Calvino e a Pregação da Palavra

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Por Rev. Felipe Camargo


Introdução

O pensamento de Calvino sobre pregação, ou Calvino como pregador tem sido estudado por muitos eruditos e com isto, artigos e livros já foram publicados sobre este assunto. Parker tem sido um dos autores que mais escreveu sobre o assunto, considerado, portanto, uma grande autoridade como intérprete de Calvino. O objetivo deste trabalho se limita a analisar o pensamento de Calvino sobre a autoridade da pregação e a edificação da Igreja, tendo como objeto de estudo os próprios escritos de Calvino.

Por isso, algumas questões devem ser levantadas. A primeira delas se refere à Palavra de Deus. Qual a visão de Calvino sobre a Palavra de Deus? Onde ela é encontrada? Qual o seu objetivo? Qual o valor dela para a Igreja? Uma questão paralela à esta está relacionada com pregação. Qual a finalidade da pregação? Qual o papel dos pregadores? Até que ponto o pregador tem autoridade ao proclamar a Palavra de Deus?

E por fim, uma última análise a ser feita está ligada aos ensinos de Calvino nos nossos dias. Qual a importância de se estudar o pensamento de Calvino sobre pregação? Portanto, o trabalho procura analisar se é possível aplicar os ensinos de Calvino sobre pregação nos dias atuais.

A Bíblia como Palavra de Deus

Para uma correta compreensão acerca do pensamento de Calvino sobre pregação, é necessário entender sua visão acerca da Palavra Escrita. Para Calvino, a Palavra Escrita deve ser considerada como sendo o único lugar onde se encontra a verdadeira sabedoria vinda da de Deus. [1]

Calvino, nas Institutas, afirma que o homem foi dotado de um desejo de conhecer a Deus [2], mas por causa do pecado esse conhecimento se tornou falho. [3] Nesse sentido, demonstra que Deus não somente se revela através da criação [4], mas também adiciona um recurso melhor para este fim. [5] Por isso, Deus, além da sua própria criação, resolveu se revelar também em palavras. 

Portanto, as Escrituras servem para nos mostrar a verdade sobre Deus: 

Assim a Escritura, coletando-nos na mente conhecimento de Deus que de outra sorte seria confuso, dissipada a escuridão, nos mostra em diáfana clareza o Deus verdadeiro. [6]

Por isso, a Escritura foi dada por Deus para que o homem conhecesse tudo o que precisa ser conhecido para não fazer cogitações da verdade. Sendo assim, somente através da sua Palavra, se pode ter um correto conhecimento acerca de Deus. [7] Neste sentido Calvino faz questão de enfatizar que, o que distingue o cristianismo das demais religiões é que Deus falou, e fez isso através da Escritura. [8]

“Moisés e os profetas não pronunciaram precipitadamente e ao acaso o que deles temos recebido, senão que, falando pelo impulso de Deus. Ousada e destemidamente testificaram a verdade de que era a boca do Senhor que falava através deles.” [9]

Um ensino primordial acerca das Escrituras e sua autoridade é perceber que há uma perfeita harmonia. Deus, ao revelar a Lei estabeleceu a base para os demais escritos. Nem os profetas nem o Novo Testamento estão fora desta harmonia. [10]

“Não se deve ter outra Palavra de Deus, a que se dê lugar na Igreja, senão aquela que se contém, primeiro na Lei e nos Profetas, então nos Escritos Apostólicos [...]. Daqui também coligimos que não se prometeu outra coisa aos apóstolos senão o que tiveram outrora os profetas, a saber, que expusessem a Escritura antiga.” [11]

Está em harmonia, portanto, o conceito que toda a Palavra de Deus é perfeita e infalível, devendo aceitá-la desta maneira. 

