A Utilidade e Importância dos Credos e Confissões - parte 2

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2. A necessidade e importância dos credos e confissões se evidenciam a partir da consideração de que um grande desígnio de se estabelecer a Igreja em nosso mundo foi que ela pudesse ser, em todas as épocas, uma depositária, uma guardiã e testemunha da verdade.

Os cristãos, coletiva e individualmente, são representados na Escritura como testemunhas de Deus. São ordenados a manter sua verdade e “preservar a palavra da vida” em toda a sua pureza e brilho ante uma geração perversa, para que outros sejam iluminados e convertidos. São exortados a “comprar a verdade e não a vender”, a “lutar pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos”, a “apegar-se à forma das sãs palavras que receberam” e a “lutar juntos pela fé evangélica”. Esses e muitos outros mandamentos de significado similar claramente fazem o dever de cada igreja cristã detectar e expor as heresias prevalecentes, excluir todos os que abraçam heresias radicais de sua comunhão e “levantar uma bandeira” pela verdade, onde quer que “o inimigo venha como um dilúvio”.

Mas isso tudo não implica em tomar medidas efetivas para distinguir a verdade do erro? Isso tudo não implica necessariamente no dever de esboçar e publicamente manifestar uma linha entre os que, enquanto professam, de modo geral, crer na Bíblia, negam realmente todas as suas doutrinas essenciais, e os que simples e humildemente recebem “a verdade segundo é em Jesus”? Mas como essa distinção há de ser feita, visto que os que abraçam as doutrinas essenciais do evangelho igualmente professam receber a Bíblia? Pode apenas ser feito ao cuidadosamente averiguar e explicitamente declarar como a própria igreja e como aqueles que ela suspeita laborarem em erro entendem e interpretam a Bíblia; ou seja, extraindo certos artigos de fé das Escrituras, de acordo com o entendimento da igreja a respeito deles, e comparando esses artigos com a crença professa daqueles que ela supõe sejam hereges. E o que é isso senão extrair das Escrituras uma Confissão de Fé – um Credo – e aplicá-lo como um teste de princípios sadios? 

Realmente parece-me que aqueles irmãos ortodoxos, que admitem que a igreja está obrigada a levantar sua voz contra o erro e a lutar pela verdade e, apesar disso, denunciam os credos e confissões são extremamente incoerentes. Eles reconhecem a obrigação e importância de um grande dever, mas rejeitam o único meio pelo qual essa obrigação pode ser realizada. São tão insensatos, sou obrigado a dizer, quanto “os feitores do Egito”: exigem que a obra seja feita, sem fornecer a matéria-prima para sua realização. Antes que a igreja possa, como tal, detectar hereges e lançá-los fora de seu seio; antes que possa levantar sua voz, em um “dia de angústia, de castigo” [Is 37.3], contra os erros prevalecentes, seus oficiais e membros devem concordar quanto ao que é a verdade. A menos que se entreguem, em seu julgamento oficial, a todos os caprichos e efervescências febris do sentimento ocasional, devem ter algum documento reconhecido e permanente, exibindo o que concordaram em considerar como verdade. Não há, na realidade, outra alternativa. Ou terão uma “forma das sãs palavras”, que voluntariamente adotaram e fizeram juras de “apegar-se” a elas, ou não poderão ter segurança alguma que duas ou mais decisões sucessivas relativas à fidelidade na fé possam ser iguais. Em outras palavras, não podem alcançar, de uma forma contínua, uniforme e consistente, um dos grandes propósitos para o qual a igreja visível foi estabelecida.

Certamente não será dito por qualquer pessoa ponderada que a igreja ou quaisquer de seus membros individuais podem suficientemente cumprir o dever em questão simplesmente proclamando, de tempo em tempo, em meio ao erro circundante, sua aderência e sua ligação à Bíblia. Todos podem ver que isso seria, de fato, nada fazer como “testemunhas da verdade”, pois não seria fazer nada peculiar, nada distinto, nada que qualquer herege na Cristandade não esteja pronto a fazer, ou melhor, não esteja fazendo diariamente, tão ruidosa e tão frequentemente como a mais ortodoxa das igrejas. A própria ideia de “dar testemunho da verdade” e de separar aqueles que são tão corruptos que a comunhão cristã não pode ser mantida com eles necessariamente implica algum ato de discriminação pública, no qual a igreja concorda e expressa sua crença nas grandes doutrinas do cristianismo, em contraste com os que creem erroneamente. Agora supor que algo desse tipo possa ser realizado fazendo-se uma profissão, a mesma, em todos os aspectos, que o pior herege faria, é muito palpavelmente absurdo para satisfazer qualquer inquiridor sóbrio. 

Que valor, permitam-me perguntar, teriam os valdenses e albigenses como testemunhas da verdade – como luzeiros no mundo, em meio às trevas da corrupção circundante –, especialmente que valor teriam tido para a igreja nas épocas subsequentes e para nós no tempo presente, se não tivessem formulado e transmitido para a posteridade aquelas celebradas confissões de fé, tão preciosas como memoráveis, das quais lemos em sua história, e que permanecem como tantos outros testemunhos monumentais para o verdadeiro “evangelho da graça de Deus”? Sem isso, como jamais saberíamos de que forma interpretavam a Bíblia ou em que diferiam dos mais grosseiros hereges, que viveram na mesma época e professaram receber a mesma Bíblia? Sem isso, como jamais teremos visto tão clara e satisfatoriamente, como o vemos, que mantiveram a verdade e a ordem da casa de Cristo, em meio a todas as assoladoras desolações do “homem da iniquidade”, e assim cumpriram a promessa de que sempre haveria “uma semente para servi-lo e para falar do Senhor à geração vindoura”?

3. A adoção e publicação de um credo é um tributo à verdade e franqueza, que cada igreja cristã deve a outras igrejas e ao mundo ao seu redor.

Toda pessoa sábia desejará se unir no dever e privilégio religiosos com aqueles que mais intimamente concordam consigo em suas posições sobre doutrina e ordem; com aqueles em cujas relações ela pode ser mais feliz e mais bem edificada. É claro que desejará, antes de juntar-se a qualquer igreja, saber algo a respeito de sua fé, governo e características gerais. Tenho em mente um indivíduo piedoso e inteligente, prestes a formar suas conexões religiosas para o restante da vida. Ele olha em volta para as igrejas as quais tem maior acesso e deseja decidir em qual delas pode ficar mais confortável. Vamos supor que, em sua pesquisa, volta seus olhos para a verdadeira igreja bíblica e primitiva a qual é nossa felicidade pertencer. Ele anseia conhecer tanto a doutrina como a ordem que pode esperar encontrar em conexão com nosso ajuntamento. Como pode conhecer essas coisas? Certamente não é indo de igreja em igreja, por todos os nossos limites, e aprendendo o credo de cada pastor individual de seus próprios lábios. Isso seria fisicamente impossível, sem que se concedesse à tarefa um grau de tempo e esforço que dificilmente alguém pode dar. Ele não conseguiria, na realidade, ouvir por si mesmo as doutrinas ensinadas em vinte por cento de nossos púlpitos. E se pudesse, ainda seria incapaz de decidir, somente dessa fonte, até onde o que ouviu poderia ser considerado como o uniforme e universal e, especialmente, como o caráter permanente da igreja, e não, antes, uma exibição acidental. Mas quando esse investigador descobre que temos um credo publicado, declarando a maneira como entendemos as Escrituras, e explicitamente declarando em detalhe as grandes verdades que concordamos em nos unir para manter, então ele pode verificar em algumas horas, e sem deixar sua própria casa, o que professamos crer e praticar e até onde pode esperar estar em casa em nossa comunhão. E enquanto é capacitado a assim entender o sistema ao qual professamos aderir, nos permite entender seus pontos de vista, ao verificarmos até onde estão de acordo com nosso credo publicado.

Ademais, o que é devido a esses indivíduos inteligentes, que desejam conhecer o caráter verdadeiro de nossa igreja, também é devido às igrejas vizinhas, que podem ter não menos desejo de verificar os princípios que abraçamos. É prazeroso para as comunidades eclesiásticas, que se aproximam umas das outras em fé e ordem, manifestar sua afeição mútua ao cultivar algum grau de relacionamento cristão.

