A teologia de Santo Agostinho

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Por Francisco Alison Silva Aquino


Agostinho é considerado um dos maiores teólogos da história da igreja, desde os tempos pós-apostólicos até os dias de hoje. Historiadores como Adolf Von Harnack, por exemplo, diriam que Agostinho é o maior vulto da igreja entre o apóstolo Paulo e o reformador Martinho Lutero. Sua contribuição para o pensamento cristão é sem dúvida muito rica, uma vez que ele tratou de vários temas bíblicos, assim como de debates a respeito dos mais controversos assuntos teológicos. Nesse sentido, vejamos algumas contribuições deste grande mestre do período patrístico.

No que diz respeito às obras de Agostinho de Hipona, algumas merecem destaque tais como: Confissões (397), Da graça e do livre arbítrio (426-427), Da trindade (c. 399- c. 419) e a Cidade de Deus. Seus escritos tiveram grande impacto na construção do pensamento cristão em toda a história da igreja. É praticamente impossível estudar o pensamento de determinado teólogo sem ver ali traços do pensamento de Agostinho.

Agostinho se preocupou em defender alguns pontos teológicos muito importantes para a teologia cristã, tais como a trindade e a doutrina da predestinação.

Ele esteve meditando no problema da trindade durante toda a sua vida cristã. É importante destacar que ele aceitava a verdade de que só existe um Deus e que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são ao mesmo tempo distintos e coessenciais, e numericamente um em substância. Embora ele não tentasse provar essas verdades, ainda assim ele cria que a escritura as ensinava quase a cada página. 

Kelly nos mostra algo muito interessante a respeito da ideia de processão do Espírito e a geração do filho. Ele diz:

“Agostinho sempre encontrou dificuldade para explicar o que era a processão do Espírito ou em que ela difere da geração do filho. Ele estava certo, no entanto, de que o Espírito é o amor mútuo do pai e do filho (communem que invicem se diligunt pater et filius caritatem), o vínculo consubstancial que Os une. Seu ensino constante foi, portanto, de que ele é o Espírito tanto de um como de outro; em sua maneira de se expressar, o Espírito Santo não é o Espírito de um deles, mas de ambos.” (KELLY, 1994, p. 208).

Nesse sentido, Agostinho cria que o Pai e o Filho formam um princípio único em relação ao Espírito Santo. Por isto Agostinho ensinou a doutrina da dupla processão do Espírito a partir do Pai e do Filho (filioque) mais inequivocamente do que qualquer um dos pais ocidentais que vieram antes deles.

Muitas outras considerações a respeito da doutrina da trindade desenvolvida por Agostinho poderiam ser exploradas aqui, porém o que já foi dito é o bastante para comprovar que este grande teólogo defendeu esta verdade maravilhosa com tanto afinco. No entanto, Agostinho é mais lembrado por suas controvérsias com Pelágio acerca da doutrina da depravação humana.

A controvérsia inicia com uma afirmação na obra “Confissões” de Agostinho que provocara Pelágio. Agostinho dissera: “Dai-me o que me ordenais, e ordenai-me o que quiserdes”. Esta oração reconhecia a necessidade que o homem tem da graça soberana. Agostinho entendia que Deus faria no homem o que requer dele. Pelágio simplesmente não podia aceitar isso. Para ele, uma ordem divina implica na capacidade humana de obedecê-la.

Sobre esta controvérsia, Lawson afirma:

“Este foi o cerne da disputa entre Agostinho e Pelágio. Agostinho ensinava que o homem, na queda de Adão, perdeu toda a capacidade de obedecer a Deus. Por causa do pecado original, os seres humanos não podem realizar o que Deus requer. Pelágio, confiando na razão humana, mais que na revelação divina, concluiu que a responsabilidade necessita de capacidade. A despeito do ensino da escritura, ele insistia sobre a capacidade natural do homem caído em guardar a lei de Deus. As principais facetas do ensino de Pelágio consistiam num exaltado conceito da responsabilidade humana e o conceito deficitário da soberania divina.” (LAWSON, 2013, p. 289)

Assim sendo, Agostinho trouxe uma compreensão mais aprofundada a respeito da doutrina da depravação do homem. Enquanto muitos negavam o estado de miserabilidade do homem no pecado, Agostinho defendia que cada ser humano nasce em pecado (Sl 51.5) e que a menos que Deus intervenha com sua graça soberana ninguém pode ser salvo.

Por fim, este mestre do pensamento cristão é referência para todos os teólogos posteriores a ele, de modo que é impossível ler o pensamento de outros grandes vultos do pensamento cristão sem enxergar as tonalidades agostinianas nos escritos destes mestres.

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Referências:
KELLY, J.N.D. Patrística: Origem e desenvolvimento das doutrinas centrais da fé cristã. São Paulo: Vida Nova, 1994.
LAWSON, Steve. Pilares da graça: Longa linha de vultos piedosos. São José dos Campos: Fiel, 2013.

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Divulgação: Bereianos 
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Agostinho e o método alegórico de interpretação

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Por Rikison Moura, V.D.M


Agostinho de Hipona (354-430), foi um dos maiores e mais influentes teólogos da igreja cristã. Respeitado tanto por católicos como por protestantes, Agostinho cravou o seu nome de uma vez por todas nos anais da história. Esse homem foi tão importante para os ideais da Reforma Protestante e seus escritos influenciaram de maneira tão profunda os reformadores, que há quem diga que a Reforma Protestante, bem que podia ser chamada de “Reforma agostiniana”.

Sua teologia desenvolveu-se em um período de conturbados e acalorados debates. E enquanto travava verdadeiras batalhas contra os maniqueus, donatistas, Pelágio e tantos outros, verdadeiras pérolas brotaram da pena de Agostinho. Dentre seus escritos mais importantes destacam-se: Confissões, A Trindade, que ele levou 16 dezesseis anos para termina-la, O livre-arbítrio, Cidade de Deus e a Doutrina cristã.

Esse livro, A doutrina cristã, é um manual de hermenêutica e pregação. Aqui, Agostinho estabeleceu princípios importantes de interpretação bíblica. Entre esses princípios destacam-se os seguintes:

1. O intérprete deve possuir fé cristã autêntica.
2. Deve-se ter em alta conta o significado literal e histórico da Escritura.
3. A Escritura tem mais que um significado e portanto o método alegórico é adequado.
4. Há significado nos números bíblicos.
5. O AT é documento cristão porque Cristo está retratado nele do princípio ao fim.
6. Compete ao expositor entender o que o autor pretendia dizer, e não introduzir no texto o significado que ele, expositor, quer lhe dar.
7. O intérprete deve consultar o verdadeiro credo ortodoxo.
8. Um versículo deve ser estudado em seu contexto, e não isolado dos versículos que o cercam.
9. Se o significado de um texto é obscuro, nada na passagem pode constituir-se matéria de fé ortodoxa.
10. O Espírito Santo não toma o lugar do aprendizado necessário para se entender a Escritura. O intérprete deve conhecer hebraico, grego, geografia e outros assuntos.
11. A passagem obscura deve dar preferência à passagem clara.
12. O expositor deve levar em consideração que a revelação é progressiva.[1]

Porém, mesmo estabelecendo esses importantes princípios de interpretação bíblica, muitos dos quais ainda são utilizados hoje em dia, Agostinho não seguiu de perto esses princípios. Na prática, Agostinho renunciou à maioria dos seus princípios e dedicou-se excessivamente à interpretação alegórica. Ele justificou suas interpretações alegóricas recorrendo a 2 Coríntios 3.6  “Porque a letra mata, mas o espírito vivifica”, querendo com isso dizer que uma interpretação literal da Bíblia mata, mas a interpretação alegórica ou espiritual, vivifica. 

Portanto, a influência de Agostinho na história da interpretação bíblica foi mista: na teoria ele sistematizou muitos dos princípios de uma exegese sadia, mas na prática deixou de aplicar esses princípios em seus estudos dedicando-se a alegoria.

