.

Meu argumento contra essa prática se baseou nas doutrinas da Trindade e da criação. O relacionamento entre as pessoas do Pai e do Filho, bem como a igualdade de essência define quem o homem deve considerar como seus filhos. De igual modo, o fato de o homem ser criado à imagem de Deus, conforme a sua semelhança, faz com que exista um abismo ontológico entre o ser humano e os animais. À parte da classificação biológica dos reinos vegetal, mineral e animal, a Escritura não classifica o homem como “animal”, mas como “alma vivente”, um ser que porta a imagem de Deus. Assim, é completamente inapropriado que animais de estimação sejam chamados e tratados como filhos. Inclusive, é bom que se diga que a Bíblia faz distinção entre o ser humano e os animais: “Disse o SENHOR: Farei desaparecer da face da terra o homem que criei, o homem e o animal, os répteis e as aves dos céus; porque me arrependo de os haver feito” (Gênesis 6.7; conferir 7.23 e Jeremias 51.62).

Contudo, não tardou para que defensores da prática e relativistas bíblicos começassem a tergiversar na busca por alguma brecha que justificasse o seu modo de agir. Um argumento apresentado se baseia numa passagem das Escrituras, e é tal argumento que me impele a escrever este breve artigo. É necessário afirmar que a tentativa de encontrar na Escritura uma abertura para a prática poderia me levar a elogiar o intento, uma vez que tais pessoas estariam desejando agir com base na Escritura. Não obstante, o contrário é que é verdade. Elas continuam desejando seguir as inclinações dos seus corações. Estão apenas usando a Bíblia como pretexto.

Sem mais delongas, vamos à passagem.

2 Samuel 12.4

A passagem diz o seguinte: “O SENHOR enviou Natã a Davi. Chegando Natã a Davi, disse-lhe: Havia na cidade dois homens, um rico e outro pobre. Tinha o rico ovelhas e gado em grande número; mas o pobre não tinha coisa nenhuma, senão uma cordeirinha que comprara e criara, e que em sua casa crescera, junto com seus filhos; comia do seu bocado e do seu copo bebia; dormia nos seus braços, e a tinha como filha. Vindo um viajante ao homem rico, não quis este tomar das suas ovelhas e do gado para dar de comer ao viajante que viera a ele; mas tomou a cordeirinha do homem pobre e a preparou para o homem que lhe havia chegado”.

O argumento utilizado é que esta passagem bíblica ensina que animais de estimação podem ser tratados e considerados como filhos, afinal de contas, o homem pobre da passagem havia comprado uma cordeirinha e a tratava como filha. Ela vivia com os seus filhos, denotando igualdade. Ela comia do seu prato e bebia do seu copo. Ela dormia nos braços do homem e era tratada como filha. O argumento pode ser esboçado em forma de um silogismo:

PREMISSA MAIOR: Se a Bíblia contivesse ao menos um exemplo de um animal sendo tratado como filho, seria lícito fazer o mesmo com os nossos animais.

PREMISSA MENOR: A Bíblia apresenta o exemplo de um homem que tinha uma cordeirinha e a tratava como filha.

CONCLUSÃO: Logo, animais de estimação podem ser tratados como filhos.

Trata-se de um argumento lógico bem construído. Não obstante, é um argumento falacioso, pois se fundamenta numa péssima hermenêutica. O argumento desconsidera, por completo contexto histórico, bem como o gênero literário da passagem em questão. Assim, é preciso interpretar devidamente a passagem, a fim de ficar evidenciado que a mesma não tem como propósito fornecer o fundamento para a atual prática dos “pais e mães de pets”.

A primeira verdade que precisa ser afirmada a respeito da passagem de 2Samuel 12.1–4, é que ela é uma parábola.[ii] Esta informação é crucial para entendermos a passagem.

Uma parábola nada mais é do que “uma narrativa breve que exige uma reação do ouvinte. No que diz respeito ao gênero, as parábolas são histórias realistas que abordam situações cotidianas”.[iii] Herbert Lockyer, um erudito estudioso das parábolas da Bíblia afirma que existem duas ideias presentes na raiz do termo grego παραβολή: “‘representar ou significar algo’; ‘semelhança ou aparência’. Esse termo grego significa ‘ao lado de’ ou ‘lançar ou atirar’, transmitindo a ideia de proximidade, num cotejamento que visa a verificar o grau de semelhança ou de diferença. Uma ‘semelhança’ ou ‘pôr uma coisa ao lado da outra’”.[iv] Assim, ao contar a parábola, Natã fará uma comparação entre a história e a realidade.

É preciso compreender que, apesar de ser uma história realista, uma parábola não é uma história real. Apesar de fazer uso de elementos do cotidiano das pessoas, as parábolas não eram histórias reais. O Dr. Paulo Anglada afirma o seguinte sobre as parábolas: “Elas são histórias empregando elementos do cotidiano. Não são fatos reais, mas histórias imaginárias concebidas a partir de aspectos da vida comum, familiares aos ouvintes e relacionados ao trabalho, religião e vida social e doméstica”.[v] Dessa maneira, como coloca, Köstenberger e Patterson: “Provavelmente nunca houve, por exemplo, nenhum estalajadeiro ou ‘bom samaritano’ históricos”.[vi]

Se as parábolas não apresentam fatos, então, qual o seu propósito? Qual o seu objetivo? Em primeiro lugar, as parábolas possuem um propósito didático. Elas são concebidas para ensinar determinada lição espiritual ou moral a um grupo de pessoas. Caso a lição fosse apresentada de maneira proposicional, em forma de proposições teológicas ou morais, dificilmente conseguiria captar a atenção do seu público. Lockyer diz: “Se Natã tivesse entrado no palácio real e, de forma direta e imediata, censurasse a culpa do rei decretando a sentença devida ao seu pecado, é pouco provável que Davi desse ouvidos. O tratamento direto e franco da questão talvez fizesse o rei se irar e o impedisse de se arrepender”.[vii] Assim, as parábolas se prestam a esse propósito. Os ouvintes rapidamente se identificavam com o conteúdo da história e permaneciam atentos até o fim. O erudito Moisés Silva diz que, além disso, “as parábolas têm a vantagem de desarmar aqueles que possam ofender-se com sua mensagem, visto que o ouvinte frequentemente tem que esperar até o último momento da história para descobrir seu significado”.[viii]

Qual a importância disso para o assunto dos “pais e mães de pets”? Simples. A passagem não está narrando um fato. Ela não está contando a história real de um homem que colocou em prática aquilo que a sociedade e até mesmo muitos crentes dos nossos dias têm praticado. As pessoas não conseguem perceber que estão fazendo uso de uma parábola, uma história apenas e extraindo dela um princípio para fundamentar um comportamento que é diametralmente oposto a doutrinas claras da Escritura, como as doutrinas da Trindade e da criação do ser humano à imagem de Deus. Numa ânsia por continuarem alimentando práticas antibíblicas, elas acabam por trocar aquilo que é certo por algo errado, e tudo isso firmadas numa péssima interpretação textual.