Mas que igreja que valoriza a preservação de sua própria pureza e paz se aventuraria em tal relacionamento com um corpo que não tenha um sistema definido, seja de doutrina ou de governo, ao qual permaneça ligado por juramento, e que poderia, portanto, provar-se uma fonte de poluição e desordem a cada outra igreja com a qual tivesse o menor relacionamento de cultos? Um dos pastores dessa denominação, quando convidado ao púlpito de um irmão ortodoxo, poderia dar inteira satisfação, enquanto outro, a quem uma marca similar de afeição e confiança cristã fosse mostrada, poderia pregar as mais corruptas heresias. Credos e confissões, então, longe de ter a tendência de “alienar” e “amargar” aquelas denominações cristãs que têm pensamentos parecidos, e devem manter relacionamento fraternal, tendem, na realidade, a familiarizá-las umas com as outras; a lançar um fundamento para o relacionamento regular e cordial; a gerar confiança mútua e assim promover a harmonia da igreja de Deus. 

Não hesito, portanto, em afirmar que, assim como cada pastor individualmente deve a todos à sua volta uma confissão franca de sua fé cristã, também cada igreja deve ser igualmente franca e explícita em publicamente declarar seus princípios a suas igrejas irmãs. Essa igreja sem dúvida crê que esses princípios sejam puramente bíblicos. Ao publicamente confessá-los, portanto, realiza o duplo dever de prestar testemunho à verdade e de se esforçar para atrair de denominações menos puras e do mundo circundante novo apoio ao que ela conscientemente crê sejam sentimentos mais corretos que os deles. Ela pode incorrer em erros nessa expectativa, mas não deixa de fazer o que pode e o que sinceramente crê seja correto, e o que, é claro, enquanto essa convicção persistir, é seu dever fazer. Ademais, não hesito em defender que, em todas as épocas, aquelas igrejas cristãs que têm sido mais honradamente distinguidas por sua piedade, zelo e apego à simplicidade do evangelho têm sido não apenas notáveis por seu cuidado em formular seu credo doutrinário, mas também por sua franqueza em confessá-los, bem como sua disposição em permitir que todos à sua volta distintamente compreendam o que ela professa considerar como as doutrinas fundamentais de nossa santa religião.

Continua...

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Autor: Rev. Samuel Miller
Tradução: Tiago Cunha (Seminarista do Seminário JMC)
Divulgação: Bereianos

Leia também: A Utilidade e Importância dos Credos e Confissões - parte 1

Por que batizamos crianças?

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As igrejas reformadas ministram o batismo, não só a adultos convertidos, mas também aos filhos de pais crentes. A doutrina do batismo infantil está fortemente relacionada à Teologia do Pacto, portanto, é necessário primeiramente apresentar tal teologia a fim de que se possa entender a base sobre a qual os pais cristãos estão sob a obrigação de apresentarem seus filhos ao batismo. Em seguida, serão refutados os argumentos que têm sido levantados contra a defesa da normatividade do batismo infantil.

Segundo a Teologia do Pacto, Deus Pai fez uma Aliança com Deus Filho na Eternidade, chamado “Pacto da Redenção”. Neste Pacto, Cristo é o nosso Representante. O “Pacto da Redenção” é aquele no qual Cristo, como representante de um povo eleito, assume o compromisso de realizar a obra da expiação (Salmos 2.7-9; Efésios 3.11; Apocalipse 13.8).

Deus também fez um Pacto com Adão, chamado “Pacto de obras”, no qual a vida foi prometida à humanidade sob a condição de perfeita obediência. Se esse pacto, no entanto, fosse transgredido, a punição seria a morte (Gênesis 2.17; Gálatas 3.10,12). Depois que Adão, representando a humanidade, transgrediu a Lei, todos aqueles nele representados ficaram encerrados sob condenação eterna (Romanos 5.12).

Deus, no entanto, fez um Pacto de Graça com o homem através do qual os benefícios da redenção são comunicados à humanidade representada em Cristo. Assim como a morte veio sobre todos os que estão representados em Adão no Pacto das Obras, a vida eterna agora vem sobre todos aqueles que estão representados em Cristo no Pacto da Redenção, isto é, os eleitos com quem Deus estabeleceu uma Aliança de Graça (Romanos 5.18-19).

O Pacto da Graça é único, mas possui duas grandes economias, designadas como “Antigo Testamento” e “Novo Testamento”. Assim como “nova Terra”, “nova criatura”, etc. não significam algo inédito (o termo grego usado é “καινός” que significa novo no sentido de ‘renovado’ e não novo no sentido de ‘inédito’, que seria “νέος”). Assim, a Nova Aliança é substancialmente a mesma Aliança, embora “renovada”. O Novo Testamento é uma renovação do Antigo Testamento e não uma ruptura que instaura um pacto inédito (Romanos 4.13-18; Gálatas 3.15-18; Hebreus 6.12-18). Assim como não há total descontinuidade entre o nosso corpo atual e o nosso corpo futuro, entre o mundo atual e o mundo futuro, etc. há certa continuidade entre o Antigo Testamento e o Novo Testamento: “Não há, pois, dois pactos de graça diferentes em substância, mas um e o mesmo sob várias dispensações.”¹

Sendo assim, deve-se ter em mente que há um só Deus, que Deus tem um só povo ou uma só Igreja na Terra e que a salvação sempre foi pela graça. O Antigo Israel é a Igreja no Antigo Testamento, não sem motivo, os crentes sob a dispensação cristã, são chamados “o Israel de Deus” (Gálatas 6.16) e “semente de Abraão” (Gálatas 3.29). Em um sentido mais amplo, pode-se falar do Pacto da Graça como a Aliança que Deus tem com sua Igreja, com seu povo, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento. No Antigo Testamento esse povo tinha sua forma visível no antigo Israel, a partir do Novo Testamento, esse povo tem sua forma visível naqueles que professam a fé católica (universal), a igreja cristã visível.

A Aliança da Graça possui dois sacramentos, um rito de iniciação, e um rito de confirmação. O rito de iniciação é aquele que serve de selo de que a pessoa que o recebe faz parte da igreja visível, da comunidade da Aliança. No Antigo Testamento este rito era a circuncisão que foi substituída pelo batismo no Novo Testamento. O ritual de confirmação é um memorial de celebração da redenção. No Antigo Testamento este rito era a páscoa que foi substituída pela santa ceia no Novo Testamento.

À Igreja Visível no Antigo Pacto, Deus ordenou a cerimônia da circuncisão. Este era o sinal de que alguém fazia parte do povo da Aliança. A circuncisão era o rito de iniciação do Antigo Testamento. Quando um adulto pagão se convertia à religião de Israel ou intentava fazer parte do povo, exigia-se que fosse circuncidado. Desse modo, a circuncisão servia como “selo da fé” (Romanos 4.11). Servia como símbolo de uma mudança interior (“a circuncisão de coração”). No entanto, a circuncisão não implicava em salvação, e alguém poderia ser circuncidado na carne sem o ser no coração. Apesar de ser “selo da fé” e símbolo de arrependimento, a circuncisão era também ministrada aos filhos dos israelitas como sinal de que eles eram parte da Igreja do Antigo Israel. Deus tinha um pacto com seu povo, e esse pacto incluía os filhos dos cristãos do Antigo Testamento.

