Série Credo Apostólico - Parte 6: A Vitória do Cristo

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INTRODUÇÃO  

...ressuscitou no terceiro dia, subiu ao céu, e está sentado à direita de Deus Pai, todo-poderoso, de onde virá para julgar os vivos e os mortos”.

Chegamos à última lição acerca do Cristo, vendo após o seu padecimento, a sua grandiosíssima vitória. Vitória esta que começa quando ele venceu a morte e ressuscitou corporalmente. A ressurreição e a ascensão de Cristo são pilares da fé cristã: Jesus Cristo vive. Logicamente, os inimigos da cristandade não aceitam tal fato e fazem troça do nosso credo. Mas seria tão improvável mesmo que Cristo tenha ressuscitado? Teríamos argumentos que validassem a ressurreição? E acerca da ascensão? O que será que a subida corpórea do Cristo aos céus tem a dizer para nós hoje?

Além disso, o Credo nos lembra sobre a segunda vinda de Jesus, no qual virá para julgar as nações e estabelecer o seu Reino de forma definitiva. Novamente é preciso frisar que não crer em algum destes postulados é não crer naquilo que ensina a Escritura, portanto, não podemos considerar um autêntico cristão alguém que nega a veracidade destes fatos. Assim como o nascimento e a morte de Cristo se deu na História, o que se seguiu após o seu sepultamento, segundo nos diz as Escrituras, também foram acontecimentos históricos.

O TÚMULO VAZIO

A principal forma de desmentir a ressurreição de Cristo seria abrir o seu túmulo e nele ver o seu cadáver ou a sua ossada. Bastava isso e pronto, o cristianismo teria seus dias contados e seus discípulos seriam desmascarados como farsantes. Jesus foi sepultado e isso é inegável, pois documentos históricos atestam isso. Os próprios evangelhos, incluindo os apócrifos, relatam que Cristo foi sepultado na tumba de José de Arimatéia, um membro do Sinédrio. Devemos lembrar que o Sinédrio condenou o Messias e seus líderes não tinham a simpatia dos cristãos. Sendo assim, porque raios iriam inventar que uma pessoa que participou do julgamento condenatório de Cristo, cedeu-lhe um túmulo?

Ademais, o registro do túmulo vazio também se faz presente nos evangelhos e em discursos apostólicos (Atos 2.29 e 13.36). E quem descobriu que a tumba estava vazia? Um grupo de mulheres. É sabido que na cultura judaica, o testemunho feminino não tinha validade. Se os evangelistas intencionassem inventar que Cristo havia ressuscitado dentre os mortos, com certeza, iriam relatar que os apóstolos, talvez Pedro ou João, foram as primeiras testemunhas da ressurreição. Os fariseus, os saduceus e até Roma poderiam facilmente desmentir a ressurreição, e até aparecer com o corpo do Nazareno, no entanto, mediante ao fato inconteste, apenas inventaram que o corpo havia sido roubado.

A NOVA RELIGIÃO

A adesão ao Cristianismo foi crescente, e isso implica numa troca de religião de judeus devotos. A unidade cultural e religiosa do judaísmo é tão forte, que mesmo na diáspora, eles conseguiram manter sua identidade como povo. Paulo, um fariseu renomado e zeloso pela tradição judaica não iria abandonar seu status para viver, padecer e morrer, senão tivesse plena certeza de seu chamado. Ele viu a Jesus ressuscitado, como nos diz o texto de 1 Coríntios 15. Ele e muitos outros foram testemunhas oculares da ressurreição. Um judeu do primeiro século não iria trair a revelação de Iavé, pois isso acarretaria em arriscar a sua salvação. Seria o equivalente a mentir contra o Deus de Israel.

A ideia de um corpo ressuscitado era tão absurda para a cultura judaica como a cultura helenística (1Coríntios 1:23). Era um conceito novo, não tão bem compreendido e tinha tudo para ser impopular, como foi para muitos e ainda é. Mas, este é um fundamento do cristianismo e importa ser pregado.

COM CRISTO VENCEREMOS

Embora tenhamos esses e outros argumentos em defesa da ressureição de Cristo, devemos ter ciência de que é a fé e não a razão que nos inclina para reconhecermos, e aceitarmos, essa verdade contida nas Escrituras. Por ser a fé um dom divino, faz-se necessário que o Salvador primeiramente se revele ao homem, para que este possa adorá-lo e afirmar tal como disse o apóstolo Pedro: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mateus 16:16).