Durante muito tempo a interpretação alegórica reinou na igreja. Desde aqueles que sucederam os apóstolos até a Reforma Protestante no século XVI. Nomes como Clemente de Alexandria (c.150-c.215), Orígenes (185?-254?) eram exímios intérpretes alegóricos. Orígenes dava grande importância a 1 Coríntios 2.6-7 (“falamos a sabedoria de Deus em mistério”).

Mas o que é alegoria? E quais são os seus principais problemas?

O termo alegoria procede da combinação de dois termos gregos, allos, isto é, “outro”, e agoreyo, “falar”, ou “proclamar”. Literalmente significa “dizer uma coisa que significa outra”.[2]

Esdras Costa Bentho nos chama a atenção de que como figura literária, a alegoria é uma metáfora estendida e um recurso literário válido e útil; porém, como sistema de interpretação, mutila os textos bíblicos.[3]

O grande problema de usar alegorias como método de interpretação bíblica é que ele não leva em consideração a intenção do autor original. A intenção do autor perde-se de vista e o intérprete introduz no texto as suas próprias palavras. O intérprete alegórico é especulativo, extravagante. Na ânsia de encontrar o sentido espiritual em cada sentença da Escritura, ele perde de vista o contexto histórico e sangra o propósito tencionado pelo autor original, e assim a Bíblia passa a ser interpretada, não pela própria Bíblia, mas pela mente fantasiosa do intérprete.

Hoje em dia, vez por outra, nós vemos alguns pregadores se aventurarem no terreno escorregadio da interpretação alegórica. Um dia desses ouvi um pregador dizer: “Vocês sabem por que razão Davi pegou cinco pedras do ribeiro (1Sm 17.40)? Era porque aquelas cinco pedras apontavam para o nome de Jesus!”. Mas vejam só que problema esse pregador tem em mãos. Ele não levou em consideração que a Bíblia não foi originalmente escrita em português, e o nome Jesus no hebraico é Yeshua e a transliteração grega do hebraico Yeshua é Jesous e em ambos os casos não tem cinco letras como queria o pregador alegórico acima citado.

Com o advento da Reforma Protestante, o eixo hermenêutico e exegético é drasticamente modificado. As fantasiosas interpretações alegóricas são abandonadas e o texto sagrado, que pelos reformadores era levado à sério é explicado de modo fiel. Tanto Lutero como Calvino, mesmo sendo grandes admiradores de Agostinho, não seguiram o método alegórico de interpretação bíblica e adotaram uma hermenêutica clara, direta e literal. Lutero entendia que o método histórico-gramatical era a melhor abordagem para a compreensão correta da Escritura. Ele chamou a interpretação alegórica de “sujeira”, “escória” e “trapos obsoletos”.

O doutor Martinho Lutero advertiu sobre a atração sedutora de espiritualizar o texto bíblico: “Uma alegoria é como uma bela meretriz que acaricia os homens de uma forma impossível de não amá-la”.[4]

Ele sustentava que um bom intérprete deve considerar em sua exegese as condições históricas, a gramática e o contexto. Acreditava que a fé e a iluminação do Espírito eram requisitos indispensáveis ao intérprete da Bíblia.

João Calvino, o maior exegeta da Reforma, considerava a interpretação alegórica como artimanha de Satanás para obscurecer o sentido da Escritura. A sentença predileta de Calvino era: sacra Scriptura sui interpres --- A própria Escritura interpreta a Escritura. Para ele, a tarefa número um do expositor é revelar o pensamento específico do autor sagrado.

“Visto que revelar a mente do autor é a única tarefa do intérprete, ele erra o alvo, ou pelo menos desvia-se de seus limites, à medida que afasta os seus leitores do propósito do autor... É presunção, e quase uma blasfêmia, distorcer o significado das Escrituras, agindo sem o devido cuidado, como se isto fosse algum jogo que estivéssemos jogando. Ainda assim, muitos estudiosos já fizeram isso alguma vez”.[5]

Devemos, mais do que nunca, seguirmos de perto esse princípio hermenêutico reformado. Cientes de que quando a Bíblia fala, Deus fala, e que uma vez sendo o texto bíblico exposto com fidelidade, o povo é instruído e fortificado na fé e Deus é engrandecido e glorificado, pois um compromisso fiel com a Palavra de Deus é um compromisso inabalável com o Deus da Palavra. Que em tempos marcados pelo relativismo, superficialidade e desvios na exposição bíblica, possamos clamar como Lutero: “A minha mente é cativa da Palavra de Deus!”. Que Deus nos ajude a sermos expositores fiéis de Sua Palavra.

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Notas:
[1] Ramm, citado por Henry Virkler, Hermenêutica avançada, (VIDA) p.45
[2] Esdras Costa Bentho, Hermenêutica Fácil e Descomplicada (CPAD) p. 124
[3] Idem
[4] Steven Lawson, A heroica ousadia de Martinho Lutero, (FIEL), p.62
[5] Steven Lawson, A arte expositiva de João Calvino, (FIEL), p.71

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Fonte: Igreja Presbiteriana de Russas
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O país da Copa: um país que vive de aparência

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Por Thiago Azevedo

Você sabe o que é viver de aparência? A resposta que vem à mente não pode ser outra – É o Brasil sediar uma copa. Um país com tanto déficit na educação, saúde, moradia... Um país que ainda detém altos índices de pessoas sem acesso à alimentação, saneamento básico etc. Este país teria condições de sediar uma copa, ou seria isso, viver de aparência? Pernambuco é um dos estados que receberá jogos do evento mundial na cidade de Camaragibe na Arena Pernambuco. Dizem os economistas, que o investimento direcionado ao evento mor, não resolveria a situação precária do país por completo, mas amenizaria e muito, algumas das carências nacionais mencionadas alhures.

A região metropolitana do Recife, desde ontem, passa por uma situação calamitosa provocada pelo movimento grevista dos policiais militares – estes almejam um reajuste salarial. Vários vândalos saíram às ruas – aproveitando a situação – e espalharam um verdadeiro clima de guerra na cidade, cenas dignas de um filme de terror – diversos arrastões, saques, roubos, tiros, desespero... A cidade de Abreu e lima foi a mais afetada – mais de 20 lojas foram arrombadas e saqueadas, diversos caminhões de carga foram interceptados nos engarrafamentos e saqueados. Os donos de algumas lojas tiveram que sair à guerra e defender a punho seus patrimônios – clima de guerra literalmente. Algo que chama atenção é que os roubos, furtos e arrombamentos dos estabelecimentos, eram cometidos por pessoas que aparentavam ser pessoas distintas – muitas destas bem vestidas, apresentáveis, uns com fardas de colégio, outros enchendo seus respectivos carros com os produtos saqueados... Estas pessoas corriam com o produto do roubo nas mãos e alguns ainda acenavam para as câmeras das emissoras que corajosamente registravam os fatos. Os produtos dos roubos eram os mais diversos – geralmente eletros-domésticos, televisão (talvez para assistir a copa numa TV maior), computadores, fogões, geladeiras etc. Boa parte do comércio amanheceu de portas fechadas por conta da situação calamitosa. Atitude semelhante tomou alguns bancos, bem como, alguns comerciantes informais. O governador em atividade João Lira solicitou ao executivo o auxílio da força nacional e o aporte do exercito brasileiro nas ruas da capital pernambucana. Os policiais do grupo de ações especiais da caatinga e um reforço policial provindo do estado de Maceió também foram acionados. 

Mas, o que chama atenção nisso tudo, é o comportamento humano. Certa pessoa que reside em Abreu e lima – cidade mais afetada na confusão – contou-me que ouvia claramente seu vizinho, homem honesto e pai de família, chamar seus filhos para juntos praticarem furtos na cidade. Alegava o homem que se todos estavam fazendo eles também poderiam fazer. Lembrei-me de um dito diabólico – a situação faz o ladrão. Como explicar este comportamento? Esta atitude não é viver de aparência também? Particularmente falando, acredito que sim. O ser humano demonstra com esta atitude que não conhece a si mesmo e que há algo dentro dele que pende para o erro – como um carro desalinhado. Isso se dá pela natureza caída que há neste homem, e aliado a isso, um afastamento da pessoa divina – fósforo, gasolina e palha, uma hora ou outra a explosão ocorre. O homem em sua grande maioria, e em qualquer lugar do mundo, necessita de outro homem que o contenha de agir de forma errada, pois há uma tendência no interior do ser humano que leva ao erro. O homem necessita de fiscais que o acompanhe a fim de manter a harmonia ética na cidade. Mas basta estes fiscais se ausentarem para se conhecer quem de fato este homem é – caído e degenerado pelo pecado. Nunca vi os ensinos de Santo Agostinho fazer tanto jus na cidade do Recife – cidade que tanto amo – como nos últimos acontecimentos. Agostinho alega que se não fosse o pecado original não seria necessária a presença destes fiscais, guardiões... Ou seja, a polícia só existe por conta do próprio homem, para fiscalizar o próprio homem cujo pecado original degenerou.