Visto que o Novo Testamento não é senão uma nova administração de uma mesma Aliança, que somos parte de uma mesma Igreja, que temos uma mesma fé, cremos em um mesmo Deus, num mesmo “Cristo” ou “Messias” – como poderíamos esperar que Deus privasse agora os filhos dos cristãos de um privilégio que Ele lhes concedeu sob a antiga dispensação? Deus não tem mais que um povo sobre a face da Terra:

“...Deus nunca teve senão uma só Igreja no mundo. O Jeová do Velho Testamento é nosso Senhor; o Deus de Abraão, Isaque e Jacó e nosso Deus e Pai pactual; nosso Salvador foi o Salvador dos santos que viveram antes de seu advento em carne. A pessoa divina que libertou os israelitas do Egito; que os guiou através do deserto; que apareceu em sua glória a Isaías no templo, aquele para cuja vinda os olhos do povo de Deus se voltaram em fé e esperança desde o princípio, é aquele em quem reconhecemos como Deus manifestado em carne, nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Aquele, pois, que foi o cabeça da teocracia é o cabeça da Igreja. O sangue que ele derramou por nós foi o sangue derramado desde a fundação do mundo...”²

Tudo o que se diz sobre a circuncisão se diz a respeito do batismo: (i) é um rito de iniciação; (ii) é exigido dos adultos novos convertidos que recebam esse rito; (iii) é selo da fé; (iv) serve como símbolo da mudança de coração e (iv) não implica necessariamente em salvação. Nenhuma dessas características, comuns ao batismo e à circuncisão, impediu que esta última fosse administrada às crianças. Por que, então, se privam as crianças do batismo sob o argumento de que o batismo exige “fé”, simboliza o arrependimento, destina-se a novos conversos, se o mesmo pode ser dito da circuncisão? O batismo é a circuncisão cristã:

No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, pela circuncisão de Cristo; Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos”. – Colossenses 2.11-12

Quando o Todo-Poderoso chamou Abrão para fazer dele um povo inumerável, uma de suas primeiras promessas foi que seria abençoado ele e seus filhos e sua descendência depois dele. Quando Deus inaugurou uma nova economia para a Igreja Cristã, repetiu similar promessa e advertiu explicitamente através de Pedro: “Porque a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe, a tantos quantos Deus nosso Senhor chamar.” (Atos 2.39). De igual modo o apóstolo Paulo inclui os filhos dos crentes na comunidade dos santos: “Porque o marido descrente é santificado pela mulher; e a mulher descrente é santificada pelo marido; de outra sorte os vossos filhos seriam imundos; mas agora são santos.” (1Coríntios 7.14).

O ensino bíblico, portanto, é que o batismo deve ser administrado aos filhos dos crentes: “as crianças, cujos pais, ou um só deles, professarem fé em Cristo e obediência a ele, estão, quanto a isto, dentro do pacto e devem ser batizadas.”³ Algumas objeções, no entanto, tem sido levantadas contra a doutrina reformada do batismo infantil, as quais serão respondidas agora:

RESPOSTAS ÀS OBJEÇÕES CONTRA O BATISMO INFANTIL

Objeção 1: O Novo Testamento apresenta a fé como uma condição para o batismo e bebês não têm capacidade de exercer fé.

Resposta: O Novo Testamento também diz que a circuncisão é “selo da fé” (Romanos 4.11), nem por isso as crianças foram excluídas. Evidentemente que se exige dos adultos que sejam batizados ao se converterem ao Cristianismo. No entanto, os filhos dos crentes já estão na igreja, e, portanto, não há outro requisito que precisem cumprir para receberem o batismo.

Objeção 2: O Novo Testamento não ordena batizar crianças.

Resposta: Visto que desde o Antigo Testamento as crianças recebiam o rito de iniciação na Aliança, se isso tivesse sido modificado, era de se esperar que o Novo Testamento se pronunciasse sobre essa mudança, no entanto, visto que o Novo Testamento não faz isso, devemos presumir que as crianças ainda devem receber o selo do pacto. Como observou Louis Berkhof:

“É verdade que não há nenhum mandamento explícito para batizar crianças, nem qualquer exemplo claro de batismo infantil no Novo Testamento, mas não há também qualquer autorização explícita para a prática dos batistas. Não somos ensinados, nem por palavras, nem por exemplos, que as pessoas nascidas e criadas nas famílias cristãs não possam ser batizadas até que cheguem à idade adulta e tenha professado sua fé em Cristo.”⁴

Objeção 3: Não há exemplos de batismos infantis no Novo Testamento.

Resposta: O Novo Testamento não menciona explicitamente o batismo infantil, embora em alguns textos nos quais se fale de batismos de famílias inteiras, ele possa estar subtendido: “...foi batizada, ela e a sua casa...” “logo foi batizado, ele e todos os seus.” (Atos 16.15,33). No entanto, é perfeitamente compreensível a escassez de relatos de batismos infantis na igreja primitiva. Grande massa de pessoas se converteu ao Cristianismo no primeiro século, era a primeira geração de cristãos. A Igreja era constituída em sua maioria de novos convertidos adultos, não de “filhos de crentes”. Não se deve espantar, pois, da ausência de relatos explícitos de batismos infantis no Novo Testamento. A Igreja se viu primeiro envolvida na evangelização de adultos que foram se convertendo ao evangelho. Seguiu-se depois tempo de ferrenha perseguição. Cristãos evitaram se casar e constituir famílias em meio a essa hostilidade. No entanto, quando a igreja se estabeleceu, quando começaram a surgir as novas gerações de filhos e netos de crentes, a prática do batismo encontrou mais claro testemunho histórico. Além disso, devido à continuidade lógica e natural entre a circuncisão e o batismo não era necessário que se declarasse explicitamente a necessidade de batizar crianças. Isso já estava pressuposto com base na administração deste sacramento aos infantes na antiga economia. Assim, não foi preocupação dos escritores do Novo Testamento registrar batismos infantis.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Pesa sobre os pais cristãos uma grande responsabilidade: que apresentem seus filhos ao batismo! Como advertiu Charles Hodge:

“Portanto, aqueles que, havendo sido batizados e professando ainda sua fé na religião genuína, tendo competente conhecimento e estando isentos de escândalo, não só devem receber a permissão, mas deve-se insistir e ordenar-lhes que apresentem seus filhos para que sejam batizados, a fim de que pertençam à Igreja e sejam criados sob vigilância e cuidado. Não serem eles batizados é um grave mal e afronta, algo que um pai não pode privar a seus filhos sem grave responsabilidade. A negligência do batismo, que implica a falta de apreço por esta ordenança, é um dos pecados clamorosos desta geração.”⁵

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Notas:
[1] Confissão de Fé de Westminster, 7.6.
[2] Charles Hodge. Teologia Sistemática, p.1428.
[3] Catecismo Maior de Westiminster, 166 .
[4] Louis Berkhof. Manual de Doutrina Cristã, pp.236-237.
[5] Charles Hodge. Teologia Sistemática, p.1448.

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Autor: Bruno dos Santos Queiroz
Divulgação: Bereianos
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A Bíblia prediz a vinda de Maomé?

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Os muçulmanos tem afirmado por um bom tempo que a vinda de Maomé foi profetizada na Bíblia, ou seja, nas Escrituras judaicas (Antigo Testamento) e nas Escrituras Cristãs (Novo Testamento). Por que os muçulmanos fazem essa declaração? A alegação baseia-se na afirmação contida no Alcorão de que a vinda de Maomé está descrita nas Escrituras do ahl al-Kitab (i.e., “o povo do Livro), um título dado aos judeus e cristãos. Ele afirma: “Aqueles que seguiram o Apóstolo, o Profeta iletrado [Muhammad], o qual encontram mencionado em suas próprias (Escrituras), na Lei e no Evangelho” (Alcorão 7:157). A Lei e o Evangelho se referem, naturalmente, às Escrituras judaicas e cristãs, respectivamente.

A Definição Bíblica de Heresia

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Um Tratado sobre Múltiplas Questões, cap. 9.

O Apóstolo diz: “Pois também deve haver heresias, para que os que são aprovados se manifestem entre vocês, ou como outros leem, para que os que são aprovados entre vocês sejam manifestos” (1 Coríntios 11:19).

O que se entende na Escritura pela palavra heresias, e como devemos entender que deve haver heresias, a fim de que a parte piedosa, ou aqueles que são aprovados, se manifeste?

A Doutrina da Geração Eterna do Filho

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Muitos cristãos têm descartado ou a ignorado a crença trinitária clássica na geração eterna do Filho de Deus. Esta doutrina é ratificada pelas confissões reformadas e pelos quatro primeiros concílios ecumênicos da Igreja reconhecidos pelos protestantes. Este artigo busca retomar essa verdade como importante para uma cosmovisão trinitária e até mesmo para a práxis cristã.