A fé é necessária para compreendermos que a ressurreição foi um ato da Trindade, e esta demonstração de poder atesta a veracidade do ministério de Cristo. Ele de fato é o Filho de Deus. Sua vitória sobre a morte assegura para todo o que nele deposita a sua fé que com ele viveremos. Sua ressurreição indica que também ressuscitaremos e teremos este nosso corpo corruptível transformado. Vejamos o que diz a Confissão de Fé de Westminster:

“No último dia, os que estiverem vivos não morrerão, mas serão mudados; todos os mortos serão ressuscitados com os seus mesmos corpos e não outros, posto que com qualidades diferentes, e ficarão reunidos às suas almas para sempre”.
I Tess. 4:17; I Cor. 15:51-52, e 15:42-44.

Se não cremos nisso, nossa pregação é vã, como disse o apóstolo Paulo aos coríntios (1 Co 15.12-20). Mas o mesmo apóstolo testifica que Cristo ressurgiu dos mortos, e ao vencer a morte, como o segundo Adão, nos legou o direito a vida. Como o próprio Jesus disse a irmã de Lázaro:

Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá; e quem vive e crê em mim, não morrerá eternamente. Você crê nisso?” - João 11:25,26

A DESTRA DE DEUS

A ascensão de Cristo é o cumprimento da profecia de Daniel 7.13-14. O próprio Jesus falou acerca dela (Mt 26. 64). Este evento é a última etapa da sua primeira vinda, onde exaltado acima de todo o nome após sua humilhação e padecimento (Fl 2. 5-11), Ele agora se encontra a destra do Pai, numa posição de autoridade, sendo o regente que o mundo reconhecerá e se curvará após o seu eminente retorno.

O fato de Cristo ter sido assunto aos céus é de vital importância para nós. Como dito aos doze, Ele foi preparar o nosso lugar no seu Reino de Glória. E quando voltar nos levará, isto é, seu povo, para habitar com Ele em sua eterna morada. (Jo 14. 1-3). E enquanto Ele não vem, ficamos na companhia do Espírito Santo, o consolador enviado pelo Pai em nome de Cristo, que ilumina nossos corações nos fazendo entender e crer no Evangelho (Jo 14.26). Logo, esta partida de Cristo é também boa-nova e foi idealizada para o bem dos seus seguidores.

Na revelação que Deus concedeu ao apóstolo João, que viu o Senhor exaltado em seu trono (Ap 1.13-18), há um capítulo que resume a história da redenção. Este capítulo fala do nascimento do Messias e revela que Deus-Pai o arrebatou para si, colocando junto ao seu trono (Ap 12.5). A partir desse evento, desencadeia-se uma guerra celestial na qual o Diabo, que tinha o papel de ser nosso acusador, é lançado fora, tendo Cristo vencido o seu oponente. Com a autoridade que lhe cabe, foi declarado seu senhorio sobre o Reino de Deus (Ap 12.10).

O papel que Cristo ocupa no céu é o de Senhor absoluto do cosmos. O cordeiro imolado é também um leão que ruge com poder e glória, reivindicando para si todas as coisas que estão na terra e no céu. Com sua força vence os seus adversários e subjuga a todos debaixo dos seus pés. Além disso, Cristo nos céus é o nosso intercessor, que por nós roga diante de seu Pai. Ele é o sacerdote que entrou no tabernáculo celestial (Hb 4.14) uma vez por todas, nos redimindo em definitivo, para que entremos no seu descanso. O autor de Hebreus conclui dizendo:

Assim sendo, aproximemo-nos do trono da graça com toda a confiança, a fim de recebermos misericórdia e encontrarmos graça que nos ajude no momento da necessidade”. - Hebreus 4:16

CONCLUSÃO

Ao findar a seção que trata de Cristo, o Credo nos lembra de que Ele irá voltar. A segunda vinda do Messias é o desfecho da História, o fim do concurso dos nossos dias num mundo caído. Estamos nos “últimos dias” que são aqueles vividos entre a primeira e a segunda vinda de Jesus, e devemos aguardar o seu retorno, vivendo como se fôssemos a última geração da terra - mesmo que não sejamos e o Senhor se prolongue por mais algumas gerações.

É verdade que muitos zombam da segunda vinda do Cristo e dizem que Ele está se demorando. Afinal, passaram-se 20 séculos e nada dele ter voltado. Mas como diz o apóstolo Pedro:

Não se esqueçam disto, amados: para o Senhor um dia é como mil anos, e mil anos como um dia. O Senhor não demora em cumprir a sua promessa, como julgam alguns. Pelo contrário, ele é paciente com vocês, não querendo que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento”. - 2 Pedro 3:8,9

Cristo retornará e virá para os que o esperam e para os que não o esperam. O dia e a hora ninguém sabe, mas devemos viver de maneira santa e piedosa esperando o grande dia (2 Pedro 3.11,12). Como soldados em uma trincheira, devemos estar sempre vigilantes e preparados. E a nossa pregação não deve omitir que acreditamos no retorno de Jesus que virá buscar a sua igreja.