Assim, pois, a humanidade toda seria tão feliz como eram os primeiros homens, quando nem as perturbações anímicas os inquietavam, nem os incômodos corporais lhes causavam mal, que transmitiram a seus descendentes, nem seus descendentes a iniqüidade merecedora de condenação.¹ 

Lembro-me das palavras do professor Marcos Roberto Nunes Costa²  – “Quer saber quem é o homem e conhecê-lo de fato? Tire a polícia das ruas ou do campo de futebol”. Estamos vendo em Recife quem de fato é este monstro chamado HOMEM. Ora, se com polícia já é difícil – o monstro quer nos atormentar – avalie na ausência desta?


Mas, há uma grande contradição nisso tudo. Há pouco, era este mesmo “cidadão” que saia às ruas para protestar, para reivindicar seus direitos, para protestar contra injustiças, contra os políticos corruptos de Brasília e contra os roubos destes. Falavam mal da corrupção que há no nosso país e criticavam o sistema. Logo vem à mente algumas perguntas: quem é você para protestar contra injustiças se você é injusto? Quem é você para protestar contra corrupção se você é corrupto? Quem é você para falar de ladrões quando você é tanto quanto? Desculpem-me todos vocês que participaram desta vergonha na capital de nosso estado, mas acredito que quando vocês saem às ruas para protestar e fazer manifestações, isso não passa de viver de aparência!!

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Notas:
[1] De civ. Dei., XIV, 13, 1 – Cidade de Deus
[2] Ex presidente da Sociedade Brasileira de Filosofia (2003-2011). Doutor em Filosofia pela PUCRS com área de pesquisa em Filosofia medieval com especialização no pensamento de Santo Agostinho. Atualmente é professor do departamento de Filosofia da UFPE.

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Sobre o autor: Thiago Azevedo além de ser pecador e não merecedor da graça divina, mora em Recife-PE. Crê nas Sagradas Escrituras como sendo sua única regra de fé e prática, adere os princípios da reforma protestante. Casado com Mercia Litian há 7 anos, formado em teologia pelo STPN, graduando em teologia pala Universidade Metodista de São Paulo (EAD), graduando em Filosofia pela UNICAP Congrega na Igreja Evangélica Livre de Olinda-PE.

Divulgação: Bereianos
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UFC, Agostinho e os gladiadores

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Por André Filipe Noronha Silva


Algumas coisas deveriam ser óbvias. A maneira como nos divertimos, por exemplo. Especialmente para um cristão, deveria ser óbvio que se divertir à custa de violência e imoralidade não é aprovado por Deus. No entanto, a violência e a imoralidade são os dois temas fundamentais do nosso entretenimento. Estes temas primeiramente entraram em nossas vidas pela ficção. Não haveria blockbuster sem um mínimo de violência e imoralidade. Logo nos acostumamos com ele. Em seguida, o entretenimento por meio da violência e da imoralidade ganhou o ingrediente da interatividade, invadindo o universo dos vídeo games. No entanto, nestes dois casos, a violência e a imoralidade eram apenas temas secundários, que promoviam a narrativa principal. 

Atualmente chegamos ao ponto em que o entretenimento violento e imoral alcançou o nível do realismo, e ganhou o centro temático através de esportes como o UFC, e programas como o Big Brother Brasil. A imoralidade sexual e a violência são os pecados sociais mais primitivos da humanidade. Você dificilmente encontrará nas culturas do planeta uma em que não haja problemas com a violência e a promiscuidade. Este problema comunitário é encontrado nos primórdios da humanidade, quando um irmão assassina o outro (Gn.4.1-8), e é agravado quando toda a humanidade está marcada pela violência (Gn.6.1-11). A violência é uma quebra deliberada do mandato pactual da fraternidade, assim como a imoralidade sexual é também este retrato distorcido da graciosa sexualidade humana. Este é o óbvio. Mas a cultura da iniquidade tem justamente este propósito, tirar nossas certezas, ao tornar algo tão claramente ímpio como o divertimento sobre dois homens se machucando mutuamente, e chamar isso de esporte nacional. E a cultura faz isso de uma maneira muito persuasiva, incitando o homem iníquo dentro de nós, com sede de poder sobre seu irmão (violência) e sobre o sexo oposto (imoralidade). É por isso que nós tanto precisamos, somos sedentos pela Palavra de Deus, pois ela é que nos confronta nesta inércia diante desta cultura perversa. 

Agora, em meio a inúmeros textos bíblicos que nos mostram que Deus abomina a violência, observe que a Palavra de Deus aconselha - A sequer desejar a violência, seja para si seja para outra pessoa: “Do fruto de sua boca o homem desfruta coisas boas, mas o que os infiéis desejam é violência” (Pv.13.2); - A não se alimentar da violência, ou seja, não andar, admirar, assistir a qualquer ato violento: “Não siga pela vereda dos ímpios (...) Pois eles se alimentam de maldade, e se embriagam de violência” (Pv.4.14-17); - A não falar sobre violência: “A boca dos ímpios abriga a violência” (Pv.10.6); - Novamente, não admirar os caminhos do homem violento: “Não tenha inveja dos ímpios, nem deseje a companhia deles pois destruição é o que planejam no coração, e só falam de violência” (Pv.42.1-2) “Não tenha inveja de quem é violento nem adote nenhum dos seus procedimentos” (Pv.3.31). Este homem violento não é apenas aqueles homens que se quebram no octógono, mas todos os patrocinadores, os empresários que vivem da violência alheia; - O justo, por sua vez, evita o mal: “Pela palavra dos teus lábios eu evitei os caminhos do violento” (Sl.17.4). 

Por estes versículos nós percebemos o quanto é amplo os conselhos dados aos justos no que diz respeito à sabedoria e à violência. O justo não vê, não apóia, não admira, não promove nem homens violentos nem homens e organizações que promovem a violência alheia. Mas se, mesmo assim, a Escritura não fosse capaz de nos convencer através de ordens negativas, só uma mente muito cauterizada faria com que esportes como o UFC e programas como o BBB passassem pelo critério de Fp. 4.8: “Finalmente, irmãos, tudo o que for verdadeiro, tudo o que for nobre, tudo o que for correto, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama, se houver algo de excelente ou digno de louvor, pensem nessas coisas” (Fp.4.8).

Agostinho e os gladiadores: uma luz nas trevas.