Mas há outro problema em se utilizar a passagem de 2Samuel 12.1–4 para apadrinhar o comportamento dos “pais e mães de pets”.

Ao se interpretar uma parábola é necessário ter o devido cuidado para não se extrair dela mais do que aquilo que, verdadeiramente, é o seu propósito. Anglada nos ajuda com este aspecto da interpretação das parábolas (a citação é longa, mas também é bastante elucidativa):

3. Identifique o foco ou focos centrais da parábola. A diferença principal entre parábolas e alegorias consiste em que as primeiras se propõem a ilustrar apenas uma ou algumas verdades ou lições centrais, enquanto que nas alegorias, cada detalhe é concebido com o propósito de significar alguma coisa, ensino ou pessoa, como ocorre por exemplo em O Peregrino, de João Bunyan. De modo geral, Jesus ilustra apenas uma lição com as suas parábolas (ver Lc 15.7; 18.7; 20.16). Algumas parábolas, entretanto, tais como a parábola do semeador (Mt 13.18–23) e a do joio (em Mt 13.36–43), são tão adequadas para ilustrar as lições que Cristo queria ensinar, que vários detalhes ilustram aspectos dessas verdades. Em geral, entretanto, o intérprete deve ter cuidado para não alegorizar os detalhes de uma parábola, encontrando significados em detalhes da história que não se propõem a ensinar nenhuma verdade em particular. Zuck chama a atenção para o fato de que geralmente Jesus não atribui significado aos detalhes das suas parábolas. Como exemplo, ele cita a parábola da ovelha perdida (Lv 15.3–7). Apesar de obviamente apontar para Jesus (o pastor), para pecadores perdidos (a ovelha perdida) e para os crentes (as 99 ovelhas), nada indica que detalhes, tais como o deserto, o ombro do pastor, sua casa, seus amigos e vizinhos, tenham qualquer significado.
4. Observe indicações explícitas e implícitas do propósito da parábola. Às vezes, a própria parábola indica explicitamente o seu propósito — geralmente no início ou no final — como ocorre na parábola do juiz iníquo (Lc 18.1–8). Logo no primeiro versículo, é dito que o propósito da parábola é demonstrar “o dever de orar sempre e nunca esmorecer” (cf. também o propósito da parábola das bodas, em Mateus 22.14). Quando não há indicação explícita do significado ou propósito da parábola, o intérprete deve observar o seu contexto-histórico literário. Frequentemente, a circunstância em que a parábola é proferida, uma pergunta, comentário ou explicação, logo antes ou depois da parábola, ajudam o leitor a compreender o seu propósito ou significado.[ix]

Por exemplo, na parábola do credor incompassivo muitas pessoas acabam afirmando que ela ensina que é possível perder a salvação depois de a termos recebido, pois a parábola fala do rei concedendo perdão ao homem que lhe devia dez mil talentos, porém, anulando esse perdão posteriormente. O que as pessoas deixam de considerar é que o propósito da parábola não é ensinar isso. A parábola tem o objetivo de nos ensinar a respeito de perdoarmos nossos irmãos ilimitadamente, uma vez que nossa dívida em relação a Deus é infinitamente maior do que a dívida que qualquer pessoa tenha conosco (Mateus 18.23–35). Muitas pessoas erram na interpretação das parábolas porque as desassociam do seu contexto histórico, e isso jamais deve ser feito. No caso da parábola do credor incompassivo, o contexto histórico pode ser aferido nos versículos 21–22: “Então, Pedro, aproximando-se, lhe perguntou: Senhor, até quantas vezes meu irmão pecará contra mim, que eu lhe perdoe? Até sete vezes? Respondeu-lhe Jesus: Não te digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete”.

De igual modo, dizer que 2Samuel 12.1–4 fornece o fundamento para tratarmos nossos animais de estimação como filhos é violentar o propósito da parábola. Devemos perguntar: Qual o propósito de Natã ao contar essa parábola ao rei Davi? Por acaso, Natã desejava ensinar Davi a dormir com seus animais de estimação, deixar que eles comessem do seu prato e bebessem do seu copo, além de fazê-los irmãos dos seus verdadeiros filhos? É absurda e desonesta qualquer sugestão nesse sentido. O contexto histórico da parábola da cordeirinha é claro: os pecados cometidos por Davi, seu adultério com Bate-Seba e o assassinato de Urias (2Samuel 11). O capítulo 11 termina com a afirmação de que, “isto que Davi fizera foi mal aos olhos do SENHOR” (v. 27).

