Por que batizamos crianças?

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As igrejas reformadas ministram o batismo, não só a adultos convertidos, mas também aos filhos de pais crentes. A doutrina do batismo infantil está fortemente relacionada à Teologia do Pacto, portanto, é necessário primeiramente apresentar tal teologia a fim de que se possa entender a base sobre a qual os pais cristãos estão sob a obrigação de apresentarem seus filhos ao batismo. Em seguida, serão refutados os argumentos que têm sido levantados contra a defesa da normatividade do batismo infantil.

Segundo a Teologia do Pacto, Deus Pai fez uma Aliança com Deus Filho na Eternidade, chamado “Pacto da Redenção”. Neste Pacto, Cristo é o nosso Representante. O “Pacto da Redenção” é aquele no qual Cristo, como representante de um povo eleito, assume o compromisso de realizar a obra da expiação (Salmos 2.7-9; Efésios 3.11; Apocalipse 13.8).

Deus também fez um Pacto com Adão, chamado “Pacto de obras”, no qual a vida foi prometida à humanidade sob a condição de perfeita obediência. Se esse pacto, no entanto, fosse transgredido, a punição seria a morte (Gênesis 2.17; Gálatas 3.10,12). Depois que Adão, representando a humanidade, transgrediu a Lei, todos aqueles nele representados ficaram encerrados sob condenação eterna (Romanos 5.12).

Deus, no entanto, fez um Pacto de Graça com o homem através do qual os benefícios da redenção são comunicados à humanidade representada em Cristo. Assim como a morte veio sobre todos os que estão representados em Adão no Pacto das Obras, a vida eterna agora vem sobre todos aqueles que estão representados em Cristo no Pacto da Redenção, isto é, os eleitos com quem Deus estabeleceu uma Aliança de Graça (Romanos 5.18-19).

O Pacto da Graça é único, mas possui duas grandes economias, designadas como “Antigo Testamento” e “Novo Testamento”. Assim como “nova Terra”, “nova criatura”, etc. não significam algo inédito (o termo grego usado é “καινός” que significa novo no sentido de ‘renovado’ e não novo no sentido de ‘inédito’, que seria “νέος”). Assim, a Nova Aliança é substancialmente a mesma Aliança, embora “renovada”. O Novo Testamento é uma renovação do Antigo Testamento e não uma ruptura que instaura um pacto inédito (Romanos 4.13-18; Gálatas 3.15-18; Hebreus 6.12-18). Assim como não há total descontinuidade entre o nosso corpo atual e o nosso corpo futuro, entre o mundo atual e o mundo futuro, etc. há certa continuidade entre o Antigo Testamento e o Novo Testamento: “Não há, pois, dois pactos de graça diferentes em substância, mas um e o mesmo sob várias dispensações.”¹

Sendo assim, deve-se ter em mente que há um só Deus, que Deus tem um só povo ou uma só Igreja na Terra e que a salvação sempre foi pela graça. O Antigo Israel é a Igreja no Antigo Testamento, não sem motivo, os crentes sob a dispensação cristã, são chamados “o Israel de Deus” (Gálatas 6.16) e “semente de Abraão” (Gálatas 3.29). Em um sentido mais amplo, pode-se falar do Pacto da Graça como a Aliança que Deus tem com sua Igreja, com seu povo, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento. No Antigo Testamento esse povo tinha sua forma visível no antigo Israel, a partir do Novo Testamento, esse povo tem sua forma visível naqueles que professam a fé católica (universal), a igreja cristã visível.

A Aliança da Graça possui dois sacramentos, um rito de iniciação, e um rito de confirmação. O rito de iniciação é aquele que serve de selo de que a pessoa que o recebe faz parte da igreja visível, da comunidade da Aliança. No Antigo Testamento este rito era a circuncisão que foi substituída pelo batismo no Novo Testamento. O ritual de confirmação é um memorial de celebração da redenção. No Antigo Testamento este rito era a páscoa que foi substituída pela santa ceia no Novo Testamento.

