O solascriptura-tt.org e suas acusações (série 3 de 5)

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Por André R. Fonseca

O terceiro artigo da série será dedicado à crítica, mais uma vez, devido ao número de e-mails e comentários que tenho recebido sobre as obras dos doutores Dell Johnson e Wilbur Norman Pickering. Ambos os estudiosos defendem o Texto Recebido, e como nada pode ser perfeito nesse mundo, não há nada que me impeça de criticar a obra deles. O livro do Dr. Wilbur pode ser encontrado no formato PDF na internet, é só procurar. E um vídeo com a palestra do Dr. Dell Johnson está na íntegra no Youtube. E no final, farei mais alguns comentários gerais sobre outros pontos fora do escopo desses dois estudiosos mencionados.

Conheço a obra do Dr. Wilbur há tempo. Li e não me convenceu. Na verdade foi uma decepção. Pelo título fui influenciado a achar que ele defenderia o trabalho da Crítica Textual. Ele abre o livro apresentando muito bem o trabalho da Crítica Textual, e nessa fui induzido até me surpreender com uma guinada para defesa do texto tradicional. 

É claro que há argumentos para os dois lados, tudo vai da análise e da escolha daquilo que melhor preenche seus paradigmas. Mas a defesa do Texto Receptus é complicada, e muitos problemas comprometedores são ignorados para fazer sua defesa possível. Eu prefiro ficar com todos os recursos que disponho, falo dos MSS, e ir trabalhando assim... Mas o trabalho do Pickering é bem feito e pode ser recomendado como uma literatura de apoio para quem deseja encontrar uma defesa bem elaborada para o Texto Recebido. O que me irrita profundamente é demonizar o trabalho de estudiosos da Crítica Textual e se apoiar em premissas (que não passam de falácias do espantalho) como fazem o pessoal lá do solcascriptura-tt.org.

Voltando ao trabalho do Dr. Wilbur, podemos notar o seguinte: 

1) à semelhança do pessoal lá do solascriptura-tt.org, ele faz uso da crítica de Westcott e Hort como espantalho. E o resto da história, não tem? Ignora um pouco todo o desenvolvimento da crítica textual e pressupõe que as versões modernas estão orientadas apenas pelo NT grego de Westcott e Hort, o que não é verdade, apesar de mencionar o trabalho de Nestle-Aland e outros. 

2) O currículo do Dr. Wilbur é invejável, mas sei lá quais influências ele teve em seus estudos no exterior. Sei que há um grupo fundamentalista que idolatra a King James, e ele pode ter sido influenciado. Acho no mínimo curiosa a semelhança do que ele escreve com o que lemos nos sites que defendem o TR tanto no contexto da ACF quanto da KJV. 

3) Dizer, por exemplo, que a Crítica Textual se apoia numa premissa falha e reconhecida como: “ter na antiguidade do texto um critério para escolher um MSS como o melhor”, quando a própria metodologia da Crítica Textual afirma que o critério é norteador, mas não soberano e deixa bem claro quais os riscos de se conduzir uma crítica com este critério a ferro e fogo. A crítica que eles fazem desse critério da metodologia da crítica do texto não passa de mais um espantalho! Estão afirmando algo sobre a Crítica Textual que não faz parte da metodologia, pelo menos não daquele jeito. 

4) Onde está a menção da desconfiança de Erasmo quanto ao acréscimo da coma joanina na obra do Dr. Wilbur? Isso ele não menciona! 

5) Onde está a menção da tradução que Erasmo fez do final de Apocalipse do latim para o grego por não ter um exemplar completo para fechar sua obra de o NT grego? 

6) Por que ele não apresenta a declaração de Erasmo que avalia seu próprio trabalho como "mais precipitado do que editado"?

O Texto Recebido não é ignorado pela Crítica Textual. O texto bizantino (majoritário) também está lá, mas é apenas mais uma parte do quebra-cabeça. Triste é agarrar-se ao fundamentalismo, dar status de Palavra de Deus à KJV ou à ACF (Texto Recebido) e dizer que o resto é obra de demônios e ataques satânicos.

Em muito da defesa de Wilbur encontramos premissas dogmáticas que não podem fazer parte de princípios da metodologia científica como inspiração, inerrância estrita e rígida e que Deus zela por sua palavra etc. Não estou dizendo que Deus não zelou por sua palavra, que não exista inspiração nem nada disso, mas que estes não são critérios aceitáveis quando estamos tratando a discussão no nível acadêmico, da metodologia científica. Entende? Minha frustração com o trabalho dele foi vê-lo apoiar-se em premissas dogmáticas (uma boa parte fundamentalista) após tanto labor metodológico da primeira parte de seu livro quando trata da metodologia da Crítica Textual. Se era para acabar nisso, ignorando os princípios que devem reger um trabalho de metodologia científica, então simplesmente declarasse seus dogmas em defesa do Texto Recebido e pronto!