No Dia do Juízo, Cristo vem como Rei e em seu trono julgará todas as nações. Este dia será de alegria para os que creram em seu nome e por Ele foram redimidos pelo sangue vertido na cruz do calvário. Mas, os incrédulos serão declarados culpados por todos os seus pecados e terão que pagar pelos mesmos. Aos que não creem, este dia será de dor e de remorso.

Mas saber que o Rei dos Reis julgará com equidade e justiça é um alívio para quem nele deposita a esperança. Toda injustiça não ficará impune. Toda opressão se desfará. As mazelas deste mundo não serão mais vistas na consumação do Reino e com o ausente efeito do pecado sobre nós, poderemos gozar de paz perfeita na presença do Deus triúno. Louvado seja Cristo, que encarnou, foi crucificado, sepultado, ressurreto, assunto aos Céus e que em breve voltará trazendo consigo – em definitivo – o seu Reino.

Soli Deo Gloria

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Autor: Pr. Thiago Oliveira
Divulgação: Bereianos

Leia também:
Série Credo Apostólico - Parte 1: Um Símbolo da Fé Cristã
Série Credo Apostólico - Parte 2: Pai, Todo Poderoso, Criador
Série Credo Apostólico - Parte 3: Jesus Cristo é o Senhor
Série Credo Apostólico - Parte 4: O Redentor no Espaço-Tempo
Série Credo Apostólico - Parte 5: O Padecimento do Cristo
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Review | Pilares da Fé - Franklin Ferreira

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PILARES DA FÉ | A atualidade da mensagem da Reforma. Edições Vida Nova 2017. Autor: Franklin Ferreira.

Neste ano comemora-se os 500 da Reforma Protestante. Dada essa importante e singular data, muitas obras tem sido publicadas no Brasil sobre o tema. Em especial destaco as publicações de Edições Vida Nova, empreendendo uma série de publicações sobre a História, Documentos e Teologia da Reforma.

Dentre as boas publicações, está o livro do pastor e professor Franklin Ferreira. Já é sabido, mas, vale notificar que Franklin é um dos mais expressivos teólogos do nosso país em nossa geração. Suas obras envolvem Teologia Sistemática, História da Igreja, Espiritualidade e Teologia Política. Além de escritor o pastor na Igreja da Trindade, Franklin está a frente do importante Seminário Martin Bucer que tem dado grande contribuição a Teologia Reformada no Brasil. Também exercendo importante trabalho junto as editoras Vida Nova e Fiel.

Chegando ao livro, então, gostaria de dizer algumas palavras sobre a obra do professor Franklin. O livro é fruto de uma série de palestras proferidas em 2015, entre 20 e 22 de novembro, na Igreja Batista Reformada do Ipiranga em São Paulo (p.11). De fato nada incomum, muitas grandes e expressivas obras foram frutos de palestras como por exemplo, o clássico livro de Abraham Kuyper - Calvinismo - ou o Rosto de Deus do filósofo Roger Scruton, bem como outra obra de Franklin sobre o Credo Apostólico, publicado pela editora Fiel.

Os Pilares da Fé, trada dos Cinco Solas da Reforma: Sola Scriptura, Solus Christus, Sola Gratia, Sola Fide, Soli Deo Gloria. Com um prefácio do escritor e teólogo Solano Portela e uma apresentação feita pelo deputado estadual do Rio Grande do Sul, cristão luterano, Marcel Van Hattem. Iniciando, então, a obra mostrando a importância do livro nas esferas teológica e política em nosso país.

Alguns podem pensar: mas já não temos livros publicados sobre essa temática? Posso dizer que gosto bastante de outras publicações sobre o assunto, mas considero o livro de Franklin Ferreira importante por dialogar com nosso contexto no Brasil, aplicando de forma muito pastoral aos problemas correntes na teologia das igrejas no país e a realidade cultural e política do país.

Ao tratar do do primeiro sola, gostei muito quando Franklin trabalhou sobre a questão do Sola Scriptura e a Confessionalidade, tratando dos conceitos de Norma Normans e Norma Normata. Também a questão surgida posteriormente do Nuda Scriptura que rompe com a tradição confessional, asseverando que esta não valida o Sola Scriptura. Algo interessante dito pelo autor é que a Escritura é Deus falando conosco, os documentos confessionais somos nós confessando o que cremos, a Deus aos homens (paráfrase minha).

