Refutando a interpretação de Norman Geisler sobre Romanos 9

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Por Denis Monteiro


Norman Geisler, em seu livro Eleitos, mas Livres, disse: Em Gênesis, quando a predição foi feita (25.23), foi dito a Rebeca: 'Duas nações estão em seu ventre, já desde as suas entranhas dois povos se separarão; [...] o mais velho servira ao mais novo.' Assim, a referência aqui não é a eleição individual, mas a uma eleição coletiva, de uma nação — a nação escolhida de Israel.

Resposta: Este argumento é usado por todo arminiano, de que Romanos 9 está falando de nações, assim, uma eleição corporativa. Mas o fato de Paulo citar uma passagem do Antigo Testamento que fale de nações (Malaquias 1:2-3), não significa que se trata disso em Romanos 9. Vejamos: Quando Israel era menino, eu o amei; e do Egito chamei a meu filho. (Oséias 11:1). O texto mostra o amor de Deus sobre Seu povo, mas no Evangelho, segundo escreveu Mateus, está assim: E esteve lá, até à morte de Herodes, para que se cumprisse o que foi dito da parte do Senhor pelo profeta, que diz: Do Egito chamei o meu Filho. (Mateus 2:15). Mas espera um pouco senhor evangelista, o senhor não forçou a passagem? A passagem que o senhor tomou de referência do Antigo Testamento, para provar o amor de Deus por Cristo na sua infância para que não morresse e assim cumprisse os decretos do Pai, está se referindo a Israel como nação e não como indivíduo? Então, mesmo que seja verdade que, em Gênesis 25.23 o texto se volta de crianças para nações, o ponto de partida tem a ver com pessoas e não com nações. Como mostra Willian Hendriksen: As palavras ‘duas nações estão em seu ventre’ não podem, naturalmente, ser interpretadas de forma literal. O significado é: “As duas crianças dentro de seu ventre se tornarão nações rivais”.[1] Assim, quando analisamos Malaquias (Ml 1:2-3) em seu contexto, podemos ver que o seu ponto de partida é pessoal (indivíduos).

Norman: Em segundo lugar, sem levar em conta a eleição coletiva de Israel como nação, cada individuo tem de aceitar o Messias a fim de ser salvo. Paulo disse: Eu ate desejaria ser amaldiçoado e separado de Cristo por amor de meus irmãos, os de minha raça’ (Rm 9.3). Um pouco adiante ele acrescenta: Irmãos, o desejo do meu coração e a minha oração a Deus pelos israelitas e que eles sejam salvos (Rm 10.1).

Resposta: O fato de Paulo expressar seu desejo não quer dizer que era o desejo de Deus. Ele mostra compaixão por seus patriotas, pois como não sabemos quem são os salvos é o nosso dever orar para que Deus salve os seus. Pois se o homem tem livre arbítrio, por que pedir a Deus que salve este miserável pecador, e assim, interferindo em sua liberdade? A oração de Paulo faz sentido na forma de que ele mesmo sabia de que havia um remanescente que seria salvo (Rm 9,23,27; cf. 11.5 Assim, pois, também no tempo presente ficou um remanescente segundo a eleição da graça). 

Norman: Mesmo dizendo mais adiante que no final dos tempos todo o Israel será salvo (Rm 11.26), ele esta se referindo ao Israel daquela época. No tempo presente, sem duvida, existe apenas um remanescente. Assim, mesmo que a nação fosse eleita, cada individuo teria de aceitar a graça de Deus pela fé para ser salvo (11.20).

Resposta: Não, o texto não se refere só para os israelitas daquela época de Paulo, mas de todos os tempos até a vinda de Cristo. O texto de Rm 11.26 não se refere à Israel como etnia, mas “espiritual”. O “todo Israel será salvo” significa a totalidade numérica dos eleitos do antigo povo do pacto com os do novo pacto – “[O Evangelho] é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego. Rm 1.16

Norman: Em terceiro lugar, o amor de Deus por Jacó e o ódio por Esaú não dizem respeito a esses homens antes que nascessem, mas a muito tempo apos terem vivido. A citação em Romanos 9.13 não é de Gênesis, quando eles viveram (c. 2000 a.C.), mas de Malaquias 1.2,3 (c. 400 a.C.), muito depois de terem morrido! Os atos maus praticados pelos edomitas aos israelitas são muito bem documentados no Antigo Testamento (v. Nm 20). E é por causa disso que é dito que Deus odeia esse pais. Aqui, novamente, isso não significa que nenhum individuo desse pais venha a ser salvo. Alias, há crentes tanto de Edom (Am 9.12) quanto do pais vizinho, Moabe (Rt 1), assim como haverá pessoas no céu de toda tribo, raça, língua, povo e nação (Ap 7.9).