TRINDADE ONTOLÓGICA, IMANENTE E ECONÔMICA

Willian Lane Craig, negando a doutrina da geração eterna do Filho, afirma que acha que seria:

“útil distinguir entre a Trindade ontológica e a Trindade econômica. A Trindade ontológica é a Trindade conforme existe por si mesma à parte da relação de Deus com o mundo. A Trindade econômica está relacionada aos diferentes papéis interpretados pelas pessoas da Trindade com relação ao mundo e, especialmente, com relação ao plano da salvação. Na Trindade econômica há subordinação (ou, talvez seja melhor dizer, submissão) de uma pessoa à outra, assim como o Filho encarnado faz a vontade do Pai e o Espírito fala, não por sua própria conta, mas em nome do Filho. A Trindade econômica não reflete diferenças ontológicas entre as pessoas; pelo contrário, é uma expressão da amorosa condescendência de Deus em prol da salvação. O erro da cristologia do Logos está em combinar a Trindade econômica com a Trindade ontológica, introduzindo a subordinação na natureza da própria Divindade.” 

A Regra de Rahner, por outro lado, diz o contrário: “A Trindade ‘econômica’ é a Trindade ‘imanente’ e a Trindade ‘imanente’ é a Trindade ‘econômica’”. Quem estará correto, Craig ou a Regra de Rahner?

Como Deus fala conosco?

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Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo. (Hb 1.1,2)

Introdução

Quando perguntamos “como Deus fala conosco?” diversas respostas podem ser formuladas. Por exemplo, se olharmos para o texto bíblico acima, algumas respostas já podem ser dadas. Ao consideramos a progressividade do Antigo Testamento vemos em algumas passagens Deus falando de forma audível, usando um anjo, os profetas ou até mesmo com o próprio dedo.

Os perigos de uma igreja que não te disciplina

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Disciplina eclesiástica (Mateus 18.15-20) é muitas vezes confusa, custosa e danosa. Quando um crente tem de ser publicamente afastado da igreja local, a dor sentida costuma ser inigualável.

Ainda assim, quando praticada biblicamente, ela é biblicamente consistente com o amor, o cuidado, e a obediência bíblica a Cristo. Mark Dever acertadamente afirmou que a disciplina eclesiástica é “um amoroso, provocativo, atrativo, distinto, respeitoso e gracioso ato de obediência e misericórdia, e ajuda a construir uma igreja que traz a glória de Deus”. Nessa mesma linha, um amigo meu foi biblicamente disciplinado para fora de uma grande igreja, e, até os dias de hoje, admite que isso foi uma das melhores coisas que já aconteceu com ele. Mas, mais importante, isso é uma questão não negociável no tipo de Igreja que Deus deseja.

O Direito e o cristão ou o Direito versus o cristão?

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A crise de fundamentação

Desde o Iluminismo, a configuração jurídica sofreu profunda mudança. A influência da filosofia kantiana, “o homem como fim”, levou a uma leitura moderna da realidade jurídica que considera a autonomia humana como a medida de todo o bem legal.

Entretanto, diante das crises perpetradas pelas Guerras Mundiais do século XX, fez-se uma reflexão humanística da realidade social que encontrou no Judiciário, como interprete da lei, uma âncora de apoio para a defesa de minorias e de direitos individuais em detrimento da rígida e formal leitura da lei.

Tal iniciativa, porém, somada às profundas mudanças da compreensão da filosofia da linguagem moderna, levou a um empoderamento do Poder Judiciário que, nos dias de hoje, tende a uma ditadura de sua interpretação legal. Isto é, diante da crise de conteúdo das normas legais, as Cortes Supremas dos países ocidentais passaram a desempenhar um papel proeminente na interpretação que, nos dias de hoje, parece sem controle legal e reduzida ao jogo político.

Ora, essa percepção não é tão recente assim. O autor Francis Schaeffer, em seu livro “Manifesto Cristão”, que data do início da década de 80, referindo-se a crise jurídica desencadeada nos Estados Unidos da América, já apontava que o principal motivo de tamanha mudança foi filosófica: um abandono da cosmovisão judaico-cristã para uma abordagem humanística. Nesta última, o homem, à parte de influências externas e baseado nos postulados da imparcialidade e objetividade, seria autônomo para decidir seu próprio destino comunitário. Isto é, o homem passa a ser a base pela qual a lei é criada e medida.

Essa virada humanística tem um alto custo: tanto a Constituição como as normativas legais passam a ser profundamente relativizadas e usadas como uma linguagem para se tomar decisões políticas nos tribunais, especialmente nas Cortes Supremas.

Com efeito, Ratzinger (2007, p. 170) chama esse esfacelamento linguístico de “virada linguística” em que se renuncia a verdade, a partir da noção de que não se pode atingir o que está por trás da linguagem e das suas imagens, já que a razão está linguisticamente condicionada e perpetrada de vícios políticos.

Desse modo, o quadro pode ser resumido no seguinte sentido: a modernidade, com seu postulado de autonomia, abandonou uma crença no sentido da linguagem, a relativizando, e se dispôs a atribuir mais força legal ao Poder Judiciário, especificamente, às Cortes Supremas, como sendo o guardião da interpretação constitucional e das garantias individuais. Entretanto, isso tem feito com que essas Cortes Superiores, sem controle legal, já que se encontram no topo da “pirâmide normativa”, usem da linguagem jurídica como um instrumento político para impor uma espécie de “ditadura jurídica moderna”.

Ditadura jurídica moderna

Diante do quadro apresentado, as crises institucionais e, principalmente, de base moral e filosófica, que abrange o abandono da influência judaico-cristã, levam a uma imposição jurídica de ideologias e de crenças dos julgadores que solapam o frágil regime democrático.

Schaeffer (1985, p. 44) diz que “esta mudança da base judaico-cristã para a lei e para o desvio das restrições da Constituição, automaticamente milita contra a liberdade religiosa”. Nesse sentido, a lei se torna um meio de forçar um modo político-ideológico de pensar sobre a população.

É a tentativa de que uma minoria se imponha legitimamente sobre a maioria, o que, em última instância, se constitui no que C. S. Lewis (2012, p. 56-57) dizia: “o poder do Homem para fazer de si mesmo o que bem quiser significa (...) o poder de alguns homens para fazer dos outros o que bem quiserem”.

Consequentemente, como já alertava Schaeffer (1985, p. 102) a mais de trinta anos, os tribunais são utilizados, ao invés do legislativo, porque eles não se sujeitam ao crivo da opinião pública para serem reeleitos e porque podem aumentar a criação de leis sem passar por um árduo processo de debates legislativos.

Nos tempos mais recentes, coaduna Scruton (2015, p. 256) ao dizer que

É notório o abuso da Suprema Corte, com juristas astutos e perspicazes, ao criar argumentos que decidem questões de matérias rejeitadas pelo Congresso eleito, ao mesmo tempo que reivindicam a autoridade de uma Constituição, à qual todos têm o dever de fidelidade.

Tal atuação, chamada por alguns do Direito de “ativismo judicial”, leva ao escanteamento da religião do debate público. Os religiosos são ridicularizados como fundamentalistas, retrógrados, fascistas, reacionários, entre outros.

Com o tempo, esse esvaziamento da moral judaico-cristã é preenchido por falsos ídolos ideológicos que prometem demais, mas que produzem mais instabilidades e crises. Não se cria com isso um vácuo que será preenchido por valores objetivos em que o homem, supostamente, analisando a realidade social, cria de sua mente e democraticamente leis que são melhores para todos. Na verdade, o vácuo é preenchido por valores que são antagônicos a tudo aquilo que taxam de conservador. Como coloca Razzo (2016, p. 232), “o homem totalitário impõe ao Estado e à sociedade um ordenamento jurídico revelado de sua própria imaginação, apelando para a ‘mudança muito mais radical’ como a verdadeira e única fonte do direito”.

Desse modo, o resultado é que, como prenunciava Schaeffer (1985, p. 77), a Suprema Corte: a) impõe leis sociológicas arbitrárias; b) cria novas leis e formula os pareceres que vinculam todas as interpretações legais; c) domina os dois outros poderes governamentais, solapando o princípio da tripartição dos poderes.

Resistência cristã

Em um dos documentos mais antigos do federalismo, em que se postulou a limitação estatal, Althusius (2003, p. 217) dizia que não é lícito aos administradores estatais ultrapassar os limites da lei. Quando esses assim o fazem deixam de ser ministros de Deus e se tornam pessoas privadas, “às quais não mais é devida a obediência naquilo que excederam os limites de seu poder".