A parábola, então, foi contada por Natã para levar Davi a reconhecer a sua culpa diante de Deus. Ao contar a história do homem e sua cordeirinha, o único objetivo de Natã era extrair a confissão: “Pequei!”, de Davi. Natã não tinha a menor ideia de que, um dia a história que contou seria usada para defender uma tolice. Novamente citando Moisés Silva: “O ponto aqui é que as parábolas devem ser entendidas historicamente, isto é, identificando-se as situações específicas em que elas foram usadas”.[x]

Sinceramente, causa-me espécie o caráter pueril de se usar a passagem de 2Samuel 12.1–4 para defender tamanha insensatez. Insisto em dizer que as pessoas desconsideram o que passagens e doutrinas claramente ensinadas nas Escrituras ensinam, a fim de agarrarem a deturpações de passagens que nada têm a ver com aquilo que corações pecaminosos concebem. Paulo Anglada dá o alerta: “Finalmente, é importante verificar se outras passagens bíblicas ensinam a verdade que o intérprete pensa que a parábola ilustra. Como regra, parábolas não devem ser usadas como base doutrinária, mas como ilustrações de verdades ensinadas em outras passagens bíblicas”.[xi]

Consideração Final

Depois de todo o arrazoado acima, só resta dizer uma coisa em relação a quem procura usar a parábola da cordeirinha para ensinar que animais de estimação podem ser tratados como filhos. Como afirmou o reformador João Calvino: “É lícito concluir que a imaginação do homem é, por assim dizer, uma perpétua fábrica de ídolos”.[xii]

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Notas:
[i] O artigo pode ser lido aqui e aqui.
[ii] Herbert Lockyer. Todas as Parábolas da Bíblia. São Paulo: Vida, 2006. p. 39.
[iii] Andreas J. Köstenberger e Richard D. Patterson. Convite à Interpretação Bíblica: A Tríade Hermenêutica. São Paulo: Vida Nova, 2015. p. 396.
[iv] Herbert Lockyer. Todas as Parábolas da Bíblia. p. 9.
[v] Paulo Anglada. Introdução à Hermenêutica Reformada: Correntes Históricas, Pressuposições, Princípios e Métodos Linguísticos. Ananindeua, PA: Knox Publicações, 2006. p. 210.
[vi] Andreas J. Köstenberger e Richard D. Patterson. Convite à Interpretação Bíblica. p. 396.
[vii] Herbert Lockyer. Todas as Parábolas da Bíblia. p. 40.
[viii] Walter C. Kaiser Jr., e Moisés Silva. Introdução à Hermenêutica Bíblica. São Paulo: Cultura Cristã, 2002. p. 104.
[ix] Paulo Anglada. Introdução à Hermenêutica Reformada. pp. 212–213.
[x] Walter C. Kaiser Jr., e Moisés Silva. Introdução à Hermenêutica Bíblica. p. 106.
[xi] Paulo Anglada. Introdução à Hermenêutica Reformada. p. 213.
[xii] João Calvino. As Institutas da Religião Cristã. 1.11.8. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. p. 107.

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Autor: Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima
Fonte: Medium
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A Trindade, a Criação e os “Pais e Mães de Pets”

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Tem se tornado cada vez mais comum encontrarmos proprietários de animais de estimação, como cães, gatos e pássaros, que denominam o seu relacionamento com os seus “pets” como “pais e filhos”. São homens e mulheres que se declaram “pais” e “mães de pets”, que tiram fotos com os seus animais e nas legendas escrevem frases como: “Uma selfie com a mamãe” ou “Primeira foto com a filha”. Além disso, sobrenomes de famílias são atribuídos aos animais, festas de aniversário são organizadas, decorações dispendiosas são utilizadas e até mesmo funerais, com a família em torno do caixão do animal são situações cada vez mais comuns. Toda a rotina da pessoa ou do casal é alterada, de modo a incluir o animal em todas as ocasiões. Até mesmo datas comemorativas, como o dia das mães e dos pais, são modificadas para contemplar os “pais e mães de pets”.¹

A intercessão de Cristo, o pacto da redenção e a nossa felicidade eterna

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Por isso, também pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles” (Hb 7.25).

Eu fico impressionado com quão pouco paramos para meditar a respeito da maravilhosa verdade da continuidade da obra sacerdotal de Jesus Cristo, no céu, em nosso benefício. Durante o seu ministério terreno, como sacerdote, Jesus foi o sumo sacerdote perfeito, que ofereceu a si mesmo como sacrifício todo-suficiente para a nossa salvação. Após a sua ascensão, o Senhor continua a desempenhar o ofício sacerdotal, nas palavras do autor aos Hebreus, “vivendo sempre para interceder” por aqueles por quem entregou a sua vida como sacrifício agradável a Deus.

Em Hebreus 4.14-15, o autor diz: “Tendo, pois, a Jesus, o Filho de Deus, como grande sumo sacerdote que penetrou os céus, conservemos firmes a nossa confissão. Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado”. Por volta de 1645 algumas pessoas chegavam até o puritano Thomas Goodwin e diziam: “Esse texto coloca um problema diante de nós. Ele diz que Cristo penetrou os céus. Ele está exaltado no lugar mais alto e distante. Como é possível que ainda lembre de nós?” A resposta de Goodwin era que esse texto também apresenta a solução, a resposta, pois esse que penetrou os céus se compadece de nossas fraquezas. Goodwin afirmava que essa passagem “por assim dizer, pega as nossas mãos e as coloca no peito de Cristo, e nos deixa sentir como o seu coração bate e suas afeições anseiam por nós” (The Heart of Christ. p. 48).

Assim, de acordo com Goodwin, as nossas fraquezas inspiram a compaixão de Cristo. E ao trabalhar a passagem, ele argumentou que o termo “fraquezas” envolve tanto o mal das aflições quanto o mal dos nossos pecados, pois Hebreus 5.2 diz que Jesus “é capaz de condoer-se dos ignorantes e dos que erram”. Assim, mesmo a nossa tolice e nossas escolhas pecaminosas despertam a compaixão do nosso meigo e doce Redentor.

Quando o autor aos Hebreus nos diz que Jesus, estando á destra do Pai, vive sempre para interceder pelos seus, precisamos compreender que essa intercessão tem como alvo as nossas fraquezas, o que envolve, as nossas dores e também os nossos pecados.

Muitas vezes entendemos errado o que significa a intercessão de Jesus. É como se ele se colocasse diante do Pai e começasse a argumentar, a nos defender, a tentar convencer um Pai indisposto que não deseja nos perdoar. Não! Jesus não argumenta com base em nosso esforço. Ele não tenta lembrar ao Pai que, mesmo ainda cometendo pecados, temos nos esforçado para fazer o que é correto (Rm 7.21). Como afirma Richard D. Phillips: “Jesus não precisa falar nada disso. Ele só precisa identificar você como um daqueles que pertencem a ele” (Reformed Expository Commentary: Hebrews. Posição 3168. Edição Kindle).