O fato de Calvino afirmar que “os escritos dos apóstolos nada contém além de simples e natural explicação da lei e dos profetas juntamente com uma clara descrição das coisas expressas neles” [12], não quer dizer que o Novo Testamento seja apenas uma explicação da Palavra de Deus. Mas na verdade, Calvino afirma que seus escritores também foram usados pelo Espírito Santo. Ele afirma que: 

“Entretanto, a própria realidade brada patentemente que esses homens haviam sido ensinados pelo Espírito que, antes desprezíveis em meio ao próprio vulgo, de repente começaram a dissertar tão magnificamente acerca de mistérios celestiais.” [13]

Não há dúvidas para Calvino que, embora a Bíblia tenha sido escrita por homens, não se deve ignorar o fato que eles foram usados por Deus. Eles não escreveram aquilo que imaginavam, mas escreveram o que vinha da parte de Deus. [14] O fato de ele ter usado homens pecadores não desmerece a revelação. Não faz das Escrituras imperfeitas ou falíveis. Pelo contrário, ainda assim, considera-se Palavra de Deus.

“Portanto, iluminados por seu poder, já não cremos que a Escritura procede de Deus por nosso próprio juízo, ou pelo juízo de outros; ao contrário, com a máxima certeza, não menos se contemplássemos nela a majestade do próprio Deus, concluímos, acima do juízo humano, que ela nos emanou diretamente da boca de Deus, através do ministério humano.” [15]

A reverência às Escrituras, portanto, se dá não pelos autores humanos, mas pelo autor divino. Aquele que desrespeita a Palavra de Deus desrespeita o próprio Deus. Calvino argumenta que “devemos à Escritura a mesma reverência devida a Deus, já que ela tem nele sua única fonte, e não existe nenhuma origem humana misturada nela.” [16] Por isso, é possível compreender o cuidado que Calvino dá à fiel exposição da mesma.

A Palavra de Deus e a Edificação

Um princípio importante para Calvino era que toda a Escritura trazia algum ensino para a vida dos cristãos. Nos seus escritos, Calvino fazia questão de enfatizar que toda a Escritura é útil e deve ser praticada. Não há grau de importância entre o Antigo Testamento e o Novo Testamento. Ambos são considerados como Palavra de Deus e útil para a vida cristã. [17]

Para Calvino, era através da Palavra que Deus concede vida ao pecador. Sem Deus não há vida, e todos estão condenados à morte eterna. Esta vida, portanto, é comunicada através de sua Palavra. Ele afirma que “embora temporária, seja a vida do homem, ela já feita eterna pela Palavra; por ela é modelada e feita nova criatura.” [18]

Mas as Escrituras não têm o único propósito de comunicar a vida eterna, mas também de corrigir para um crescimento espiritual. Na verdade, tudo o que é revelado por Deus nas Escrituras tem o propósito específico de corrigir a vida do homem. Calvino adverte que:

Se porventura nos sentirmos sempre tentados a menosprezar ou a sentir repugnância pelo evangelho, lembremo-nos de que o seu poder e eficácia estão no fato de que é por meio dele que nos vem a salvação; assim como alhures ele ensina que o evangelho é o poder de Deus para a salvação dos Crentes. [19]

Não se pode dizer que exista algo supérfluo e inútil em sua Palavra. [20] Pelo contrário, se torna pecaminoso estudar as Escrituras sem trazer para si uma aplicação e buscar uma vida prática, ou seja, sempre ao que é proveitoso. [21]

Calvino sustenta que a Lei de Deus é a norma de justiça pela qual nossa vida é moldada. [22] Este molde realizado pela Lei tem o objetivo de tornar o homem completo a ponto de não haver nada que o torne defeituoso, por isso, a obrigação do homem de querer conhecer cada vez mais a Palavra. [23]

Comentando o Salmo 19, Calvino diz: 

Se alguém deseja ter um método próprio para governar sua vida, a lei de Deus é a única perfeitamente suficiente para tal propósito; mas que, ao contrário, assim que as pessoas se apartam dela, são passíveis de cair em infindáveis erros e pecados. [24]

Portanto, qualquer meio que se utilize para obter a edificação da Igreja que não seja através da Palavra é condenada.