Nesse sentido, é preciso que os cristãos resistam a esses avanços ideológicos que levam a uma crise estatal e a uma ditadura jurídica por parte dos tribunais. Consideram-se, assim, três pontos fundamentais apresentados:

Primeiramente, é preciso que se afirme que a linguagem humana tem algum grau de sentido objetivo que deve ser respeitado quando a lei é aprovada legislativamente. A hermenêutica não pode ser usada para relativizar e aprisionar o homem em uma espécie de “gabinete de espelhos das interpretações” (RATZINGER, 2007, p. 172).

Além disso, é essencial que os valores fundamentais, de influência judaico-cristã, que são base da sociedade moderna, sejam devidamente respeitados como previstos na Constituição porque garantem o mínimo de segurança jurídica, previsibilidade legal e imparcialidade que limitam os agentes estatais, e, também, porque são “propriedade de outros que ainda estão por nascer” (SCRUTON, 2015, p. 272).

Por fim, absolutizar as decisões judiciais que impõem uma agenda ideológica é, como ensinou Dooyeweerd (2015), considerar autossuficiente o que não é autossuficiente. Por isso, o Judiciário, que serve para controlar os outros poderes, deve também ser controlado para que não se permita a perpetuação de uma “ditadura jurídica moderna”.

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Referências bibliográficas:
ALTHUSIUS, Johannes. Política. Rio de Janeiro: Topbooks Editora, 2003.
DOOYEWEERD, Herman. Raízes da Cultura Ocidental. São Paulo: Cultura Cristã, 2015.
LEWIS, C. S. A abolição do homem. – 2ª. ed. – São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.
RATZINGER, Joseph. Fé, verdade, tolerância: o cristianismo e as grandes religiões do mundo. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência, 2007.
RAZZO, Francisco. A imaginação totalitária: os perigos da política como esperança. 1. ed. Rio de Janeiro: Record, 2016.
SCHAEFFER, Francis A. Manifesto Cristão. Refúgio Editora: Brasília, DF. 1ª ed, 1985.
SCRUTON, Roger. Como ser um conservador. 2 ed. – Rio de Janeiro: Record, 2015.

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Autor: Anderson Barbosa Paz é seminarista do Seminário Teológico Betel Brasileiro. Bacharelando em Direito pela Universidade Federal da Paraíba. Congrega na Igreja Presbiteriana do Bairro dos Estados em João Pessoa-PB. Atua na área de Apologética Cristã, debatendo e ensinando.
Divulgação: Bereianos
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O Dia de Finados é bíblico?

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O dia de finados teve origem entre os clérigos romanos no início da paganização do Cristianismo, institucionalizada na Igreja Católica Romana. Antes mesmo de o dia de finados ser criado, o culto aos mortos já existia no mundo pagão, e quando começou a ser praticado - inicialmente de forma subtil e depois mais abertamente - pela Igreja Católica Romana, sofreu a crítica de um pequeno grupo de Cristãos da época, centrados no ensino da Palavra de Deus, que foi repelido pelos líderes de Roma. Posteriormente, essa prática herética só aumentou.

Na época carolíngia, que compreende os séculos IX e X D.C., surgiu o registo dos vivos e mortos a serem lembrados nas missas, como ocorre ainda hoje em toda Igreja Católica Romana, tomando o lugar dos antigos dípticos, tabuinhas de cera onde figuravam os nomes dos doadores de oferendas. Esses registos eram chamados libri vitae (livros da vida) e incluíam os vivos e os mortos.

Não muito tempo depois de criados esses registos, os mortos foram separados dos vivos nessas listas. Já no século VII, na Irlanda, passou-se a escrever os nomes dos mortos em rolos que eram lidos nos mosteiros e igrejas. Essa tradição deu origem às necrologias, lidas nos ofícios católicos romanos, e aos obituários que lembravam os serviços e obras dos defuntos nas datas em que completavam aniversário de falecimento. Os libri memorialis, como eram conhecidos, na época carolíngia continham de 15 mil a 40 mil nomes para serem lembrados. As necrologias da Abadia de Cluny, na França, faziam menção a 40 ou 50 nomes de defuntos por dia.

No século XI, exatamente entre 1024 e 1033 D.C., Cluny instituiu a comemoração dos mortos em 2 de novembro, estabelecendo a ligação deste dia ao chamado dia de todos os santos. O dia de todos os santos foi criado pela Igreja Católica Romana em 835 D.C. e comemorado no dia 1º de novembro em honra dos mortos, mas foi o abade beneditiano Odílio (962-1049 D.C.), de Cluny, que modificou e substituiu o tal dia de finados, que seria um dia reservado às orações pelas almas no purgatório. O dia de finados começou a ser aceito por Roma em 998 D.C., juntamente com a celebração do dia de todas as almas, e foi oficializado no início do século XI, sendo cristalizado já no século XX.

É interessante notar que o dia de todos os santos, de onde tudo começou, foi copiado dos cultos pagãos dos celtas e dos gauleses. A festa dos espíritos era celebrada pelos celtas em 1 de Novembro. Nessa data os celtas ofereciam sacrifícios para libertar os espíritos que eram aprisionados por Samhain, o príncipe das trevas. O império romano também absorveu o dia de pomona, dos gauleses, transformando as duas festas numa só. Posteriormente, a Igreja Católica Romana tomou a data para celebração do dia de todas as almas, absorvendo a crendice dos pagãos.

Em 1439, quando Roma bateu o martelo decisivamente pró doutrina do purgatório, o dia de finados foi fortalecido, sendo confirmado definitivamente com o Concílio de Trento, no século XVI, que inseriu na Bíblia católica romana os livros apócrifos. É no livro apócrifo de 2 Macabeus que se baseia o culto aos mortos, promovido por Roma em todo o mês de novembro.

Os católicos romanos alegam que Judas realizou sacrifício pelos mortos no livro de Macabeus (2 Macabeus 12.44-45), mas não podemos de forma alguma tomar este livro como sendo parte das Escrituras Sagradas. O autor de Macabeus, no final do livro, pede desculpas por algum erro que possa ter cometido. Se fosse um livro inspirado por Deus, o Senhor precisaria de pedir perdão por alguma coisa? Veja o que o epílogo do livro de Macabeus afirma: "Finalizarei aqui a minha narração. Se ela está felizmente concebida e ordenada, era este meu desejo; se ela está imperfeita e medíocre, é que não pude fazer melhor", 2 Macabeus 15.38.

As pessoas às vezes preferem acreditar mais em tradições humanas e experiências pessoais do que procurar estudar a Bíblia para verificar o que ela realmente diz a respeito do assunto. Não há base, em nenhum trecho das Sagradas Escrituras, para o purgatório. Não se deve orar pelos mortos porque a Bíblia diz que, depois da morte, segue-se o juízo (Hebreus 9.27).

Veja o absurdo ensinado pelos romanistas ao falarem do purgatório: "Se alguém disser que, depois de receber a graça da justificação, a culpa é perdoada ao pecador penitente e que é destruída a penalidade da punição eterna, e que nenhuma punição fica para ser paga, ou neste mundo ou no futuro, antes do livre acesso ao reino a ser aberto, seja anátema" (A Base da Doutrina Católica Contida na Profissão de Fé, Secção VI, papa Pio IV).

Como pode-se ver, a doutrina do purgatório simplesmente menospreza a obra expiatória de Cristo na cruz do Calvário, quando a Bíblia diz que o que Jesus fez é definitivo. Se alguém está em Cristo, nenhuma condenação há (Romanos 8.1), há completo livramento do juízo vindouro (João 5.24). Como, então, ensinar que Deus queima os Seus filhos no purgatório para satisfazer a sua justiça já satisfeita pelo sacrifício de Cristo, ou mesmo para satisfazer a Si mesmo, como se o que Cristo fez não fosse suficiente? Como Deus pode purgar pecados já expiados? Além disso, teria o papa mais poderes que Jesus, já que Roma ensina que Jesus, que do Céu intercede pelos pecadores, vê-se impossibilitado de livrar as almas que estão no purgatório, e que só o papa possui a chave daquele cárcere?