A intercessão de Jesus é feita a partir da sua obra em nosso benefício, não do nosso esforço. O apóstolo João nos dá um vislumbre dessa verdade: “Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo” (1Jo 2.1). O nosso advogado é o Justo. Sua intercessão em nosso benefício é feita com base na sua morte na cruz.

Tente imaginar o Filho apresentando ao Pai as marcas nas suas mãos, nos seus pés e no lado do seu corpo, e dizendo: “Foi por ele! Ele é meu!” Não há outra consequência senão perdão e desfrute prático do amor trinitário que é derramado em nossos corações.

Mas, como Jesus pode se dirigir ao Pai, dizendo: “Ele é meu!”?

João, em seu Evangelho, registrou a mais bela oração já feita, a oração sacerdotal do Senhor. E nessa oração, várias vezes Jesus afirma que lhe fomos dados pelo Pai: “Manifestei o teu nome aos homens que me deste do mundo. Eram teus, tu mos confiaste, e eles têm guardado a tua palavra […] É por eles que eu rogo; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus” (vv. 6,9). Além disso, no famoso cântico do Servo Sofredor, nós encontramos a seguinte declaração: “Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma e ficará satisfeito; o meu Servo, o Justo, com o seu conhecimento, justificará a muitos, porque as iniquidades deles levará sobre si. Por isso, eu lhe darei muitos como a sua parte, e com os poderosos repartirá ele o despojo, porquanto derramou a sua alma na morte; foi contado com os transgressores; contudo, levou sobre si o pecado de muitos e pelos transgressores intercedeu” (Is 53.11-12). Percebam: o Servo, o Senhor Jesus Cristo, como recompensa da sua obra perfeita, da sua obediência perfeita recebeu “muitos”.

A passagem acima e muitas outras nas Escrituras nos falam de um acordo prévio entre o Pai e o Filho, não de forma explícita, é verdade, mas, ainda assim, de forma muito clara. Quando fomos dados pelo Pai ao Filho? Quando foi que muitos foram prometidos pelo Pai ao seu Servo como a sua parte na obra da Redenção? Pense também nas várias passagens em que o Filho declara que veio tão somente para fazer a vontade daquele que o enviou (Jo 4.34; 5.30; 6.38,39).

Considere, por exemplo, Lucas 22.29: “Assim como meu Pai me confiou um reino, eu vo-lo confio”. As palavras de Jesus aos seus discípulos são uma espécie de testamento. Por duas vezes neste versículo Jesus usa um verbo cujo significado é “fazer um pacto”. Literalmente, o Senhor Jesus afirmou: “Assim como meu Pai me confiou, por meio de um pacto, um reino, eu o confio a vocês também por meio de um pacto”. O Filho fala de um Pacto feito entre ele e o Pai. Quando tal Pacto foi feito? Com toda certeza, Jesus está se referindo àquilo que na teologia é chamado de “Pacto da Redenção”, a aliança entre Pai e Filho, na qual todos os detalhes da nossa salvação são acertados. Nesse pacto o Pai, representando a Trindade, apresenta todas as exigências da lei e toda a penalidade que o Filho deveria assumir sobre si. Por sua vez, o Filho recebe as promessas em caso de obediência perfeita. Uma dessas promessas foi um povo, uma Noiva, um rebanho.

Pense nas implicações dessa verdade gloriosa!

Na eternidade passada teu nome foi pronunciado pelo Pai como fazendo parte daqueles que foram dados ao Filho. O Pai se dirige ao Filho, o fiador da Nova Aliança e diz algo como: “O Alan será teu”. Hoje, no tempo presente, teu nome continua a ser pronunciado pelo Filho em sua intercessão. O Filho se dirige ao Pai e diz: “O Alan é meu! Tu mo deste!”. E teu nome continuará a ser pronunciado no céu até à eternidade futura, pelos séculos dos séculos, como alguém que é amado pelo Filho, mas não apenas por ele, mas também pelo Pai e pelo Espírito Santo.

Nossos pecados são tratados completamente por nosso Senhor Jesus Cristo, que morreu por nós e por nós intercede. Nossas aflições também são alvo da intercessão do Senhor. É por causa dele que temos recebido bênção sobre bênção. É por causa dos seus méritos que somos abençoados com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais (Ef 1.3).

De nenhum modo tais conceitos devem nos lançar à inércia na busca pelo crescimento na piedade. Muito pelo contrário, como expressão de nossa gratidão, não nos resta outra coisa a fazer senão lutar, pelo Espírito, para mortificarmos os feitos do corpo (Rm 8.13).

Somos fracos, é verdade. Mas, uma vez que ele é tudo aquilo de que necessitamos, podemos bradar com Richard Sibbes: “Somos fracos, mas somos dele” (The Bruised Reed. p. 62). Somos vacilantes, fracos, tímidos, mas pertencemos a ele; fomos comprados com o seu sangue precioso, puro, sem mácula. Por esta razão, aborreçamos toda dúvida, toda incerteza, todo pensamento que nos leve a imaginar que não há mais esperança, sejam quais forem os nossos problemas e pecados.

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Autor: Rev. Alan Rennê
Fonte: Jovem Reformado
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O que é a Pregação Expositiva?

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O antigo puritano William Perkins, no segundo capítulo da sua obra clássica sobre pregação The Art of Prophesying, ofereceu a seguinte instrução aos pregadores: “A Palavra de Deus, exclusivamente, deve ser pregada, em sua perfeição e consistência intrínseca. A Escritura é o objeto exclusivo da pregação, o único campo onde o pregador deve trabalhar”.[1] Isso está intrinsecamente relacionado com a natureza da pregação expositiva.

De forma simples e até tautológica, John A. Broadus afirma que a pregação expositiva “ocupa-se principalmente da exposição das Escrituras”.[2] Tudo flui do texto: as suas divisões e a exploração dessas divisões, todo o conteúdo de pensamento. De acordo com ele, a principal característica de um sermão expositivo é a unidade no discurso: “A unidade no discurso é necessária à instrução, à convicção e à persuasão. Sem ela, o gosto dos ouvintes cultos não será satisfeito; mesmo os incultos, embora talvez não saibam por que, se sentirão bem menos profundamente impressionados”.[3] Isso é interessante, visto que há muita pregação versículo por versículo em nossos dias, mas que nada mais é do uma série de observações desarticuladas e desconexas sobre versículos sucessivos. 