É possível, no entanto, que pensemos estar lutando contra uma força muito grande, como é a força da opinião pública. Nós muitas vezes somos levados a crer que a cultura nacional é soberana, e só porque há quase total hegemonia sobre algo, deve estar certo. Mas um bom antídoto contra este pensamento é olharmos para a história. Vermos que cristãos em épocas distintas também viveram dramas semelhantes. Agostinho foi um destes. Agostinho de Hipona foi um teólogo e filósofo do século IV, e um dos principais teólogos do Ocidente de todos os tempos. Suas obras foram influência para homens como Martinho Lutero e João Calvino, por exemplo. Uma de suas obras mais conhecidas se chama Confissões, em que ele relata a história da própria vida e de sua conversão em forma de uma longa oração. Acaba que a obra se torna também uma testemunha de seu tempo. Em determinado capítulo, quando ele ainda sequer havia passado pela conversão, mas fora educado na fé, ele descreve como o seu amigo Alípio, sob a forte influência de seus amigos, é levado a gostar dos espetáculos dos gladiadores, e também nos mostra as observações de Agostinho sobre este espetáculo:

"Heiliger Augustinus" by Simone Martini - 1320-1325
“Não desejando de modo algum abandonar a vida deste mundo a que o estimulavam seus pais, tinha [seu amigo Alípio] me precedido em Roma para estudar Direito e lá foi vítima, em condições inacreditáveis, de uma paixão igualmente inacreditável pelos espetáculos de gladiadores. No início odiava esses espetáculos. Mas alguns amigos, companheiros de estudo, que voltavam de um jantar, encontraram-no por acaso na rua. Tentou resistir energicamente, mas seus amigos o impeliram com uma violência amistosa e o levaram ao anfiteatro, onde nesse dia, ocorriam esses jogos cruéis e funestos. Ele lhes dizia: "meu corpo, vocês podem arrastar e instalá-lo nas arquibancadas, mas poderão fixar meus olhos e meu espírito, pela força, nesses espetáculos? Estarei como que ausente e triunfarei sobre vocês e sobre eles". Essas palavras não impediram seus amigos de levá-lo. Queriam ver se conseguiria fazer o que dizia. Chegaram, sentaram-se como puderam, todo o anfiteatro ardia com as mais selvagens paixões. Alípio, fechando seus olhos, proibiu seu espírito de participar dessas atrocidades. Pena que não tenha também abafado seus ouvidos. Pois aturdido pelo grito tonitruante de toda a multidão após a queda de um dos gladiadores, foi vencido pela curiosidade e, como se estivesse preparado para suportar e desprezar o que fosse que estivesse acontecendo, abriu seus olhos e recebeu em sua alma uma ferida mais severa do que o gladiador recebera em seu corpo, e caiu mais miseravelmente que o homem cuja queda suscitara o grito. Pois quando viu o sangue, imediatamente sorveu a selvageria e não virou o rosto, mas fixou-se na imagem que via e absorveu a loucura e perdeu seu senso crítico e deleitou-se com a luta criminosa e embebedou-se num funesto prazer. Não era mais o homem que tinha ido ao espetáculo, mas um membro da multidão, um verdadeiro companheiro daqueles que o haviam trazido. Em suma, acompanhou o espetáculo, gritou, ferveu de emoção e saiu de tal modo insano que estava pronto, não apenas para acompanhar de novo os que o haviam trazido, mas para convencer outros a ir. Mas Vós (Deus) o arrancaste deste caminho com a vossa mão tão forte e misericordiosa, ensinando-lhe que devia colocar toda a confiança em Vós e não em si. Mas isso foi só muito tempo depois” (Confissões, VI, 8 - grifo nosso).

Agostinho nos conta como seu amigo foi convencido a ir ao espetáculo dos gladiadores e lá “absorveu a loucura e perdeu seu senso crítico e deleitou-se com a luta criminosa e embebedou-se num funesto prazer”, se tornando, assim, só mais “um membro da multidão”. Ao final, ele comemora o fato de Deus tê-lo tirado do gosto por este entretenimento tão iníquo. Hoje em dia parece ser senso comum que as lutas dos gladiadores eram exploração e algo maligno, para entreter as massas. O futuro julga este nosso passado como algo mal, e não entendemos como as pessoas poderiam estar tão cegas a ponto de não enxergarem aquilo. No entanto, temos um registro de um homem que sequer era um cristão ainda, mas que tendo sido educado na fé, foi uma luz na escuridão de sua geração. Certamente, lutar contra o entretenimento cada vez mais sofisticado, persuasivo e hegemônico de nossa geração mergulhada na cultura da iniquidade não será nada fácil, mas não é de outra maneira que a luz resplandece nas trevas, e que o testemunho ultrapassa gerações.


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Fonte: Confeitaria Cristã
Imagem: "Pollice Verso" Jean-Léon Gérôme (1824–1904), adaptada para o blog Bereianos
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Agostinho de Hipona: quem foi e como contribuiu para o correto entendimento das doutrinas cristãs?

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Por Tiago Santos


Uma das grandes belezas e seguranças da teologia bíblica, histórica e ortodoxa é que falta-lhe originalidade. A boa teologia é derivada da Palavra de Deus nas Escrituras, a qual tem sua origem através da inspiração do Espírito Santo. A teologia que honra a Deus é aquela que submete-se à autoproclamada autoridade das Escrituras e que, portanto, mantém-se no limite daquilo que foi revelado por Deus e ensinado pelos profetas e apóstolos. Nesse sentido é que a teologia não é e nem deve ser original e é por isso que, desde o fechamento do cânon, a ortodoxia cristã atravessa os séculos, as culturas e os poderes deste mundo conta com uma impressionante unidade e coerência em suas doutrinas mais basilares e importantes. Seus grandes dogmas são derivados da Bíblia.

Isso não quer dizer, todavia, que a teologia não deva buscar profundidade e desenvolvimento. Em grande medida, o produto teológico que temos hoje  à nossa disposição, é fruto do labor criativo, zeloso e meticuloso empreendido por estudiosos da Palavra de Deus, ao longo da história. Então, se por um lado, no núcleo do que a fé cristã afirma hoje, do que a igreja cristã crê, estão aquelas doutrinas que foram cridas e ensinadas desde os apóstolos, por outro, os séculos de história cristã serviram para o desenvolvimento, aprofundamento, refinamento e apuração dessas doutrinas. Não há grandes novidades, mas houveram grandes progressões.

Agostinho, garimpeiro de Deus

Um desses homens de Deus, dotado de uma mente criativa e intenso desejo de cavar mais profundamente na Palavra de Deus e que ajudou a pavimentar o caminho das grandes progressões do pensamento teológico foi o africano Agostinho de Tagaste (354-430), bispo de Hipona.

Agostinho foi, provavelmente, o grande pensador cristão da Idade Média. Por quase dois mil anos sua produção teológica tem pautado os grandes debates do cristianismo e influenciado o pensamento e cultura do Ocidente. Do ponto de vista católico, Joseph Aloisius Ratzinger ratifica essa impressão, ao dizer: “Agostinho deixou uma marca profunda na vida cultural do Ocidente e de todo o mundo. Sua influência é vastíssima. (...) Raramente uma civilização encontrou um espírito tão grande, com ideias e formas que alimentariam gerações vindouras.”[1] A Reforma Protestante do século XVI, fundamental ao avivamento da fé e espiritualidade cristã, até então adoecida mortalmente pelo desvio teológico, corrupção e misticismo, deve a Agostinho o cerne de suas principais proposições, particularmente em questões como o pecado original, a graça de Deus, a salvação e a predestinação, além do exemplo de seu vigoroso ministério pastoral. O teólogo luterano Richard Balge, citando um colega, disse que: “Se Agostinho de Hipona tivesse vivido no tempo da Reforma, ele teria se juntado a Martinho Lutero”.[2] O teólogo presbiteriano B. B. Warfield, por sua vez, disse que “o sistema de doutrina ensinado por Calvino é somente o agostinianismo, conforme se vê em todos os demais reformadores. Pois, se a Reforma foi, do ponto de vista espiritual, um grande avivamento da religião, do ponto de vista teológico foi um grande reavivamento do agostinianismo”.[3] E o erudito batista Timothy George, ao falar da influência do pensamento agostiniano na Reforma, disse que “a linha principal da Reforma Protestante pode ser vista como uma aguda agostinianização do cristianismo.”[4]

Agostinho está do nosso lado

Os grandes representantes da Reforma do século XVI, Martinho Lutero, João Calvino, Martin Bucer, Philip Melanchton e tantos outros, encontraram na vigorosa teologia agostiniana fundamento tanto para o rompimento com o status quo da igreja romana como para afirmar a unidade do pensamento genuinamente cristão que remonta aos ensinos dos Pais da Igreja e dos Apóstolos. À guisa de ilustração, vejamos como o pensamento de Agostinho foi de grande importância para alguns dos reformadores mais destacados:

Martinho Lutero era um monge agostiniano e derivou dessa escola o tutano de sua própria teologia. A influência de Agostinho em Lutero, aliás, parece haver perpassado todas as fases de sua vida como teólogo. No prefácio da Theologia Germânica, obra do século XV redescoberta por Lutero e republicada por ele em 1516, ele reconhece o débito que tem com Agostinho, colocando seus escritos próximos dos escritos da própria Escritura. Em suas “conversas de mesa”, em 1532, Lutero disse: “No começo de minha carreira, como professor de teologia, eu não simplesmente lia Agostinho, mas devorava suas obras com voracidade”.[5] No prefácio de seus Escritos Latinos, de 1545 – um ano antes de sua morte – Lutero faz referência à obra O Espírito e a letra, de Agostinho, e diz que há muitas semelhanças em seu entendimento sobre a justiça de Deus. Seu companheiro e colega reformador, o teólogo Philip Melancthon, via Lutero, no contexto da Reforma, como uma “voz intercambiável com a de Agostinho; uma voz que renovava o ensino primitivo da igreja”.[6] 

Com João Calvino não foi diferente. A influência da teologia agostiniana também é bem evidente em toda sua carreira teológica.[7] Ele mesmo disse que “ficaria feliz em confessar toda sua fé pelas palavras de Agostinho”[8] e ainda fez uma famosa afirmação de aprovação, ao dizer: Augustinus totus noster est, isto é, que “Agostinho está do nosso lado”. O historiador Justo Gonzalez lembra que na principal obra de Calvino, as Institutas, “se manifesta um conhecimento profundo, não só das Escrituras, mas também de antigos escritores cristãos, particularmente Agostinho”.[9] Na última edição das Institutas, de 1559, encontram-se mais de 400 citações de textos de Agostinho. Calvino confiava mais na teologia de Agostinho do que em sua exegese, como se vê em vários de seus comentários bíblicos, particularmente seu comentário em Romanos, no qual ele critica a abordagem alegórica que muitas vezes Agostinho emprestava ao texto, mas, o fato é que esse eminente pai da igreja é uma grande fonte de inspiração e influência da produção teológica e pastoral de Calvino.

Martin Bucer, o reformador de Estrasburgo que teve papel vital na busca de unidade entre os demais reformadores, também apoiou-se em Agostinho para desenvolver muito de seu pensamento teológico. Num certo ponto, ele disse que tem “grande reverência por Agostinho”.[10] Em sua obra, Florilegium Patristicum, na qual reúne citações dos Pais da Igreja, encontram-se várias referencias às obras e pensamento de Agostinho. Também em sua obra sobre teologia pastoral, Sobre o Verdadeiro Cuidado das Almas, Bucer faz muitas referências ao trabalho pastoral e à teologia de Agostinho. Em seu comentário à epístola de Paulo em Romanos, de 1536, Bucer faz um grande esforço para aliar-se a Agostinho no tratamento que este faz dos textos do Antigo e Novo Testamento e até mesmo em suas noções sobre a justificação (declarada e transmitida). Ainda que Bucer estivesse pronto para discordar de Agostinho quando necessário, o fato é que ele viu em Agostinho uma voz de consonância com o corpo da reforma e alinhou-se à essa voz em algumas áreas vitais.

O período pós reforma também valeu-se do pensamento de Agostinho – seja diretamente, ou indiretamente pela influência dos próprios reformadores. Também as gerações sucessivas, todas elas têm sido, como notou Ratzinger, alimentadas pelas ideias e pensamentos deste gigante da fé. Ele é provavelmente o mais qualificado representante da igreja primitiva e permanece como uma das mentes mais importantes da história da fé cristã.

As Confissões

De tudo quanto Agostinho produziu, destaco aquela que muito provavelmente foi a sua principal obra: As Confissões. Trata-se de sua autobiografia, escrita em treze livros no curso de três anos,  entre os anos de 397 e 400. Há muito que se poderia falar sobre As Confissões e seus benefícios e virtudes. Eruditos e literatas, tanto da filosofia como da teologia, certamente já têm empreendido o papel de analisar as muitas riquezas dessa obra e extrair o sumo de seu rico conteúdo. Aqui queremos oferecer apenas um pequeno vislumbre dessa que permanece como uma das mais importantes obras literárias de todos os tempos.

Nela Agostinho empreende uma profunda investigação da própria alma, da sua fé e de sua sincera busca por Deus. Ele abre seu coração e, numa conversa dirigida a Deus, confessa seus pecados, dramas, angústias d’alma, frustrações e também sua luta pela verdade e sua luta com o próprio Deus.

Vemos, por exemplo, em As Confissões, uma verdadeira luta da mente e a sublime busca pela verdade, a qual Agostinho reconhece haver encontrado somente quando Jesus o encontrou:

Foi então que tuas perfeições invisíveis se manifestaram à minha inteligência por meio de tuas obras. Mas não pude fixar nelas meu olhar; minha fraqueza se recobrou, e voltei a meus hábitos, não levando comigo senão uma lembrança amorosa e, por assim dizer, o desejo do perfume do alimento saboroso que eu ainda não podia comer. [11]

Buscava um meio que me desse força necessária para gozar de ti, e não a encontrei enquanto não me abracei ao Mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus, que está sobre todas as coisas, Deus bendito por todos os séculos, que chama e diz: Eu sou o caminho, a verdade e a vida. [12]

Também vemos a luta da carne, a qual ele chama de luta com a luxúria: “Admirava-me de já vos ter amor e de não amar um fantasma em vez de Vós. Era arrebatado para vós pela vossa beleza, e logo arrancado de vós pelo meu peso. Este peso eram os hábitos da luxúria”.[13] Sua luta contra as tentações sexuais ainda é exemplificada pela famosa oração: “Senhor, dá-me a castidade e a continência, mas ainda não”.[14] Todavia, é preciso registrar, muitas vezes a culpa de Agostinho por conta de sua concupiscência tem levado muitos a acusarem-no de ter sido promíscuo. Mas talvez essa conclusão seja injusta, pois ele mesmo registra somente um caso amoroso, com uma concubina, mãe de seu filho Adeodato, mulher a quem muito amou, embora nunca tenha se casado com ela.

Ele ainda conta como Deus o alcançou e salvou e como ele passou a perceber a mão providente de Deus nas diversas fases de sua vida, além de ter uma noção mais plena e gozosa da beleza de Deus, depois de sua conversão. As Confissões também são uma expressão de adoração e uma declaração de amor e devoção a Deus e nela ele exalta a Deus louvando-o pela criação. Num certo ponto, ele confessa:

Tarde te amei, Beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Eis que estavas dentro de mim, e eu lá fora, a te procurar! Eu, disforme, me atirava à beleza das formas que criaste. Estavas comigo, e eu não estava em ti. Retinham-me longe de ti aquilo que nem existiria se não existisse em ti. Tu me chamaste, gritaste por mim, e venceste minha surdez. Brilhaste, e teu esplendor afugentou minha cegueira. Exalaste teu perfume, respirei-o, e suspiro por ti. Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti. Tocaste-me, e o desejo de tua paz me inflama.” [15]

De tudo o mais, um aspecto muito sublime de suas Confissões, que se alteia como um fator presente em toda narrativa, é a noção de que é Deus quem vem ao encontro do homem para alcançá-lo e salvá-lo. Talvez a expressão que melhor exemplifica essa realidade na experiência de Agostinho, seja a oração que ele repete algumas vezes no curso de suas confissões: “Dai-me o que ordenais, e ordenai-me o que quiserdes” (Da Quod Iubes et Iube Quod Vis). Esta oração causou arrepio no grande rival de Agostinho, Pelágio, que via nela uma afronta ao livre arbítrio do homem, o qual, Pelágio cria, nascia reto e tinha em si mesmo a capacidade de obedecer ou rejeitar a Deus. Mas Agostinho entendeu – e essa oração assim o demonstra – que somente a graça de Deus e o poder do Espírito, atuando no interior do homem, é que pode levá-lo ao próprio Deus. É Deus quem dá causa à fé, ao amor, à devoção e à obediência e é por isso que ele pede: concede-me o que ordenais, isto é, capacita-me, Senhor, para o que queres. Em outra obra sua, ele pergunta: “Que nos ordena Deus em primeiro lugar, e com mais insistência, senão que acreditemos nele? Ora, é precisamente esta graça que ele nos concede”.[16]

Por que ler Agostinho?