Orar por quem já morreu NÃO adianta. É antibíblico e inócuo. O dia de finados não se sustenta, porque ele é uma mera tradição religiosa, nada mais que isso. É uma invenção religiosa, bem explorada pelo comércio e pela Igreja Católica Romana. Uma farsa, como qualquer outra. Devemos orar pelos vivos. Isso sim é bíblico!

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Autor: Pr. Carlos M. Oliveira
Fonte: IQC - Portugal

Leia também (altamente recomendável): 
Por que não devemos celebrar o Dia de Finados
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Feliz Dia da Reforma!

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Estou vendo alguns posts sobre o Dia da Reforma e decidi tomar um tempinho para escrever alguns de meus pensamentos.

Todos nós sabemos que a escolha da data de 31 de Outubro de 1517 é (como a maioria das datas na história) arbitrária. É claro, você pode identificar 7 de Dezembro de 1941 com o Pearl Harbor porque foi um evento específico, mas (ainda assim) muitas coisas contribuíram para que ele acontecesse naquele dia. A data que escolhemos para o início da Reforma é ainda mais subjetiva. Isso porque era necessário muitos e muitos fatores para que a Reforma pudesse acontecer, e esses fatores tiveram raízes nos séculos que precederam as ações de Lutero.

Duvido, ainda mais, que Lutero colocaria algum peso sobre essa data em específico. Bem, é claro que ele veria alguma relevância sobre o desafio que havia lançado, mas não mais do que em qualquer um dos outros eventos de sua vida. Ele não tinha intenção alguma de criar uma rebelião contra Roma por suas ações, ele estava apenas fazendo o que a maioria dos professores na Europa faziam naqueles dias: convidando uma escola rival a uma versão escolástica de um jogo moderno de futebol. Em sua mente ele estava seguindo os passos de outros homens piedosos da igreja, e, nesse exato momento, ele ainda não havia reconhecido as questões epistemológicas básicas que ele haveria de ser forçado a encarar em apenas uma questão de anos.

Mas é certo sim marcar o início da Reforma (ainda que façamos isso de forma arbitrária). Poderíamos ter voltado até Wycliffe, ou ter escolhido 6 de Julho de 1415 e a morte de João Huss (pois sua morte teve muita importância). Poderíamos ter ido até a divisão entre Zuínglio e Roma ou a Dieta de Worms e o “Aqui permaneço, não posso fazer outra coisa”. Em todo caso, parece adequado marcar o evento (ao menos para uma pequena minoria).

Para a maior parte do Romanismo e Protestantismo, a Reforma é um evento histórico sem qualquer significado duradouro. Para muitos, na verdade é um trágico evento, um erro, digno de arrependimento de seus adeptos e de repúdio pelos outros. Mas para a maioria é apenas uma nota de rodapé na história e, dada sua teologia e prática, não possui significado duradouro. Entre esses estão os católicos nominais que provam, por suas vidas, que eles realmente não acreditam na maioria das coisas que Roma ensinou. Mas também estão aqueles que são protestantes por conveniência e não por convicção. Para eles a Reforma claramente não apresenta qualquer razão para se celebrar ou refletir nos dias de hoje. Se alguém não aprecia a liberdade que a justificação garante, não se alegra com a imputação da justiça de Cristo (saiba que muitos dos grandes nomes de hoje da “cristandade não-católica” riem disso) e não abraça e confessa o Sola Scriptura, esse alguém não tem razão alguma para refletir sobre o Dia da Reforma (seria melhor ir comprar doces e se juntar às festividades pagãs).

Mas para aqueles que ainda abraçam aos Solas não por uma fidelidade partidária ao que é “legal”, mas por um reconhecimento do eterno valor que essas verdades representam, o Dia da Reforma é um lembrete anual do que realmente importa nesses dias de “verdades” borradas e transitórias. Então, para aqueles que entendem isso, um feliz Dia da Reforma!

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Autor: James R. White
Fonte: Página do autor no Facebook
Tradução e adaptação: Erving Ximendes
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Halloween: uma tradição de mau gosto

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Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem, mal; que fazem da escuridade luz e da luz, escuridade; põem o amargo por doce e o doce, por amargo!” Isaías 5:20

Em torno do dia 31 de outubro, anualmente, em diversas partes do mundo, é realizada uma festividade denominada Halloween, mais conhecida no Brasil como o “Dia das Bruxas”. Muitos colégios, centros comunitários e até igrejas protestantes reproduzem cenários, fantasias, brincadeiras e até defendem a inocência cultural de tal ocasião.

Esta breve reflexão pretende, objetivamente, destacar a história do Halloweenseu significado, bem como apresentar uma resposta bíblica que auxilie sua aplicação.

Cinco séculos antes de Cristo, os celtas irlandeses começaram a comemorar o fim do verão e início de ano novo para a agricultura. Na ocasião, homenageavam todos que, durante aquele ano, haviam morrido. Esta homenagem envolvia a consagração dos seus mortos ao Sol, conhecida como Samhain (“fim de verão”). Os druidas (magos celtas) acreditavam que nesta data os mortos voltavam para se relacionar com suas famílias, mas para afastar os maus, era preciso deixar doces e comidas na porta dos seus antigos lares.

Para associar-se com tal tradição, em 741 d.C. o Papa Gregório III transferiu a data 13 de maio para 1º de novembro, a fim de comemorar a “Festa de Todos os Santos” ou “Finados” (culto prestado a favor de fiéis católicos mortos). No dia anterior era realizada uma importante vigília, chamada All Hallows Eve: All (todos), Hallows (santos) e Eve ou e’en que é uma contração de evening (fim do dia ou noite), posteriormente adotada como Halloween. Portanto, o significado é “noite de todos os santos”, cujo contexto envolve culto aos mortos. Com o passar dos anos, esta festividade essencialmente religiosa e pagã, tornou-se numa prática folclórica enfatizada por figuras demoníacas, bruxas, caveiras, abóboras com espíritos, zumbis, vampiros, monstros, etc., contrariando a perspectiva de culto aos santos católicos. Por isto, o Vaticano chegou ao ponto de chamar o Halloween de “manifestação contracultural”¹ e, no seu jornal mais conhecido, L'Osservatore Romanocriticou tais práticas por seu pano de fundo ocultista e absolutamente anticristão.²

A prática de cultuar os mortos começou com os egípcios e lentamente seduziu facções do povo de Israel, sendo posteriormente proibido por Deus. Qualquer culto que não seja dedicado exclusivamente a Deus, é idólatra. Deus exige adoração exclusiva e condena qualquer envolvimento com ocultismo pagão (Lv 19:31, 20:6-8, 27; Dt 18:10-12; Sl 106:28, 36-38; Pv 8:36; Is 8:19; Mt 4:10; Jo 4:24; Rm 12:2; 1 Co 10:20; 2 Co 2:11; Ef 5:8-12; 2 Tm 1:7; Hb 9:27; 1 Jo 4:4; Ap 22:15).

Embora muitos permitam e até participem destas festividades alegando folclore inocente e sem intenção de cultuar mortos ou demônios, tais práticas demonstram aceitação e/ou admiração por aquilo que é condenável aos olhos de Deus, independente da intenção, mas da sua prática em si. Por trás da suposta inocência, especialmente por causa do uso tradicional de crianças e doces, há significados tenebrosos relacionados com demônios, medo, idolatria e feitiçaria.

Portanto, não se envolva ou permita a seus filhos se envolverem com festas temáticas do Halloween.
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Notas:
¹http://www.vatican.va: The Salesian Center for Faith and Culture.
²http://the-american-catholic.com: Vatican Condemnation of Halloween is False

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Autor: Rev. Ericson Martins

Leia também:

A Utilidade e Importância dos Credos e Confissões - parte 1

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O caráter e situação de alguém que está se preparando para o Ofício Sagrado são interessantes além da capacidade de expressão. Essa pessoa, como o Mestre a quem professa amar e servir, está “destinada tanto para a ruína como para levantamento de muitos em Israel”. Em tudo o que é e em tudo o que faz, o bem-estar temporal e eterno, não apenas de si mesmo, mas de milhares pode estar envolvido. Ele é assaltado por perigos de todos os lados. Quaisquer que sejam seus talentos e conhecimento, se não tiver genuína piedade, provavelmente será não uma bênção, mas uma maldição para a Igreja. Mas esse não é o único perigo ao qual está exposto. Ele pode ter genuína piedade, bem como talentos e conhecimento, e, ainda assim, devido à indiscrição habitual, a algum defeito na sobriedade de mente – que é tão preciosa a todos os homens e especialmente àquele que ocupa uma posição pública –, ao amor pela novidade e inovação, ou ao amor pela distinção, que é tão natural aos homens, enfim, por isso tudo, em vez de edificar o “corpo de Cristo”, pode-se tornar um perturbador de sua paz e um corruptor de sua pureza. De modo que poderíamos quase dizer, qualquer que seja o desfecho com respeito a ele próprio, que “seria melhor para a Igreja se ele jamais tivesse nascido”. 