A supremacia da pregação

Assim como Calvino afirma que as Escrituras é o meio ordinário instituído por Deus para edificar sua Igreja, ele também sustenta que a pregação é o modo normal que o Senhor designou para comunicar sua Palavra. [25] Portanto, é através da pregação que Deus se utiliza para edificar seu povo. [26] Conforme Calvino, o propósito da pregação do evangelho é exatamente para que Deus guie todas as nações à obediência da fé. [27]

Calvino, neste ponto não aceita exceções: “Deve-se, porém, ser mantido por nós o que já citamos de Paulo: que a Igreja não é edificada de outro modo senão pela pregação externa.” [28] A maneira instituída por Deus para a edificação é a pregação da Palavra de Deus. Sem ela, não há progresso na fé, conforme Calvino explica com mais detalhes:

“Deus instila em nós a fé, mas pela instrumentalidade de seu evangelho, como adverte Paulo, de que “a fé vem do ouvir” [Rm 10.17], assim como também em Deus reside seu poder de salvar, mas, segundo atesta o próprio Paulo, o exibe e o desenvolve na pregação do evangelho [Rm 1.16].” [29]

Com isso em mente, ele desenvolve o ensino da prioridade da pregação dentro da Igreja de Cristo. Não há dúvidas de que o objetivo da Igreja é o crescimento na fé de cada cristão. E por isso Deus instituiu ministros da Palavra para realizar este propósito através da pregação:

E, para que a pregação do evangelho florescesse, depôs esse tesouro com a Igreja: instituiu “pastores e mestres” [Ef 4.11], por cujos lábios ensinasse aos seus, investiu-os de autoridade, enfim, nada omitiu que contribuísse para o santo consenso da fé e a reta ordem. [30]

A Igreja, portanto, não deve desprezar este meio fundamental para sua edificação, muito menos os pregadores ao subir no púlpito. Para Calvino, esta é uma grande responsabilidade para os pastores. Ao subir em um púlpito, o pastor deve ter sempre em mente: “Deus desejou revelar seu poder soberano através da espada espiritual de sua Palavra sempre que é pregada pelo pastor.” [31]

Este conceito de que “toda Escritura é útil para a edificação da Igreja” era algo concreto também no seu pastorado. Por isso, pregava sistematicamente à sua igreja versículo por versículo. [32] Acreditava que cada versículo das Sagradas Escrituras tem uma aplicação para a edificação da Igreja. Na exposição do livro de Daniel, nas suas 66 exposições ele termina com uma oração escrita. Em cada oração ele apresenta o ensino retirado dos versículos explanados fazendo uma aplicação para os seus dias. [33] Conforme ele mesmo diz:

Assim concluímos que este é o mais valioso tesouro da Igreja, que ele que ele tenha escolhido uma morada para ele mesmo, para residir nos corações dos fiéis por seu Espírito, e assim preservar entre eles a doutrina do seu evangelho. (Isaías 59.21) [34]

Para Calvino, portanto, a pregação não é apenas uma obrigação da Igreja e dos seus pastores, mas é um privilégio no qual Deus preserva a sua Igreja. 

Responsabilidade do Pregador

Visto que é por meio de ministros da Palavra que Deus instrui o seu povo, é necessário ressaltar que Calvino, por isso, destaca a grande responsabilidade do pastor. Para ele, o pastor deve estar munido da Palavra de Deus para guiar seu povo para edificação: 

Se o primeiro dever de um pastor é ser instruído no conhecimento da sã doutrina, e o segundo é reter sua confissão com firmeza e inusitada coragem, o terceiro é que adapte o método do ensino visando a produzir edificação, e não divague, movido pela ambição, por entre as sutilezas da curiosidade frívola; mas, ao contrário, que busque tão-somente o sólido avanço da Igreja. [35]

Mas é através da pregação que o pregador desempenha essa função. Portanto, para Calvino, o pastor não deve procurar guiar ou edificar o rebanho que não seja ela instrução da Palavra:

É esta, portanto, uma dádiva singular, quando, para instruir a Igreja, Deus não apenas se serve de mestres mudos, mas ainda abre seus sacrossantos lábios, não simplesmente para proclamar que se deve adorar a um Deus, mas ao mesmo tempo declara ser esse Aquele a quem se deve adorar; nem meramente ensina aos eleitos a atentarem para Deus, mas ainda se mostra como Aquele para quem devem atentar. [36]

Logo, o papel do pastor é apresentar a Deus para que a sua Igreja o adore. Para que isso aconteça, Calvino acredita que o pregador deva ser fiel em sua pregação.