À Igreja Visível no Antigo Pacto, Deus ordenou a cerimônia da circuncisão. Este era o sinal de que alguém fazia parte do povo da Aliança. A circuncisão era o rito de iniciação do Antigo Testamento. Quando um adulto pagão se convertia à religião de Israel ou intentava fazer parte do povo, exigia-se que fosse circuncidado. Desse modo, a circuncisão servia como “selo da fé” (Romanos 4.11). Servia como símbolo de uma mudança interior (“a circuncisão de coração”). No entanto, a circuncisão não implicava em salvação, e alguém poderia ser circuncidado na carne sem o ser no coração. Apesar de ser “selo da fé” e símbolo de arrependimento, a circuncisão era também ministrada aos filhos dos israelitas como sinal de que eles eram parte da Igreja do Antigo Israel. Deus tinha um pacto com seu povo, e esse pacto incluía os filhos dos cristãos do Antigo Testamento.

Visto que o Novo Testamento não é senão uma nova administração de uma mesma Aliança, que somos parte de uma mesma Igreja, que temos uma mesma fé, cremos em um mesmo Deus, num mesmo “Cristo” ou “Messias” – como poderíamos esperar que Deus privasse agora os filhos dos cristãos de um privilégio que Ele lhes concedeu sob a antiga dispensação? Deus não tem mais que um povo sobre a face da Terra:

“...Deus nunca teve senão uma só Igreja no mundo. O Jeová do Velho Testamento é nosso Senhor; o Deus de Abraão, Isaque e Jacó e nosso Deus e Pai pactual; nosso Salvador foi o Salvador dos santos que viveram antes de seu advento em carne. A pessoa divina que libertou os israelitas do Egito; que os guiou através do deserto; que apareceu em sua glória a Isaías no templo, aquele para cuja vinda os olhos do povo de Deus se voltaram em fé e esperança desde o princípio, é aquele em quem reconhecemos como Deus manifestado em carne, nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Aquele, pois, que foi o cabeça da teocracia é o cabeça da Igreja. O sangue que ele derramou por nós foi o sangue derramado desde a fundação do mundo...”²

Tudo o que se diz sobre a circuncisão se diz a respeito do batismo: (i) é um rito de iniciação; (ii) é exigido dos adultos novos convertidos que recebam esse rito; (iii) é selo da fé; (iv) serve como símbolo da mudança de coração e (iv) não implica necessariamente em salvação. Nenhuma dessas características, comuns ao batismo e à circuncisão, impediu que esta última fosse administrada às crianças. Por que, então, se privam as crianças do batismo sob o argumento de que o batismo exige “fé”, simboliza o arrependimento, destina-se a novos conversos, se o mesmo pode ser dito da circuncisão? O batismo é a circuncisão cristã:

No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, pela circuncisão de Cristo; Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos”. – Colossenses 2.11-12

Quando o Todo-Poderoso chamou Abrão para fazer dele um povo inumerável, uma de suas primeiras promessas foi que seria abençoado ele e seus filhos e sua descendência depois dele. Quando Deus inaugurou uma nova economia para a Igreja Cristã, repetiu similar promessa e advertiu explicitamente através de Pedro: “Porque a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe, a tantos quantos Deus nosso Senhor chamar.” (Atos 2.39). De igual modo o apóstolo Paulo inclui os filhos dos crentes na comunidade dos santos: “Porque o marido descrente é santificado pela mulher; e a mulher descrente é santificada pelo marido; de outra sorte os vossos filhos seriam imundos; mas agora são santos.” (1Coríntios 7.14).

O ensino bíblico, portanto, é que o batismo deve ser administrado aos filhos dos crentes: “as crianças, cujos pais, ou um só deles, professarem fé em Cristo e obediência a ele, estão, quanto a isto, dentro do pacto e devem ser batizadas.”³ Algumas objeções, no entanto, tem sido levantadas contra a doutrina reformada do batismo infantil, as quais serão respondidas agora:

RESPOSTAS ÀS OBJEÇÕES CONTRA O BATISMO INFANTIL

Objeção 1: O Novo Testamento apresenta a fé como uma condição para o batismo e bebês não têm capacidade de exercer fé.