Ao tratar sobre o Solus Christus, Franklin trabalha de forma magistral a teologia da cruz em Lutero. O capítulo é profundamente evangélico e teologicamente reformado.

Os capítulos seguintes sobre o Sola Gratia e Sola Fide tratam sobre a Justificação Pela Fé Somente. Riquíssimos, posso dizer que este é um tipo de livro que todo cristão deveria ler. Com um sólido trabalho em Teologia Sistemática e Teologia Histórica, Franklin dialoga com grandes autores e nos trás valiosos ensinamentos e aplicações sobre a doutrina da justificação. Uma questão que me chamou atenção foi o diálogo do autor com a Declaração de Cambridge.

Ao final de cada capítulo se encontra uma tese dessa declaração importante feita pela Aliança de Evangélicos Confessionais em 1996. O livro inclui um apêndice com a declaração transcrita. O livro de Franklin é notavelmente pedagógico, podendo ser usado em seminários ou grupos de estudos bíblicos e Escolas Bíblicas Dominicais.

Franklin termina o livro falando do quinto sola: Soli Deo Gloria. Um capítulo jubiloso, doxológico, aplicando a cada esfera da vida e da atuação da igreja a glorificação do nome de Deus. Franklin inicia o capítulo com uma frase marcante: Por que Deus existe? Para sua própria glória! E essa é a paixão última de Deus. Todo propósito da história - e mesmo todo propósito da nossa existência - é a glória de Deus, p. 176.

Termino dizendo que é um livro importante, necessário e urgente.

Soli Deo Gloria

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Autor: Rev. Thomas Magnum
Divulgação: Bereianos

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Pena de Morte

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Introdução

Este é um daqueles assuntos que sempre levantam controvérsias. Ainda me lembro do dia em que eu dava aula na Escola Bíblica Dominical na Igreja Presbiteriana de Russas – Ce, onde o assunto abordado era justiça na sociedade. O assunto da pena capital foi ventilado, então eu fiz a seguinte pergunta: “Quem aqui concorda com a pena de morte?” Isso foi suficiente para vermos os ânimos se acirrarem e opiniões das mais diversas serem colocadas.

Série Credo Apostólico - Parte 5: O Padecimento do Cristo

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INTRODUÇÃO

“...foi crucificado, morto, sepultado, desceu ao mundo dos mortos”.

A crucificação é um episódio doloroso e que muitos conhecem por sua brutalidade. O filme “Paixão de Cristo”, dirigido por Mel Gibson foi uma das encenações do martírio de Jesus que mais se aproximou do espetáculo horrendo que aconteceu há dois milênios atrás. Mas o que passa despercebido para alguns é que as dores físicas e o horripilante rito de matar um homem pendurando-o num madeiro não foram o pior que aconteceu ao Cristo. Seu padecimento extrapola o que é visível para a plateia que vê o Filho de Deus apregoado na cruz. O que nosso Senhor sentiu foi o peso de carregar sobre si os pecados de muitos e com isso, sentiu a ira e o abandono de Deus Pai, pois ali, de maneira substitutiva, aquele que não tinha pecado representava (de modo vicário) a soma da vileza dos piores pecadores possíveis. E ele sentiu a agonia infernal de ser punido para satisfazer a justa ira divina.

Logo, devemos compreender que a crucificação não evidencia apenas o altruísmo de um homem que deu a vida para deixar de herança um belo exemplo às gerações posteriores. A cruz pode ser vista como um episódio de amor e misericórdia, porém, mais que isso ela foi o desfecho de uma dívida que era preciso ser paga. O credor não podia simplesmente perdoar, alguém deveria derramar seu sangue para que a justiça fosse feita. Citando John Stott, é correto dizer que “Na Cruz, a misericórdia e a justiça divina foram igualmente expressas e eternamente reconciliadas”.

Para uma melhor compreensão do que disse Stott, é preciso recorrer a um texto paulino.

O SUBSTITUTO

Paulo vai iniciar a sua exposição doutrinária aos Romanos afirmando que as pessoas sem Lei são culpadas diante de Deus (Rm 1.18-2.16). Em seguida, o apóstolo afirma que os possuidores da Lei também são culpados (Rm 2.17-3.8). Enfim, o mundo inteiro é culpado diante de Deus (Rm 3. 9-20). A culpa é proveniente do pecado: “todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus” (Rm 3.23).