Calvino acreditava que Deus poderia falar pelos céus ou através de anjos, mas o meio que ele escolheu foi através de homens comuns. Assim sendo, “não se requer de um pastor apenas cultura, mas também inabalável fidelidade pela sã doutrina, ao ponto de jamais apartar-se dela”. [37] À sua Igreja cabe a responsabilidade de procurar aqueles que pregam em nome de Deus e com autoridade divina. [38]

Calvino até certo ponto, foi um homem tolerante, mas ao mesmo tempo foi extremamente radical em certos assuntos. [39] Um desses assuntos em que se demonstrava intolerante se referia à pregação.

A pregação é um dos sinais essenciais para distinguir a verdadeira Igreja, por isso Calvino afirma que “Deus quis que fosse conservada pura a pregação de sua Palavra.” [40] Mas ao mesmo tempo que as Escrituras devem ser usadas para ensinar a sabedoria de Deus, deve se ter por certo que “os falsos profetas também fazem uso dela em busca de pretexto para o seu ensino. Para que ela seja proveitosa para a salvação, temos que aprender a fazer um uso correto.” [41]

Para ele, 

Não se deve ter outra Palavra de Deus, a que se dê lugar na Igreja, senão aquela que se contém, primeiro na Lei e nos Profetas, então nos Escritos Apostólicos; nem outro modo de ensinar a Igreja corretamente, senão aquele prescrito e normativo dessa Palavra. [42]

Por isso, Calvino sempre debateu contra aqueles que ensinavam outra doutrina que não fosse a verdadeira.

Partindo deste princípio de que não existe nenhuma verdade fora do Evangelho [43], ele insiste veementemente que “não é permitido aos ministros fiéis que forjem algum dogma novo, mas simplesmente que se apeguem à doutrina à qual Deus a todos sujeitou, sem exceção.” [44] Para exemplificar esta verdade, ele usa os próprios sacerdotes que foram orientados à se limitar no que foi dado:

Quando, porém, pareceu bem a Deus suscitar mais clara forma à Igreja, quis que fosse confiada à escrita, e assim selar sua Palavra, para que os sacerdotes daí buscassem o que ensinar ao povo e para que a essa regra se conformasse todo o ensino que se transmitisse. E assim, após a promulgação da lei, quando se ordena aos sacerdotes que ensinassem “pela boca do Senhor” [Ml 2.7], o sentido é que não ensinassem algo estranho ou alheio a esse gênero de ensino que Deus havia compreendido na Lei. Com efeito, lhes foi vedado acrescentá-la e diminuí-la. [45]

Mas Calvino entendia também que muitas vezes os pregadores são tentados a se desviar da verdadeira pregação. Não quer dizer com isso que eles são falsos profetas. Por isso, Calvino orienta aos pregadores a resistir a tentação de se desviar da pura e fiel pregação da Palavra:

Somos, naturalmente, dados à curiosidade, de modo que a nossa tendência é ignorar displicentemente, ou, pelo menos, experimentar só levemente o ensino que produz edificação, enquanto nos envolvemos com questões frívolas. A esta curiosidade adiciono a audácia e a temeridade, de maneira tal que nos prontificamos sem hesitação a pronunciar sobre coisas de que nada sabemos e que nos são ocultas. [46]

Por isso, muito sabiamente Calvino alerta aos pregadores a se limitarem àquilo que a Palavra de Deus nos diz. É somente isto que se deve saber e pregar. A Palavra de Deus é suficiente: “Eis o limite de nosso conhecimento.” [47]

Ao tratar sobre os anjos, Calvino acredita que possa trazer alguma curiosidade para o homem. Mas ele é insistente ao falar que quanto às coisas obscuras, “não falemos, ou sintamos, ou sequer almejemos saber outra coisa senão aquilo que nos é ensinado na Palavra de Deus”. Pois para Calvino, a busca por questões que não trazem edificação, são estudos inúteis. [48] Em outro lugar ele diz:

E visto que o Senhor nos quis instruir não em questões frívolas, mas na sólida piedade, no temor de seu nome, na verdadeira confiança, nos deveres da santidade, contentemo-nos com este conhecimento. [49]

Portanto, se o objetivo da Palavra de Deus é trazer edificação e fazer trilhar o caminho da salvação, nada mais correto do que os ministros transmitirem a Palavra da verdade com o mesmo objetivo.