Em nossa breve tradição protestante no Brasil, a reação ao catolicismo romano tem, não raras vezes, rejeitado muito dos símbolos, tradição, produção teológica, proponentes da fé que são, normalmente, associados à Roma. Assim, não é incomum alguma desconfiança do leitor mais desavisado, porém sincero e zeloso, quando se fala no proveito que temos pela leitura e aprendizado com aqueles que estejam ligados à tradição romana. Mas essa reação muitas vezes é exagerada e mais emocional do que justa. Muito do que é rejeitado é herança da cristandade, da fé cristã na história e de imenso proveito para os cristãos hoje. Faríamos bem em, ao contrário dessa tendência, resgatar e valorizar esse rico legado.

Em Agostinho, particularmente, há muito que aprender – como fizeram também nossos pais reformadores e toda tradição cristã nesses últimos dezessete séculos.

E há muito o que ler de Agostinho. Dentre os Pais da Igreja, seus escritos são os mais abundantes. A história de sua vida e sua obra foram catalogados pelo cuidadoso trabalho de seu biografo e contemporâneo Possídio, que escreveu a Vita Augustini e indexou nela o Indiculos, que elencava e reproduzia suas principais obras. São centenas de homilias e cartas ainda preservadas e várias obras filosóficas e teológicas que, conforme coloca Ratzinger, “são de importância fundamental, não só para o cristianismo, mas para a formação de toda cultura ocidental”. [17]

Em seus escritos, temos um tesouro de sabedoria que pode fazer muito bem ao povo de Deus, se lido com discernimento. É claro que Agostinho teve os seus limites e cometeu seus equívocos. Mas encontramos nele uma mente brilhante e um coração radiante, que ardia por amor a Deus, como pouco se vê em nossos tempos. Temos nele um esforço diligente para submeter todas as coisas à revelação. Suas Confissões, aliás, são a grande prova disso. Foi somente quando a Escritura falou que sua obstinada busca pela verdade cessou. A partir desse ponto, ele passa a ser um estudioso da verdade contida nas Escrituras. Conforme colocou Solano Portela, em uma conversa que tivemos sobre o bispo de Hipona, “Agostinho cavou nas Escrituras em busca da verdade; a Reforma fez o mesmo; Calvino continuou cavando e olhando com mais clareza as Escrituras; nós temos de fazer o mesmo. Igreja Reformada sempre se reformando é isso”.

Em Agostinho, temos uma impressionante profundidade teológica, assertividade e firmeza doutrinária, intensa devoção a Deus, inquestionável respeito ao texto bíblico e genuína preocupação pastoral. Essas qualidades são um grande estímulo para o estudante de teologia, particularmente, mas também para todo cristão sincero que busca agradar a Deus e viver neste mundo vil e cheio de perigos - especialmente diante dos muitos desafios enfrentados pela fé cristã de nossos tempos, em que os valores deste mundo são difusos, em que há uma crise de conteúdo e substância de fé e onde os homens - e, surpreendentemente, até mesmo uma ala do cristianismo - suspeitam dos dogmas e afirmações da Palavra de Deus e da ortodoxia cristã. Em Agostinho temos a junção de vida vigorosa e doutrina robusta. Isso faz dele um campeão da fé.

Mais uma vez, Ratzinger oferece um útil insight sobre a obra de Agostinho:

Em seus escritos [Agostinho] o encontramos vivo. Quando leio os escritos de Santo Agostinho, não tenho a impressão que se trata de um homem morto há mil e seiscentos anos, mas sinto-o como um homem de hoje: um amigo, um contemporâneo que me fala, que fala a nós com sua fé vigorosa e atual. Nele vemos a atualidade permanente de sua fé. Fé que vem de Cristo, Verbo Eterno encarnado, Filho de Deus e Filho do homem. E podemos ver que essa fé não é de ontem, mesmo tendo sido pregada ontem; é sempre de hoje, porque Cristo é realmente ontem, hoje e para sempre. Ele é o caminho, a verdade e a vida. Assim nos encoraja Agostinho a confiarmos neste Cristo sempre vivo e encontrar nele o caminho da vida. [18]

Que saibamos aproveitar a sinceridade da jornada de Agostinho de Hipona em busca da verdade, a criatividade de sua teologia, a beleza de sua devoção a Deus, o vigor de seu exemplo e testemunho, a firmeza de sua fé.

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Notas:
[1] Bento XVI. Os Padres da Igreja (Campinas, SP: Eclesiae, 2012) p. 183-184
[2] Richard D. Balge, Martin Luther, Agostinian (artigo publicado em http://www.wlsessays.net/files/BalgeAugustinian.pdf), acessado em novembro de 2013.
[3] Benjamin Breckinridge Warfield, John Calvin: the man and his work (The Methodist Review, Outubro de 1909).
[4] Timothy George. Teologia dos Reformadores (São Paulo, SP: Edições Vida Nova, 2004), p.76.
[5] Martinho Lutero. Luther Works, LI, xviii.
[6] Peter Fraenkel, Testimonia Patrum: The Function of the Patristic Argument in the Theology of Philip Melanchthon (Genebra: Droz, 1961), p. 32.
[7] Recomendo a leitura do artigo de S. J. Han: An Investigation into Calvin’s use of Augustine (http://www.ajol.info/index.php/actat/article/viewFile/52214/40840), Acessado em novembro de 2013.
[8] Paul Helm. Apud em N. R. Needham, The Triumph of Grace (London: Grace Publication, 2000), p.8
[9] Justo Gonzalez, A Era dos Reformadores (São Paulo, SP: Edições Vida Nova, 2004), p.112.
[10] Basil Hall, Martin Bucer: Reforming Church and Community, ed. D. F. Wright (Cambridge, UK: Cambridge Press, 1996), p. 150.
[11] Agostinho, Confissões (São Paulo, SP: Editora Nova Cultural, 1999), p. 185.
[12] Ibidem, p. 192.
[13] Ibidem, p. 190.
[14] Ibidem, p. 214.
[15] Ibidem, p. 285.
[16] Agostinho. Confissões. Nota de J. Oliveira Santos, apud, De Bono Perseverantiae: Quid vero nobis primitus et maxime Deus iubet, nisi ut credamus in Eum? Et hoc ergo ipse dat (São Paulo, SP: Nova Cultural, 1999), p. 286.
[17] Ratzinger, Padres da Igreja, p. 201.
[18] ibidem, p. 193.

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Sobre o autor: Tiago Santos é bacharel em direito e mestrando (M.Div) em Teologia Sistemática pelo CPAJ da universidade presbiteriana Mackenzie. É membro da Igreja Batista da Graça onde auxilia como pregador e professor de teologia. É o editor e o diretor acadêmico do Curso Fiel de Liderança, ambos na Editora Fiel, tendo exercido ministério pela Editora Fiel em Portugal, Moçambique, Angola e EUA. É o diretor pastoral e professor do Seminário Martin Bucer, em São José dos Campos, SP. É fellow do Jonathan Edwards Study Center de São Paulo, SP, articulista e escritor de textos teológicos.

Fonte: Revista Fé Para Hoje Edição Nº40
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Inteligência Humilhada

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Neste vídeo, o Pr. Jonas Madureira faz uma excelente reflexão sobre a soberania de Deus perante a inteligência humana. Assista:



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Trecho da palestra realizada no dia 28/05/2010, na Semana Teológica Água da Vida.
Fonte: Jonas Madureira, canal Youtube
Dica do Rev. Gaspar de Souza, via Facebook
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Predestinação antes de Agostinho.

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I - Antes de Agostinho - II. S. Agostinho.