Outra coisa impressionante, no trabalho do Dr. Wilbur, são os argumentos pueris que encontramos aqui e ali durante a leitura, como:

"A lógica simples impõe a conclusão que, acima de 3000 vezes, um ou outro tem que estar errado — isto é, eles têm mais de 3000 erros entre si. (Se você fosse escrever os quatro evangelhos à mão, será que conseguiria fazer 3000 erros? ou 1500?) Aleph e B discordam, na média, em quase cada verso dos evangelhos. Uma tal demonstração gravemente solapa a credibilidade daqueles MSS." [página 92]

Mas que argumento poderia ser mais cômico do que este? É claro que os 3000 erros não foram causados por um só copista, mas pelo acúmulo de todas as cópias que multiplicaram os erros até chegar neste conjunto aí... sem falar que esse conjunto de MSS tem esse número de erros por comparação com outro conjunto de MSS. Querer descreditar o MS com esse argumento (Se você fosse escrever os quatro evangelhos à mão, será que conseguiria fazer 3000 erros? ou 1500?) só pode ser piada para quem mostra tanto domínio do assunto!!!

O vídeo da palestra do Dr. Dell Johnson é infinitamente pior! Assisti ao vídeo, e a posição do doutor Dell Johnson é a posição fundamentalista, claramente. Nos EUA, eles defendem a KJV; aqui, a ACF. Como sempre, é feito muito alardeio desnecessário sem prova alguma. As únicas argumentações de sustentação para o que defendem são do tipo: "e se..." ou "o diabo é quem coloca em dúvida a Palavra de Deus..." etc.

Se Deus preserva sua Palavra, então porque cópias com erros foram feitas? Onde está a prova de que as cópias que originaram o Texto Recebido não foram adulteradas, mas preservadas... com base em quê afirmam isso? Ninguém mostra! Reclamam da Crítica Textual, mas foi exatamente o que Erasmo de Roterdã fez quando compilou seu famoso Texto Recebido, adotado pela King James. Se Erasmo não fez uma crítica do texto, como ele escolheu o melhor manuscrito das cópias que ele tinha à disposição? Por que ele relutou em acrescentar a coma joanina e mostrou desconfiança para o texto que lhe apresentaram?

A diferença é que a coisa evoluiu desde a época de Erasmo. Tenho certeza que Erasmo faria o mesmo que os outros fizeram se estivesse vivo um pouco mais tarde na história, com acesso a um número bem maior de manuscritos. Quanto a essa possibilidade, os defensores do Texto Recebido alegam que não seria verdade, porque Erasmo já dispunha dos mesmos manuscritos que a Crítica Textual utiliza hoje... baita mentira! Erasmo compilou seu Texto Recebido com base em oito ou dez conjuntos de manuscritos, nem todos completos. Precisou pegar um texto incompleto de Apocalipse com um amigo, porque ele não tinha um só exemplar!

Ele fala que o critério utilizado pelos críticos textuais é absurdo. Um dos critérios da metodologia para a crítica do texto é: “uma leitura mais complexa (difícil) é mais provável de ser a primeira”. O Dr. Dell Johnson então diz que isso é um absurdo, os estudiosos estão achando que a “palavra inspirada” precisa ser aquela que contem contradição! Ora, a leitura mais complexa não quer dizer que seja uma leitura contraditória ou com erros, mas que a leitura mais complexa deve ser a mais correta (a primeira) porque não teria sido simplificada por um copista posterior. Dificilmente um copista transformaria um texto simples em mais complexo, mas o contrário, para facilitar a compreensão, sim!

Os críticos textuais não estão duvidando da Palavra de Deus, mas da qualidade dos manuscritos. Imagine que alguém, hoje, século XXI, resolva escolher a melhor bíblia sem levar em consideração de como elas chegaram até nós. A pessoa poderia dizer, eu acho que a NVI é a melhor tradução por esse e aquele motivo... e colocar em dúvida a NTLH como tradução confiável. Ainda que ele tenha razão, ele não está duvidando da Palavra de Deus, mas da tradução NTLH em particular. Assim os críticos textuais não estão duvidando da Palavra de Deus, mas do conjunto de cópias que deram origem ao Texto Recebido, utilizado pela KJV e algumas outras. Eles têm fé na Palavra de Deus, tanto é que dedicam suas vidas inteiras em busca do melhor texto, aquele que melhor reflete o original que saiu da pena dos autores originais. Procure ver o testemunho de vida de Tischendorf, por exemplo.