Ao falar sobre a natureza culpada do ser humano, que o torna réu no Tribunal de Deus, Paulo está introduzindo a boa nova. O Evangelho, para ser bem compreendido, precisa partir desse ponto. O que se segue na explanação paulina é que Deus não nos retribuirá segundo os nossos pecados, pois em Cristo, através da morte na cruz, nós fomos justificados, isto quer dizer que nossos pecados não mais serão levados em conta, foi Cristo quem pagou por eles com seu sangue. Eis a boa notícia que leva o nome de Evangelho. Então, não é preciso fazer nada na tentativa de aplacarmos a ira de Deus. Jesus já fez tudo por nós, sua obra é completa e já foi consumada. Basta crer somente nele.
A fé nos justifica e não nossas obras, pois somos incapazes de guardar a Lei de Deus. Jesus foi aquele que não pecou e se deu por sacrifício em nosso favor. Nossos pecados foram remidos pelo sangue de Cristo. Judeus e gentios, ambos declarados justos graças aos méritos do Salvador. O que Paulo ensina aqui é o cerne da doutrina cristã, e em ambos os testamentos temos o desenvolvimento da história da redenção até chegarmos até o Cristo.

Em Gênesis 1, lemos Deus criando o mundo e o homem. Tudo o que Ele criou é bom. Mas, no capítulo 3 já vemos que o homem decide quebrar sua aliança com Deus e através da instrumentalidade de Satanás, o pecado entra no mundo e macula o espírito do homem, colocando-o na condição de inimigo do SENHOR, separado de Sua santa presença. Todavia, em Gênesis 3.15 existe uma promessa de que da descendência da mulher – Eva – viria àquele que iria destruir Satanás e sua obra perversa. E o desenrolar do Antigo Testamento nos mostra Deus suscitando uma semente até que chegue a plenitude dos tempos (Gl 4.4) e a profecia se cumpra ao nascer Jesus, nascido de uma mulher e debaixo da lei.

Como o ser humano se tornou incapaz de se achegar a Deus, por conta do pecado, foi preciso que Deus estabelecesse o resgate. E para isso um inocente assumiu o lugar dos pecadores. Jesus Cristo é um substituto legal que em si suportou toda a ira dos pecados sendo expurgados. Por Deus ser santo, não pode conviver com o pecado, e por isso não poderia simplesmente perdoar e deixa-lo impune. A misericórdia do Senhor não acontece a despeito de sua justiça. O pecado deveria ser punido e seus efeitos no homem derrotado para que pudéssemos ter reconciliação.

O autor da carta aos Hebreus nos diz que sem derramamento de sangue não há remissão de pecados (Hb 9. 22). Falando de todo o sistema sacrificial da antiga aliança, o autor mostra que eram apontamentos ao sacrifício definitivo de Cristo, por isso que ele é chamado de Cordeiro de Deus, e foi imolado antes da fundação do mundo (Ap 13.8 e 1 Pd 1.19-20). Como o animal do sacrifício, e, ao mesmo tempo, sacerdote que estava mediando nossa relação com o Pai, Cristo foi nosso substituto, o segundo Adão que através de sua obediência perfeita, atendeu os critérios para receber o pagamento de nossos pecados e assim nos justificar.

A OBRA DA CRUZ

Cristo sendo nosso substituto, e morrendo na cruz, realizou aquilo que não poderíamos. A Escritura usa quatro termos para falar sobre o que foi realizado através da morte vicária de nosso Salvador, vejamos agora o que eles querem dizer.

- Propiciação: É o sacrifício que serve para aplacar a ira de alguém que foi ofendido. No nosso caso, ofendemos ao Criador através de nossos pecados, por isso, a propiciação seria um fator apaziguador, pelo qual Deus não nos puniria por nossos pecados. O sacrifício de animais no Antigo Testamento tinha esse caráter, por isso que o local onde o sangue era aspergido chamava-se propiciatório. Cristo na cruz é a nossa propiciação (1 Jo 2.2 e 4.10).

- Expiação: É o ato que promove reconciliação, reaproximação, perdão e purificação mediante sacrifício. O sangue dos animais ilustrava o sangue de Cristo vertido no Calvário. Jesus expiou nossos pecados.

- Justificação: Ter a culpa removida e sermos declarados justos diante de Deus é um dos efeitos da expiação. Não somos considerados justos pelos nossos méritos. A justificação vem pelo derramamento de sangue inocente. O sacrifício de Cristo nos justifica (Rm 3.24-25), e de uma vez por todas (Hb 9), sem necessidade de continuar sacrificando.

- Santificação: Seguindo a justificação vem a santificação. Dentro da Arca estava a Lei (Dt 10.2 e Hb 9.5). Por cima da Lei havia o sangue da expiação, derramado sobre o propiciatório. Isso nos mostra que não é a obediência a Lei que me leva ao Cordeiro (Cristo). É o Cordeiro que me leva a obedecer a Lei. Guiados por Jesus, santidade é um caminho real, pois nele, somos separados para as boas obras.