A TULIP e o Dogma Romano - Um estudo comparativo entre a soteriologia Calvinista e Católico Romana

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A Confissão de Fé de Westminster diz que tudo o que precisamos saber para nossa salvação, “ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela” (CFW I.6). Jesus assevera: “Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora” (Jo 6:37). De fato, essa palavra não poderia ser mais clara. Nossa salvação não acontece por acaso, ela está bem definida dentro do plano eterno do Pai, foi executada com perfeição pelo Filho e é aplicada eficazmente pelo Espírito. 

Por isso, o calvinismo sustenta que a salvação é um ato da livre e exclusiva graça de Deus, visto que o homem está morto espiritualmente (Ef 2.1) e não pode responder à oferta de reconciliação, de modo que Deus mesmo transforma a sua vontade ao lhe regenerar o coração (At 16.14). 

A Parábola da Cordeirinha e os Padrinhos dos “Pais de Pets”

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Introdução

Há exatamente uma semana publiquei um pequeno artigo a respeito da atual prática de dispensar aos animais de estimação o mesmo tipo de tratamento e afeto destinados aos nossos filhos.[i] Homens e mulheres que se denominam “pais e mães de pets” e que, com base nisso, praticam as coisas mais absurdas, desde aniversário do bichinho de estimação até a concessão do sobrenome da família ao animal.

Meu argumento contra essa prática se baseou nas doutrinas da Trindade e da criação. O relacionamento entre as pessoas do Pai e do Filho, bem como a igualdade de essência define quem o homem deve considerar como seus filhos. De igual modo, o fato de o homem ser criado à imagem de Deus, conforme a sua semelhança, faz com que exista um abismo ontológico entre o ser humano e os animais. À parte da classificação biológica dos reinos vegetal, mineral e animal, a Escritura não classifica o homem como “animal”, mas como “alma vivente”, um ser que porta a imagem de Deus. Assim, é completamente inapropriado que animais de estimação sejam chamados e tratados como filhos. Inclusive, é bom que se diga que a Bíblia faz distinção entre o ser humano e os animais: “Disse o SENHOR: Farei desaparecer da face da terra o homem que criei, o homem e o animal, os répteis e as aves dos céus; porque me arrependo de os haver feito” (Gênesis 6.7; conferir 7.23 e Jeremias 51.62).

Contudo, não tardou para que defensores da prática e relativistas bíblicos começassem a tergiversar na busca por alguma brecha que justificasse o seu modo de agir. Um argumento apresentado se baseia numa passagem das Escrituras, e é tal argumento que me impele a escrever este breve artigo. É necessário afirmar que a tentativa de encontrar na Escritura uma abertura para a prática poderia me levar a elogiar o intento, uma vez que tais pessoas estariam desejando agir com base na Escritura. Não obstante, o contrário é que é verdade. Elas continuam desejando seguir as inclinações dos seus corações. Estão apenas usando a Bíblia como pretexto.

Sem mais delongas, vamos à passagem.

2 Samuel 12.4

A passagem diz o seguinte: “O SENHOR enviou Natã a Davi. Chegando Natã a Davi, disse-lhe: Havia na cidade dois homens, um rico e outro pobre. Tinha o rico ovelhas e gado em grande número; mas o pobre não tinha coisa nenhuma, senão uma cordeirinha que comprara e criara, e que em sua casa crescera, junto com seus filhos; comia do seu bocado e do seu copo bebia; dormia nos seus braços, e a tinha como filha. Vindo um viajante ao homem rico, não quis este tomar das suas ovelhas e do gado para dar de comer ao viajante que viera a ele; mas tomou a cordeirinha do homem pobre e a preparou para o homem que lhe havia chegado”.

O argumento utilizado é que esta passagem bíblica ensina que animais de estimação podem ser tratados e considerados como filhos, afinal de contas, o homem pobre da passagem havia comprado uma cordeirinha e a tratava como filha. Ela vivia com os seus filhos, denotando igualdade. Ela comia do seu prato e bebia do seu copo. Ela dormia nos braços do homem e era tratada como filha. O argumento pode ser esboçado em forma de um silogismo:

PREMISSA MAIOR: Se a Bíblia contivesse ao menos um exemplo de um animal sendo tratado como filho, seria lícito fazer o mesmo com os nossos animais.

PREMISSA MENOR: A Bíblia apresenta o exemplo de um homem que tinha uma cordeirinha e a tratava como filha.

CONCLUSÃO: Logo, animais de estimação podem ser tratados como filhos.

Trata-se de um argumento lógico bem construído. Não obstante, é um argumento falacioso, pois se fundamenta numa péssima hermenêutica. O argumento desconsidera, por completo contexto histórico, bem como o gênero literário da passagem em questão. Assim, é preciso interpretar devidamente a passagem, a fim de ficar evidenciado que a mesma não tem como propósito fornecer o fundamento para a atual prática dos “pais e mães de pets”.

A primeira verdade que precisa ser afirmada a respeito da passagem de 2Samuel 12.1–4, é que ela é uma parábola.[ii] Esta informação é crucial para entendermos a passagem.

Uma parábola nada mais é do que “uma narrativa breve que exige uma reação do ouvinte. No que diz respeito ao gênero, as parábolas são histórias realistas que abordam situações cotidianas”.[iii] Herbert Lockyer, um erudito estudioso das parábolas da Bíblia afirma que existem duas ideias presentes na raiz do termo grego παραβολή: “‘representar ou significar algo’; ‘semelhança ou aparência’. Esse termo grego significa ‘ao lado de’ ou ‘lançar ou atirar’, transmitindo a ideia de proximidade, num cotejamento que visa a verificar o grau de semelhança ou de diferença. Uma ‘semelhança’ ou ‘pôr uma coisa ao lado da outra’”.[iv] Assim, ao contar a parábola, Natã fará uma comparação entre a história e a realidade.

É preciso compreender que, apesar de ser uma história realista, uma parábola não é uma história real. Apesar de fazer uso de elementos do cotidiano das pessoas, as parábolas não eram histórias reais. O Dr. Paulo Anglada afirma o seguinte sobre as parábolas: “Elas são histórias empregando elementos do cotidiano. Não são fatos reais, mas histórias imaginárias concebidas a partir de aspectos da vida comum, familiares aos ouvintes e relacionados ao trabalho, religião e vida social e doméstica”.[v] Dessa maneira, como coloca, Köstenberger e Patterson: “Provavelmente nunca houve, por exemplo, nenhum estalajadeiro ou ‘bom samaritano’ históricos”.[vi]

Se as parábolas não apresentam fatos, então, qual o seu propósito? Qual o seu objetivo? Em primeiro lugar, as parábolas possuem um propósito didático. Elas são concebidas para ensinar determinada lição espiritual ou moral a um grupo de pessoas. Caso a lição fosse apresentada de maneira proposicional, em forma de proposições teológicas ou morais, dificilmente conseguiria captar a atenção do seu público. Lockyer diz: “Se Natã tivesse entrado no palácio real e, de forma direta e imediata, censurasse a culpa do rei decretando a sentença devida ao seu pecado, é pouco provável que Davi desse ouvidos. O tratamento direto e franco da questão talvez fizesse o rei se irar e o impedisse de se arrepender”.[vii] Assim, as parábolas se prestam a esse propósito. Os ouvintes rapidamente se identificavam com o conteúdo da história e permaneciam atentos até o fim. O erudito Moisés Silva diz que, além disso, “as parábolas têm a vantagem de desarmar aqueles que possam ofender-se com sua mensagem, visto que o ouvinte frequentemente tem que esperar até o último momento da história para descobrir seu significado”.[viii]

Qual a importância disso para o assunto dos “pais e mães de pets”? Simples. A passagem não está narrando um fato. Ela não está contando a história real de um homem que colocou em prática aquilo que a sociedade e até mesmo muitos crentes dos nossos dias têm praticado. As pessoas não conseguem perceber que estão fazendo uso de uma parábola, uma história apenas e extraindo dela um princípio para fundamentar um comportamento que é diametralmente oposto a doutrinas claras da Escritura, como as doutrinas da Trindade e da criação do ser humano à imagem de Deus. Numa ânsia por continuarem alimentando práticas antibíblicas, elas acabam por trocar aquilo que é certo por algo errado, e tudo isso firmadas numa péssima interpretação textual.