O grande problema com a obra de Broadus é aquilo que pode ser percebido no ideário da vasta maioria dos evangélicos e até mesmo de muitos protestantes, a saber, que pregação expositiva é apenas um estilo de pregação, apenas um tipo de sermão classificado de acordo com a sua estrutura homilética. Antigamente, mesmo nossos seminários e institutos bíblicos trabalhavam a prática da pregação da seguinte forma: Primeiro, você prega um sermão tópico. Segundo, um sermão textual. Terceiro, um sermão expositivo. Scholars e professores chegam a recomendar uma variação de estruturas homiléticas em seus sermões, com vistas a “alcançar variedade no método sermonário [...] Essa variedade será aceitável e agradável à congregação atenta”.[4]

Interessa-me, particularmente, a definição de pregação expositiva que Albert Mohler apresenta:

A pregação expositiva é aquele tipo de pregação cristã que tem como seu propósito central a apresentação e a aplicação do texto da Bíblia. Todos os outros assuntos e interesses são subordinados à tarefa central de apresentar o texto bíblico. Como Palavra de Deus, o texto das Escrituras tem o direito de estabelecer tanto o conteúdo como a estrutura do sermão. A exposição autêntica acontece quando o pregador apresenta o significado e a mensagem do texto bíblico e mostra com clareza como a Palavra de Deus estabelece a identidade e a cosmovisão da igreja como o povo de Deus.[5]

Nisso reside a principal diferença entre a pregação expositiva e os outros tipos de pregação. Enquanto a pregação temática parte de um tópico em direção a textos bíblicos, e a pregação textual faça uso de uma passagem particular sem, contudo, examinar o intento original daquela passagem, a pregação expositiva “está, portanto, inescapavelmente ligada à obra de exegese séria. Se o pregador tem de explicar o texto, ele deve estudá-lo e dedicar horas de estudo e pesquisa necessárias ao entendimento do texto”.[6] Michael Houdmann afirma que, “tanto no sermão temático como no textual, a passagem da Bíblia é usada como material de apoio para o tema. Em sermões expositivos, a passagem da Bíblia é o tema, e materiais de apoio são usados para explicá-la e esclarecê-la”.[7]


Alguns eruditos, como Sidney Greidanus e John Stott, discordam da diferença estabelecida entre pregação expositiva e pregação textual, afirmando que esta distinção nada mais é do que um ato de confusão. A distinção alvo das críticas é aquela que diz que o sermão expositivo brota de uma passagem da Bíblia mais extensa do que dois ou três versículos, que é uma explicação versículo por versículo de uma passagem escolhida, dentre outras afirmações. Greidanus afirma que pregar expositivamente é “manusear o texto ‘de tal forma que seu significado essencial e real seja manifestado e aplicado às necessidades atuais dos ouvintes, como ele existe na mente do escritor bíblico em particular e como ele existe à luz de todo o contexto da Escritura’”.[8]

John Stott afirma:

Se ele [o texto] é longo ou curto, nossa responsabilidade como expositores é esclarecê-lo de tal forma que ele fale sua mensagem de forma clara, aberta, correta, relevante, sem adição, subtração ou falsificação. Na pregação expositiva o texto bíblico não é nem uma introdução convencional para um sermão num tema totalmente diferente, nem um pretexto conveniente sobre o qual projeta-se uma mistura de pensamentos heterogêneos, mas um mestre que dita e controla o que é dito.[9]

Mesmo Karl Barth disse acertadamente que, “se o pregador se dá por tarefa expor uma ideia sob uma forma qualquer – mesmo se esta ideia resulta de uma exegese séria e adequada – então não é a Escritura que fala, mas fala-se sobre ela. Para ser positivo, a pregação deve ser uma explicação da Escritura”.[10]


O fundamento bíblico de tudo o que foi dito pode ser percebido em Neemias 8:

1 Em chegando o sétimo mês, e estando os filhos de Israel nas suas cidades, todo o povo se ajuntou como um só homem, na praça, diante da Porta das Águas; e disseram a Esdras, o escriba, que trouxesse o Livro da Lei de Moisés, que o SENHOR tinha prescrito a Israel. 2 Esdras, o sacerdote, trouxe a Lei perante a congregação, tanto de homens como de mulheres e de todos os que eram capazes de entender o que ouviam. Era o primeiro dia do sétimo mês. 3 E leu no livro, diante da praça, que está fronteira à Porta das Águas, desde a alva até ao meio-dia, perante homens e mulheres e os que podiam entender; e todo o povo tinha os ouvidos atentos ao Livro da Lei. 4 Esdras, o escriba, estava num púlpito de madeira, que fizeram para aquele fim; estavam em pé junto a ele, à sua direita, Matitias, Sema, Anaías, Urias, Hilquias e Maaséias; e à sua esquerda, Pedaías, Misael, Malquias, Hasum, Hasbadana, Zacarias e Mesulão. 5 Esdras abriu o livro à vista de todo o povo, porque estava acima dele; abrindo-o ele, todo o povo se pôs em pé. 6 Esdras bendisse ao SENHOR, o grande Deus; e todo o povo respondeu: Amém! Amém! E, levantando as mãos; inclinaram-se e adoraram o SENHOR, com o rosto em terra. 7 E Jesua, Bani, Serebias, Jamim, Acube, Sabetai, Hodias, Maaséias, Quelita, Azarias, Jozabade, Hanã, Pelaías e os levitas ensinavam o povo na Lei; e o povo estava no seu lugar. 8 Leram no livro, na Lei de Deus, claramente, dando explicações, de maneira que entendessem o que se lia.