Assim sendo, a obra de Cristo tem grande valor para nós, e sem ela não teríamos paz com Deus, continuaríamos mortos em nossos delitos e pecados, vivendo debaixo de sua ira. Mas foi por sua infinita misericórdia que Cristo nos foi dado, para que nele nós obtivéssemos a vida.

MORTE REAL

O Credo enfatiza que a morte de Cristo foi real e não figurativa. Ele foi sepultado, após morrer crucificado, que era uma ultrajante pena de morte aplicada no Império Romano aos mais vis criminosos. Isso está registrado nos quatro evangelhos, de forma que basta lê-los para nos certificarmos disso. Todavia, um grupo herético (gnósticos) negava que Jesus havia morrido, pois para eles, Cristo tinha apenas uma aparência corpórea, mas não tinha um corpo real. Ora, isso faz com que a morte de Cristo não seja real, logo, ele não seria o nosso substituto. Mas não é isso que a Escritura nos diz e precisamos afirmar categoricamente que o Verbo se fez carne (João 1).

Uma ênfase de que Cristo morreu de fato é a sentença “desceu ao mundo dos mortos” ou “desceu ao Hades”. Esta é uma frase que não constava primeiramente no Credo, mas foi acrescida a ele por volta do século 7. Antes disso, a expressão era usada como substituta da frase “foi sepultado”, mas o seu emprego sendo colocado após a frase que antes a substituía, tal como lemos hoje, gerou uma série de interpretações.

Hades é para os gregos o mundo dos mortos, onde estão todos que faleceram. Os bons ficam no lugar chamado Elísio e os maus no Tártaro, que seriam os dois compartimentos deste mundo. A cristianização desse termo o colocou como sendo o Inferno e daí houve uma corrente que começou a defender que após a sua morte, Cristo foi pregar aos cativos no Inferno ou foi lá para proclamar a sua vitória, como creem os luteranos.

No Antigo Testamento, Sheol era a designação do lugar dos mortos, mas também podia ser, dependendo do uso, sepultura. Hades foi muitas vezes usado como sinônimo de Sheol. Pedro usou a palavra em Atos 2:27, quando citou o Salmo 16:10 - que usa Sheol. Isto pode nos levar a concluir que “desceu ao Hades” sirva de ênfase ao sepultamento de Cristo.

A tradição reformada, a partir de Calvino, interpreta a frase como sendo enfática. Sobre o porquê desta sentença está no Credo (pergunta 44), o Catecismo de Heidelberg responde:

Porque meu Senhor Jesus Cristo sofreu, principalmente na cruz inexprimíveis angústias, dores e terrores. Por isso, até nas minhas mais duras tentações, tenho a certeza de que Ele me libertou da angústia e do tormento do inferno”.

O Catecismo Maior de Westminster (Resposta a pergunta 50) também diz que A humilhação de Cristo depois da sua morte consistiu em ser ele sepultado, em continuar no estado dos mortos e sob o poder da morte até ao terceiro dia; o que, aliás, tem sido exprimido nestas palavras: Ele desceu ao inferno (Hades)”.

CONCLUSÃO

Jesus sofreu não apenas na sua crucificação. Toda sua vida foi de aflição. Santo, teve que habitar num mundo corrompido pelo pecado, sendo tentado em tudo, mas sem pecar, como nos diz o texto sagrado (Hb 4.15). Experimentou o descrédito daqueles que eram o seu povo e lidou com o ódio de determinado grupo religioso. Jesus foi traído por um de seus discípulos e negado pelos outros ao ser preso. Homem de dores!

Na crucificação, apesar de toda dor física, havia a terrível angústia de ser punido e abandonado por seu Pai, pois ali estava representando a figura da vileza humana, mesmo sendo Ele alguém que obedeceu plenamente toda a lei. Aquela aflição sofrida na cruz era demais para nós, não suportaríamos, todavia, Ele a suportou em nosso lugar para que ficássemos livres. O fardo do pecado foi desatado de nossas costas e os que creem em seu sacrifício não sentirão os tormentos infernais, pois Cristo já suportou tais tormentos. Por isso regozijemo-nos na mensagem da cruz. Ela é boa nova para todo o que em Cristo Jesus depositar a sua fé.

Soli Deo Gloria

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Autor: Pr. Thiago Oliveira
Divulgação: Bereianos


Leia também:
Série Credo Apostólico - Parte 1: Um Símbolo da Fé Cristã
Série Credo Apostólico - Parte 2: Pai, Todo Poderoso, Criador
Série Credo Apostólico - Parte 3: Jesus Cristo é o Senhor
Série Credo Apostólico - Parte 4: O Redentor no Espaço-Tempo
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Deus é amor ou o Amor é deus?