Enfim, são acusações que apontam para o lado errado, induzindo ao erro, sem argumento de sustentação para o que defendem e muito, mas muito, se sustenta por declarações como: "é porque EU estou falando pra vocês...". Isso não é argumento... ouvir isso da boca de um doutor, vira piada!

Se você tiver o interesse em pesquisar o assunto do ponto de vista acadêmico, com rigor da metodologia científica sem delírios dogmáticos, procure ler autores como Wilson Paroschi, Kurt Aland e Barbara Aland, sobre o assunto de crítica textual do Novo Testamento. Já indiquei os livros desses autores no primeiro artigo da série.

Agora, deixemos os doutores Wilbur e Johnson em paz e vamos à crítica de algumas coisas que não fazem o menor sentido. As citações foram extraídas de e-mails enviados a mim esta última semana.

Citação 1

E olhei, e ouvi um anjo voar pelo meio do céu, dizendo com grande voz: Ai! ai! ai! dos que habitam sobre a terra! por causa das outras vozes das trombetas dos três anjos que hão de ainda tocar. (Ap 8.13 - ACF)
Então, vi e ouvi uma águia que, voando pelo meio do céu, dizia em grande voz: Ai! Ai! Ai dos que moram na terra, por causa das restantes vozes da trombeta dos três anjos que ainda têm de tocar! (Ap 8.13) - ARA

Aqui o Texto Crítico altera “Anjo” para “Águia”. O que essa “águia” está fazendo no céu? Águia fala? De onde veio, então, a águia? Do Texto Crítico?  O Texto Recebido traz Anjo, corretamente.

Permita-me responder às perguntas acima:

O que essa “águia” esta fazendo no céu?

Bem, se fosse peixe, estaria nadando; tatu, cavando; a águia, voando. E o único lugar que dá pra voar é no céu!

Águia fala?

Claro que não! Mas serpente fala? Como pode uma serpente ter enganado a Eva com tanta eloquência?

De onde veio, então, a águia? Do Texto Crítico? O Texto Recebido traz Anjo, corretamente.

Claro que águia vem do Texto Crítico. E “corretamente anjo como no Texto Recebido” só na sua cabecinha com essa lógica de jardim de infância ironicamente respondida acima...

Veja que o “esculachador” do Texto Crítico não se dá conta que Apocalipse é uma obra repleta de imagens fantásticas, de dragões e bestas. É um texto, por sua própria característica literária, repleto de símbolos, alegorias e visões nada literais! Dada a natureza da literatura apocalíptica, faz muito mais sentido João ter tido a visão com a águia e não, necessariamente, com um anjo. O que provavelmente ocorreu foi uma releitura interpretativa de algum copista que trocou “águia” por “anjo” justamente por se deixar levar pela mesma imaginação desprovida de critério como demonstrado no comentário citado acima.

Citação 2

“A pretensão dos inimigos da Palavra de Deus é que se alguém, de algum modo conseguir desacreditar Erasmo em seu Texto Grego, então poderá desacreditar a VA. Então, esses homens direcionaram suas armas de fogo contra Erasmo, atacando-o pessoalmente e atacando o seu Texto Grego.”

Chega ser engraçado vê-los se fazerem de coitados atacados assim. Logo eles que gostam de dizer que os diretores das sociedades bíblicas do mundo inteiro são satanistas; que Westcott e Hort são filhos de satanás, descrentes heréticos; que uma certa tradutora da NVI era lésbica etc.
Criticaram o Erasmo? Que dó dele...

Falácia da Autoridade

Algumas pessoas ainda dizem que sou “audacioso” em criticar as obras dos doutores que estão em defesa do Texto Recebido. “André, eles são doutores!”

Ok, eu sei bem disso. Como também sei que ser doutor não significa outra coisa senão dar continuidade aos estudos para além de um bacharelado e mestrado. Estuda-se muito para isso? Sim, é claro. Mas o que se estuda até esse ponto? Os doutorandos estão isentos de suas próprias convicções e paradigmas? Claro que não! E se há doutores do lado de lá, há um bom número de doutores do lado de cá defendendo o Texto Crítico também!

E quero lembrar que estou criticando as obras dos autores A ou B, e não as pessoas!

Próximo artigo será publicado dia 8 de agosto.

Autor: André R. Fonseca 
www.andreRfonseca.com
Twitter: @andreRfonseca

Fonte: Teologia et cetera

Obs.: Leia o adento sobre esse artigo, aqui!
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