O texto foi lido e o texto foi exposto, explicado e aplicado às vidas do povo de Israel. Isto posto, fica claro que os seguintes elementos mínimos identificam uma pregação expositiva[11]:

  1. A mensagem encontra a sua única fonte na Escritura.
  2. A mensagem é extraída da Escritura a partir de cuidadosa exegese.
  3. A preparação da mensagem interpreta corretamente a Escritura em seu sentido normal e em seu contexto.
  4. A mensagem claramente explica o significado original da mensagem de Deus na Escritura.
  5. A mensagem aplica o significado da Escritura para os dias de hoje.

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Notas:
[1] William Perkins. The Art of Prophesying. Acessado em 11/10/2012.  http://www.monergism.com/thethreshold/sdg/perkins_prophesying.html >.
[2] John A. Broadus. Sobre a Preparação e a Entrega de Sermões. São Paulo: Hagnos, 2009. p. 65.
[3] Ibid. p. 67.
[4] Ibid.
[5] R. Albert Mohler, Jr. Deus Não Está em Silêncio: pregando em um mundo pós-moderno. São José dos Campos: Fiel, 2011. p. 75.
[6] Ibid. p. 76.
[7] Michal Houdmann. What Is Expository Preaching? Acessado em 12/10/2012. <http://www.gotquestions.org/expository-preaching.html>.
[8] Sidney Greidanus. O Pregador Contemporâneo e o Texto Antigo. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. p. 26.
[9] John R. W. Stott. Between Two Worlds: the art of preaching in the Twentieth Century. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1982. p. 126.
[10] Karl Barth. A Proclamação do Evangelho. Brasília: Monergismo, 2007. pp. 7-8. Acessado em 12/10/2012. <http://monergismo.com/wp-content/uploads/proclamacao_evangelho_barth.pdf>.
[11] Richard L. Mayhue. “Rediscovering Expository Preaching”. In: John MacArthur (Org.). Recovering Expository Preaching. Nashville, TN: Thomas Nelson, 1992. pp. 12-13.

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Autor: Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima
Fonte: Electus
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Sobre os “Iluminados” de Hebreus 6

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O texto em foco diz:

É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro, e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia. Porque a terra que absorve a chuva que frequentemente cai sobre ela e produz erva útil para aqueles por quem é também cultivada recebe bênção da parte de Deus; mas, se produz espinhos e abrolhos, é rejeitada e perto está da maldição; e o seu fim é ser queimada.” (Hb 6.4-8)

A primeira observação que deve ser feita a respeito de Hebreus 6.4-8, é que, trata-se, nos dizeres de Geerhardus Vos, de uma “difícil e importante passagem” sobre a aliança de Deus com o seu povo.[1] A razão dessa dificuldade está no fato de o autor da epístola mencionar especificamente o aspecto fenomenológico da religião nessa perícope.[2]

Os “.” de Hebreus 6.4-8 eram pessoas que “abandonaram esta assembleia dos santos”.[3] Eram pessoas não-regeneradas, não-eleitas, incrédulas que durante algum tempo fizeram parte de uma igreja visível, mas que apostataram. Muito se questiona acerca de como pessoas ímpias puderam “provar” de vários benefícios, como por exemplo:

1) do dom celestial; 2) da participação comum do Espírito Santo; 3) da boa palavra de Deus; e 4) dos poderes do mundo vindouro. Como tais pessoas puderam desfrutar, em alguma medida, de bênçãos destinadas àqueles que foram os beneficiários diretos do sacrifício substitutivo de Cristo?

D. Mathewson, no seu artigo intitulado Reading Heb 6:4-6 in Light of the Old Testament, lança luz sobre esse questionamento, ao afirmar que, “a linguagem do autor em 6.4-6 é colorida por referências do AT que aludem e ecoam como citação direta”.[4] De forma específica, Mathewson sugere que a referência àqueles que foram “iluminados” lembra a coluna de fogo que alumiou os israelitas através do deserto.[5] Algumas passagens veterotestamentárias podem demonstrar o ponto. Neemias 9.12,19 diz o seguinte:

Guiaste-os, de dia, por uma coluna de nuvem e, de noite, por uma coluna de fogo, para lhes alumiar o caminho por onde haviam de ir [...] Todavia, tu, pela multidão das tuas misericórdias, não os deixaste no deserto. A coluna de nuvem nunca se apartou deles de dia, para os guiar pelo caminho, nem a coluna de fogo de noite, para lhes alumiar o caminho por onde haviam de ir.

O “dom celestial” lembra o dom celestial do maná, que foi dado por Deus ao seu povo quando este se encontrava no deserto (Êxodo 16.15). Em Neemias 9.15 é dito que o pão celestial foi dado aos israelitas “na sua fome”. Por sua vez, a referência àqueles que “se tornaram participantes do Espírito Santo” ecoa a experiência dos peregrinos do deserto, que “tinham extensiva interação com o Espírito de Deus”[6], como é testemunhado em Neemias 9.20: “E lhes concedeste o teu bom Espírito, para os ensinar; não lhes negaste para a boca o teu maná; e água lhes deste na sua sede”.

Após considerar os elementos descritos em Hebreus 6.4-6, Mathewson conclui:“O autor não está apenas aludindo a textos fragmentados e a vocabulário isolado para apresentar uma retórica colorida, mas por aludir a textos que pertencem a uma enorme matriz de idéias ele está evocando o contexto inteiro e história da experiência de Israel no deserto”.[7]

Quando se leva em consideração que os destinatários dessa epístola eram cristãos judeus, essa interpretação se mostra bastante plausível. O autor de Hebreus utiliza a linguagem do Antigo Testamento para descrever um abandono doloroso de uma congregação por parte de algumas pessoas.