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Diante de algum conflito moral alguém sempre lança mão da afirmativa ‘
Deus é amor’ no intuito de apaziguar algum desconforto ou mesmo dar uma resposta ao conflito que pareça indissolúvel por outros termos. ‘Deus é amor’ virou um mantra para nossa geração e tudo que parece ser feito em amor toma logo uma roupagem de divinamente inspirado ou divinamente tolerado.

Mas claro que Deus é amor! Apesar de muitas vezes Ele ter sido tomado na cultura como alguém distante e indiferente ao permitir a banalização do mal ao longo da história, a Bíblia é repleta de demonstrações não só dos traços amorosos de Deus, mas também da riqueza da operação desse amor entre nós. O amor é a essência fundamental da natureza de Deus e carácter de seu próprio Ser. Deus é perfeito em amor. O amor de Deus é manifesto por Seu desejo absolutamente puro de doar, compartilhar e cuidar. Tais prerrogativas podem ser observadas em episódios distintos da narrativa bíblica, em nossas experiências cotidianas e ao longo do caminho histórico (criação-queda-redenção), no qual Deus nos convida a participar e dar respostas a quem nos pedir a razão dessa fé e experiência transformadora. Tenhamos em mente que, apesar do ódio, apesar de todos os motivos para a violência e degradação humanas, o bem e a ordem, a justiça e a misericórdia, o cuidado e a proximidade se manifestam no mundo. O Deus distante é signo da ausência da humanidade, o Deus amoroso é revelado no exercício do amor – não há outro veículo para o amor de Deus que o próprio homem. Esse é o mistério da encarnação.

Mas, então, qual o problema da resposta ‘Deus é amor’ para a justificação de nossas condutas diárias?

O que acontece é que tal justificativa parece ter se tornado bastante simplista. Ela tem sido comunicada sistematicamente de forma acrítica no embalo do que parece ser a mais pura irresponsabilidade ou falta de sabedoria cristã, seja, por ignorância sincera ou omissão voluntária. Ela está presente em cenas corriqueiras que parecem não favorecer qualquer desejo de solução do problema, isentando aqueles que dialogam, na maioria das vezes, da compreensão, do juízo e da mudança independente dos prejuízos produzidos por uma nova tomada de posição.

A invocação de Deus como amor associada à uma possível renúncia da responsabilidade humana é sintoma da diluição ou enfraquecimento da mensagem bíblica e também do próprio humano. Deus é amor em sua ira. Deus é amor na punição. Deus é amor em qualquer coisa que faça. O humano é portador do amor de Deus quando se encontra no lugar da obediência, quando compreende e cumpre o seu papel, quando não foge à sua vocação de agente e presença de um impasse que denuncie uma crise e uma fragilidade nesse estado de coisas que temos presenciado em nossa cultura.

Pensemos nisso em uma época de crescente oposição ao outro através da patologização – ou seja, transformar uma característica humana em doença, desordem ou inadequação ao meio, e consequente desabono da opinião de alguém através da rotulação de tudo como questão de ‘ódio’ que temos visto rotineiramente na discussão pública. A possível ignorância deixou de ser ausência de sabedoria e conhecimento – dirimida através do ensino-aprendizagem na relação mútua, para se tornar um sentimento irracional e aniquilador do outro. Esse outro que deveria ser antropologicamente tão íntimo que o chamado a serem filhos de Deus por amor Dele (Rm. 11:36) faria qualquer diferença ocasional virar sombra pálida a ser prontamente administrada. Mas quem quer entrar na lista do politicamente incorreto de nossos dias? Quem quer cair nesse lugar que incorporou cores mais fortes que o inferno de Dante? Ninguém. O ‘ódio’ é o oposto extremo do lugar santo da geração #MaisAmor, #PorFavor. E fim de conversa. Melhor, por exemplo, deixar Paulo sendo tachado de misógino (que denota ‘ódio’ por, ao contrário do termo machista) e seguirmos firmes e contextualizados em nossa fé. Pois é… Mas não deveria ser. Sejamos luz e cuidemos dos outros na verdade.

E por que tal justificativa se mostra simplista, irresponsável e sem qualquer sabedoria?

Primeiro, porque quando falamos amor, falamos o amor de muitas maneiras (storge, philia, eros e agapé) e em muitos sentidos, incorrendo sempre no risco de fazer o seu mau uso através de uma compreensão errada ou do exercício errado em condições, por exemplo, disfuncionais ou adoecidas.