S. Agostinho definia a predestinação como "presciência divina e preparação dos benefícios de Deus com que certissimamente se salvam quantos se salvam" (De dono persev. 13,35). Os vários dons sobrenaturais (vocação à fé, graça, justificação, etc.) são atos da benevolência divina, que quer salvar-nos. No contexto polêmico dos Padres [Pais], os problemas surgem quando se procura pôr em relação a predestinação com outros dados: existência do mal no mundo, liberdade do homem, retribuição no além, condenação depois da morte. Pode-se sempre, neste caso, prescindir de algum de seus elementos, negando o fato da intervenção de Deus na história (pelagianismo) ou, doutro ponto de vista, a liberdade humana (maniqueísmo), e deixando a pergunta sobre a unidade do plano salvífico (dualismo gnóstico). Nós aqui intencionamos destacar os nomes mais importantes dos primeiros séculos da história da doutrina da predestinação.


I - Antes de S. Agostinho - Apesar da escassa incidência do tema nos escritores cristãos mais antigos, já Clemente insinua os seguintes princípios gerais: a salvação depende de uma iniciativa de Deus (Ep. Ad Cor. 29,1); a salvação não pode ser alcançada sem o concurso das boas obras (ibidem, 33,1); estas obras salutares são, elas mesmas, um dom de Deus (ibidem 32,3-4; 33,1; 33,8). Por sua vez, contra o gnosticismo e o maniqueísmo, os apologetas e seus adeptos afirmam a unidade do plano salvífico, a vontade salvífica universal de Deus e a necessária cooperação do homem sob a influência da graça. Taciano (Orat. Ad Graecos 13) e, com maior evidência, Justino (Apol. I, 12; ibid. 42) e Ireneu (Adv. Haer. IV, 29,2) disto são claro testemunho, embora por predestinação entendam mais uma presciência de Deus do que uma decisão de Deus. Clemente Alexandrino fala dos "justos que Deus predestinou, tendo-os conhecido como tais desde o princípio do mundo" (Strom. VII, 17). Orígenes, que trata deste tema bem amplamente, determina de certo modo o ritmo posterior da teologia oriental. Trata do problema da predestinação de modo particular em seu "Comentário a Romanos" 8 (cf. Comm. In Rom. VII, 7-8 ). Distingue entre uma presciência divina geral e uma presciência de amor. Neste caso, a presciência, conhecimento que aprova e não de simples previsão, é uma complacência que atinge somente os bons (Comm. In Rom. VII, 7). Presciência e predestinação, portanto, têm a mesma amplidão e o mesmo objeto (ibid. VII, 8 ). A predestinação se verifica "post praevisa merita" e não como resultado da presciência, que de nenhum modo anula a liberdade e a responsabilidade do homem (ibid. VIVI, 16; De orat. 6). A salvação depende de uma causa e da outra, mas em primeiro lugar e antes de tudo da iniciativa de Deus, que chama todos à salvação. Gregório Nazianzeno (Oratio XXXVII, 13), João Crisóstomo (In Ep. Ad Romanos hom. XVI, 5) - também Cirilo de Alexandria (?) (In Ep. Ad Romanos 8,30) - são mais precisos do que Orígenes quando falam da vontade salvífica universal de Deus e da predestinação: Deus dá sempre sua graça aos predestinados e àqueles que chamou desde o princípio. O concurso humano é necessário para a salvação, embora tudo - até o querer - se deva atribuir a Deus. (Greg. Naz., Orat. XXXVII, 13). J. Crisóstomo, porém, tendo presente os efeitos, ex consequenti, distingue uma dupla vontade de Deus: uma de benevolência e outra de castigo (In Ep. Ad Ephes. Hom. I, 2). E "Embora Deus opere em nós o querer e o agir" (In Ep. Ad Philipp. hom. 8,1), o homem, para salvar-se, tem necessidade das boas obras (In Mat. Hom. 19,2). Nos respectivos comentários dos escritores latinos às passagens da Escritura onde se fala deste mistério, encontram-se muitos textos sobre a predestinação. Com clareza a afirmam Hilário de Poitiers (In os. LXIV, 5) e ainda mais detalhadamente Ambrósio (De fide V, 6, 83).

II - S. Agostinho. Como para os outros problemas, também para este Agostinho constitui um cume da patrística, e sua importância é decisiva para a história desta. Das obras em que estudou o tema da predestinação poder-se-iam citar as seguintes: Expositio quorundam propositionum ex Epist. Ad Romanos; De diversis quaestionibus ad Simplicianum, II; Contra Iulianum; Contra duas epistolas Pelagionorum; Enchiridion; De gratia et libero arbitrio; De correptione et gratia; De praedestinatione sanctorum; De dono perseverantiae; Contra Iulianum opus imperfectum; Epistolae: 194; 214; 215; 217; 225; 226. Muitas e, às vezes, contraditórias são as interpretações que foram dadas a sua doutrina. Para entender a teologia agostiniana da predestinação é preciso levar em consideração não só a vontade salvífica universal de Deus, mas o caráter gratuito da vida sobrenatural para o homem. Tendo em vista estes dois postulados, Agostinho olha continuamente para o mistério da predestinação e predileção de Deus que, ante praevisa merita, elege muitos e lhes dá sua graça para que alcancem a salvação. E, do momento em que todos os homens formam uma só massa damnationis em conseqüência do pecado original, será preciso explicar também por que desta comunidade de pecadores Deus escolhe alguns, predestinando-os para a salvação e não outros. Segundo S. Agostinho, a presciência e a preparação dos meios eficazes para a salvação são os dois elementos necessários da predestinação, fruto da benevolência divina (De dono persev. 14,35). Da parte de Deus, a predestinação é livre e infalível. Isto, porém, não exclui ou anula a liberdade do homem, antes a facilita e lhe dá poder. As dificuldades, no caso, postas à doutrina de Agostinho, provenientes no início do semipelagianismo de origem gálica, confundem, pelo menos em parte, a presciência e a predestinação; na realidade, do momento em que não se identificam, uma pode existir sem a outra (De praedest. Sanct. 10,19). Predestinação significa preparação dos bens; presciência, o prévio conhecimento do bem e do mal. Com esta afirmação, não se alude de modo algum à predestinação ao inferno, embora certamente existam presciência e permissão de uma sanção conseqüente aos próprios deméritos. "Deus conhece antes todas as causas das coisas, e certamente não pode ignorar entre estas também as nossas vontades, que prevê seriam as causas de nossas ações" (De civ. Dei V, 9). Contrariamente a qualquer forma de pelagianismo, a presciência de Deus não anula absolutamente a responsabilidade da vontade do homem que, de sua parte, coopera ou não para a realização do plano salvífico. Fulgêncio de Ruspe e Cesário de Arles prosseguem na linha do pensamento agostiniano, que de um modo ou de outro, inspirará depois, ao longo dos séculos, a teologia do Ocidente.

Fonte: Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs, Ed. Vozes e Ed. Paulinas, 2002, pág. 1182 
Divulgação: Teologia & Apologética | Bereianos
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Uma maldade que te beneficia!

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Por Josemar Bessa


"Mas eu vos digo: amai os vossos inimigos." - Mateus 5:44

Falando sobre este texto, Agostinho (Tagaste, 13 de novembro de 354 - Hipona, 28 de agosto de 430) diz:

Bem, você tem inimigos. Na verdade, quem poderia viver neste mundo sem Deus sem eles? Jesus teve inimigos aqui. Veja as razões porque você deve amá-lo.
De nenhuma maneira um inimigo pode te ferir tanto você pode se ferir quando você não ama o seu inimigo. Ele pode danificar os seus bens, rebanho, tomar sua casa, seus servos, ferir seus filhos, esposa, ou, no máximo, ele pode ferir o seu corpo, se ele tiver poder para tanto. Mas você pode destruir tua alma.
Quem nos deu a ordem é aquele a quem oramos: “Seja feita a Tua vontade assim na terra como no céu!” – Então não é impossível, já que ele concede o que nos ordena e muitos cristãos mostraram isso com suas vidas: “E apedrejaram a Estêvão que em invocação dizia: Senhor Jesus, recebe o meu espírito. E, pondo-se de joelhos, clamou com grande voz: Senhor, não lhes imputes este pecado.” - Atos 7:59-60
Você jamais sequer tentaria amar seu inimigo se você tiver um coração descrente na Palavra de Deus e achar impossível amar um inimigo, ou olhar para isso com cinismo. Portanto, comece acreditando que é possível, e então ore para que a vontade de Deus seja feita em você.
Se o inimigo não tivesse maldade, ele não seria um inimigo. Mas, quão rentável sua maldade pode ser para você... como sua maldade pode te beneficiar! Isso não é maravilhoso? Você pode retrucar dizendo: “Quem pode fazê-lo, quem já fez isso?” – Deus pode! Ele concede o que ordena e ele concede o que Ele mesmo demonstrou quando andou neste mundo. Muito poucos fazem isso, eu sei. Aqueles que fazem, estão sendo conduzidos pelo Espírito e sendo conformados a imagem de Cristo. Para estes, a maldade de seus inimigos se torna um grande benefício. Não é maravilhoso quando até a maldade dos homens nos beneficia?