Resposta: Quando Malaquias faz referência aos irmãos ele usa justamente Gênesis 25.23, pois os chamam de “irmãos”, ou seja, como foi dito acima, mesmo que Malaquias esteja falando de nações ele usa dois indivíduos para mostrar ao povo o amor de Deus. O Norman diz que “a citação em Romanos 9.13 não é de Gênesis, quando eles viveram (c. 2000 a.C.), mas de Malaquias 1.2,3 (c. 400 a.C.), muito depois de terem morrido! Os atos maus praticados pelos edomitas aos israelitas são muito bem documentados no Antigo Testamento (v. Nm 20). E e por causa disso que e dito que Deus odeia esse pais”. Ok! Mas acho que o Norman se esqueceu de analisar o que Paulo diz: “pois não tendo os gêmeos ainda nascido, nem tendo praticado bem ou mal, para que o propósito de Deus segundo a eleição permanecesse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama”, (Rm 9.11). Por que após essa declaração Paulo faz referência à Gênesis 25? Também, a questão de Edom ser salvo é uma discussão longa. Mas fico com o que diz Gary V. Smith: “O paralelismo de Edom com as nações aqui e em Isaías 63.1-6; 34.1-8 e Obadias 15-21 sugere que talvez Edom fizesse o papel de representante da raça humana (‘dm) como o termo é traduzido no grego antigo e no Novo Testamento [cf. Atos 15.17 “resto dos homens”]” [2].

Norman: Em quarto lugar, a palavra hebraica para odiei (rejeitei) na verdade significa amar menos. Um sinal disso vem da vida do próprio Jaco. A Biblia diz que Raquel era a sua [de Jaco] preferida. [...] o Senhor viu que Lia era desprezada [lit. odiada] (Gn 29.30,31)- A primeira expressão indica um afeto forte e positivo, e a segunda, não ódio ativo, mas meramente um amor menor. O mesmo e verdadeiro no Novo Testamento, quando Jesus disse: Se alguém vem a mim e não aborrece [i.e., odeia] a seu pai, e mãe …], não pode ser meu discípulo (Lc 14.26, ARA). Uma ideia paralela e expressa em Mateus 10.37: Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não e digno de mim. Assim, mesmo um dos mais fortes versículos usados pelos calvinistas extremados não prova que Deus odeia o não-eleito ou mesmo que não o ame. Significa simplesmente que o amor de Deus pelos que recebem a salvação parece ser muito maior que seu amor pelos que a rejeitam, a ponto de, em comparação, esse amor parece ser ódio.

Resposta: Quem disse que o termo “odiar (śânê) é “amar menos”? Em Gênesis 29.31 Lia era literalmente odiada. Em Lucas 14.26 o termo é ser, como diz Thayer: 1) odiar, perseguir com ódio, detestamos 2) ser odiado, detestado. A palavra śânê (quem odeia) é odiar, ser detestável, ter aversão a, ser hostil a. Strong diz: Na raiz intensiva, a palavra denota uma pessoa que irradia ódio (i.e., um inimigo)[3]. Este verbo é antônimo do verbo 'âhabh que significa amar. Então, como seria a interpretação de Pv 8.13: O temor do Senhor é odiar o mal (?). O termo “odiar” no texto é śânê, será que temos que amar menos o mal? Ou seja, não ame igual a Deus mas ame mesmo assim o mal? Não! A intenção é desprezar o mal completamente. Então, assim podemos ver que quando Paulo diz que Deus odiou Esaú, o sentido é desprezar mesmo, odiar literalmente. 

Assim podemos ver que a interpretação de Norman Geisler contradiz com a Escritura Sagrada. E sua ilustração final não tem nenhum sentido quando vemos Deus falando: “O Senhor não tomou prazer em vós nem vos escolheu porque fôsseis mais numerosos do que todos os outros povos, pois éreis menos em número do que qualquer povo; (Dt 7.7), “ou que, pois não tendo os gêmeos ainda nascido, nem tendo praticado bem ou mal, para que o propósito de Deus segundo a eleição permanecesse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama (...) Assim, pois, também no tempo presente ficou um remanescente segundo a eleição da graça. (Romanos 9.13; 11.5 – negrito acrescentado).


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Notas:
[1] CNT – Romanos. William Hendriksen. São Paulo. Editora Cultura Cristã. p. 408.
[2] Comentários do Antigo Testamento - Amós - Gary V. Smith. São Paulo. Editora Cultura Cristã. p. 409.
[3] Dicionário do Antigo Testamento – Bíblia Palavra Chave. São Paulo. CPAD. p. 1981.

Nota do Bereianos: Para ler a resenha do livro "Eleitos, mas Livres", clique aqui!
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