Resposta: O Novo Testamento também diz que a circuncisão é “selo da fé” (Romanos 4.11), nem por isso as crianças foram excluídas. Evidentemente que se exige dos adultos que sejam batizados ao se converterem ao Cristianismo. No entanto, os filhos dos crentes já estão na igreja, e, portanto, não há outro requisito que precisem cumprir para receberem o batismo.

Objeção 2: O Novo Testamento não ordena batizar crianças.

Resposta: Visto que desde o Antigo Testamento as crianças recebiam o rito de iniciação na Aliança, se isso tivesse sido modificado, era de se esperar que o Novo Testamento se pronunciasse sobre essa mudança, no entanto, visto que o Novo Testamento não faz isso, devemos presumir que as crianças ainda devem receber o selo do pacto. Como observou Louis Berkhof:

“É verdade que não há nenhum mandamento explícito para batizar crianças, nem qualquer exemplo claro de batismo infantil no Novo Testamento, mas não há também qualquer autorização explícita para a prática dos batistas. Não somos ensinados, nem por palavras, nem por exemplos, que as pessoas nascidas e criadas nas famílias cristãs não possam ser batizadas até que cheguem à idade adulta e tenha professado sua fé em Cristo.”⁴

Objeção 3: Não há exemplos de batismos infantis no Novo Testamento.

Resposta: O Novo Testamento não menciona explicitamente o batismo infantil, embora em alguns textos nos quais se fale de batismos de famílias inteiras, ele possa estar subtendido: “...foi batizada, ela e a sua casa...” “logo foi batizado, ele e todos os seus.” (Atos 16.15,33). No entanto, é perfeitamente compreensível a escassez de relatos de batismos infantis na igreja primitiva. Grande massa de pessoas se converteu ao Cristianismo no primeiro século, era a primeira geração de cristãos. A Igreja era constituída em sua maioria de novos convertidos adultos, não de “filhos de crentes”. Não se deve espantar, pois, da ausência de relatos explícitos de batismos infantis no Novo Testamento. A Igreja se viu primeiro envolvida na evangelização de adultos que foram se convertendo ao evangelho. Seguiu-se depois tempo de ferrenha perseguição. Cristãos evitaram se casar e constituir famílias em meio a essa hostilidade. No entanto, quando a igreja se estabeleceu, quando começaram a surgir as novas gerações de filhos e netos de crentes, a prática do batismo encontrou mais claro testemunho histórico. Além disso, devido à continuidade lógica e natural entre a circuncisão e o batismo não era necessário que se declarasse explicitamente a necessidade de batizar crianças. Isso já estava pressuposto com base na administração deste sacramento aos infantes na antiga economia. Assim, não foi preocupação dos escritores do Novo Testamento registrar batismos infantis.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Pesa sobre os pais cristãos uma grande responsabilidade: que apresentem seus filhos ao batismo! Como advertiu Charles Hodge:

“Portanto, aqueles que, havendo sido batizados e professando ainda sua fé na religião genuína, tendo competente conhecimento e estando isentos de escândalo, não só devem receber a permissão, mas deve-se insistir e ordenar-lhes que apresentem seus filhos para que sejam batizados, a fim de que pertençam à Igreja e sejam criados sob vigilância e cuidado. Não serem eles batizados é um grave mal e afronta, algo que um pai não pode privar a seus filhos sem grave responsabilidade. A negligência do batismo, que implica a falta de apreço por esta ordenança, é um dos pecados clamorosos desta geração.”⁵

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Notas:
[1] Confissão de Fé de Westminster, 7.6.
[2] Charles Hodge. Teologia Sistemática, p.1428.
[3] Catecismo Maior de Westiminster, 166 .
[4] Louis Berkhof. Manual de Doutrina Cristã, pp.236-237.
[5] Charles Hodge. Teologia Sistemática, p.1448.

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Autor: Bruno dos Santos Queiroz
Divulgação: Bereianos
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