Pregação como voz de Deus

Calvino afirma que um pregador ao fazer uma fiel pregação da Palavra de Deus, ele não está apenas repetindo ensinamentos, mas ele se torna a própria voz de Deus. [50] Antes de detalharmos este assunto é necessário salientar que para Calvino há uma grande diferença entre os escritores bíblicos e os pregadores posteriores:

“Todavia, entre os apóstolos e seus sucessores, como já disse, existe esta diferença: que aqueles foram infalíveis e autênticos amanuenses do Espírito Santo, e por isso seus escritos devem ser tidos como oráculos de Deus; os outros, porém, não têm outra função, senão que ensinem o que foi dado a conhecer e consignado nas Sagradas Escrituras.” [51]

Mas isso não quer dizer que anula a autoridade do pregador por não ser inspirado como os escritores. Para Calvino, o mesmo Espírito que inspirou os escritores é o mesmo que capacita os pregadores. É o Espírito Santo que torna capaz o árduo trabalho do pregador e torna suas palavras na poderosa voz de
Deus. [52]

Da mesma forma, o mesmo Espírito torna eficaz a pregação para os ouvintes. Desta forma, o Espírito Santo faz com que a mensagem pregada seja compreendida pela Igreja e aceita como a própria Palavra de Deus. [53] Nas palavras de Calvino, “a pregação é o instrumento da fé, por isso o Espírito Santo torna a pregação eficaz.” [54]

Evidentemente, a incapacidade humana não deve ser considerada quanto à autoridade da pregação fiel. Quanto a isso, Calvino afirma: 

“Mas, os que pensam que a autoridade da doutrina é desprezada pela baixa condição dos homens que foram chamados a ensiná-la, estes põem à mostra sua ingratidão, porquanto, entre tantos dotes preclaros com os quais Deus adornou o gênero humano, esta prerrogativa é singular: que a si digna consagrar as bocas e línguas dos homens, para que neles faça ressoar sua própria voz.” [55]

Deste modo, através do seu Espírito ele capacita homens para transmitir sua Palavra, colocando assim, sua própria Palavra em seus lábios. [56] Calvino enfatiza que os pregadores, no momento em que estão proclamando o evangelho, eles agem como instrumentos divinos:

A fé procedente do evangelho seria deveras frágil, se fôssemos nós olhar somente para os homens. Toda a sua autoridade procede de reconhecermos que os homens são meros instrumentos de Deus e de ouvirmos Cristo nos falando por meio de lábios humanos. [57]

Destarte, apesar da limitação humana, deve-se afirmar que a palavra que sai da boca de Deus é a mesma que sai da boca dos homens. [58]

O valor da pregação é tão valiosa e considerada, assim, a própria voz de Deus, que qualquer que rejeitar uma pregação fiel, não despreza homens, e sim a Deus. “Segue-se disto que aqueles que se retraem de ouvir a Palavra proclamada estão premeditadamente rejeitando o poder de Deus e repelindo de si a mão divina que pode libertá-los.” [59]

Cabe, portanto à igreja reconhecer a autoridade dos seus pastores, pois por meio deles elas são edificadas pela Palavra do próprio Deus. Deus instituiu este meio para ouvi-lo e não outro. Ninguém, pois, deve tentar advertir ou consolar a Igreja a não ser que seja um representante de Deus, falando assim “pela boca do Senhor”. [60] Esta foi a ordenança dada por Deus: 

Buscar a palavra e doutrina da boca dos profetas e professores, que prega em seu nome e por Sua autoridade, para que não possamos buscar loucamente por novas revelações. [61]

Conclui-se que uma Igreja que não ouve seu pastor, não ouve o Deus da Igreja, ou seja, o Deus da Palavra. Em outro lugar Calvino adverte os pastores a serem aqueles que mostrem a glória de Deus.