Dessa forma, a iluminação recebida, o dom celestial provado e o Espírito compartilhado se mostram bênçãos da graça comum de Deus destinada a pessoas ímpias ou, nas palavras de Charles Hodge, “influências do Espírito concedidas a todos os homens”.[8] Tais pessoas, “tiveram um claro entendimento do juízo de Deus sobre o mundo, das promessas de Deus, o desvendar do mundo futuro; tiveram uma clara distinção do juízo, bem como provaram dos milagres da era apostólica”, afirma o teólogo genebrino Matthew Poole.[9]

No seu comentário a respeito do versículo 4, João Calvino endossa a opinião de que mesmo os réprobos recebem algumas chispas da luz divina:

Mas aqui surge uma nova questão, como pode que aqueles que fizeram tal progresso venham a apostatar depois de tudo? Pois Deus, isso pode ser dito, não chama ninguém eficazmente a não ser os seus eleitos, e Paulo testifica que eles realmente são seus filhos e que são guiados por seu Espírito (Romanos 8.14) e ele nos ensina que, é um seguro penhor de adoção quando Cristo nos faz participantes do seu Espírito. O eleito também está além do perigo da apostasia final; pois o Pai que o elegeu para ser preservado em Cristo é maior do que tudo, e Cristo promete vigiar por eles de maneira que nenhum pereça. A tudo isso, eu respondo que Deus, de fato, favorece apenas os seus eleitos com o Espírito de regeneração e que, por isso eles são distinguidos dos réprobos; pois eles são renovados segundo a sua imagem e recebem a seriedade do Espírito na esperança da herança futura, e pelo mesmo Espírito o Evangelho é selado em seus corações. Mas eu não posso admitir que tudo isso seja alguma razão pela qual Ele não conceda também aos réprobos algum sabor da sua graça, que Ele não irradie suas mentes com algumas chispas da sua luz, ou não lhes dê alguma percepção da sua bondade, e de alguma maneira grave sua palavra em seus corações. De outra forma, o que viria a ser a fé temporal mencionada em Marcos 4.17? Portanto, existe algum conhecimento mesmo nos réprobos, o qual posteriormente vem a desvanecer, porque não possui raízes suficientemente profundas, ou porque elas murcham ao serem sufocadas.[10]

O que pode ser apreendido a partir desse comentário é que, de acordo com Calvino, bênçãos fluidas da obra expiatória de Cristo e destinadas diretamente aos eleitos e salvos como, por exemplo, a iluminação, o dom celestial da Palavra e a comunhão no Espírito, podem ser destinadas, ainda que de forma indireta a pessoas ímpias e incrédulas. Como Grudem acertadamente frisa, “a graça especial, que Deus dá aos salvos, leva a maior parte das bênçãos da graça comum aos incrédulos que vivem no campo de influência da igreja”.[11]

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Notas:
[1] Geerhardus Vos. The Teaching of the Epistle to the Hebrews. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1956. p. 28.
[2] Ibid.
[3] Moisés Bezerril. A Queda dos Iluminados de Hebreus 6.4-6. p. 16. Acessado em 18/08/2011.
[4] D. Mathewson. “Reading Heb 6:4-6 in Light of the Old Testament”, In: Westminster Theological Journal. Ed. 61. 1999. p. 214.
[5] Ibid. p. 216.
[6] Ibid. p. 217.
[7] Ibid. p. 223.
[8] Charles Hodge. Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, 2001. p. 981.
[9] Matthew Poole. A Commentary on the Whole Bible: Matthew – Revelation. Vol. 3. Edinburgh: The Banner of Truth Trust, 2003. p. 737.
[10] John Calvin. Commentary on Hebrews. Grand Rapids, MI: Christian Classics Ethereal Library, 2000. p. 94. Acessado em 25/Ago/2011. 
[11] Wayne Grudem. Teologia Sistemática. p. 554.

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Autor: Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima
Fonte: Electus
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Qual a Origem do Termo Reformado?

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Segunda retrasada foi o dia da Reforma Protestante. E com ele veio uma enxurrada de postagens sobre a importância da data. No entanto, muitas versavam sobre a questão de ser "reformado". Alguns diziam que é implicância e estupidez quando afirmam que o termo deve ser aplicado a um grupo específico, não a todos. Subjaz a este entendimento que todos os adeptos do movimento iniciado por Lutero são "reformados", afinal de contas, todos comemoram o dia da Reforma e creem em certas doutrinas.

Pois bem, transcrevo abaixo alguns testemunhos de historiadores sobre a questão do termo. Esclareço, de início, que, de modo algum, tenho a intenção de desmerecer quem quer que seja, ou de insinuar que A é melhor que B, ou que há alguns grupos não têm direito de comemorar a Reforma, ou ainda, que apenas presbiterianos são reformados. Longe disso! Meu objetivo é tão somente oferecer um esclarecimento a partir da historiografia protestante. Vamos começar com um presbiteriano, certamente o mais tendencioso na mente de muitos:

Pouco depois que o protestantismo começou na Alemanha, sob a liderança de Martinho Lutero, surgiu uma segunda manifestação do mesmo no Cantão de Zurique, na Suíça, sob a direção de outro ex-sacerdote, Ulrico Zuínglio (1484-1531). Para distinguir-se da reforma alemã, esse novo movimento ficou conhecido como Segunda Reforma ou Reforma Suíça. O entendimento de que a reforma suíça foi mais profunda em sua ruptura com a igreja medieval e em seu retorno às Escrituras, fez com que recebesse o nome de MOVIMENTO REFORMADO e seus simpatizantes ficassem conhecidos simplesmente como 'reformados'. Inicialmente, o movimento reformado esteve mais ligado à pessoa de Zuínglio. Porém, com a morte prematura deste, o movimento veio a associar-se com seu maior teólogo e articulador, o francês João Calvino (1509-1564). A propósito, os 'protestantes', fossem eles luteranos ou reformados, só passaram a ter essa designação a partir da Dieta de Spira, em 1529. Portanto, o movimento reformado é o ramo do protestantismo que surgiu na Suíça, no século 16, tendo como líderes originais Ulrico Zuínglio, em Zurique, e João Calvino [...] Até hoje, as igrejas ligadas a essa tradição no continente europeu são conhecidas como Igrejas Reformadas (da Suíça, França, Holanda, Hungria, Romênia e outros países) (NASCIMENTO, Adão Carlos; MATOS, Alderi Souza de. O que Todo Presbiteriano Inteligente Deve Saber. Santa Bárbara d'Oeste, 2007. pp. 10-11).
O tipo de Protestantismo de Calvino era conhecido como "reformado". Diferia do sistema luterano no sentido de que a Igreja era uma instituição paralela ao Estado e não subordinada a ele. A Igreja era uma organização independente que mantinha sua vida própria e usava sua posição para corrigir o Estado quando necessário (CLOUSE, Robert G. et alli. Dois Reinos: A Igreja e a Cultura Interagindo ao Longo dos Séculos. São Paulo: Cultura Cristã, 2003. p. 244).
Os milhões que aceitam a fé reformada e sua fundamentação doutrinária testemunham a importância do sistema teológico formulado por João Calvino (1509-1564), designado geralmente pelo termo 'calvinismo'. O termo 'fé reformada' APLICA-SE ao sistema de teologia desenvolvido a partir do sistema de Calvino (CAIRNS, Earle E. O Cristianismo Através dos Séculos. São Paulo: Vida Nova, 1995. p. 251).