Não é maravilhosa a lógica do céu? O herói humano nas histórias épicas tomam cidades em face a perigos extremos, desafiam a morte, caem em morte honrosa no campo de batalha... Mas o “herói” cristão é ordenado na presença do Rei eterno a pelo poder concedido a ele conquistar seu ego. Assim sabemos que passamos da morte para a vida, quando amamos os irmãos, diz o apóstolo João – mas aqui há um passo maior. “Amai vossos inimigos” – a natureza corrupta vira a face diante disso de maneira relutante. Aqui vemos a graça superabundante enchendo o coração. Pois é uma vergonha me ofender tanto, ou insistir tanto sobre o que outra criatura me faz sem refletir sobre minha ofensa infinita a Deus, que é eternamente exaltado acima de mim além de toda capacidade de imaginação: “Porque se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho...” – Romanos 5.10

Quando uma maldade é feita contra mim, se eu for ferido, a lei de Deus é quebrada, Deus é desonrado... Deus ser desonrado e não eu ser ferido deve ser a causa da minha tristeza e peso na minha alma. Uma criatura não pode ofender muito a mim, ainda que vomite a mais amarga malícia, pois não importa, cacos da terra lutando contra cacos da terra... mas eu ofendo infinitamente a Deus se torno o mal com mal já que ele expressamente proibiu.

Quanto tempo precioso foi perdido, girando e girando em nossa mente os agravos do tratamento prejudicial a nós, enquanto esquecemos que a cada ofendemos a Deus num grau infinitamente maior. Esquecendo também que temos diariamente recebido dEle misericórdias que deviam apagar – por ações de graças – todo o mal que criaturas como nós podem ter feito a nós.

"Segui a paz com todos os homens", os inimigos não são exceção. Embora alguns indivíduos quebrem essa mandamento em relação a mim, eu não estou menos obrigado a observá-lo. Por fim a paz não depende só de nós – mas devemos estar certos de que de nossa parte não há nada que obstrua seu reinado - Começamos por crer – como disse Agostinho – e então descobrimos que até a grande maldade dos inimigos são decretadas para nos beneficiar. Então o que pode nos destruir?

“Se for possível, quanto estiver em vós, tende paz com todos os homens.” -  Romanos 12:18

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O amor limitado de Deus - Parte 2

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Pessoal, cometi um erro tremendo ao pular a parte 2 desta excelente série do irmão Fabio Correia. 

Segue a parte 2:

 
Por Fabio Correia (Filósofo Calvinista)
Expiação limitada 
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O terceiro e, talvez, o mais polêmico dos pontos do calvinismo - a Expiação Limitada -, foi formulado para combater a ideia de Expiação (redenção) Universal pura e na sua versão formulada pelos seguidores de Armínius. Para eles, a morte de Cristo foi extensiva a todos os homens, sem exceção.
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Uma pergunta, porém, não quer calar: teria Cristo morrido, de fato, também por aqueles que passarão toda a eternidade no inferno?  
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Se a resposta a essa questão é afirmativa, então, devo concluir que o sacrifício de Cristo não foi tão perfeito e eficaz quanto o Deus trino pretendia? Devo concluir que Deus, ainda que tenha boa vontade em salvar todos os indivíduos, não tem poder suficiente para levar a termo a sua própria vontade?
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Em favor de quem Cristo morreu? Morreu por todos? Quais foram aqueles em favor dos quais derramou Ele o seu sangue?   
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A questão do propósito limitado da morte de Cristo (Expiação Limitada) tem sido alvo de inúmeras e intensas controvérsias. Certamente o nosso Senhor Jesus Cristo tinha alguma determinação absoluta em vista, quando subiu à cruz. Certamente tinha Ele um propósito bem definido, e, assim sendo, necessariamente, tinha que ser cumprido.
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Se este propósito de Cristo incluísse a totalidade da humanidade, por certo, toda a humanidade teria que ser salva. E, isto, como sabemos, não ocorrerá!
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Cristo não morreu para possibilitar a salvação de toda a humanidade, mas para assegurar a salvação de todo aquele que o Pai lhe deu (Jo 10:29). Cristo não morreu simplesmente para possibilitar o perdão dos pecados, mas para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo (Hb 9:26-28).
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Propósito Limitado da expiação 
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O propósito limitado da expiação é uma conclusão lógica da escolha eterna. Se Deus escolheu alguns desde o princípio e se a vontade de Cristo era a vontade do Pai (Hb 10:7; Jo 6:38), nada mais óbvio do que chegarmos à conclusão de que Cristo subiu naquela cruz apenas para salvar os que foram eleitos antes da fundação do mundo. Vejamos: Jo 6:37,39; 17:1,2,6,9 e 24.
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Analisando a questão da expiação no V.T., em Levíticos 1:4-5 e outros textos, podemos ver que a culpa da pessoa era como que transferida para o animal. Aquele que oferecia o animal em sacrifício era considerado perdoado do seu pecado, da sua culpa. Uma vez por ano o sumo sacerdote entrava no Santo dos Santos para oferecer sacrifício, com sangue, por si e pelo povo (Lv 16:17-24, 23:28; Hb 9:7) e o povo era expiado, considerado perdoado. Diz-se que o animal expiou o pecado do povo, levando-o sobre si (Lv 16:21). De fato a expiação do V.T. era uma tipologia da morte de Cristo (GI 1:4; Hb 7:27; Rm 3:24-25).
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Diante desses fatos bíblicos perguntamos: Em favor de quem foi oferecido este resgate? Ou quem foi expiado com a morte de Cristo?
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Se respondemos que tudo isto foi em prol da raça humana inteira, então foi cancelada a divida de todo ser humano. Se Cristo levou sobre si o pecado de toda a raça humana, então ninguém mais perecerá; ninguém sofrerá a condenação final. Deus não pode exigir o pagamento de uma divida por duas vezes. Uma vez do fiador, que derramou seu sangue, e depois outra vez da mão do devedor. Ou teria o sacrifício expiatório de Cristo sido insuficiente?
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O fato é que Cristo não saldou a dívida de todos (1 Pd 3:19; Jo 8:21; Mt 25: 41). Dizer que Cristo morreu por todos é dizer que foi substituto e fiador de toda raça humana. “Dizer que Cristo morreu por todos é dizer que Ele levou sobre si a maldição de muitos que agora levam sua própria maldição, é dizer que sofreu a punição de muitos que agora sofrem a sua própria punição no inferno”.
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Por outro lado, dizer que foi ferido pelas transgressões do povo de Deus, que deu sua vida em resgate de muitos e que morreu pelas suas ovelhas é dizer o que dizem as escrituras. Vejamos alguns textos: Ef 1:4,5;Jo 10:16; 13:1; 17:19; 10:11; 11:49-52; At 20:28; Mt 20:28 Is 53:8.
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Quando Cristo deu a sua vida na cruz do Calvário, deu-a por suas ovelhas, os eleitos! Não são todos os homens que estão incluídos na expressão “minhas ovelhas”. Portanto, Cristo não deu sua vida por todos os homens. Aos que estavam ao seu redor, ele disse: “Mas vós não credes, porque não sois das minhas ovelhas” (Jo 10:26). 
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Os reprovados, os não-eleitos, os descrentes não estão incluídos no número daqueles por quem Cristo deu a sua vida. Ele morreu só pelas suas ovelhas” (SPENCER, 1992. p.39).
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