Eis o supremo poder com o qual convém que os pastores da Igreja sejam investidos, sem importar por que nome sejam chamados, isto é, que ousem fazer tudo confiantemente pela Palavra de Deus; que obriguem a todo poder, glória, sabedoria, exaltação do mundo a sujeitar-se-lhe e a obedecer-lhe à majestade; sustentados em seu poder, imperem sobre todos, desde o mais alto até o mais baixo; edifiquem a mansão de Cristo, desmantelem a de Satanás; apascentem as ovelhas, submetam os rebeldes e contumazes; liguem e desliguem; enfim, caso se faça necessário, relampejem e despeçam raios; tudo, porém, na Palavra de Deus. [62]

Implicações para os dias atuais

Calvino tem sido estudado como pregador. Poucos podem ser comparado à ele quando se fala de pregação. Calvino não era apenas o exegeta da reforma, mas o pregador da reforma. [63] Ele não ensinava sobre pregação, mas colocava em prática aquilo que ele cria e passava aos seus alunos. Calvino tem muito a nos ensinar sobre pregação. Subir num púlpito para pregar a Palavra de Deus não deve ser tido como algo sem muita importância. Algumas implicações devem ser tiradas desta pesquisa.

A primeira que deve ser ressaltada é que a Bíblia é a Palavra de Deus. Pode parecer óbvio para alguns que confessam a inspiração da Bíblia, mas algumas vezes não tem dado o devido valor à esta verdade. Saber que a Bíblia é a própria Palavra de Deus deve despertar no pregador o valor daquilo que ele transmite e saber que esta palavra é suficiente para transformar vidas. Saber que ela é a Palavra de Deus, deve fazer dela o centro dos cultos realizados na Igreja.

Outra verdade a ser destacada é a utilidade da Palavra de Deus. Calvino demonstrava em seu púlpito que cria que toda a Escritura é útil para edificação da Igreja. Sua prática era coerente com os seus ensinos. De fato ele pregava todos os versículos do livro escolhido para expor para a congregação.

Trazendo em cada um deles uma aplicação para transformação de vidas. Ignorar certas passagens bíblicas se torna, na verdade, uma descrença de que toda a Bíblia é útil para o ensino. E na verdade, essa prática não acaba transmitindo dúvidas para a congregação quanto a aplicabilidade de certas passagens? Em sua prática de pregação de versículo por versículo, Calvino transmitia esta verdade: “toda a Escritura é útil”.

O que mais se destaca nesta pesquisa é o valor da pregação. Calvino destacava algo que deve sempre ser valorizada no meio da Igreja: a pregação.

A pregação é o meio ordinário para a edificação da Igreja. Por mais que o pregador seja tentado a trazer algo que agrade os homens, ele deve sempre ser lembrado da autoridade e eficácia da pregação.

Embora seja natural que o homem se recuse a ouvir a Palavra, a fidelidade do pregador deve ser intacta. Sua responsabilidade é como nenhuma outra, pois ele é a própria voz de Deus. Lembrando-se sempre que ele não fala por si, mas é um instrumento dado por Deus para ser sua voz. Não é exagero, portanto, afirmar que os pregadores precisam sempre se lembrar que ao subir num púlpito ele está dizendo: “Assim diz o Senhor”.

Conclusão

Apresentei neste trabalho a visão de Calvino sobre a pregação e como isto é importante para a edificação da Igreja. Pode-se perceber que sua teologia sobre a pregação é tão importante quanto foi no seu tempo. A pregação ainda deve ser valorizada. Alguns pontos devem ser destacados com esta pesquisa.

Calvino acreditava fielmente na inspiração e perfeição da Bíblia, considerando-a como a própria Palavra de Deus. A imperfeição dos escritores não desmerece sua infalibilidade. A mesma foi dada para que o homem recebesse a salvação e fosse moldado por ela.

Desta maneira, Calvino cria que a pregação deveria ser fiel às Escrituras, não permitindo nenhum tipo de acréscimo ao transmiti-la. Para ele, a pregação fiel é a própria voz de Deus por intermédio humano. As imperfeições dos pregadores não desmerecem a autoridade da pregação, devendo ser respeitada como se respeita o próprio Deus. Concluindo assim, que a pregação é o meio ordinário para a edificação da Igreja.

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Notas: Para visualizá-las, acesse o trabalho original através deste link!

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Artigo gentilmente cedido pelo autor ao blog Bereianos.
Divulgação: Bereianos
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