Um pouco antes, Cairns afirmou sobre Zwínglio: “Foram estas as ideias do homem que colocou os fundamentos da fé reformada na Suíça alemã. Embora Calvino tenha se tornado o herói da fé reformada, a igreja não pode esquecer o papel de Zwínglio, erudito, democrático e sincero, na libertação da Suíça das garras do papa” (p. 246).

O prestigiado estudioso Alister E. McGrath divide o protestantismo em três grandes ramos: Luterano (Reforma Luterana), Reformado (Reforma Calvinista) e Anabatista (Reforma Radical):

As origens da Reforma calvinista responsável pela constituição das Igrejas Reformadas (como a igreja presbiteriana), se encontram em acontecimentos ocorridos dentro da Confederação Suíça. Enquanto a Reforma luterana teve suas origens num contexto acadêmico, a IGREJA REFORMADA deve suas origens a uma série de tentativas de reformar a moral e o culto eclesiástico (mas não necessariamente sua doutrina) de acordo com um padrão mais bíblico. É preciso enfatizar que apesar de Calvino ter dado a esse estilo de Reforma a sua configuração definitiva, suas origens remontam a reformadores mais antigos como Zwínglio e Heinrich Bullinger, sediados em Zurique, a principal cidade da Suíça" (MCGRATH, Alister E. Teologia Histórica: Uma Introdução à História do Pensamento Cristão. São Paulo: Cultura Cristã, 2007. p. 180).

David G. Peters, um teólogo luterano, discutindo as controvérsias em torno da presença real de Cristo no sacramento da Ceia, afirmou que os luteranos "acusaram os reformados de separar as naturezas de Cristo do mesmo modo como Nestório havia feito" (PETERS, David G. The “Extra Calvinisticum” and Calvin’s Eucharistic Theology. p. 6. Disponível em: <http://www.wlsessays.net/bitstream/handle/123456789/3632/PetersCalvin.pdf>).

Na mesma página Peters afirma que "o debate eucarístico entre luteranos e reformados era simultaneamente um debate sobre cristologia" (p. 6).

Francis Pieper, dogmático luterano, faz referência aos calvinistas utilizando o termo reformado: "Cada palavra que os reformados falam contra a participação da natureza humana na divina onipresença, falam também contra sua doutrina da participação da natureza humana na Pessoa do Filho de Deus" (PIEPER, Francis. Christian Dogmatics. Vol. 2. Saint Louis, MS: Concordia Publishing House, 1951. p. 167).

Por fim, o grande historiador da Igreja, Kenneth Scott Latourette, afirma:

Paralelo ao luteranismo, outra espécie de protestantismo emergia e se desenvolvia. Esse protestantismo usualmente é conhecido como REFORMADO. Nele há variantes, inclusive o presbiterianismo em suas diversas manifestações. Todavia, de modo semelhante ao luteranismo, ele constituiu uma família de igrejas que, nos séculos 19 e 20, seriam atraídas conjuntamente em uma associação mundial (LATOURETTE, Kenneth Scott. Uma História do Cristianismo. Vol. 2. São Paulo: Hagnos, 2006. p. 1009).

Reafirmo que a intenção não é apontar o dedo para quem quer que seja, afirmando que o tal não tem direito de comemorar a Reforma Protestante. A ideia é tão somente esclarecer que o termo "reformado", em sua gênese, foi aplicado a um grupo distinto dos luteranos e anabatistas. Assim, meu desejo é que protestantes luteranos, protestantes reformados e protestantes anabatistas - ou descendentes destes grupos - juntos se alegrem em Deus pela Reforma, que no próximo ano completa 500 anos.

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Autor: Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima
Fonte: Electus
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Razões pelas quais guardamos o primeiro dia da semana

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Portanto, resta um repouso para o povo de Deus. Porque aquele que entrou no descanso de Deus, também ele mesmo descansou de suas obras, como Deus das suas” (Hebreus 4.9-10).

I – A CONTROVÉRSIA ATUAL

Irmãos, não basta afirmar que ninguém tem mais a obrigação de guardar o sétimo dia da semana. Dizer apenas isso pode dar a impressão de que a obrigação moral do dia de descanso não mais existe. Outro erro que devemos evitar, é o cometido por João Calvino, que afirmou o seguinte: “A tal ponto, contudo, não me prendo ao número sete que obrigue a Igreja à sua servidão, pois não haverei de condenar as igrejas que tenham outros dias solenes para suas reuniões, desde que se guardem da superstição”.[1] O erro de Calvino consiste, em que “nenhum homem ou igreja tem a prerrogativa de estabelecer um dia para outros”.[2] Teólogos contemporâneos têm afirmado que o descanso é apenas um princípio, não existindo mais nenhum dia específico. Para eles, o crente tem o arbítrio de escolher o seu próprio dia. Michael Horton, por exemplo, afirma o seguinte: “Contudo, desejo dizer que a minha convicção é que o quarto mandamento pertence ao que chamamos de parte ‘cerimonial’ da lei em vez de ‘moral’ [...] Sugerir que o quarto mandamento, então, é parte da lei cerimonial em vez de ser parte da lei moral, é dizer que ele não mais obriga os cristãos”.[3] A mesma linha é seguida pelos colaboradores de D. A. Carson, que, em Do Shabbath para o Dia do Senhor afirmam a premissa de que “o domingo é ‘um novo dia de adoração que foi escolhido para comemorar o evento único e histórico-salvador da morte e ressurreição de Cristo”.[4]