Sim, os amores são bíblicos e cada um tem seu traço distintivo. Mas, como nos lembrou C. S. Lewis, “os amores humanos podem ser imagens gloriosas do amor divino. Nada menos que isso, mas também nada mais – proximidades de semelhança que de um lado podem ajudar, mas de outro servir de impedimento…”, quando, por exemplo, embalado pela obstinação de uma causa ou pessoa, esse amor se torna fonte de cruéis violações contra pessoas, causas e coisas, tirando-as, na maioria das vezes, de seu lugar de correspondência e benefício. Quer um exemplo atual dessa dificuldade e risco? Família é amor! Família é onde tem amor! Mas estamos falando de qual natureza amorosa? Há critérios ou exigências distintivas para este amor? Toda forma de amor vale a pena? Se cremos haver alguma ordem criacional para a família, temos então alguns parâmetros para essas respostas.

Segundo, porque o amor sem a correspondência adequada se torna puro sentimento passível de muitas grosserias. Moralidade fundada em sentimento como experiência de aprovação e desaprovação acaba por se tornar meios de sutis tiranias. Cria um tipo de raciocínio onde o certo e o errado são dados por motivos subjetivos e não por padrões universais – e objetivos, como aqueles presentes na Bíblia. Imagine essa baliza como prática de uma cultura inteira? Alguns podem dizer, se tem o sentimento certo, o motivo correto, logo a ação é a correta e desejável. Se é por amor, como poderia estar errado? Deus é amor! Mas que amor é este? Calcado na riqueza do caráter e operação de Deus ou em nossas ambíguas subjetividades? Precisamos responder. Afinal, a cultura do sentimento e da valorização das experiências emotivas do sujeito é uma questão séria em nossos dias e a espiritualidade cristã já se encontra sob pressão de um tipo de sentimentalismo bastante acentuado. Não por acaso, este já tenha contaminado as questões e posturas éticas de muitos cristãos.

No artigo The Meanings of Love in the Bible (Os Significados do Amor na Bíblia), disponível na Web, John Piper percorre de Gênesis a Apocalipse apontando versículo a versículo onde aparecem o (1) amor de Deus, (2) amor do humano por Deus, (3) amor do humano pelo humano, (4) amor do humano pelas coisas, (5) amor de Deus pelo seu Filho, (6) amor de Deus pelo humano e (7) amor do humano por Deus e por Cristo. Ele é profícuo em demonstrar as dimensões e as diferentes naturezas do amor e do seu exercício, nos fazendo lembrar que generalizações podem nos roubar a natureza e a responsabilidade de fazê-lo coincidir com o amor do próprio Deus, fonte primária de todos os amores. Portanto, estejamos atentos. Deus é amor (1 Jo. 4:8), mas também é justo (Sl. 7:11), santo (Ap. 4:8), soberano (Ap. 1:5) e imutável (Hb. 7:24) e quando lida conosco o faz sem precisar compensar ou negociar qualquer desses atributos.

Não poderia deixar de mencionar que na esteira do uso torpe da verdade bíblica fundamental, Deus é amor, se encontra também aquela máxima popular: Deus odeia o pecado, mas ama o pecador. Fico aqui pensado se o que João viu no Apocalipse eram objetos inanimados reconhecidos como pecado ou seres humanos irreconciliáveis. Mas melhor deixar esse papo para outra hora.

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Autora: Isabella Passos
Fonte: Reforma 21
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A Pessoa de Cristo - o Deus-homem

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(1)

1. Há duas divisões do ensino evangélico acerca de Cristo o Redentor. A primeira trata com a sua pessoa e a segunda com a sua obra [officia].

2. O redentor em sua pessoa é o Deus-homem [theantropos]; isto é, o eterno filho de Deus encarnado, ou feito homem no tempo. Jo 1:14: “O verbo se fez carne e habitou entre nós.” Gl 4:4: “Vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher”. 1 Tm 3:15: “Evidentemente, grande é o mistério da piedade; Aquele que foi manifestado na carne.”

Série Credo Apostólico - Parte 4: O Redentor no Espaço-Tempo

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INTRODUÇÃO

“...o qual foi concebido por obra do Espírito Santo, nasceu da virgem Maria, padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos”.

Muitas matérias de revistas e artigos na internet trataram do que chamam o “Jesus histórico”. Isto é um termo para designar aquilo que se disse sobre o Cristo fora da fonte canônica. Logo, há disparates como o casamento de Jesus com Maria Madalena e sua viagem à Grécia, onde dialogou com os filósofos da época. Isso tudo não passa de invencionice, embora seja verdadeira a noção de que Cristo foi alguém que conviveu na História e se manifestou num espaço geográfico e cronológico no qual o apóstolo Paulo chama de “plenitude dos tempos” (Gálatas 4.4).