Mas há outro problema em se utilizar a passagem de 2Samuel 12.1–4 para apadrinhar o comportamento dos “pais e mães de pets”.

Ao se interpretar uma parábola é necessário ter o devido cuidado para não se extrair dela mais do que aquilo que, verdadeiramente, é o seu propósito. Anglada nos ajuda com este aspecto da interpretação das parábolas (a citação é longa, mas também é bastante elucidativa):

3. Identifique o foco ou focos centrais da parábola. A diferença principal entre parábolas e alegorias consiste em que as primeiras se propõem a ilustrar apenas uma ou algumas verdades ou lições centrais, enquanto que nas alegorias, cada detalhe é concebido com o propósito de significar alguma coisa, ensino ou pessoa, como ocorre por exemplo em O Peregrino, de João Bunyan. De modo geral, Jesus ilustra apenas uma lição com as suas parábolas (ver Lc 15.7; 18.7; 20.16). Algumas parábolas, entretanto, tais como a parábola do semeador (Mt 13.18–23) e a do joio (em Mt 13.36–43), são tão adequadas para ilustrar as lições que Cristo queria ensinar, que vários detalhes ilustram aspectos dessas verdades. Em geral, entretanto, o intérprete deve ter cuidado para não alegorizar os detalhes de uma parábola, encontrando significados em detalhes da história que não se propõem a ensinar nenhuma verdade em particular. Zuck chama a atenção para o fato de que geralmente Jesus não atribui significado aos detalhes das suas parábolas. Como exemplo, ele cita a parábola da ovelha perdida (Lv 15.3–7). Apesar de obviamente apontar para Jesus (o pastor), para pecadores perdidos (a ovelha perdida) e para os crentes (as 99 ovelhas), nada indica que detalhes, tais como o deserto, o ombro do pastor, sua casa, seus amigos e vizinhos, tenham qualquer significado.
4. Observe indicações explícitas e implícitas do propósito da parábola. Às vezes, a própria parábola indica explicitamente o seu propósito — geralmente no início ou no final — como ocorre na parábola do juiz iníquo (Lc 18.1–8). Logo no primeiro versículo, é dito que o propósito da parábola é demonstrar “o dever de orar sempre e nunca esmorecer” (cf. também o propósito da parábola das bodas, em Mateus 22.14). Quando não há indicação explícita do significado ou propósito da parábola, o intérprete deve observar o seu contexto-histórico literário. Frequentemente, a circunstância em que a parábola é proferida, uma pergunta, comentário ou explicação, logo antes ou depois da parábola, ajudam o leitor a compreender o seu propósito ou significado.[ix]

Por exemplo, na parábola do credor incompassivo muitas pessoas acabam afirmando que ela ensina que é possível perder a salvação depois de a termos recebido, pois a parábola fala do rei concedendo perdão ao homem que lhe devia dez mil talentos, porém, anulando esse perdão posteriormente. O que as pessoas deixam de considerar é que o propósito da parábola não é ensinar isso. A parábola tem o objetivo de nos ensinar a respeito de perdoarmos nossos irmãos ilimitadamente, uma vez que nossa dívida em relação a Deus é infinitamente maior do que a dívida que qualquer pessoa tenha conosco (Mateus 18.23–35). Muitas pessoas erram na interpretação das parábolas porque as desassociam do seu contexto histórico, e isso jamais deve ser feito. No caso da parábola do credor incompassivo, o contexto histórico pode ser aferido nos versículos 21–22: “Então, Pedro, aproximando-se, lhe perguntou: Senhor, até quantas vezes meu irmão pecará contra mim, que eu lhe perdoe? Até sete vezes? Respondeu-lhe Jesus: Não te digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete”.

De igual modo, dizer que 2Samuel 12.1–4 fornece o fundamento para tratarmos nossos animais de estimação como filhos é violentar o propósito da parábola. Devemos perguntar: Qual o propósito de Natã ao contar essa parábola ao rei Davi? Por acaso, Natã desejava ensinar Davi a dormir com seus animais de estimação, deixar que eles comessem do seu prato e bebessem do seu copo, além de fazê-los irmãos dos seus verdadeiros filhos? É absurda e desonesta qualquer sugestão nesse sentido. O contexto histórico da parábola da cordeirinha é claro: os pecados cometidos por Davi, seu adultério com Bate-Seba e o assassinato de Urias (2Samuel 11). O capítulo 11 termina com a afirmação de que, “isto que Davi fizera foi mal aos olhos do SENHOR” (v. 27).

A parábola, então, foi contada por Natã para levar Davi a reconhecer a sua culpa diante de Deus. Ao contar a história do homem e sua cordeirinha, o único objetivo de Natã era extrair a confissão: “Pequei!”, de Davi. Natã não tinha a menor ideia de que, um dia a história que contou seria usada para defender uma tolice. Novamente citando Moisés Silva: “O ponto aqui é que as parábolas devem ser entendidas historicamente, isto é, identificando-se as situações específicas em que elas foram usadas”.[x]

Sinceramente, causa-me espécie o caráter pueril de se usar a passagem de 2Samuel 12.1–4 para defender tamanha insensatez. Insisto em dizer que as pessoas desconsideram o que passagens e doutrinas claramente ensinadas nas Escrituras ensinam, a fim de agarrarem a deturpações de passagens que nada têm a ver com aquilo que corações pecaminosos concebem. Paulo Anglada dá o alerta: “Finalmente, é importante verificar se outras passagens bíblicas ensinam a verdade que o intérprete pensa que a parábola ilustra. Como regra, parábolas não devem ser usadas como base doutrinária, mas como ilustrações de verdades ensinadas em outras passagens bíblicas”.[xi]

Consideração Final

Depois de todo o arrazoado acima, só resta dizer uma coisa em relação a quem procura usar a parábola da cordeirinha para ensinar que animais de estimação podem ser tratados como filhos. Como afirmou o reformador João Calvino: “É lícito concluir que a imaginação do homem é, por assim dizer, uma perpétua fábrica de ídolos”.[xii]

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Notas:
[i] O artigo pode ser lido aqui e aqui.
[ii] Herbert Lockyer. Todas as Parábolas da Bíblia. São Paulo: Vida, 2006. p. 39.
[iii] Andreas J. Köstenberger e Richard D. Patterson. Convite à Interpretação Bíblica: A Tríade Hermenêutica. São Paulo: Vida Nova, 2015. p. 396.
[iv] Herbert Lockyer. Todas as Parábolas da Bíblia. p. 9.
[v] Paulo Anglada. Introdução à Hermenêutica Reformada: Correntes Históricas, Pressuposições, Princípios e Métodos Linguísticos. Ananindeua, PA: Knox Publicações, 2006. p. 210.
[vi] Andreas J. Köstenberger e Richard D. Patterson. Convite à Interpretação Bíblica. p. 396.
[vii] Herbert Lockyer. Todas as Parábolas da Bíblia. p. 40.
[viii] Walter C. Kaiser Jr., e Moisés Silva. Introdução à Hermenêutica Bíblica. São Paulo: Cultura Cristã, 2002. p. 104.
[ix] Paulo Anglada. Introdução à Hermenêutica Reformada. pp. 212–213.
[x] Walter C. Kaiser Jr., e Moisés Silva. Introdução à Hermenêutica Bíblica. p. 106.
[xi] Paulo Anglada. Introdução à Hermenêutica Reformada. p. 213.
[xii] João Calvino. As Institutas da Religião Cristã. 1.11.8. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. p. 107.

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Autor: Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima
Fonte: Medium
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